domingo, 24 de julho de 2011

REHAB

Eu fiquei muito triste hoje com a notícia da morte da Amy. Eu estava organizando meus livros em ordem alfabética na minha estante nova, quando ouvi no rádio. Morte anunciada. Todo mundo sabia que era questão de tempo que algo assim acontecesse. É como parente velhinho. A gente sabe que vai a qualquer momento, mas quando vai... É triste. Ver alguém tão talentoso ter uma morte idiota. Eu acho que todo mundo deveria morrer dormindo. Velhinho. Cansado, cheio de lembranças. Rodeado de gente. Cheio de amor. Eu sou caretinha, tradicional. Para mim as pessoas deviam nascer, crescer, se reproduzir e morrer. Daí quando o script é outro eu sinto pela pessoa. A Amy era uma garota com um dom incrível. A primeira vez que ouvi o CD dela foi um alívio. Um frescor no meio de uma geração que parecia afundar em fórmulas comerciais e medíocres. Então tinha essa garota cantando com o útero na voz, e isso é bonito, né!? É algo que me emociona. Mas essa garota devia ter vivido mais amor, ter construído uma família. Ela devia ter visto seus filhos crescerem e descobrirem o mundo. Ela devia ter envelhecido até ver a nova geração se reproduzir. E descobrir a maturidade. As limitações naturais do corpo. O desafio de envelhecer. Devia ter acumulado sabedoria e multiplicado sua obra. É isso que as pessoas deviam fazer. Não apenas ela, que era famosa e por isso mais exposta. Mas eu acho que todo mundo devia fazer isso. Porque eu acho que o maior barato da vida é passar de cabo a rabo, e experimentar cada etapa da jornada. Refeição completa. Aperitivo, couvert, entrada, três pratos harmonizados com vinho, sobremesa, licor e café. Eu acho que todo mundo tem talentos extraordinários. Mesmo que nunca ganhe um Grammy por isso. E ver qualquer pessoa desperdiçando a vida me deixa triste. Eu nunca entendo que tipo de sofrimento faz com que as pessoas queiram passar mais tempo anestesiadas por drogas do que de olhos bem abertos vivendo tudo. Mas a gente nunca vai saber o que é estar na pele daquela que precisa se anestesiar. É engraçado isso. Tanta gente querendo ser extraordinário na vida, mas parece que os mais “extraordinários” são aqueles que mais sentem necessidade de não sentir nada. Hoje eu trabalhei, levei meus sobrinhos na Feirinha da Benedito Calixto, comi em barraquinha com amigos queridos, inaugurei minha máquina de café nova. Então eu fui à padaria, comprei pão, leite e manteiga. Sentei com o Ozzie e ficamos horas conspirando sobre nossa pequena empresa. Cozinhei, limpei a cozinha, lavei roupa. Já meio tarde da noite, eu sentei na sala e assisti a novela que estava gravada. Mandei email para o meu príncipe, e quando eu já estava tomando banho, me flagrei pensando “Como eu gosto da minha vida como ela é hoje”. Simples assim. Comum. Cotidiana. Sem grandes eventos sociais. Sem acontecimento de mudar o curso da história. Gosto de saber que minha vida não é extraordinária. Que eu não vou revolucionar nada, nem sair na capa da revista, nem ganhar um Grammy. Gosto de pensar em reciclar o lixo, em procurar o fecho do brinco que caiu no chão, na taxa de colesterol. Não sei se isso me livra de ser encontrada no chão da sala com overdose algum dia, mas com certeza é uma vida que não me faz ter vontade alguma de me anestesiar. É uma vida inteira. De verdade. Ser humana, estar viva, já é algo extraordinário o suficiente para mim. Durante muito tempo eu tive tanto medo de ser comum que não prestava atenção na parte mais extraordinária da vida. Aquela em que nós apenas somos. Eu fico triste que a Amy não tenha conseguido enxergar isso. Não apenas a cantora excepcional (que talvez tenhamos que esperar uns 30 anos para surgir outra igual), mas o ser humano com um potencial ilimitado de amor que todos somos. Como eu disse, é muito triste ver alguém tão talentoso ter uma morte idiota. Eu escolhi viver minha vida comum, cheia de talento, na esperança de encontrar a morte dormindo, velhinha, de forma extraordinária.


Um comentário:

Fatima disse...

Texto incrivel!
parabens!

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