quinta-feira, 11 de novembro de 2010

ALONE

Hoje o técnico veio arrumar a geladeira. Eu fiquei a tarde toda trabalhando e arrumando as coisas no apê esperando ele aparecer. Quando ele chegou eu estava montando uma estante de metal que eu comprei no setor de “Faça você mesmo” da loja de materiais de construção. O cara chegou, arrastou a geladeira e, enquanto mexia nos fios, ficava me olhando de rabo de olho. Eu lá, tentando encaixar o tubo B com o tubo H e o parafuso G. Então ele me pergunta “Você gosta de fazer isso?”. Eu abaixei a chave de fenda e fiquei olhando para a cara do técnico. Sabe que eu não tinha pensado nisso? Se eu gosto de montar uma estante de metal no meio de uma sala caótica e vazia com metade das minhas coisas enfiadas em caixas. Mas eu não tenho muita opção. É isso, ou continuar com tudo nas caixas. Foi essa minha resposta. Ele continuou, “É raro ver mulher fazendo isso. Geralmente elas deixam para os maridos, para os namorados...” E continuou lá falando atrás da geladeira. Eu gosto de fazer as coisas sozinhas. Desde pequena. Aos 18 resolvi que queria fazer faculdade nos EUA. Fiquei um ano e meio correndo atrás de toda a papelada, estudando, fazendo TOEFL, cuidando da burocracia. Quando fui aprovada, cheguei com o papel para os meus pais e fiz as malas dois meses depois. Comprei meu primeiro carro sozinha, embora meus pais tivessem condições de me dar um. Sempre adorei ir ao cinema sozinha. Viajar então! Passei os últimos 8 meses fazendo isso. Também sai de casa sozinha, sem ajuda de ninguém. Claro que minha família sempre me deu muito apoio, e eu tenho uma rede de proteção de amigos invejável. Tenho mesmo os melhores amigos do mundo. Mas eu sempre fiz as coisas sozinha. Sei lá. Desde que saí de casa aos 21 anos eu mudei 8 vezes. Inclusive voltei para casa dos meus pais por um período. Todas essas mudanças eu fiz sozinha. No começo do ano minha irmã me ajudou uma tarde a encaixotar algumas coisas, mas de resto era eu e eu. Fechando cada caixa, embalando cada copo, chamando carreto, carregando caixa pesada de livro. Então chega na nova casa e abre caixa por caixa. Vai colocando cada coisa em seu lugar. Eu sei que se eu precisar eu posso dar um telefonema e vou ter pessoas me ajudando de todas as formas que elas puderem. Mas a questão é, eu continuo sozinha. Fazer as coisas sozinhas é muito legal. É uma conquista para a maioria das pessoas. Conheço muita gente que morre de fome mas não senta em um restaurante sozinho. É uma coisa que parece bobeira, muito simples até, mas é um grande desafio para muita gente. Então eu tenho orgulho da minha independência e do tanto de coisas que eu faço sozinha. Eu gosto de fazer as coisas sozinhas, e de curtir minha própria companhia. Eu escolho ficar sozinha muitas vezes. Troco um barzinho com galera no sábado à noite por uma taça de vinho sozinha na sala de casa fácil, fácil. E isso é uma grande conquista de ter me encontrado e estar feliz comigo. MAS... hoje, sentada no chão no meio dos tubos da minha estante nova eu entendi que eu não estava apenas sozinha, mas construindo uma vida sozinha. A vida segue, a gente vai tocando. Vivendo os dias com o que se tem, e o que eu tenho é que eu estou sozinha. Então eu compro coisas de gente sozinha, e arrumo um apartamento de gente sozinha. Eu faço coisas de gente sozinha. Tenho rotina de gente sozinha. Carrego caixas e malas por três andares de escadas, porque eu estou sozinha. Escolho a cor da cortina única e exclusivamente dentro do meu gosto pessoal, afinal, é o único em questão. Eu me esparramo em uma cama Queen size, porque não tem mais ninguém para dormir nela. Eu posso até dormir cada dia de um lado. É uma cama de solteira. Eu nunca me incomodei. Mas hoje eu entendi porque talvez eu tenha passado 18 horas chorando de domingo para segunda. Porque eu estou seguindo minha vida, construindo uma vida, quando na verdade eu quero compartilhar uma vida. E compartilhar é um verbo que a gente não faz sozinha. Eu posso controlar um milhão de coisas que dependem de mim. Sozinha. Posso comer em um restaurante, sentar em uma sessão de cinema com um potão de pipoca. Posso mochilar pelo mundo. Sentar em um bar de jazz e tomar um drink. Posso ir a concertos, museus. Posso dormir até o meio dia, ou acordar de madrugada e praticar esportes. Ficar horas dentro de uma livraria, ler o jornal na padaria. Posso freqüentar cursos, sair para dançar, tirar fotos na rua, participar de reuniões. Eu posso determinar um milhão de coisas sozinha. Porque essas são conquistas que a minha independência me trouxe. Mas eu não posso controlar como compartilhar minha vida. Porque todo o resto, só depende de mim. Eu sou uma pessoa muito comprometida quando me envolvo. Depender de nós mesmos sempre me pareceu muito libertador. Agora eu estou presa na minha independência. Compartilhar não depende só de mim. Não se compartilha quando só um dá e a gente nem sabe ao menos se o outro recebeu. Compartilhar vida exige ação de dois. E eu sou sozinha. Talvez eu precise fazer o inverso. Aprender a fazer as coisas junto.

2 comentários:

Anônimo disse...

Sensacional. Adorei a passagem: "“Você gosta de fazer isso?”. Eu abaixei a chave de fenda e fiquei olhando para a cara do técnico. Sabe que eu não tinha pensado nisso?" O prazer da independência é incondicional. Você faz porque gosta de não depender, de se autodeterminar. Mas daí a saber se gosta de montar uma estante... Sigo seguindo. E gostando.

Vanessa disse...

Dri vc sempre lê meus pensamentos... No começo do texto estava eu a pensar que também sempre fiz tudo sozinha, inclusive quando alguém se oferecia para ajudar, eu achava que aquilo era um insulto, que estavam duvidando de minha capacidade. De tudo eu sei Azeredo, desde montar moveis ate trocar pneu de carro usando o "macaco". Então comecei a pensar que eu me acostumei a ser sozinha e esta minha atitude assusta e afasta, afinal o "papel" do homem na sociedade seria de ajudar, proteger, amparar.... e sou tão durona que nunca permiti isso. Era exatamente isso que eu ia escrever quando vc começou a inverter o texto para esta questão de estar construindo uma vida sozinha. No dia do show da Norah deixei o carro no ape de uma amiga da amiga, então minha amiga me contou que a terceira amiga era super bem sucedida, fez 2 MBA, viajada e mais um montão de coisas, mas que continuava solteira e soltou um "como pode?". Foi qdo pensei que ela morava num ape duplex, sozinha, totalmente decorado ao gosto dela e que o quarto extra ela transformou em closet, ou seja, aos 35 anos ela nao deu espaço nenhum naquele ape para que outra pessoa viesse a dividi-lo com ela!! Será que nosso subconsciente nao toma atitudes que nos levam a manter esta atitude individualista e sem saber nos auto-sabotamos? Eh amiga se queremos mudar esta vida individual precisamos nos "policiar" e termos atitudes mais "duplistas"... rs