domingo, 14 de agosto de 2011

SOBRE A BANALIDADE DA VIDA

Encontrei várias pessoas com quem estudei hoje. Todas em uma festa de escola, com suas famílias, seus filhos e mulheres grávidas. Acho uma coisa muito especial conviver com pessoas que te conheçam desde antes de você virar gente. As conquistas só tomam proporções quando possuem um ponto de comparação. Achei aquelas pessoas muito sortudas. Nós todos crescemos juntos, estudando na mesma escola. E agora os filhos deles estão crescendo juntos, na mesma escola. Eu achei lindo assistir as famílias conversando, interagindo, e fazendo essas coisas que famílias fazem como, consolar criança chorando, carregar a bolsa da esposa, procurar fralda na mala do bebê e fazerem turnos para comer. O pequeno ritual da família de classe média brasileira. Eu passei tantos anos sofrendo lavagem cerebral contra isso. Vendo atores torcerem o nariz para esse padrão burguês de vida, afinal a vida de um artista é tão mais importante e cheia de significado. Só que vida de verdade era aquilo hoje lá. Hoje eu descobri que eu não tenho uma vida tão interessante para contar. De todas as escolhas que eu fiz, não tem muito que faça frente à vida real. Não que eu me arrependa. Não me arrependo. Mesmo porque não faz sentido se arrepender de coisas que não podem ser mudadas. Mas me pareceu superficial olhar para minha vida e pensar em todas as festas que fui, nas centenas de pessoas que conheço e conheci, filmes, peças, trabalhos. Tudo é tão pouco perto de alguém que te conta sobre uma vida de verdade. Uma vida pé no chão. Quando te contam sobre o nome do filho que vai nascer, crença em Papai Noel, escritório novo, construção de casa, o cachorro que o filho pediu e agora só dá trabalho, acidentes na viagem de férias. Então eu ouvi tudo  com certa emoção, mas guardei para mim qualquer acontecimento que eu tenha vivido. Não posso reclamar porque tenho uma vida privilegiada. Conheço pessoas interessantes, já fiz trabalhos muito curiosos. Já apareci na TV, já fiz cinema. Viajei muito, conheci lugares lindos, experimentei comidas das mais bizarras. Fiz esportes extremos, meditei.  Já mudei radicalmente a cor do meu cabelo e aprendi línguas diferentes, em países diferentes. Mas essas são apenas experiências que vão se extinguir comigo. A vida que se constrói é no dia a dia. É cotidiano. Vida é a banalidade medíocre de ser humano. E isso eu acho que perdi. Nós somos levados a acreditar que devemos buscar o extraordinário. O que é incrível. O que é fora do comum. E sim, eles existem. Esses são momentos de benção, de completude. São os picos. Mas durante todo o outro tempo a vida é tão somente banal e medíocre. Com toda maravilha que se possa ser. Em uma época de tantos pontos de exclamação, de tantas manifestações, opiniões e emotions. Eu sinto falta do banal. De ter uma vida banal. É paradoxal mas, a vida só encontra sua vocação de esplendor e notabilidade quando é banal. Só assim é um milagre. Eu sei que perdi parte desse tempo. As minhas escolhas me colocaram em uma posição em que eu jamais poderei sentir o privilégio dos meus ex-colegas. De conviver com o tempo e as pessoas e o espaço ao longo da minha vida. Mas eu ainda tenho tempo de ser mais banal nos meus dias daqui para frente.  Eu quero ser mais banal nos meus dias. Segurar com as duas mãos essas experiência também . No final pode até tudo se desfazer comigo, mas pelo menos tive da vida sua experiência mais genuína e pura. A vida em sua banalidade original.

Um comentário:

fernandopaz disse...

Não há nada como o banal para dar o maior sentido às nossas vidas. Ele está sempre aí, presente, não temos que inventá-lo. É a vida como ela é.