quarta-feira, 18 de abril de 2012

TEMPO, TEMPO, MANO VELHO


Hoje perdi minha agenda. Fiquei como barata tonta a manhã inteira. Não sabia o que tinha de fazer, para onde ir. Sabia que tinha de estar na escola a tarde para acompanhar as fotos que estamos fazendo lá, além de zilhões de outros compromissos. Eu não lembrava. Então fiquei andando de um lado para o outro da casa, enquanto ouvia o “Bom Dia Brasil” na TV e tentava inutilmente achar a agenda. Eu trabalho com agenda dessas tradicionais. Capa preta, uma folha para cada dia, com linha separando horas e meias-horas. Eu sei que existem milhões de organizadores e agendas virtuais, que conectam email, celular e tudo o mais. Mas eu funciono bem com agenda de papel. Nada de mais, é só minha preferência. Essa eu comprei por R$9,90 na Kalunga e adoro. Depois do pesadelo do burnout tenho encarado meu tempo de uma maneira completamente diferente. Mesmo porque o pesadelo não está longe e eu sei que não passou totalmente. Questão de sanidade. Preciso ter momentos de lazer, momentos de fazer coisas que me deem prazer além de trabalhar. Preciso de momentos para vida social, mas como minha vida social é nula, tento criar alternativas mesmo que sozinha. Por causa disso estou seguindo algumas técnicas de gerenciamento de tempo que se mostraram milagrosas nas últimas semanas. Tenho conseguido ser mais produtiva, mais organizada e focar nas coisas que realmente gosto. Tenho conseguido escrever, relaxar e ouvir música tomando uma taça de vinho. Assisto minhas séries favoritas, estudo sobre budismo. Ainda está faltando sair mais. Ir a restaurantes e shows de jazz, coisas que sempre amei fazer, mas para isso ainda está faltando um pouquinho de coragem de fazer sozinha. Eu chego lá! Bom, o que faço é organizar todo o meu tempo na agenda, calculando o espaço do dia que cada atividade vai me tomar. Incluo tudo. Até refeições, academia e banho. Mantenho também uma pasta sanfonada onde vou colocando cópias de emails que tenho de dar follow up do trabalho, inscrições de corrida, anúncios de exposições que quero ver. Tudo nos dias que acontecem. Assim, antes de programar minha semana checo cada dia e monto a programação na agenda. Fica mais fácil achar espaço para buscar a blusa que estava na costureira há 15 dias, ou comprar velas para decorar a casa. Esses detalhes menos importantes que sempre ficam de lado porque a gente acha que não dá tempo de nada. Então dá para entender porque o pânico dominou minha vida hoje. Quando a gente não sabe o que fazer não faz nada mesmo. Imaginei os lugares prováveis. Poderia estar no carro, ter ficado na academia ou na loja de produtos naturais que passei antes de voltar para casa ontem. Então eu ouvi os repórteres falando do prazo do Imposto de Renda na TV. Lembrei que isso era uma das coisas que eu precisava fazer. Fiquei duas horas separando notas fiscais e relatórios para enviar para o contador. Olhei o carro. Nada. Continuei com o que lembrei da minha programação do dia. Acabei não conseguindo ir malhar e quase dei furo com dois clientes porque só lembrei MUITO em cima da hora de programar algumas postagens e anúncios. Fiquei tão estabanada que quebrei meu salto. Me estabaquei no chão igual a mamão maduro. Na frente de um monte de criança. Foi meio vexame. Estou com um puta hematoma no joelho. Antes de ir para a Casa do Saber passei no shopping para comprar uma sandália nova (adoro ter desculpa para comprar sapato novo!). Passei na academia e nada da agenda. Depois na loja de produtos naturais. Também. Cheguei atrasada ao meu curso de escrita criativa. Engraçado como a gente cria uma ilusão de segurança e controle com alguns artifícios e tudo desmorona quando nos tiram uma única peça. Eu não tinha ideia do que eu tinha de fazer no dia seguinte de manhã. Era como se, de repente, alguém tivesse dado um pause na minha vida. E eu precisasse ficar parada esperando a pessoa voltar do banheiro ou buscar um balde de pipoca. Voltei para casa sem saber por onde terminar, e eis que ao entrar dou de cara com a minha agenda em cima dos livros de fotos na sala. Eu juro que procurei pela casa toda! Provavelmente ela tenha caído entre almofadas, ou embaixo do sofá e a empregada tenha deixado achado e deixado ali para quando eu voltasse. Talvez a agenda tenha apenas se tornado invisível para mim por um dia inteiro. Vai saber!? Só sei que acendi as velas que consegui comprar para decorar a casa, abri um vinho e sentei com a minha gata no colo para ouvir Leonard Cohen. Não porque era o que a agenda me dizia para fazer. Mas porque me dei conta de que entrar em uma paranoia de gerenciamento de tempo com medo do burnout só seria uma outra forma de engessar minha vida. Às vezes a gente precisa relaxar e aproveitar o momento só porque esse é o momento, e não porque estabelecemos como regra uma garantia de controle do nosso ideal de vida perfeita. Saúde também está na flexibilidade, no improviso, na espontaneidade. Assim como a total imprevisibilidade não é saudável, também não é saudável o excesso de controle e disciplina. Gerenciar o tempo tem sido de grande utilidade, não quero mudar isso. Mas eu estava quase caindo na armadilha de transformar isso em uma obsessão. Minha agenda é um guia, não uma ordem. Vou terminar minha taça de vinho sem olhar para o relógio hoje. Mas, só para registro, amanhã às 8h eu tenho dentista. 

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