terça-feira, 17 de agosto de 2010

GLASGOW

Ai que dó de Glasgow! É o patinho feio, sabe? Ninguém dá muita bola para ele não. Fica todo mundo fascinado com Edinburgh, lavando a alma nas Highlands, e Glasgow acaba ficando por fora da competição. É triste dizer, mas é uma cidade desprovida de charme. Entendi porque 10 em cada 10 viajantes que cruzei me aconselharam a pular Glasgow. Mas não me entendam mal. Não me arrependo nem um minuto de ter vindo para cá. Não tem charme, mas não quer dizer que não seja interessante. Afinal, é como homem. Nem todo homem é bonito, charmoso e interessante. A gente precisa ser generoso na vida. E eu quero, antes de tudo, me tornar uma pessoa melhor. Então eu me joguei nas ruas hoje com o coração aberto para aceitar. Foi assim que a cidade ficou interessante. Glasgow tem um quê de cosmopolita. Não tem nada da Escócia que estava estampada na cara de todas as outras cidades pelas quais passei. Muitas lojas. Muitas marcas. Restaurantes, empresas. Homens ruivos e charmosos andando engravatados pelas ruas. Adolescentes de moicano pink, ou revivendo Robert Smith com maquiagem gótica. Milhões de carrinhos de bebê de gêmeos. O que me leva a pensar que Glasgow deva ser a capital escocesa da inseminação artificial. Existe uma atmosfera mesmo no ar de que as pessoas passaram muito tempo cuidando da carreira. Era aqui que eu iria morar se eu fosse escocesa e yuppie. Muita gente de tudo quanto é lugar também. E nada de gafanhotos pela rua. Uma benção! Claro que vários turistas devem estar tirando fotos por aí, mas a cidade é maior do que o espetáculo. Camufla os gafanhotos. O centro é cortado por dois calçadões para pedestres que fazem uma cruz. Me lembrou a Rua Direita no centro de São Paulo em dia de pagamento. Uma babel de gente. Brancos, negros, asiáticos. Em uma esquina alguém tocava uma gaita de fole, só para me lembrar que eu continuava no mesmo país. Mas em seguida uma senhora do Leste-Europeu arranhava um violino mais para cima. Até os escoceses acabam camuflados por aqui. Andando pelos bairros descobre-se comunidades indianas, paquistanesas, chinesas. Tudo o que uma cidade grande tem, mas com anonimato. No almoço encontrei Francesca, que conheci em Roma estudando italiano. Uma querida, mas ainda me choca um pouco interagir com alguém tão novo. Francesca tem apenas 17 anos e eu sinto que nunca sei onde colocar as mãos quando converso com ela. A gente foi passear pelo Jardim Botânico, que é lindo e pacífico e seria meu lugar de contemplação favorito se eu fosse ficar mais por aqui. E eu me desmanchei toda por um lindo Cavalier que estava com a dona, uma senhora simpática com um delicioso sotaque. Ele pulou no meu colo, me lambeu, deitou de barriga para cima e se esparramou nos meus carinhos. Eu me esparramei por ele também. À noite sentei no computador e só cuidei de trabalho. Estou querendo deixar o mínimo de pendência possível para ir para a Croácia na sexta sossegada. Sexta de madrugada embarco para a Dubrovnik. Encontro com a Kika no aeroporto. Estou louca para me jogar no Sol, na cidade, no mar. Reta final de inferno astral. Estou com pena de deixar Glasgow amanhã. Vou subir para Fort William denovo. Tentar conseguir uma passagem para o trem à vapor da West Coast Railway. O trem do Harry Potter. Nem tanto pelo personagem ou pelo filme. Mais porque acho divertidíssimo roteiros de trem. E esse é um dos mais famosos do mundo. Se eu fosse ficar mais por aqui, talvez eu fosse explorar o cenário musical alternativo que rola nessa cidade. Glasgow não tem charme, mas tem uma vida musical fervilhante. Cheia de bares com música ao vivo. Afinal, daqui saíram Belle and Sebastian, Primal Scream, Simple Minds, Franz Ferdinand, The Marmalade e Mark Knopfler, guitarrista do Dire Straits, entre tantos outros. Quem chega procurando tirar foto com o Mickey, pode mesmo achar Glasgow desinteressante. Eu, como fui patinho feio tantas vezes, gosto de acreditar que dá sempre para virar cisne.

Um comentário:

Vanessa disse...

Dri!!!! Faz o passeio de trem sim!!! Eu ADORO Harry Potter!!! hahaha Meu lado criança e sonhador... rs

Tenho a sensação que a Escócia te renovou... Curta Croácia que dizem que é lindo!!