quinta-feira, 5 de agosto de 2010

JUGULAR

Eu fico toda orgulhosa quando percebo alguma mudança em mim. Quando percebo que melhorei em alguma coisa. Vamos combinar que eu sou uma pessoa complexa. Tudo menos feijão com arroz. Menos sopa de chuchu. Às vezes a pimenta é tão forte que não é para o paladar de qualquer um. Muito menos para quem tem paladar infantil. Então outro dia a irmã da Penny estava aqui. Dormiu uns dias aqui. Ela é uma pessoa um pouco arrogante. Na postura, no tom de voz. Na maneira de se dirigir às pessoas. Ela é daquelas pessoas que sempre olha para os outros por cima. Elevando o queixo e tombando a cabeça para trás. Como quem procura foco em óculos bifocais. Penny já havia me preparado um pouco, pelo visto ela deve estar acostumada a lidar com situações constrangedoras com a irmã. Sentamos todos na mesa para o jantar. Mesa cheia, tivemos até de pegar uma cadeira extra na sala. Eu quietinha na minha, mastigando salmão defumado. A mulher sentada exatamente na minha direção, do outro lado da mesa. Sem olhar para o meu rosto, enquanto ela empurrava comida com a faca e segurava o garfo como a batuta de um maestro, ela fala: “Então Adriana, onde exatamente fica o Brasil? Nunca prestei muita atenção.” Hum! Eu tive vontade de rir (Penny riu!), mas terminei de mastigar meu salmão, engoli e com muita calma e educação olhei nos olhos dela e respondi “Na América do Sul.” Então a mulher devolveu meu olhar, e finalmente olhou diretamente nos meus olhos. Todo mundo na mesa deu uma risadinha, porque minha resposta simples e direta fez a pergunta dela parecer um pouco imbecil. Não tive nenhuma intenção disso, afinal ninguém é obrigado a saber onde ficam todos os países do mundo. Mas todo mundo sabia também que ela não estava perguntando sobre um país menos expressivo no cenário mundial (como Botswana, por exemplo!). Eu vi uma rajada de raiva passando pelos olhos da mulher, mas eu procurei manter minha expressão o mais aberta e neutra possível. Então, com uma rispidez na maneira de colocar as palavras ela ignorou os risinhos e continuou com a pergunta. “Eu SEI que fica na América do Sul. Mas ONDE exatamente na América do Sul?” Ah! Estou entendendo essa mulher. Ela está querendo dizer que eu venho de um lugar que ela nem se dignifica a conhecer direito, mas ao mesmo tempo ela procura ser condescendente em manter um pouco de “small talk” e conversar sobre esse obscuro e exótico país. Hum! Pausa aqui. A DriDri de 2-3 anos atrás enxergaria nesse comportamento uma refeição completa. Entrada, dois pratos, sobremesa, licor e café. Eu ia pular na jugular dessa mulher, tanto que ela não ia saber nem onde o Reino Unido fica no mapa. Não que eu me sinta ofendida pela ignorância das pessoas em relação ao Brasil, muito pelo contrário. Acho vergonhoso algumas vezes. Outras, é para isso mesmo que a gente viajar e troca experiências. Para conhecer mais de outras culturas e para nos conhecerem melhor. Mas o que me deixa possessa é quando eu vejo gente tentando tripudiar sobre outras. Gente que se acha melhor do que os outros. Eu pularia na jugular dela não importa com quem ela estivesse falando. Sendo comigo ainda... Hum! Aquela mulher não tinha nenhum respeito pela própria vida! MAS! Como eu não sou mais a DriDri de 2-3 anos atrás, e como eu quero ser uma pessoa melhor ainda daqui 2-3 anos não houve sangue na mesa. Quando ela terminou a pergunta, as pessoas começaram a se mexer e rir mais alto. Eu apenas sorri, repousei meus talheres no prato e, como quem fala com uma criança de 7 anos, com muito carinho e sinceridade, sem ser irônica em nenhum momento, respondi. Respondi com o meu coração cheio de amor. “Então, sabe aquele país bem grande? Um que toma quase toda a América do Sul? Aquele é o Brasil.” Então ela fez uma cara de quem tinha perdido alguma coisa. Penny levantou e pegou um Atlas para mostrar para a irmã como a pergunta dela soava engraçada para todo mundo. Então ela olhou por cima do mapa. “Tudo muito interessante. Mas eu NUNCA iria lá.” Minha vontade era dizer. “Porfavor! Não vá!”. Mas em vez disso eu sorri e continuei a mastigar meu salmão. As pessoas têm razões para agir como agem. Sejam elas justas ou não. Um monte de coisas fizeram dessa mulher o que ela é hoje. Eu não sei se eu não seria exatamente como ela se tivesse tido a história de vida que ela teve (seja essa história qual seja!). Algumas pessoas precisam diminuir outras para se sentirem bem. Algumas pessoas precisam menosprezar coisas, lugares, pessoas, idéias, religiões, raças, origens, sexo, o que seja. Para se sentirem melhores sobre elas mesmas. E a gente não pode julgar ninguém por isso. Eu não posso mudar a maneira dessa mulher agir. Mas posso mudar a minha maneira de reagir. Às vezes são só crianças assustadas. E a gente não pula na jugular de crianças.

Um comentário:

Vanessa disse...

Fiquei com o coração apertadinho por causa do canadense.... deu um nózinho na garganta só de imaginar o q ele esta passando com ele mesmo...
Enquanto lia seu último texto e na parte que diz q q vc não se sente ofendida pela ignorância dos outros em relação ao Brasil, eu já estava pensando em pular na jugular dela e mordê-la como um pitbull, pois pensava q o problema não é ser ignorante mas desdenhar e exibir seu preconceito... e vc falou isso na sequência!! Alinhadíssimas!! rs
Acho q eu não pularia de verdade no pescoço dela apesar de vontade não faltar, mas meu lado mau qdo é mau é muito bom... logo eu usaria de toda a minha ironia e faria questão de mostrar que os brasileiros ficariam muito gratos por ela não poluir nosso solo com os pés e a respiração dela... uma coisa que me tira do sério são esse tipo de pessoa!!
Muitos beijinhos