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terça-feira, 18 de maio de 2010

MULHERES

Para finalizar o capítulo Marrocos, não posso deixar de colocar um post só sobre as mulheres. Claro que o que eu falo aqui (não só nesse post, mas como em todo blog) não tem nenhuma intenção de oferecer dados jornalísticos, reproduzir a realidade ou levantar teses sobre o assunto. É apenas minha opinão. Simples e pura. Formada pela minha experiência pessoal, umbiguista, totalmente particular e parcial. E muitas vezes eu sou dúbia, tendenciosa, antagônica. Mas é assim e pronto. E eu gosto de ser assim. Então é lógico que devam existir milhares de histórias que não condizem em nada com o que eu vou falar, mas para mim é assim que as mulheres vivem no Marrocos hoje.

Sempre que pensamos em um país mulçumano... bom, pelo menos eu (já que sou apaixonada pelo Jack Bauer e assisti todas as temporadas de 24H), penso na situação em que as mulheres são submetidas. Burcas. Prisão domiciliar. Comércio de noivas. Crianças escravas. Apedrejamento de mulheres adulteras. Coisas assim, que a gente sabe que acontecem sim em um monte de lugar por aí. A castração feminina ainda é praticada em muitos vilarejos (e não vai ter Cristo no mundo que me convença, sob o argumento que seja de proteção cultural ou o diabo, de que isso não seja uma barbárie e as pessoas que fazem isso não mereçam uma morte lenta e dolorosa sem seus testículos). A gente sabe, que existem lugares no mundo em que ser mulher é bem complicado (não que não seja também complicado em São Paulo, mas digo complicado de uma maneira muito mais explícita). Uma das minhas maiores preocupações em visitar o Marrocos era exatamente essa: uma mulher viajando sozinha. É um choque cultural, e é bom ter cuidado com isso. Conversei com muita gente. Li muito antes de ir. Mas nada como a experiência prática para colocar por terra alguns tabus e temores. Primeiro, senhoras e senhores, Marrocos não é o Afeganistão. Nada de burcas pelas ruas, muito pelo contrário. As mulheres se vestem de maneira bem ocidentalizada. Dependendo da idade e classe social. Entre as mais velhas ainda via uma ou outra que cobria o rosto com o véu, mas no geral todas com seus belos rostos à mostra. Indo para os bairro mais ricos então, nem o véu se via. Longos cabelos negros e grossos brilhando sob o Sol. Adolescentes passeando sorridentes de jeans e salto alto. Mulheres indo trabalhar usando raybans ou óculos enormes à la Jackie O. Elas se vestem com decoro, isso é verdade. Mas vi uma garota toda estilosa andando com o namorado, com véu na cabeça, uma camiseta meio punk com o ombro caído, revelando a alça do soutien preto. Bem sexy! Muitas ainda usam os trajes tradicionais. É bem comum vê-las pelas ruas de kaftã, babuche e véu. São muito vaidosas. Sempre combinam lindamente o véu com o kaftã, ou a roupa que estiverem usando. Usam muita maquiagem nos olhos. Olhos pretos, com kilometros de delineador. Gostam de usar rosa. Em todas as idades. Das crianças às idosas. Todas adoram rosa. E combinações de dourado com marrom e verde. Muito brilho também. Andam pelas ruas sempre brilhando, mesmo embaixo do Sol. Mas o mais importante aqui é esse detalhe da frase acima "Andam pelas ruas". As mulheres marroquinas andam muito pelas ruas. Todas as horas do dia e da noite. Na medina de Marrakech elas disputam buzinadas em vespas e lambretas no meio do trânsito caótico. Trabalham, estudam. Pegam transportes públicos sozinhas. Embora os empregos nas souks ainda sejam de uma grande maioria masculina, você às vê atrás dos balcões de algumas lojas. Barganham também. Carregam os filhos para “obrigar” as turistas a fazerem tatuagens de henna na mão (foi mais ou menos assim que consegui a minha e perdi Dh30). Cozinham em restaurantes, servem mesas. E nos bancos e correios, são unanimidade. Todas as caixas são mulheres. Elas tingem os cabelos. Adoram o ruivo. E adoram Vichy. (Eu também!!!). Estampas do logotipo da Louis Vuitton em malas e babuches, e a estampa da Burbery em absolutamente tudo são praticamente uma febre. Elas amam! Muitas mudanças forma conquistadas dentro da legislação marroquina em favor das mulheres na última década. Antes, um marido que se cansasse da esposa simplesmente a abandonava. Ela (invariavelmente rejeitada pela própria família), não tinha outra opção além de acabar como pedinte na rua, sem direito de ver os próprios filhos. Hoje a legislação marroquina garante direito de propriedade sobre a casa da família, guarda dos filhos, pensão alimentícia. É bem enternecedor ver as mães com os filhos pelas ruas. Existe muito amor e muita manifestação de carinho. Existem marcas nos rostos das mais velhas que eu nem tento imaginar pelo que passaram, mas a nova geração transborda vida. Andam aos bandos pelas noites das medinas. Trocam olhares de paquera entre a fumaça e as barracas da Dejemaa el-Fna. Recusam pretendentes (Ah! Pobres garotos! Só mesmo no antigo regime eles tinham alguma chance!!!). Quando cruzam por mim sorriem solidárias. Me davam dicas de quanto pagar pelo taxi, e me tranquilizaram o coração nas situações em que eu não entendia a ordem do caos. Depois, quando nos despedíamos, um tanto de “mercis” e “shukrans” daqui e de lá. Sorrisos sinceros em ambos os lábios. E nos olhos delas eu via cumplicidade. Elas sabem que ainda não dispõe da liberdade que eu possuo, mas era como se me dissessem que iriam chegar lá.

UMA PORÇÃO DE FÉ

Quando uma pessoa resolve fazer uma longa viagem. Quando alguém resolve fazer uma jornada, mais ou menos, como eu estou fazendo. Essa pessoa não está em busca de férias. Tem dias que são incríveis, que a gente toma champagne, vê paisagens absurdas. Tem dias de fazer babar de inveja até aqueles que pagam para não sair de casa. Tem outros que simplesmente não fazem sentido. Não dá para acreditar que uma pessoa em sã consciência escolha deliberadamente passar por dias assim. E por isso não é férias. Porque existem esses dias em que dá vontade de chorar e chamar minha mãe. Eu sabia desses dias. Me preparei para eles, porque eu sabia que eles viriam. Quando alguém resolve fazer uma viagem assim, esse alguém precisa estar disposto a sair da zona de conforto, a colocar em risco as fronteiras de normalidade a qual está acostumado. Por isso que eu digo que não sou turista, sou viajante. Porque minha zona de conforto é colocada muito mais em risco, muitas mais vezes e por muito mais tempo. (Afinal, se eu quisesse permanecer na zona de conforto tinha contratado a CVC.) Então eu peguei um trem de Marrakech para Fès. Eu estava em dúvida entre Meknès e Fès. Mas se eu estou indo para Roma porque a palavra é AMOR ao contrário, resolvi ir para Fès, pela óbvia proximidade da palavra FÉ. E porque se formos pensar assim, é como uma porção de Fé, já que está no plural. Sete horas dentro de um trem, (onde descobri que minha licença temporária para o pacote office expirou e vou ter mesmo que dar um certo tanto do meu pobre dinheirinho para o nada pobre Bill Gates). Eu dormi a maior parte do tempo. Estava dormindo quando o trem chegou à Fès, e se não fosse pela bondade de dois nigerianos que estavam ao meu lado e me acordaram, sabe-se lá onde eu teria parado. A chegada na Gare de Fès então foi meio na loucura, meio acordando, meio carregando a mochila com a jaqueta quase arrastando no chão. Meio correndo junto com a multidão na plataforma. E bem certa de ter esquecido alguma coisa na cabine do trem. Nada importante como pude checar depois. Então uma loucura pegar um taxi. Pegar um taxi em Fès (em qualquer lugar e à qualquer hora) é como liquidação no setor do 37 da Shoestock. Nem preciso dizer mais nada! E depois de uns 20 minutos, sobrou um Uno caindo aos pedaços que fechou um preço (tenho certeza que fui roubada) que eu achei conveniente e entrei para ir até o hotel que eu tinha reservado. Então um outro homem entra junto no banco do acompanhante. E eu não entendo porque, e começo a discutir. O motorista tenta me explicar que ele está dando uma carona para o amigo dele, mas eu estou fragilizada e não gosto da idéia de ter dois homens em um taxi comigo. Depois de um blábláblá no meu Francês Tarzan (Me Tarzan, You Jane!), percebo que o cara que está indo junto tinha uma pinta de evangélico e que o motorista só estava tentando ganhar uma grana a mais com a viagem. Chegando no hotel que eu havia reservado, desço com a minha mochilona, mas não gosto nada do que vejo. O lugar fica em uma rua completamente deserta, meio afastado de tudo. Fora da medina (tudo bem que a loucura da medina é complicada, mas dá uma certa sensação de segurança ter um monte de gente pra tudo quanto é lado). Fiquei me imaginando voltando para o hotel sozinha naquela rua e não gostei nada do que senti. Como aprendi que a intuição é muito valiosa nessas situações e não vou arriscar minha segurança, virei as costas e resolvi procurar outro lugar para ficar enquanto ainda estava claro. Fui descendo pela rua, beirando a muralha da medina, procurando a entrada, quando dois meninos começam a puxar conversa. Deviam ter entre 6-8 anos. Começam a conversar e a sorrir e se oferecem para serem meus guias até uma riad. Ok, nada mal. Vou seguindo os garotos, paramos em duas riads. Uma não tinha vagas, a outra era muuuuito cara para o meu orçamento. E os garotos vão me levando pelas ruas da medina, e eu vou mostrando no mapa do Lonely Planet onde era a riad que eu estava procurando, que era central (e caso não tivesse vaga, era próxima de outras opções), mas às vezes eles pareciam tão perdidos quanto eu. Passamos por um grupo de moleques jogando bola, e como uma mochilona de 15Kg em uma branquela que não tem cara de marroquina não é algo que se passe sem notar, alguns dos moleques que estavam jogando bola começam a me rodear e se oferecer para me guiar. Esses eram mais velhos, tinham uns 14-15 anos. Então eu começo a ficar preocupada, porque eu tenho uma meia dúzia de moleques falando e me apontando direções e tentando me levar para sei lá que lado, e as ruelinhas são todas estreitas e sinistras e desertas, e cada um deles me diz que o lugar que eu procuro fica para uma direção oposta. Então eu resolvo andar. Andar sem dar muito ouvido para eles. E sem fazer contato visual. E quando eu cruzava com alguma mulher, eu parava e perguntava para ela o caminho. Os moleques iam me seguindo e falando, falando, falando. Daí juntam-se ao grupo uns marmanjões. De verdade. Uns caras grandões e mal-encarados. Que também ficam me seguindo e perguntando se eu preciso de guia, ou para onde eu quero ir. Eu só penso: "Ok! Vai ser agora! Vai ser agora que eu vou ser assaltada!". Eu continuo andando, sem olhar para nenhum deles. Sem seguir nenhuma das instruções deles. Perguntando para uma ou outra mulher que cruzo no caminho e procurando as ruas mais movimentadas da medina. Um dos marmanjos começa a me falar um monte de coisas em francês, que eu ignoro. Então ele diz "Eu sei que você me entende. Eu sei que você entende muito bem francês.", e eu continuo ignorando completamente. Tem uns 10 moleques atrás de mim. Todos eles dizem que conhecem uma riad, ou um hotel barato, e que eu tenho que segui-lo. Até que eu começo a ver mais lojas e mais movimento na rua. Começo a chegar na parte mais central da Medina e ficar mais aliviada. Vejo placas indicando a riad que eu procurava e passo a segui-las, enquanto os garotos pulam na minha frente. O marmanjão que estava me falando besteiras em francês começa a falar meio baixo atrás de mim "Bitch! Bitch!", e eu chego na porta da Riad quase implorando ajuda ao dono que estava na porta. Ele afasta os moleques atrás de mim e me diz que está lotado, mas pergunta qual era o meu orçamento. Então me leva para o vizinho dele, que também tem uma Riad, mas mais reservada, sem placa na porta nem nada. Eu sigo aquele senhor por um beco, ele toca a campainha, abrem uma porta gasta de madeira e eu entro. Só sinto a porta se fechando atrás de mim e o silêncio das vozes daqueles moleques insuportáveis. O dono da Riad é um homem robusto, barbudo e com muita bondade nos olhos. Sabe aqueles homens que exalam dignidade? Eu confiei nele imediatamente. Me mostrou o quarto. Um luxo! Com ar condicionado, cama de casal, TV, chuveiro quente e muito espaço. Eu joguei minha mochila no sofá e tive vontade de chorar. Ainda precisei de um tempo para recuperar o fôlego e depois, como gato assutado, sai pela medina para retirar dinheiro, comprar algo para comer e mandar alguns email. Não estava gostando. Não estava gostando nem um pouco. Jantei dois potes de Danette e o proprietário da Riad mandou me servirem um chá de hortelã. Eu agradeci. Muito.


No dia seguinte fiz o que toda pessoa deve fazer em Fès. Me perdi na Medina. É impossível não se perder. Andava, dava voltas, descobria, me redescobria. E comecei a entender que essa completa falta de segurança, completa falta de ordem, de lógica e de direção é exatamente o que é Fès. E quanto mais se resiste, pior. É como dar murros em ponta de faca. Fès é completamente diferente de Marrakech. Faz a outra cidade até parecer um parque temático. Fès é crua, de verdade. Não tem figurino, nem decoração. Repleta de cheiros, que te enlouquecem depois de um tempo. Animais, sons. Pessoas pelo chão. Zero de higiene. Quanto mais eu me perdia, mais perdida eu descobria que eu estava. Completa, irremediavelmente perdida. Vai ser muito difícil voltar daqui. Como é que se volta daqui? Alguém me explica? Um homem (com certeza um doente mental) passa por mim em uma rua e me puxa pela cabeça. Eu o empurro e falo "Ne touchê pas!", na mesma hora cerca de seis outros homens saem na rua para me proteger. Lojistas, pessoas que estavam no bar. Me perguntam o que houve e cercam o homem, o empurram na parede. Eu digo que ele havia tocado em mim, e todos me pedem desculpas pelo homem e abrem passagem para eu passar. "Já pode passar, senhorita. Pode ficar tranquila." Eu fui assaltada em São Paulo. No meio da Avenida do Estado às 18h. Havia um ponto de ônibus com umas 60 pessoas do lado. A bateria do meu carro arriou e dois garotos me abordaram e me espancaram. Nenhuma das 60 pessoas do ponto de ônibus moveram um mùsculo para me ajudar. Ficaram todas assistindo. Não veio uma única alma me ajudar. No final de semana fiquei doente. Cheguei na Riad e comecei a sentir meu corpo estranho. Passei a noite com diarréia e vomitando. Uma febre fraca também. Tomei um tylenol, esperei amanhecer e comprei frutas e coca-cola. Passei o dia comendo bananas, tomando coca-cola e atualizando o meu diário. Escrevi. Escrevi muito. Meditei. Fiquei trancada comigo mesma no quarto. Revi meus passos. Pensei. Deixei de pensar. Meditei. O dono da Riad vinha de tempos em tempos saber se eu havia melhorado, se eu precisava de alguma coisa. Me mandou sequilhos mornos e caseiros para eu comer. Eu expurguei. Fisicamente, tudo o que estou expurgando espiritualmente. Não fiquei com medo. Não fiquei preocupada. Eu não me sentia doente. Era como se meu corpo estivesse se manifetando, se purificando. Assim que tudo se foi. Assim que eu havia vomitado tudo. Zerei. Saúde de ferro. Não é algo que tenha lógica, eu sei. Dizem que no ritual do Santo Daime vomita-se muito. Nunca participei, não sei como é. Acho que vomitei meu ego. Foi-se na descarga de uma Riad. Hoje, indo embora, me arrastava com minha mochila. Não queria ir. Não queria deixar. Como se volta? Não sei dizer o que se passou. Eu sei que foi difícil sair de Fès, difícil deixar o que ficou de mim ali. Só consegui ir embora porque sei que estou carregando algo também. Não sei o que é (talvez seja fé !?), mas também não tenho como enxergar o que está na minha bagagem agora.

sábado, 15 de maio de 2010

O CÉU QUE ME PROTEGE


Fazer uma excursão para o deserto era minha única prioridade aqui em Marrocos. Não fazia questão nenhuma de visitar determinadas cidades, mas queria ir ao deserto. Um dos meus filmes favoritos é “O Céu que nos Protege” do Bernardo Bertolucci. Sempre que assisto (e já o assisti um bom par de vezes) me toca a alma em um lugar que, se não é o âmago, é bem próximo dele. Não preciso me perder pelo Saara e ser sequestrada por berberes como a Debra Winger, mas tem algo naquele filme, alguma melancolia, alguma imensidão, que me resgata uma nostalgia de algo que eu nem me lembro de ter vivido. Talvez eu tenha sido berbere em outra encarnação. Ou talvez seja como aquela linda, antológica cena. Ela e John Malkovich, à beira de um penhasco, incapazes de fazer amor. Onde só lhes restam um ao outro, e o céu. Imenso e absoluto, que os protegem. Eu queria ir atrás desse céu. E fui. Sem a atmosfera pós-guerra de Bertolucci, mas acordei às 5h da manhã para me juntar a um grupo e passar uma noite no deserto com uma tribo berbere. No meu grupo estávamos eu e Rocío (a argentina que estava na mesma riad que eu), dois casais de meia idade também argentinos, um jovem casal francês que nunca falavam (só cochichavam um com o outro) e Will, um jornalista australiano (tão lindo, que dava vontade de morder). Rocío acabou se juntando com os conterrâneos, e como o casal francês era praticamente mudo, eu e Will acabamos ficando meio deslocados e criamos uma ligação de cumplicidade. Dividíamos a garrafa de água, tirávamos fotos um do outro. Nada muito comunicado ou estabelecidos, apenas fazíamos companhia um ao outro. Aliás (tirando os argentinos que falavam o tempo todo, mas não se entedia nada), havia muito silêncio durante a viagem. E isso foi mesmo uma bênção. A viagem é bem longa. São quase dez horas em uma van, atravessando todo o Vale de Drâa. Um frio desgraçado nas montanhas. Paramos em Aït Benhaadou (que foi locação do filme “Gladiador” e hoje os berberes abrem suas casas-locações para visita na tentativa de ganhar alguns Dirhams com a glória de tantos Oscars). E só no final da tarde chegamos à Zagora, porta de entrada para a parte marroquina do deserto. (A maior parte do Saara fica na Argélia, mas eu não iria lá se fosse vocês. Existem muitos casos de sequestro por terroristas na região da fronteira, e nem os marroquinos se arriscam muito.). De Zagora foram mais duas horas de camelo até chegar no local onde estavam montadas as tendas e passaríamos a noite. Haviam três outros grupos como o nosso fazendo o mesmo roteiro, mas ficavam em tendas separadas. Um dos grupos cheio de brasileiros barulhentos (é pleonasmo, eu sei!), então de certa forma fiquei até feliz de ter caído no grupo dos argentinos. Chegamos com o Sol se pondo, lindo no horizonte. Um grupo de berberes homens, bem jovens, eram nossos anfitriões. As idades variavam entre 16 e 30 anos. Nos levaram até nossa tenda, que estava aquecida. Haviam vários tapetes no chão, colchões simples e finos para dormirmos e pilhas de cobertores. Hassan, era o responsável pela nossa tenda. Veio nos servir chá. Se apresentou, agradeceu nossa presença. Perguntou o nome de cada um, e fez os típicos comentários sobre cada país para mostrar que conhecia os lugares de onde vínhamos ( “Kanguru!!!!”, pobre Will!), nos desejou boas vindas calorosas e ficou sentado conosco falando banalidades. Depois se retiraram para preparar o jantar. Enquanto eu morria de fome e aguardava, fui andar por volta da barraca. Já havia anoitecido e o céu….. Ah! Ele estava lá. Ainda não inteiro, mas coalhado de estrelas. Estava embasbacada, quase com torcicolo, olhando para cima de boca aberta, quando percebo Will do meu lado fazendo a mesma coisa. “Ainda vai ficar melhor, quando anoitecer mais.” Ele comentou. Sim, a gente tinha um laço de cumplicidade ali. Serviram uma tahine de legumes e frango (muuuuuuuito gostosa, com os sabores derretendo), pão e chá. Um melão extremamente doce de sobremesa. Então acenderam uma fogueira no meio das dunas e juntaram os quatro grupos para uma sessão de conversa e música berbere. Hassan estava me contando que por toda Marrocos a população é berbere. Os árabes se concentram nas principais cidades como Marrakech, Agadir, Casablanca, Rabbat… mas todo o interior e os vilarejos é de população berbere. Um povo muito pobre, e eles sim vivem nas condições precárias que acostumamos ver em filmes. A sessão de música rapidamente se transformou no pior e mais desafinado cancioneiro brasileiro (Ah! Onde tem um brasileiro… Imagine seis!). Eu me encostei em uma duna ao lado de Will e ficamos olhando o céu que se tornava cada hora mais impressionante. Enquanto estrelas cadentes riscavam de tempos em tempos, os brasileiros tentavam ensinar para os berberes a versão de Gilberto Gil para “Woman Don´t Cry”. Do outro lado da fogueira o grupo de argentinos tentava contra-atacar em espanhol (mas na boa! Difícil bater a música brasileira na preferência popular!). Depois de um tempo as pessoas começaram a entrar para as tendas, para dormir. A areia tinha esfriado, eu começava a tremer, mas não queria deixar aquele céu de jeito nenhum. Muito menos para me enfiar em uma tenda com oito outras pessoas e dormir. Então Will vira para mim e diz que gostaria de dormir nas dunas, para poder ficar olhando as estrelas. Praticamente a fome e a vontade de comer. Conversamos com Hassan para saber se poderíamos pegar uns cobertores e colocar os colchões do lado de fora para dormir ao ar livre. “Vocês estão no deserto, podem fazer o que quiserem.”, foi a resposta. E eu fiquei muito grata pelo Will topar a roubada porque isso é uma coisa que eu não arriscaria fazer sozinha. Então deitamos perto da fogueira apagada. Com dois cobertores cada um. E ficamos os dois, de barriga para cima, olhando o céu. O céu supremo, absoluto. Céu que só o deserto tem. Com tantas estrelas cadentes que esgotei todos os meus pedidos, ainda pedi por todos que amo… e sobravam estrelas. Absoluto silêncio. Conforme ia avançando a madrugada o frio aumentava. Realmente aumentava. Graças a ele eu sabia que ainda tinha corpo, que ainda estava viva. Que não havia me desintegrado, me misturado àquela grandiosidade. O céu me sugou. Foi me tirando os pensamentos, as vergonhas, os medos. Foi me sugando as inseguranças, expectativas. O que sobrou tremendo de frio no meio do deserto era só eu. E silêncio. Fiquei tão grata de ter encontrado silêncio. Silêncio em mim. Na minha cabeça. Pela primeira vez em muito tempo se fez silêncio. No silêncio e em mim nua, entendi o que era verdadeiro. O que era essencial. Quando se livra de tudo que não somos nós, sobra muito ainda. Passamos a enxergar o tanto de peso extra ao qual nos agarramos para viajar. O céu nos provem. Nos protege. Nos oferece tudo. Sempre, o que pedimos. Nos oferece tudo. Um pouco inútil voltar para a Terra carregando tanta banalidade. Ficamos em silêncio por nem sei quanto tempo. Algumas horas talvez. Adormeci imóvel. Congelando embaixo das cobertas. Agradecendo incansavelmente fosse lá o que eu estivesse vivendo. Eu estava atravessando. Começando a pisar do outro lado da porta. No meio da noite fomos acordados por cachorros correndo e latindo a nossa volta. Eu estava embarcada no sonho, tinha até esquecido de onde estava. Um dos cachorros parou na nossa frente e ficou cerca de 20 minutos latindo para nós. Eu e Will demos risadas e continuamos em silêncio, olhando o céu e esperando o cachorro cansar para que pudéssemos voltar a dormir. Meu sonho de novo. Sonho repleto de águas turvas que ficavam claras e cristalinas. Pela primeira vez minhas águas ficam claras e cristalinas. Quando começou a amanhecer, meu corpo doía de frio. Um frio que chegava ao limite do suportável. Me encolhi em posição fetal, ainda mais enrolada nos cobertores grossos (mas ainda assim inúteis). Não sentia meus pés, os dedos. Sentia apenas uma dolorida pedra de gelo nas minhas extremidades. Então abri os olhos para enxergar uma das visões mais lindas da minha vida. Metade do céu estava azul escuro, com algumas estrelas inclusive. Como se a noite fosse se retirando de cena, arrastando um manto atrás de si. A outra metade estava azul claro. E o horizonte, um barrado cor-de-rosa soberbo, anunciando o Sol que chegaria em mais alguns minutos. Eu abri os olhos e vi aquilo. Aquele micro-momento em que uma coisa pode ser três. Mas pode ser uma. Ou pode ser nada. Mas quando eu abri os olhos, eu vi que uma coisa pode ser tudo. E estava acima de mim. Estava cuidando de mim. Estava também me protegendo. Atravessei.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

PARA LÁ DE MARRAKECH


Chegar em Marrakech é como abrir a porta de uma sauna a vapor. Não tanto pelo calor, mas por aquele bafo que te toma a cara e não te deixa enxergar um palmo na frente. Depois de um tempo você se acostuma e descobre que está em um lugar onde o cheiro, as cores, a textura e, principalmente, a respiração são diferentes. O transfer que eu havia bookado para me pegar no aeroporto e me levar para o hostel não estava lá, claro! Então eu passei em um câmbio para trocar meus míseros Euros por Dirhams e sai pela porta do aeroporto para pegar um táxi. Uns 15 motoristas de táxi me rodearam e começaram a fazer leilão pelo preço da corrida. Os táxis aqui não possuem taxímetro, então é bom negociar tudo antes de sentar no banco de trás. Os taxistas estavam tão empolgados brigando para ver quem ia fazer a corrida que nem perceberam quando eu segui um grupo de mochileiros até o ônibus e resolvi ir até a Medina por conta própria (gosto de imaginar que eles estão até agora lá, brigando entre si.). No ônibus comecei a puxar conversa com um inglês que estava carregando equipamento de windsurf e grudei nele quando chegamos à Dejemaa el-Fna, a praça central famosa pelas barracas de comida a céu aberto, encantadores de serpente e todo tipo de show de bizarrices do nosso imaginário ocidental. A Dejemaa el-Fna é uma babel. Embora os guias especializados escrevam que ela é fechada para o trânsito, alguém esqueceu de avisar os marroquinos disso porque sobreviver sem ser atropelado é quase como participar daqueles programas de gincana japoneses. Motos, mobiletes, vespas, scooters, bicicletas, carros, carroças, cavalos, burros. Tudo e todos vindo de todas as direções sem nenhuma organização aparente. E ninguém conhece freio também. Só buzinam e aceleram bem na sua direção. Na praça já fomos atacados por uns tipos se oferecendo para nos guiar até os hostels. Antes que eu me desse conta tinha me perdido do inglês e estava carregando minha mochilona por umas ruelinhas estreitas no meio dos souks atrás de um tipo bem sinistro que usava uma camisa do Real Madrid numero 9, do Ronaldo. Chegamos ao hotel que eu havia agendado, ele me extorquiu alguns dirhams, reclamou e foi embora. O hotel que estou é uma riad. Tipo de pousada simples, geralmente administrada por famílias e que são estabelecidas em antigas casas marroquinas. Possui uma arquitetura quadrada com alguns andares de quartos rodeando uma pracinha central, onde fica o salão de chá. Já na recepção encontrei com uma argentina que estava no meu voo de Sevilla. Agendamos juntas uma excursão para o deserto, eu subi para o meu quarto abafado e finalmente respirei. Pelo menos é um quarto e um banheiro só para mim (o que tem sido um luxo, quando não estou hospedada na casa de amigos!) pela bagatela de Dh120 a noite (algo menos do que €11 pela noite). Nas minhas primeiras andanças por Marrakech eu ainda estava um pouco apreensiva. Havia lido e conversado com várias pessoas sobre segurança, as questões de diferença cultural, e o que acarretava uma mulher viajar sozinha por um país mulçumano. E, adivinhe só!? Marrakech é muito mais tranquila do que todas as previsões. Claro que existe um assédio, e isso é o tempo todo e chega a ser insuportável. Tento prestar atenção em coisas que são muito comuns e habituais para nós brasileiros, como sorrir (principalmente quando dizemos “Não, Obrigada”) e fazer contato visual. Tenho essa coisa de olhar direto nos olhos, é instintivo até. Mas aqui quando você faz isso parece que os homens vão pular em cima de você (só parece, viu! Eles não pulam!) No geral me sinto em um desenho do Pica-Pau. Sabe aquele desenho em que o Pica-Pau está faminto, em uma cabana, morrendo de fome mesmo, e ele e o gato ficam olhando um para o outro e se imaginando uma grande e suculenta perna de presunto cozido? Pois bem! Andando pelas souks eu me sentia uma grande perna de presunto cozido ambulante. Quando você pergunta o preço de alguma coisa então, eles sempre te perguntam antes que língua você fala e de onde vem. Quando digo que sou do Brasil, automaticamente passo de perna de presunto para a Valéria Valença nua, com o corpo cheio de purpurina. No começo foi um pouco assutador. Mas depois, olhando com olhos mais tolerantes e generosos, comecei a perceber que eram como vários peões de obra. Sabe? Quando a gente passa em frente de uma obra e ouve aquele monte de observações desconcertantes dos peões? É a mesma coisa. Só que aqui você passeia no meio da obra. Virou uma coisa até turística. Eles gritam coisas como “Mil camelos, Um milhão de camelos.”, porque sabem que as ocidentais gostam de voltar para casa e dizerem que ofereceram camelos por elas no meio de Marrakech. Tomando os cuidados básicos (o mesmo que você toma quando vai comprar porcaria na 25 de Março), são totalmente inofensivos. Já o assédio comercial é um pouco mais agressivo. Todo mundo está o tempo todo te vendendo alguma coisa. Panos, roupas, comida, bugigangas, prataria (lindas aliás!), machetaria, temperos, luminárias, artigos de couro, iguanas, camaleões, tartarugas, macacos (te juro! Fico pensando quem é que compra um camaleão e manda despachar para casa!!!). Tudo! E dá vontade de comprar tudo. O tempo todo. Porque é lindo, e exótico, e tão hipnotizador. Então você pergunta o preço e se prepara para uma grande sessão de barganha. Minha técnica (depois de ter sido “roubada” algumas vezes) é, perguntar o preço, falar que está muito caro e ficar esperando a resposta deles. Eles sempre hiper-inflacionam a primeira oferta e jogam a bola de volta, perguntando quanto eu quero pagar. Daí eu falo um valor ultrajante do tipo: se algo custa Dh120, jogo para Dh10. Eles me olham incrédulos, eu viro as costas e saio andando, como se aquilo não fosse fazer diferença nenhuma na minha vida (e não vai mesmo). Quando você faz isso eles começam a gritar e te chamar de volta: “Madame, Madame, Dh100, Dh100. Dh80, Dh80”. Ok! Começamos a conversar. Daí eu volto, e digo que Dh80 ainda é muito caro. Ofereço Dh20. Eles batem em Dh80. Eu subo para Dh30. Eles baixam para Dh70, Dh60. Eu fico balançando a cabeça e falando “No, No, No. N´est pas d´argent!”. E depois de uma partida de quase 15 minutos, você já está até suando devido ao esforço físico, eu tiro da carteira duas notas de Dh20 e fecho em Dh40. Mesmo assim você sempre sai com a sensação de que foi roubada. Pode ter certeza! Você foi! Outra coisa curiosa foi descobrir como Marrocos é na verdade um grande destino turístico para famílias. Várias famílias com crianças, bebês. Muitas mulheres viajando sozinhas. Quando meus olhos começaram a se acostumar com o vapor, Marrakech se tornou uma cidade simpática e totalmente inofensiva. As pessoas sempre se preocupam em falar em uma língua que você entenda, sempre perguntam quanto tempo vai ficar em Marrocos, o que está achando. Gostam de falar alguma referência do país que você veio (conheci um australiano que disse que não aguentava mais ouvir os marroquinos gritarem “Kanguru!!!” toda vez que ele dizia de onde vinha). Então eles sorriem e dizem “Seja bem-vindo!”, na língua que for mais acessível à você. É bem enternecedor. Nas souks, onde centenas de pequenos lojistas se apinham um ao lado do outro disputando sua atenção à fórceps, comecei a enxergar pais de família, cidadãos de respeito que só estão tentando ganhar a vida. Uma jornada árdua, já que só fecham perto a meia noite, quando os turistas cansados se retiram para as várias riads escondidas ao redor da Medina. Cruzando os muros da cidade, ainda descobri uma Marrakech toda próspera. Marrakech de poucos. Grandes resorts, luxuosos condomínios. Ferraris e porshes pelas ruas. Mulheres andando sem o véu na cabeça, casas noturnas, anúncio de Coca-Cola e todo tipo de franquia multinacional (Sim! Tem McDonalds, KFC…). Nem todo país de Terceiro Mundo é a Praça da Sé. Nem todo país de Terceiro Mundo é a Vila Olímpia. Mas sempre será, inegavelmente, um país de Terceiro Mundo. E nesse sentido, estou mais perto de casa do que imaginava. Atravessei um espelho. É inverso. Mas é espelho.