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quarta-feira, 11 de maio de 2011

PINK BIKE

Eu quase não dou conta de ficar pesquisando conteúdo e descobrindo blogs por todos os lados. Vou esbarrando em tanta coisa legal, que depois não lembro de onde foi, como, quem. No meio da incursão de hoje, esbarrei nessa bike perdida entre um post e outro. Pink! Sim, Pink! Eu me lembro que quando tinha 15 anos a moda eram as mountain bikes com 18 marchas. Eu queria uma rosa. Rosa fluorescente. Não existia. Eu quis tanto. Com tanta força. Que 15 dias antes do meu aniversário a Caloi (ou foi a Monark... não lembro) lançou uma exatamente como eu queria. E eu ganhei de presente. Dei muitas voltinhas na Fábrica da Melhoramentos com ela e com a Carol. Hoje eu tenho uma comum. Caloi, 21 marchas. Bonita. Bem urbana. Em Amsterdam eu pirei com as bikes que todo mundo usa para cima e para baixo. Simples, de ferro. Com freio no pedal. Jeitão retrô. Como essa semana eu ando saudosista da Europa (talvez porque esteja esfriando e eu fico pensando que lá é só primavera ainda e o verão vai chegar), ando com uma saudade de Roma, de Bruxelas, de Londres e Amsterdam (minhas favoritas). De tomar gelatto, deitar na grama do Hyde Park, waffles e pedalar entre canais. Eu vi esse modelito e pensei: “tem meu nome nela”. A coisa mais "mim qué muito" do mês! O preço nesse link só que me assustou. Será que é pegadinha? Será que eu caio na pegadinha? Só falta um cestinho na frente, um ramalhete de lilases e lavanda... Ah, em algum lugar do mundo é Primavera!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

KEEP CALM


Nesse final de semana, passeando por East London, topei umas duzentas vezes com esse cartaz. Não apenas com o cartaz, mas com camiseta, chaveiro, quadro. Parecia que para onde eu virava o universo repetia para mim "Keep Calm and Carry On". Claro que eu entrei em uma lojinha e comprei um quadro desses. Vai comigo na bagagem, e o dia que eu tiver uma casa novamente, vai ficar na parede, no meio da sala. Para não esquecer.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

SECRET CINEMA

Final de semana em Londres. Nada mais revigorante do que se jogar em uma das cidades mais fascinantes do mundo. Ainda mais com as saudades de casa que eu tenho sentido. Preciso cavar motivos todos os dias para continuar. Mas enfim, final de semana em London. Encontrei Flo, aproveitamos que o dia deu uma esquentada e passamos a tarde fuçando nos antiquários cheios de bugigangas de Brick Lane e região. Tiramos fotos divertidas. Depois encontramos uma amiga dela e fomos as três no Secret Cinema. Esse é um projeto que rola uma vez por mês em várias cidades da Europa. As pessoas se inscrevem no site, compram um ingresso e recebem instruções do dia e local onde será a sessão e o que devem levar. Por exemplo, nós fomos para um lugar meio gueto, beeemmm East London e tínhamos de levar um flor. Chegamos lá e era um teatro antigo, mega kitsch. Na porta já tinha uma fila, todo mundo com flores na mão. Alguns atores fazendo performances muito estranhas. Dentro, parecia um salão arrumado para formatura de faculdade. Com várias mesas redondas. No bar a gente comprou uma garrafa de vinho branco, comemos alguns sanduiches. A decoração era a coisa mais estranha. Sabe aqueles bailes de formatura americanos de interior? Então. No palco (que parecia uma reprodução do fundo do mar em lamê) subiu um mestre de cerimônia monocórdico e politicamente incorreto. Então um “multi-instrumentalista” que se contorcia e tocava alguns instrumentos que ele mesmo tinha inventado. Eu tinha certeza que um cavalo branco ia passar galopando pelo meio da gente a qualquer momento. Todo esse clima era para assistir “Veludo Azul” de David Lynch. Tem gente que não entende, mas para mim nada melhor do que uma festa, com sessão de cinema, reproduzindo a atmosfera dos filmes de David Lynch. As flores eram em homenagem à Dennis Hopper, que tinha seu altar devidamente cheio de faixas, bilhetes, velas e (óbvio) flores. Depois do filme, ainda rolava uma pista com DJ. Eu não conhecia o projeto, mas a única coisa que eu pensava era “Como é que ninguém fez isso em São Paulo ainda?”. Parece que no mês passado foi “Blade Runner”. Imagina? Com barraquinhas de comida chinesa e tudo. Único problema é estar cansada como uma mula. Acordando às 5h30 todos os dias e trabalhando pra caramba. Mesmo assim, com os olhinhos fechando e bocejando enquanto Isabella Rossellini tremia na tela. Foi divertido demais! Diversão que eu já estava até esquecendo o quanto gostava.

Esse é o link do site da organização:
http://www.secretcinema.org/

E para vocês entenderem melhor do que eu estou falando, essa é uma matéria feita sobre a edição de "Blade Runner" no mês passado.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

TO THE COUNTRYSIDE

Último dia em London, e fez um domingo lindo de Sol. Eu cheguei aqui achando que ia me espreguiçar nos parques, fazer picnic. Mas foi uma semana inteira dando 15-18 graus. Todos os dias nublados e meio úmidos. Hoje não tinha cara de verão. Mas estava quente e bonito. E o céu estava bem azul. Eu fui almoçar com a Flo em Hampstead. Foi como se London me pedisse uma trégua. Como se ela estivesse falando para mim que era uma metrópole sim. Que era uma baita de uma cidade. Mas que também guardava lugares gostosos e agradáveis. Ruas lindas, cheias de lojinhas e mercados escondidos. Onde pessoas também lindas passeavam com seus amigos e seus filhos, igualmente lindos. Daí fica tudo com cara de fofo. Com cara de “Kings of Convenience”. A gente comeu mexilhões e tomou vinho rosè. Eu estou com essa coisa de tomar vinho rosè desde a França. Mentira. Desde novembro do ano passado. Fez tanto calor no Brasil que eu mudei todos meus vinhos da adeguinha para rosados. Gosto do tinto só no inverno. Sozinha, a luz de velas. Ouvindo Bob Dylan. No resto do tempo gosto de champagne e rosé. E gosto quase nada dos brancos. Nunca tomo. Hoje tomei rosè. Depois a gente andou pelas lojas. Summer Sales em London. Juro que ganha um certificado de elevação espiritual quem voltar para casa sem nem uma sacolinha que seja. Eu quase consigo. Mas é que precisava comprar algumas coisas mesmo. Um moleton, para ficar mais confortável no campo. Camisetas de manga comprida, que eu não comprei ontem porque a Oxford Street parece final de micareta. Com o chão cheio de urina e cerveja, e gente bêbada pelo canto. Simplesmente não vale a pena. Tão difícil achar coisas básicas. Básicas, confortáveis, simples. Hoje tem tanta gente criativa, tanta gente querendo por tanta personalidade em tanta coisa. Que difícil mesmo é comprar uma simples camiseta de manga comprida cinza. Sem uma costura, ou laçarote, ou nheco-nheco que algum estilista (de ego enorme e modéstia mínima) achou que seria legal colocar. Acabei na GAP. As coisas são simples lá. Sai com uma sacolinha na mão e muito feliz de estar básica, simples e confortável hoje. Comprei 3 livros também outro dia na Stanfords em Covent Garden. Minha livraria favorita aqui, de longe. Tudo bem que ela é especializada em livros e artigos de viagem, guias e mapas e etc (já falei dela aqui em “Três lojinhas para amar em Londres”). Mas eles são tão incríveis que possuem prateleiras de livros para ler durante as viagens também. (AHÁÁÁ!!!) Uma seleção de romances que combinam com a viagem que você quer fazer. Tem até um setor dividido por países. Ou seja, se você vai viajar para o Brasil a sugestão deles é “Cidade de Deus” de Paulo Lins. (Mas eu acho que eu não ia querer viajar para o Brasil depois de ler esse livro... pior ainda ir lendo enquanto está esticando as objetivas por aí!) Mas eu comprei três livros aleatórios. E a quantidade foi só porque havia uma promoção de “Compre 2. Leve 3”. Eu não resisto à promoções. Ainda mais de livros. Então eu tenho combustível para as próximas semanas. Roupas confortáveis. Livros. Bastante material para escrever. Ainda não tenho nenhuma informação sobre como vai funcionar a coisa no Helpx. Se vou ter conexão wi-fi no lugar que eu escolhi ficar. Então é possível que eu tenha dificuldades em postar por aqui. Descubro em algumas horas. Agora vou terminar de empacotar. Ir para a estação de St. Pancras. Fazer a experiência que eu escolhi. Ao meio dia minha hostess vai me pegar. Não vejo a hora de chegar. Estou indo bem. Estou indo com vontade. Melhor, fiz as pazes. London, não é nada pessoal. É só que talvez eu não seja uma garota cosmopolita. Que eu não seja uma garota de cidade como eu sempre achei. Talvez eu seja de lugares pequenos e pessoas com vidas comuns. De vida em comunidade. Amizade com vizinhos, bolo caseiro e chá às 17h. Talvez eu seja mais low profile. De brincar com border colies. Talvez eu seja isso. Não sei. Eu brinquei bastante tempo de cidade grande. Pelo menos nas próximas semanas vou brincar diferente.

domingo, 18 de julho de 2010

LONDON, LONDON

Às vezes a gente precisa dar uma volta inteira para ver como nossa percepção de nós mesmos mudou. Explico. A primeira vez que eu estive em London foi logo no começo da jornada. Eu tinha passado um tempo com minha irmãzinha Carol, viajado um pouco por Portugal, e estava começando a me colocar no ritmo da jornada. Quem já teve gato vai entender o que eu estou falando. Quando você muda de casa e leva um gato para uma casa nova ele demora um tempo para se soltar. Cachorros não. Cachorros saem correndo para todos os lados, se batendo, babando, cheirando, fazendo xixi nos cantos. Mesmo porque eles nem fazem muita idéia de onde estão ou porque. Gatos são diferentes. Gatos se escondem em um canto em que se sentem seguros e ficam observando o espaço por um tempo. Depois eles arriscam atravessar o cômodo. Ainda encolhidinhos, até alcançar algum outro buraco. O importante para eles é que estejam em lugares que se sintam protegidos. “Entocados”. Até se sentirem seguros no ambiente novo, eles arregalam os olhos e ficam atentos. Só depois de terem certeza de que estão em casa é que começam a circular alegremente de um lado para outro. Eu sou uma cat person. Eu me entoquei, e quando eu vim para London foi quando eu comecei a circular de um lado para o outro. E London teve cara de casa. Porque me trazia tanto de São Paulo. Porque é uma cidade grande, cosmopolita. Sem o trânsito caótico. Com tanto mais acesso e civilização. Com mais respeito nas ruas. Sem tantos dos defeitos que dava dó em São Paulo. Então eu viajei. Fui para Dublin, voltei para Portugal. Fui para Espanha. Tive a experiência fantástica de Marrocos. Então Itália, e tanto amor na Itália. O test-drive na França, (que só chegando aqui é que eu fui me dar conta de que foi um turbilhão, e foi intenso, e me afetou muito mais do que eu estava imaginando). Então chegar em London foi como voltar para casa. O problema é que eu não quero voltar para casa. Mesmo melhorada. Mesmo sem tantos defeitos. Londres é uma cidade grande. Maravilhosa, irresistível, cosmopolita. Tudo o que São Paulo também é. Mas é também uma Plaza de Toros. E eu já falei aqui como estava saindo das Plazas de Toros. Não existe nada lá fora que eu não conheça. Nada que possa me maravilhar. Não da maneira que eu quero ser maravilhada. Hoje combinei de almoçar com a Flo. Estou aqui enrolando para tomar um banho depois da corridinha. Tenho taquicardia de pensar no tube. Ontem fui comprar camisetas de manga comprida para o friozinho que tem feito. Oxford Street e eu com vontade de chorar. Nem consegui comer o resto do dia. Eu sei, é até pecado. Me sinto no fundinho um pouco culpada. Estou em uma das cidades mais incríveis do mundo, e eu não quero ficar aqui. Ainda bem que já comprei minha passagem. Amanhã pego o tube pela última vez. Para uma estação de trem.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

BOUTIQUE

Mudei de hostel na quarta. Estava em um super bem localizado (em frente ao Hyde Park), mas daí achei esse e foi melhor coisa que eu fiz na vida. E é o melhor hostel que eu já estive na vida. O Hillspring Lodge. Para começar que eles se auto-denominam “Boutique Backpackers”, o que já bota um respeito. Neguinho vira para você e diz que está em uma “Boutique Backpackers”, a gente até levanta a sobrancelha. O lugar parece um hotel. Extremamente limpo, super confortável. Os quartos são espaçosos, cheios de lugar para desempacotar (coisa rara em hostel). Tudo funcionando a cartão. Porta do quarto, de acesso ao corredor, do locker. O café da manhã é até melhor do que eu tive em alguns hotéis. E fica todo cercado de árvores, em um bairro residencial super tranquilo. Lógico que é mais afastado. Pegando a Jubilee Line, depois de Swiss Cottage, quase Zona 3. Mas eu não pude resistir em soltar um sorrisinho e agradecer milhões de vezes ao astral quando cheguei aqui. É como ficar em Londres, sem ter a loucura da cidade grande. Eu sou mesmo muito sortuda e abençoada, porque tudo o que eu peço a vida se encarrega de mandar. Quando quero dar uma volta, o metrô é do lado e dá para passear, ver lojas, etc. E quando eu quero ficar ostra, o hostel tem bastante espaço e áreas comuns. Wi-fi para todos os lados, um bom lounge, um bar legal, mesa de bilhar. Os dias aqui tem estado com cara de outono/ inverno em São Paulo. Garôa fina, nada de Sol. Aquele friozinho gostoso que dá vontade de ficar na cama e assistir DVD com pipoca. Então eu estou pegando leve. Vou correr no parque aqui perto. Me entupo de canecas de café. Escrevo. Escrevo. Exatamente o que eu queria fazer. Ainda não sei se continuo ou não em Londres. Se vou ou não para o interior. Mas por enquanto está confortável ficar aqui. E eu não passo de uma preguiçosa folgada. Fico sempre onde está confortável.


Ah, para vocês verem: http://www.hillspringlodge.co.uk/

quinta-feira, 15 de julho de 2010

RUN LOLA RUN

*aquele pontinho no fundo sou eu correndo da tempestade de raios em Gorges du Verdon.

Eu comecei a correr com 28 anos. Quase seis anos atrás já. Um dia acordei, olhei no espelho e tinha uma boêmia lá. Olheiras profundas reforçadas pelo rímel da noite em claro. Inchada de cerveja. Uma ressaca moral de virar o quarteirão. Daí tocou uma sirene na minha cabeça. “Atenção Senhores Passageiros: Última chamada para quem quer chegar aos 40 inteirona. Embarque imediato.” E foi ali que eu decidi que ia embarcar e mudar todo meu estilo de vida. No começo foi bem radical. Sumi da noite, entrei em uma dieta espartana. Desinchei 7Kg, e em poucos meses já estava correndo 4Km todos os dias. Nunca tive a intenção de correr exatamente. Comecei caminhando. Eu grunhia, de tanto mal humor. Pensava em desistir todos os dias quando o relógio despertava. Mas como a gente sabe que perspectiva é tudo (e MH sabe das coisas!), falava para mim mesmo que eu só precisava fazer aquele dia. Um dia de cada vez. (AH! A gente precisa se tratar como uma dependente química de vez em quando.) E fui andando, andando. Bufando e andando. Até que andar ficou fácil. Então eu comecei a correr e andar. Correr e andar. Até que um dia eu só estava correndo. Acordava, caía na pista e corria. Meus dias começaram a mudar completamente. Era nítido. Eu tinha os melhores dias quando acordava cedo e corria. Como a motivação estava em alta, me matriculei e frenquentei direitinho uma academia pela primeira vez. (Até então eu era a tradicional turista. Sempre me matriculava, ia duas semanas e sumia, perdendo cheques que eram depositados todos os meses por donos de academias felizes!) Nessa época também resolvi participar da minha primeira corrida de rua. A Nike 10K. Essa é uma corrida bem legal. Rola no mesmo dia, em várias cidades do mundo. Tem um clima bem festivo, muita gente bonita e animada. Mas até aí, eu nunca tinha corrido 10K na minha vida e estava com medo. Comecei a treinar, conversava com o professor da academia. Na véspera bateu um medinho. Quase desisti. Meu professor me ligou no celular e me deu um dos maiores sermões que eu já ouvi. “Tá louca? Você está treinando há tanto tempo. Se esforçou tanto, tá preparada. Vai desistir porquê? Por que é boba?” Então eu fiquei com vergonha, acordei no domingo cedo, amarrei bem forte os cadarços dos tênis e corri 10K. O mais incrível? Foi fácil! Conforme eu cruzei a linha de chegada, mesmo cruzando depois de milhares de outros corredores, não importa. Quando eu cruzei a linha de chegada, eu tinha conseguido aquilo sozinha. Eu tinha me proposto a fazer uma coisa e conseguido. Daí para virar rata de academia foi um pulinho. Durante um bom tempo eu acordava 5h30 todos os dias. Corria 8K, fazia musculação, aula de jump, step, GAP, abdominal, alongamento. Ficava pelo menos 3 horas na academia todos os dias. Tive o melhor corpo da minha vida. Sério! Dá vontade de chorar só de lembrar. Sabe aquelas barrigas tanquinho? Eu tinha! Comprei até um biquini de lacinho branco. Tamanho P. Mas acho que o segredo é encontrar a medida das coisas. Encontrar o equilíbrio. E eu não queria ser boêmia barriguda, mas também não queria ser rata de academia. Então fui fazendo adaptações. Liberando a dieta, cancelando academia. Voltando a sair mais vezes. E o que sobrou foi onde eu comecei. A corrida. Verdade que eu não tenho sido das mais disciplinadas. Não tenho corrido nada durante a viagem. Mas correr faz parte da minha vida, mesmo quando eu não tiro os tênis da mochila. Como agora estou querendo dar uma pausa e resgatar o que é importante para mim (para ver se eu me acho no meio de tudo), a primeira coisa que eu fiz chegando em Londres foi retomar a corrida todos os dias. Estava em um hostel em frente ao Hyde Park. Era só atravessar a rua. Então eu acordei e fui correr. Dava a volta na Serpentine olhando os cisnes descansando nas margens. Eu e todos os londrinos saudáveis, com seus Ipods e cachorros a tira colo. E o resultado é que esses dias têm sido muito mais produtivos do que todos os outros até agora. A corrida é um elemento essencial de saúde para mim. Me aterra, me deixa mais calma. Mais confiante. Relaxada. Aprendi muito correndo. Aprendi a ser tartaruga. Que sempre vai dar vontade de desistir, mas daí a gente lança mão da filosofia da tartaruga e da lebre “Devagar e sempre!”, então eu vou no meu ritmo e tento me manter constante. Aprendi que eu posso sempre me superar. Que a sensação de chegar no final faz a gente se sentir capaz de qualquer coisa. Que os momentos em que eu passo com meus pensamentos, enquanto meu corpo corre, são os em que eu estou mais consciente em todo o dia. Que muitas vezes é dolorido, ou exaustivo, mas passa. Sempre passa. E a endorfina se espalhando pelos músculos quando a gente termina uma corrida é sublime. Que eu não preciso ser a melhor, ou a mais rápida, ou a mais resistente corredora do mundo. Que não adianta colocar metas absurdas (Vou correr 10K em 35´!!!), porque as conquistas são feitas aos poucos. Um pacinho de cada vez. Não estou dizendo que corrida é o melhor esporte do mundo, ou que “Só a Corrida Salva!”. Só que, correr funciona para mim. Cabe na minha mochila. Tem épocas que corro sempre, tem épocas que rola uma preguiça. Mas nos últimos seis anos, com tudo o que eu mudei, que eu fui e deixei de ser, a corrida é sempre uma constante. E cada vez que eu me entrego a ela, sinto minha vida mais inteira. Então agora que eu estou em um gap. Que eu não sei direito o que fazer ou para onde ir. E que meu coração está na Irlanda. Tem sido uma salvação encontrar a corrida novamente. Porque ela me ajuda a ter certeza de que vai passar. E depois, é nesses momentos em que a corrida fica “pesada” que a gente conquista o melhor trabalho cardio-vascular.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

FREE TOUR

Eu falei do Free Tour em Paris e resolvi fazer o de Londres também. Pena que só exista Free Tour na Europa. Acho uma idéia tão genial. Os guias são divertidos, bem humorados. Eu sempre fico impressionada com a quantidade de informações e a precisão que eles dão para a gente. Eles respondem qualquer pergunta, por mais esdrúxula que você resolva fazer. Sempre misturam fatos históricos com fofoquinhas que a gente adora saber. Tipo, a vez que o Palácio de Buckingham foi invadido por um bêbado irlandês (Eu sei. É pleonasmo.) que ficou meia hora conversando com a Rainha, sentado na cama dela, até que ela conseguisse chamar a segurança. Contam as deliciosas citações de Winston Churchill, e dão pinceladas de cultura inútil no meio do caminho. Curiosamente são essas informações que a gente acaba guardando depois (Você sabia que os pelicanos de St. James Park comem pombos???). O melhor é que é assim. Você não precisa agendar, só aparecer no lugar marcado todos os dias. E paga quanto quiser no final (se quiser). Quem estiver planejando um pulinho pela Europa vale checar o site:

http://www.neweuropetours.eu/

Minha dica pessoal: geralmente tem bastante gente, então eles dividem em vários grupos. Tente ficar com os guias mais esquisitos, que se vestem estranho, em vez dos gatinhos. Os esquisitos são mais engraçados, empolgados e cultos. ;-) E uma vez que o tour começar, grude no guia. Vá andando de um ponto ao outro ao lado dele, fique próximo nas paradas. Além de ouvir melhor (muitos deles não sabem projetar a voz e vivem roucos), você vai puxando conversa e ganhando várias dicas de lugares, bares, restaurantes ou o jeito de assistir aquele show imperdível por um terço do preço.

E para quem não acredita que pelicano come pombo, segue aqui embaixo o vídeo do youtube. É um pouco longo porque dá trabalho pro bichinho, tá achando o quê? Mas é divertido. Parece desenho animado.

terça-feira, 13 de julho de 2010

LONDON CALLING 2

Meu primeiro dia de volta a Londres. Adivinha só o que eu fiz??? (Ah, Y vai me matar!) NADA! Necadipitibiriba. Ando tão cansada, que tudo o que eu fiz foi arrumar um monte de fotos no computador, escrever um pouco, atualizar alguns registro, um pouquinho de trabalho.E assistir um monte de filme no lounge do hostel. Para não dizer que eu não pisei na calçada, eu saí para comprar um sanduiche no supermercado e um caramel macchiato no Starbucks. Só. A França é tão cara que a primeira coisa que eu pensei quando cheguei aqui foi “Deus! London é barata!”. Daí dá para a gente ter uma idéiade como eu ando sem referência nenhuma. Ainda não sei o que vou fazer, se vou ficar por aqui. Para falar a verdade estou evitando pensar. Eu precisava sair da Comunidade Européia. Nada demais. O visto de turista permite que você fique 90 dias na Comunidade Européia. Eu estou bem mais do que isso. Pensei que quando eu saísse para o Marrocos essa conta fosse zerar, mas quando passei pela imigração em Madrid denovo, me explicaram que são 90 dias em 180. Na verdade verdadeira não pega nada, mas eu não estou afim de arriscar. E como existem alguns lugares que não entram na conta da imigração e eu ainda quero visitar, resolvi seguir para cá. Lógico que se o curso de Escrita Criativa tivesse rolado tudo seria mais fácil. Mas uma coisa às vezes não é boa, nem ruim. É apenas diferente. E eu ainda estou aqui tentando descobrir o que fazer de diferente. Uma possibilidade é assentar por aqui durante um tempo. Não é nem um pouco difícil ficar em Londres. Outra (que é a que eu quero mais) é procurar algum buraco no interior da Inglaterra e fica por lá um tempo. Eu gosto mais dessa hipótese. Ando bem cansada de cidades grandes. De ter de fazer coisa. De conhecer lugar. Ando louca por um pouquinho de rotina. Ficar em um lugar que não tenha nada para fazer. Acordar, dar minha corridinha. Escrever. Contemplar. Gosto muito de ócio e contemplação. E depois eu cheguei à conclusão de que, vai ser muito difícil me encontrar pulando como uma macaco de lá para cá. Com tanto barulho por todos os lados. Até o final de semana fico em London. Em hostel. O que não é propriamente silêncio. Enquanto escrevo isso tem um bando de pós-adolescentes, todos por volta dos 25 anos. Assistindo “Jackass 2”, tomando cerveja e dando risada a minha volta. Eu amo muito Londres. Mas acho que vai ser bem difícil ficar aqui agora.

sábado, 27 de março de 2010

TRÊS LOJINHAS PARA AMAR EM LONDRES

Shake Gallery
26, Chapel Market em Islington
http://www.shakegallery.co.uk/

É um café. Mas é uma lojinha também. O café é especializado em milk shakes e smoothies e bolinhos lindos com cara de arruinarem sua bunda para sempre. Enquanto a gente faz uma orgia de carbs, dá para passear pelas prateleiras repletas de coisas fofas como molduras com arzinho vintage, valises, caixas para chapéus, malas quadradinhas, material para desenho e um moulage de tecido feito à mão, já vestido de bailarina, de "tutu" e tudo. Um desbunde!

Highland Store
66, Great Russell Street
http://www.highlandstore.com/

Fica do outro lado da rua do British Museum. Uma lojinha delícia só com artigos das "terras altas" da Escócia. Cobertores, casacos, cachecóis, boinas, kilts, blasers em tweed, chapéus, bolsas (Meu Deus! As bolsas!!!), muita lã de carneiro e uma coleção em cashemere que me deu vontade de dormir em cima das blusas e cardigãs. As mais diversas padronagens de xadrez, das diferentes famílias tradicionais escocesas, e um xadrez especial feito em tons de rosa e azul pastel, criado especialmente para o memorial de Lady Di. Parte da renda desses produtos é doada a Fundação dela. Luxoooo!

Stanfords
12-14, Long Acre
Covent Garden
http://www.stanfords.co.uk/

Essa não é achado nenhum, é de fato bem famosa. A maior livraria de mapas e guias de viagem do mundo. Dá para encontrar desde os básicos "Lonely Planet", até guias específicos como por exemplo "Cemitérios de Londres" ou "Geologia na Svalbarda" (algum lugar no Ártico Norueguês). Ainda tem vários artigos gracinha com o mapa do metrô de Londres (como toalhas de prato, jogo americano e cortinas de banheiro) e toda uma sessão de artigos para facilitar a vida de mochileiros e viajantes em geral. Bolsas reserva super-hiper compactas, kits de emergência temáticos para diversas situações (adorei o "Kit Festival de Rock" com barra de cereais, escova de dentes, repelente, protetor, solar, camisinha e aspirina), uma infinidade de adaptadores de tomada universais, mini-secador de cabelo, mini-ferro de passar e até uma mini-jarra elétrica para ferver água. Dá vontade de morar na mochila forever!

SOMERSET HOUSE

A Somerset House é um mega espaço em Covent Garden, à beira do Thames, com várias salas de exposição e museus. No centro do prédio (que é super imponente) tem uma praça super agradável, a courtyard, onde no verão rolam festivais e projeções de filmes; e no inverno eles congelam toda a praça e as pessoas vêm de todos os bairros para patinar no gelo. O que quase ninguém visita é a Courtauld Gallery que fica em um dos pavilhões do prédio. A Família Courtauld era uma família de aristrocratas britânicos no ramo da prataria e da indústria têxtil. O negócio foi fundado pelo pai, mas era dirigido pela esposa, uma coisa muito incomum na época. Ela certamente era uma mulher incrível, e criou seus filhos de maneira a manterem uma linhagem próspera durante décadas e décadas. E acumularam uma impressionante coleção de arte ao longo de todas essas gerações. A galeria expõe esse acervo absurdo, incluindo linhas das pratarias produzidas pelos Courtaulds (baixelas, jogos de café e chá, bandejas; de uma riqueza e uma delicadeza sublimes) e mobiliários raros adquiridos pela família. Os Courtaulds foram, provavelmente, um dos maiores colecionadores de arte particulares, e o "singelo" acervo que está exposto nessa galeria inclui expressivas obras dos principais nomes das artes plásticas desde a Renascência até o Séc. XX. Tudo em um estado de conservação como se tivessem sido produzidos na semana passada. Organizados de forma cronológica e divididos dentro de suas escolas particulares, a gente vai transitando pelas salas e se deparando com Botticelli, Tiepolo, Rubens, diversos Bruegel (que eu particularmene amo). Estão lá "A Bar at the Folies-Bergère" de Manet (que de tão complexo acredito ser possível defender uma tese sobre ele, sobre a composição de cores, o desenho da luz, e as intrigantes relações de seus personagens), "Auto-retrato com a Atadura na Orelha" de Van Gogh (Totally Breathtaking!!!), o caríssimo "La Loge" de Renoir, algumas esculturas de Degas de estudos de suas bailarinas, os boêmios nas portas dos bordéis parisienses de Toulouse-Lautrec, a "Mulher de Kimono" de Matisse e uma sala quase inteira de Gauguin. Especialmente interessante olhar Gauguin, depois de ter visto o auto-retrato de Van Gogh com a evidência da briga dos dois. Ainda Monet, Kandinsky, Seurat, Mondigliani e uma exposição temporária de gravuras de Michelangelo. Eu não gosto de gravuras, mas Michelangelo é Michelangelo. A Courtauld Gallery é tão aconchegante, um museu pequeno, com uma coleção incrível, e, exatamente por não ser tão popular, nenhum gafanhoto (que preferem ficar todos tirando fotos no courtyard da Somerset House).

WHAT WOULD AUDREY DO?


Nem sempre eu sei o que Audrey faria, mas eu sei o que eu fiz. O que eu fiz foi agarrar como se fosse o último cantil de água no deserto um exemplar desse livro assim que vi na prateleira da Urban Outfitters ontem. Sim. Agora estamos falando de uma literatura realmente importante para a humanidade. Essa, Senhoras e Senhores, é a minha Bíblia. Um livro fofo, direto, simples e bem-humorado de comportamento, etiqueta e estilo para as mais variadas situações cotidianas, baseado no estilo e comportamento do (meu, pelo menos) maior ícone fashion de todos os tempos. Sim, nós tivemos Channel também (e Mademoiselle que me perdou, mas sou uma Audrey girl), mas acho que podemos achar milhões de paralelos entre essas duas mulheres fantáticas que acabam sendo diretrizes seguidas por todas as mulheres com elegância e estilo que já passaram por esse planeta. O básico, o clássico, o ponderado. E saber usar a seu favor suas próprias particularidades físicas. A maioria das regras de etiqueta nada mais são do que maneiras de se portar respeitosamente em sociedade. E nesse sentido, como já dizia Glorinha Kallil, "chic é ser civilizado".
Ah, sim! A capa do livro é maravilhosamente rosa!
Me like it!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Um dos milhões de motivos que me fizeram começar essa viagem foi que eu queria me apaixonar. Acho que amor é uma coisa contagiosa. Quanto mais se sente, mais se atrai. E eu quero uma vida cheia de amor. Só não sabia que eu podia me apaixonar tão rápido. Sem nenhum propósito. Posso dizer com completa convicção que estou completamente apaixonada por Londres. Cada esquina, o cheiro, as cores. As pessoas! As pessoas são o que mais me comove. Existe um misto de individualismo e gentileza que me faz sentir mais humana do que em qualquer outro lugar que estive. Ontem eu tive uma noite muito triste. Chorei. Gritei pelo Kallel no MSN só porque eu precisava ouvir que alguém me amava. As vezes a gente não se sente digna de amor. (eu sei, eu sei, essa história denovo. Mas é assim. Dói. E quando dói eu choro.) Mas assim que pisei na rua, que comecei a fazer parte do cotidiano de todas as pessoas apetando o passo na calçada, abrindo guarda-chuvas, paradas na estação lotada da Bank. Assim que me senti parte de algo muito maior e coletivo, me veio a razão e a certeza de que não existe a menor possibilidade de eu não ser digna de amor, sem que todas as pessoas no mundo também não fossem dignas. Nesse quesito, eu prefiro votar no copo meio cheio. Prefiro olhar o belo. Eu gosto de acreditar no bem, e estou fazendo um esforço sobre-humano para não deixar o cinismo me corroer a alma. Eu escolho sorrir. Eu escolho o benefício da dúvida ao julgamento. Eu escolho a verdade, a entrega, o genuíno. Eu sei que às vezes vai doer, mas eu escolho saber que sempre haverá quem me lamba as feridas.

Hoje pela manhã fui na National Gallery. Bem em frente a maior concentração de gafanhotos do universo. Eles chegam aos bandos, embaixo de chuva mesmo, descem de ônibus, surgem dos bueiros. E tiram fotos. Tiram fotos de tudo o tempo todo. Falam alto. Francês, espanhol, alemão, italiano, chinês, coreano, japonês e algumas línguas nórdicas de que não sou capaz de identificar. Apesar da abundância de turistas, a National Gallery é certamente um lugar que eu vou precisar voltar mais um milhão de vezes. Me deparar com "Os Girassóis" de Van Gogh a um palmo de distância foi uma das emoções masi fortes que senti nessa viagem. Vieram-me lágrimas sem que eu pudesse me esconder. Klimt, Pissarro, Monet. As bailarinas de Degas. Todo mundo lá. E eu não consegui ver um terço. Sou mesmo uma pessoa de museus. As coisas me fazem sentido com uma curadoria pro trás. Depois encontrei Florence, e andamos por todo o centro, Covent Garden, Westminster, Soho. Parávamos nos mercados para tomar chai e comer pudim de pão com passas, ou para ouvir uma espanhola cantando no salão do National Theater. Vimos o início de uma cerimônia em St.Pauls, o Globe, o Tate. Corremos da chuva na beira do Thames e em Trafalgar Square (à noite, quando as centenas de milhares de gafanhotos já foram para outro lugar). Então jantamos em Chinatown e comemos um bolinho engraçado em uma barraquinha de rua. Saímos pelos bares e pubs, entrando em alguns só para sentir a atmosfera. A maravilha é que tudo acontece em tempo de se pegar o Tube e chegar em casa ainda no mesmo dia. Uma cidade diurna, para mim que peguei um bode imenso de ouvir os passarinhos cantarem pela manhã. Florence foi um anjo, fazia questão de me contar tudo, me mostrar tudo. E pensar que somos praticamente estranhas. Conheci Florence por acaso no Carnaval na Ilha do Cardoso. Ela estava perdida e mais ninguém dominava o inglês na vila de pescadores. (tanto que a primeira coisa que dissemos uma para a outra hoje foi "Ei, First time we see each other without bikinis!!!") Tentei ser o mais gentil que pude, e ganhei uma amiga e uma anfitriã maravilhosa nessa cidade. Acho mesmo que o amor, a gentileza, sejam contagiantes. Estou apaixonada. Estar apaixonada é algo muito revigorante. Ainda quero mais. Quero todas as paixões a que eu for capaz.

terça-feira, 23 de março de 2010

LONDON

Tem um filme que eu amo, não apenas pela história mas por tudo o que ele me causou, o que ele representou na minha vida. E isso é uma coisa completamente particular. Não pela obra cinematográfica em si, mas por tudo que ele me disse no momento em que me disse. O filme é uma brincadeira com a vida e uma das melhores obras da minha escritora favorita: Virginia Woolf. Foi por ela que me descobri escritora de verdade. Como eu disse é uma coisa totalmente particular. Existe uma cena nesse filme em que ela pede para o marido para voltar para Londres. Pois, apesar de prejudicial para a saúde dela, era onde ela se sentia inteira, era onde ela era escritora. Assim que pisei em Londres eu entendi porque meus livros favoritos foram escritos nessa cidade. Não vou dizer que vi muito mais da cidade, mas a energia me impregnou todos os poros. Aqui a gentileza e a brutalidade convivem heterogeneamente. Para mim a essência de qualquer ser humano. Londres é humana até dizer chega, um caldeirão de tipos, histórias, personagens. Tenho vontade de chorar pelas esquinas. Sem nenhum motivo. Passo o tempo todo com vontade de escrever, e as palavras fluem, descarregam. Faz tudo parecer realmente fácil. Como se a humanidade finalmente fizesse sentido pela sua completa falta de sentido. Isa tem sido a melhor companhia que eu poderia pedir. Posso absorver o cotidiano sem que alguém fique berrando nos meus ouvidos “você precisa ir tal lugar”, ou “você precisa comer tal coisa”, ou “não acredito que você ainda não fez isso”. Logo no sábado ela me levou em um jantar na casa de um amigo dela. Um brasileiro que já está aqui há 10 anos, e haviam outros brasileiro com tanto tempo de estrada, um neo-zelandês e uma autralia-colombiana. Foi uma dessas noites mágicas em que há vinho, conversas maravilhosas, fotografias roubadas, comida incrível e madrugadas inesperadas. No dia seguinte ainda andamos por Camden que me pareceu meu novo lugar favorito para passeios aos domingos. Ontem aproveitamos a libra deliciosamente baixa e enlouquecemos na Primark da Oxford Street, mas depois entramos na Selfridges para ver de pertinho, babar e por a mão nas criações dos maiores artistas da atualidade (estou falando de Galliano, Marc Jacobs, Lagerfeld, Alexander McQueen… a turma toda!). Depois saímos de lá imaginando como seria legal ser milionária e ter um dia de Pretty Woman naquelas escadas rolantes e fomos comer um dos cookies mais indecentes que já tive a oportunidade de colocar na boca. Hoje me enfiei pela Chapel Market, descobrindo lojinhas, olhando as barracas da feira. Pessoas de todas as raças, todas misturadas. Grupos de adolescentes mulçumanas com a cabeça coberta. Indianos, paquistaneses, japoneses, negros. Ainda me surpreendo com a gentileza autêntica das pessoas. Aliás com a autenticidade toda das pessoas. É a palavra que mais me ocorre. Autenticidade. Londres é uma cidade de verdade. E quando eu já sorria para a garoa, já me mimetizava como quem nem mais sente o frio, a realidade veio correndo em minha direção e foi derrubada bem aos meus pés. Na verdade a razão de eu estar tão feliz com o meu cartão de crédito e aproveitando tanto a capacidade dos meus reais comprarem libras, é a mesma que fez aquele homem sair correndo de dentro do supermercado cheio de sacolas sem pagar. Eu só vi o homem correndo na minha direção. Típico biótipo inglês, branquelão, quase vermelho de tão loiro. Atrás dele um negão corpulento, pula e o agarra. Os dois caem bem aos meus pés. Bandejinhas de carne caem da sacola e são recolhidas por um ajudante latino com o uniforme do supermercado. O negão corpulento olha aflito para o homem, quase como quem implora ele mesmo por uma chance, e diz “What were you doing, man? You were trying to rob the market. Don´t do that. They will call the police. You will get in trouble. Why, man?” O homem foi levado para dentro do supermercado. Então por um instante todas as pessoas naquela quadra tiveram a crise estampada na cara. Por um rápido segundo. O cobertor é muito curto. Cobre-se a cabeça, mas expõe-se os pés. E todos voltaram para suas vidas individuais. Voltaram para seus milhões de rituais de gentilezas diárias. Andando pelo lado direito das escadas rolantes, dando passagem na porta do metro, se desculpando por esbarrarem em você nas calçadas. Um mundo de gentilezas que me faz pensar que talvez a Babel fosse antes de tudo uma civilização.