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domingo, 8 de janeiro de 2012

QUATRO DIAS E NENHUMA MOSCA MORTA


El Chaltén é uma gracinha de cidade. Mesmo. Pequena, charmosa. Às margens de um rio glacial azul turvo e emoldurada pelo Cerro Torres e o Fitz Roy nevado. Lindo, pontiagudo. Apontando para o céu. É fascinante a visão dessas montanhas imponentes. A mesma sensação que tive em Zermatt em 2010, quando vi o Motterhorn e resolvi gostar da cidade de imediato. Internet foi um problema em El Chaltén, o que acabou virando uma boa coisa. Eu queria mesmo desconectar por um tempo e estava impossível. Mais pelo vício da pessoa que a impede de simplesmente desligar e guardar todos os gadgets. Aproveitando a desconexão forçada, me joguei em um trekking de 4 dias nas trilhas em torno do Fitz Roy. Isso significou 4 dias de contato direto com a natureza, paisagens de tirar o fôlego, silêncio, meditação e contemplação. Mas também significou 4 dias de camping no meio do mato, com insetos, água estranha, xixi em arbustos, banho zero e muito carregamento de peso. Pois é! Ninguém chega ao castelo sem atravessar o fosso antes. Foi a primeira vez que eu acampei sozinha. Sozinha de tudo. Carregando mochila, montando barraca, cozinhando miojo. Se foi loucura eu não sei dizer. Só sei que foi uma experiência incrível e eu começo a entender porque pessoas como minha irmãzinha Carol gostam tanto de acampar. Primeiro houve todo o tempo de preparação. Você precisa pensar em todos os detalhes do que vai ou pode precisa no camping, porque depois não tem como correr na padaria da esquina ou na farmácia na última hora. Uma grande vantagem é que toda a água do parque é muito fresca e potável. O que me livrou de carregar litros na bagagem e racionar o consumo para escovar os dentes e lavar pratos. Aproveitei para comprar alguns queijos e vinho e me mimar um pouco ao pôr do Sol (que aqui é às 22h30) com pequenos prazeres na natureza. Kerri (uma americana que conheci junto com Tanja em Torres Del Paine e acabamos nos encontrando e fazendo várias coisas juntas em Chaltén) disse que eu faço “camping deluxe”. Bom, acho que se é para fazer, faça com estilo! E isso vale para tudo na vida. O único problema é que em uma situação como essa, estilo tem um preço. E não estou falando de algo que se resolva com um cartão de crédito. Ao final de toda a arrumação da mochila (com toneladas de Baby Wipes para uma alternativa de banho, vinho, queijos, pães, molho para o macarrão, café de coador, legumes para salada e geléia para o café da manhã) minha mochila de “camping deluxe” estava com cerca de 17Kg. Você pode até pensar que 17Kg é algo absolutamente administrável. Meu sobrinho pesa 17Kg e vivo brincando com ele no colo. Acontece que carregar uma criança de 17Kg por 5 minutos é moleza. Depois de 30 minutos os braços já sentem. Agora experimente carregar uma criança de 17Kg por 4 horas durante um percurso de 9,5Km de terreno acidentado e íngreme. Gostoso! Agora deve mesmo estar parecendo loucura, mas juro que existe uma satisfação de se descobrir capaz, de vencer cada trecho da trilha, de chegar até seu objetivo, e essa é o tipo de satisfação que molda nosso caráter. Foi um sacrifício, mas juro que em nenhum momento eu me violentei. Em nenhum momento cheguei a um ponto de achar que não podia mais, de chorar, de pensar em desistir. A primeira hora de trilha foi difícil. Era o trecho mais íngreme e cada passo me obrigava a usar uma pedra alta como degrau. Dava para sentir cada músculo da minha perna sendo exigido. O trajeto na verdade era estimado para ser feito em 3h30, mas como eu sabia que estava com sobrepeso, calculei que demoraria 30 minutos a mais. Quando cansava, parava e tirava a mochila por uns minutos. Bebia água, tirava algumas fotos, comia uma barrinha de cereal, e depois continuava. As duas últimas horas foram muito agradáveis. O terreno era mais estabilizado e as paisagens tão bucólicas e cinematográficas. Acabei pegando um ritmo e fazendo uma caminhada bastante prazerosa. Acampei por dois dias no Camping Poicenot, que não tem estrutura nenhuma. Nada mais é do que uma área embaixo de árvores reservada pela administração do parque para que os trekkers acampem com segurança. Estava bem cheio. Com o incidente em Paine, todos os trekkers da Patagônia vieram para Chaltén. Com o acampamento montado pude fazer trilhas em volta durante o dia carregando apenas minha mochila de ataque. No geral as trilhas eram de nível moderado. A da Laguna de los Três era a mais exigente, mas nada que não se resolvesse em 1h30-2h de esforço mais árduo. Em compensação a recompensa era uma deslumbrante visão de uma lagoa azul turquesa no alto da montanha, aos pés do Fitz Roy e cercada por dois glaciares, um de cada lado. Nesse dia acordei às 5h para tirar fotos do Sol nascendo. A desconcertante visão da luz laranja surgindo no horizonte e tingindo de fogo as torres e as montanhas, prometendo um dia espetacular. Depois voltei para o acampamento, tomei meu café da manhã deluxe, com pão, queijo, geléia, café passadinho na hora, cereal com leite e suco de laranja. Dá para comer de tudo porque você vai ficar horas queimando até o último grama de caloria nas trilhas. Às 7h30 me joguei na trilha para a Laguna (é toda subida em 70o e de pedras, o que é sempre traiçoeiro porque você escorrega, as pedras rolam e você nunca sabe onde firmar o pé direito). O bom foi que no horário em que eu saí a maioria do camping ainda estava acordando. Cheguei à Lagoa sozinha, sem uma viva alma lá em cima. Sentei em uma pedra bem no centro e meditei por meia hora. Fortíssima a energia de abrir seus chacras em meio a um paraíso como aquele. Depois fiquei mais um tempo contemplando o som do vento no vale, e quando eu descia de volta para o acampamento, as pessoas subiam em peso. Comecei a entender o ditado “Deus ajuda quem cedo madruga”. A única coisa de matar em todas as trilhas e experiências no Parque eram as moscas mutantes que nos atacavam. Juro! Moscas mutantes! Eram umas moscas gigantescas, do tamanho de uma varejeira, mas elas zumbiam como abelhas. Você ali, se matando na trilha e as bichinhas rondando sua cabeça e te enlouquecendo com o zum-zum. Pior de tudo! Elas picavam! Nunca vi mosca picar. Aquelas davam umas mordidinhas doídas se você descuidasse e as deixasse pousarem na sua roupa (Sim! Picavam ATRAVÉS da roupa!!!) De enlouquecer. Às vezes eu era atacada por umas 15 ao mesmo tempo. Era uma coisa completamente sem propósito. De repente todas elas resolviam que seria legal ficar zumbindo em volta da sua cabeça e Bum! Todas juntas a sua volta por uns 10 minutos. Então elas cansavam, e todas desapareciam. Assim. Sem nenhuma explicação plausível. Minha vontade era sair correndo pelo camping gritando e chacoalhando os braços no ar, como um boneco inflável de posto. E vai achando que repelente funcionava? Nada! Destemidas, as danadas. Passar repelente ou Chanel no.5 dava tudo na mesma. Eu tinha delírios de comprar um pote gigante de Baygon e sair pelas trilhas pulverizando e rindo maquiavelicamente. Mas então comecei a pensar no conceito de não-violência. Muito fácil a gente pensar em conceitos de não-violência quando falamos das crianças na África, ou de Yorkshires fofinhos. Todo mundo é contra matar coelhinhos, chinchilas, minks para fazer casaco de pele. Mas quando falamos de uma mosca mutante nojenta e irritante parece a coisa mais natural do mundo borrifar com veneno ou estabacar seus corpos contra as pedras, até que elas agonizem e morram. Fiquei pensando muito nisso enquanto era levada à loucura por elas. E cheguei à conclusão que toda vida é um milagre (mesmo eu tendo certeza que aquelas moscas não são obra divina e foram manipuladas genéticamente em laboratório). E matar uma mosca mutante é tão violento quanto aquelas imagens de caçadores enfiando machadinhas nas cabeças das focas na Antártida. Então eu tenho muito orgulho em dizer que nenhuma mosca foi morta durante a execução das minhas trilhas pelo Fitz Roy! :-)


No terceiro dia mudei minhas coisas para o Camping Di Agostini que era na parte mais baixa do Parque. Mais 4 horas de trilha com mochila pesada nas costas. Dessa vez um pouco mais leve já que eu havia consumido dois dias do meu cardápio de camping deluxo em Poicenot. Essa trilha foi mais chatinha. O primeiro trecho muito aprazível, beirando as Lagunas Madre e Hija, com visões de bosques, flores e nada de moscas. Em compensação as restantes 3 horas foram de uma tortura sem fim. Parecia que o caminho não acabava nunca. O camping, todavia, estava mais vazio e era mais confortável. Um rio forte abastecia com água. Mas como era um rio de glacial a água era turva. Bem estranho. Lá fiz mais algumas trilhas, mais uma tonelada de meditação em pedras estratégicas no meio dos caminhos e em mirantes. E voltei para El Chaltén na sexta-feira no final da tarde. Mais 3h30 de caminhada, dessa vez descida. Estourando meus joelhos e me fazendo pensar com muito amor e saudades na minha manicure, na minha podóloga, no meu cabeleireiro e em uma bela sessão de massagem em um SPA. Mais do que tudo, o que eu pensava era em um banho quente. De verdade. Com água correndo em cima do corpo e cheirinho de sabonete. Eu tenho minhas frescuras, eu sei. Tenho minhas particularidades, minhas neuroses, minhas manias. Tenho, inclusive, (um monte) minhas chatices. Mas quando você se encontrar submersa na natureza, com todas suas coisinhas dobráveis que sustentam fragilmente seus hábitos civilizatórios. Quando você acorda no meio da noite ouvindo o vento quase arrancar sua barraca, e a poeira sujar tudo o que você tem pelas frestas de respiro. Quando você cruza com um carcará gigante buscando comida pelo mato ao amanhecer. Quando você olha para trás, no alto de uma montanha, e perde de vista a trilha, mas sabe que no começo mal enxergava o lugar onde chegou. Quando você trás aos lábios uma concha de mão cheia de água gelada e pura e sente a sede de duas horas de esforço se aplacar enquanto o estrondo de uma avalanche ressoa pelo ar. Quando seu suor gruda na sua roupa e você sabe que ela não vai estar limpa e passada na sua gaveta no dia seguinte. Alguns conceitos de necessidade, precisão, alguns conceitos que nos fornecem a estrutura de quem somos, o que somos, eles mudam. Porque quando você estabelece seus limites de conforto vem à tona sua verdadeira essência de ser humano. E essa é a que nós vivemos nos esquecendo, e nos transformando em profissões, em marcas, em consumidores. Ao final do dia só queremos descobrir como não sucumbir ao selvagem. Como nos livrar das moscas sem matá-las. A melhor coisa de todo esse contato com a natureza é encontrar esse limite que nos faz humanos e animais ao mesmo tempo.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

PARTINDO DE PUERTO NATALES


Festa de Ano Novo ontem foi aqui ao lado do Erratic Rock, no Base Camp. É um bar e loja de aluguel de equipamentos do mesmo dono, o Bill. É também onde rolam as palestras sobre os circuitos de Torres Del Paine gratuitamente todos os dias às 15h. Nós estouramos champagne, cantamos, dançamos. Todos sentindo que nem parecia Ano Novo. Eu e umas cariocas, porque estava frio demais. Os europeus, porque estava calor. De qualquer forma, todo mundo muito longe de casa. Mas foi legal. Formou-se uma irmandade, uma união. Na expectativa de boas notícias, na distância e estranhamento da própria casa, na vontade de colocar a mochila nas costas e continuar. Principalmente na frustração de termos chegado tão perto sem ter visto as belas torres. Eu fui dormir cedo. Porque não queria me embriagar, estava cansada e acordava cedo hoje para um passeio de barco que tinha reservado. Existe essa empresa chamada Agunsa que organiza uma excursão de lancha de um dia inteiro pelos fiordes e pelos glaciares aqui de Puerto Natales. Tirei algumas fotos legais, fiz uma trilha tranquila até o Glacial Serrano. Dormi bastante nos trechos de navegação. Depois nos levaram até uma Estância onde foi servido o almoço. Churrasco para variar. Um prato de legumes picados e refogados para mim. Sentei ao lado de um casal venezuelano que está morando no Rio há um ano e meio. Adoro esses encontros ao acaso que as viagens propiciam. São ótimos para conhecer pessoas, conhecer mais sobre seus países, e distanciar a visão que eu tenho do meu próprio. Um passeio agradável, e foi bom poder explorar um pouco da paisagem e das atrações desse lado da Patagônia. Que não é só o parque. Sobre o incêndio, está finalmente sob controle. Agora combate-se o fogo subterrâneo que ainda queima a terra e as raízes. Acredita-se que até que tudo seja resfriado e apagado ainda demore um mês. Um mês, por causa de um descuido de algums minutos. Sabe-se lá quantas décadas até que a natureza se reencontre e apague as cicatrizes. Foram 11.000 hectares queimados. Todo o W. E essa é a última coisa que eu falo dessa tragédia. Hoje à noite deixei Puerto Natales e os queridos amigos que fiz lá. Durmo em Calafate para amanhã cedinho pegar o primeiro ônibus para El Chaltén. O plano é acampar por 3 dias em volta do Fitz Roy. Segundo o guia “Trekking na Patagônia” do Lonely Planet, Torres Del Paine e Fitz Roy são os dois highlights da Patagônia. Como não foi possível ver um, vou correndo de encontro ao outro. Estou ansiosa mesmo para desligar completamente pelos três dias. (Mas nem tanto pela expectativa de banho zero no mesmo período!) Quase perdi o ônibus para Calafate. Desembarquei do passeio e fui correndo buscar a mochila no hostel. Correndo é força de expressão. O vento voltou e é IMPOSSÍVEL correr contra esse vento. É uma coisa assustadora, não estou exagerando não. Você precisa pisar firme e inclinar o corpo para frente para conseguir se locomover. Minhas coxas até doeram com a força da resistência. Então foi basicamente isso: peguei a mochila voando, mal dei tchau para as pessoas e fui a última, no último minuto, a entrar no ônibus. Cansada, bufando. Sentei no meu lugar, o ônibus deu partida e saiu. Ufa! Uma viagem de cerca de 5 horas de Punta Arenas à Calafate. De novo aquela paisagem linda e desértica. Eu coloquei The Lucksmiths no Ipod e encostei a cabeça no vidro do ônibus. Desenrolavam-se centenas de kilometros na minha frente de uma paisagem seca e linda. O campo que se perdia até um altiplano no horizonte. A estrada dura, reta, vazia que seguia impiedosa. Ovelhas pastando. Pássaros enormes pousados em rochas assistindo o pôr do Sol. Sim. Às 21h30 começou o pôr do Sol mais espetacular que eu já vi. Ele caia atrás do meu ombro direito. Eu via refletido o contorno do ônibus no asfalto, enquanto a luz alaranjada devorava toda a paisagem até fazer as nuvens do céu criarem vida e tornarem-se sólidas. Paralelo à estrada um bando de cavalos corriam livres sem destino, desviando de pequenas lagoas, com o vento balançando suas crinas, me fazendo puxar o ar em angústia de ver tanta liberdade assim, explícita. Três raios grossos e vermelhos saíam do horizonte e cortavam o azul implacável, e nesse momento eu não agüentei e chorei. Chorei porque meus olhos não agüentaram tanta beleza. Chorei porque a maneira como a vida acontece aqui faz com que eu tenha vontade de abraçá-la mesmo sabendo que eu vou sucumbir no segundo seguinte. Chorei porque, se eu estou começando o ano desse jeito é porque eu sou muito abençoada. Chorei porque é isso o que a gente faz quando presencia um milagre. Do outro lado do ônibus o Sol executava um espetáculo de despedida de seu primeiro dia. Ele ardia, quase cantava, e suas chamas se agigantavam pelo céu e o horizonte até que não pudesse enxergar. Fez o dia vermelho, de vida; e me deu de presente as fotos laranjas que eu tanto procurava. Como uma pintura, pinceladas de Van Gogh na minha frente. O céu da Patagônia.


sábado, 31 de dezembro de 2011

UM ALENTO NO ÚLTIMO DIA DO ANO PARA COMEÇAR 2012 COM ESPERANÇAS

Hoje acordei com algumas mordidas de aranha nas mãos e no rosto. No café da manhã rolou uma boa conversa sobre o que deveríamos fazer com a coitadinha. A opinião geral é exterminar e matar. Eu, que sou a suposta vítima, tenho estado cada vez mais praticante da não-violência, então o que eu queria era encontrar nossa amiguinha e soltá-la na grama do parque em frente ao hostel. “Corra para a floresta, amiga!”. Pura maldade! Ela seria carbonizada até a morte lá. Hahaha. Ai, sem humor negro hoje. Eu provavelmente matei esmagada a coitada da aranha e ela deve ter me mordido em tentativas desesperada de me tirar de cima dela. De qualquer forma a conversa de não-violência no café da manhã foi uma quebra no assunto constante do incêndio que já está deixando todo mundo um pouco cansado. É tanta gente falando tanta coisa. E muita especulação. As pessoas vêm bater na porta do hostel, com os olhos arregalados, fazendo perguntas, querendo saber da situação. A política agora aqui no Erratic Rock é não falar mais nada. Porque tem muita fofoca correndo por aí, e as pessoas possuem um gosto mórbido por fofocas e tragédias. O que sabemos é que ao final os Refúgios se mantiveram intactos, embora o fogo esteja queimando todos os acampamentos ao redor. Ou seja, Paine Grande sobreviveu! Após a notícia do fogo alcançando Las Torres não sabemos mais nada, então esperamos que ele também se salve. Ontem por volta das 17h uma chuva começou no parque. Talvez fruto de tanta oração das pessoas locais. E o que nos chegou hoje cedo foi que a chuva ajudou a diminuir a intensidade do fogo e os ventos estão mais moderados. Embora ele continue ardendo em três frentes, o panorama geral parece se apresentar mais controlável. Quanto a situação do parque, ele permanece fechado e deve continuar por toda a temporada. Alguns dizem que por todo janeiro, outros até fevereiro. O que ninguém diz é que, não importa quando seja aberto, será um grande cemitério carbonizado sem nenhum traço da fauna e da flora única da Patagônia. Esse é o tipo de coisa que ninguém nunca quer pronunciar mesmo. Sobre os suspeitos... Tenho evitado falar sobre eles porque já ouvi muita besteira e muita coisa perigosa por aqui. O Felipe, que é um guia local e foi o cara que identificou o fogo, testemunhou os culpados e ficou combatendo sozinho com as próprias mãos até que a ajuda chegasse, estava aqui no hostel até ontem. Ele passou pela investigação, identificou os culpados. Segundo ele foi um grupo de turistas israelenses, 2 meninas e 4 garotos. Estavam acampando fora da região permitida e acenderam uma fogueira. Fogueiras são proibidas no parque. De acordo com o relato dele o grupo foi preso e as garotas pareciam assustadas, mas os rapazes apresentaram uma atitude arrogante o tempo todo. Se recusaram a falar qualquer coisa e disseram que só falariam com a presença de alguém da embaixada. Daí existe especulação sobre um dos garotos ser VIP, (ter imunidade diplomática ou algo assim), ou sobre um vídeo que eles apresentaram colocando-os fora do local. De qualquer forma eu sempre acho muito complicado qualquer tipo de acusação e especulação em cima de culpa sobre um crime tão terrível. Os turistas israelenses foram liberados na quinta-feira, e devem estar muito longe do Chile hoje. Agora a polícia disse que continua em busca dos culpados. A verdade é que todo mundo sabe que esses culpados nunca vão aparecer. Existe um certo movimento no ar contra turistas israelenses em geral, o que eu pessoalmente acho MUITO perigoso. No momento em que começarmos a generalizar atitudes de pessoas pelas suas raças, sexos, nacionalidades, religiões... estamos a um passo de perdermos nossa essência de humanidade. A violência se manifesta de maneiras muito sutis antes de explodir em manifestações físicas. Eu acho que o mundo já tem violência demais e não precisa de mais. Então eu não vou falar de culpas, eu não vou falar de punição e castigo. Eu acredito que, por mais irresponsável que a pessoa tenha sido, ninguém faria uma coisa dessas intencionalmente. Eu não acredito que alguém seja capaz de tamanha maldade de forma consciente. Então eu acredito que essa pessoa vai ter de passar o resto da vida sabendo que sua irresponsabilidade causou um desastre natural de proporções gigantescas. E cada um sabe o que carrega quando coloca a cabeça no travesseiro à noite para dormir. Embora eu concorde que uma punição protocolar deveria ser aplicada, mas acho que a maior punição que se pode ter é o peso da própria consciência. Isso já é de uma violência agressiva suficiente. Não sou eu quem vai incentivar qualquer julgamento, raiva ou mais violência. Hoje vou fazer uma cavalgada na Dorotéa, uma serra ao redor de Puerto Natales. Pode-se ver os condores de cima lá. Nas agências de turismo as pessoas fazem filas para receberem reembolsos de seus pacotes de viagem, muitas desistências. Todo mundo fugindo da cidade. Pode-se ver a tristeza nos olhos dos agentes. Existem várias coisas para se fazer em Puerto Natales além de Torres Del Paine. Enquanto eu estiver aqui, vou tentar ajudar a economia local. O vento hoje parou. As folhas das árvores nem se mexem. Amanhã começa um ano todo novo, cheio de possibilidades e esperanças. Vamos esperar que a chuva volte, que o vento pare. Que os turistas não fujam. Que as pessoas locais possam continuar com suas vidas. Que nós sejamos capazes de encontrar as aranhas que nos mordem e soltá-las livres nas florestas. E que essas florestas não estejam em chamas. Feliz Ano Novo para todos vocês. =)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

TRAGÉDIA


Não dá para definir de outra forma o que está acontecendo aqui em Puerto Natales. Os chilenos são muito discretos, a vida continua, mas o luto está no ar. Até agora mais de 8.500 hectares forma consumidos pelo fogo, que está incontrolável e muito abastecido pelos fortes ventos. (Chegam à 100Km/h!!!). Existe falhas de autoridades em todas as partes. A evacuação está sendo feita sem nenhum planejamento. Conversei com um casal brasileiro que saiu do parque hoje cedo e disseram que vans estão fazendo leilão com assentos para deixar o parque. Você praticamente tem de pagar para ser evacuado. Não existe nenhum órgão governamental a cargo, praticamente terra de ninguém. Consequentemente os hotéis e hostels da cidade estão lotados. Transporte para deixar a cidade também. Algumas pessoas estão pagando caro por pacotes turísticos para El Calafate apenas para utilizarem o transporte privado para sair de Puerto Natales. O incêndio está tomando proporções gigantescas. Embora o último grande incêndio tenha atingido 15 mil hectares (corrigindo informação do outro post) em 2005, ele aconteceu em uma zona erma do parque e não afetou os circuitos clássicos de trekking (W, O e Q). As notícias que chegam hoje são difíceis de acreditar. O fogo agora avança por duas frentes. Segue ao Sul por todo o Lago Pehoe. Já atingiu o Campamento Las Carretas e está próximo da administração central do Parque. (!!!) A sede administrativa da CONAF deve estar em chamas no momento em que eu publico esse post. Ao leste o fogo avançou pelas margens do Lago Nordenskjöld. Destruiu o Refúgio Los Cuernos e cerca de uma hora e meia atrás estava atingindo o Hotel Las Torres (que era um empreendimento luxuoso, belíssimo). A tendência é subir o Vale Ascencio, o que significa o fim do circuito de trekking mais popular de Torres Del Paine. Todo o W se foi. TODO! O governo declarou o fechamento do parque por todo o mês de janeiro. Mas sabe-se que a trilha demorará anos até poder ser freqüentada novamente. É uma tragédia tão grande que não sabemos muito como falar. As pessoas estão quietas, cabisbaixas. Espera-se desesperadamente por chuva, mas o tempo está ensolarada, seco e com muito, mas muito, vento. Não há uma única nuvem no céu. Hoje de manhã podíamos ver a fumaça do parque pelo porto. Uma tristeza terrível. O clima é de uma impotência sem tamanho. Não há o que se possa fazer. Sabe-se que há 3 helicópteros trabalhando e cerca de 400 brigadistas no parque, mas o fogo está descontrolado e o tamanho das chamas é assustador. Hoje pela manhã um grupo de garotos aqui do hostel saiu para se juntar aos voluntários e ajudar no combate. Voltaram às 9h30. Foram dispensados. Não estão se responsabilizando por civis como voluntários. O perigo é altíssimo. Sabemos no entanto que nem todo o parque foi evacuado e que existem pessoas no setor norte ainda em trilha, e que nem tem conhecimento da proporção da tragédia. No comércio local o clima é de medo e incerteza. Toda a economia da cidade se baseia no turismo, mais especificamente no turismo do Parque. Hoje, às 14h, houve manifestação e buzinaço de guias turísticos e agentes de viagens, e da população local que desfilou com a bandeira de Magallaes nos carros. É difícil de acreditar que o maior cartão postal da Patagônia está sendo destruído bem embaixo dos nossos narizes e não há nada que possamos fazer. Eu, particularmente, sinto-me responsável de alguma forma por estar aqui testemunhando. Estou pelo menos tentando fornecer o máximo de informações online para outros viajantes. Espero que sirva de algo para alguém.

Abaixo um vídeo de um turista enquanto era evacuado do parque. O tamanho das chamas é impressionante!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Só para fazer sentido, um mapa do W para entender a dimensão do fogo.

UPDATE DE PUERTO NATALES


Agora à tarde aconteceu uma palestra aqui ao lado na guardería do Erratic Rock. A palestra acontece diariamente às 15h e esclarece todas as dúvidas para os viajantes planejarem suas trilhas. Todavia hoje nem mesmo os guias sabiam ao certo o que falar sobre a maior parte do circuito e do W. Sabíamos que do Vale Del Francês até Los Cuernos e o Refúgio Grey estava tudo fechado e repleto de fumaça. De um jeito que não se pode respirar. (Esse trecho corresponde à curva oeste do W e sua entrada central, ou seja, 2/3 do percurso) Mas ao final da palestra um guia local chegou com informações recentes e precisas. Ele estava até hoje cedo como bombeiro voluntário ajudando a combater o fogo e evacuar a área. O fogo já atinge 1,5 mil hectares do Parque e agora avança pelas duas margens do Lago Pehoé. Refúgio Paine Grande não existe mais. Foi totalmente destruído pelo fogo. Difícil não se emocionar com a narrativa dele contando como ajudou amigos a pegar o que podiam de suas casas, fotos dos filhos e bens pessoais, sabendo que em 20 minutos as chamas atingiriam a região. Pelo seu relato a situação NÃO está sob controle e não existe previsão para acabarem com o fogo. Por isso mesmo o que ele disse foi que a última coisa que precisam agora é de turistas dentro do parque. Embora a entrada leste por Laguna Amarga e Las Torres esteja aberta e não está sendo atingida por fumaça e cinzas, recomenda-se fortemente que turistas não iniciem trilhas amanhã. A Província de Última Esperanza continua em alerta vermelho e já solicitaram ajuda do fundo público, dos militares e de brigadas de bombeiros argentinos. O último grande incêndio que atingiu o Parque Nacional de Torres Del Paine foi em 2005, também de proporções devastadoras. Foram 1,9 mil hectares queimados que demoraram cerca de 15 dias para serem contidos. Na época o governo demorou uma semana para pedir ajuda argentina. O corpo de bombeiros chileno é voluntário e não é uma carreira remunerada. Não existe um plano de contenção para a região. O incêndio de 2005 foi causado por um turista tcheco. Ele foi multado em US$120mil e deixou o país sem maiores consequencias. O Governo da República Tcheca enviou dinheiro, material e especialistas para ajudar a recuperar os danos ambientais causados. O incêndio que ocorre agora foi causado por um grupo de turistas israelenses que estavam acampando fora das áreas de camping. Não temos mais nenhuma informação sobre eles até agora, mas na minha opinão isso é crime e deveria dar cadeia.


FOGO EM TORRES DEL PAINE

Ontem antes de partir de El Calafate o Carlos, dono do Hostel Buenos Aires onde eu estava hospedada, disse que tinha recebido notícias de um incêndio no Parque Nacional Torres Del Paine. Fui para a rodoviária preocupadíssima, já que minha intenção era entrar no parque hoje e acampar por 3 dias nas trilhas. Sem muitas informações lá fui eu para uma viagem de cerca de 6 horas de ônibus non-stop. Mentira! Teve stop apenas para imigração na fronteira da Argentina com o Chile, mas não foi um stop nada agradável. Fila longa, muita espera e NENHUMA tienda vendendo comida ou água. Eu tinha separado um lanche para a viagem, mas acabei dando para um cachorrão adorável que veio fazer festa para mim enquanto eu esperava o ônibus. De qualquer forma acredito que ele tenha aproveitado mais o sanduiche de queijo, e eu posso sobreviver algumas horas sem comida e não necessariamente morrer de inanição. A paisagem dessa parte da Patagônia é bem erma. Completamente oposta da Terra do Fogo, onde árvores, riachos, lagoas compunham um quadro muito mais úmido à Cordilheira Nevada. Com trechos muito mais planos a Província de Santa Cruz, na Argentina, e na de Última Esperanza, no Chile, que apresentam imensidões secas e horizontes desérticos. Pode-se quase ouvir os acordes de uma guitarra à la conto de Sam Shepard. Kilometros e kilometros de estrada sem absolutamente nada do lado de fora. Vegetação rasteira, algumas ovelhas pastando, das estâncias ao redor. Puerto Natales está bem mais frio que El Calafate. Um vento gelado, embora hoje esteja fazendo um belo dia de Sol. Aqueles dias típicos de inverno que estamos acostumados no Brasil, em que o Sol brilha forte e é muito gostoso sentar nele, mas à sombra se congela e uma xícara de chá de camomila pode ser o maior conforto que se procura no mundo. Ontem até desempacotar, procurar ATM, procurar um lugar aberto para jantar, tomar banho e colocar pijama, já era mais de 1h da manhã. Quase imperceptível já que o Sol se pôs às 22h30. Eram 22h50, eu entrava em um bar para comer uma das piores pizzas da minha vida, e a luz que rodeava a cidade era de um alaranjado deslumbrante. Pena que eu estava cansada demais para manter os olhos totalmente abertos. Hoje acordei às 8h30. O mais tarde possível em um hostel de trekkers. O dono do Erratic Rock Hostel é o Bill, um estadounidense com alma latina. Ele pessoalmente serve o café da manhã enquanto conversa e pergunta dos seus planos. Café da manhã, aliás, digno de quem vai fazer trilha por 12 horas no meio do mato. Cereais, 3 tipos de iogurte, café, leite, chá, geléias caseiras diversas, pão caseiro incrível e omelete fresquinha que ele mesmo faz. O melhor de tudo (e uma raridade nesses hostels): manteiga de verdade! Em geral nos servem alguma margarina processada e barata totalmente intragável. Durante o café consegui mais informações sobre o incêndio. Começou na noite do dia 27 para o dia 28 de Dezembro. Até agora já atingiu cerca de 300 hectares do parque. A parte oeste foi evacuada, mas a parte leste continua aberta e sem risco para turistas. Alguns hikers que voltaram hoje para o hostel disseram que a vista das torres está comprometida, e que se avista a fumaça mesmo a distância. O incêndio começou nas redondezas da Laguna Los Patos e Lago Grey, acredita-se por um grupo de turistas israelenses que acenderam uma fogueira para cozinhar. Fogueiras são proibidas dentro do parque, fora dos campings designados. O W (que é a rota de 5 dias e uma alternativa muito popular do trekking completo de Paines de 10 dias) está impossibilitado de ser feito. Os refúgios Grey, Pehoe, Paine Grande, Campamento Italiano e o Vale Francês estão fechados. Essa é exatamente a região do centro do W, ou seja, não se pode cruzar do lado oeste para o leste. Cerca de 400 pessoas foram evacuadas dessa região. Existe uma brigada com mais de 120 pessoas, bombeiros e voluntários trabalhando para conter o fogo. A Província de Última Esperanza continua em alerta vermelho e conta com a chegada de helicópteros agora ao meio-dia. A região atingida pelo incêndio só pode ser acessada por ar ou por barco pelo lago. Os ventos fortíssimos têm contribuído para espalhar as chamas na região que já é bastante seca, além de dificultarem o acesso dos helicópteros à área. Até agora as autoridades dizem estar atacando o incêndio pela cabeça e pelo final e declaram ter a situação sob controle. A entrada leste continua ativa, e o turismo pelo Campamento Chileno, Campamento Torres, Campamento Serón e Refúgio Dickson continuam normalmente. Assim como o Paso John Gardner, mas não é possível dar a volta e é necessário caminhar o percurso todo de volta. Ninguém falou da situação no Refugio Los Cuernos. Aqui não temos muito mais notícias, as mais confiáveis vêm dos trekkers que chegam evacuados do Parque, e há muito especulação na mídia. Eu cancelei minha ida hoje ao parque e estou me preparando para entrar amanhã. Provavelmente devo entrar por Laguna Amarga e seguir até o Campamento Torres, acordar de madrugada para subir ao mirador e tentar fazer belas fotos vermelhas do amanhecer. É possível que daquele ponto tenha uma enorme moldura de fumaça. De qualquer forma estou na esperança de, até o final do dia estar tudo mais controlado.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

EL CALAFATE



Amanhã estou empacotando novamente, dessa vez para Puerto Natales, Patagônia chilena. Foram 4 dias em El Calafate. Dois deles bem estranhos. Calafate é uma frutinha típica aqui da patagônia. Pequena como uma ameixinha, também tem coloração roxa e é bem gostosa. Eles fazem sorvete de calafate e é a sensação entre os turistas. Se for provar aconselho o da Ovejitas de Patagonia, uma loja de chocolates, alfajors e sorvetes da região. Tudo muuuito gostoso. El Calafate também é a cidade que serve de base para uma das entradas do Parque Nacional dos Glaciais, a mais próxima do famoso Glacial de Perito Moreno, e é a cidade do Kirchners!!! Sim! Aqui se apóia a presidente até embaixo do gelo. Também não é por menos. Há cerca de 10 anos El Calafate não tinha mais de 5000 habitantes. Hoje é uma das grandes potências do turismo na Patagônia. Ganhou infra-estrutura, injeção de dinheiro e um aeroporto. Então El Calafate até que é uma cidade fofinha. Tem uma rua principal, onde estão todas as lojas e restaurantes, e é basicamente isso. Cheguei no Natal e encontrei Shamila. Ficamos tomando um vinho no hostel dela e depois fomos para esse bar que parece que oferecia um menu completo de ceia de Natal. O que acabou se tornando o maior engodo. Foi caro, a comida horrível e acabamos fazendo amizade com um casal francês ao nosso lado que também tinha caído no tal menu. Saímos de lá e fomos para um bar tomar drinks e dar risada. Tomei Piña Colada. No domingo de Natal estava tudo fechado. Tudo, eu digo tudo mesmo. Não consegui nem comprar comida. Bateu uma tristezinha de estar longe da família. Passei o dia tentando ligar para minha mãe sem sucesso. Rolou um “snif”. Então eu fui em um restaurante com cara de bacana, pedi um ravióli de espinafre com molho de cogumelos e uma garrafa de vinho, e fiz uma boa refeição. Só percebi os efeitos da garrafa de vinho quando levantei. No dia 26 também tudo fechado. Rá! Como o feriado caiu no domingo, eles esticam para a segunda, vê se pode! Aproveitei para dar uma pausa e reorganizar minha programação, já que o tour de Dientes Navarino não vai rolar. Resolvi ir para Puerto Natales fazer o W da Torres Del Paine e depois para El Chaltén. Porque uma coisa que se descobre bem rápido aqui é que as melhores coisas para se fazer estão em El Chaltén. Tudo bem, aqui tem Perito Moreno, o tal glacial, mas é basicamente só isso. As outras opções de passeio você pode fazer melhor em algum outro ponto da Patagônia. Se a pessoa está só em El Calafate, entendo. Mas para quem vai viajar outras cidade, não tem porque perder tempo e dinheiro fazendo cavalgadas, 4x4, "safaris aquaticos", e etc. Tudo muito caro para o que oferecem. O Minitrekking não. Esse foi espetacular. Conforme o barquinho foi se aproximando daquela maçaroca de gelo, eu só pensava: “Nussa!”. É como um túnel do tempo ao nosso passado. A prova mais concreta da Era do Gelo, ali, imensa, palpável. Perito Moreno agora está encostado na montanha novamente. Em 2008 ele se rompeu, foi um show. Agora encostou novamente e ninguém sabe dizer quando vai se romper. Fico imaginando o poder de uma cratera de gelo sendo implodida pela água. Deve ser assustador. Duranto o tempo que estávamos no trekking, virava e mexia alguma pedra se desprendia e caia no lago. Era uma coisa assustadora. O som ecoava por todo o vale como se fosse uma bomba, e parece que não vai parar. Toda aquela imensidão azul e branca de gelo de repente tão frágil, desmoronando na sua frente. E você não sabe se vai ser dessa vez que o glacial inteiro vai derreter, como torrão de açúcar em chá quente. O Minitrekking é feito por uma região de degelo do glacial. Então é como passear por enormes dunas de gelo, com diversas poças, lagoas, riachinhos azuis celestes, que vão se formando e correndo embaixo dos pés. Demora um tempo para acreditar que estamos caminhando sobre as águas. E quando se entende, aí sim a gente vê o milagre. Depois ainda fomos às passarelas, que são enormes e proporcionam uma visão completa da imensidão do glacial. Eu encostei no parapeito e fiquei um tempão ali refletindo. Não pelo assombro da visão (que é sim um assombro, e é difícil de acreditar que estamos de fato frente a algo real), mas pela nossa insignificância. Um pouco antes lá estava eu, cravando meus crampons em parte do gelo. Perdida em dunas de água e azul. Depois ao longe me enxerguei um verme, achando que dominava algo do gigante indomável da vida. Ficar frente a tamanho assombro torna nossa insiguinicância concreta. Falta tanto para nós! Existem coisas que são absolutas. Que traduzem o sentido de imensidão. Afinal, aquilo tudo é só água. A boa e velha H2O. Ainda assim ela pode acabar com a gente em um estalar de dedos. Esmagar como sem que ao menos possam ouvir o ruido dos nossos ossos quebrando. Só porque o mundo é um lugar grande demais para que o dominemos. Graças à Deus!


sábado, 24 de dezembro de 2011

UMA SEMANA DE UMA VEZ


Eu tinha intenção de, pelo menos durante a viagem, manter o blog mais ativo. Acontece que de boas intenções o inferno está cheio, e esse ditado minha vózinha já dizia. Então tentando alcançar o tempo perdido (mesmo que seja uma ilusão alcançar qualquer tempo) aqui vai um mega post com tudo e mais um pouco da minha primeira semana na Patagônia. Segura aí!


Sábado, 17/dez

Juro que tinha isso no aeroporto!


Meu vôo sairia às 7h de Guarulhos. Isso significa que fiz minha irmã acordar às 4h comigo para me levar ao aeroporto. Primeiro veio a notícia de um atraso, depois o vôo foi cancelado, e o que se sucedeu foi uma bizarra jornada de 14 horas presa no aeroporto porque a Aerolíneas Argentinas está tão falida que não queria pagar hotel nem alimentação para a gente. Então acharam que a melhor solução era enrolar todos os passageiros na sala de embarque o máximo que pudessem. Acabei fazendo amizade com metade dos passageiros. Chegou ao ponto de alguém perder o controle e tentar acertar a cabeça do atendente com um desses mastros de demarcar fila. Houve bate boca, palavrão. Tudo muito triste. Então resolveram fazer alguma coisa e nos colocaram em um vôo da Gol que sairia para Buenos Aires às 19h. Quando todos já estavam sem energia, mofando na fila de check in da Gol, eu consegui uma gargalhada geral quando confessei que estava fazendo essa viagem para tratar uma crise de Burnout. Trágico, mas hilário. Dormi em Buenos Aires para pegar a conexão para Ushuaia só no dia seguinte. Um dia a menos de Patagônia.


Domingo, 18/dez

No "cuelo del Mundo".


Tomei café da manhã assistindo aos argentinos vibrando com a lavada do Barcelona sobre o Santos. Dormi quase todo o vôo de 3 horas até Ushuaia e acordei com o anúncio dos procedimentos de pouso. Olhei pela janela e estávamos sobre as nuvens, imagem linda, toda branca como um sonho. Então as nuvens foram lentamente se dissipando e abrindo para revelar uma Cordilheira dos Andes nevada bem aos meus pés. Meu coração disparou. É como pousar no Rio vendo a Baía de Guanabara, ou chegar na Guatemala com um vulcão em erupção. Uma dessas vistas que nos marcam para sempre e fazem um maravilhoso prólogo de uma viagem que está por vir. Se fosse um filme teria uma trilha sonora. Na realidade eu ouvia Bob Dylan no Ipod. A cidade é adorável. Fiquei passeando pela orla do Canal de Beagle e me apaixonei pela minha nova lente 20mm. Comprei um vinho caro e fiz amizades no hostel.


Segunda-feira, 19/dez

Olha a metida velejando no Canal de Beagle.


Acordei pensando em ir ao Parque Nacional da Terra do Fogo, mas mudei de ideia durante o café da manhã e me juntei à Shamilla e Christopher, meus companheiros de quarto, que estavam indo fazer uma navegação pelo Canal de Beagle. Fomos com a empresa Três Marias que é super indicada em todos os guias de viagem. Eles fogem do roteiro convencional e usam veleiros em vez dos horríveis catamarãs. Vendo os catamarãs no porto não tinha como evitar a associação àqueles ônibus turísticos de dois andares que ficam rodeando Roma e Paris. Dá calafrios! Navegação foi incrível. O guia era um garoto adorável e fiquei tomando chimarrão (mas aqui eles chamam de mate) com ele e o piloto (é piloto que se diz? Marinheiro? Comandante? Chefe? Motorista? Humpf!). Pontos altos foram a Isla de Lobos, repleta de leões marinhos. Impressionante e bem inacreditável estar em um lugar em que se pode ter contato com animais em seus habitats naturais. Não cansava de fotografar. (Além de pular e dar gritos como uma criança). Depois fizemos um curto trekking na Isla H, com reservas antropológicas dos Yamanás. Curiosíssimo! Comi alface do mar. Foi gostoso. Ao final, eu e Shamilla almoçamos juntas e fomos no Museu do Presídio. Engraçado como acho fascinante museus de presídios. Algo errado comigo. E depois eu fui comprar uma calça de hiking nova. Dei uma boa engordada e a minha já não estava nada confortável. Lojas de equipamentos aqui estão por todos os lados. Os preços ridiculamente mais baratos do que no Brasil. Voltei para o hostel em tempo de desejar feliz aniversário para a minha irmã e para a MH.


Terça-feira, 20/dez

Ache o castor!


Passei o dia surtando tentando trabalhar. Completamente improdutiva. Sei que não deveria, mas fico toda atrapalhada. Ao final do dia fiz um tour em uma castoreira. Castores não são animais nativos, mas foram trazidos para o Ushuaia para produção de peles. A indústria deu errado e largaram os bichinhos na natureza. Sem predadores naturais, viraram uma praga. Ainda assim são adoráveis de serem vistos, e como são animais noturnos só saem ao entardecer. No tour estavam um dos passageiros do episódio de Cumbica com o filho. Nos divertimos. Fiquei assistindo os bichinhos construindo o dique no rio e tirando fotos, depois voltamos ao Valle Hermoso onde os anfitriões Andreas e Kiti prepararam jantar. Um maravilhoso prato vegetariano para mim. Vinho, lareira e conversa até meia-noite. Noite perfeita.


Quarta-feira, 21/dez

Notem a quantidade de cocô de pinguim na minha roupa.


Chegada do verão e nevou durante a noite. Os Andes a volta da cidade amanheceram completamente brancos. Uma visão de tirar o fôlego Ushuaia com moldura de neve. Fui cedo para o porto encontrar o tour da Piratour para a ilha dos pingüins. A Piratour é a única que efetivamente desembarca na ilha para que se possa andar com eles. Uma viagem um pouco longa e cansativa. O dia estava chuvoso e nublado. Mas assim que chegamos... Inacreditável! Haviam centenas de pingüins na costa. Ainda não consigo acreditar na visão. Tinha vontade de sair correndo e abraçar todos eles como a Felícia do desenho, mas a regra era se mover o mais lentamente possível. Tirei milhões de fotos. Milhões. Deitei nas pedras da praia, troquei lentes. Na região existem duas espécies, os magallanes e os papuas. Mas tivemos sorte porque na ilha havia um pingüim rei perdido. Lindo! Tentando fazer mimetismo entre os amiguinhos. Entre os ninhos podíamos ver os filhotinhos. Os ovos se chocaram há 20 dias e os bebês já saem para pequenas voltas. Retornando ao barco fui atacada por um pingüim. Ele veio pulando na trilha, tentando bicar minha perna. Comprei pingüins de pelúcia para meus sobrinhos.


Quinta-feira, 22/dez

Mim qué!


Acordei bem cedo para fazer um tour de 4x4 pelo parque. No carro um casal basco com o filho de 25 anos e um amigo, e um casal argentino. Todos ótimas pessoas. Paramos em uma estação de esqui no caminho para um café e no período de 2 horas o tempo passou pelas 4 estações do ano. Começou com muito vento, daí nublou, choveu, neve, abriu com Sol, nublou de novo, vento e chuva. Em 2 horas!!! Juro! Tenho congelado de frio. Fizemos a trilha de 4x4 e paramos na beira do Lago Escondido para um picnic. O guia fez churrasco. Para mim assou pepinos (!!!). Duas raposas ficaram rodeando. Lindas! Vinham tão pertinho, tentavam me cheirar. Eram como cachorrinhos fofos. Mais milhares de fotos! Depois fomos andando pela beira do lago até uma estalagem onde pegamos algumas canoas e passamos 1 hora no lago remando e destruindo os músculos do ombro. À noite estava tão exausta que baixei um filme no computador e fiquei assistindo na cama.


Sexta-feira, 23/dez

E esse foi só o começo da trilha.


Resolvi finalmente ir até o Parque Nacional da Terra do Fogo. Levei meu passaporte para carimbar no Correo Del Fin Del Mundo. Eles colocam um carimbo de que você esteve no fim do mundo. É bobo, mas é legal! Mandei postais para meus sobrinhos de lá também. Vão com carimbo de fim do mundo. Hahahah!Fiz a trilha Costanera, linda! Daquelas paisagens que nos fazem lembrar que estamos vivos, que o mundo é um lugar maravilhoso e que Deus existe. Parei em uma encosta para fazer picnic. O frio fazia o azul do céu ficar ainda mais forte. Poderia passar a tarde toda ali. Mas apertei o passo porque queria voltar antes das 17h para a cidade. Queria enviar por correio os pingüins dos meus sobrinhos para aliviar o peso da mochila. Acontece que cheguei em Ushuaia e tudo fechado. Por causa do Natal! Absurdo. Fiquei tão puta que comi dois churros. Com doce de leite. Voltei para o hostel e a empresa que estava reservando a trilha de Dientes Navarino que eu ia fazer semana que vem fez uma confusão danada e queria fazer várias exigências para a reserva. Eu teria que perder um dia de burocracia para resolver tudo. Fiquei puta duas vezes. Cancelei o tour e fui até uma casa de vinhos. Comprei o vinho mais caro que eles tinham e passei a noite tomando o maravilhoso Angelica Zapata e mudando meus planos para a próxima semanal.


Hoje embarco para El Calafate. Shamilla já está lá e disse que arrumou uma ceia de Natal para nós junto com alguns locais. Acho que vai ser divertido. Tive de socar todos os pingüins dentro da mochila. Estou com medo de ser presa no aeroporto por crime ambiental. De qualquer forma, peso extra vou ter de pagar.