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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

1001 maneiras diferentes de cozinhar melanzane


Acho que viajei mais nesses últimos 3 anos do que na minha vida inteira. É legal sim. É um puta privilégio. Um pouco cansativo também. Na minha última viagem eu ficava me perguntando como consegui ficar aquele tempo todo na mochila em 2010. Sem dúvida que os amigos que me abrigaram por jornadas mais longas no meio do caminho foram essenciais. Por mais maravilhoso que seja viajar, se você não tiver a mínima referência de casa, vai enlouquecer. De verdade. Trombei com vários que estavam bem fora da casinha. Cruzaram a linha. Ficaram tanto tempo fora que talvez nunca mais sejam capazes de voltar. Eles possuem uma certa ânsia nos olhos, e ficavam largados pelos hosteis. Estavam 2-3 anos fora de casa. Já não sabem mais nem definir suas nacionalidades. É muito sedutora a vida na mochila. Ela te chama, te clama. Você quer muito ir, mas depois de um tempo dá medo de não voltar. Eu sempre fico maquinando maneiras de descobrir o meio termo. Sempre disse que quero criar meus filhos na mochila, trocando fralda em aeroporto. Já não tenho mais essa ilusão. Pela simples razão de que não acredito mais ser possível encontrar alguém com o mesmo pique. Alguém que goste da mochila, sem ter dreads e ser hippie; ou que ame a cidade e todas as frescuras que eu gosto nela, sem ser um coxinha empertigado. De qualquer forma, não vem ao caso. Tirei umas férias esse mês e, embora em um primeiro momento meu impulso tenha sido de narrar a viagem como sempre faço por aqui, dessa vez senti que precisava de fato ficar em silêncio. Tenho sentido a vida me fechando tantas portas, e eu precisava ficar quietinha para poder ouvir onde as outras estavam se abrindo. Foi ótimo. Achei foco. Achei o que eu queria no meio da balburdia que eu sou. Voltei com o olho na bola. Decidida também a cortar o cabelo e fazer uma tatuagem. É. Viajar pode ser perigoso também. Dessa vez dei uma passada em Portugal, só para ver pessoas que eu amo e que não posso ver todo dia porque o mundo é muito grande e coloca pedaços da minha alma espalhados entre oceanos. Talvez por isso eu sinto que preciso sempre partir. Depois eu e a Keka embarcamos para a Itália. Primeiro porque ela não conhecia. Segundo porque em Roma foi um dos lugares onde eu fui mais feliz. E é sempre legal voltar para lugares onde se é feliz. O mais gostoso é descobrir que aquele lugar te desperta ainda mais amor do que você tinha pensado. De uma forma que eu só conseguia suspirar pontualmente ao longo do dia “Eu amo Roma!”. Sim, e Roma é amor ao contrário. Ela estava lá, do jeitinho que eu lembrava. Com o metrô caótico, as ruas cheias de turistas. O calor escaldante, os nasonos jorrando água. Os melhores gelatos do mundo. Depois descemos para Nápolis, que foi bem decepcionante. Feia, suja, perigosa. Totalmente dispensável. E de lá, Erna nos encontrou e embarcamos em um Panda pela Costianera Amalfitana até Réggio di Calábria. Foi lindo. Foi como viver em um filme. Aquela costa deslumbrante, de mar azul e seixos quentes. A água salgada e transparente. Os dias intermináveis à 40o e spritz ao final da tarde com aperitivos. Vilas medievais. Vielas que nos imploravam por fotos. Na Calábria encontramos Schilla. Uma vilazinha de pescadores que foi paixão imediata das três. Víamos o Sol se pondo quase na Sicília, e jantamos sobre pallets com uma lua cheia gigante refletida na água. O melhor de ter feito tudo isso, foi ter feito sem a neurose de mandar emails, trabalhar, verificar mídias sociais, falar em skype. Sem nenhuma interferência que me tirasse da viagem. Apesar de ter viajado tanto ultimamente sempre estou com interferências me deixando incompleta na viagem. Isso devo muito à Itália. O italiano vive o momento. Ele é muito inteiro no que ele faz. Se ama, ama. Se chora, chora. Se está vivendo aquele momento, ele vive o momento por inteiro. Acho que a vida cosmopolita nos impele a ser multitarefados demais. Não basta tirar férias, é preciso atualizar status de FB, twittar a previsão do tempo, mandar email pro povo do escritório. Eu resolvi assumir o italian way of life e quando chegamos em Schilla eu já tinha certeza de que, embora eu seja feliz na minha vida e goste das coisas que eu faço, eu não estava vivendo a vida que amo. Porque existe uma diferença entre gostar e amar. Sim, eu gosto do meu trabalho. Não, não é a coisa que mais amo. Acho que se não tivesse feito essa descoberta tão óbvia até Schilla, não teria tido uma experiência tão formidável na Sicília que estava para vir. Erna se despediu em Catânia. Eu e Keka continuamos na Sicília, seguimos para as Ilhas Eólicas e depois encontramos Fran em Palermo para seguir para Trapani e as Ilhas Égadi. Talvez seja a baixa expectativa, já que eu esperava da Sicília uma paisagem desgastada e maltratada. Talvez seja porque aquelas ilhas são mágicas mesmo. Mas eu me rendi, me bronzeei. Descobri mil maneiras diferentes de comer melanzane (a nossa berijela). Me fartei em comidas, cheiros, vinhos. Tudo encharcado de azeite (e que azeite!), de molho de tomate tão fresco e tão doce. Tardes engolindo azeitonas. Longas caminhadas, mergulhos entre água-vivas. Desencanei do peso, das manchas na pele. Das roupas sujas de tanto tempo de mochila. Tem algo dentro de mim que é italiano. Tem algo que mora ali, naquele mar mediterrâneo. Voltei mais cedo. Quando se resolve o que quer da vida, não temos muito mais vontade de enrolar. Naquele mar resolvi o conflito do meu livro, reconquistei minha vontade de me apaixonar. Resolvi também a trama para mais dois livros e inspiração para um outro. Assim, em algumas semana, quatro livros. Quatro tatuagens. Eu nunca comprava berinjela em casa. Nunca sabia o que fazer com ela. Essa semana fui à quitanda. Na geladeira tem dois tipos diferentes de berinjela. Manjericão, limão siciliano, abobrinha, cogumelos. Só o tomate que não deu certo. Tava feio e tão caro! Eu, particularmente, gosto da vida com sabores frescos. Muitas vezes é só descobrir o que fazer com os ingredientes. 

(PS.: eu ainda vou voltar para a Sicília, aprender a cozinhar e escrever um livro com esse nome: “1001 maneiras diferentes de cozinhar melanzane”)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Dolce far niente


Embora eu viaje mais do que o Lula na época do governo, estou no meio das minhas férias oficiais. Minha ânsia por conhecer o mundo antes de morrer queria carimbar o passaporte com outros países inéditos no álbum de figurinha, mas daí entre conversas com a Keka, planos de visitar a Carol no Porto, acabei pegando as milhagens guardadas e investindo tudo em uma volta ao Velho Mundo. Passei uma semana em Portugal revendo amigos e embarquei de volta a Roma, um dos lugares onde fui mais feliz durante meu ano sabático. Existe uma coisa curiosa quando você revisita um lugar que lhe é importante. Nos damos conta do tempo, da jornada. De tudo o que eu buscava quando estive na Itália pela primeira vez. A Itália foi um lugar em que eu amei. Amei em toda complexidade do verbo. Amei lugares, amei prazeres, amei amigas, amei um garoto. Mas uma das coisas que eu havia esquecido, é que foi na Itália que eu mais me amei. Foi um pouco chocante voltar e descobrir em mim como tem escapado tudo o que eu fui em busca e conquistei. Como eu deixei a vida me engolir novamente e me perdendo de mim mesma. Verdade que encontrei muitas outras coisas. Algumas de forma dolorida, outras alentadoras. Eu engordei. Perdi tantos amigos. Mas voltei ao vegetarianismo com uma propriedade enorme, e encontrei o budismo. Virei mãe de uma gata. E descobri que posso ser boa profissionalmente em tantas coisas. Fui capaz de reconstruir uma rotina e montar uma vida. Só que não é exatamente a vida que eu queria. Não estou reclamando. Tenho uma vida muito boa. Mas será que depois de ter ido tão longe, abdicado de tanta coisa, era essa a vida que eu buscava. Eu tive a sorte de ganhar um bilhete em branco, para ser o que eu quisesse. E é isso que eu estou fazendo com ele? Porque é tão fácil se perder de nós mesmos? Sempre achei que o mais difícil era largar tudo e pular. Porque então eu insisto em voltar para o mesmo lugar? Eu penso se talvez nossas frustrações pessoais não venham exatamente do medo de se reinventar de verdade. E se não agora, quando? Se existe um lugar no mundo onde eu me sinto inteira é na Itália. Talvez porque ela vá sempre permanecer. Talvez porque entre a bagunça e o barulhos dessas cidades, as pessoas vivem. Eles falam, gritam, brigam, comem. Mas de todas as pessoas no mundo, os italianos são os únicos que estão inteiros no momento. É o “dolce far niente”. A capacidade de aproveitar o momento com calma, de absorver a vida com tudo o que ela tem. Mesmo carregando o peso de toda a história da civilização ocidental, as coisas são no momento. Nunca deixaram de ser. Por isso a Itália vai permanecer. Mesmo com a crise, mesmo que o Euro quebre semana que vem. A Itália é um país eterno. E se você não é capaz de ser inteira aqui, não será em nenhum lugar. Nós descemos de Nápoles pela Costa Amalfitana, comemos kilos de pizzas, risotos e pasta. Tomamos vinhos, graniti di limone, gelato todos os dias. Como se cada dia fosse o único que nos sobrasse. No budismo acredita-se que você deve meditar sobre a morte. Sobre a possiblidade da morte. Somente sentindo verdadeiramente que a morte pode acontecer a qualquer momento, daremos o valor e a importância que o dia de hoje tem. A vida é uma benção. Não é glamurosa, nem extraordinária. Não vem repleta de aventuras mirabolantes como filme hollywoodiano. Mas é uma benção e acontece em um só momento: agora. Por isso é pouco passar os dias sendo quem você não quer ser. E se não agora, quando?

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

I BELIEVE IN MIRACLES!!!!!!!!!!!!!

Quem acredita em milagres levanta a mão!
:-)
Eu tinha perdido todas minhas fotos de Roma, né!? Todas, todas, todas. Chequei em cada cantinho do computador. Fui cheia de esperanças no meu HD externo, mas eu não sou muito boa com essa coisa de backup, então ficou tudo perdido mesmo.
Não é que ontem, estou arrumando as últimas fotos da Suíça, e as duas pastas de Roma aparecem do nada. Na minha cara. No arquivo "My Pictures". Inteirinhas, intactas. Todas minhas fotos da cidade do Amor. Eu não acredito em coincidências. Só para provar como a coisa é louca, fiz uns 3-4 backups desde que constatei que tinha perdido as fotos. As pastas reapareceram no meu computador agora, mas não estão no HD de backup. Estranho? Não. No lugar em que eu vivo é cheio de coisas assim.
O amor voltou para mim!

sábado, 4 de setembro de 2010

O QUE SE DEVE E O QUE SE QUER

Ando pensando muito no que eu QUERO para mim. Muitas vezes eu acabo esbarrando no que eu DEVO fazer. Cada vez fica mais claro que a gente não DEVE nada a ninguém. Como viajante, por exemplo. Quando eu comecei essa jornada, mesmo que inconscientemente, ficava um sentimento de obrigação de ver e fazer determinadas coisas. Isso é o que sempre me intrigou em turistas. O Alê me falou que turistas (vulgo “gafanhotos”) são os proletários do novo século. Eles acordam cedinho todos os dias, pegam filas, tiram fotos de todos os monumentos e ticam em suas listas de coisas a fazer tudo direitinho. (Torre Eiffel. OK. Big Ben. OK. London Eye. OK. Sagrada Família. OK. Coliseu. OK.) Depois voltam para casa todos orgulhosos com o dever cumprido. Fazer turismo é praticamente coletar provas de que se esteve em determinados lugares. Não vou dizer que não fiz coisas que eu sentia que DEVIA fazer porque eu estaria mentindo. É muito comum ouvir a frase “Como você esteve em tal lugar e não fez tal coisa?”. Então eu me lembro da primeira vez que cheguei na Fontana de Trevi. Eu já estava em Roma há duas semanas, mas sem muita vontade de explorar os pontos turísticos. Uma tarde saí da escola e desci no metrô Barberini para achar a tal fonte de Fellini. Fui sem o mapa, meio deixando a cidade me empurrar até ela. Cai em uma rua de trás, saindo ao lado da Fontana e o que eu vi foram cerca de 500 pessoas amontoadas tirando fotos frenéticamente na minha direção. Por um segundo tive a sensação de ser uma celebridade perseguida por paparazzi. Quando olhei para o lado vi a tal Fontana. Ela lá, parada. Sem a Anita Ekberg dançando para Marcello Mastroiani. Mesmo assim centenas de pessoas apinhadas gritavam, falavam e tiravam fotos desesperadamente. Não resisti e comecei a rir. Comprei um gelatto e sentei no meio dos gafanhotos e fiquei rindo. Fiquei um bom tempo rindo no meio daquilo tudo. Impossível tirar uma fotografia sem um milhão de cabeças na frente. (Fiz questão de tirar uma no meio dos gafanhotos!!!) Pessoas pulando para jogar moedinhas. Adolescentes ensaiando poses sensuais. Todo mundo muito satisfeito com o dever cumprido. (Estive na Fontana de Trevi e lembrei de você!) Fiquei imaginando as pessoas voltando para casa de viagem, e mostrando as fotografias para os amigos com centenas de cabeças de estranhos na frente. Claro que a questão não é conseguir tirar uma fotografia sem “poluição”. Para isso existem cartões postais (e fotógrafos muito melhores do que todos nós). Mas eu fico me perguntando porque essas pessoas estavam fotografando? Porque elas estavam ali? Será que elas realmente queriam estar ali ou elas sentiam que “uma vez em Roma...” elas DEVIAM estar ali. Mesmo porque os romanos mesmos nem passam perto daquela praça. Esse é um exemplo extremo. Roma é uma cidade que transcende todos os clichês de turismo. É o maior festival de gafanhotos da face terrestre e não seria Roma se não fosse também isso. O que me leva para o oposto. Vira e mexe me aconselham a não ir para determinadas cidades porque “não tem nada para fazer”. Eu fico pensando porque será que as pessoas me dizem isso? O que será que elas estavam procurando lá que não encontraram? Ontem um australiano me dizia para não ir para Geneva porque não tinha nada lá e me perguntou como era a vida noturna no Marrocos. Sabe que nem pensei nisso! Nunca me passou pela cabeça que eu DEVESSE conhecer a vida noturna de todos os lugares que eu fosse. Às vezes as pessoas funcionam assim. “Sightseeing”. OK. “Comida típica”. OK. “Vida noturna”. OK. “Museu”. OK. Muitas delas detestam museus. Eu estava com um amigo em um museu há alguns meses atrás, eu procurando a sala que tinha um Veermer que eu queria ver. Quando encontramos eu parei em frente ao quadro e fiquei observando um pouco. Ele virou para mim e perguntou “Esse é um quadro famoso?”. Eu respondi “É uma obra menor de Veermer, mas o pintor é bem famoso.” Então ele puxou a máquina fotográfica e tirou uma foto do quadro. (Pra quê???) “Artista famoso”. OK. Comecei a, antes de qualquer coisa, me perguntar o que eu QUERO antes de decidir fazer algo. Então ficou mais claro que o que eu DEVO fazer não tem tanto a ver com obrigação do que com realizar minhas vontades. Exemplo besta. Hoje eu estava tomando café da manhã na varanda do hostel em Interlaken. Eles têm um lounge delicioso ao ar livre com vista para os alpes a volta e eu estava tomando meu café quentinho e agradecendo ao astral como faço todos os dias. Esparramada no sofá sentindo o friozinho da manhã de Sol gelado que surgia. Então eu lembrei que estava quase na hora de fazer o check out. E eu já estou bem cansada de empacotar mochila, carregar, ir para lá, para cá... Eu pensei “Não quero empacotar minha mochila denovo.”. Eu não preciso se eu não quiser. Posso apenas ir até a recepção e dizer que vou ficar por mais uma noite. Que vou ficar por mais duas noites. Que vou ficar a semana inteira. Então eu pensei novamente no que eu quero. Eu quero ficar em Interlaken? Não. Eu quero ir para Zermatt, fazer uma clássica trilha de hiking, ver o Matterhorn. Então eu subi para o quarto não porque eu DEVIA fazer check out, ou porque eu DEVIA empacotar minha mochila. Mas porque eu QUERIA ir embora de Interlaken. Existem milhões de outras coisas que eu podia (talvez até DEVESSE) fazer em Interlaken, mas eu não sentia vontade de fazer mais nada. Acho que esse talvez seja o grande segredo. Quanto tempo eu passei na minha vida fazendo coisas que eu achava que DEVIA sem pensar se eram as coisas que eu QUERIA. Tudo é uma questão de achar o equilíbrio entre o que realmente se quer, e agir de acordo para se conseguir. Não acredito em regras. Em um conjunto de ações para se seguir e ser feliz. Algumas vezes eu vou entrar no meio de todos os gafanhotos e fazer tudo como manda o Lonely Planet porque eu QUERO fazer aquilo. Outras vou virar as costas para todas as coisas “imperdíveis” e passar a manhã inteira de pijama na cama fuçando no facebook dos meus amigos de colégio. Não existe receita para ser feliz, para se divertir. Se fosse assim nenhuma celebridade milionária tomaria antidepressivo. Quantas pessoas eu ouço reclamando do emprego, do parceiro imaturo ou infiel, da cidade barulhenta e caótica em que mora. Mas em seguida respondem, “Mas eu não quero mudar meu padrão de vida”, “Eu não quero ficar sozinha”, “Eu não quero morar em uma cidade pequena”. Então segura a onda, meu filho! Se a sua vontade de ganhar dinheiro é maior do que a de fazer o que você gosta, então você está vivendo a vida que você quer. Se a sua vontade de estar em um relacionamento é maior do que correr o risco de nunca encontrar um parceiro ideal, você está vivendo a vida que você quer. Se a sua vontade de estar em uma cidade cosmopolita é maior do que aguentar o tédio e as faltas de opções de uma cidade pequena... bem vocês entenderam. Ou vai buscar um jeito de conseguir as coisas que você quer. Escolhas são difíceis, se a gente quiser que sejam. Eu, particurlamente, acho mais difícil ficar forçando a barra para controlar a vida. Como diz aquele ditado japonês, “Seja como um bambu. Firme no solo, mas flexível ao vento.” Eu estou fincada nas minhas vontades. Me dobro ao vento não porque eu DEVO, mas para que minhas raízes nunca deixem o solo.

domingo, 20 de junho de 2010

QUATRO LOJINHAS PARA AMAR EM VENEZA (OU TRÊS LOJINHAS E MEIA...)

Ah, sim! Saí de Veneza e nem postei minha garimpada habitual de lojinhas fofas que eu gosto tanto. Mesmo postando de Ventimiglia, acho que ainda vale, porque tenho certeza de que as lojinhas continuam lá em Veneza.

GIOVANNA ZANELLA


Shoe addicted, run for your life! Essa loja faz valer a pena a viagem, o investimento e todo o stress de subir e descer escadinha de canal nessa cidade. A bonita é uma artesã de sapatos. Daquelas pessoas doidinhas e super criativas. Já estampou páginas da Haper´s Bazaar e da (Claaaro!) Vogue. Eu parei na frente da vitrini dela e tive um xilique! Quase não dei conta que estava babando e lambendo o vidro da frente. Sapatos cheios de personalidade, em cores e formatos lúdicos, para quem gosta de exclusividade. Tem scarpin em formato de gôndola, sandália à la “Era Venenosa”, e modelos com ar de época e cores super contemporâneas. Como as criações são únicas e exclusivas, dá vontade de entrar e ficar levantando cada um dos modelos para ver se algum é o seu número... mas Giovanna, que é doidinha e temperamental, fica no cantinho da loja (que é também seu atelier) trabalhando nos modelos novos e com o maior ar de “Ne touchè pas!”. Se eu comprei algum? Não tive coragem nem de perguntar o preço! Talvez nem seja tão caro, mas a mochila está transbordando.

Giovanna Zanella
Calle Carminati, 5641
30122 – Veneza
giovannazanella@yahoo.it
+39 041.5235500


CAMPO MARZIO DESIGN


Quando eu era criança, colecionava papel de carta. Não sei se foi isso, ou se faz parte do mesmo gene que faz mulheres babarem por sapatos e bolsa, e adorarem chocolates. Mas eu tenho uma coisa com papelarias. Sou babona, doente. Não posso entrar em uma que me esqueço por um bom par de horas. Quando a gente tromba com uma gracinha como essa então. A Campo Marzio surgiu em 1933 em Roma quando um artesão desconhecido abriu sua lojinha em que se dedicava a confecção e personalização de canetas, cardenetas e todo tipo de material de escritório. Depois da Segunda Guerra Mundial a técnica se popularizou e a Campo Marzio Bottega se espalhou por toda Itália. Eu não tinha achado essa loja em Roma, mas fui achar aqui em Veneza. A delicadeza e a quantidade de canetas, era uma coisa de enternecer o coração. Pena que eu estou com a mochilona nas costas, senão dava para entupir de mimos cada um dos meus amigos. Hoje em dia a loja já está no mundo inteiro, e entrando no site dá até para se informar em como abrir uma “bottega” na sua cidade. E aí? Pensando em ter um negócio próprio? Me chama de sócia!

Campo Marzio Design
Calle della Mandola, 3654/A
San Marco 30124 Veneza
+39 041.8122697
http://www.campomarziodesign.it/


ATELIER MAREGA E L´ATELIER (1 lojinha e ½)

Um bom motivo para voltar para Veneza? Para mim seria o Carnaval. Queria mesmo poder experimentar a festa por lá. A cidade é repleta de ateliers e lojinhas, e dá até para fazer uma oficina e voltar para casa com uma máscara “fui-eu-mesma-que-fiz-mamãe”. Mas tem gente que não tem tanto saco para artesanato (e virginianas que preferem a perfeição de quem sabe fazer), então o melhor mesmo é comprar ou alugar seu vestidão e sua máscara e sair fazendo a linha Casanova por entre os canais. Das centenas de ateliers pelos quais eu tropecei, o Atelier Marega com certeza seria onde eu me montaria para o Carnaval. As roupas e as máscaras eram todas tão luxuosas, que eu estava só esperando o Hether Ledger aparecer de trás de algum biombo. A proprietária ainda tinha a maior paciência com meu italiano tarzan e me deu uma aula de mascaras e costumes do Carnaval de Veneza, enquanto terminava lindamente de colocar penas em mais uma máscara perfeita.

Atelier Marega
Fondamenta dell´Osmarin, 4968
+39 041.5223036
http://www.marega.it/

E o L´Atelier entra como ½ lojinha. Porque é minúsculo e aconchegante e quase escondido demais. Mas a proprietária faz acessórios lindos, e o vestido de noiva que estava na vitrine me fez ter vontade de virar anoréxica para entrar nele. Suspiro...



L´Atelier
Fondamenta San Giorgio dei Schiavoni
30122 – Veneza
latelier@hotmail.fr

sábado, 19 de junho de 2010

VENTIMIGLIA


Ventimiglia é a cidade que fica na fronteira da Itália com a França. Na verdade na fronteira com Mônaco, mas a gente sabe que é tudo a mesma coisa. Como eu vim parar aqui? Bom, na verdade a gente estava procurando um jeito de sair de Veneza e chegar na França. Em Nice, mais especificamente, que é a maior cidade francesa logo próxima à Itália. Acontece que Veneza é do outro lado do país. Fazendo costa com outro oceano. Depois de pesquisar por horas e sites e possibilidades sem fim, descobri que a melhor maneira para chegar em Nice seria de trem. Aliás, de vários trens. Um até Milão. Um até Ventimiglia. E um até, enfim, Nice. Como nenhum dos dois aqui está com pressa (já que eu não tenho mais data para estar em Londres), resolvemos fazer uma quebra nessa, que seria uma torturante viagem de trem de mais de 10 horas. Ontem pegamos o trem de Veneza para Milão e outro até Ventimiglia. E reservamos um hotel aqui na intenção de seguir para Nice no dia seguinte. Acontece que Ventimiglia acabou sendo uma deliciosa surpresa. Se eu for contar, a cidade não tem nada de nada. Cidade pequena litorânea. Uma extensa praia de pedras, cercada por um encosta montanhosa. Como se fosse um aperitivo de tudo o que vamos encontrar em Cotê D´Azur. S. e eu decidimos em uníssono que seria uma boa idéa desempacotar as mochilas e esticar por aqui mais uns três dias. Estou grata. Fico angustiada de pensar que vou ter de pular igual macaco por cidades denovo. Quero fazer as coisas devagar, saborear melhor cada pedaço. E S. está na mesma vibe. Hoje fiquei andando pela cidade, me derretendo por cada cachorro que eu cruzava (Sim! Vários Cavaliers por aqui!!!). Depois coloquei meu biquini e fiquei um tempão deitada nas pedras da praia, assistindo o dia e me perdendo em pensamentos de céu, mar, estradas que desaparecem em montanhas. Depois encontrei S. e fomos até o Mercado Central (que fica algumas quadras do nosso hotel). Compramos frutas, alguns queijos, pão e suco. Sentamos na praia e fizemos picnic até começar a chover. Esfriou e chove por todo o Norte da Itália. Eu estava ouvindo nas notícias hoje que a culpa é da chegada do Verão. Com chuva e friozinho, nos trancamos no hotel. É sempre muito bom ficar na cama com o barulho de chuva na janela. Agora parece que não chove mais. Abrimos a janela e deixamos o som das ondas entrar e dormir com a gente. Hoje durante o jantar, na varanda de um restaurante a beira mar bem charmoso, soltavam fogos de artifício. S. disse que essa cidade o lembra um pouco de New Jersey Shore. Me lembra um pouco também alguma coisa de casa. Embora eu nunca tenha morado em praia... Talvez porque aqui não há gafanhotos, e seja cheia de pessoas simples, que vivem suas vidas de maneira autêntica todos os dias. Eu poderia morar em uma cidade assim por um tempo. Sinto inclusive que precisava morar em uma cidade assim por um tempo. Enquanto eu suspirava pela pracinha central, e pensava em como eu estava apaixonada por essa cidade. Surpreendida, encantada, sem ter colocado a menor das expectativas; S. vira para mim e diz “I really like this city!”. Eu soltei um sorriso de “Eu também” e segurei sua mão. Eu sei que a gente devia procurar ver os defeitos. É a tolerância a eles que vai nos fazer ficar juntos. Mas fica impossível não sucumbir quando a gente continua encontrando as coisas em comum.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

VENEZA

Ok, parem de suspirar. Todo mundo fala de Veneza, de como é romântica, de como é isso e aquilo. Mas para ser sincera eu ainda não sei o que achar dela. Minha experiência de Veneza é bem surrealista para falar a verdade. Aquele amontoado de becos e ruelinhas labirinticas, os canais para todos os lados, os preços astronômicos. Às vezes eu me derretia com a paisagem, outras me sentia em um hotel temático de Las Vegas. Tivemos chuva quase todos os dias. Consegui um tempo de Sol ontem para aproveitar a cidade, me perder pelas ruas e conversar com as pessoas. S. ficou trabalhando no Hotel quase o dia todo. Fizemos um acordo logo de cara. Como os dois trabalham virtualmente, e precisam de sua própria dose de silêncio e privacidade, combinamos que teríamos nosso tempo para ficar sozinhos e evitar que um mate o outro antes de chegar em Paris. Isso é uma coisa legal que nós temos. A capacidade de ficar em silêncio juntos. De respeitar a individualidade do outro. Assim posso trabalhar nos posts do blog, me perder tirando fotos por horas, escrever, ler; sem me preocupar em como ele se sente em relação a isso. Mesmo porque S. detesta se perder, e eu adoro. Ontem voltando para o hotel, depois de termos tido a "brilhante" idéia de tomar cerveja com um grupo de 20 e poucos anos, ficamos quase uma hora subindo e descendo escadas de canais e sem ter a menor idéia de onde estávamos. Até eu, que sou mais desencanada para esse tipo de coisa, estava stressada. Cansada, com frio, vontade de fazer xixi. Até entendo que a cidade foi projetada assim exatamente para confundir os invasores, mas poxa! Eu queria matar quem teve a idéia. E não sei quem disse que é um bom lugar para passar Lua de Mel. Após pagar uma obsenidade por um passeio de gôndola e se perder naquelas ruelinhas sem fim, mesmo com os inúteis mapas, tenho a sensação de que qualquer casamento já começa desgastado. Bom que tanto eu quanto S. conseguimos rir de nosso próprio mal-humor. No final Veneza é toda romântica também. A gente se apertava para passar nos becos que se perdiam um atrás do outro, tomamos prosseco em um jantar delicioso a luz de velas em algum restaurante que descobrimos (e provavelmente nunca seremos capazes de voltar), até tentamos pegar um Concerto de "As Quatro Estações" de Vivaldi. Mas como não conseguimos achar o teatro no meio de tanto canal, sentamos em um bar e assistimos ao jogo de França x México. E voltando para o hotel, perdidos e bêbados. Quando enfim aliviados nos descobrimos no meio da Piazza S. Marco, S. me tirou para dançar. No meio da madrugada, do nada, sem música. Lógico que na vida real a gente mais tropeçou e pisou um no pé do outro do que qualquer outra coisa. Ainda assim, era noite em Veneza, e o garoto que eu tô afim me tirou para dançar.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

EU QUEROOOOOOOOOO!!!


Ah! Olha o que eu descobri hoje? Meninas, agendem o seu dia. Coisa mais charmosa do mundo casar em Verona!!!

http://www.sposamiaverona.it/

domingo, 13 de junho de 2010

POST IT

Sabe que Shakespeare nunca saiu da Inglaterra. Mesmo assim a maior parte de suas peças se passam fora de lá. Verona é cenário de, talvez, uma de suas peças mais famosas (não sei se Hamlet é a mais famosa...), “Romeu e Julieta”! A história dos dois adolescentes apaixonados que se matam por amor. E a cidade tem cara de peça de Shakespeare. Só que com um monte de turistas. Um MOOONTE! A arena é toda charmosinha (cá entre nós, achei mais charmosa que o Coliseu!!!) e estavam montando o cenário para uma série de óperas dirigidas pelo Franco Zeffirelli que vão estreiar dia 18. Achei tão chic. Assistir “Aida” na Arena de Verona, com esse céu absurdo daqui... Hoje eram 21h e ainda estava claro. Muito calor, quase não dá para andar na rua. Fiquei até tarde ontem com os nigerianos assitindo futebol e conversando em um bar onde todo mundo que trabalhava era brasileiro. Engraçado isso. Onde vou descubro um barman brasileiro. Eles são os melhores. Te dão dicas da cidade, te contam quais as roubadas, o que vale a pena. E te dão drinks de graça. Ajuda a matar as saudades que têm estado tão grandes. Fiquei 45 minutos com a minha avó hoje no telefone. Ela chorava toda vez que dizia que sentia saudades, tadinha. Tem esse lado que é tão difícil também. Para os dois lados. Hoje fiquei o dia no meu quarto. Conversei um monte, com um monte de gente. Respondi alguns emails, trabalhei. Vou dar uma geral na mala agora. E fiz pesquisas para idéias do que fazer daqui para frente. Realmente a vida é muito sábia. Achei a melhor opção de todas e estou extasiada. Ainda bem que meu curso foi cancelado, porque quero bem mais fazer isso agora do que queria fazer o curso. Só esperar para ver se dá certo agora. Coisinha bonitinha que achei aqui de Verona. Ontem fui na Casa da Julieta. A gente sabe que é de mentirinha, e que se nem Shakespeare esteve aqui, imagine seus personagens de ficção. Mas a vida não tem graça se a gente não liga o faz de conta de vez em quando e entra na brincadeira. O museu da Julieta em si não tem muita graça. Meio vaziozão, com algumas peças de cenários usados em montagens e filmes da peça. Um balcãozinho que todo mundo se debruça e chama por Romeu. E uma estátua de bronze de Julieta, onde sempre tem um engraçadinho tirando foto apalpando os seios da moçoila. Mas o que me derreteu, e me trouxe lágrimas aos olhos, foi o túnel de passagem na entrada da casa. Todo coberto com bilhetinhos e post its e declarações de amor em todas as línguas e do mundo inteiro. Impossível ficar cético em frente disso. Sentei em frente, fiquei olhando para cima. Legal que post it é um negócio que a gente usa para deixar lembrete. Para não esquecer de coisas importantes. Fiquei imaginando os milhões de batimentos cardíacos que continham aqueles bilhetes. Tem tanta gente amando no mundo. Parece que Verona existe só para nos lembrar disso.


sábado, 12 de junho de 2010

BAD, BAD NEWS!!!

Semana de emoções intensas. Depois da frustração de ter meu curso de Escrita Criativa cancelado, ontem descobri uma coisa estarrecedora. Ainda estou chocada e não sei como reagir a isso. A pessoa aqui, (que já foi loira) conseguiu deletar sem querer todas (eu disse TODAS!!!) as fotos que tirou de Roma... Outro dia dei uma limpada na lixeira do desktop. Nem olhei o que era, só cliquei em "limpar lixeira". Vi o computador deletando "187 itens" mas não dei muita atenção. Ontem à noite, procurando as fotos para colocar no post do gelatto e da vespa.... Sim! Foi-se a pastinha de Roma. Tenho algumas que baixei no facebook e só. O resto, nunca mais. Ai que dor!!!!!!! Eu sempre acho que as coisas têm algum significado oculto. Fico aqui tentando imaginar qual o "significado oculto" disso. O que a vida está tentando me mostrar, tentando me ensinar. Será que inconscientemente eu também acho minhas fotos um lixo (engraçado que eu postei o diálogo com a Y e um monte de gente me mandou email dizendo que achavam mesmo uma boa idéia eu fazer um curso de foto. Será que todo mundo acha minhas fotos um lixo???) Para ajudar estou quase me arrependendo de ter marcado a viagem com S. Quase achando uma loucura, achando que ele não é o cara. (Qual o significado disso? Intuição? Auto-boicote?). A gente teve uma experiência especial em Granada, mas faz um tempo. Muita coisa aconteceu. Já se perdeu em mim tudo aquilo que a gente sentiu. Talvez fosse só encantamento com a novidade também... Estou achando que podemos ter muito mais ilusões em relação um ao outro, do que realmente correspondem à realidade. Somos dois estranhos na verdade. Para não surtar denovo, ou estragar tudo como eu sempre faço, tomei uma decisão. Resolvi que não vou falar com ele, ou escrever para ele, até chegar terça-feira e a gente se encontrar cara à cara. Daí eu decido o que eu faço. Se eu continuo com os planos e embarco no "test drive". Se eu decido apenas viajar por um tempo com um amigo. Ou se eu pego minha mochila e sigo para a França sozinha.  Nesse exato momento o que eu decidi foi mudar de hotel aqui em Verona. Hotéis são bem caros na Itália inteira (Ai! Dói o bolso!!!), e eu vim para o HI Hostel, que em todo lugar costuma ter uma certa qualidade de hospedagem. Pelo visto não aqui na Itália. Vou para um Bed & Breakfast agora e depois passear pela cidade do meu Tataravô. À tarde vou torcer contra a Argentina com uns nigerianos que conheci ontem à noite em um Bar. Copa do Mundo por aqui é bem morna, nada daquela emoção que eu estou acostumada. Grupos de amigos nos bares gritando e torcendo, e cerveja e buzinas... Acho que não existe lugar no mundo em que se curte a Copa como nós no Brasil. Será que isso também quer dizer alguma coisa?

sexta-feira, 11 de junho de 2010

AS PAIXÕES DE ROMA

Estou deixando essa cidade, mas não sem antes falar das duas grandes paixões de Roma. Gelatti e a vespa.

Il Gelatto

 


Cada lugar que tenho passado estou criando um vício e carregando comigo. Em Portugal foram as “natas” que, embora eu não tenha acesso em outros lugares, traduzi pelo maravilhoso hábito de sentar em uma pastisserie e comer um doce e um espresso no meio da tarde. Um respiro e uma qualidade de vida que realmente muda seu dia. Em Dublin foi o hábito de sorrir e ser gentil. Tudo bem que isso não é um vício, mas é um hábito que eu tento praticar todos os dias, mesmo quando estou rabugenta e mal-humorada. Londres, a capacidade de “olhar” a vida. Foi a cidade que despertou novamente minha curiosidade... mas eu não posso falar de Londres ainda. É um assunto desconfortável. Espanha foi a cultura de tapas. Maravilhosa! Isso devia ser sancionado pela ONU e adotado em todos países do mundo. Petiscar pequenas porções de comida enquanto se toma uma cerveja gelada e conversa-se com os amigos. Acho um mega hábito saudável. Marrocos foi insano. Ainda não me recuperei de Marrocos. De lá trouxe o cheiro do chá de hortelã, que roubou o posto do Earl Grey como meu favorito, e o suco de laranja. Quase todo dia me pego correndo atrás de um copo de suco de laranja fresco e espremido na hora. E em Roma, a grande obsessão pelos sorvetes. Tem mais sorveteria aqui do que padaria em São Paulo. E todos (TODOS!!!) são divinos. Aveludados quando chegam a boca, de explodir o paladar. Eu fiz uma pesquisa intensiva de gelatti por aqui. Todos os dias tomava pelo menos um. Sagrado. Como escovar os dentes ou passar rímel. Meus favoritos de longe: Tiramissú, Panna Cota, Pistacchio e o (preparem-se porque isso faz gritar até a mais controlada das mulheres) Nuttella! Ahhhh! Acho que o gelatto é o elemento gastronômico mais presente na vida dos romanos. Mais do que a pizza, a pasta, o vinho, ou qualquer outra coisa que a gente tem como referência. As sorveterias vivem apinhadas, em todos os bairros. Crianças, velhos, casais adolescentes, executivos, emos, metaleiros, freiras, famílias, gays, estudantes e escritoras brasileiras perdidas por Roma. Todo mundo sai pelas ruas lambendo cones de sorvete. Depois de um tempo você começa até a sentir que o seu dia não está completo se não tomou um gelatto ainda. Até por isso acho que as sorveterias ficam abertas dia e noite. Super comum ver baladeiros de plantão no meio da madrugada de Trastevere fazendo fila para comprar um gelatto. Eu tive uma chefe que, sempre que eu surtava com o trabalho (o que era bem frenquente já que eu surto sempre e por tantos motivos) virava para mim e dizia: “Adriana, vai dar uma volta, tomar um sorvete, depois você resolve isso.” E sempre funcionava. Fazer uma pausa no dia, lamber aquela maravilha gelada, deixar escorrer pela mão e melecar os dedos como criança. Comer a casquinha depois ouvindo o “crunch”. São coisas que sempre nos remetem a um tempo de infância em que tudo era fácil e as certezas muitas. Um sorvete por dia, e a gente começa a entender porque os italianos têm tanta fama de saber aproveitar a vida. Não esqueça de pedir o seu com “panna” em cima (chantilly caseiro). Quando se pára para tomar um sorvete, tem-se direito à tudo.


La Vespa



Verdadeira obsessão, Roma é toda movida a elas. Gosto muito daquele filme do Nanni Moretti, “Caro Diário” (ai! Quem nunca viu esse filme, pega no final de semana e sinta por duas horas o que é Roma!). No filme ele fica passeando o tempo todo por Roma com sua vespa. É a maior tradução da liberdade, do savoir vivre e do péssimo sistema de transporte público da cidade. As vespas são abundantes, baratas e pode-se comprar até nas agências do correio. Todo romano tem um capacete em seu kit de sobrevivência básico. Mesmo aqueles que não têm vespa. Se não têm vespa, estão sempre de carona com alguém que tenha. Elas dominam os espaços de estacionamento, ocupam quase todas as faixas das ruas. E, diferente de São Paulo em que a gente deseja a morte dos motoboys toda vez que desce a Rebouças, respeitam muito o trânsito. Adoro ficar vendo as pessoas em suas vespas paradas no farol. Mulheres elegantíssimas, de salto alto e capacete, dirigindo suas lambretinhas espertas. Homens de negócio, jovens, senhores e senhoras em um estágio bem avançado da terceira idade. Alguns tem até um protetor que vai por cima da perna e evita que suas roupas de grife fiquem sujas da poluição da cidade. Uma curiosidade que faz tudo mais charmoso ainda é que as vespas não possuem marcha. É só ligar e acelerar. Mesmo as maiores. Sem marcha. Tipo, minha sobrinha de 10 anos é capaz. Nada de complicação, nada de drama. Suba em uma vespa e aproveite a viagem. Existem vários lugares que alugam vespas para turistas, por hora ou pelo dia. Claro que eu tive oportunidade de dar uma volta. De garupa, porque continuo sem carta de motorista por causa da minha obscena pontuação no trânsito de São Paulo. Marianna, uma amiga de Ivan aqui em Roma, me levou uma noite para uma volta. Vou contar que, dar uma volta de vespa por Roma à noite é uma experiência obrigatória. Essa cidade (Que já é um desbunde!) fica indescritível toda iluminada. A Piazza Venezia surgindo atrás de uma esquina foi um dos momentos de maior maravilha que vivi até agora. Tipo de coisa que faz a gente abrir os braços e gritar “La vita è bella!”. Vou contar um segredo: Ela é mesmo. Prá caramba!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

TUDO, POR ENQUANTO...

Hoje eu peguei o metrô de Roma pela última vez. Ficava repetindo isso na minha cabeça o tempo todo. “Última vez, última vez dessa jornada”. Não que o metrô de Roma seja uma coisa incrível que a gente queira guardar na memória para sempre. Muito pelo contrário. As duas linhas que atendem Roma são bem precárias e anos luz distantes dos metrôs das principais capitais do mundo. São Paulo inclusa. A linha azul é mais antiga. Atende o Coliseu, o Circo Máximo. E é minha escolha para chegar ao charmoso Monti. A linha vermelha, que é laranja na verdade, é melhorzinha. Tem trens mais novos, mais limpos, e atende Piazza Spagna, Barberini (Fontana di Trevi), Piazza del Popolo e Vaticano. Ambas linhas são um saco no final da tarde. Sério. Carnaval na Bahia. Vontade de cortar os pulsos. Um bando de gente se empurrando, e turistas cutucando as lentes de suas máquinas fotográficas nas suas costas. Nada charmoso. Sabe a Estação da Sé às 18h? Igualzinho. O transporte público romano é tão deficiente que está sempre lotado. Acaba com o glamour. Lógico que encontrar pencas de brasileiros pelos vagões é de praxe. Muito fácil identificar brasileiros. Eles sempre falam muito alto. Muito mesmo. E fazem comentários sobre as pessoas à volta em português, porque têm certeza de que ninguém pode entedê-los. E eles estão sempre tentando tirar fotos dos lugares que são proibidos (como a Capela Sistina, por exemplo). Sempre tem um, com cara de espertinho, apontando a camera para o teto e fazendo cara de malandro para o amigo. Dá uma vergonha que nem te falo. Olho bem para a cara deles, para ver se eles se desintegram com a força do meu pensamento. Não funcionou até agora, uma pena. Ok, então eu peguei o metrô pela última vez hoje para jantar com o Evandro (meu amigo padre que mora aqui há 12 anos) perto da Piazza del Popolo. E eu estava pensando como aquela talvez fosse a última vez que eu descesse aqueles degraus por um bom tempo. Vou voltar à Roma, é certo. Mas nunca se sabe onde a vida vai nos levar até lá. E eu estou toda irritada, porque estou atrasada para variar. E os turistas ficam olhando embasbacados, perdidos nas placas da estação de Termini, e eu meio que dou cotoveladas pela multidão e chego até as maquininhas de comprar tickets. Em dois segundos compro meu ticket para pegar o metrô, enfio a moeda, pego o bilhete impresso, desapareço pela catraca, e... E me lembro surpreendida dos meus primeiros dias em Roma. Quando fiquei cerca de 15 minutos tentando imprimir um bilhete desses de metrô na máquina. E não fazia idéia de onde enfiar a moeda. Me dava vontade de chorar, estava mais frio, bem mais frio do que agora, e eu ficava olhando a minha volta para ver se uma viva alma me ajudava a conseguir comprar o maldito bilhete de metrô. Cidade nova, mapa de transporte público novo, e eu sem saber onde me enfiar em tudo isso. E depois perdida nas direções das duas míseras linhas de metrô de Roma. Foi um tempo até eu me apropriar disso tudo. Um bom tempo até conseguir comprar um bilhete em dois segundos. Um outro tempo para conseguir expressar minha indignação por uma espera demorada em uma loja de telefonia na Via del Corso. Tudo em Italiano Tarzan lindo! Acho que isso era tudo o que eu procurava por aqui. Não é o bastante. Não é suficiente. Mas é tudo por enquanto. Então melhor arrumar a mochila e procurar o próximo. Amanhã assisto minha última aula na Dilit. Fiquei um pouco insatisfeita com o método da escola. Irritada toda vez que tinha de cavar (juro que até suava para conseguir alguma interação!!!) uma conversação com alguma russa esquisita de sombras azuis até a testa, mas vou para minha última aula de italiano amanhã também completa. Fiz muitos amigos. Alguns de alma. Alguns para sempre. E depois me jogar em um trem até Verona. S. me escreveu hoje. Está passando pelo inferno astral, o coitado. Faz aniversário dia 28. Preso em Sardenha, sem um tostão no bolso, sem cartões de crédito funcionando. Engraçado que ele é o que gosta de ter tudo planejado. Eu tava surtando essa semana por ter meus planos mudados, mas é assim. Toda vez que se planeja muito, a vida dá uma rasteira e te deixa de castigo. Melhor rir. É o que eu acho. Ele tem alguma dificuldade para rir ainda. E vão aparecendo as diferenças.... De qualquer forma, terça nos encontramos em Veneza, se ele conseguir sair do enrosco onde se meteu. Pode ser que ele chegue depois. Estou incrivelmente calma com tudo. Acho que fiquei tão nervosa nos últimos dias que acabou o estoque. Não sobrou nada. Estou calma. Levando um dia de cada vez. O importante é ter perspectiva. Saber o que se quer para si mesma. O que os outros são ou fazem, não está em nosso poder. É mesmo responsabilidade de cada um. Eu vou cuidar da minha. Vamos ver até quando dura. Pode ser que em menos de 48h eu esteja surtando denovo....

terça-feira, 8 de junho de 2010

EU CALMO, VOCÊ CALMO, TODO MUNDO CALMO...

 Me preparando para deixar Roma. Muito mais psicológicamente do que nas questões práticas. Fiquei tão acostumada que estou parecendo cego em tiroteio de me imaginar fora dessa cidade. Consegui costurar Roma na pele. Não vi nem metade das cidade da Itália que eu gostaria, mas vou sair daqui com muito mais completude do que saí de qualquer outra cidade. Hoje fiquei quinze minutos olhando a porta do guarda-roupas aberta só para tentar fazer uma imagem mental de como seria ter tudo aquilo dentro da mochila denovo. Uma caixa grande está indo para o Brasil também. Estou bem na fase de decidir o que eu vou continuar carregando e o que não vai fazer mais parte da minha bagagem. Cada dia mais descobrindo que não cabe tanta coisa assim. Ou melhor, que a gente não precisa de tanta coisa assim. O que se leva na bagagem é basicamente o essencial. E isso não é muito não. Não precisamos mesmo de tantas coisas. Claro que para completar o cenário, sempre tem um caos de leve. Porque não me lembro de nenhum momento de verdade da minha vida, sem um caos de leve. Recebi notícias horríveis ontem. O curso de Escrita Criativa que eu estava doente para fazer em Londres em julho foi cancelado. Falta de quorum. Hum. Quando eu acho que tenho minha vida um pouquinho planejada, vem alguma coisa me mostrar que não dá para controlar nada. Eu deveria rir. Talvez eu ria. Só que não agora. Agora está caos, e eu não faço idéia do que fazer da minha vida daqui três semana. Para ajudar estou surtando em dúvidas do que fazer da minha vida nessas três semanas que vem. Teoricamente vou encontrar S. em Veneza terça-feira que vem e vamos fazer Provence e subir para Paris de carro. Não vejo S. desde Granada e, embora a gente se fale sempre por email e skype, eu não tenho mais certeza disso também. Eu quero que dê certo, mas não consigo nem me achar no meio de mim, quanto mais ele. Chegou a véspera e eu estou surtada. Apavorada talvez seja a palavra correta. Ainda bem que eu tenho amigas sensatas que mesmo do Brasil são capazes de dizer “Eu calmo, você calmo, todo mundo calmo!”*, e eu dou uma respirada e salvo umas calorias em barras de chocolate. Porque o medo é tão forte, né? Eu vivo falando que a única coisa capaz de vencer o medo é o amor. Eu pratico muito amor. Exercícios práticos, todos os dias. Treinar meu coração a enxergar a vida e as pessoas de outras formas. Mas nem sempre dá tudo certo. Às vezes eu fico insegura. Pra caramba! Às vezes eu tenho medo. E daí parece que todo aquele amor que eu consegui acumular na minha vida por tanto tempo desaparece. Eu gostaria tanto de ser uma pessoa calma, ponderada, equilibrada. Que consegue aceitar que um dia passa de cada vez, e que nada como a maravilha de um dia seguinte para nos tornar melhores e maiores. Mas eu não sou assim. Eu sou caótica, insegura, superlativa. Sou ótima para dar conselhos, mas vai ver se a pessoa segue os próprios!? Toda complicada. O mais difícil é conseguir me amar sendo tão diferente do que eu gostaria de ser. Aceitar que eu sou esse poço de defeitos, e que as pessoas também vão me amar exatamente por tudo isso. (ou vão tentar, porque vou te falar... às vezes é difícil!!!) Na verdade eu tenho um medo danado de que as pessoas um dia descubram como eu sou uma pessoa imperfeita, descubram tudo isso e me abandonem para sempre. Talvez por isso eu esteja tão apavorada de ter de arrumar um jeito de chegar em Veneza daqui uma semana. Tenho medo de que quando a gente chegue em Paris, S. descubra tudo isso e me abandone para sempre. Ah, a gente nunca sai do jardim de infância. Só quero que meus amiguinhos brinquem comigo no recreio. Todo mundo calmo? Então eu calmo também. Roma está me escapando pelos dedos em mais uns dias. E à partir daqui, não faço a mínima idéia do que vai acontecer.

* "Eu calmo. Você calmo. Todo mundo calmo." é uma piada interna. Mas o sentido é esse mesmo aí... ;-)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

TRÊS LOJINHAS PARA AMAR EM FIRENZE

MAESTRI DI FABBRICA



O legal que essa não é só uma lojinha só, mas várias lojinhas. É uma cooperativa de artesãos da região da Toscana. Eles estão em um galpão super descolado no centro da cidade, e cada sala expõe o trabalho de um artesão. Peças de arte, pottery, cremes e sabonetes super delícias, molduras, móveis e coisinhas para casa. Tudo com jeitinho de exclusivo, que ainda dá para esnobar e dizer “Comprei de um artesão de Firenze...”. Isso é luxo, tá!?

Borgo degli Albizi, 68r
50122 Firenze
+39 055 242321
http://www.maestridifabbrica.it/



A.N.G.E.L.O VINTAGE CLOTHING



Eu não uso roupa de brechó. Sempre que precisava colocar alguma peça para alguma filmagem, ficava imaginando que a dona da peça já estava morta, e não acho muito legal ter de pensar nesse tipo de coisa (a pessoa tem imaginação, difícil evitar!). Mas eu babo em coisinhas vintage. Acho lindo. E acho demais quem tem coragem de adotar no visual. A A.N.G.E.L.O. é de fazer surtar qualquer figurinista ou produtora de moda. O dono ainda tem o orgulho de te anunciar que eles são conhecidos “Worldwide!!!” (Tá, benhê!?). Os vestidos anos 60-70 e os de festa mega conservados quase me fizeram mudar de opinião a respeito de brechós. E o mais legal é que no mezzanino tem tipo de um saldão com peças mais do dia-a-dia que são vendidas por kilo. Claro que a balança que pesa tudo também é vintage. A unidade de Firenze é filial da A.N.G.E.L.O. VINTAGE PALACE de Lugo (que tem um acervo mais fantástico ainda.... humm!)

A.N.G.E.L.O. VINTAGE CLOTHING
Via DEI Cimatori, 25/r
+39 0055 214916
http://www.angelo.it/


PINEIDER

Essa é fresca até dizer chega. Aquele tipo de lojinha que a gente entra para babar, e jura que um dia vai ficar milionário só para poder sair com uma sacolinha dali. Especializados em bolsas, malas, carteiras, bagagens e.... papelaria de luxo. Hum!!!! Imagina uma parede inteira dos mais delicados convites de casamento que você já viu na vida... Imaginou? Agora imagina também uma coleção (Caréééérrima!!!!) de bolsas para bebês e lembrancinhas de batizado, toda em tons pastéis (Ah, se eu fosse milionária, comprava tudo para a MH...). E eles tem alguns artigos em prata que eu acho um luxo (mas só vi gente rica de verdade usando) como abotoaduras, prendedor de notas... Tão fino que nem me deixaram tirar foto!

FRANCESCO PINEIDER S.P.A.
Negozio di Piazza Della Signoria, 13, 14R
50122 Firenze
+39 055 284655
http://www.pineider.com/

domingo, 6 de junho de 2010

PERSPECTIVA E OS TRAVESSEIROS DOS HOTÉIS

Final de semana em Firenze. Karin (uma suíça do meu novo nível na aula de italiano, e uma garota linda, especial e doce como ninguém) também estava com vontade de fugir no final de semana, e foi minha desculpa perfeita para criar coragem e sair um pouco de Roma. Pegamos um trem depois do almoço na sexta-feira e estamos voltando agora, domingo à noite. Foi adorável. Em todos os sentidos. Se tivéssemos planejado alguma coisa não teria sido tão bom. Apenas compramos as passagens e nos jogamos na cidade. Para não dizer que foi perfeito, não conseguimos entrar no Ufizzi. Sim, falta grave. Fiquei muito desapontada, queria mesmo ter entrado. Uma das coleções mais importantes do mundo, afinal. Mas foi a falta de planejamento, e a bobeada de não ter agendado horário pela internet com antecedência. Teríamos de ficar pelo menos duas horas em uma fila. Com um final de semana apenas para aproveitar Firenze, quem quer ficar em uma fila? Final de semana lindo. Sol forte e céu azul até às 20h. Com direito a Pôr do Sol alaranjado na Ponte Vecchio. Uma das cenas mais lindas dessa jornada, sem dúvidas. Firenze é como uma casinha de bonecas. Linda, irresistível e charmosa. Prédios e ruelinhas medievais, que fazem a gente se sentir em um cenário de algum filme. Beleza por todos os lados. Antes de ter escolhido Roma para o curso de italiano, pesquisei algumas escolas em Firenze também. Acabei escolhendo Roma, porque Roma é Roma e é muito difícil competir com isso. Mas passei os últimos três dias pensando se não seria uma boa idéia fazer uma faculdade de História da Arte por ali. Não me incomodaria em nada. Embora eu não tenha certeza se quero fazer outra faculdade ou estudar História da Arte. De qualquer forma, o que eu quero dizer é que, se isso é o que você quer para sua vida, não consigo imaginar um lugar melhor. Estudar História da Arte no berço da Renascência, pelas ruas que Micchelangelo e Botticelli gastaram as solas dos sapatos, beber garrafas de chianti e adentrar a noite com o perfume de costelas grelhadas, queijo pecorino, azeite trufado e cantuccini molhadas em vinho santo. Karin e eu nos acabamos nas lojas ultra charmosas, mesmo porque é muito charmoso fazer compras em Firenze. E nos consideramos as garotas mais sortudas do mundo porque conhecemos alguns ragazzi incríveis que foram nossos anfitriões por todo o final de semana. Nos levaram aos melhores restaurantes. Aqueles escondidinhos que os turistas não conhecem, e não custam os olhos da cara. Nos contaram curiosidades da cidade, nos ensinaram tradições toscanas e nos ajudaram a praticar muito italiano, aumentar o vocabulário e corrigir pronúncia. Então é isso mesmo que você está entendendo. Final de semana em Firenze com tudo o que a gente teve direito, refeições incríveis e a companhia de italianos mega charmosos. Sim, eles eram quase irresistíveis. Só digo quase porque resistimos. Batemos com as cabeças nos travesseiros chegando ao hotel, mas resistimos. Claro que eu sou uma mulher solteira. Sou livre e bem crescidinha. Isso é fato. Ainda. Mas estou tentando essa coisa nova de ter “perspectiva” na vida. Parte primordial disso é agir de acordo com o que se quer para si. Alguns anos atrás eu estava em uma mesa tomando uma cervejinha com uma querida amiga, que me contava que ia casar. Estávamos comemorando, e celebrando e muito felizes porque ela esperou bastante para encontrar o atual marido dela. Então chegou uma conhecida em comum, uma garota que tem um comportamento sexual bem agressivo em se tratando de homens. Nada contra, pelo contrário. Ela sempre me pareceu uma pessoa autêntica e coerente com suas atitudes. Admiro mulheres que têm a coragem de assumir uma vida sexual super ativa e plural, sem se importar com a opinião geral da sociedade. Mas é claro que esse estilo de vida não condiz com uma pessoa que quer casar, ter filhos, constituir família. Então essa garota soltou uma frase que me chocou muito mais do que as peripécias sexuais que eu estava acostumada a ouvir da boca dela: “Ah, eu também quero tanto casar! Ter filhos, uma casa, cachorro...” Peraí! Quer casar com qual dos??? Eu não pude evitar de comentar incrédula, “Nunca imaginei que você quisesse casar!”. Porque, pelo menos para mim, é incoerente que alguém que dorme cada noite com uma pessoa diferente e ainda faz questão de bradar aos quatro cantos do planeta sua intimidade, tenha intenção de construir um relacionamento nos moldes mais tradicionais. Não dá para encontrar estabilidade e comprometimento no meio de luxúria explícita (Sei lá! De repente até dá, mas é o último lugar que eu ia procurar...). Sem juízo de valores, entendam bem. Não gosto muito de limitar as coisas em bom ou mal. Existe apenas o que você quer, o que te faz bem, e o que você não quer. Mas é preciso ser coerente. O fato de a gente poder fazer algo, não significa que a gente tenha de fazer algo. Eu poderia ter beijado aquele italiano lindo e charmoso. Sim. Eu poderia. Mas eu não era obrigada a isso. Nós tomamos champagne, e jantamos, e eles nos levaram para andar pela cidade, e nos mostraram Firenze linda iluminada da Piazza Micchelangelo à noite, e ele falava em italiano comigo (que é uma língua muito romântica, confesso!), e se eu for parar para pensar não existe nada que me impeça de beijar um italiano lindo e charmoso às margens do Rio Arno em uma noite quente de primavera. Mas não é isso o que eu quero . Não é isso o que eu busco. Não quero um beijo perdido no meio da noite seguido de uma passagem de trem já comprada para sei lá onde. Houve uma época que isso era exatamente o que eu procurava. Hoje para mim, é só mais do mesmo. Não me acrescenta mais nada. Eu quero o velhinho que estará segurando minha mão na Terceira Idade. Quero alguém que faça planos comigo. A casa, os filhos e o tal do cachorro. E para chegar até lá eu já me dispus a dar uma chance para outra pessoa. Pode ser que não dê certo. Não tenho como saber sem antes viver, um dia de cada vez. Por mais que eu tenha de socar minha cabeça no travesseiro voltando para o hotel à noite. Estou aqui fazendo a maior força para ser coerente.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

IO HABLO LE ITALIANO!

Passou! Só um pouquinho, mas passou o bode de ontem. Normal rolar um bode de vez em quando. E estou super orgulhosa de mim mesma porque consegui canalizar toda aquela energia em pura produção. Trabalhei, li, escrevi, respondi emails, estudei. Faxina geral. Igual época de Ano Novo e a gente dá uma rapa no guarda-roupa. Mó orgulho! Eu resolvi virar uma “brava” estudante de italiano, e arrasar nas aulas. Joguei toda minha energia essa semana nisso. Comprei um livro de gramática. Me mato na escrivaninha do quarto todas as noites fazendo exercício, repetindo os textos em voz alta, copiando tudo no caderno. Eu nunca fui CDF, então na verdade nem sei como se estuda direito. Sempre tive a sorte de tirar notas boas só com o que lembrava das aulas. Mas eu estou tão decidida a sair daqui falando o máximo de italiano que eu for capaz, que às vezes tenho vontade de gravar um vídeo só para minha mãe ficar orgulhosa de mim. Daí eu fico toda pimpona, me sentindo a garota mais dedicada do mundo. Hoje cedo fui para a escola mais cedo, fazendo “filminho” na cabeça. No meu “filminho” minha nova professora chega na sala dos professores e diz para todo mundo ouvir “Nossa! Mas essa Adriana é uma aluna muito dedicada, é impressionante como ela evoluiu tão rápido e em tão pouco tempo. Vamos mudá-la de nivel novamente!”. E eu saio saltitante pela cidade tagarelando com o meu italiano fluente com todas as pessoas na rua. Só que a realidade é um pouco diferente, sempre é. Hoje depois da aula, eu esperando os elogios do meu cúmulo de dedicação, e vem a professora me dizer, “Olha Adriana, você está acompanhando bem o nível, ótimo, vamos continuar assim, mas... você precisa prestar atenção e parar de falar português.” Hein? Como assim? Eu crente que estou arrasando com o melhor do meu sotaque “novela-das-oito-do-Benedito-Rui-Barbosa” e ela vem me dizer que eu estou falando português? Ahhhh! Verdade. Dá tilt nessa cabecinha que já foi loira. Atualmente quando eu abro a boca sai uma salada de palavras em italiano, português, espanhol e francês. O italiano é a língua que eu acho que estou falando. O português é língua materna, e a semelhança às vezes é tão grande que chega a ser covardia. O francês porque já estudei por dois anos, e o Tico-e-Teco às vezes buscam automaticamente quando entram no modo “falar língua estrangeira latina”. Agora, me explica o que o espanhol está fazendo no meio disso, já que eu não sei falar espanhol e nem gosto da língua? Talvez porque todo brasileiro também nasça falando portunhol. Só pode ser. Verdade que não tenho muitas orportunidades de praticar. Na escola a gente se encontra, fala umas três frases de small talk em italiano, mas na hora de fofocar precisa de mais fluência, né? E ninguém está em um nível assim ainda, então tenho falado muito mais inglês do que italiano. A boa notícia é que eu compreendo. Enrrosco na hora de falar, mas estou compreendendo muito bem o italiano, e isso é uma grande conquista. No final acabo sempre me virando. Evandro (meu amigo padre que está em Roma há 10 anos) disse que ficou dois meses sem abrir a boca quando chegou aqui porque morria de vergonha. Disse que admirava minha cara-de-pau. Acho que isso é uma coisa para eu me orgulhar também. Outro dia eu estava no supermercado e queria comprar peru fatiado, mas não fazia a menor idéia de como era “peru” em italiano. Então eu fiquei fazendo mímica, pulando, batendo asas e fazendo “Glu-Glu-Glu” para o atendente, em frente ao frigorífico, até ele dizer “Ah! Tacchino!”. Pergunta se eu me esqueci dessa palavra de novo? Nunca mais! A professora podia ser mais cordial com os meus esforços. Estou até pagando mico em público por aqui! (Ok, Ok! Eu vivia pagando mico em público em São Paulo também...) De qualquer forma ainda tenho uma semana de curso. Vou continuar a fazer “filminho”, exercitar minha cara-de-pau. Deixar alguém orgulhoso, nem que seja eu mesma.

terça-feira, 1 de junho de 2010

SÈSSO I LA CITTÀ

Era uma vez… quatro garotas lindas, mas muito diferentes entre si. Uma noite elas colocaram suas melhores roupas, um certo tanto de maquiagem, e se encontraram em um endereço famoso de uma grande metrópole mundial para pegar um cineminha e estender a noite em um jantar e cocktails... Você teve a impressão de já ter ouvido essa história, hum? Só que a metrópole em questão é Roma, e as ragazze: Erna, Karin, Rachna e titia aqui. Colocamos as melhores roupas que tinhamos em nossas bagagens (o que nem quer dizer muita coisa, ok) e fomos saltitantes até a Piazza della Reppublica assistir ao segundo filme. Estar sem um parzinho que seja de saltos me fez falta, juro. Mas valeu a intenção, e nem me venham dizer que o inferno está cheio delas porque é mentira. Eu estava com medinho de ver o filme e ser uma porcaria. Vamos combinar que o primeiro não foi grande coisa assim. Mas vou ser completamente parcial (as usual!) e digo que esse é lindo sim, e tem amor. Amor de verdade. Coisa que eu não sentia no primeiro, e que muitas vezes faltava no seriado. Deixando todas as observações perfeccionistas de lado, e aceitando o filme como ele é, o publico já sabe mais ou menos o que vai encontrar. Carrie vai aparecer com alguns looks duvidosos, algumas coisas que a gente se pergunta “Quem foi que teve a idéia de colocar um ser humano vestido desse jeito pela rua?”. A experiência que elas tiveram no deserto foi way different da minha. A cena de Lisa Minnelli cantando e dançando “Single Ladies” da Beyonce é impagável e faz o cinema inteiro gritar e aplaudir. Os homens e os “peitorais” ao longo do filme também fizeram o cinema vir abaixo em suspiros empolgadíssimos (Karin até imitava um cachorrinho! Hilário!!!) Sarah Jessica Parker está muito magra. Demais. Mesmo mesmo. Está feio até. Às vezes fica apavorante de ver na tela. Aliás, tirando Kristin Davis, todas magras demais para a idade que possuem. Uma pena. Para aguçar só um pouquinho, Aidan aparece (AAAHHHH! Alguém me explica como é que Carrie deixou Aidan escapar, não entendo até agora!!!) E as situações que elas se metem são glamurosas em um tom completamente irreal, dá aquela aura de conto de fadas contemporâneo que, na minha opinião, é o grande segredo do sucesso da franquia. Todas as mulheres do mundo estão colocando suas melhores roupas e indo ao cinema com as amigas para ver esse filme, e isso é uma coisa que só mulher entende. Eu já falei várias vezes aqui em como eu acredito que o amor é uma força poderosa e transformadora. Na verdade o filme, como toda a série, é a história de quatro mulheres procurando amor. Cada uma ao seu modo, com a sua verdade. Mas é amor. Tem uma pessoa linda e que eu amo (que aliás encontrou o amor do jeitinho que procurava e está vivendo uma história perfeita, do jeito que ela merece), me ensinou que perspectiva é tudo. Saber o que se deseja é essencial. A gente busca o amor, a gente trabalha o amor na nossa vida. E o que recebemos é exatamente aquilo que pedimos. Exatamente. Sem mais, nem menos. Quando falo de amor, não falo apenas do amor de homem e mulher. Esse a gente também busca. É quase o Santo Graal! A gente procura amor, romance, às vezes só alguém para dormir de conchinha. Eu procuro uma grande história de amor. Que supere todas as fronteiras, que redefina minha existência. Aquele tipo de amor de deixar a perna bamba, de fazer tudo na vida fazer sentido. Amor besta, bobo mesmo. De dar frio na barriga só porque ele disse “Saudades!”. Mas também busco o amor que gera vida. O amor incondicional, humano e fraterno, que nos torna espelho de todos os outros. Amor que faz nossa vida absoluta, completa. Aquele que me dá a certeza de que nada de mal pode me acontecer, e que serei sempre amada, protegida e acompanhada. Essa é a força da vida. Ela que pratico todos os dias. Não é uma coisa fácil, visto que na maior parte das vezes eu tenho vontade de matar algumas pessoas. Mas é algo que se cria hábito. Como todas as demais coisas vitais na vida. Higiene emocional. Escolho amar, confiar e respeitar, antes de qualquer outra coisa. E o que eu ganho são noites como essa. Uma taça de prosseco rosè em Monti e as conversas mais profundas sobre exatamente esses assuntos. Sempre que converso com meus amigos do Brasil, me perguntam “Muitos italianos? Tem saído com os italianos?”. Mas a minha experiência romana tem sido totalmente mulherzinha. Tem sido sobre mulheres, amizade, e como todas elas, de tantos países diferentes, estão todas comigo em uma coisa: “Eu procuro amor.”. É importante ter perspectiva. Porque o amor também nos trás pessoas como Erna, Rachna e Karin. Completamente diferentes entre si. Cada uma procurando amor ao seu modo. Como eu estou longe de casa, sentindo falta da voz e dos abraços das minhas pessoas queridas, são elas que me abraçaram no final da noite de hoje, agradeceram por tudo e me garantem “Você vai encontrar, tenho certeza!”. Também tenho certeza de que cada uma delas vai encontrar amor. Mesmo porque, sem saber, já estão me dando tanto do que procuro.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

TRÊS LOJINHAS PARA AMAR EM ROMA

NORA P



Essa é das minhas favoritas. Erna que me levou lá. Fica em Monti, o bairro mais charmoso desse città! Nora P é uma lojinha cheia de móveis e coisinhas delícias de decoração super criativas. Dessas que a gente fica babando e tem vontade de comprar uns três apartamentos só para poder decorar com tudo o que dá vontade de ter. Além do jogo de copos de metal, e dos potinhos de argila para fazer máscara facial, amei muito uma estante retrô toda customizada, com decalques japoneses. Coisa de derreter o coração mesmo. Os móveis são todos exclusivos, feitos por designers italianos e materiais reciclados. Vai ser charmoso assim lá longe, viu!

220/221 Panisperna
00184 Roma
+39 06 45473738
http://www.nora-p.com/



IL PAPIRO


Essa eu descobri logo nas minhas primeiras andanças por Roma. E já que a pessoa escreve e é meio maníaca por papelaria, tive quase orgasmos nessa loja. “Il Papiro” tem duas unidades. As duas ali nos arredores do Pantheon. Papéis mais do que especiais, cadernos artesanais, bloquinhos de notas, caixinhas cartões, e o mais “meu-deus-eu-vou –surtar” de todos: canetas tinteiros, penas e aqueles selos de metal para marcar cera que eu só tinha visto em filme. Acho o cúmulo do luxo! Já comprei um com desenho de gatinho para mim. Pena que não dá para comprar a loja inteira.

Salita de´ Crescenzi, 28 (Pantheon)
00186 Roma
Via del Pantheon, 50
00186 Roma
+39 06 6795597
http://www.ilpapirofirenze.it/



BARTOLUCCI

Gente! É a oficina do Gepetto!!! Eu quase surtei quando achei essa loja no centro histórico. Sabe aquela avalanche de memórias de infância, de assistir o desenho da Disney e do som da voz da minha mãe lendo o livro para minhas irmãs e para mim. Impossível não estampar um sorrisão no rosto. A loja se orgulha de só fazer mimos em madeira. E são realmente elegantérrimos. Muito bem acabados, super perfeitos. Bonecos do Pinnocchio para todos os lados. De chaveirinho até grandão. Comprei um de presente de aniversário para o delícia do meu sobrinho. Mais legal ainda que a loja tem filiais espalhadas pela Itália inteira. Me like it!

BARTOLUCCI
Via dei Pastini, 98
http://www.bartolucci.com/

domingo, 30 de maio de 2010

ROMAN HOLIDAY

Eu amo todos, de todos os filmes da Audrey Hepburn. Isso não é novidade nenhuma. Aqui em Roma fica difícil não lembrar o tempo todo de um dos meus favoritos deles. “Roman Holiday”, que no Brasil tem o título de “A Princesa e o Plebeu” e perdeu todo o charme dessa cidade. Audrey é a princesa que não aguenta mais os sapatos apertando os dedos do pé, em um ato de rebeldia foge anônima por Roma, anda para todos os lados, se empanturra de sorvete, super corta o cabelo, se acaba dirigindo uma vespa e se apaixona por Gregory Peck (que era um papparazzi disfarçado, mas também se apaixona por ela e se arrepende, como as coisas devem ser) Você anda pelas lojinhas e tem cartazes do filme espalhados por todos os lados. A sorveteria em que os dois tomam gellatti fica atrás do Panteão e é lotada dia e noite. Eu tenho me segurado para também não sentar em algum salão de beleza e cortar curtinho meu cabelo. No melhor estilo “mudei total”. Mas se o cabelo não tem se provado uma boa idéia no momento, soltar a franga pela cidade e se jogar na vida me parece uma idéia totalmente válida. Foi exatamente o que eu fiz nesse final de semana. No sábado, eu e Erna abraçamos Roma de corpo e alma. Erna é a holandesa da minha sala. Linda, alta e magra com porte de modelão. Divertida, totalmente destrambelhada e tagarela como eu; e nós duas morremos de rir, e falamos alto, e nos empolgamos com qualquer coisa e estamos completamente apaixonadas uma pela outra. Nossas frases de ordem todos os dias são “La vita é bella” e “L´amore!!!!!!!!!” (assim mesmo, seguido de milhões de pontos de exclamação). Então no sábado nós nos encontramos para andar sem destino pela cidade e tirar fotos. Eu só estou usando uma câmera digital basicona mesmo. A Sony mais barata que achei no Free Shop de Cumbica. Erna tem uma Canon EOS poderosa. E ela é muito melhor fotógrafa do que eu. Mas mesmo assim nós compartilhamos o mesmo gosto por tirar fotos de cotidiano, e de estranhos na rua em poses espontâneas, e de detalhes de casas e bobeirinhas que só a gente acha graça. Parávamos em alguma piazza e ficávamos um tempão nos contorcendo para tentar pegar algum ângulo legal. Depois andávamos mais, entrávamos em lojas, tomávamos sorvete, puxávamos papo do nada em italiano com as pessoas e fazíamos amigos. Fizemos isso por tudo quanto é lado de Monti, ficamos fazendo hora pela feira de Campo di Fiori e fomos andando até Trastevere. Em Trastevere (que eu prefiro muito mais durante o dia do que à noite) sentamos em um terraço super charmoso, com flores penduradas na parede perfumando nossa mesa. Comemos bruscchettas e enxugamos uma garrafa de vinho rosè. Nessa altura (e já realmente deveras “altas” as duas) fomos encontrar Rachna e Roberto (um amigo italiano de Erna) em um restaurante maravilhoso perto da Piazza del Popolo. Lá foi mais uma garrafa de prosseco, prosciutto crudo com melão, lulas grelhadas e limoncello de sobremesa. Juro que estava morrendo de sono, mas Erna usou o melhor dos argumentos para me convencer a tomar mais um drink em um bar ao lado do Palazzo di Adriano: “Hoje é Sábado e você está em Roma. La vita é bella!”. A gente não discute com determinados argumentos. Eu fui, e fui acordar hoje cedo com uma baita dor de cabeça. Mas como hoje foi domingo em Roma, e fez um dia lindo lá fora, com Sol, céu azul, pássarinhos cantando na janela. Eu tomei uma Neosaldina e fui encontrar a fofa denovo. Dessa vez fomos eu, ela, Karin e Francesca (Karin é um suíça adorável e linda, e Francesca é nossa mascote. Tem 17 anos só, a coitada! Mas ela é super madura, e a gente finge que ela tem 22.), alugamos bicicletas e nos jogamos pela città. Pedalando sem pressa, como quem tem todo o tempo do mundo mesmo. Acho que pedalar por essa cidade é uma coisa que todas as pessoas deviam fazer pelo menos uma vez na vida. Deixar se perder, sentir a respiração balançar com os pneus tremendo pelo calçamento das ruas. Eu gostava tanto de andar de bicicleta quando eu era pequena. Carol e eu nos enfiávamos pelas estradinhas da fábrica a tarde inteira. Todas minhas lembranças de férias de infância incluem uma bicicleta. Eu só resgatei esse prazer no ano passado, quando comprei me arrisquei um pouco por São Paulo. Em Dublin eles têm esse sistema de bicicletas públicas que é super comum aqui pela Europa. Vários pontos espalhados na cidade em que os cidadãos cadastrados podem pegar e deixar as bicicletas de uso coletivo. Bem saudável e ecológico. Eu não pedalei por lá porque estava aquele frio danado e chovia o tempo todo. Em Sevilla passei um domingo lindo pedalando com a Paulinha e com o David. Tipo de experiência que te faz realmente aproveitar o dia e a cidade. Hoje pedalando com as meninas, pensei em como eu deveria incluir mais bicicletas nos meus dias e nas minhas viagens. Pedalar sempre me traz a sensação de que as coisas são simples e inteiras. Nós quatro ainda fechamos o dia fazendo um picnic ao lado do lago na Villa Borghese. Nada de vinho hoje. Morangos, uvas, muitos queijos e salame. Final de tarde com o Sol se escondendo entre as folhas das árvores. A grama pinicando nossas coxas. Pés imundos, mas feliz pra burro. Tomando banho depois em casa, olhava a água suja escorrendo pelo ralo. Quando eu era criança sempre tinha água suja escorrendo pelo ralo. Fiz um chá. Voltei para o computador para trabalhar. Eu estou tendo a sorte de estar em Roma, de tirar os sapatos apertados e me perder por esse desbunde de cidade. Mas acho que dá para um “Roman Holiday” em qualquer lugar. Se jogar na vida sem compromisso, sem pretensão. Só se jogar. Tirar férias de todas as poses, de todas as expectativas sociais. Deixar que o tempo passe sem planejar cada minuto o que se espera dele. Encher um final de semana inteiro com coisas simples que realmente te dão prazer. Fazer todas aquelas coisas que a gente fazia quando era criança. Acho importante lembrar de tempos em tempos que tipo de pessoa você era quando era criança. Não é à toa que temos lembraças tão boas de nossas infâncias.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Adivinha onde eu estou? Isso aí! Não saí de Roma. Fiquei e vou ficar, enquanto der para ficar. Como o tempo virou (É legal saber que isso não acontece só em São Paulo. Tempo virar bem na sexta-feira...), talvez algumas das coisas que eu queria fazer no final de semana não funcionem bem com a chuva e os dias cinzas. Mas daí eu uso os dias para colocar em ordem o trabalho, que está totalmente negligenciado. Hoje Jackeline foi embora para Suíça. Uma fofa querida! Ontem voltando do cinema, ela e eu vimos a movimentação de luzes e tapete vermelho da Pré-estréia de “Sex and the City 2” que estava rolando na Piazza della Republica. Ficamos as duas pulando dentro do ônibus. Hoje, na última aula, ela me trouxe de presente um hidratante com protetor solar suíço que ela usa. Deixa a pele toda brilhante, um luxo. A gente fez uma bagunça, e tiramos várias fotos, e na hora de se despedir (Deus! Tô ficando uma manteiga derretida com essa coisa de se despedir!) fiquei toda emocionada e com os olhos cheios de lágrimas. Só disse para ela uma coisa: “A Senhora! Trate de ser feliz, ok!?”. Ando tão bundona. Tão chorando por qualquer coisa. Meio “Zeca Baleiro”, sabe? Chorei na hora do almoço enquanto a Rashna me contava do presente de casamento super fofo e criativo que ela teve idéia de dar para o melhor amigo dela (que eu amei e vou roubar. Primeira que casar, ganha!). Chorei também de ficar imaginando a barriga da MH. Chorei tentando arrumar meu cabelo hoje cedo, e quando descobri que consigo sacar dinheiro no caixa eletrônico com o meu cartão do banco do Brasil (e não vou mais precisar do Visa Travel). Chorei vendo duas senhorinhas escolhendo sorvete quarta-feira à tarde, relendo um email da minha sobrinha (isso é covardia, eu sei!), e no filme de ontem à noite. Mas esse era filme de chorar mesmo. Eu não entendia nada, mas chorei mesmo assim. Nenhuma das vezes foi uma emoção de dor ou sofrimento não. Foi tudo muito bom. Chorar de quando é intenso. De quando a gente está feliz pra caramba e as coisas são perfeitas demais. (Tirando a parte do cabelo, que foi choro de desespero mesmo). Chorar porque a felicidade é tanta que transborda um pouquinho. Escorre nas lágrimas que a gente tenta disfarçar. Por isso que eu digo que estou bundona. Ah, o que se há de fazer? Agora, além de superlativa, sou bundona. Pensar que eu já fui um poço de cinismo e mal-humor... Tão bom se permitir mudar. Fazer tudo ao contrário, no extremo oposto. Comprei um modem portátil para ter internet aqui, só que ele me libera só 5 horas de navegação por dia. Com os emails, trabalho, post do blog, pesquisa de locais, horários de trens e hostels (da continuação da jornada), “reuniões” por skype, farmville e as conversas perdidadas com um ou outro quando dá, acabo sempre ficando sem créditos. No meio de um trabalho, puf! Cortam a conexão. Daí só no dia seguinte. Por causa disso eu ando sentindo uma falta danada de falar com alguns amigos, de botar o papo em dia com algumas pessoas. Porque tem sido muito difícil dar atenção “homem-à-homem”. Me sinto em débito. Então, bem bundona e com os olhos meio vazando de felicidade, eu mando um recadinho bem pontual para cada uma dessas pessoas que eu gostaria muito de poder estar tagarelando com mais tempo e carinho (MH, Y, minha irmãzinha Carol, a prima Kika, a outra Kika, também a Keka, o Dri, Paulinha, Cí, Sel, Fê, Lulu e Pedrón, meu amor de alma Kallel, a Ju, o tratante do Dinho, a Van...). “Vocês, Senhores! Tratem de serem muito felizes, ok!?”. Por aqui eu estou sendo.