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sábado, 29 de janeiro de 2011

OZ

Sumi. Por uma semana. Foi uma semana intensa em todos os sentidos e existem coisas na vida que a gente simplesmente não consegue narrar em “real time”. Têm horas que a gente precisa dar uma folga e deixar fluir. Viver. Sentir. Chorar. Eu chorei pra caramba essa última semana. Bebês também choram quando nascem. Então eu vou escolher olhar para tudo o que eu vivi como um renascimento. Acho que é assim que a coisa foi mesmo. Ontem foi meu último dia no projeto. Eu sei que foi pouco tempo, mas amor não tem nada a ver com tempo. Tem a ver com disponibilidade. Sempre que um voluntário vai embora eles fazem uma cerimônia de despedida. O voluntário fica sentadinho em uma cadeira na porta e todas as crianças vêm, uma por uma, dar um abraço e se despedir. Eu assisti algumas despedidas durante esse tempo aqui, e já achava cruel só de assistir. Viver então... bem difícil de explicar. Ontem também tivemos a comemoração dos cumpleaños. Uma vez por mês eles comemoram o aniversário de todos os alunos daquele mês. Todos cantam parabéns, então as crianças quebram a piñata (um bonecão feito de jornal cheio de doces dentro), comem tortillas com suco e ganham presente. Foi uma festa, todos super excitados. Todo mundo tirando fotos. A criançada rolando no chão para pegar as balas. Depois colocarm a tal da cadeira na porta e me deram um lenço de papel (olha o absurdo. UM lenço. SÓ UM LENÇO!!!) E começou a delicada sessão de tortura feita por criancinhas guatemaltecas. Se vocês virem as fotos que Martin tirou para mim, iam entender. Em todos estou com uma careta horrível de choro. Meus alunos de Fuego. Um por um. Sussurrando baixinho no meu ouvido que me amavam e que estavam tristes, e que iam sentir minha falta. Alguns entraram duas vezes na fila. Outros seguravam meu rosto com suas mãozinhas sujas e me olhavam nos olhos. Como se não quisessem esquecer do meu rosto. Como se estivessem fotografando em suas memórias quem eu era. Pode ser só uma ilusão, mas eu prefiro pensar assim. Eles me perguntavam porque eu estava indo embora e me pediam para voltar um dia. Agora me explica. Como é que a gente vira as costas e vai embora de algo assim? Para a crueldade ficar ainda mais sofisticada, eles repetem a sessão no periodo da tarde. Na hora do almoço, Dona Elena me vestiu com um traje típico maya. Eu mal podia acreditar. Fiquei a tarde toda vestida com o traje. Priti depois me contou que nos 9 meses que ela está no projeto, essa é a terceira vez que ela vê isso acontecer. Que Dona Elena quase nunca faz isso. Foi uma honra tão grande. O traje maya é uma combinação de blusa e saia longa toda trabalhada a mão, com um tecido grosso e pesado. O figurino todo é muito caro. A saia tem um processo para ser dobrada e colocada e é amarrada com um cinto bem apertado na cintura. Demorei uns 15 minutos para me vestirem a roupa. Eu fiquei me sentindo uma princesa. Tem um quê de New Look da Dior. Talvez seja daqui que Dior tenha se inspirado. Então no final do dia eu fui torturada em trajes típicos. Pelo menos na segunda vez levei um pacote de lencinhos comigo. Como em um piscar de olhos se foram todas. Todas as crianças. Meus pequeninos de Fuego. E eu me vi no meio daquele pátio de terra batida vazio, vestida de princesa maya, com a cara inchada, o nariz vermelho e o coração minúsculo. Voltando para Antigua, Martin e Kim fizeram um longo HH. Fui para casa correndo para tomar banho e encontrei com todos os outros voluntários no restaurante dos garçons italianos gatos. Fizemos um jantar delicioso, cheio de risadas, fotos, piadas e apple martinis. Depois fomos para o El Muro na melhor das intenções de nos embebedar, mas o que aconteceu mesmo foi que eu, Hannah, Martin e Kim nos jogamos nos sofás da parte de trás do bar que estava vazia e afundamos em depressão. Eu conheci pessoas muito legais esse mês. Me diverti com todas elas. Mas os três foram meu centro. Minha base. E mesmo que eu tivesse as mesmas crianças adoráveis e remelentas, minha experiência aqui não seria um terço do que foi se eu não tivesse eles. Eu sou mesmo uma pessoa de muita sorte. Muito abençoada. Eu encontro família por onde eu passo. Eu tenho grandes amigos no Brasil, eu tenho verdadeiras irmãos. E dizem que se a gente encontra um assim, de verdade, já pode se considerar uma pessoa de sorte. Eu olhei para o meu lado e eu tinha três sentados nos sofás de um bar na Guatemala. E isso, é muito mais do que eu mereço. Mais cedo eu e Martin estávamos tentando lembrar como é que a gente tinha virado amigos (mais ou menos o que eu e a Y fazemos de vez em quando). Eu acho que esse tipo de pergunta não tem resposta. Amigos a gente não faz. Eles acontecem. Simplesmente acontecem. E se a gente deixa eles acontecerem, é muito bom. Quando a gente deixa eles acontecerem tudo é amor, e é aceito, e é incondicional. Os bares em Antigua fecham à 1h por lei. Então levamos Hannah até o ponto de taxi e voltamos os três à pé para casa. Em silêncio. Um atrás do outro. Eu ia olhando as pedras de paralelepípedo passando sob meus pés. Martim ia a frente, Kim atrás de mim. Não sei porque me veio a mente o caminho de pedras amarelas que Dorothy precisava seguir para encontrar o Mágico de Oz. Engraçado, mas eu não conseguia de jeito nenhum lembrar do final do filme. Então eu quebrei o silêncio. Soltei no meio da noite a pergunta mais surreal daquele momento. “Como é mesmo que termina o filme “O Mágico de Oz”? Claro que foi Kim quem me deu a resposta, porque ele é uma dessas pessoas que carregam uma pureza que eu sinto inveja. Ele é bom, positivo, otimista e faz tudo para que todos a sua volta estejam bem e felizes. Então ele começou a me contar o final do filme, com riqueza de detalhes. Contando como se conta para uma criança um conto de fadas. Me ajudando a lembrar como é que Dorothy voltou para casa. Saiu daquele mundo colorido e voltou para o Kansas. Hoje à tarde eu fiz aquele caminho pela última vez. Com os paralelepípedos passando debaixo dos meus pés. (Eu vou omitir a cena de despedida que eu e Martin tivemos na porta do Raibow Cafe hoje, porque tem coisas que são preciosas e eu guardo comigo). Eu estou voltando para casa. Na minha cabeça eu ouço a voz de Kim contando o final do filme. E a última frase, que essa eu me lembrava. “Não há lugar como nossa casa.”


*Quarta-feira amanheço no Brasil. Volto a escrever de lá. Só um pouquinho mais de silêncio por aqui.

sábado, 22 de janeiro de 2011

A ÚLTIMA BOLACHA BONO DO PACOTE

Yeahhhh! Ontem foi um daqueles dias que fazem tudo valer a pena. Nada de especial. Mas tudo ao mesmo tempo. Minhas turmas estavam incríveis. Alegres, ativas, super participativas. A gente fez um projeto de arte que ficou um arraso. Decoramos copinhos de iorgute com vários tipos de materiais. Papéis picados, lantejoulas, glitter, penas, cascas de lápis. Depois colocamos algodão dentro e plantamos grãos de feijão. Estudamos plantas essas semana. Ficaram lindos, e as crianças piraram. Fora isso foi uma carga de amor tão grande que eu tinha vontade só de congelar o momento e viver ali para sempre. Irma estava meio doentinha, sentou no meu colo e ficou um tempão olhando nos meus olhos e acariciando meu braço. Danilo ficava pulando e esticando os braços para agarrar meu pescoço e me dar beijos. Esbin veio em segredo e me deu um anel de presente. Um desses aneis de brinquedo que vinham nos doces quando eu era pequena. E Hector como sempre me dizendo o tempo todo “És buena, seño. És buena.” Tanto amor. Tanto. Eu fico pensando se é por isso o que os professores passam em suas rotinas. Dias em que a gente pensa que é um fracasso, para se seguir outro em que nos sentimos a última bolacha Bono do pacote. Existe uma satisfação e uma completude em ensinar que eu não sei muito bem como descrever. Quando você consegue acessar uma criança, quando você consegue ver nos seus olhinhos o pensamento se formando, o ensinamento assimilado. A maneira como o rosto de uma criança se ilumina quando ela aprende algo é de uma satisfação viciante. Melhor do que comprar uma carteira nova da Prada, melhor do que comer sorvete de Macadâmia da Haggen-Dans ou tomar caipirinha de Lichia do Balcão. Melhor do que sessão de massagem e ofurô. Ouso a dizer até que é melhor do que comprar 5 pares de sapatos de uma vez. Ok, estou usando as futilidades como piada. Mas deu para entender. As crianças estavam todas encucadas, porque Jack (o novo voluntário) começou com a gente essa semana e geralmente isso significa que o antigo voluntário vai embora. Então todos estavam apreensivos em saber se eu estaria lá na Segunda-Feira. Sim, eu estarei. Mas é a última semana. Não gosto nem de pensar. Está aí uma coisa que vai ser difícil. Me despedir dessas crianças na Sexta-Feira. Só de escrever aqui meu coração já se contrai todo. Como é que é possível? As coisas serem tão intensas em tão pouco tempo? Depois do dia maravilhoso de ontem fui com meus dois melhores amigos daqui, Martin e Hannah, jantar. Chamamos Lucy, minha roomie, também. Tivemos um jantar divino em um restaurante argentino daqui. Carne de primeira, regada a um maravilhoso Malbec de Mendoza. Diz aí? A vida não é uma coisa boa? Esticamos para um bar onde encontramos os outros voluntários. Dei tanta risada. Dias incríveis esses. Ah, claro que preciso contar. Finalmente fiz minha primeira viagem de Tuk-Tuk na Guatemala! Eu gritava de emoção dentro e Martin só balançava a cabeça. Tuk-Tuk é um meio de transporte bem popular por aqui. É um triciclo motorizado com uma carroceiria e eles estão por todos os lados. Sou apaixonada por eles. Toda vez que vejo um tiro uma foto. Já tenho centenas, mas continuo fotografando só porque não consigo evitar uma excitação totalmente infantil quando vejo um. Eles dirigem como loucos pelas ruas de paralelepípedos de Antigua. Não é muito difícil ser atropelado por um. Ontem a gente pegou para chegar até o restaurante porque Martin estava perdido e fazendo Lucy e eu andar em círculos e definhar de fome. O negócio balança tanto. Mas tanto. Me senti em um pau-de-arara (não que eu tenha andado em um alguma vez). Mas foi a mesma sensação de quando eu fugi de Jericoacoara na carroceria de um caminhão pelas dunas. Eu tenho achado minha vida du caralho! Vulcões, tuk-tuks e crianças remelentas que dizem que me amam. Vou até colocar uma foto aqui embaixo das minhas paixões motorizadas. Se eu morasse aqui, compraria um só para me exibir todos os dias.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

SILÊNCIO

Ando folgda. Confesso. Agora que tem outro voluntário, larguei todo o planejamento de aulas nas mãos dele. Virei as costas e fui tomar uma cerveja. Verdade. Fui mesmo. Estou tão cansada que todo dia quando sento para escrever aqui saem milhões de errinhos. Vou ver depois, mas dá uma preguiça ficar consertando. O teclado do netbook também é estreito, então cansa mais o punho. Dá preguiça e eu fico relaxada. Ando com uma fome danada também. Tive alguns casos de hipoglicemia (o que não me acontecia há algum tempo). Então agora eu estou parecendo uma gorda carregando comida para todos os lados. Sempre com alguma barrinha, chocolate, salgadinho, fruta. Qualquer coisa para evitar que eu comece a tremer como quem tem Parkinson. Não contei, mas tive uma no meio da trilha do Acatanango. Foi por estupidez. Estava andando há umas 3 horas já, só com o café da manhã que tinha sido antes de sair de Antigua. Bingo. Detesto quando o meu corpo me faz fraca. Minha turma anda insandecida essa semana no projeto. É um tal de se baterem, não sei mais o que faço. Hoje José deu um soco no estômago de Irma. Tudo bem que Irma não é fácil. Mas a menina estava quase vomitando. Ficou tossindo e cuspindo. Em seguida foi Danilo que virou um tapa em Marisol. Juro. Cinco minutos depois. Eu até entendo que essas crianças acabam lidando com agressividade porque é o modelo de comportamento que recebem. Mas que loucura. E me consome tanto. Dai vira assunto para os internos. A minha interna é a Phoebe, que é uma garota novinha, muito boazinha e cheia de boas intenções. Mas princesinha demais. Sabe aquelas pessoas que querem sempre agradar, que não conseguem ficar em uma posição em que não sejam o centro das atenções e amadas por todos? Tipo isso. Daí quando acontece um incidente grave como esse ela tem tanto medo de ser dura com as crianças e eles não gostarem dela, que ela passa a mão na cabeça e deixa eles fazerem o que quiserem. Vê se tem cabimento? Neguinho sai espancando os outros, começa a chorar porque vai ser levado para os internos e chegando lá, em vez de ter uma conversa séria sobre seu comportamento, a interna pega no colo, dá beijinho, abraça, chacoalha, mima bastante, e ainda fica perguntando se a criança “está brava com a professora”!!! Depois vem com discurso passivo-agressivo de que “a gente precisa entender que essas crianças passam por tanta coisa, eles sofrem tanto, tadinhos, a gente não pode ser tão dura com eles”. (Tão dura? Até parece que quem estava esbofeteando as crianças era eu!) Ah! Eu também vou sair esmurrando o povo para ser paparicada! Mas hoje falei para ela, que mimar aquelas crianças era egoísmo dela, que ela estava mais preocupada com os sentimentos dela do que com a formação do caráter deles. E que eu achava que o comportamento dela era nocivo para as crianças e enquanto eu estivesse aqui eu ia proteger meus alunos dela. Ai, ok! Eu preciso ser um pouco menos dura com os outros. Pode até ser que eu tenha pegado um pouco pesado com a rainha do baile. Mas engraçado que ultimamente não me sai da cabeça aquela frase do Martin Luther King: “History will have to record that the greatest tragedy of this period of social transition was not the strident clamor of the bad people, but the appalling silence of the good people.” Eu tenho sentido uma responsabilidade imensa ultimamente de não me calar quando considero que algo está errado. Não estou falando especificamente da Guatemala ou desse projeto. Mas de posicionamento de vida. Claro que todo mundo gosta de agradar. Todo mundo gosta quando gostam da gente. Ninguém quer ser considerado “encrenqueiro”. Mas silêncio eu guardo na minha alma para ocasiões especiais. De resto eu falo. Porque calar, para mim, é cumplicidade.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Tem épocas em que eu fico entediada. Às vezes pessoas me entediam. A gente recebeu uma avalanche de novos voluntários essa semana. Deu uma preguiça. Uma molecada de vinte e poucos, cheia daquela atitude politicamente correta que eu detesto. Alguém devia acabar com o politicamente correto. Todo mundo fazendo um esforço danado para ser legal, e querendo mostrar o quão generoso é por estar fazendo isso. Fazendo uma força para ser low profile. E aquele discurso todo no ar de “Oh, as crianças são demais! E elas passam por tanta coisa e tem tanta fome.”. Hoje estava todo mundo tirando foto no intervalo. Ensaiando pose pra sair bonito no Facebook. Ah, sei lá. Eu adoro fotografar. E já tirei bastante fotos das crianças. Mas, talvez seja meu olhar, nas minhas fotos elas parecem todas um pouco tristes. Eu não consigo ver essa coisa incrível e maravilhosa que todo mundo vê. Para mim são crianças, com vidas horriveis, e pobres. Mas que também enchem o saco às vezes, são irritantes, fazem bagunça, precisam de limites. Eu não vejo muita coisa de diferente entre elas e as crianças que costumo ver em escolas particulares de São Paulo. Algumas são bonitas, outras feias. Elas fazem bagunça, correm, brigam. Fazem muito barulho. Criança. Eu não postei nenhuma foto ainda. Também não tenho nenhuma abraçando crianças, ou carregando criança ranhenta no colo.  Nada contra, é só minha opção. Eu estou curtindo tanto fotografar que não dá mais vontade de ficar na frente da câmera. Não sei bem como me portar. Outro dia eu soltei dentro da van, “Essas crianças não tomam banho, né!?”. E todo mundo me olhou como se eu tivesse soltado uma frase de racismo imperdoável. Como se eu fosse a pessoa mais horrível do mundo. Ok, eu sou louca pelos meus alunos. Sou louca mesmo por eles. Pulo como uma leoa para defendê-los. Passo o dia abraçando, beijando, apertando. Eles pulam no meu colo, e me beijam e apertam. Mas quando eu chego em casa a primeira coisa que eu quero fazer é tomar banho. É simples. É natural. O fato de serem crianças, e de eu amar todas elas, não muda o fato de que elas fedem. São sujas, encardidas. Os narizes escorrem. É o que é. Quem disse que para uma criança ser fofa, precisa estar de banho tomado com lacinho na cabeça e roupa de marca? Se fossem crianças ricas que estivessem fedendo, tudo bem dizer que elas não tomavam banho? O politicamente correto para mim é a coisa mais nociva hoje no mundo. Faz a vida ficar maniqueísta e reduz todos os valores a um conceito simplista e superficial. Eu gosto demais dos tons de cinza. Bom, então hoje estava todo mundo posando para foto de Facebook no recreio. Escolhendo as crianças com as roupas mais exóticas e os cabelos mais desgrenhados. Afinal, hoje em dia a gente precisa de provas de que é uma boa pessoa. Eu sou old school. Ainda acho que vale mais a atitude do que um perfil em comunidade virtual cheio de amigos. Pelo menos o meu novo voluntário é legal. Um menino, de 21 anos, inglês. Está meio assustado e capenga no espanhol, mas hoje a tarde deixei a classe praticamente inteira na mão dele. Até que se saiu super bem. Tem sido um alívio. Poder dividir as tarefas. Quatro mãos para escrever em caderno. Uma benção. Deu até para sentar e tomar uma cerveja hoje depois da aula. Até agora a rotina estava insana. Acordava às 6h, café da manhã, ia para o projeto. Aula. Trabalhava no intervalo do almoço. Aula. Voltava para Antigua trabalhando na van. Tomava um café correndo, ia para a aula de espanhol e voltava em migalhas para casa. Banho, jantar. E sentava no meu quarto trabalhando mais até às 23h. Pensar que eu saí de casa, viajei até aqui, para passar por tudo isso deliberadamente. Às vezes me pergunto porque estou me punindo. Mas na verdade, apesar do que pode parecer a primeira vista, estou vivendo uma das grandes experiências da minha vida. Amando. Muito. Cada segundo. Às vezes tenho a sensação de que eu poderia levar essa vida para sempre (é só às vezes, depois passa). Não acho que sou uma boa professora (e secretamente eu temo que assim que eu for embora eles descubram que tudo o que eu tentei ensinar foi inútil), nem penso na questão do ofício em si. Só que parece que tudo o que eu faço o dia inteiro faz muito sentido. E vamos combinar que isso é uma tremenda novidade na vida de uma pessoa que passou o último ano carregando mochila e entrando em museu. Quando eu era atriz eu sabia que você não pisa no palco sem que seu personagem tenha um propósito muito claro para si. Tudo o que um ator deve fazer em cena, deve ter um motivo, mesmo que a platéia não veja. É o que faz o personagem ficar vivo, inteiro. Aqui estou viajando, estou explorando a cidade, fazendo até coisas turísticas. Mas, diferente do que fiz até agora, eu sei o que estou fazendo. Não o projeto, não as aulas, ou as crianças. Algo além de tudo isso. Que a platéia não vê (e nem precisa), mas que me faz inteira e viva. Ainda bem que eu não preciso de nenhuma foto no FB para me convencer disso.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ERUPÇÃO

Hoje foi lava para todos os lados. Eu tive um incidente essa semana com os alunos. No intervalo eles recebem uma fruta. É uma coisa meio valiosa para eles, já que para alguns acaba sendo parte da pouca comida que recebem por dia. Algumas crianças pedem para guardar a fruta e pegar no final da aula porque se transforma em seus almoços. Meio punk. Então Melvin veio para mim e mentiu que tinha guardado a fruta, e acabou levando a fruta de outro aluno, Danilo. Danilo, obviamente ficou arrasado. Foi uma confusão até eu descobrir a mentira. Chamei Melvin na frente da classe inteira. Todos estavam indignados porque Melvin tinha mentido. Então eu dei um grande sermão de como mentira era uma coisa feia, que não era um comportamento aceitável e que, por causa da mentira dele, o colega tinha ficado com fome. Perguntei se ele achava que aquilo era justo. Ele concordou que não. E falei que a mentira nunca era a melhor opção porque a verdade sempre vinha a tona. E que eles deviam ser honestos e dizer sempre a verdade, porque a verdade não prejudicava ninguém, e blábláblá. Para consertar seu comportamento eu disse que hoje Melvin deveria dar sua fruta para Danilo. Ele ficou muito contrariado, mas sabia que estava errado, e toda a classe ficou mega satisfeita. Hoje na hora do intervalo, todos estavam ansiosos para que a “justiça” fosse feita. Eu fiz Melvin pegar seu pedaço de abacaxi e entregar a Danilo. Muito bem. Alguns minutos depois Kim vem me perguntar se Danilo era meu aluno, que ele estava chorando muito e que Sarah (uma das internas da GVI) estava com ele. Fui imediatamente falar com Sarah. Só que ela me dispensou e disse que estava tudo sob controle. Eu insisti, disse que tinhamos tido um incidente (e Sarah só aparece no projeto uma vez por semana), mesmo assim ela me deixou de fora. Em seguida passa ela com Danilo e dá uma laranja para Danilo. Então eu já pulei na frente, perguntei o que tinha acontecido. Resumo da ópera, depois de tudo, Melvin foi atrás de Danilo no intervalo e tirou o pedaço de abacaxi à força. Danilo ficou aos prantos e o que a alienada da interna faz? Passa a mão na cabeça de Melvin e dá uma outra fruta como prêmio de consolação para Danilo. Eu virei bicho. Não apenas porque ela estava me desautorizando completamente. Mas porque aquilo era muito injusto. Então ela vem para mim e diz, “we don´t punish with fruits. It´s our policy, because they are always so hungry.”. Cara! Naquela hora eu fiz juz ao meu DNA. Sentei com a garota e falei tanto. Mas tanto. Que a coitada nem deve ter encontrado o caminho de casa. “Eu sei que a gente não deve usar comida como castigo, ainda mais com o histórico que essas crianças possuem. Seria desumano se eu fizesse algo assim. Mas eu não estava usando comida como castigo. Eu estava fazendo com que Melvin reparasse uma falta grave, especialmente porque essas frutas são algo tão valioso para eles. Eu entendo que eles sentem fome. Mas fome não pode ser desculpa para mentira, trapaça e falta de caráter. O que você ensinou hoje para Melvin foi que está tudo bem mentir e trapacear por fome, porque vai ter sempre alguém redimindo os danos que ele causar nos outros. Repondo com uma outra fruta como prêmio de consolação. E isso pode até ser apaziguador para SUA consciência. Mas um dia você vai embora desse país, e essas crianças vão continuar passando fome. Isso não vai mudar. Então eu entendo que eles tenham fome, mas caráter e valores para mim vêm primeiro do que fome. E eu realmente não dou a mínima se é política da GVI ou não. Eu acho que agi corretamente e agirei da mesma maneira se passar por essa situação novamente. Eu sei que sou uma pessoa imperfeita. Eu cometo erros, vou cometer muitos erros. Mesmo que eu tivesse errada (o que eu não acho que era o caso) você nunca poderia ter passado por cima de uma decisão que eu tomei na frente da minha sala. Você deveria ter me chamado, resolvido entre adultos. E nunca me desautorizado na frente dos meus alunos. Eu perdi minha voz para ter controle dessa sala. Fuego é a sala mais comportada e disciplinada desse projeto, e isso não é à toa. Você nunca poderia ter aparecido do nada e me desautorizado na frente das crianças.”. Virei bicho! A garota só balançava a cabeça e pedia desculpas. Cara! Eu acho que tudo tem sempre sua sombra. Sempre que você se depara com algo incrível e maravilhoso, procure pela sombra. Porque aí sim você vai ter certeza da realidade. Esse é um projeto maravilhoso e eu certamente aconselharia milhões de amigos a passarem por essa experiência pelo menos uma vez na vida. Mas ninguém está se iludindo aqui. (e com aqui eu me refiro a mim mesma). O único motivo que eu estou fazendo esse trabalho voluntário é porque eu acredito que esse é um direito dessas crianças. Que as pessoas têm o direito de receber ferramentas para mudarem suas vidas. Eu não tenho a pretensão de mudar o mundo. Não sou tão megalômana assim. E eu tenho certeza de que se, em 10 anos, eu topar com uma dessas crianças com uma arma na minha cabeça, eles não vão pensar duas vezes em puxar o gatilho. Detesto o politicamente correto. Espero que eles sejam felizes e que esse trabalho faça alguma diferença em suas vidas, que proporcione outras possibilidades. Do fundo do meu coração. Mas eu não sou ingênua. Não sou uma patricinha qualquer de algum país de primeiro mundo colocando fotos no Facebook ao lado de exóticas crianças remelentas guatemaltecas. Não vou tapar o Sol com a peneira só porque é mais fácil para mim dormir à noite. Afinal, os beneficiários devem ser as crianças e não os voluntários. Se os voluntários se beneficiam, bônus. Mas não é o maior propósito. Pelo menos não deveria ser. Então não. Eu não vou aceitar que nenhuma garota inglesa passe a mão na cabeça de uma criança com comportamento errôneo só porque ela está com dó da vida de terceiro mundo que ele leva. Mau caratismo não tem raça, cor, credo, classe social ou localização geográfica. E se Melvin me considerar a Bruxa Má do Oeste, isso vai me deixar muito chateada porque eu gosto de todas aquelas crianças, mas eu estou aqui para ajudá-las e não para fazê-los se apaixonarem por mim. Eu já tenho bastante gente que me ama lá em casa. Não preciso vir até a Guatemala para me convencer de que sou uma boa pessoa. Se depois de tudo, eu ainda for amada. É como eu disse. Bônus. E até onde eu sei, a vida é cheia de bônus.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

DIA 6 E 7

Voltei do final de semana tão empolgada. Só que essa semana não está sendo nada fácil. Tanto que nem deu para escrever ontem e hoje vai precisar ser um fast post porque aqui já está bem tarde e amanhã começa bem cedo. Estou afônica. Completamente sem voz. Como isso aconteceu? Um pouquinho de friagem voltando do Lago Atitlán e me mudaram de sala ontem. Semana passada a gente ficava em uma sala que era fechada. A única fechada. Todas as outras funcionam em uma espécie de varandona de madeira com metade da parede aberta. Mudaram minha turma para uma dessas. Por um lado tempos mais espaço, o que é legal porque agora consigo circular entre as carteiras. Mas por outro o barulho é terrível. Vaza barulho da rua, das galinhas do vizinho, das outras turmas, das crianças cantando. Daí é lógico que todo esse universo é mil vezes mais interessando do que eu, tentando falar de sílabas de uma forma meio capenga, hablando meu portuñol na frente da lousa. Então meus alunos viraram uns demônios nesses últimos dois dias. Eu tive de falar muito mais alto do que estou acostumada. Resultado: zero voz! Pior que estou sozinha. Sozinha de marré-marré. Alec foi embora, o novo voluntário só começa semana que vem e está todo mundo tomado com outras turmas. Pois é. Vai ser bem punk dar aula amanhã. Hoje passei em uma farmácia e comprei um spray. (o spray mais horrivel do mundo. Com gosto de aniz, vê se pode! Arrrrgh!). Também estou fazendo exercícios de voz e comprei maçãs. São adstringentes e ótimas para a garganta. Estou aqui torcendo para amanhã ser um outro dia e minha voz estar melhorzinha, porque do jeito que está nesse momento, eu sou uma inútil. Os últimos dois dias foram bem impossíveis. Eu me sentia em uma batalha mesmo com as crianças. Parecia que eles estavam sapateando na minha cabeça. Era tão frustrante. Tentava fazer com que eles prestassem atenção, que fizessem silêncio, mas tinha sempre alguém falando junto, ou fazendo barulho, ou espontaneamente correndo pela sala, ou rolando no chão, ou batendo em alguém, ou mexendo nas minhas coisas, ou roubando algo do armário, ou apagando a lousa, ou fazendo o exercício pelo colega, ou me cutucando e me chamando. Minha sensação era a de que eu estava o tempo todo gritando e pedindo silêncio. “Fuego, porfavor, comporténse” (Fuego é o nome da minha turma. Quer nome mais apropriado?) Pelo estado da minha voz, eu realmente devo ter passado os dois últimos dias gritando. Hoje terminei o dia com a sensação de que eles me odeiam. Todos eles. Que eles não me suportam e me odeiam. Tive um momento de caos pela manhã que precisei segurar para não chorar. Queria tanto chorar. Justo hoje que também resolvi uma coisa super importante. Resolvi ficar aqui mais uma semana. Estou estendendo minha estadia na Guatemala. Hoje cedo emiti a nova passagem de volta e acertei minha estadia no projeto para mais uma semana. Estou criando todo um novo respeito pelos professores (e me sentindo bem culpada por algumas coisas que me lembro de ter feito...) Ok, amanhã é quarta. Vamos virar o jogo. Na sexta à noite já estou combinando. Vamos tomar cerveja e nos esbaldar de dançar (poperô em espanhol no melhor estilo guatemalteco), e no final de semana vou dormir no vulcão. Muitos planos excitantes pela frente. Foco e fazer o possível para chegar inteira até lá.

domingo, 2 de janeiro de 2011

GUATEMALA - PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Eu vim para a Guatemala sem uma imagem pré-concebida. Vim porque vim, nem pensei muito. Não fiquei estudando sobre o país e a cultura até virar PHD como sempre faço. Eu não tinha a mínima idéia nem de qual era a moeda local. Continuo sem fazer, sei que começa com Q e de resto não faço a mínima idéia do que é caro ou barato. O trecho do vôo até o Panamá foi dolorido. Saí de GRU às 4h30 da manhã. Seguindo direto de um jantar divino de Reveillon, com um taxista tagarela até o setor de embarque da Copa Airlines, uma fila chata e demorada de check in, para enfim sentar no assento 18C (detesto corredor) e enfim capotar antes mesmo do avião levantar vôo. Dormi praticamente todas as 7 horas até o Panamá. Mas foi um sono leve, sem comprometimento. Com o corpo dolorido e incomodado. Já as duas horas do Panamá até a Guatemala foram muito mais confortáveis. O vôo estava vazio, sentei sozinha na fileira e ainda pude escolher o lugar. Sentei em frente à passagem de emergência da porta em cima da asa. Dava tanto para esticar as pernas que minhas juntas até estalavam.  Enfim, Guatemala. Vou confessar que me bateu um medinho quando vi policiais com cachorros andando em cima das esteiras de bagagem, cheirando minha mala. Depois ainda escanearam e checaram meu passaporte umas 3 vezes mesmo depois de ter passado pela imigração. Falaram que era procedimento padrão. Eu tive um flash daquela cena de “Bridget Jones” quando ela vai para a Tailândia, mas mandei a imagem embora rapidinho. Só para não atrair. Uma representante do projeto estava me espeando na saída. Phoebe é uma australiana linda de 21 anos, muito inteligente e um poço de simpatia. Fomos conversando pelo caminho até Antigua, que fica cerca de 45 minutos de Guatemala City e é onde será nossa base. Deixamos minhas coisas na casa da minha host family e ela me levou para um tour prático pela cidade. Onde fica a lavanderia, onde fica caixa eletrônico, onde fica o supermercado, a farmácia, papelaria, internet café, correios, e a loja com o melhor espresso da cidade. Guatemala é uma grande produtora de café. Tenho uma certa expectativa em degustar muitos grãos diferentes nas próximas semanas. Depois sentamos para ela me fazer uma apresentação geral do projeto. A GVI é uma ong que atua em dezenas de países de Terceiro Mundo com projetos que agreguem melhorias urbanas, sociais ou ambientais. Esse projetos são financiados por doações e por voluntários que se dispõe a participar de um dos projetos pelo período mínimo de 2 semanas. Eles possuem escritórios na Austrália, UK, Irlanda e EUA, logo a grande maioria dos voluntários são desses países. O projeto que eu vou participar é uma escola em San Andrés Itzapa, um povoado indígena nas montanhas a 40 minutos de Antigua. O projeto todo é muito interessante, mas vou falar um outro dia dele aqui para não me alongar muito. Depois da explanação geral sobre o projeto, Phoebe me orientou sobre todos os riscos e perigos que podem acontecer durante minha estada. Desde intoxicação alimentar, até procedimentos de segurança em caso de terremotos. (A Guatemala teve um grande terremoto em 1976. Ele costuma acontecer a cada 30 anos, logo já estamos na prorrogação...) Depois ela ainda me mostrou onde eu terei aulas de espanhol e me apresentou para outros voluntários do projeto. Todos novinhos, mas transmitindo a mesma maturidade que ela. Tomei um suco de laranja com eles, mas fui para a cama às 20h30 da noite, com meu corpo mal aguentando escovar os dentes. Acordei hoje bem cedo, tomei café com minha host family. Angela e Duilio são dois aposentados adoráveis, que me receberam com tanto carinho e atenção que eu morderia a bochecha dos dois se esse tipo de manifestação de carinho fosse aceita por aqui. Dentro das diárias contratadas, eles não fornecem alimentação aos domingos, mas Angela me convidou pra tomar o café da manhã com eles antes de irem à missa. A casa é simples e pobre, mas muito bem cuidada e limpa. As paredes estão bem pintadas, e tem flores na janela. Os móveis estão sempre brilhando como se tivessem acabado de passar lustra móveis. Os dois são católicos, e inteligentes. Ficamos um tempão na mesa do café falando sobre algumas semelhanças e diferenças culturais. Eles pareceram tão acessíveis para me contar sobre a vida deles, algumas histórias do país. Antigua fica no meio de um vale entre dois vulcões. O Agua e o Fuego. Agua está inativo há muito tempo. Fuego vira e mexe cospe suas fumacinhas. Mas nenhum risco de uma erupção hollywoodiana. Agora é o que eles chamam de “inverno altiplano”, um período de seca, calor de dia e frio à noite. De manhã o Sol batia de leve esquentando o ar. Sai para explorar as poucas ruelas de paralelepípedo da cidade. É como uma Parati. Toda tombada, só que com casinhas coloridas. Cheias de lojas lindas de artesanato e cafés charmosérrimos. No centro há uma praça com um chafariz, rodeada pro dois prédios públicos com bandeiras em cima e galerias na frente, e uma igreja linda em frente. Gostoso se perder pelas ruas também para ir descobrindo ruínas, museus, igrejas para todos os lados. Barracas indígenas vendendo de tudo. Antigua é um festival de clichês da América Central. Tudo o que você sempre quis de um país de terceiro mundo. Para fotografar então. É como dar doce para criança. De deixar louco e com água na boca. As pessoas são lindas, as cores muitas e vibrantes. Tudo se contrasta com tanta harmonia. A vida cotidiana é tão interessante. Se você resolver ficar parado por cinco minutos em uma esquina qualquer, vai sair de lá com pelo menos uns 5 shots diferentes com jeitão de National Geographic. Parece que a cidade inteira estava acontecendo para minha lente hoje. Tirei mais de 300 fotos. Os indígenas olham um pouco desconfiados, mas no geral são um povo simples, do bem. Eles sorriem o tempo todo. Todo mundo te cumprimenta na rua, “Bueno Año”, “Buena Tarde”.  Mesmo depois das 11h, quando as ruas são invadidas por turistas em busca de um brunch de domingo, ainda assim a cidade não se descaracteriza. Não perde seu charme. A vida é. De um jeito despretencioso, descompromissado com tudo o mais que exista fora no mundo. Como viver em um quadro mágico de Frida Khalo. Não sei se é Antigua, ou toda a Guatemala, mas as pessoas aqui parecem que sabem de algum segredo. Algo que lhes confere uma leveza, uma plenitude que se conserva acima da pobreza, das limitações sociais, dos preconceitos, dos conflitos etnicos internos. Talvez seja coisa de quem está protegido e rodeado por tantos vulcões. Talvez não seja nada, mas eles querem nos fazer pensar que eles sabem de algo que não sabemos. Só sei que, assim de cara, Guatemala me parece um refúgio perfeito. Um universo paralelo de tudo o que eu achava que era mundo. Talvez seja algo que eles coloquem na água, vai saber... Também não quero pensar. Não quero concluir nada. Tudo é tão colorido, que eu vou apenas sorrir e cumprimentar as pessoas na rua.