Hoje eu recebi uma mensagem muito inesperada no FB. Alguém que saiu da minha vida. Fiquei pensando nas pessoas que entram e saem da nossa vida, e depois tentam entrar de novo. Eu não acredito muito em coisas definitivas. Existem pessoas que acabaram saindo da minha vida por desavenças, por estarmos em momentos diferentes, em buscas diferentes. Existem pessoas que eu excluí da minha vida por escolha. Algumas para me proteger, outras por considerar que o ciclo já havia terminado. Sem julgamentos. Acho normal pessoas entrarem e saírem. A vida é feita disso. Das experiências que temos e das pessoas que encontramos no caminho. Sou muito grata pela vida ter sido muito generosa nesses dois quesitos. Vivo experiências incríveis e conheço muita gente legal, por mais que às vezes a decisão seja por me afastar delas depois de um tempo. Quando paro para pensar, minhas amigas mais queridas tiveram ciclos. Até minha irmã de infância, a Carol, ficamos 16 anos sem nos ver até que eu fui para Portugal em 2010. Coisas de quem cresceu antes do advento da internet e da criação do Orkut. O K ficou “de mal” de mim por um ano. Só me desbloqueou no FB no meu aniversário, agora em agosto. Houve um tempo em que isso me afetava. Eu ficava arrasada e não entendia a falta. Ficava pior ainda quando era eu a me afastar. Carregava a culpa de me sentir intransigente, sem paciência. Hoje recebo isso com mais naturalidade. Como parte da vida. Tem gente que vai, tem gente que volta. E tem gente que nunca vai voltar. E está tudo bem. Eu celebro o tempo em que essas pessoas estiveram em minha vida, e sou grata e feliz pela amizade, o carinho, e tudo o que aprendi com eles. Então hoje, quase perdida na minha caixa de mensagens, um enorme pedido de desculpas de uma pessoa com quem tive um vínculo muito legal de amizade, de carinho; mas que acabou misturando as coisas e pisando na bola. Foi uma surpresa enorme, não apenas porque eu considerava essa uma pessoa que tinha ido e não voltaria, mas pela percepção que ele tinha. Nem sempre as pessoas reconhecem que pisaram na bola, e mais raramente ainda elas tem coragem de admitir seus erros e pedir desculpas. Acho que em outra época eu teria ignorado a mensagem. Talvez respondido secamente, só para ser educada. Pior, eu teria sido bem arrogante e reforçado o erro dele e minha super-razão. Hoje enxerguei nessa mensagem uma oportunidade de praticar generosidade e o apreço ao outro. Quem sou eu para julgar quem pisa na bola!? Eu já pisei na bola um milhão de vezes, com diversas pessoas. Eu já pisei na bola feio! Quando estava passando por momentos bem difíceis pessoais e acabei oferecendo o pior de mim. O fato de alguém me dar o seu pior em um momento não significa que não exista muita coisa de boa ainda ali. Eu escolho ficar com o que as pessoas tem de bom, mesmo que elas demorem anos para me oferecer. E quando alguém nos oferece algo de bom, nós aceitamos, e agradecemos, e perdoamos, e abrimos nosso coração para mais experiências.
"...estou procurando, estou procurando. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi." (Clarice Lispector - Paixão Segundo GH)
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terça-feira, 7 de outubro de 2014
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
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Felicidade é uma caixa de Mentex.
Quando eu morava no Jardins passava sempre no cruzamento da Estados Unidos com a 9 de Julho. Ali fica um vendedor de balas paraplégico. Ele fica na cadeira de rodas, com o tabuleiro de balas no colo e conversa com todo mundo. O mais impressionante é que ele sempre, sempre, SEMPRE tem um mega sorriso no rosto! Nunca vi esse cara mal-humorado. Ele está sempre feliz, positivo, de bem com a vida. Quando morava ali, fazia questão de parar na faixa da esquerda, abrir a janela e bater-papo com ele enquanto esperava o farol abrir. Quando não dava tempo de parar, eu gritava um “bom dia” da janela e acenava enquanto passava. Ele se esticava todo na cadeira e me acenava de volta, com aquele sorrisão de quem é feliz na vida. Teve uma semana que ele sumiu. Eu passava ali e me dava um aperto no coração. A gente sempre imagina tragédia. O cara podia muito bem ter ganhado na Mega-sena, mas a gente sempre imagina tragédia. Depois de uma semana ele reapareceu, do mesmo jeito de sempre. Nem tragédia, nem mega-sena. Tinha sido só uma gripe. Depois tirei meu ano sabático, e quando voltei vim morar em Pinheiros. Nunca mais passei por lá. Hoje, eu desci a Pamplona depois de uma maratona burocrática de pedidos de documentos, visitas à secretaria da faculdade e pendências mil, estava aérea, pensando na minha coluna do PPQO de amanhã. Pensando em como as relações humanas estão cada vez mais frágeis e mais difíceis, em como me dá vontade de virar uma bolinha igual tatu e me isolar do mundo. Quando me aproximei do farol da Rua Estados Unidos com a Av. 9 de julho fechado. E lá estava meu amigo. Em sua cadeira de rodas, sorrisão aberto. Por um instante tive o ímpeto de fingir que não tinha visto. Ficar olhando pra frente com cara de ocupada, esperando o farol abrir. Mas então ele veio até minha janela, pediu para eu abrir o vidro e foi então que eu me toquei. Eu já estava enroladinha feito tatu-bola, isolada do mundo. Abri o vidro para o meu amigo e a primeira coisa que ele me disse foi: “Oh, minha linda! Obrigado pela gentileza! Que sexta-feira linda! Vai sair com o maridão hoje!?”. Acho que ele não se lembrava de mim. Certamente que não. São muitas garotas introspectas dirigindo naquele farol todos os dias, e para mim só tem um vendedor paraplégico com quem eu bato papo. É natural que minhas memórias com ele sejam mais vivas do que as dele comigo. Eu não consegui falar muita coisa para ele. Não expliquei que não havia nenhum maridão. Nem que já faz tempo que a sexta-feira à noite não significa mais nada para mim. Não falei que minha grande expectativa do dia era lavar uma pia repleta de louça suja. Nem que todas minhas relações pessoais se reduziam à janelinhas em um chat no computador. Não contei para ele que já tinha morado ali pertinho, duas quadras dali. Nem tentei resgatar na memória dele que eu passava quase todos os dias ali e a gente conversava, e se reconhecia. Na época que eu andava com um Celta básico, peladinho, sem rádio, nem ar condicionado, porque eu era, talvez, muito mais desapegada de conforto do que sou hoje. Não falei para ele que era bom vê-lo novamente, e que eu sempre comprava Mentos, mesmo quando não tinha vontade. A única coisa que eu disse foi, “Hoje à noite eu vou trabalhar!”. Porque era a verdade. Porque é isso o que eu faço todos os dias. Dia e noite. Porque trabalhar muitas vezes vira uma desculpa quando a gente não tem mais nada com o que preencher o espaço da vida. Então ele me olhou, como quem olha a pessoa mais miserável e desamparada do mundo. Me olhou com ternura e compaixão, de quem está em uma posição melhor, muito melhor do que você. “Querida, não faça isso com você. Essa vida toda, é só ilusão. Nada disso é real. Não perca a oportunidade rara da vida por causa de matéria, por causa de dinheiro. A vida vai passar, e você vai perder e nada disso aqui vai ficar. Não deixe de aproveitar um único segundo da vida, por favor!”. Então uma ficha gigante caiu. Aquele homem ali na minha frente, sentado na cadeira de rodas, com papada no pescoço, de pele escura... aquele homem é um buda. Aquele homem é um ser iluminado, que já transcendeu todas as delusões dessa nossa vida material. E quando eu estava alimentando minha decepção com o mundo, ele me veio lembrar que o meu caminho é para o outro lado. Ele veio me acariciar com ternura e generosidade de quem sabe como essa ilusão toda do samsara pode ser dolorida para nós humanos. A gente passa por budas todos os dias, eu sei disso. Só prestamos atenção. Quem iria imaginar que em cima de uma cadeira de rodas, vendendo Mentex, estaria uma pessoa se sentindo muito melhor do que você, dona de todo o conforto de um ar condicionado. Nada contra o conforto. É uma benção tê-lo e sou muito grata. Mas nunca imaginamos que aquele que tem acesso a menos conforto do que a gente possa estar de fato em um lugar melhor. O farol abriu, os carros começaram a buzinar, e eu fui embora meio pasma. Sem processar totalmente aquela epifania. Acho que não me despedi. Certeza que não agradeci. Cheguei em casa, lavei a louça, trabalhei. Agora estou pensando muito nas coisas que eu acho que eu tenho que fazer. Se não é a obrigação em si também uma grande ilusão.
segunda-feira, 4 de março de 2013
NÃO VIOLENTA
Está fazendo um ano que eu adotei o budismo como religião. De todas as linhas religiosas, o budismo foi o que eu me reconheci mais. E mesmo dentro do budismo, até encontrar a Ordem Kadampa, de origem tibetana, eu passei por uns lugares que não me senti nada a vontade. Faz parte. Não acredito que exista ideologia perfeita. Exista aquela em que você se reconhece. Até por isso não faço muito alarde. Faço minhas meditações, minha sadhana diária, estudo e apareço no templo quando tenho vontade. Mas isso diz respeito somente a mim. Quando alguém se interessa, respondo às perguntas, até dou o site, mas fico na minha. Duas coisas que aprendi: As pessoas só vão de encontro a alguma religião quando sentem real necessidade, e aquilo que para mim faz sentido, pode não fazer para outra pessoa. Sei que é bem possível que se algum amigo se mostrar interessado na minha ordem e for comigo ao centro, vá achar tudo uma maluquice. Ou não. A verdade é que religião é algo muito pessoal, e por isso cada um encontra a sua. Para mim foi uma das melhores coisas que aconteceu em 2012. Hoje acabo me encontrando em situações muitas vezes que em outros tempos teria reações de muita angústia, tomaria atitudes precipitadas. Mas sinto que estou bem mais calma, centrada e relaxada. Eu sei que devo isso ao budismo. Tenho muitas coisas para trabalhar e conquistar ainda, mas eu me sinto melhor e mais feliz depois que passei a praticar. Claro que isso não muda minha natureza. Eu continua uma pessoa sensível, reclusa. Mas tem sido mais fácil lidar com alguns confrontos do dia a dia. Uma das maiores descobertas foi o sentimento real de não-violência. Ele primeiro foi se manifestando de força mais física, e agora tenho conquistado suas outras acepções. Eu nunca fui uma pessoa violenta, fisicamente. Mas sempre fui bem violenta na maneira de pensar e de opinar. Pensar na não-violência através do vegetarianismo, das influências que recebo, foi fácil. Eu não assisto a lutas na TV, por exemplo. Esses UFC da vida. Não vejo, não gosto. Me faz mal. Hoje não mato nem barata com inseticida. Acho bem fácil praticar a não-violência quando estamos defendendo cachorrinhos fofinhos, mas é um grande exercício respeitar o direito à vida de uma barata nojenta. Eu fico feliz de conseguir seguir a risca aquele ditado “não faz mal a uma mosca”. Agora tenho buscado outras formas de não-violência. A pela palavra é mais difícil. Falamos coisas agressivas o tempo todo e nem nos damos conta disso. É preciso me policiar o tempo todo e geralmente tenho perdido mais do que ganhado. Ainda assim, é com o exercício e a intenção que vou chegar lá. Esse ano me deparei com um novo desafio: a não-violência comigo mesma. Depois de experimentar a dizer “sim” para tudo, comecei a perceber que algumas situações me violentam. Temos uma tendência a suportar mais a dor quando ela é submetida a nós mesmos. Porque tenho mais cuidado com a violência ao outro e me permito ser violenta comigo? Talvez o segredo não seja dizer “sim” ou “não”, mas se permitir viver o que não lhe cause violência. E dizer “não” para qualquer coisa que lhe violente. Nessa horas tem muita gente que vem dizer “ah, deixa disso”, ou “não dê tanta importância”, e normalmente achamos que é por aí mesmo. Não damos tanta importância para a violência que estamos sentindo e continuamos com relações e situações que nos agridem. Para algumas pessoas, um local com música alta, repleto de gente bêbada pode ser muito violento. Relacionamentos protocolares em ambientes cheios de fofoca podem ser muito violentos. Tudo o que vai contra nossa natureza mais íntima, pode ser muito violento. Essa semana fui colocada a prova, em uma situação muito difícil de escolher. Talvez se fosse em outra época da minha vida, minha decisão seria diferente. Talvez quando eu for mais forte e tiver mais prática, eu consiga tomar outra decisão. Nesse momento eu decidi não me violentar. Me preservar. Me retirar. Não por que eu tenha medo, ou rancor. Mas porque eu não vou me submeter a qualquer coisa que possa me causar dor.
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