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sábado, 20 de setembro de 2014

TODOS 100 HAPPY DAYS


Hoje estou terminando meu projeto de 100 Happy Days. Muita gente não conhece e fica em dúvida de porque tem gente por aí colocando fotos com as hashtags #100HappyDays e contando dias. A proposta é feita por uma fundação que trabalha por um mundo mais feliz. A brincadeira consiste em você se cadastrar no site http://100happydays.com, escolher uma mídia para publicar suas fotos de felicidade e gratidão (pode ser FB, Twitter ou Instagram) e criar uma hashtag para que eles possam acompanhar a sua jornada. Nós demos uma notinha sobre o projeto na edição de julho da Vida Simples. 

Quando conheci o site duas coisas me chamaram a atenção: logo quando você entra, a página diz “Que tal ser feliz por 100 dias? Você não tem tempo para isso, não é mesmo!?”. Quando cliquei, a explicação do projeto dizia que cerca de 71% das pessoas que começavam a jornada não terminavam. Fiquei muito intrigada com essa informação. Achei até meio forçado, afinal, não faz muito sentido. Porque as pessoas vão resistir a serem felizes? Para mim é uma coisa tão incrível! Imagina só, alguém chega para você e diz: 

“Hey, vamos ser feliz por 100 dias!?”. 

Minha resposta é sempre:

“Opa, demorou! 100 dias só!?”

Então eu coloquei um post sobre o projeto nas mídias sociais da Vida Simples, e descobri que a percentagem de 71% de pessoas que fracassam na proposta talvez não seja tão forçada. A maior parte das interações à postagem pelos leitores era negativas, de reclamações ou derrotista. Quando se pergunta para as pessoas “Hey, que tal ser feliz por 100 dias?”, aparentemente isso as deixa meio putas. Li coisas como:

“Nossa, que preguiça!” ou 
“O problema é achar um motivo todos os dias.” e
"Mas tem que tirar fotos todos os dias?"

Li essas coisas um pouco incrédula. Sério mesmo? Sério que você não consegue achar nem uma coisinha, nem um detalhe no seu dia para ser feliz? Um amigo que te liga, um filme passando na TV que você gosta, um momento no trabalho que você deu risada, encontrar alguém que você ama, se surpreender olhando pela janela, comer algo gostoso... uma única coisinha em seu dia que tenha te arrancado um sorriso? Pelo qual você seja grato? Fiquei com um misto de compaixão e aversão por essas pessoas. Compaixão, porque ninguém deveria viver em um limbo como esse, onde não se vislumbra nem mesmo a possibilidade de um sorriso por dia. E aversão porque me reconheci em tantos momentos rabugentos de minha vida, e não quis ser aquela pessoa incapaz de ser feliz. Acho que estamos tão condicionados à reclamações e rabugices que nem mais percebemos quando a felicidade bate na porta. 

Entrei no site, cadastrei minha hashtag #ShineHappyDri e comecei meu desafio no dia 12 de julho de 2014. Eu estava em Portugal para o casamento dos queridos amigos Lícia e Ivan, e peguei um trem escondido para fazer uma visita surpresa para a irmã que a vida me deu no Porto. Foi um dia maravilhoso, porque eu adoro andar de trem, eu fiz a viagem inteira lendo, enquanto admirava a linda paisagem das vilas portuguesas pela janela. Cheguei ao Porto e quase matei a Carol do coração quando me viu de surpresa sentada no café com a melhor amiga dela lá. Fomos para Motosinhos as três e comemos uma mega caldeirada de frutos do mar, regada à vinho verde e depois ficamos até de madrugada no sofá da casa dela com o Viriato conversando e comendo chocolates. Foi um dia tão lindo, tão perfeito, tão cheio de coisas que me fizeram sorrir. Mas eu postei apenas essa foto:



Essa foto foi a síntese da minha felicidade naquele dia. Aliás, foi logo nesse primeiro dia que percebi que talvez a minha dificuldade não seria terminar o projeto, mas escolher apenas uma foto, apenas um momento para registrar. Não demorou muito para eu me habituar a perceber quais eram os momentos felizes do meu dia, e descobrir que na maioria das vezes o que me fazia feliz eram pequenos detalhes do cotidiano, coisas singelas, hábitos diários. Por exemplo: Tenho várias fotos dos meus grupos de literatura nesses 100 dias, e outras tantas de momentos caseiros lendo livros ou assistindo a alguma série.

Outra coisa curiosa foi que eu tenho mais uns 100 Happy Days que não entraram na seleção, mesmo eu tendo extrapolado a regra de 1 foto por dia (posto 3-4 fotos sem dó!). No avião de volta para casa, abri o potinho de frutas do café da manhã e tinha cerejas. É minha fruta favorita, tenho loucura por cerejas. Na hora a única coisa que pensei foi “Olha, meu momento Happy Day!”. Mas meu celular estava desligado no compartimento de malas em cima da minha cabeça e não queria atrapalhar a pessoa ao meu lado, para pegar uma câmera só para tirar foto do meu café da manhã no avião. Esse momento não entrou, mas ficou registrado comigo com felicidade e gratidão. É bobo, eu sei, ficar feliz com cerejas. Mas o que eu posso fazer? Cerejas me deixam feliz! 

Claro que nem tudo nesse processo foram pétalas de rosas. Eu tive dias difíceis. Dias que foram desafios. Dias com notícias terríveis. Dias de doenças e desânimo. Mas eu já tinha criado o hábito. Eu já estava condicionada a perceber quando algo me fazia sorrir e o que eu aprendi é que, mesmo nesses dias negros, existia uma minoria de felicidade. Com o tempo, é só dela que me lembro. 

Durante esses 100 dias também vi outras pessoas embarcando na proposta. Foram pipocando na minha timeline a hashtag #100HappyDays. Alguns percebi que desistiram (que pena!), já vi gente trapaceando também. Gente que começou depois de mim e já terminou. De repente a jornada deles tinha outro caminho, algum atalho que eu perdi. Mas em todos os casos fico felizona quando vejo alguém mais embarcar. Fico feliz pela pessoa. Criar o hábito de perceber a felicidade em minha vida todos os dias me fez tão bem, que fico super feliz quando vejo que alguém também vai ter isso para si. É um negócio contagiante. Quanto mais percebo a felicidade, mais a percepção da felicidade me deixa feliz.

Hoje estou no Rio de Janeiro. Estou desde fevereiro tentando arrumar uma brecha para vir visitar meus amigos aqui. Estou hospedada no meu irmãozinho carioca, e a gente já passou logo a primeira noite pulando e dançando na sala de casa, tomando as cervejas belgas que eu trouxe para ele. Tem bebês para conhecer, um bom tanto de praia. Longo papo sobre a Itália com o Dudu. Exposição do Dalí, chorinho no centro com gente amada, e se sobrar pique, uma festa em algum morro que prometeram ser legal. Muitas dessas coisas vão virar fotos e ganhar a hashtag, mas todas vão virar sorrisos e lembranças como a surpresa de cerejas no meio de um vôo. 

Hoje é o meu dia 100. Confesso que essa semana fiquei triste quando me dei conta que ia acabar. Paradoxal, não é mesmo!? Estou tão acostumada com o projeto, me apeguei tanto à brincadeira de tirar fotos, e colocar as hashtags e reconhecer os sorrisos dos meus dias e ser grata, que sinto uma dorzinha de ter terminado. Como um livro tão bom de se ler que a gente não quer acabar. Sinto uma vontade incontrolável de começar de novo, de fazer o cadastro, e postar novamente #Day1. Mas acho que a proposta da brincadeira é essa mesmo. É como um treinador, um couch de felicidade por 100 dias. Agora já posso tirar as rodinhas da bicicleta e andar por aí sozinha, sendo feliz.  

sexta-feira, 16 de abril de 2010

COMER


Eu não tinha pensado exatamente em me empanturrar em Portugal, mas a comida daqui... Hum!!! Me faz ter vontade de engordar 20Kg e ainda pedir sobremesa. Além do bacalhau, que é uma paixão nacional e eu tenho comido dia sim, dia também para ir à forra dos preços absurdos no Brasil, tem os doces também. Muito ovo, açúcar e massa folhada. Bases de pão de ló recheadas com cremes melecados maravilhosos, pastéizinhos, bolos, queijadas. Tudo daquelas coisas que a gente lambe os beiços e ainda fica com os dedos grudentos por um par de horas. Meu favorito, que já virou um hábito, é a “nata”. Uma versão genérica dos divinos pastéis de Belém. Não é em todo lugar que elas são boas, mas no geral é só olhar a cara da pastelaria que dá para sentir o potencial. Não passo uma tarde sem pedir um café e uma nata, e ficar olhando a vida pela janela de alguma pastelaria. Das diversas receitas de bacalhau, minha favorita é a de Bacalhau com Natas. Uma tijelona de bacalhau desfiado, refogado com cebola e temperos e colocado para assar com batatas raladas, creme de leite e molho bechamel. Vem com a superfície gratinadinha e muito azeite… ainda não povei um que não fosse um desbunde.


À parte das informações básicas da culinária portuguesa, precisava muito falar aqui de uma das melhores refeições da minha vida. Sempre que dou umas voltinhas, reservo uma grana para fazer uma boa refeição completa no local. Nem sempre é caríssima, quase nunca na verdade. Mas sempre procuro um restaurante que seja muito bem indicado, quase uma unanimidade; e que traga muito da culinária local. Em Évora fui à “Tasquinha do Oliveira”. Mega recomendado pelo Lonely Planet (e eles nunca erram!), e mega recomendado por 10 entre 10 pessoas que você cruzar no Alentejo. A “Tasquinha do Oliveira” é um micro-restaurante, são 5 mesas apenas, e todo o serviço é feito pelo Sr. Oliveira e sua esposa. Ela na cozinha, e ele fazendo as honras da casa. Abriram o local em 96, com a intenção de vender vinhos e petiscos apenas, mas o boca-a-boca foi rápido e os clientes exigentes, então ampliaram o menu e se tornaram um dos melhores restaurantes de Évora. Cheguei na hora do almoço decidida a seguir qualquer recomendação que o Sr. Oliveira me desse. Para entrada ele tinha exposto no balcão algumas saladas para escolha (acho que vem daí nossa cultura de aperitivos de balcão em botecos). Fui em uma de cogumelos paris frescos curtidos em azeite e vinagre com folhas de hortelã, e pedi um queijo de ovelha feito na região. O queijo, servido em pedacinhos individuais ainda com o tecido envolto, era curado na parte externa e por dentro extremamente cremoso e suave. Feito de leite fresco, o sabor era do azedo da coalhada, só que mais doce e macio na língua. O vinho que Sr. Oliveira me sugeriu foi o Herdade do Pombal, da região de Estremoz. Tão perfeito que se abria em sabores super complexos junto com o queijo e o vinagre. Então ele começou a me trazer várias opções de entrada para eu experimentar. Pataniscas de bacalhau, uma espécie de tempurá feito de massa muito leve de farinha, bacalhau desfiado e bastante salsinha. Parecia um floco de neve gigante de tão leve. E uma outra versão dos cogumelos paris, só que assados com lascas de paio. Como prato, segui a proposta da Rota dos Sabores do Alentejo (um projeto organizado pelo Turismo que estipula um sabor alentejano por mês e que é o grande foco nos restaurantes participantes). Abril é o mês do borrego (carneiro). Então fui de Borrego Assado à Alentejana, que são pedaços de perna e mão de carneiro assados em forno com batatinhas inteiras douradas e servido no molho da própria gordura e saladinha de couve picada. Para acompanhar, Sr. Oliveira me trouxe bolinhas de melão geladíssimas e super doces, que junto com a carne (que parecia uma manteiga de tão perfeita) explodiam na minha boca despertando algumas papilas gustativas que não são sempre exigidas. Cada garfada era um orgasmo, te juro! E enquanto eu estava lá, mastigando borrego e me encharcando com a complexidade frutada da trincadeira (uma casta comum nos vinhos do Alentejo, e a que mais agrada meu paladar), eu resolvi que nunca mais iria comer por come, só para me alimentar e pronto. Decidi que daquele momento em diante toda refeição seria um acontecimento, ou não seria. Quero me maravilhar com a comida, vibrar com os encontros do meu paladar, mesmo que seja um fast food, mesmo que seja pipoca no cinema. Cada refeição deve ser incrível em seu contexto. O ser humano é o único animal que desfruta as nuances da gastronomia, todos os outros apenas se alimentam. É um desperdício negar a si mesmo essa experiência. Acho até que é pecado! Na sobremesa fui superlativa e pedi Sericaia e Encharcada. Sericaia é um doce típico alentejano, uma espécie de pudim feito de farinha, ovos, canela e servido com uma ameixa em calda, e a Encharcada é um doce de ovos, açúcar e canela curtido em calda. Para acompanhar fui de vinho licoroso Mouchão, que é um vinho muito próximo no paladar ao Porto (produzido pela mesma técnica), mas da região. Como toda refeição deve ser terminada com um café (e café ainda é minha paixão), Sr. Oliveira me serviu um espresso bem tirado, com espuma caramelo na superfície e paus de canela fresca para mexer e deixar o aroma. Muito tímido, Sr. Oliveira puxa conversa aos poucos, fala baixo, sorri de lado, e parece ter muito carinho pelo Brasil. Se ele pensa em ampliar as 5 mesinhas para aumentar o faturamento? De jeito nenhum! Está preocupado mais em nunca perder a qualidade. Vai mantendo a vidinha com a esposa, de forma despretenciosa, simples e muito bem cuidada. Espero mesmo que a ganância capitalista fique bem longe de Évora. Enquanto eu flutuava pelas calçadas, ainda anestesiada dessa experiência deliciosa, cheguei a conclusão do seguinte. Comendo do jeito que eu comi, já entendi como foi que a esposa do Sr. Oliveira arrumou o marido.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ando completamente relapsa com o blog. Sei disso. Recebi cobranças também. Desculpe. Hoje entrei em uma loja de celular no meio de Évora e comprei um desses minimodens portáteis. Agora posso acessar com mais tranquilidade, até de dentro do ônibus. Mas não vou me esconder atrás dessa desculpa. Não foi apenas a falta de net. Estava em Lisboa e tinha tanta coisa para fazer. Depois voltávamos para casa e, minha nova prima e eu ficávamos até horas falando, e falando. Muito papo mulherzinha, que eu amo. E a última coisa que eu pensava era em vir aqui escrever. Só confirmando minhas suspeitas de que blog é coisa de quem não tem mais o que fazer (e umbiguistas assumidas como eu).
Ok, de onde eu parei? Eu estava em Lisboa com amigos tão amados e ganhei uma prima nova.
Além disso preciso registrar que havia esquecido de como os portugueses são grossos quando querem. AFE!!! Às vezes tenho a sensação de estar participando de alguma pegadinha, que horror!!! Lóóógico que recebo manifestações deliciosas de gentileza (e que, de acordo com a "Lei do Bom Retiro"*, essas manifestações tornam-se ainda mais carinhosas com a falta de cortesia que reina absoluta nesse país), mas no geral o português é grosso. Eu é que não vou criar caso com isso e estragar meu dia, então já acostumei, dou risada e guardo no diário para se tornarem ótimas histórias de viagem.
Essa semana fui um pouco de Lisboa e resolvi dar uma voltinha pelo Alentejo. Fui para Évora. Agora estou em Reguengos de Monsaraz (fala isso rapidinho, três vezes!). Évora é uma fofura de cidade, tombada pela UNESCO e blábláblá, mas só chove esses dias e tudo o que se há para fazer é ao ar livre. Então vim para Reguengos procurar vinículas para visitar. Ah, essas cidaddes são cheias delas! Fui em uma hoje em Évora. Me falaram que era perto, que dava para ir andando. Eu com a mochilona nas costas. Atravesso a muralha (já que Évora é uma cidade muralhada) e sigo pela estrada. Anda, anda. Anda mais. Chove. Eu com o meu guarda-chuvinha de poá preto e branco e barra pink comprado na Renner e com a resitência daquelas sombrinhas de papel vegetal que vendem na Liberdade. Carros buzinado ao meu lado na estradinha da largura de um corredor. Sério. Se passa carro, nem bicicleta cabe ao lado. Se for um SUV então, eu sou obrigada a pular no meio do mato. Mas tudo bem, super adventure. Meu cabelo que está parecendo palha de tão ressecado, depois de tomar chuva e secar o dia inteiro parecia a peruca do Bozo. Cheio de personalidade. Calça molhada. Mas cheguei até a Vinicula. E depois de fazera visita, voltei. À pé. E achei a Rodoviária sozinha, sem ajuda de mapa. Toda orgulhosa de mim. De ter explorado a Zona Rural de Évora (hahahah). Estava quase desistindo de vir para cá, quase voltando para Lisboa (porque Kika é uma linda e fica me ligando para dizer que está com saudades, e que me adora, e que minha estadia na casa dela fez muito bem a ela. Eu fico feliz, faço de tudo para colocar meus amigos para cima. Às vezes não dá certo, mas é muito legal quando funciona. Então ela grita no telemóvel "Vê logo o que tem para ver aí e volta pra cá, Gordaaaaa!". Kika adora chamar todo mudno de gorda.), mas chegando à rodoviária o ônibus para Reguengos de Monsaraz está pronto para sair. Então eu pulo dentro e venho para aqui. Cheguei na rodoviária, sentei na guia da calçada para atachar minha mochila de ataque na mochilona e me dou conta de que são 20h. Ainda estava claro, mas estou em uma cidade de 11mil habitantes. As ruas estão desertas. A rodoviária nada mais é do que uma garagem com um teto de cimento, e aparentemente estou completamente sozinha ali (todos os outros passageiros e o motorista desapareceram misteriosamente). Eu estou sozinha, em uma cidade deserta e que eu não conheço, com um endereço de um hotelzinho barato que eu não faço idéia de onde fica (ou se eu serei a única coisa respirando no quarto), molhada, totalmente descabelada, sentada na guia. E eu penso em como eu devo agradecer ao astral por tudo isso. Como eu sou sortuda, e abençoada, e feliz, e plena; eu penso em como eu tenho uma vida perfeita e conquisto tudo, exatamente como eu quero. Chega a me dar frio na barriga, certa angústia, porque como toda brasileira eu sou programada genéticamente para reclamar de tudo, a sempre esperar o pior, a diminuir meus méritos, e a achar que se algo bom me acontece, ele tem prazo de validade. Mas não. Não é assim. Engulo o calafrio e agradeço porque eu estou vivendo todas as experiêcias que eu queria. Joguei a mochila nas costas, sai andando pelas ruas embaixo de chuva e, como tudo está sendo perfeito, óbvio e natural, ando duas quadras e acho o hotelzinho que estou. Assim. Sem mais nem menos. Porque as coisas devem ser assim. O quarto uma graça. Cama confortável. Chuveiro quentinho. Horas abusando da minha internet, agendando detalhes dos próximos destinos, conversando com minha mãe. Cuidando da minha "quinta" no Farmville. Parabenizando o meu sobrinho lindo que faz aniversário. Sempre que eu acho que o caos se instala, a vida me inunda. Me enche de água até o nariz. Eu gosto de fazer bolhinhas. Só para garantir uma cereja no bolo, vou dormir bem tarde, depois de falar meia hora com meus sobrinhos. Eles receberam hoje meus postais de Dublin e ficam me contando tudo o que fazem. Antes de desligar, Bia me fala "Muitas saudades, Tia Dri. Eu não consigo viver sem você.". Eu também não, Bibi. Eu também não. Sorte nossa que temos uma à outra.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

RESSACA

Nem. Não é uma ressaca etílica. De dias de esbórnia e falta de bom senso. Nada disso. Tenho recebido tantas informações, e lugares, pessoas, tanto contato, que estou de ressaca. Com dor física até. Me dói o osso. Uma dor boa, foi desejada inclusive. Mas ainda assim, não pode ser ignorada.
Queria falar muito mais de Dublin, que foi mesmo incrível. Mas foi tudo uma loucura, fiquei dias sem internet, e quando tive acesso, estava cansada demais para qualquer coisa. Cheguei em Lisboa segunda à noite. Ivan, que é sempre a pessoa mais atenciosa, carinhosa do mundo, fez questão de me pegar no aeroporto. Ainda fomos passear pela cidade, tomar uns drinks e comer pão com chourizo e caldo verde. Meu corpo imediatamente se lembrou de todas as maravilhas gastronônimas de Portugal e lá vou eu ganhar vários kilos de volta. Eu que estava até feliz com as calças largas. No dia seguinte andei muito por toda Lisboa. Comi sardinhas assadas com batatas e sangria, diversos doces de ovos. À noite fomos para a casa da Kika (que eu não via desde alguns anos que podem denunciar minha idade...) e Ju estava lá também. Entramos noite rindo, contando histórias e bebendo muito vinho. É tão bom estar no meio de pessoas queridas, do bem, amadas. É muito bom estar no meio de pessoas que lembram como você era muito tempo atrás, mesmo que você mesma não se lembre. Mesmo que você mesma queira esquecer. Kika está me hospedando aqui. Ela mora em Oeiras, que é outra cidade, mas dentro dos meus padrões metropolitanos é a distância da Vila Madalena e da minha ex-casa (era a distância que eu e MH percorríamos para um café), e ela é uma anfitriã deliciosa. Sempre bem humorada, engraçada. Rimos e contamos histórias o tempo todo, e falamos besteiras, e fazemos planos de viajar pelo mundo. E nessas conversas acabamos descobrindo que somos primas. De verdade. A bisavó dela é parente da minha bisavó, ambas Cervantes, da cidade de Granada. Achamos uma justificativa cosanguinea para tanto amor, e agora nos chamamos de "priminha" e damos risada de como o mundo é mesmo uma kitinete mal frequentada. Ju também está sendo incrível. Ela estava de férias essa semana então me levou para conhecer Sintra, Estoril, Cascais; para comer pastéis de Belém e, óbvio, fizemos uma tarde mulherzinha e fomos às compras. Aliás, os pastéis de Belém.... são uma coisa única na terra!!! Dane-se a celulite. Não vou sair dessa vida sem experimentar todos os sabores de que sou capaz.
Estou me sentindo tão querida, e bem quista e amada aqui. Muito carinho e amor. Até minhas habituais discussões com o Ivan (porque a gente adora discutir!) são deliciosas e me fazem deitar à noite (ou melhor, quase de manhã) e agradecer com meu coração transbordando.
Minha cabeça está confusa. Chega a ser ensurdecedor. Está tudo uma bagunça, malas, roupas espalhadas nas casas de amigos pelas cidades, e eu não faço idéia do que fazer da minha vida em si. Estou muuito longe de chegar minimamente perto do que vim buscar, e parece até que tudo ficou pior, mais bagunçado e confuso. Mas com tudo isso, tenho tido dias incríveis, de muita felicidade. Relações preciosas, com pessoas preciosas. Conversar que me salvam com minha rede de proteção no Brasil. Tudo tão perfeito que me faz pensar se, talvez, a bagunça da minha cabeça não seja algo para se deixar como está. Se não é para ser assim mesmo. Não sei para onde estou indo, mas sei que não volto tão cedo. Todos os sinais me dizem que estou no caminho certo.

sábado, 20 de março de 2010

BANAL

Se me perguntarem porque eu resolvi ir para Viseu, eu só tenho uma resposta. Li em algum lugar que era uma ótima cidade para comer. Então fui a Viseu para comer. A cidade em si é um charme também, e essa coisa de conhecer cidades charmosas já está ficando entediante. Eu fico um pouco irritada comigo mesma quando me pego ansiosa, desesperada para ver tudo “o que deve ser visto” como a maioria dos turistas. Não sou uma turista. Acho que não nasci com o gene. Realmente me aborrece a estrutura contemporânea de turismo, de ver tudo pela janela, ouvir os guias, tirar fotos, comprar souvenirs. O que me motiva são coisas diferentes. Vou deixar de ver e fazer muitas coisas “obrigatórias”, porque meu olhar busca outro tipo de coisa. O que me encanta muitas vezes é a fragilidade de um velho passeando com seu cão. É a massa da população esperando um trem na plataforma. O comerciante abrindo a porta da sua loja. O cotidiano, o comum, o banal. Então eu fechei o Lonely Planet, sentei na praça do Rossio e fiquei muito tempo olhando a vida passar. Toda cercada de esqueletos de árvores que vão florecer (mais algumas semanas só, e vai estar tudo verde), tranquilizada pelo som da água na fonte ao lado. Ouvindo as conversas, assistindo duas mulheres do leste europeu mendigarem. Crianças caçando pombas, e para sorte das pombas as perninhas delas ainda são muito curtas para isso. Não consegui nem abrir um livro. A vida que me rodeava já era interessante demais. Tenho pensado no sentido de ler e escrever tantas histórias, quando existem tantas acontecendo ao vivo. E pensando nisso também me dei conta que já faz mais de um mês que não escrevo uma linha. Fui consumida pelo carnaval, a mudança, a viagem, a chegada, a virose, a estrada, e quando dei por mim muitas semanas já se passavam sem que eu escrevesse uma linha. E eu tenho um livro que falta isso para ser terminado. Ele é minha única pendência agora. Preciso voar. Terminar. Porque um novo já se aponta. Depois fui ao Museu Grão Vasco, considerado o maior pintor português da história. A sensação de ficar sentada em frente ao seu quadro “São Pedro” me valeu o ingresso, a viagem até Viseu e toda o dia. Uma daquelas obras que realmente te tiram as palavras. Pena que qualquer reprodução em livro não consegue causar o mesmo impacto de ver a obra ao vivo. Mas em Viseu eu comi. Alguns doces (e esses doces portugueses, vou te falar!) na melhor “pastelaria” da cidade, que depois fui descobrir era de um carioca da Ilha do Governador. Viriato brincou depois que todos os padeiros em Portugal são brasileiros. E desbravei uma ruelinha toda minúscula, cheia de opções de restaurantes e bares. Fiz uni, duni, te e entrei no “O Cortiço”. Bem tradicional, com pernas de presunto penduradas no teto. Vinho de primeira (da região do Dão que rodeia a cidade) servido em jarra de madeira. Morcela, linguiça, Parma e queijo de aperitivo. Pedi uma sopa de legumes de entrada. Um coelho cozido em vinho com batatas como prato. Então o coelho veio acompanhado de uma verdura maravilhosa que eu não conseguia distinguir pelo sabor. Verde escura, pouco folhosa. Na aparência me lembrava um brócolis picado com os talos, mas o sabor não era tão doce. Finalizava um certo amargo de chicória, só que bem mais saborosa. Perguntei para o garçom o nome da verdura. “Ah! Estás a comer grelos.” Corei! Quase me matei para segurar a gargalhada e dei um belo gole de vinho para conseguir repetir o tal nome. Acho o máximo essas peculiaridades da língua, que podem transformar algo tão vulgar em uma verdura saborosa e excelente para acompanhar um coelho cozido. Depois de tanta comida, não cabia mais nada de sobremesa, mas não dispensei o licor. Sai rolando pelas ruas de pedras até o albergue, onde (bem embaixo da minha janela) Joelma me aguardava com os maiores sucessos da Banda Calipso.


Agora estou em Londres. Cheguei ontem à noite, chovendo. Uma jornada para vir de Gatwick até a Old Street Station. Mais uma jornada para conseguir um táxi. Eu e Isa só fizemos uma pizza e tomamos uma cerveja, para desmaiar em seguida. Em Londres quero dar um tempo. Nada de maratona para ver tudo. Pode ser que eu saia daqui sem ter visto a Abadia de Westminster, sem ter passeado pelo Hyde Park. Sem nem uma foto do Big Ben. Não importa. É minha Londres, minha jornada. Vou fazer só o que realmente tiver vontade de fazer.

terça-feira, 16 de março de 2010

COIMBRA


Eu vou tentar ser sintética sobre Coimbra, porque para falar tudo o que eu vi lá precisaria de uns cinco posts (e eu estou bem cansada hoje e duvido que alguém tenha muito saco de ler tudo). Quando cheguei em Coimbra ontem não botei muita fé. A cidade não é muito grande. Gira em volta da universidade, que é uma coisa bem imponente mesmo. O conjunto de prédios fica na região central e mais alta da cidade, então a impressão que se tem é de que o tempo todo damos de cara com ela. Mas não é qualquer universidade. Foi a primeira universidade de Portugal e uma das primeiras da Europa. Até hoje carrega um dos mais conceituados nomes no meio acadêmico mundial. A Universidade foi na verdade fundada em Lisboa a princípio por Dom Dinis em 1290 (o mesmo que deu Óbidos para a esposa. Ele era um rei bastante empreendedor.) e só foi transferida definitivamente para Coimbra uns 250 anos depois, vivendo um período de grande efervescência durante a Renascença, com docentes que vinham de toda Europa. Histórinha geral. Coimbra foi fundada por romanos, mas cresceu na época da dominação moura por ser um excelente ponto estratégico. Nessa época também os mouros muraram toda a cidade (como gostavam de um muro esses mouros…) e construíram torres de vigilância que ainda podem ser encontradas misturadas à arquitetura atual da cidade. Coimbra foi também capital de Portugal por mais de um século. E tudo isso para entender que a história da cidade se funde e confunde com a história da universidade. Assim como os resquícios da muralha estão perdidos entre prédios renascentistas por todos os lados. Coimbra é uma cidade que se reciclou, mas mantém viva e palpitante uma série sem fim de rituais académicos que fazem qualquer visitante querer defender tese de doutorado. Apaixonante mesmo são os uniformes dos universitários. Não é obrigatório, mas é um desbunde por si. Trata-se de um terno (calça para os homens, saia para as mulheres), camisa branca, gravata, paletó e uma capa incrível por cima que faz parecer que todos eles estão no horário do recreio de Hogwarts. Dentro das capas os estudantes costuram insígnias dos cursos que frequentam, fraternidades, cidades de origem, países, etc. Quanto mais insígnias, maior é a vida académica do estudante. Eles também possuem fitas coloridas que representam o curso que estudam. Vermelha é Direito. Amarela, Medicina; e assim por diante. Em Maio acontece um ritual centenário em que os alunos formandos queimam as fitas em uma grande pira, e há festa por 10 dias, com música ao vivo e cerveja mais barata para todo mundo. Existem documentações fotográficas do ritual da Queima das Fitas, algumas impressionantes feitas um dia antes da tomada do poder da ditadura de Salazar. O prédio central da universidade, onde fica o curso de Direito, já foi o palácio real e sede do governo. As cerimônias anuais de abertura do ano letivo acontecem na Sala do Exame Privado, que já foi a câmara real, o local onde o rei dormia. Imagina então defender tese de doutorado na Sala dos Capelos, o local que foi a Sala do Trono de todos os reis da primeira dinastia portuguesa. São milhões de detalhes assim que fazem da visita a Coimbra uma jornada repleta de simbolismo, rituais, e um olhar completamente a educação e a vida acadêmica. Há ainda a impressionante Biblioteca Joanina. Uma pena não poder fotografar lá dentro, proibido para preservar os livros antiquíssimos da luz. A primeira sensação que se tem ao entra na biblioteca é algo indescritível. Tive a sensação de entrar em uma pintua. Juro! Descobri também que dentro da biblioteca mora uma colônia de morcegos. Sério. Os bichinhos. De verdade. A administração mantém a colônia na biblioteca porque os animais ajudam a comer os insetos e preservar os livros. Bem bizarro. Andar pelas ruelinhas medievais que parecem um labirinto ao redor da universidade também é uma delícia. Descobre-se lojinhas, casas fofas e algumas repúblicas estudantis que são identificadas com bandeiras ou grafittis nas paredes. Parece uma salada muito grande, mas te garanto que tudo é harmônico e faz muito sentido. Gostoso também é descobrir um dos cafés e pastelarias na Rua Quebra-Costas (a rua na verdade é uma grande escadaria que deslancha até a Torre Almedina e é o lugar mais charmoso de Coimbra), sentar em uma mesinha, pedir um café e uma nata (nata é um doce típico feito de massa folhada e creme de ovos. Muito parecido com o Pastel de Belém), e ficar apreciando as pessoas passando, os estudantes conversando, indo e vindo. Uma vida que palpita, revigora, faz muito bem.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O PRIMEIRO CASTELO A GENTE NUNCA ESQUECE!!!



Que soutien que nada. Inesquecível mesmo é o primeiro castelo. Ainda mais para uma brasileira nata, que a coisa mais antiga que foi acostumada a ver tem um par de séculos. Carol, como uma boa historiadora medieval, queria muito me levar para Óbidos. Uma cidade ao norte de Lisboa, mas como tudo é perto em Portugal, fica apenas há algumas horas do Porto. Lisa nos acompanhou, o que deixou tudo ainda mais divertido. Lisa é uma alemã que caiu de paraquedas em Portugal e acabou ficando para fazer um mestrado, agora um doutorado… Ela é hilária e repete “Fixe!” um milhão de vezes por dia. (Obs.: Fixe, é a gíria portuguesa para dizer que alguma coisa é legal. Hoje é mais usada como uma expressão orgânica na comunicação do dia a dia, do que como uma gíria em si.) Pois bem, Óbidos é uma cidadezinha de 3.000 habitantes, toda preservada exatamente como era no período medieval. As casas, ruas, tabernas. A região caiu nas graças da rainha Dona Isabel e Dom Diniz, rei de Portugal na época, construiu o castelo e deu a cidade de presente para a esposa em 1228. Não é legal? Uma cidade inteira de presente? A gente é tudo um bando de idiota, se derretendo toda com bombons e flores. Eu também quero presente grandioso de namorado! Uma cidade com castelo... O Taj Mahal… Bom, que seja. Na época da dominação moura, Óbidos serviu de ponto estratégico e foi toda murada. Então as construções da cidade são da época de Dom Diniz, mas o muro que a rodeia é mourístico. Eu fiquei extasiada! É como participar de um filme de verdade. Tudo tem cara de cenário, e despertava em mim uma vontade de ser menininha. Virar donzela. Gritar por causa de dragões e feiticeiras. Todas minhas memórias de heroína de infância afloraram. Eu sai pulando (e tropeçando) pela ruelas, descobrindo portas, janelas, floreiras, jardins. Imaginando como era viver naquelas ruas há quase 800 anos. E o mais incrível é que a cidade tem aqueles muros quadradinhos, igual playmobil!!! É uma visita de um dia, não há muito mais o que fazer, mas o Lonely Planet aconselha para quem tiver tempo dormir na cidade e sentir o clima mais forte das tabernas e da típica vida noturna. Nesse final de semana estava tendo um Festival de Chocolate na cidade, então todas as lojas vendiam bombons, nuts cobertos, sorvetes com caldas e copinhos de chocolate para tomar licor de ginja (OBS.: Ginja é uma fruta típica daqui, da família das berries, e produz esse licor delicioso bem doce e frutado que se acha em todos os cantos). Tinha muitos gafanhotos pelas ruas por causa do festival, de várias nacionalidades, o que costuma me deixar irritada. Mas a multidão acabava dando um ar de feira medieval. Como se a qualquer momento algum cavaleiro em armadura fosse passar correndo entre nós para um torneio de lança… voltar, me oferecer uma flor e pedir um cacho do meu cabelo para dar sorte...

Dicas –
- em Junho rola meeesmo uma Feira Medieval em Óbidos, com simulação de lutas, pessoas vestidas a caráter, tendas e tudo o mais.
- eu aconselho calçar sapatos baixos e confortáveis para visitar Óbidos. O calçamento também é medieval e anda-se bastante. Assisti algumas adolescentes destruindo o bico de scarpins nas pedras.

A SAGA DE DEPORTAÇÃO DO VAIO COR DE ROSA


Fui obrigada a deportar meu Vaio rosa. Começou assim. Logo na primeira semana Carol e Viriato receberam alguns amigos em casa para me “introduzir”. Lá pelas tantas, depois de tantas garrafas de vinho, eu pego meu lindo bebê para googlar nem me lembro mais o que e ele está chiando com um som horrível. Imaginei que era ele também embriagado pelas altas horas, encerrei e fui dormir. No dia seguinte novamente meu bebê chorando. Comecei a ficar preocupada. O barulho era como se alguma pecinha estivesse deslocada e ficasse esbarrando na ventoinha toda vez que ela era ativada. Me doía o coração ficar ouvindo aquele som, (mas eu não tinha como deixar minha fazendinha do Farmville apodrecer de maus tratos!). Na segunda-feira compartilhei meus temores com quem quisesse ouvir (e com quem não quisesse também). Acho que de tão chorosa que eu fiquei, Hugo (meu anjo da guarda português) se ofereceu para me levar até a assistência técnica no final da tarde. “Vai ser algo rápido. Sim ou não.” E realmente foi. Chegamos na assistência técnica da Sony em um shopping em Matosinhos e a garota nem olhou direito para o meu bebê e disse “Não!”. Não podiam consertar. Tentei murmurar algumas argumentações, mas em se tratando de hardware os atendentes olhavam para o meu bebê como se ele fosse leproso. Ainda assim ela me deu um papel com os números de telefone da central de assistência técnica da Sony em Portugal e me garantiu que eles retirariam o PC para conserto na casa da Carol e devolveriam depois de pronto sem custos. Fiquei bem impressionada com a eficiência naquele ponto. No dia seguinte amanheci com febre alta, dores no corpo e aquela virose milagrosa que me ajudou a afinar alguns kilos (e deixou minhas calças muito mais lindas no meu corpo). Ainda assim arrisquei dar um pulo em um shopping perto e, me arrastando no balcão de uma assistência técnica genérica, ouvi novamente um sonoro “Não”. “Mas, moço! Dá só uma olhadinha. Eu tenho certeza de que é algo simples, deve ser só um parafusinho, uma coisa boba que está fazendo barulhinho.” Nada de conversa. “Desculpe-me senhora. O aparelho possui mecanismos de segurança para identificar se for aberto e a senhora perderia a garantia.” Senhora! Humpf!!! Voltei para meu intensivo de recuperação de virose e, assim que melhorei, liguei para a central da Sony. Bom, aqui vai o grande momento em que me senti inútil por estar fora do meu país. Primeiro que o atendimento da central era todo eletrônico, e esse sotaque lusitano, juro por Deus!, às vezes me parece aramaico e não português que eu possa entender. Então a gravação pedia para eu entrar com o número de série do produto, O QUE EU NÃO CONSEGUIA DE JEITO NENHUM! Porque o aparelho foi comprado no Brasil e, obviamente, possui um número de série brasileiro e assim que eu o digitava o sistema não reconhecia porque estava programado para aceitar apenas números de série portugueses. Para ajudar não havia nenhuma opção do tipo “Para falar com um de nossos atendentes, disque 0, ou 9, ou 6, ou *, ou o que quer que seja”. Depois de meia hora ligando e religando para a central consegui traduzir uma indicação da gravação para computadores adquiridos em outros países. Entrei no site com o meu bebê grunhindo, e novamente o sistema não aceitava o número de série. Mais meia hora me debatendo e encontro o link “Para assistência técnica de computadores adquiridos em outros países click aqui”. Aleluia!!! Clico. “Insira país de origem do aparelho”. Vamos lá: Brasil. E me aparece tchantchantchan??? Um número de telefone para contato EM SÃO PAULO!!! Entrei no Skype, telefonei para o número e expliquei para o atendente com todo o meu bom português brasileiro (que ele entendia perfeitamente!!!) a situação em que eu estava. “Olha só! Tá ouvindo? Ele faz esse barulhinho, ó.” Hum! Ele digitou, conversou com alguns superiores e me retorna “A senhora vai precisar enviar o PC para conserto no Brasil”. Como assim? “A senhora nos envia por correio, nós efetuamos o reparo, e reenviamos para o endereço que a senhora quiser em qualquer lugar do mundo.” Senhora! Humpf!!! Completamente desiludida, imaginando o terror e a solidão que o meu bebê teria de enfrentar sozinho, viajando de volta por correio para o Brasil, ainda fui abatida por um pânico avassalador de ficar sabe-se lá quanto tempo sem computador. Então tentei ainda uma última chance. Voltei ao shopping e à assistência técnica da Sony e praticamente implorei para que eles abrissem meu bebê e dessem um jeito nele ali mesmo. “Dane-se a garantia! Se você quiser eu mesma abro, eu desatarraxo os parafusinhos, eu tenho certeza de que é algo bastante simples que a gente conserta em uma hora!!!” Em vão. “Desculpe-me senhora.” Derrotada, completamente perdida, fui obrigada a ir até a Fnac e comprar um netbook (que era mais acessível, mas ainda assim: OUCH!!!). Pior! Nada de netbooks rosas!!! Fiquei horas infernizando o vendedor por um desconto, parcelamento, qualquer coisa que me fizesse sentir menos a perda dos meus euros (meus míseros euros…. Ai, ai!), mas eles são irredutíveis. Acho que no final ele se compadeceu com o meu sofrimento e me deu de presente uma capa rosa da vaio e um mouse cor de rosa também. Carol me disse que isso era bem raro por aqui, ganhar qualquer coisa que seja de uma loja. Ainda fiz o vendedor corar profundamente quando perguntei para ele onde poderia conseguir uma versão pirata do pacote Office (Bill Gates que me perdoe, ele já tem dinheiro demais!), mas no final tudo está se acertando. Hoje de manhã fui até os correios e gastei mais um tanto de preciosos euros para mandar meu bebê de volta para casa. Talvez seja melhor. A viagem seria dura demais para ele. E esse netbook tem o teclado minúsculo, é branco e não rosa, mas se adapta muito melhor a minha mochila. O Vaio Rosa vai ser cuidado, alimentado, protegido e, quando eu voltar (se eu voltar) vai estar bonitinho me esperando na casa da minha mãe.

domingo, 14 de março de 2010

OS CASAIS DO PALÁCIO DE CRISTAL

Passei a tarde de sexta passeando pelos jardins do Palácio de Cristal. Não é incrível esse nome? Parece conto de fadas. Palácio de Cristal. Como se eu fosse encontrar a Barbie dançando "O Quebra-Nozes" em alguma alameda. Acho que esse é o lugar mais romântico do Porto. Eu poderia escrever um livro inteiro naqueles jardins. Histórias de mulheres arrebatadas pelos próprios sentimentos, e a concretude de uma tarde de outono. É um lugar que desperta o meu lado mais "menininha". Fiquei com uma vontade tão grande de me apaixonar. De me enrroscar com alguém só meu em algum daqueles bancos. O lugar inteiro transborda romance. Cada cantinho, cada esquina, você tropeça em um casal apaixonado. Existe um sossego, uma paz onde só os verdadeiros amantes podem viver. E ainda avista-se o Douro se perdendo entre as árvores até o mar. É, de longe, meu lugar favorito no Porto até agora.
A oferta de tipos de casais era tão grande que instigou minha veia voyerística mais profunda. Fiz uma série toda especial deles:

Casais vindo...


...indo...


...clássico "enamorados"...


...companheiros...


...cúmplices...


...paparazzis...


...circenses...


...intelectuais...


...primeiro encontro...


...segundo encontro...


...terceiro encontro (e quase às vias de fato!!!)...


...gays...


...no armário...


...fora do armário...


...em dúvidas...


...mas assumidos!

Me diz? Não dá vontade de se apaixonar?
:-)

quinta-feira, 11 de março de 2010

CHOQUE TÉRMICO

Foi um grande choque térmico minha primeira semana em Portugal. Passei muito frio. Um susto por não haver calefação em todo lugar como em NY. Susto de pensar vinte vezes por dia “Eu não tenho mais casa”. Eu tenho andado muito confusa. Agora já vai mais de um ano, bem confusa. E sempre que eu penso que estou começando a entender alguma coisa, tudo desmorona e me fundi a cabecinha novamente. Então estou chegando à conclusão que não é para ser. É para deixar tudo confuso mesmo. Então melhor assim. Tive muita dificuldade para entrar no horário. São poucas horas de diferença, mas foi muito difícil para mim. O sono regularizou, então foi meu computador que quebrou. E computador legal, é aquele que quebra de verdade. Ele não dá pau no software, não senhor! Ele pifa bem em alguma pecinha (que até deve ser muito simples), mas que ninguém quer por a mão porque é hardware, e hardware é uma coisa quem na linguagem de assistência técnica significa enviar meu computador para o mundo de Nárnia. Eu conto a saga do computador em outro post, que até acabou tendo um final feliz (não para os meus Euros… meus míseros Euros…). Então com o meu computador chiando feito cuica em carnaval, eu conheci pessoas muito interessantes. Patrícia e João, um casal encantador e lindo. (Meu Deus! Eles vão ter filhos lindos!) E João é um artista realmente intrigante. Passei a noite pensando nas telas dele. Hugo está virando um anjo da guarda. Ele é tão gentil comigo que eu até me sinto constrangida. Me dá bom dia todas as manhãs pelo FB, me enche de dicas de passeios (que eu preguiçosa ainda não fiz nenhum), e ainda me carregou até Matosinhos na saga da assitência técnica da Sony. Para piorar, ele ainda ouve todas as besteiras que eu digo e acha graça. Achei que teria alguma vantagem na mesa de poker que carol e viriato frequentam. O poker que eles jogam não é o mesmo que eu jogava lá. Eles excluem as cartas baixas como no truco e até aceitam um jogo com 4 cartas (!!!). Não saí da mesa nem empatada com o buy in. Uma verdeira vergonha para uma aspirante a profissional. Humpf! Então fiz planos. Porque eu sou uma pessoa que adora fazer planos. Ia viajar para Braga, Guimarães, talvez Coimbra essa semana. Ia à Ópera na terça. Começar de vez a minha exploração. Mas na segunda-feira à noite deito estranha com dor no corpo. Acordei nocauteada por uma virose completamente inexplicável. E me senti péssima. Não apenas porque 38º de febre é uma coisa que me deixa bem derrubada, mas também porque meu intestino se liquifez por 3 dias. Dizem que esse é o tempo padrão de qualquer virose. 3 dias. A minha foi bem padrão também. Eu não tinha diarráeia desde o tempo que eu precisava de ajuda da minha mãe para esse tipo de coisa, mas como eu acredito que em tudo na vida a gente pode escolher ser uma boa experiência ou uma má experiência (Tudo! Tudo mesmo!!!), eu escolho tranformar 3 dias de diarréia em uma experiência incrível e agradeço aos céus pelos kilos que eu finalmente consegui eliminar e que nem a pholia magra deu jeito! Os planos de começar a explorar foram adiados. Fico tensa pela Carol, que além de receber uma maluca que ela não via há 16 anos, ainda tem que aguentar a garota passando mal na sala deles. Então hoje eu saí para um dia lindo de Sol. Sem me sentir tão afetada pelo clima. Aceitando o frio. Eu ainda tenho dificuldade com o sotaque lusitano. Tenho sempre a sensação de que vou ser mal-compreendida. Ainda não entendo o que estou fazendo aqui. Ainda não entendo o que estou fazendo do outro lado do Atlântico. O que vim buscar. Mas olhando a estranheza da cidade hoje pela janela do autocarro cheguei a conclusão de que eu não tenho de entender. Que meu corpo purgou tudo que eu fiz em um susto em fevereiro. E que agora eu posso realmente começar a viagem. Estou em uma crise que não vai passar tão cedo. Me entregar a ela pode ser a coisa mais libertadora que eu possa fazer. Talvez também a única coisa de que eu sou capaz. Tudo daqui para frente será estranheza. Eu tenho sempre a opção de me maravilhar com o estranho. Tenho milhões de conselhos queridos de para onde eu devo ir. Todos eles eu sei que feitos com amor e certa nostalgia. São pessoas que querem compartilhar comigo experiências que foram incríveis para elas. Eu sou muito grata por ser rodeada de tanto amor. Mas eu acho que agora se inicia uma época de incerteza. De não fazer planos. De maravilhamento com a estranheza. Acho que agora, finalmente, cheguei ao ponto de partida.

quarta-feira, 3 de março de 2010

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Segunda-feira comecei a me localizar no Porto. Viriato foi muito gentil e me levou para um tour a pé. A cidade toda é muito agradável para se passear a pé. Eu tenho a sensação de estar em um filme de época. O tempo todo. A arquitetura, as paisagens, os figurinos. O Porto é uma cidade extremamente charmosa. As esquinas se desdobram revelando cafés, padarias, lojinhas irresistíveis. O frio dá um tom mais especial, deixa o passeio mais agradável. Tem feito cerca de 10 graus durante o dia, mas as caminhadas ajudam a esquentar. Geralmente só sinto quando sento em algum lugar ao ar livre e o corpo esfria. A população portuguesa é bastante envelhecida. Por todas as ruas há velhinhos passeando, tomando chá, conversando em bancos de praças. Como a locomoção é muito fácil, tenho a impressão de ser uma ótima cidade para se envelhecer. Engraçado que o Porto é uma cidade litorânea e rodeada pelo Rio Douro. Então ouve-se gaivotas e uma abundância de ofertas marinhas nos restaurantes, embora a paisagem seja muito diferente da minha referência de cidade litorânea. Fui com Viriato até Vila Nova de Gaia, onde fica o galpão de seu grupo de teatro. Vila Nova de Gaia é uma das inúmeras cidadezinhas que rodeiam o Porto de forma cornubada. Tão próxima que fomos andando do centro até lá. Fica do outro lado do Rio Douro e é onde estão as vinículas do famoso Vinho do Porto. Todas à beira rio, possuem tours de degustação que vou fazer mais para frente. (Confesso que só liguei os pontos de que o “vinho do porto” é feito na “cidade do Porto” quando já estava aqui. A loirice é uma coisa que fica impregnada no cérebro pelo resto da vida!) O cenário teatral me pareceu muito próximo ao paulista, com as mesmas dificuldades. A diferença é que o universo em que eles estão inseridos é bem menor, então é possível uma expressividade maior. É bem diferente se destacar em uma cidade de 250 mil habitantes, e em uma de 18 milhões. Ainda assim a conclusão é a mesma. Um dos motivos de haverem tantos cafés, restaurantes e lugarzinhos para comer é que, apesar de o número da população oficial ser modesta, todas as pessoas dessas cidades vizinhas trabalham aqui e contruibuem para que o número de pessoas no centro durante o dia suba para perto dos 2 milhões de habitantes. Conheci o lugar onde Carol trabalha. Um clube privado muito antigo (e não o antigo a que temos referência no Brasil, mas antigo de verdade). Ela é a responsável pela biblioteca do lugar, que tem, entre outras raridades, a primeira edição de “Os Lusíadas” de Camões. (eu que sempre considerei a primeira edição de “Dom Casmurro” algo antigo...). À noite fomos ao supermercado e eu protagonizei uma cena de gargalhadas e saltinhos entre os corredores quando vi o preço do vinho. Basicamente E$3 pela mesma garrafa que no Brasil me custava R$65. Decidi que não me hidrato mais com água e estou convencida de que essas pessoas não são todas alcoólatras por uma mera predisposição genética. Em compensação um mamão papaya sai pela bagatela de R$12, mais ou menos. (E quem precisa de mamão papaya, quando pode-se entrar em coma alcoólica por tão pouco?)

Hoje sai pela cidade sozinha. Parando em alguns pontos, tirando fotos, ouvindo o sotaque. Atrás da reitoria da Universidade do Porto (que é um prédio que ocupa um quarteirão) achei um albergue incrível. O Poets Hostel. Me deu uma bela idéia da categoria dos hostels que vou encontrar por aí, e me deixou bastante tranqüila. Eu sei que não vou ficar tão bem instalada como estou no Porto, mas é muito bom saber que as opções de estadia barata são tão fofas. O Porto é uma cidade universitária, então na hora do almoço as ruas se enchem de estudantes que andam aos bandos, conversam, riem. É um contraste interessante com a comunidade de velhinhos que transborda dos bueiros. Na Praça dos Leões eu tentava me localizar para chegar até a Rua Santa Catarina, e um senhor se ofereceu para me indicar o caminho. Ao ouvir meu sotaque brasileiro ficou todo feliz, me deu dicas de todas as paradas que eu deveria fazer, explicou, rexplicou e me abraçou, me encheu de beijos e falava “Oh! Uma moça brasileira, tão boazinha, Oh! Que boazinha você é!”, e me apertava. Eu fiquei lá, no meio da praça, sendo agarrada por um velhinho que estava todo emocionado de me ajudar. Dizia “Obrigada. Muito obrigada.” e tentava delicadamente me desvencilhar dos braços do senhor. Não sei se isso é pela imagem afetuosa que nós precisamos carregar mundo a fora, ou pela fama duvidosa que as brasileiras têm por aqui. Justo eu que detesto contato físico. De qualquer forma, foi a primeira manifestação positiva que recebi por ser brasileira. O portugueses não morrem de amores pelo Brasil, e tem seus motivos para isso. Fiquei algum tempo dentro da Livraria Lello. Uma livraria super tradicional e famosa daqui, tem uma arquitetura toda preservada e os livros dormindo nas enormes prateleiras de madeira. Uma escadaria grande no centro do salão que leva para o segundo pavimento, um café, e a sensação de que eu deveria usar algum tipo de figurino por estar lá dentro. Linda! Um pouco mais abaixo entrei em uma loja fofa, cheia de coisinhas de decoração. Antigamente (antigamente de verdade) era uma loja de tecidos, e os balcões, os caixas, a estrutura toda está preservada. Isso é muito comum por aqui. Difícil descobrir ao certo se uma loja é ou não tradicional, pois os prédios são tão conservados, as estruturas mantidas, que por mais que a loja possa ter sido aberta semana passada, ela tem cara de existir há dois séculos. Atravessei a Praça da Liberdade, subi até o Coliseu para ver a programação. Coliseu é a principal casa de shows e concertos daqui. Com uma estrutura interna bem parecida com a do Teatro Municipal de São Paulo. Perdi uma apresentação de ballet de “A Bela Adormecida” com uma Cia. Russa que foi ontem, mas ainda tinha a opção de assistir uma montagem de “La Traviata” na terça que vem. Agora estou escrevendo no salão do Majestic Café. Fica na Rua Santa Catarina, bem próximo à Fnac. Outro lugar que sinto como se precisasse de figurino de época para estar mais adequada. Não é dos lugares mais baratos dentro dos padrões do Porto, mas nada assustador para uma paulistana. Pedi um “Chá da Tarde”, composto de sanduiches, pãozinhos, geléias e vários doces deliciosos e custa a mesma coisa que um Buffet de café-da-manhã em uma padaria comum em São Paulo. O salão de mármore tem o teto todo desenhado. O encosto do sofá é feito de um couro trabalhado e desgastado. Provavelmente por décadas de pessoas sentando para seus chás. As paredes de madeira emolduram espelhos manchados de tempo. Turistas entram pela porta o tempo todo, disparam flashs. Do outro lado do salão um grupo de quatro senhoras entre os 70 e os 80 anos toma chá e come bolos, conversando muito próximas. Imagino que fazem isso religiosamente, todas as semanas, nos últimos 30 anos. Ao meu lado dois senhores discutem sobre o que fizeram na última semana e olham de tempos em tempos para o meu laptop profanando a atmosfera do café. Um homem acabou de chegar, está se preparando para tocar o piano de calda no fundo do salão. Existe uma melancolia no ar o tempo todo na cidade. No rosto das pessoas, no tom de voz. Mesmo dos mais novos. Não sei se são as máculas de uma crise que não atravessou o Atlântico. Não sei se é uma característica de um povo espremido em uma tirinha de terra na ponta da Europa por 900 anos. Sei que minhas primeiras impressões de Portugal são de saudades de algo que não se sabe bem o que. Começo a entender um pouco de Portugal, e do porque do fado não ser um canto, mas um choro.

segunda-feira, 1 de março de 2010

POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS

As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

Acho que todo mundo lembra quando leu esses versos pela primeira vez. Eu tive uma professora de literatura incrível. Embora eu a tenha amaldiçoado secretamente por ter me obrigado a ler “Os Lusíadas”, hoje sou muito grata por ela me ter introduzido a grandiosidade dos poetas portugueses. Lembro de estar de férias, na praia, com aquele livro no colo que parecia uma bíblia. Eu lia e relia os versos sem entender nada, até que a poesia se revelou para mim. E eu tive certeza de que jamais escreveria com essa grandeza. Que aquilo era uma obra única no mundo. Engraçado que nossa educação possui muitos elementos da cultura portuguesa, mas a Portugal que eu conhecia como brasileira tem se mostrado um engodo perto da Portugal que estou entrando em contato. Cheguei já no fim de tarde no Porto. O avião patinava no ar para pousar. Uma chinesa na minha frente até vomitou (eu achei hilário! Sabem que sou terrível...). Fui parada pela alfândega. O cara olhou minha quantidade de malas e deve ter tido certeza de que eu era uma mega-sacoleira. Fiz minha cara de “já fui loira” e expliquei como são as mulheres quando fazem as malas. O cara riu, e me poupou da humilhação de expor minhas calcinhas no balcão. Carol e Viriato me aguardavam na saída. Carol linda, de cabelão e nada diferente da adolescente que eu vi pela última vez há 16 anos. Quando fiquei parada em Madrid imaginei que alguma coisa estava acontecendo, porque todos os vôos de e para Santiago do Chile apareciam como cancelados nos painéis, então Carol me contou sobre o terremoto e me disse que eu estava chegando bem no alerta vermelho de tempestade que eles haviam acabado de receber no continente. A mesma tempestade que havia atingido a Ilha da Madeira há alguns dias. Chegava nesse final de semana, sem a mesma força óbvio, mas fazia o carro balançar. Fizemos um city tour embaixo de muita água e eles me levaram para conhecer o Teatro da Vilarinha, um espaço de amigos deles. Fui apresentada para cerca de uma dúzia de “Ruis” (e eu que achava que Portugal era cheio de “Manuels” e “Joaquins”). O Teatro da Vilarinha é uma graça. Todo estruturado, bem arrumadinho. Faz a gente ter vergonha das espeluncas em que enfiamos o público em São Paulo. O Porto é uma cidade extremamente charmosa. As ruas de paralelepípedos, repletas de prédios antigos e bem conservados. Lojinhas graciosas, cafés com mesinhas na calçada. Um ar muito nostálgico. A casa de Carol e Viriato é incrível. Um duplex térreo, com quintal, muito espaço. No andar de baixo fica a sala, a cozinha bem espaçosa, a sala de jantar, o escritório e uma “casa de banho” que é a que eu estou usando. Em cima o quarto e o banheiro deles, um quarto de vestir e o quarto que estou usando. E Carol é uma fofa em tudo. A casa toda é cheia de detalhezinhos de decoração, quadros, luminárias, bonequinhos fofos, almofadas. Me fizeram sentir em casa em dois minutos. Eles tem um boxer albino, o Babus. E ele está completamente apaixonado por mim. Ele fica me olhando, e senta ao meu lado, e se contorce todo quando falo com ele. Eu aprendi os comandos e fico me divertindo mandando ele sentar e deitar quando ele me segue pela casa. A gente tagarelou praticamente desde que saímos do aeroporto. Fomos jantar em um restaurante perto. Eu já estou eufórica de tão baratos e bons que são os vinhos! Ricardo (a puta portuguesa) apareceu para dar um “oi” e nós voltamos para casa e tagarelamos até às 7h. Dormimos ontem até às 17h e tagarelamos sem parar o resto do domingo. Carol e Viriato são anfitriões incríveis. Eles gostam de receber pessoas e fazem de tudo para me deixar confortável e à vontade e me sentindo em casa. São muito pacientes em me contar histórias e me explicar sobre a cidade, o país e a cultura. Engolimos baldes de café, e chocolates. Falamos de vida, de teatro, do arrebatamento do fado. Hoje o dia amanheceu seco. Um sol gelado, igual aqueles dias de inverno em São Paulo. Carol foi trabalhar. Combinamos de fazer compras no final da tarde. Viriato ainda dorme, mas vai me levar conhecer seu teatro depois. Quero me localizar, me entender na cidade hoje. O Porto é uma cidade pequena. São 250mil habitantes. Fácil de andar para todos os lados. Vou falar mais da Portugal que estou descobrindo. Mas depois. Depois que estiver mais localizada por aqui.