"...estou procurando, estou procurando. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi." (Clarice Lispector - Paixão Segundo GH)
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sexta-feira, 10 de setembro de 2010
MELANCÓLICA
Estou melancólica hoje. Se eu parar e pensar direitinho não podia ser diferente. Acordei com o corpo dolorido. Fiz uma trilha maravilhosa ontem. O dia inteiro. A mais linda até agora. Uma experiência tão intensa que eu nem sei bem como descrever. Comunhão completa. Total entedimento de existência. Cheguei só às 19h de volta ao hotel. Sentindo tudo de alguma forma imaterial. Sentei nas mesinhas do lado de fora com um cappuccino nas mãos e esperei anoitecer. Minha última noite em Zermatt. Então hoje cedo, o corpo dolorido. A ressaca de tanta vida ontem. Tirei tudo de dentro da mochila. Arrumei. Recoloquei. Fui para o lounge do hotel e passei o dia tomando notas das próximas paradas, estudando um pouco de Bruxelas, namorando na internet minha futura câmera fotográfica. Tentando tirar um pouco meu coração dessa cidade para ser justa com a próxima. Também saí para dar uma volta. Sexta-feira e a cidade se enche de gente que vem passar o final de semana. Comi um croissant de chocolate. Brinquei com cachorros na rua. Enviei cartões postais. Fiquei um bom tempo sentada embaixo do Sol pensando na vida. Não lembro se passei protetor solar. Quase não ligo mais. Amanhã cedo já não estou mais na Suíça. Sei que posso me apaixonar um milhão de vezes. Que a Bélgica é também linda e cheia de encantos. Mas porque é tão difícil deixar ir quem a gente ama? Tudo bem. É só por hoje. Amanhã provavelmente vou estar me deliciando com outros amores. Mas hoje é melancolia.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
SLOW
Eu gosto de ficar confortável em algum lugar. Conforto é uma palavra que abrange muitas coisas. Às vezes é um sofá, imediatamente confotável. Às vezes é uma cama macia ou um chuveiro quente. Mas eu gosto da definição de confortável que envolve familiaridade, reconhecimento. Aquelas coisas que demoram tempo. Por mais que a minha ânsia de ver o mundo antes de morrer (ainda mais porque a gente nunca sabe quando isso vai acontecer) me faça ter vontade de sair como uma louca indo para o máximo de cidades que eu puder, eu estou firme e forte na minha veia de slow traveller. Esse é um conceito que surgiu há uns 10 anos atrás. Um movimento que foi contra a corrente dos “must see, must do” e começou a abdicar de ver o máximo para ver “ao máximo”. O idéia básica de slow travel é você parar algum tempo em algum lugar e se familiarizar com esse lugar, ao invés de pular como macaco de galho em galho. Quando você se propõe a fazer uma viagem e fica 2-3 noites em cada lugar, sua experiência vai ser muito mais de empacotar e desempacotar sua bagagem do que viver os lugares que você estiver visitando. Ano passado eu estava pulando como macaco em uma mochilada pelos Lençóis Maranhenses, Delta do Parnaíba e Jericoacoara. Quando cheguei em Jeri tinha planejado ficar apenas por 3 noites. Acabei ficando uma semana. Foi essa reduzida no ritmo que me permitiu conhecer muitas pessoas que realmente vivem e escolheram viver naquele lugar, participar de atividades com a comunidade, entender os conflitos sociais que acontecem por baixo do véu do turismo e fazer amigos que mantenho até hoje. Na verdade tive de sair fugida de Jericoacoara, jogando minha mochila na caçamba de um caminhão e gritando “Vai! Vai! Vai!”, senão acho que até hoje estava lá. O tempo vai trazendo um conforto familiar e daí qualquer lugar do mundo vira nossa casa. Zermatt começa a se desvendar agora. Algo que nunca teria acontecido se eu tivesse pegado o trem e ido embora há 3 noites atrás como era o programado. Já descobri as vilinhas nos morros onde moram a maioria dos trabalhadores da cidade. Pude assistir a invasão portuguesa que incomoda os locais. Portugueses adoram imigrar para Zermatt, e isso está virando um problema real para muitos dos cidadãos. Em uma sala de aula da escola pública, 50% dos alunos são portugueses. O profissional de educação que nasceu, se formou e foi preparado dentro de sua cultura e só fala alemão, precisa se adaptar a um impacto de hábitos, costumes, língua, que não deixa os suíços necessariamente felizes. Além disso estou tendo a oportunidade de mergulhar no universo dos alpinistas. Uma tribo toda própria com liguagem, estilo de vida e maneira de se relacionar bem particulares. É curioso poder compartilhar o que se passa na cabeça de pessoas que arriscam a própria vida pela ânsia de subir uma montanha. Chegar até lá em cima. Todos eles saem de manhã para escalar sabendo que podem não voltar. É uma forma bem louca de levar a vida. Mas quem é que disse que a gente tem certeza de que sempre vai voltar? Foram seis meses para entender que meu ritmo é mais lento. Tentei acelerar tantas vezes, me estapeei comigo mesma. Mas a tendência do corpo é sempre voltar para seu estado natural. Eu sou do tipo que gosta de raízes. Que mergulha para ver o fundo dos icebergs. Não gosto de arranhar a superfície. Não faz nem cosquinha! Então eu volto e me lembro da Francezca, minha professora de italiano lá atrás. “Piano, Piano, Piano”. Em toda minha vida sempre foi assim. Eu vou devagar. Na fábula de Esopo, eu sou a tartaruga. Sempre fui. Espero sempre ser.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
FORMIGUINHAS NA LANCHEIRA
Quando eu era pequena minha irmã mais velha juntava toda a criançada da rua e levava a gente para fazer trilhas nas férias. Passei várias férias de infância fazendo trilhas em Paranapiacaba e no Pico do Jaraguá. A gente saía cedinho, levando uma mochila com sanduiches, frutas, sucos e chocolate. Pegava o trem e descia todo mundo em uma empolgação só. Não tinha a sofisticação de “hiking poles” nem nada. A gente pegava gravetos caídos na floresta para ajudar nas subidas. Molhávamos os tênis (que eram tênis comuns mesmo, bem baratos porque ninguém era rico) nos riachos. Comíamos nossos sanduiches de queijo e bisnaguinha com requeijão no alto da montanha, e voltávamos no final da tarde. Imundos e felizes. Lembro até hoje da música dos vendedores ambulantes nos vagões dos trens. A forma cantada de vender chocolate, salgadinho ou o que mais enchesse a barriga no final do dia. Chegávamos em casa em tempo de um banho, jantar e desmaiar na cama às 20h30. Exaustos. Uma benção para as mães. Meus pais são donos de escola. Eu nunca tinha férias convencionais como as outras crianças. A gente quase nunca viajava. Ou porque não tinha dinheiro (depois de pagar férias e décimo terceiro para toda a equipe), ou porque eles precisavam aproveitar as férias para a manutenção da escola. Pintar paredes, reformar carteiras, refazer as lousas. Então as caminhadas que minha irmã inventava eram nossa única diversão as férias inteira. Na adolescência ainda fiz um pouco com alguns amigos. Mas eu sempre acabava amiga de pessoas nada esportivas. Meus 20 e poucos anos foram totalmente sedentários e boêmios. Não andava nem até o estacionamento. Deixava no manobrista. De vez em quando eu até tentava subir alguma parede, descer de rappel algum viaduto. Mas tudo brincadeira de final de semana. Resolvi mudar de estilo de vida mesmo chegando aos 30. Mas nem por causa disso meus amigos mudaram, e a boêmia vai sempre me acompanhar. Um pouco antagônico conciliar, mas eu sou a favor do equilíbrio. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Meus amigos ainda me acham louca de acordar cedo para participar e corrida de rua. Nem cogito convidar ninguém para vir junto. Minha irmã, quem diria, virou mãe sedentária. Nunca mais fez uma trilha na vida. Eu aprendi que se você quer fazer alguma coisa, melhor não esperar por ninguém para fazer junto. Eu viajo sozinha porque se fosse esperara alguém para me acompanhar não iria a nenhum lugar. Então aqui na Suíça resolvi resgatar minhas tarde de infância subindo Paranapiacaba sozinha. Porque de todos que nos acompanhávam naquela época, eu sou a única que ainda faz isso. Primeira coisa que eu mantenho em mente é que vou andar enquanto me der prazer. Regra numero um para mim em uma trilha: se não tiver gostoso, pára tudo. Lógico que é puxado e muito cansativo em alguns trechos. Mas eu nunca chego em um nível de me violentar. Detesto competições. Competir sozinha então, bem estúpido. Então eu me jogo nas trilhas mais interessada em o que eu vou aproveitar delas, do que quantos kilometros, ou quanto tempo, ou quão alto eu vou chegar. Fazer lanchinho no meio da floresta é muito legal. Eu adoro picnics. Fiz vários na Villa Borghese enquanto estava em Roma, e tentei fazer alguns em Provence (mas a audiência não contribuiu). Acho picnic um estilo de vida. Me trás uma nostalgia dos tempos de pré-escola. Quando eu abria minha lancheira e vinha o cheiro do suco de laranja. A descoberta do lanche que minha mãe tinha separado para a tarde. (Lembro tão bem da minha lancheira de infância! Era amarela e vermelha, com o desenho de uma formiguinha. Tinha uma menina na sala ao lado com uma lancheira idêntica. Às vezes a gente acabava trocando os lanches por engano.) Aqui na Suíça tenho me perdido pelas trilhas todos os dias. Memos hoje que o tempo virou. Amanheceu com uma chuva gostosa de ficar na cama, mas eu levantei mesmo assim. Me joguei nas montanhas. O Matterhorn estava todo escondido. Embaixo de nuvens. Mudei meus planos no meio do caminho. Eu ia fazer uma trilha mais panorâmica. Com vista para os 38 picos com mais de 4000m da região. Mas com a neblina que não deixava ver um palmo a frente, me mantive na altura dos 2500m. Entrei por uma trilha de mata, cheia de pinheiros. E almocei sentada em um banco com esquilinhos brincando de pega-pega a minha volta. Voltei para a cidade no meio da tarde. Um pouco mais cedo por causa da chuva. Fiz macarrão com champignon e molho rosé (só porque champignon é bem barato por aqui), capuccino e chocolate. Lavei minhas roupas. Fiquei duas horas fazendo planos com a Cí no skype. A gente deu tanta risada, que tinha gente aqui do lado na sala do hostel dando risada junto, sem entender nada. Só porque a risada estava gostosa de se dar. Eu gosto quando minha alma se envereda por essas searas. Quando a vida fica simples e bonita. Hoje, no meio da montanha, eu olhei para o céu e sorri. Agradeci. Agradeci. Agradeci. Falei bem alto (porque não tinha ninguém por perto e eu não corria o risco de passar vergonha) “Obrigada astral! Obrigada! Eu quero assim! Eu quero assim!”.
domingo, 5 de setembro de 2010
NO CÉU
A Suíça é uma top model. Mas não como nossa Gisele, que tem cara de rata de praia, de menina criada correndo pelada no quintal. A Suíça está mais para Charlize Theron. Um desbunde em todos os ângulos. Sofisticada até pintando parede. Tanto que deram um Oscar só porque ela conseguiu a proeza de ficar feia. Mas sim, a Suíça. Cheguei ontem. Zermatt foi amor à primeira vista. Amor, amor de verdade. Zermatt é uma cidade para poucos. Primeiro que é cara. Mas ninguém aqui parece se importar. Dinheiro é só um papel que sai do caixa automático e eu tenho a sensação que não importa o número que vem na conta, essas pessoas nem sentem que pagam. Segundo que você só chega aqui de trem. E trem, obviamente, é uma fortuna aqui na Suíça. A linha Matterhorn Express sai de Visp e é o único jeito de chegar aqui. Pelo trem você já vai sentindo onde está se enfiando. As janelas de vidro inteiriço vão da altura do assento até o teto. Metade do teto também é de vidro. Tudo porque o trajeto faz você querer que o teto todo fosse de vidro. Como toda boa top model, a Suíça sabe mostrar seus melhores ângulos. Colinas verdes, estéticamente decoradas com rochas que parecem terem sido escolhidas a dedo. Vacas que mais parecem hipopótamos de tão grandes, badalando os igualmente enormes sinos de seus pescoços. Ovelhas brancas como a neve fazendo figuração. Chalés espalhados nas montanhas, para a gente imaginar cenas românticas de inverno. Um rio azul claro leitoso que corre entre pedras brancas e cinzas. E olhando pelo teto, os cumes nevados da cordilheira. Me belisca porque parece sonho. Ao desembarcar em Zermatt uma infinidade de carrinhos elétricos (tipo esses de golf, só que mais sofisticados) estão esperando os hóspedes endinheirados que serão conduzidos aos discretos hotéis 5 estrelas que transbordam pela cidade. Carros, motos e afins são proibidos. Eu subi a rua principal e tive certeza de que tinha atravessado um portal. Descoberto um lugar mágico. A cidade respira saúde, elegância, esporte e qualidade de vida. Tudo por causa da estrela maior. O Matterhorn. Um monumento da natureza de mais de 4000m de altura e de pura rocha. Um triângulo perfeito apontando para o céu (ou talvez indicando que o céu é aqui). O dedo de Deus pedindo silêncio pela sua grandiosidade. Impossível ignorar a magnitude dessa montanha. A maior da Suíça. Impossível não se entregar boquiaberta por longos minutos, ignorando a mochila pesada nas costas, a sede, a vontade de fazer xixi e a falta de comida do dia inteiro. Olhei para o Matterhorn e decidi no mesmo segundo. Não vou sair daqui. Cancelei minhas reservas para Montreux e para Geneva, que eram meus próximos destinos e me instalei em Zermatt. Tudo o que eu sempre imaginei dos Alpes Suíços é isso. Versão Verão, lógico. No inverno essas ruas fervem ainda mais. (AH! Fico só imaginando essa cidade branquinha de neve....) Sabe onde estão todos os milionários maravilhosos do mundo? Andando de carrinho elétrico aqui do lado. Alpinistas passam carregando seus equipamentos. Centenas de hikers, como eu, comprando o picnic para a trilha do dia seguinte. A juventude mais rica da Europa solta fumaças displicentes de seus cigarros nos terraços dos restaurantes. Bicicletas passam velozes e desviam das pranchas de snowboard pelas calçadas. Todo mundo carrega algum equipamento esportivo. Todo mundo está aqui para extrair o melhor da vida. Eu sinto como se eu tivesse uma pulserinha VIP para o camarote. Cheguei no céu e aqui tudo é lindo, silencioso e em paz. Essa é a minha versão de retiro espiritual! Me joguei em uma trilha logo cedo hoje. Fui até onde dava da base da face norte do Matterhorn. Dali em diante só se você for um alpinista bem experiente. A cidade tem até um cemitério cheio deles. Depois voltei pela clássica Matterhorn Trail até Zermatt. Dessa vez me alimetei direitinho, me hidratei direitinho. Oito horas de hiking bem mais confortáveis. Comprei os hiking poles, e eles são um alívio nas descidas. Ajudam muito a distribuir o peso do corpo que vai todo para as pontas dos dedos dos pés. São 400Km de trilhas na região. Claro que não vou fazer todas. Amanhã resolvi tirar o dia de folga, talvez tentar uma curta à tarde que explora os lugares onde vivem as marmotas. Tem outra que é rota de Edelweiss silvestre (embora não seja época). Eu sempre achei um tédio aqueles anjinhos tocando harpa nas ilustrações do paraíso. Acontece que eles sabem de um segredo que a gente não sabe. Uma vez que você chega no céu, é tudo tão bom e tão perfeito, que você não precisa fazer mais nada mesmo. Só silêncio em mim e o som das montanhas lá fora.
sábado, 4 de setembro de 2010
O QUE SE DEVE E O QUE SE QUER
Ando pensando muito no que eu QUERO para mim. Muitas vezes eu acabo esbarrando no que eu DEVO fazer. Cada vez fica mais claro que a gente não DEVE nada a ninguém. Como viajante, por exemplo. Quando eu comecei essa jornada, mesmo que inconscientemente, ficava um sentimento de obrigação de ver e fazer determinadas coisas. Isso é o que sempre me intrigou em turistas. O Alê me falou que turistas (vulgo “gafanhotos”) são os proletários do novo século. Eles acordam cedinho todos os dias, pegam filas, tiram fotos de todos os monumentos e ticam em suas listas de coisas a fazer tudo direitinho. (Torre Eiffel. OK. Big Ben. OK. London Eye. OK. Sagrada Família. OK. Coliseu. OK.) Depois voltam para casa todos orgulhosos com o dever cumprido. Fazer turismo é praticamente coletar provas de que se esteve em determinados lugares. Não vou dizer que não fiz coisas que eu sentia que DEVIA fazer porque eu estaria mentindo. É muito comum ouvir a frase “Como você esteve em tal lugar e não fez tal coisa?”. Então eu me lembro da primeira vez que cheguei na Fontana de Trevi. Eu já estava em Roma há duas semanas, mas sem muita vontade de explorar os pontos turísticos. Uma tarde saí da escola e desci no metrô Barberini para achar a tal fonte de Fellini. Fui sem o mapa, meio deixando a cidade me empurrar até ela. Cai em uma rua de trás, saindo ao lado da Fontana e o que eu vi foram cerca de 500 pessoas amontoadas tirando fotos frenéticamente na minha direção. Por um segundo tive a sensação de ser uma celebridade perseguida por paparazzi. Quando olhei para o lado vi a tal Fontana. Ela lá, parada. Sem a Anita Ekberg dançando para Marcello Mastroiani. Mesmo assim centenas de pessoas apinhadas gritavam, falavam e tiravam fotos desesperadamente. Não resisti e comecei a rir. Comprei um gelatto e sentei no meio dos gafanhotos e fiquei rindo. Fiquei um bom tempo rindo no meio daquilo tudo. Impossível tirar uma fotografia sem um milhão de cabeças na frente. (Fiz questão de tirar uma no meio dos gafanhotos!!!) Pessoas pulando para jogar moedinhas. Adolescentes ensaiando poses sensuais. Todo mundo muito satisfeito com o dever cumprido. (Estive na Fontana de Trevi e lembrei de você!) Fiquei imaginando as pessoas voltando para casa de viagem, e mostrando as fotografias para os amigos com centenas de cabeças de estranhos na frente. Claro que a questão não é conseguir tirar uma fotografia sem “poluição”. Para isso existem cartões postais (e fotógrafos muito melhores do que todos nós). Mas eu fico me perguntando porque essas pessoas estavam fotografando? Porque elas estavam ali? Será que elas realmente queriam estar ali ou elas sentiam que “uma vez em Roma...” elas DEVIAM estar ali. Mesmo porque os romanos mesmos nem passam perto daquela praça. Esse é um exemplo extremo. Roma é uma cidade que transcende todos os clichês de turismo. É o maior festival de gafanhotos da face terrestre e não seria Roma se não fosse também isso. O que me leva para o oposto. Vira e mexe me aconselham a não ir para determinadas cidades porque “não tem nada para fazer”. Eu fico pensando porque será que as pessoas me dizem isso? O que será que elas estavam procurando lá que não encontraram? Ontem um australiano me dizia para não ir para Geneva porque não tinha nada lá e me perguntou como era a vida noturna no Marrocos. Sabe que nem pensei nisso! Nunca me passou pela cabeça que eu DEVESSE conhecer a vida noturna de todos os lugares que eu fosse. Às vezes as pessoas funcionam assim. “Sightseeing”. OK. “Comida típica”. OK. “Vida noturna”. OK. “Museu”. OK. Muitas delas detestam museus. Eu estava com um amigo em um museu há alguns meses atrás, eu procurando a sala que tinha um Veermer que eu queria ver. Quando encontramos eu parei em frente ao quadro e fiquei observando um pouco. Ele virou para mim e perguntou “Esse é um quadro famoso?”. Eu respondi “É uma obra menor de Veermer, mas o pintor é bem famoso.” Então ele puxou a máquina fotográfica e tirou uma foto do quadro. (Pra quê???) “Artista famoso”. OK. Comecei a, antes de qualquer coisa, me perguntar o que eu QUERO antes de decidir fazer algo. Então ficou mais claro que o que eu DEVO fazer não tem tanto a ver com obrigação do que com realizar minhas vontades. Exemplo besta. Hoje eu estava tomando café da manhã na varanda do hostel em Interlaken. Eles têm um lounge delicioso ao ar livre com vista para os alpes a volta e eu estava tomando meu café quentinho e agradecendo ao astral como faço todos os dias. Esparramada no sofá sentindo o friozinho da manhã de Sol gelado que surgia. Então eu lembrei que estava quase na hora de fazer o check out. E eu já estou bem cansada de empacotar mochila, carregar, ir para lá, para cá... Eu pensei “Não quero empacotar minha mochila denovo.”. Eu não preciso se eu não quiser. Posso apenas ir até a recepção e dizer que vou ficar por mais uma noite. Que vou ficar por mais duas noites. Que vou ficar a semana inteira. Então eu pensei novamente no que eu quero. Eu quero ficar em Interlaken? Não. Eu quero ir para Zermatt, fazer uma clássica trilha de hiking, ver o Matterhorn. Então eu subi para o quarto não porque eu DEVIA fazer check out, ou porque eu DEVIA empacotar minha mochila. Mas porque eu QUERIA ir embora de Interlaken. Existem milhões de outras coisas que eu podia (talvez até DEVESSE) fazer em Interlaken, mas eu não sentia vontade de fazer mais nada. Acho que esse talvez seja o grande segredo. Quanto tempo eu passei na minha vida fazendo coisas que eu achava que DEVIA sem pensar se eram as coisas que eu QUERIA. Tudo é uma questão de achar o equilíbrio entre o que realmente se quer, e agir de acordo para se conseguir. Não acredito em regras. Em um conjunto de ações para se seguir e ser feliz. Algumas vezes eu vou entrar no meio de todos os gafanhotos e fazer tudo como manda o Lonely Planet porque eu QUERO fazer aquilo. Outras vou virar as costas para todas as coisas “imperdíveis” e passar a manhã inteira de pijama na cama fuçando no facebook dos meus amigos de colégio. Não existe receita para ser feliz, para se divertir. Se fosse assim nenhuma celebridade milionária tomaria antidepressivo. Quantas pessoas eu ouço reclamando do emprego, do parceiro imaturo ou infiel, da cidade barulhenta e caótica em que mora. Mas em seguida respondem, “Mas eu não quero mudar meu padrão de vida”, “Eu não quero ficar sozinha”, “Eu não quero morar em uma cidade pequena”. Então segura a onda, meu filho! Se a sua vontade de ganhar dinheiro é maior do que a de fazer o que você gosta, então você está vivendo a vida que você quer. Se a sua vontade de estar em um relacionamento é maior do que correr o risco de nunca encontrar um parceiro ideal, você está vivendo a vida que você quer. Se a sua vontade de estar em uma cidade cosmopolita é maior do que aguentar o tédio e as faltas de opções de uma cidade pequena... bem vocês entenderam. Ou vai buscar um jeito de conseguir as coisas que você quer. Escolhas são difíceis, se a gente quiser que sejam. Eu, particurlamente, acho mais difícil ficar forçando a barra para controlar a vida. Como diz aquele ditado japonês, “Seja como um bambu. Firme no solo, mas flexível ao vento.” Eu estou fincada nas minhas vontades. Me dobro ao vento não porque eu DEVO, mas para que minhas raízes nunca deixem o solo.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
NA ILHA
*foi um presente para mim, porque não colocar aqui também. É para isso que eu caminho tanto...
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
NA BOLHA
Ok, a Suíça é cara. Ninguém esperava que fosse diferente. Quando cheguei levei um susto maior. Achei que a taxa estava de 1,5 para 1 em relação ao Euro. Sentei em um banquinho no aeroporto e fiquei com medo de atravessar a porta. Estava resolvida a não sair do aeroporto com medo de gastar muito dinheiro. Respirei quando descobri que era o contrário. Ainda assim é cara. Paguei quase R$20 ontem por um cachorro quente e uma coca-cola. E não era aqueles “dogão” que vende nas Topics nas portas dos estádios. Era uma linguiça enrolada em um papel e um pedaço de pão. Eu sentei em um banquinho na margem do rio, junto com todos os outros suíços que aproveitam o verão para almoçar ao livre, e fiquei jogando pedaços do meu super caro pão para os cisnes. Primeiro mundo minha gente. Nada de dar pipoca para pomba na praça pública. Aqui a gente joga hotdog para cisne no rio. Uma manada de cisnes (desculpa gente, mas estou com preguiça de descobrir o coletivo de cisne). Eles ficam esticando os pescoços para olhar o que você está comendo em cima do banco e se bicam entre si para disputar espaço. Me lembraram um pouco as crises de ciúmes que os cachorros da minha mãe tem entre eles. Depois eu deitei e tirei um cochilo no Sol. Fez um dia lindo aqui ontem. Quente e seco. Friozinho no final da tarde e à noite. Bom para dormir. Dia típico de outono em São Paulo. Dia típico de verão por aqui. Zurich é uma cidade perfeita. Perfeita em tudo. As ruas são calmas, lindas e limpas. As pessoas são educadas, elegantes. Mas não existe aquele esnobismo novo-rico que a gente costuma ver em alguns bairros de São Paulo. Zero ostentação. As pessoas são bem low profile inclusive. Tudo é tão organizado. Existe uma paz no ar. Eu tenho a sensação de que nada de ruim pode me acontecer aqui. Por isso mesmo pensei que essa é uma ótima cidade para se morar se você precisa de um tempo para pensar e se encontrar. É como estar em uma bolha do resto do mundo real. Aqui é tudo meio Playmobil. Mas morar só por um tempo. Ninguém aguenta comer tanto cachorro-quente. Eu decobri ontem que a Suíça tem a maior taxa de suicídio do mundo. Eu achava que era do Japão. Toda aquela obsessão com honra e etc. Às vezes o maior tormento e não ter tormento nenhum. Tanta segurança, tanta segurança, que a gente precisa se jogar de cima de um prédio para ter certeza de que está vivo. Vai saber!? Mesmo assim eu comprei drageas de chocolate com champgne e passei o dia sentindo derreter na minha língua enquanto eu me perdia pelas ruas. Não falar nada da língua também me ajuda a ficar em um bolha. Eu posso olhar para tudo, achar lindo e sorrir apenas. Estou hospedada na casa da Lícia, a namorada do Ivan. Querida que me tratou com todos os mimos. Agora estou terminando de empacotar e vou para Interlaken. Amanhã vou passar o dia fazendo hiking nas montanhas. Comprei algumas blusas térmicas ontem para aguentar a neve, e um tênis novo impermeável. Tudo ao custo de francos suíços. Já não me importa. Estou extasiada de me perder nos próximos dias nas montanhas. Passar algum tempo sem ver nem falar com ninguém. Só eu comigo. Depois, eu já sei, nada de muito ruim pode me acontecer.
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