Vi uma exposição (muito boa por sinal) da Tracey Emin na White Cube Gallery em São Paulo. É aquele tipo de arte extremamente perturbadora pela honestidade e capacidade de exposição da artista, e ainda pela fragilidade que ela adquire em sua loucura. Tracey é uma dessas mulheres com as quais a gente se identifica de imediato. Primeiro porque ela está lá, nua, literalmente, passando gilete em todas as feridas, não deixando barato tudo o que é ser mulher nessa vida. Embora eu tenha milhões de reservas com discursos feministas, esse é um tipo de ativismo que eu acredito. Porque não dá para ficar ileso, indiferente, vendo suas instalações, enxergando sua carência e sua ferocidade em neon. Ser mulher é meio isso. Essa grande contradição entre ser vítima e algoz. Entre a fragilidade impotente e a fúria destruidora. Vi que o MOCA (Museu de Arte Contemporânea de Miami) estava com uma exposição dela, e fui conferir. Não era tão interessante quanto a que vi em SP, e as peças se restringiam basicamente aos neons. E uma instalação, desconcertante. Uma narração em audio, com uma tela em estática constante, em que Tracey fala de sua adolescência, da liberdade sexual que se atreveu a assumir em uma comunidade machista e limitada, e a castração sexista que sofreu por ousar ser livre. É enternecedor, ao mesmo tempo um tanto revoltante. Quando pensamos o quanto as pessoas são crueis com aquelas mulheres que ousam lidar com a própria sexualidade livremente, e ainda, quando nos damos conta da nossa própria covardia em fazer o mesmo.
"...estou procurando, estou procurando. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi." (Clarice Lispector - Paixão Segundo GH)
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domingo, 16 de fevereiro de 2014
sábado, 15 de fevereiro de 2014
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Hoje a única coisa que eu comprei foi a GoPro que o carioca pediu. Estou enfadada de consumir. Juro, isso é possível. Não aguento mais entrar em loja, dirigir, carregar sacola, olhar prateleira, empurrar carrinho entre corredores. Eu sei que tem muita gente que faz compras dias e dias seguidos. Que tem isso meio como estilo de vida. Eu adoro fazer compras. Mas não está no meu sangue desse jeito. Estou cansada. De bode. Peguei o carro e fui dar uma volta por Miami Beach. Como está acontecendo o Boat Show, o trânsito está infernal. Pleno sábado, as ruas ficam travadas a ponto de desligar o carro e pensar na vida. Parece que a cidade também está mais cheia por causa de um feriado nacional segunda-feira. As pessoas aproveitaram para fugir da Era do Gelo que está rolando no norte e vieram produzir um pouco de vitamina D. O feriado é pelo “Presidents Day”. Sério! Os caras tem um feriado nacional para celebrar os presidentes. Ah, se a moda pega no Brasil!!! Imagina só!? Um dia para celebrar Collor, Lula, Sarney, FHC, Itamar, Figueiredo, Geisel e Jango. Dou risada sozinha no meio do café só de tentar imaginar uma coisa dessas... Mas, enfim! Como eu não celebro dia de presidente nenhum, passeio pela praia como se fosse outro dia qualquer, comum. Fez um dia lindo. Sol, céu firme e azul. As pessoas estão todas na rua, jogando, andando de bicicleta. Calor faz a gente ter vontade de viver mais. Eu fui andar os cerca de 2Km do Deco District, porque adoro ver aqueles prédinhos em cores pasteis. Entre a Ocean Dr e a Collins Ave é uma maravilha ficar horas admirando as linhas, as janelas redondinhas, as varandas com blocos vazados. Eu não entendo nada de arquitetura. Sou leiga no nível “gosto-nãogosto”. Por exemplo: Gosto das linhas curvas do Copan. Não gosto das carambolas roxas do Ruy Ohtake. Embora eu seja leiga em conhecimentos técnicos, adoro apreciar. É algo que sempre faço quando vou viajar. Em Bruxelas pode-se fazer alguns circuitos bem interessantes arquitetônicos. Praga é um desbunde. Parece até um museu a céu aberto. Gent, que foi o berço da revolução industrial, tem uma arquitetura tão forte que te faz entender uns 2 semestre de aula de história. Mesmo Havana Vieja, que está sendo restaurada agora, conta tanto para a gente só com as suas fachadas pela metade. Miami tem essa particularidade. Entre o pastelão cafona de prédios espelhados e ostentação vulgar, uma milha tombada pelo patrimônio histórico, faz a gente viajar por um tempo mais lúdico e simples. Onde parecia mais simples ser feliz. Onde talvez as pessoas não precisassem comprar tanto e consumir tanto para se sentirem bem consigo mesmas. Uma ilha no meio da barbárie superficial que é o resto da cidade, aquela 1 milha com cor de bala, me fez sentir vontade de voltar a fotografar. Faz muito tempo que não tenho vontade de simplesmente pegar a câmera e sair pela rua fotografando. Me arrependi de não ter trazido nenhuma da minhas tantas câmeras. Ainda bem que das complicações que inventamos com os anos, a câmera embutida no Iphone seja uma das boas.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
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Hoje eu sentei na cama do hotel e chorei. Muito. Comprei meu equipamento de mergulho na Divers Supply (aliás, nunca, em hipótese alguma, usem essa loja!!!), paguei entrega expressa para garantir que chegaria em tempo no meu hotel. Tudo planejado e controlado. Hoje descubro que:
- Eles não estão mandando metade dos itens da minha seleção (coisas essenciais como regulador e BC), porque não tinham em estoque, embora os produtos aparecessem lindos e maravilhosos como disponíveis no site.
- O reembolso dos valores já cobrados e que eles não vão entregar será feito em apenas 5 dias úteis, ou seja. Limite do cartão bloqueado para novas compras até lá.
- Embora eu tenha pago extra para receber os produtos em 2 dias úteis (o que seria hoje), eles só despacharam tudo ontem, e a entrega será feita na segunda-feira. Só que meu vôo sai às 6h!!!
Então eu chorei. Porque por um minuto eu não sabia o que fazer. Como ia resolver tudo. Já estou fazendo um investimento enorme comprando todo esse equipamento de uma vez. Não tenho bala para comprar tudo de novo. Chorei, chorei. Porque também acho que é bom chorar quando a gente tem vontade. E eu não sou forte o tempo todo. Mas eu sou sim muito resiliente. Então eu choro, porque não ignoro dor, não ignoro dificuldade. Mas também não deixo que elas rejam minha vida. Chorei por 10 minutos. Depois comecei a resolver a vida. O libertador de não materializar as coisas é que podemos encarar tudo como energia. Relações, possibilidades, dinheiro, coisas. Tudo é energia. E energia é mutável. Se transforma. Então eu fui mexer a energia para ele mudar. Para ela se transformar e transformar o perrengue todo com as compras de equipamento. Dei uns telefonemas. Mexi uma coisa de um lado, outra coisa de outro. Passei mais limite para o cartão de crédito. Comprei outra passagem de volta para terça-feira. Tomei um banho e sai. Para comprar tudo de novo. Vim aqui comprar meu equipamento de mergulho. Vou voltar com o meu equipamento de mergulho. Completo.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
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Cenário da corridinha de hoje cedo. Não é que se olhar no fundo, bem no fundo, Miami também tem suas coisas legais!?
De todos os lugares que já viajei, Miami é o que menos gosto. Na verdade acho Miami horrível. As pessoas são bregas, tudo exige uma mistura de cores tão forte quanto duvidosa. As unhas são postiças. Os cabelos também. A cultura de ostentação é tão intrínseca ao estilo de vida deles, que todo mundo tem cara de novo-rico. Todo mundo tem cara de quem ganhou na Mega-Sena na semana passada e abandonou o puxadinho da casa da sogra em Guaianazes. Tão superficial e forçado, que cruzei até com uma Feira de Yatchs na entrada de Miami Beach. Um corredor de barcos escandalosamente luxuosos aportados em um dos canais, oferecendo champagne para os visitantes e exibindo mulheres de corpos perfeitos fazendo pose em biquinis. Clichê, clichê, clichê! Mas tento mudar minha opinião. Ainda que eu não consiga me ver morando aqui nem em umas três encarnações, não gosto de condenar um lugar de vez. Há sempre algo de bom, e eu tenho por regra aceitar os lugares como eles são. Esses dias tenho dirigido para cima e para baixo procurando coisas para gostar aqui. Tem o mar, que fica pertinho, e canais, e árvores. Isso dá um ar muito gostoso a qualquer cidade. E as ruas são muito largas, tem muito espaço para onde quer que você olhe. Isso também é uma coisa legal. Mesmo com o trânsito - que é constante e em todo lugar - a gente não se sente clautrofóbico. O quarteirão art deco também é uma coisa linda. Pena que a fauna me dá pavor, mas aqueles prédios são tão lindos, que parecem cenários. Acho um tesouro. Embora eu tenha muito mais motivos para não gostar do que para gostar de Miami, ainda assim é o lugar mais perto, mais barato e mais prático quando precisamos fazer compras. Aqui tem uma Diver’s Direct, que é uma megastore de roupas e equipamentos de mergulho. Vários outlets. Fica na costa, então dá até para arriscar ver uns tubarões ou recifes de corais. Então Miami é isso. Conveniente. O hotel que reservei fica uma quadra da praia, e de um parque perfeito para minhas corridinhas matinais. Para eu ir já amaciando os novos tênis de corrida (Compro um por ano, sempre aqui. Sempre da Brooks.). Atravessei a rua e comecei a correr pela pista do pequeno parque. Sim, não é muito grande. Cerca de 1K de comprimento, bem a beira mar. Tinha algumas mesas de picnic, playground para crianças e uma área reservada especialmente para cachorros, com divisão para cães de pequeno e grande porte. O mais legal foi cruzar com as pessoas correndo. Velhinhos fazendo suas caminhadas matutinas, grupo de amigas correndo e tagarelando, executivos e seus personal trainners. Apesar de ser inverno, tem feito 26-28o todos os dias. À noite cai para 21o, mas ainda bem confortável. Um clima bem agradável. A gente começa a entender melhor uma cidade quando enxergamos como seus moradores a ocupam. Foi muito bom ver gente de verdade na rua, fazendo exercícios. Tinha uma imagem de que em Miami ninguém anda à pé. Estão sempre em seus carros, sugando água açucarada por canudinhos e ouvindo R&B. Existe uma Miami que é cheia de qualidade de vida. Admiro quem sabe ter qualidade de vida. Quando atingi os 5K uma chuva forte caiu fazendo as pessoas fugirem do parque. Eu ainda corri 1/2K antes de me dar conta de que era chuva, molhada, fresquinha, e que fazia muito tempo que eu não sabia o que era ficar molhada de chuva. Parei de corre, olhei para o céu, deixei a chuva cair na minha cara. Fechei os olhos até sentir que estava mesmo enxarcada. Depois, fui andando devagar de volta ao hotel, com um sorrisão molhado no rosto. Miami continua sendo feia, cafona, superficial e de mal-gosto. Mas já descobri que, quando for preciso, é possível achar pequenos momentos em que a vida é autêntica ainda por aqui.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
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Peguei umas milhagens em dezembro e marquei uma viagem para Miami, para comprar equipamento de mergulho. Como era milhagem, vôo com escala longa. Aquelas coisas que deixam a gente meio exausta, mas eu ainda tenho pique para encarar. A situação do aeroporto de Guarulhos é realmente sofrível. Faltam informações para todos os lados. Os cafés são absurdos de caros. Fui comprar um simples café com leite para conseguir ficar em pé, já que acordei às 4h, e me cobraram R$7, a atendente demorou 30 minutos para servir, e quando desisti de esperar e pedi o café para viagem, ela resmungou, xingou e disse que eu não tinha paciência de esperar. Que o problema do mundo era que todo mundo queria as coisas na hora só sabem exigir. Pois é, 30 minutos para um café com leite é algo muito imediatista. Nem discuti com a moça. Ela está na linha de frente e as coisas que estão erradas com o atendimento dela vão bem além daquele balcão. Peguei meu café e saí. Meu vôo ia primeiro para Manaus, onde eu ficaria por duas horas em escala, e depois para Miami. Fiquei trabalhando em outra área do aeroporto até dar a hora do embarque. Quando desci para o meu portão, que vergonha. Centenas de pessoas abarrotadas em uma sala de espera minúscula, sem assentos suficientes, que ainda atendia 4 portões de embarque. O vôo estava atrasado, então as pessoas não tinham onde ficar. Senhores de idade jogados de um lado para o outro, deficientes físicos sem ter onde se colocar, crianças pelo chão. Acho tão desumano como as autoridades consideram aceitável esse tipo de situação. As pessoas tentam manter a dignidade, mas vê-se o sofrimento o cansaço em seus rostos. Será que era porque os vôos que seriam embarcados naquela sala eram todos para Manaus, Fortaleza, Salvador? Será que a sala de embarque para Zurique também está assim? Quem será que vai usar os novos e modernos terminais de Cumbica? Me chamaram no microfone do check in e acabaram me passando para um vôo direto. Saí do embarque nacional e fui para o internacional correndo, quase sem dar tempo. Engraçado como estamos fazendo cada vez mais com que a experiência de sair do país seja mais prazerosa do que ficar por aqui mesmo.
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