A Vi disse que o ano novo começou somente ontem. Rolou uma mega conjunção especial no céu. Saturno e a Lua estiveram bem atípicos e, embora o calendário tenha mudado quando a gente estava juntas no Rio, o ano só mudou mesmo ontem, enquanto a gente falava de energia, confabulava sobre anos sabáticos e os planos para 2014. Seja pelo que for, sinto na pele a mudança. Produzi absurdamente esses últimos dias. Escrevi muito, organizei muitas coisas que estavam para trás. Sinto uma vontade e uma energia que há meses não aparecia por aqui. Se é um ano novo, já estou gostando dele. Já estamos enchendo de amor. Porque acreditamos que, sim, e o amor que transforma, e ele que oferece o melhor de nós. Amar de forma complexa, absoluta, incondicional. Tudo e todos e o que se faz. Ter fé que a vida nos oferece amor, aceitar e ser grata. Essa é a promessa de ano novo. Um feliz ano novo astral para vocês!
"...estou procurando, estou procurando. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi." (Clarice Lispector - Paixão Segundo GH)
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sexta-feira, 21 de março de 2014
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
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Felicidade é uma caixa de Mentex.
Quando eu morava no Jardins passava sempre no cruzamento da Estados Unidos com a 9 de Julho. Ali fica um vendedor de balas paraplégico. Ele fica na cadeira de rodas, com o tabuleiro de balas no colo e conversa com todo mundo. O mais impressionante é que ele sempre, sempre, SEMPRE tem um mega sorriso no rosto! Nunca vi esse cara mal-humorado. Ele está sempre feliz, positivo, de bem com a vida. Quando morava ali, fazia questão de parar na faixa da esquerda, abrir a janela e bater-papo com ele enquanto esperava o farol abrir. Quando não dava tempo de parar, eu gritava um “bom dia” da janela e acenava enquanto passava. Ele se esticava todo na cadeira e me acenava de volta, com aquele sorrisão de quem é feliz na vida. Teve uma semana que ele sumiu. Eu passava ali e me dava um aperto no coração. A gente sempre imagina tragédia. O cara podia muito bem ter ganhado na Mega-sena, mas a gente sempre imagina tragédia. Depois de uma semana ele reapareceu, do mesmo jeito de sempre. Nem tragédia, nem mega-sena. Tinha sido só uma gripe. Depois tirei meu ano sabático, e quando voltei vim morar em Pinheiros. Nunca mais passei por lá. Hoje, eu desci a Pamplona depois de uma maratona burocrática de pedidos de documentos, visitas à secretaria da faculdade e pendências mil, estava aérea, pensando na minha coluna do PPQO de amanhã. Pensando em como as relações humanas estão cada vez mais frágeis e mais difíceis, em como me dá vontade de virar uma bolinha igual tatu e me isolar do mundo. Quando me aproximei do farol da Rua Estados Unidos com a Av. 9 de julho fechado. E lá estava meu amigo. Em sua cadeira de rodas, sorrisão aberto. Por um instante tive o ímpeto de fingir que não tinha visto. Ficar olhando pra frente com cara de ocupada, esperando o farol abrir. Mas então ele veio até minha janela, pediu para eu abrir o vidro e foi então que eu me toquei. Eu já estava enroladinha feito tatu-bola, isolada do mundo. Abri o vidro para o meu amigo e a primeira coisa que ele me disse foi: “Oh, minha linda! Obrigado pela gentileza! Que sexta-feira linda! Vai sair com o maridão hoje!?”. Acho que ele não se lembrava de mim. Certamente que não. São muitas garotas introspectas dirigindo naquele farol todos os dias, e para mim só tem um vendedor paraplégico com quem eu bato papo. É natural que minhas memórias com ele sejam mais vivas do que as dele comigo. Eu não consegui falar muita coisa para ele. Não expliquei que não havia nenhum maridão. Nem que já faz tempo que a sexta-feira à noite não significa mais nada para mim. Não falei que minha grande expectativa do dia era lavar uma pia repleta de louça suja. Nem que todas minhas relações pessoais se reduziam à janelinhas em um chat no computador. Não contei para ele que já tinha morado ali pertinho, duas quadras dali. Nem tentei resgatar na memória dele que eu passava quase todos os dias ali e a gente conversava, e se reconhecia. Na época que eu andava com um Celta básico, peladinho, sem rádio, nem ar condicionado, porque eu era, talvez, muito mais desapegada de conforto do que sou hoje. Não falei para ele que era bom vê-lo novamente, e que eu sempre comprava Mentos, mesmo quando não tinha vontade. A única coisa que eu disse foi, “Hoje à noite eu vou trabalhar!”. Porque era a verdade. Porque é isso o que eu faço todos os dias. Dia e noite. Porque trabalhar muitas vezes vira uma desculpa quando a gente não tem mais nada com o que preencher o espaço da vida. Então ele me olhou, como quem olha a pessoa mais miserável e desamparada do mundo. Me olhou com ternura e compaixão, de quem está em uma posição melhor, muito melhor do que você. “Querida, não faça isso com você. Essa vida toda, é só ilusão. Nada disso é real. Não perca a oportunidade rara da vida por causa de matéria, por causa de dinheiro. A vida vai passar, e você vai perder e nada disso aqui vai ficar. Não deixe de aproveitar um único segundo da vida, por favor!”. Então uma ficha gigante caiu. Aquele homem ali na minha frente, sentado na cadeira de rodas, com papada no pescoço, de pele escura... aquele homem é um buda. Aquele homem é um ser iluminado, que já transcendeu todas as delusões dessa nossa vida material. E quando eu estava alimentando minha decepção com o mundo, ele me veio lembrar que o meu caminho é para o outro lado. Ele veio me acariciar com ternura e generosidade de quem sabe como essa ilusão toda do samsara pode ser dolorida para nós humanos. A gente passa por budas todos os dias, eu sei disso. Só prestamos atenção. Quem iria imaginar que em cima de uma cadeira de rodas, vendendo Mentex, estaria uma pessoa se sentindo muito melhor do que você, dona de todo o conforto de um ar condicionado. Nada contra o conforto. É uma benção tê-lo e sou muito grata. Mas nunca imaginamos que aquele que tem acesso a menos conforto do que a gente possa estar de fato em um lugar melhor. O farol abriu, os carros começaram a buzinar, e eu fui embora meio pasma. Sem processar totalmente aquela epifania. Acho que não me despedi. Certeza que não agradeci. Cheguei em casa, lavei a louça, trabalhei. Agora estou pensando muito nas coisas que eu acho que eu tenho que fazer. Se não é a obrigação em si também uma grande ilusão.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
O LADO BOM DA VIDA
Nos últimos dias estou sucumbindo a uma crise de stress. Estou enfrentando alguns problemas particulares e, mais uma vez, a vida está me mostrando que eu não sou forte o suficiente. O resultado é que o stress, que eu “sabiamente” ignorei na esperança que ele deixasse de existir sozinho, passou a somatizar fisicamente. Primeiro um sono violento, falta de energia, irritabilidade, início de depressão. Então nesse final de semana uma crise de alergia de pele. Estou com dermatite nos braços, unhas quebradiças, a pálpebra do olho inchado. Até aí eu ainda estava duvidando do poder do stress. Mas quando chegamos no limite, quando nos sentimos sufocados pela impotência de não poder fazer nada, a garganta trava. Assim, do dia para a noite, fiquei completamente afônica, com uma bela inflamação de garganta. Daquelas que nos impedem até de atender ao telefone. Quando isso acontece a gente para tudo. Cancela a corrida, desencana dos compromissos. Guarda todos os recursos para que o corpo possa se recuperar e combater o inimigo. Portanto, guardada em casa e com a boca fechada à força, resolvi tirar o atraso de filmes que eu queria ter visto e não vi, seja por falta de tempo, seja por falta de coragem de ir ao cinema sozinha.
Ontem vi “O Lado bom da vida”, o filme que deu à Jennifer Lawrence o Oscar de melhor atriz. Se ela mereceu? Não. Muito menos tirando o prêmio de Emmanuelle Riva no arrebatador “Amour”. Mas a garota faz bonito, em um papel que exigia muita honestidade e delicadeza para ser justo. Eu gosto de filmes em que as pessoas encontram o amor, gosto de histórias em que mesmo as pessoas mais improváveis de encontrarem o amor, encontram o amor. Porque não acredito em uma fórmula perfeita de felicidade eterna, mas acredito sim que, desde que você esteja disposto e vulnerável, a vida pode ter surpreender por inteiro. Não acredito em gente perfeita, gente sem falhas, sem culpas, sem arrependimentos. Se você não flertou com a loucura, não teve o seu momento na borda da piscina, é bem provável que não tenha vivido direito. E vão nos dizer sempre que não pode ser assim. Sempre haverá quem nos queira controlar, quem nos alerte sobre os comportamentos adequados. Sempre haverá alguma medicação para nos enquadrar no que é considerado correto, convencional. Mesmo que você não se reconheça, mesmo que você se torne um estranho para si mesma. Por isso precisamos encontrar os nossos iguais, aqueles loucos como nós. Para nos amar é preciso ter passado por uma loucura igual a nossa. Só mesmo na insanidade acreditamos em coisas assim. Perdendo de 10x0 para as adversidades que não sei como resolver, calada muito mais na alma, do que na voz em si, mas ainda assim acreditando que haverá quem consiga entender exatamente onde dói em mim.
sábado, 31 de dezembro de 2011
UM ALENTO NO ÚLTIMO DIA DO ANO PARA COMEÇAR 2012 COM ESPERANÇAS
Hoje acordei com algumas mordidas de aranha nas mãos e no rosto. No café da manhã rolou uma boa conversa sobre o que deveríamos fazer com a coitadinha. A opinião geral é exterminar e matar. Eu, que sou a suposta vítima, tenho estado cada vez mais praticante da não-violência, então o que eu queria era encontrar nossa amiguinha e soltá-la na grama do parque em frente ao hostel. “Corra para a floresta, amiga!”. Pura maldade! Ela seria carbonizada até a morte lá. Hahaha. Ai, sem humor negro hoje. Eu provavelmente matei esmagada a coitada da aranha e ela deve ter me mordido em tentativas desesperada de me tirar de cima dela. De qualquer forma a conversa de não-violência no café da manhã foi uma quebra no assunto constante do incêndio que já está deixando todo mundo um pouco cansado. É tanta gente falando tanta coisa. E muita especulação. As pessoas vêm bater na porta do hostel, com os olhos arregalados, fazendo perguntas, querendo saber da situação. A política agora aqui no Erratic Rock é não falar mais nada. Porque tem muita fofoca correndo por aí, e as pessoas possuem um gosto mórbido por fofocas e tragédias. O que sabemos é que ao final os Refúgios se mantiveram intactos, embora o fogo esteja queimando todos os acampamentos ao redor. Ou seja, Paine Grande sobreviveu! Após a notícia do fogo alcançando Las Torres não sabemos mais nada, então esperamos que ele também se salve. Ontem por volta das 17h uma chuva começou no parque. Talvez fruto de tanta oração das pessoas locais. E o que nos chegou hoje cedo foi que a chuva ajudou a diminuir a intensidade do fogo e os ventos estão mais moderados. Embora ele continue ardendo em três frentes, o panorama geral parece se apresentar mais controlável. Quanto a situação do parque, ele permanece fechado e deve continuar por toda a temporada. Alguns dizem que por todo janeiro, outros até fevereiro. O que ninguém diz é que, não importa quando seja aberto, será um grande cemitério carbonizado sem nenhum traço da fauna e da flora única da Patagônia. Esse é o tipo de coisa que ninguém nunca quer pronunciar mesmo. Sobre os suspeitos... Tenho evitado falar sobre eles porque já ouvi muita besteira e muita coisa perigosa por aqui. O Felipe, que é um guia local e foi o cara que identificou o fogo, testemunhou os culpados e ficou combatendo sozinho com as próprias mãos até que a ajuda chegasse, estava aqui no hostel até ontem. Ele passou pela investigação, identificou os culpados. Segundo ele foi um grupo de turistas israelenses, 2 meninas e 4 garotos. Estavam acampando fora da região permitida e acenderam uma fogueira. Fogueiras são proibidas no parque. De acordo com o relato dele o grupo foi preso e as garotas pareciam assustadas, mas os rapazes apresentaram uma atitude arrogante o tempo todo. Se recusaram a falar qualquer coisa e disseram que só falariam com a presença de alguém da embaixada. Daí existe especulação sobre um dos garotos ser VIP, (ter imunidade diplomática ou algo assim), ou sobre um vídeo que eles apresentaram colocando-os fora do local. De qualquer forma eu sempre acho muito complicado qualquer tipo de acusação e especulação em cima de culpa sobre um crime tão terrível. Os turistas israelenses foram liberados na quinta-feira, e devem estar muito longe do Chile hoje. Agora a polícia disse que continua em busca dos culpados. A verdade é que todo mundo sabe que esses culpados nunca vão aparecer. Existe um certo movimento no ar contra turistas israelenses em geral, o que eu pessoalmente acho MUITO perigoso. No momento em que começarmos a generalizar atitudes de pessoas pelas suas raças, sexos, nacionalidades, religiões... estamos a um passo de perdermos nossa essência de humanidade. A violência se manifesta de maneiras muito sutis antes de explodir em manifestações físicas. Eu acho que o mundo já tem violência demais e não precisa de mais. Então eu não vou falar de culpas, eu não vou falar de punição e castigo. Eu acredito que, por mais irresponsável que a pessoa tenha sido, ninguém faria uma coisa dessas intencionalmente. Eu não acredito que alguém seja capaz de tamanha maldade de forma consciente. Então eu acredito que essa pessoa vai ter de passar o resto da vida sabendo que sua irresponsabilidade causou um desastre natural de proporções gigantescas. E cada um sabe o que carrega quando coloca a cabeça no travesseiro à noite para dormir. Embora eu concorde que uma punição protocolar deveria ser aplicada, mas acho que a maior punição que se pode ter é o peso da própria consciência. Isso já é de uma violência agressiva suficiente. Não sou eu quem vai incentivar qualquer julgamento, raiva ou mais violência. Hoje vou fazer uma cavalgada na Dorotéa, uma serra ao redor de Puerto Natales. Pode-se ver os condores de cima lá. Nas agências de turismo as pessoas fazem filas para receberem reembolsos de seus pacotes de viagem, muitas desistências. Todo mundo fugindo da cidade. Pode-se ver a tristeza nos olhos dos agentes. Existem várias coisas para se fazer em Puerto Natales além de Torres Del Paine. Enquanto eu estiver aqui, vou tentar ajudar a economia local. O vento hoje parou. As folhas das árvores nem se mexem. Amanhã começa um ano todo novo, cheio de possibilidades e esperanças. Vamos esperar que a chuva volte, que o vento pare. Que os turistas não fujam. Que as pessoas locais possam continuar com suas vidas. Que nós sejamos capazes de encontrar as aranhas que nos mordem e soltá-las livres nas florestas. E que essas florestas não estejam em chamas. Feliz Ano Novo para todos vocês. =)
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