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sábado, 14 de fevereiro de 2015

50 TONS DE VERDE


San Andres não cansa de me surpreender. Pedalei a ilha inteira e, mesmo a bike que aluguei sendo motorizada, tenho usado o pedal mesmo. A bike motorizada é um barato. Quando pego um trecho com muito vento, e fica difícil pedalar, é só mudar uma chave e a bike se transforma em uma mobilete. Bem divertido. Em três horas pedalando, rodei a ilha inteira. Tem uma estrada que faz a volta completa na ilha. Pedalei só para ver onde ia dar. As paisagens são inacreditáveis. Um verdadeiro clichê de tudo o que se imagina de Caribe, ilhas paradisíacas e lugares exóticos com areia branca e mar transparente. 

O mar, aliás, é uma dessas coisas que a gente demora para entender. Ele se desdobra em dezenas de tons diferentes de azul e verde. Não é brincadeira. Parece pintado à mão. Por isso o mergulho é algo ainda mais especial. Água quente, tão quente que tenho mergulhado de biquini apenas. Muita vida. Visibilidade à perder de vista. Só o vento que atrapalha. Mar batido, a gente enjoa muito no barco. Do jeito que estava hoje não dava nem para tentar entrar pela praia. E mesmo na embarcação, uma correnteza forte na superfície, exigia muita atenção para entrar e sair da água. Ainda assim, um pequeno detalhe para os dois mergulhos maravilhosos que fiz hoje cedo. Cardumes lindos, uma tartaruga que dava até para pegar no colo de tão pacífica (mas não pode! Colocar a mão, ainda mais em tartaruga que é super delicada, destrói o ambiente e pode matar os bichinhos.), e vi a maior moréia da minha vida. Uma verde enorme, fora da toca, que passou nadando entre a gente como se não estivesse nem aí para a nossa presença. Tirei fotos como uma louca com a GoPro, mas estava no contraluz e ficaram um pouco avermelhadas por causa do filtro. Ainda assim, dá para ver aquela serpente gigante entre os corais. Linda! 

Tenho feito os mergulhos com Mo, o dono da pousada, e a namorada dele, Rain. Apesar do nome super hippie, Rain até que é normal. Uma americana que estava passando pela ilha no ano passado, se apaixonou e mudou a vida por causa disso. Ela tem minha idade, só que é a cara da Elle Macpherson. Acabamos ficando amigas, e depois do mergulho e da siesta, fomos os três tomar uns “coco locos”  no centro. (Coco Loco é o drink típico por aqui. Consiste em basicamente colocar tudo o que tiver na prateleira de bebidas dentro de um liquidificador, acrescentar leite de coco, lícor de cereja e bater. Delicioso e mortal!). Sentamos em um bar na praia e ficamos assistindo um dos 3 casamentos que estavam montados na areia. Cena de cinema, aquelas cadeiras, a tenda e o mar coalhado de verde ao fundo. Chorei como uma boba!

Para fechar a noite, Rain me arrastou para um girls night out de Valentine’s Day. Mo estava trabalhando e ela ia sair com algumas amigas para um cinema e drinks. A ilha é bem calma, sem grande agitos. Existem duas baladas, que ficam na mesma rua, uma de frente para a outra. Todo o agito, mesmo em alta temporada, parece o de uma quinta-feira  em cidade de interior paulista. Mesmo eu não sendo uma entusiasta de baladas e DJs, gosto da ideia de cinema, drinks e girls night out. 

Mais uma surpresa? A ilha conta com dois cinemas! O que fomos ficava no 8º andar de um hotel. Sério. E uma garçonete passou o filme inteiro trazendo nachos, sanduiches e hamburgueres para as pessoas na plateia, como se estivéssmos em um drive-in. Lá pelas tantas os lugares estavam lotados, e a atendente entrou com algumas cadeiras de plástico e colocou na frente da tela para acomodar os retardatários. Muito barulho, muita conversa e interatividade com o que se passava na tela. 

O filme? Bem, o que se pode ver para um girls night out em uma ilha no Caribe? “50 Tons de Cinza” em espanhol. Não tinha lido o livro, mas pelo enredo fiquei surpresa mais uma vez. Não apenas pelo livro ter feito tanto sucesso, mas por terem resolvido fazer um filme dessa história. Em uma palavra? Vanilla. 

Com a gente, um grupo de 6 mulheres locais, cada uma de um estilo diferente da outra. A melhor de todas, e aniversariante da noite, era Janice. Uma colombiana grande. Não gorda - pelo contrário, ela tinha um super corpo - mas grande. Bem perua. Estava com um aplique com mechas platinadas no cabelo, usava um top bufante, com a barriga a mostra, os botões de cima abertos e um shorts todo de paetês em cima de saltos meia-pata azul cerúlio. Altíssimos. Exageradamente bronzeada e maquiada. Devia estar fazendo uns 48-50 anos. Não perguntei. Se a suspeita é dessa idade, nunca é uma boa ideia perguntar. 

Depois do filme, a caminho do clube no carro de Janice, ela falava com um inglês carregado sobre o filme que vimos. 
“Como é que alguém diz que esse é o melhor filme já feito na história? Esse não é o melhor filme já feito na história. O melhor filme é ‘Frozen’. Todo mundo sabe disso. Ou ‘Encontrando Nemo’...”
Rain corrigiu: “Procurando Nemo”
“...Isso! “Procurando Nemo”. Esse é um bom filme. Esse é um filme bem feito. Eu gosto do mar, então gostei do Nemo. Agora esse filme aí...”

Então entendi um pouco mais sobre essa ilha. Um lugar onde as pessoas estão vivendo. Sem drama, sem loucuras. Apenas construindo suas vidas da melhor forma que podem. Se relacionam com pessoas que não são iguais a elas, porque não estão procurando uma segregação em nichos, grupos, aptdições. Estão pouco se lixando para os parâmetros adequados de moda, para as opiniões da crítica especializada em cinema, para as pequenas ambições. 


Acho que quando você tem um mar com tantos tons de verde todos os dias na sua frente, não faz sentido mesmo seguir o senso comum de um universo que cada vez mais se apoia em tons de cinza. Sabe de uma coisa? Eu também gosto de mar, e pensando bem... Nemo é de fato um grande filme. ;-)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

UM CARNAVAL NÃO PLANEJADO


Há alguns meses eu fui para o Peru fazer uma viagem que era um dos sonhos da minha vida. Foi muito planejada. Daquelas viagens que o guia fica até desfolhado de tanto ser manuseado. Escrevi aqui sobre como arrumar a mochila, organizar reservas. Tudo perfeito, e que acabou sendo uma das melhores da minha vida. Como boa virginiana, sou uma entusiasta da organização. 

Agora no Carnaval resolvi fazer algo diferente. Eu moro no meio da concentração de metade dos blocos de rua de São Paulo. Três anos atrás minha casa era um oásis de paz e tranquilidade no feriado. Usava o Carnaval para assistir séries no sofá, gabaritar os filmes do Oscar no cinema. Era uma época em que Carnaval era sinônimo de cidade vazia, sossego e silêncio. Isso mudou. Com o resgate do carnaval de rua em SP, ficou impossível ficar na cidade, morando onde eu moro. As ruas travam, o barulho é infernal e non-stop, e episódios de vandalismo acontecem em toda vizinhança. A solução tem sido fazer as malas e sumir.

Como se isso fosse um castigo para mim!

Eu queria uma viagem que cumprisse dois propósitos: fosse um destino de mergulho e me desse uma nova figurinha na coleção de carimbos do passaporte. Claro, que também coubesse no meu bolso!

Depois de pesquisar pacotes, conversar com amigos, resolvi que iria para San Andres. Vi um pacote legal de mergulho para ilha colombiana que tem caído cada dia mais no gosto dos brasileiros. Mas o pacote fazia apenas San Andres. Como era minha primeira vez na Colombia, não queria deixar de conhecer Cartagena de las Indias também. A cidade histórica onde Gabo morava e inspirou tantos cenários de seu realismo fantástico. Negociei, conversei. Decidi que ia fazer a viagem self-tailored. Convidei alguns amigos para embarcar no programa, minha dupla de Bonaire no ano passado... Então o dólar disparou. 

Os amigos desistiram da viagem, a dupla desapareceu, o preço da passagem dobrou, e eu já estava fazendo estoque de água e comida em casa para sobreviver a um carnaval ilhada no meu apartamento, com risco de ser atacada pelo elenco de Walking Dead. Quando minha teimosia habitual falou: “Vai, Adriana! Vai de qualquer jeito!”. Liguei para minha agente de viagens que conseguiu uma passagem com o preço antigo saindo por Viracopos, algumas escalas e emiti na hora. 

Depois disso resolvi que ia deixar a viagem acontecer como ela quisesse. Não comprei um guia da Colômbia, não li nada a respeito dos destinos. Reservei um hotel que achei simpático longe do agito do centro da ilha, outro em Cartagena, peguei meu cartão de crédito, meu passaporte, joguei algumas roupas dentro da mala com o equipamento e entrei no avião sem nenhuma expectativa do que pudesse acontecer. 

Acredito que a vida é generosa quando confiamos nela. Ela nos abre oportunidades e fica feliz em poder nos surpreender. Logo de cara minha experiência tem sido fantástica. Cheguei ontem em San Andres com minha grande mala de equipamentos de mergulho, e descobri que o hotel que reservei tem uma loja de mergulho integrada. Ou seja: as operações de mergulho vão sair do meu quintal! Super! Outra surpresa? Um dos melhores pontos de mergulho da ilha, com um naufrágio, fica do outro lado da rua. Vou sair equipada do quarto e ir andando para o mar. Super 2!

O hotel é uma grande casa, com um jardim gigantesco. Uma piscina nos fundos cercada por um bungalô com redes e imagens de Buda. Os chuveiros ficam ao lado da casa, ao ar livre, em uma construção sem teto, cheia de pedras. Meu quarto tem uma grande porta de vidro que dá para uma varanda, onde estou escrevendo agora e olhando o mar. 

Aluguei uma bicicleta ontem. A ilha toda pode ser explorada pedalando. Os turistas alugam carrinhos de golfe que se vê para todos os lados. Eu preferi a ideia de pedalar acenando para os locais em suas casas, sentindo o vento dobrar os coqueiros e ouvindo as ondas quebrando nas pedras ao meu lado. Ontem, no final da tarde, estava pedalando até um restaurante cerca de 2Km daqui e o Sol se punha na baía a minha frente. Era como estar em um filme. Como aquelas cenas em que a personagem resolve largar tudo e buscar uma vida simples e rústica em algum lugar exótico, e de repente, a vida dá um jeito de lhe maravilhar. Um daqueles raros momentos em que a gente se sente tão viva que tudo faz sentido. 

Nem sempre viagens são feitas desses momentos de comunhão e perfeição. Não é o tempo todo que as grandes experiências acontecem. Mas é só viajando, é só quando saímos da zona de conforto, que o extraordinário acontece. Eu viajo para me maravilhar. É uma caça ao tesouro. Saio para a vida disponível para o que ela pode oferecer. 


E nada disso foi planejado. :-)


O Por do Sol que eu ganhei de presente na minha chegada à San Andres.

domingo, 23 de março de 2014

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5h da manhã foi quando eu terminei de editar o primeiro vídeo dos mergulhos de Bonaire. Tudo ainda com muita cara experimental. Primeiro vídeo que edito na vida! Fiz cinema, mas sempre fui produtora. Nunca tive a destreza, e a curiosidade, que a Maya tinha por exemplor. A Maya faz tudo, e por isso é uma cineasta de verdade. Eu acabei escrevendo. Mas, fiquei lá quebrando a cara, sofrendo horrores. Perdi todo o trabalho às 2h da manhã e tive de começar tudo do zero. Deu vontade de desistir, mas bateu a teimosia (que, segundo minha mãe, vira perseverança) e fiquei no computador até ter o filme pronto. Essas imagens foram as primeiras que fiz com a GoPro, então estou descobrindo também com a câmera funciona, quais os recursos e o resultado, para poder ficar mais à vontade e explorar melhor a ferramenta. Também ainda não tenho muita noção do que estou fazendo com o IMovies, todos os recursos que posso usar, então o resultado é bem amador. Mas eu amei! Hahahahaha! Adorei finalizar esse primeiro episódio e dar de presente para meus parceiros de mergulhos de Bonaire. Conheci um pessoal tão legal, tão gostoso de estar junto. Essa é uma forma de devolver para eles o carinho que me deram. Subi no youtube, mas deletaram a música que tinha usado no clip por causa de direitos autorais (!!!). Direitos autorais em vídeos caseiros... Bom, não vou discutir. Estou usando o Vimeo que é muito mais legal! Olha só o resultado!



Bonaire pagando deco - Episódio: Hilma Hooker from Adriana Rossatti on Vimeo.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

CUBA: TODA, INTEIRA E DE UMA VEZ



Pois é. Primeiro choque de Cuba foi me deixar completamente incomunicável virtualmente. Nos últimos dias até consegui internet (mas só porque estávamos em um hotel 5 estrelas), mas ela era cara, lenta e usei só para trabalho. Os planos de postar um diário da viagem foram por água a baixo. Agora, de volta, estou amargando uma virose chata no sofá de casa e vou fazer um resumão. Vai ficar um post longo, mas serve para situar um pouco da experiência que tive na ilha, e dar umas dicas para quem pensa em viajar para lá em breve. Vamos lá!
Primeira coisa a se notar, Cuba fica longe! Eu achei que o trajeto fosse mais curto, ainda nosso vôo tinha conexão em Lima, então fizemos um triângulo na América Latina. Foram quase 12 até chegar em Cuba, e depois mais duas de ônibus até chegar em Varadero. Some a isso que agora é regra nas companhias aéreas servir pão. É um tal de lanchinho aqui, lanchinho ali. Meu humor estava no chão. Eu estava voando na jugular de qualquer um que chegasse na minha frente. Tanto que virou frase de ordem durante a viagem sempre que o stress se instalava: “Olha o mau humor!”. Não dá para viver sem humor. 

Cubanos -
Primeira coisa que a gente percebe logo de cara, os cubanos nos adoram! Eles amam o Brasil e só de dizer de onde somos, eles abrem um sorrisão e repetem prolongando o final: “Brasiiiiilllll!!!!”. Acho tão gostoso esse fascínio que o Brasil gera em todo mundo. Onde vamos, as pessoas amam os brasileiros (menos em Portugal). Muito bom ser um povo amado, sinônimo de alegria, de felicidade, de coisa boa. Depois de relaxarem um pouco e abrirem o sorrisão por sermos brasileiras, o comentário era obrigatoriamente a principal referência brasileira que eles têm: novelas! Agora estão assistindo “Insensato Coração” e a reprise de “Por Amor”. Todos comentam da novela e perguntam sobre a trama. A gente se divertia contando segredinhos que estavam por vir. Eles adoram! A novela passa em horário nobre, três vezes por semana. O governo intercala o horário com uma produção cubana, para alavancar a audiência da novela nacional. Outra unanimidade é Glória Pires. Eles amam Glória Pires. Homens, mulheres, velhos e crianças. Todos eles perguntam de Glória Pires, se conhecemos Glória Pires e como ela é. Acho que se algum dia ela for para Cuba, os próprios irmãos Castros estariam esperando-a no aeroporto. Usando camisas polo da Lacoste. Depois dessa introdução comum a todos os cubanos as reações se dividiam dependendo do gênero do nosso interlocutor. Se fosse mulher, conversávamos normalmente sobre as unhas, as melhorias da abertura, o emprego. Agora, se fossem homens, começava um assédio insuportável. No começo a gente sorria, e até se sentia lisonjeada, mas logo se aprende que em Cuba fazer contato visual é perigoso. O povo gruda em você e não larga. É sério. Então diziam que éramos lindas, que mulher brasileira era a mais bonita do mundo, estalavam os lábios e puxavam o ar fazendo barulho, chamavam de Miss Brasil, pediam em casamento. Acho que recebi uns 200 pedidos de casamento. Isso é para acabar com qualquer crise pós-35 que uma mulher solteira possa ter. (Embora nenhum dos pedidos veio acompanhado de uma aliança Tiffany’s com diamante princess cut de 1ct.) Se a essa altura a gente não desse logo um corte no rapaz, a coisa ficava mais complicada. Começavam a colocar a mão, puxar pelo ombro... e dava um pouco de medo. Demorei alguns dias para inventar um “novio” e usá-lo para escapar de todas as situações. Outra coisa que era comum a todos cubanos, homens e mulheres: todos fechavam a cara quando o assunto era política, Fidel ou o governo cubano. O sorriso sumia, os olhos se enchiam de medo e então a gente descobria que eram pessoas tristes, sofridas. Toda aquela alegria e simpatia faz parte do mis-en-scéne turístico. Coisa para inglês ver. 

Dinheiro -
Em Cuba há duas moedas, o peso cubano e o peso convertible, ou CUC. O CUC é a moeda usada pelos turistas e tem taxa de 1-1 US dólar. Embora a base de cálculo seja o dólar, a melhor moeda para troca em Cuba é o Euro. Se você for tentar trocar dólares pagam CUC 0,80 por US$1. É a vingança comunista. Trocar CUCs ou qualquer outra moeda pelo peso cubano só no mercado negro, e certamente você via perder muito no câmbio. De qualquer forma, todos os serviços, lojas, restaurantes, taxis vão te cobrar em CUCs. A gente não tem muito acesso aos estabelecimentos dos cubanos. Tentamos entrar em um mercado do governo e quase fomos enxotadas. Era um salão grande, com grãos a granel e produtos com cara de baixíssima qualidade. Os produtos de higiene eram estranhos, todos com embalagens genéricas. Também havia uma longa fila para comprar pão (1 por pessoa) e um bar com café e rum baratos. Me proibiram de tirar fotos e disseram que não podíamos consumir nada ali. Lá os cubanos podem comprar produtos baratos ou trocar seus talões de “ração”. Ninguém morre de fome, mas estão muito longe poderem dizer que comem de verdade. O regime garante que todos “se alimentem”. O básico para sobreviver. Todo mundo sabe que existe uma grande diferença entre viver e sobreviver. O comunismo garante só a segunda opção. As pessoas mais ligadas ao partido garantem empregos mais privilegiados em hotéis e restaurantes, onde se recebe “propina” dos turistas. Embora os taxis sejam caros, não é tão lucrativo quanto uma camareira de hotel. A gasolina é muito cara e, por mais que ganhem em CUC, mais de 75% fica com o governo como pagamento de impostos. Camareiras além de gorjeta, ganham presentes e produtos dos hóspedes. Nós deixamos shampoos, cremes, pasta de dentes, sabonete, perfumes. Ela quase nos levantou no colo de tanto que agradeceu. Além de péssima qualidade, os produtos de higiene cubanos são caros e com o pequeno orçamento acabam virando itens supérfluos no final do mês. O salário médio cubano varia de 350-450 pesos. Algo como 13-18 CUCs. Eu comprei um shampoo na lojinha do hotel que era esse preço. É isso mesmo. As pessoas passam o mês com R$35 e um talãozinho de ração. Vidão!

Carros - 
Uma das imagens mais icônicas do meu imaginário do que seria Cuba era a frota de carros. Sonhava com aquele país parado no tempo, cheio de latas velhas sem manutenção e Bel Airs rabo de peixe. Eles continuam lá. Junto com Ladas aos montes. Muitos passaram por tantas funilarias que viraram carrocerias disformes, e mal se consegue determinar o modelo original. Mas há muitos carros impecáveis, brilhando. Compondo um quadro irresistível com os prédios em ruínas ao fundo. A surpresa veio da quantidade de Peugeuts, Kias e Hiundais novinhos em folha que também se encontram por todos os lados. Faz bem pouco tempo que o governo abriu o comércio de carros novos, até por isso não esperava ver tantos na rua. Esse é só um dos sintomas do quanto Cuba está mudando, e em que velocidade. Não vai demorar muito e talvez os Bel Airs sejam reduzidos a apenas alguns para divertimento turístico estacionados na entrada do Bairrio Cino. Não demora muito também para descobrir que todo e qualquer carro na rua é um taxi em potencial. Existem cinco modalidades de taxis: 
Os de empresa: são amarelos e se parecem muito com os rádio-taxis de São Paulo. Podem ser facilmente identificados nas ruas e alguns deles até tem taxímetro. Taxímetro é artigo de luxo e encarecem bastante o trabalho para os taxistas que são hiper-taxados pelo governo. Quase nenhum taxi tem. 
Os regulamentados: são taxis particulares, com motoristas regulamentados pelo governo. eles possuem carteirinha, registro, luminoso no teto do carro e, obviamente, pagam também uma fortuna de impostos. 
Os ilegais: nessa categoria entra praticamente qualquer carro nas ruas de Havana. Em sua maioria Ladas velhos e caindo aos pedaços, com bancos de mola estourando na sua bunda e maçanetas que podem te passar tétano. 
Os lotações: esses são carros comuns que dificilmente pegam turistas. São os mais usados pelos cubanos. Fazem um trajeto fixo e vão pegando pessoas pelo meio do caminho. São baratos, cobram em pesos, ou o mínimo em CUCs. Pegamos um desses só uma vez porque um casal cubano foi muito gentil e nos colocou lá dentro, senão nunca teria parado para nós. Nos cobrou apenas 1CUC por um trajeto em que normalmente nos cobravam 5CUCs. 
Os coquitos: são as tradicionais lambretas com carroceria em formato de coco. Vale para fazer trajetos curtos, porque não são as coisas mais confortáveis do mundo e à noite, com a temperatura mais baixa, você passa frio. Cobram o mesmo tanto que os ilegais, mas possuem autorização para trabalhar. Me lembraram os tuk-tuks que eu pegava na Guatemala. 
Com exceção dos regulamentados, todos os outros vão sempre tentar te dar um golpe. A boa notícia é que você nunca vai saber se estão mesmo dando um golpe ou não. Com a falta de um taxímetro o preço é estabelecido basicamente pela sua cara. O motorista olha para a sua cara e imagina quanto acha que consegue arrancar de você. No geral nós tínhamos cara de 10CUCs, porque qualquer trajeto que tentávamos fazer custava isso. É preciso negociar e ter muita paciência. Nas calçadas nós éramos atacadas por taxistas e representante o tempo todo. Depois de alguns dias estava tão farta da cara de pau dos taxistas que parei de negociar. Entrava no carro, se me falassem um valor muito alto, eu simplesmente dizia “No, gracías.” E saía do carro para procurar um outro. Eles podem até ter um regime comunista, mas eu cresci no capitalismo, onde impera a lei da oferta e da procura. E lá, há muito mais oferta do que procura.

“No, gracías” -
Golpes. O tempo todo vai ter alguém tentando te dar algum tipo de golpe. De todos os tipos. Eles não vêem turistas como iguais. Às vezes tinha a impressão que o regime os deixou tão individualistas pela sobrevivência que eles não vêem ninguém como igual. Por isso mesmo vão sempre tentar se aproveitar, passar a perna, te explorar de alguma forma. Seja cobrando 10 vezes o valor do produto, seja inventando uma história para te ludibriar a comprar gato por lebre, um cubano nunca vai vir conversar com você sem algum interesse por trás. A melhor coisa é relaxar e saber que invariavelmente você vai cair em algum golpe na sua estadia. É melhor pensar assim para não ficar muito revoltado quando acontecer. Claro que existem os mais óbvios. Quando estávamos indo para a Fábrica de Charutos  fomos abordados por um rapaz na rua que, depois do ritual Brasiiiilll-novela-brasileiraslindas-casacomigo nos garantiu que a fábrica estava fechada naquele dia porque era um feriado nacional onde “somente aquele dia” o governo permitia que as cooperativas de funcionários da fábrica vendenssem charutos em suas casas pela metade do preço. Para um desavisado parece mesmo a sorte do século! Qual a possibilidade de você estar viajando bem no dia de tão maravilhoso feriado!? Claro que é uma história inventada para levar turistas mais ingênuos para casas particulares onde se vendem charutos (de baixíssima qualidade, diga-se de passagem) no mercado negro. Eu já estava avisada desse tipo de golpe, então continuei sorrindo, agradeci a dica e enfiei meu “novio” na jogada. “Ah, que pena que a gente não sabia disso antes, mas é que meu ‘novio’ já está nos aguardando lá na fábrica. Quem sabe da próxima vez!?”. E sai andando. Depois de dois dias eu já nem me dava ao trabalho de inventar muitas desculpas. Só repetia, sorrindo, “no, gracías”, sem parar de andar, até o indivíduo desistir. Vencer pelo cansaço. A Lau me perguntou se o assédio era como no Marrocos. É bem diferente. Nas suks eles também pulam no seu pescoço e é um perigo fazer contato visual, mas a diferença é que o marroquino é um negociador. É uma coisa cultura. Ele tem um produto e ele vai exaltar todas as qualidades para conseguir o melhor preço por ele. Ele não quer te oferecer um lenço por 100 dirhans, para você pagar e ir embora. Ele quer que você barganhe, negocie, argumente. Ele conhece o produto que tem em mãos e você vai saber quando chegou no limite do que ele realmente vale. Em Cuba não. O que eles querem é te extorquir, te fazer de trouxa. O prazer está em enganar, levar vantagem. Fazem os vendedores de canga e taxistas cariocas parecerem trombadinhas pés de chinelo.

Segurança -
Com tudo isso você pode pensar que Cuba é um lugar perigoso. Não é. Super seguro! E a sensação de segurança é presente. Mesmo à noite, mesmo sendo mulher andando sozinha. Pode-se sacar dinheiro em caixa eletrônico no meio da rua, andar com câmeras a tira-colo, exibir IPhone, relógios, jóias. Sem nenhuma preocupação de ser assaltada. Parece estranho em um lugar onde as pessoas vivem com tão pouco e são expostas constantemente a uma abundância que não podem ter acesso, mas essa segurança tem pouco a ver com o caráter do cubano e muito mais a ver com a polícia do regime. Cuba tem um policiamento ostensivo, violento e implacável. Faz a ROTA e o BOPE parecerem seminaristas. Nos hotéis existem casos de furtos de dinheiro. Objetos, jóias, eletrônicos são mais complicados de justificar a posse, mas algumas camareiras podem não resistir de ver exposto o valor muitas vezes de um ano de trabalho. Nada que usar o cofre do quarto não resolva. 

Comida -
É horrível! Comi muito mal na maior parte do tempo. Tudo tem gosto artificial, enlatado, de baixa qualidade. Quanto mais fresca a comida, mais cara, então é um festival de purê de batata em pó, molho de tomate aguado, massas rançosas e arroz azedo. O queijo tinha gosto de plástico. Comer era sempre uma aventura, e muito caro para o que se oferecia. Em tudo, a Cuba em CUC era bem cara. Encontramos algumas opções mais palatáveis depois de quebrar um pouco a cara, e nisso vimos um certo refresco de uma Cuba que está aos poucos renascendo e se abrindo para o mundo. Havana está começando a ter novos endereços, restaurantes, cafés. Em imóveis reformados, muito bem decorados, com equipe treinada e chefs treinados nas técnicas culinárias. Nesse lugares encontramos uma comida criole revisitada e saborosa. Outra surpresa foi almoçar no La Bodeguita del Medio. Nem tínhamos planejado isso, por ser um dos endereços mais turísticos de Havana, mas os turistas passam em frente, tomam um mojito, tiram fotos e vão embora. No salão dos fundos fica um restaurante vazio, farto e de ótimo preço. Comida caseira, muito bem feita. Comi arroz de mouros, batata doce, banana frita e salada (com folhas!!!). E o mojito deles é mesmo o melhor de Cuba! Os restaurantes do hotel também salvavam a pátria. Ficamos no Meliá Havana, que é maravilhoso. Mesmo quem não liga para estrelas, como os preços são mais ou menos os mesmos, vale a pena ficar nesse. Limpo, seguro, correto, equipe muito atenta e com internet (Yeay!!!). Você não vai encontrar isso em nenhum outro lugar de Cuba.

Varadero -
Varadero é aquilo. Uma coleção de resort cafona, um atrás do outro. Coisa de chorar de rir de tão ridículo! No nosso tinha até show de cabaré todas as noites, daqueles bem decadentes, de inspirar nossos mais profundos instintos de vergonha alheia. A praia é incrível! Uma faixa sem fim de areia branca, um mar calmo e delicioso de água limpa e cristalina. Tudo aquilo que você espera quando junta as palavras “férias” e “Caribe” em uma frase. Mas como eu não sou muito rata de praia (por mais que quisesse, meu bronze vai de rosa à roxo sem escalas), passamos um dia só lagartixando na praia e provando todos os tipos de drinks. Nos outros dias fui buscar tours e passeios para fazer. Fui mergulhar na Baía de Cochinos (a Baía dos Porcos, cenário de episódios da Revolução) em um paredão de corais que dizem chegar à 200m. Não sei. Fui até 30m só. Maravilhoso! Vi peixe escorpião (que era louca para ver) e nenhum tubarão. Agora que não tem mais cubanos em boias no caminho para Miami acho que eles migraram para outros lugares. Queimei minha perna em alguns corais de fogo. Vi uma embarcação de pequeno porte naufragada bem raso. Uns 10m apenas. Visibilidade excelente, alcançando 30-40m, água a 29oC. Perfeito! No outro dia fizemos um safari de 4x4. Pegamos um jeep e dirigimos pelas cidades vizinhas, fizemos snorkling, mergulhamos em um lago de água doce dentro de uma caverna e almoçamos em uma fazenda. Pude satisfazer todo meu instinto Felícia e passei a tarde brincando com galinhas, gatos, cachorros, papagaios, burros, touros, cabras e bodes. A melhor parte de Varadero é poder explorar um pouco do interior de Cuba em passeios. Me deu vontade de voltar um dia, alugar um carro e viajar entre as cidades até chegar a Guantanamo. 

Arte -
Dizem que Hitler era um leitor voraz, mas que não assimilava nada do que lia. Seja para exibir na prateleira ou para auto-afirmar seus frágeis egos, todo regime totalitário acaba investindo em algumas modalidades artísticas para justificar suas atrocidades. A arte de Cuba é do tamanho da falta de liberdade. Se você tiver que ver apenas um museu em toda sua viagem a Cuba, nem pestaneje. Vá direto ao Museu de Belas Artes - Coleção Cubana. In-crí-vel!!! Reserve uma tarde inteira para ele. Você vai se arrepender se ficar sem tempo. Distribuído cronológicamente, a coleção do museu é abundante, rica, prolixa, enlouquecedora. Eu mal conseguia dar conta de tantas influências, tantas novidades, tantas coisas lindas e maravilhosas todas de uma vez. Poderia ficar aqui falando sobre os artistas cubanos por horas, mas dois me tiraram o fôlego. René Portocarrero e Wifredo Lam. Me parecem esses tipos de artistas que nunca se esgotam na gente. Então, depois dessa avalanche de frescor, angústias, vísceras e úteros, a gente descobre outra coisa que é um pecado no comunismo. A falta de uma lojinha de museu que nos abasteça de livros, catálogos, reproduções que possam ficar reverberando em nossas casas as maravilhas. Uma pena. Mas se o museu não está acessível como souvenir, as ruelinhas de Havana Vieja está carregada de pequenos studios e ateliers. Alguns bem turísticos, mas se enfiando entre um e outro, pode-se achar coisas lindas, interessantes, frescas, feitas por artistas que pintam pelo prato de comida, assim como Picasso em Paris. Dá para levar para casa algumas coisas muito boas por 100-300 CUCs. Comprei dois, de duas pintoras. Muito femininos. 
Outro motivo de orgulho cubano (e que eu não ia perder por NADA nesse mundo) é o Ballet Nacional de Cuba. A famosa cia dirigida por Alícia Alonso. Fui. Chorei. Me emocionei. Foi o ponto alto de toda minha viagem. Estavam apresentando um espetáculo em homenagem à Feira do Livro que acontecia na cidade. Uma sequência de peças. "La siesta del Fauno", primeira coreografia de Nijinski, obviamente perturbadora e genial. Algumas coreografias de Alicia inspiradas em obras de Portocarrero e obras de compositores cubanos e o ponto alto (que encerrou o primeiro ato da noite): o pas de deux do terceiro ato de "O Lago dos Cisnes". O desbunde de coreografia com Viengsay Valdés, primeira bailarina do Ballet Nacional de Cuba fazendo Odile e realizando impecavelmente as 32 piruetas... De tirar o fôlego. Se fosse só por essa peça já teria valido tudo. A viagem, o investimento, tudo. Saí de lá com vontade de virar anoréxica e me dedicar somente ao ballet. Uma pena que já é tarde...

Orgulhos Nacionais - 
Pode ser coisa de turista, mas existem algumas coisas que não se pode sair de um país sem fazer. Em Cuba elas são bem óbvias: rum, tabaco, música. Havana Club é o rum oficial de todos os lugares com um pouco mais de estrutura. É usado nos drinks de Hemingway (o mojito da Bodeguita e o daiquiri do Floridita, ambos ótimos!), e em todos os drinks de todos os bares e hotéis. Todavia, basta uma conversa mais profunda com alguém que entende para descobrir que o melhor rum de Cuba é o Santiago. Trouxe uma garrafa 15 anos. Não bebo rum, e quase não tenho bebido, mas se é para ver fotos da viagem e falar sobre Cuba com os amigos, que seja com o melhor rum. O charuto é orgulho nacional. Talvez o souvenir mais comprado pro turistas na ilha. Os únicos lugares confiáveis para comprar são casas de tabaco, lojas de hotéis e na fábrica. O resto nem vale tentar. São caros. Beeeem caros! Doce ilusão pensar que seriam baratos na fonte. Uma caixinha com 10 Cohibas saem facilmente por 200 CUCs. Os preços variam de acordo com a qualidade e o calibre. Eu aprendi a fumar charutos com meu tio há uns 15 anos atrás. Comprei alguns Cohibas e guardei para ocasiões especiais.
A música talvez tenha sido a única decepção da viagem. Eu esperava ver mais música, mais coisas atuais, verdadeiras. É bem difícil encontrar os endereços onde a música está acontecendo agora sem ter algum contato local. Todo mundo jogava a gente para os endereços turísticos onde as pessoas se contentam com um pastiche de Buena Vista Social Club ou com Gangnam Style em ritmo de salsa. Gustavo Lima também é uma unanimidade na noite (embora eu acredite que é só porque os Castros acreditam que a música é um hino revolucionário à Che: “
Tchê tcherere tchê tchê,
Tcherere Che Che Che, que hoje vai rolar”...). Tudo isso regado a mulheres vestidas como prostitutas (bom, eram prostitutas!) e danças muito sexualizadas. Nossa melhor noite foi no La Zorra y El Cuervo. Uma tradicional casa de jazz no Vedado, que fica em um porão apertado por onde se entra através de uma cabine telefônica inglesa. No palco uma pessoal jovem, músicos muito talentosos e jam rolando solta. É uma casa onde Chucho Valdés tocava e onde Roberto Fonseca toca todas às quintas. Lá também vendem CDs e consegui garimpar algumas novidades, e peguei sugestões com o DJ do que ele achava de melhor da nova safra de jazz cubano. É. Nem tudo está perdido. 

Havana -
Havana é a jóia de Cuba, e a gente não precisa de mais do que alguns minutos para entender por que. Linda! Mesmo decadente, deteriorada. Havana é linda. A gente consegue enxergar a cidade maravilhosa embaixo do abandono e falta de cuidados. As grandes avenidas e plazas. O Malecón interminável. Quando o tempo virou e vimos o mar revolto estourando ondas no muro daquelas calçadas, entendi porque todo escritor cubano coloca o Malecón em algum momento do livro. Ele é a passarela de Havana, e eu também o colocaria como protagonista se escrevesse um livro ali. A arquitetura é um deleite. Havana Vieja exibe ruelas e prédios que não deixam esquecer a colonização espanhola, Centro Havana com suas fachadas neo-clássicas caindo aos pedaços e prédinhos art-déco. O Vedado foi de longe meu bairro favorito. Cheio de gente jovem, paladares, lojinhas e casas de jazz. Nosso hotel ficava em Miramar, um pouco afastado do centro (o que significa 15 minutos de ônibus). Miramar é a Vila Nova Conceição de Havana. Lugar de alto padrão, com mansões gigantescas, embaixadas, jardins. Foi nesse bairro que Che foi morar depois da revolução. Ele e todos os altos cargos do partido. Não são bobos nem nada. Os casarões foram todos tomados pelos líderes do regime. Até hoje são. A melhor coisa para se fazer é se perder entre as ruas de Centro Havana e Havana Vieja. Eu passaria mais uma semana ali, tirando fotos, tomando mojitos e daiquiris. Fumando charutos. Entrando nas dezenas de museus por metro quadrado, livrarias, casas de artesanato. Descobrindo as lojas centenárias deixadas intactas. Havana é o que redime Cuba. Parece que há uma cidade cosmopolita, vibrante, rica, adormecida. Esperando ser libertada. Esperando que os tempos negros passem e ela possa se reerguer e tomar seu posto como uma das cidades mais interessantes do mundo. Aos poucos está sendo restaurada. É bom para os cubanos. É bom para a humanidade. Esse tempo vai passar. Os Castros não vão viver para sempre e, quem sabe, ganhamos Havana de volta. Quem sabe.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

CUBA VAI LANÇAR UM FOGUETE...


Já falei aqui que uma das minhas ressoluções de ano novo foi virar uma “mulher de Chico”, dessas que só dizem sim. Estou dizendo “sim” para qualquer proposta que me façam, e está sendo muito divertido. Além de me dispensar dos questionamentos típicos da pessoa controladora que eu sou, dizer “sim” tem um quê de libertador. Diga “sim”, Adriana, e está decidido. Outra resolução de ano novo foi o de realizar alguns sonhos. Ano passado eu viajei pra caramba. Foram 7 países diferentes, sendo que 4 deles eram inéditos. Além dessas, 3 viagens nacionais. De todas essas viagens, só Fernando de Noronha estava na minha lista de lugares top para conhecer. Não que eu não quisesse conhecer os outros lugares, mas todo mundo tem aqueles lugares de sonho. Aquela experiência que a gente jura que vai fazer antes de morrer. Então se eu estou colocando tanta energia em colecionar figurinhas no passaporte, porque não começar exatamente por aqueles lugares que sempre sonhei em conhecer!? Esse vai ser o ano de realizar esses sonhos. Estão na lista Macchu Picchu, Chapada Diamantina e a Ásia. Toda a Ásia. Tailândia, Indonésia, Vietnam, Cambodja... Sinto frio na barriga só de pensar em Ásia. Sinto uma atração muito forte pelo oriente. Existe algo na minha alma que mora lá. Mas a Ásia é uma viagem mais elaborada. Algo que precisa de planejamento, tempo e, se tudo der certo, vai coroar esse ano. Enquanto isso tem um feriadinho começando amanhã. Não dá para passar 36 horas em um vôo para conhecer o Laos, mas dá para realizar um outro sonho antes que não dê mais tempo: conhecer Cuba. Pois é. Passagem comprada, visto emitido. Embarco amanhã cedinho para uma semana longe da folia, mas conhecendo de perto a Cuba de Fidel. A Cuba de Pedro Juan Gutierrez. A Cuba do Mamute Siberiano. Dessa vez não vou de mochila. Lalau e eu vamos juntas, com um desses pacotes que tem tudo o que a gente precisa. Resort all inclusive em Varadero, hotel 5 estrelas em Havana. Ganhamos até uma necessaire bacanuda da agência de viagens. Não vai ser daquelas aventuras que estou acostumada escrever aqui. Sem os imprevistos de carregar 15Kg de mochila e descobrir o caminho para sair do aeroporto. Vou com uma mala de verdade, dessas que tem rodinhas, para conseguir carregar o equipamento de mergulho. Sim. Há planos de mergulhar em Varadero. E tirar alguns milhares de fotos em Havana. Pegar o Malecon com a luz do fim de tarde. Ouvir bolero. Assistir as negras enrolando charutos em suas coxas fortes. Tomar mojitos no bar do Hemingway. - Aliás, dúvida: é muito clichê ler Hemingway viajando para Cuba!? - Amanhã cedinho embarco para realizar o primeiro sonho de 2013. Prometo contar tudo em postagens diárias, como sempre faço quando estou viajando. Podem aguardar. Nesse carnaval vamos ver Cuba lançar!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

MAIS UMA FIGURINHA NO PASSAPORTE


O único motivo de eu estar (enfim) escrevendo aqui é que eu estou 5 horas na frente no fuso horário. São 2h da manhã em Cape Town e, sim, estou estou na estrada de novo. Em síntese, foi uma loucura que eu e a Manu fizemos. Nós estamos viciadas em promoções de internet e sempre que a gente esbarra em algo interessante, colocamos o cartão de crédito em ação. Completamente descontroladas, é verdade. Foi assim com Fernando de Noronha (pois é, fui para Noronha e fiz meu check out de mergulho lá... pois é, agora sou uma mergulhadora!), e agora com Cape Town. Acontece que cheguei hoje a noite aqui sozinha. Manu esqueceu a carteirinha internacional de vacinação (no comments) e não pode embarcar. Mandei ela dormir em casa e vim. Ela chega amanhã na hora do almoço. Vou falar que não é das viagens mais confortáveis do mundo. São muitas horas até Johannesburg e depois mais duas horas até Cape Town. Saí de São Paulo às 1h30 da madrugada de domingo para segunda e cheguei já era tarde da noite. Perdi um dia inteiro espremida nas poltronas da classe econômica. Maldita hora que comecei a voar na classe executiva! Agora me acho velha demais para a econômica. Sinto dores reais em todas as juntas. Mas justiça seja feita. Depois de TAM e GOL jogarem a qualidade dos assentos econômicos a níveis desumanos, a South African Airways parecia a primeira classe das brasileiras. O assento realmente baixava (e não ia de 45 para 90 graus como é na Gol) e o serviço de bordo era comida de verdade, nada de amendoim ou barrinha de cereal. Os comissários todos muito simpáticos e teria sido perfeito se não fosse o pequeno incidente da comida vegetariana. Eu sempre tenho um incidente de comida vegetariana. Primeiro porque eles nunca agendam meu pedido na hora da emissão da passagem, e quando chega a hora do vôo ninguém tava nem sabendo sobre a alimentação especial, então ficam olhando para minha cara esperando que eu escolha entre frango ou carne. Mas dessa vez havia a comida vegetariana. Pasta. É consenso universal, quando se fala em comida vegetariana alguém te serve macarrão com molho de tomate. Só que nesse caso a comida vegetariana era um ravioli... recheado com presunto. Sério. Abri o ravioli e chamei o comissário. Ele insistiu: “Essa é a opção vegetariana.” Eu tentei explicar que presunto era bicho, que eu não comia bicho, que vegetarianos não comem bichos e presunto é bicho. “Não, não, não. Isso é pasta. É vegetariana.” Eu queria saber quem foi que declarou que pasta é prato vegetariano. Sou capaz de enumerar pelo menos umas 20 receitas de pastas que não são nada vegetarianas, isso sem precisar entrar nas versões recheadas como o ravioli que me serviram. Foram cinco minutos do cara tentando me convencer que o presunto na minha frente era automaticamente vegetariano por estar dentro de um ravioli, até que eu desisti e agradeci o prato e resolvi não comer nada. Então ele voltou com um prato de canelloni recheado de queijo e ervas com aspargos da primeira classe. Falei que eu estou velha para a classe econômica. Tem um grupo até considerável no avião que também veio com a mesma promoção Peixe Urbano. Cape Town, uma semana, hotel com café da manhã, passagens aéreas, transfer e city tour, pela bagatela de R$2.000,00 parcelados em 12x. Amo parcelinhas Casas Bahia! Mas tenho pavor de excursões CVC e classe média empolgada viajando. Sem nenhum medo de parecer pedante aqui, não faço a menor questão de socializar. Eles ficaram fazendo piadas sobre uma família mulçumana que passou no desembarque porque as mulheres estavam de burca carregando o carrinho de malas, e os homens iam a frente conversando. Sei lá. Tenho minhas convicções feministas, mas aprendi a não julgar as culturas diferentes da minha. Ema, ema, ema. O hotel é ótimo, quarto espaçoso, limpo, confortável. Tem tv e banheira. Travei uma batalha de 40 minutos para configurar o wi-fi, mas depois deu certo. Saí às 23h30 para procurar algo para comer e só tinha a loja de conveniência do posto de gasolina. Parece aquelas cidades de subúrbio americanas. Os prédios são bem acabados, as redes de comércio bem abastecidas e confortáveis. Passamos por 4 favelas do aeroporto até o hotel. Nem tudo é cidade modelo, e a “sujeira” fica em volta do tapete. Começo a achar um padrão nos BRICS. (Não conheço o resto, mas quem sabe não pode ser uma temática para as próximas viagens.) Nesse lado de cá da cidade, África do Sul dá de 10 a zero no Brasil, isso mesmo se considerarmos a “Manhattan” onde eu moro em São Paulo. O aeroporto é impecável. Grande, limpo, moderno. Existe ordem e infra-estrutura. Já estou achando uma pena ficar só essa semana (aproveitando o feriadim de Corpus Christi, né!?). O importante é que mais uma figurinha foi adicionada ao álbum. UHUU! \o/ Agora, o que eu não vou contar para a Manu, é que na hora de carimbar meu passaporte eu sorri para o moço, ele abriu um sorrisão de dentes brancos, e nem me pediu a carteirinha de vacinação. 

terça-feira, 8 de maio de 2012

A GOOD DAY


Andei sem postar não porque tinha feito a proposta de só falar de coisas boas e não estava conseguindo. Só por falta de tempo mesmo. Mas ontem foi um dia tão... tão... que achei que seria mesmo um desafio falar coisas boas dele. Cansada, atrasada, sobrecarregada, triste, com dor de dente, a gata doente, TPM... Vai, fala algo de bom de um dia assim! Tenta! A gente acaba ficando com o pavio curto. E comendo Nutella de colher. E mandando a yoga catar coquinho na esquina. É assim que funciona. Até queimei miojo ontem! Juro. Depois trabalhei até às 2h. Mas deu tempo de parar um pouquinho e fofocar com a Manú sobre nossa próxima viagem. Se tem algo que muda completamente meu humor é planejar viagem. Eu vou de velhinha rabugente pra Polyanna otimista em dois segundos sem escala. E nossa próxima viagem vai ser daqui 15 dias. Vou realizar um sonho: conhecer Fernando de Noronha. Melhor! Fiz um curso de mergulho nesse final de semana e vou fazer meu batismo lá. Eu tinha uma visão completamente diferente do que era um batismo de mergulho. Achei que ia ser algo mais poético, tipo, alguém jogando água na minha cabeça e eu me tornaria uma “mergulhadora”. E depois ia ficar nadando com os peixinhos, beijando as moreias, abraçando tartaruga. Na prática não é bem assim. Um batismo de mergulho é uma série de 4 mergulhos divididos em 2 dias em que eu preciso mostrar para o instrutor que eu não vou morrer afogada quando eu for mergulhar. Eu preciso mostrar que eu sei montar o equipamento, colocar adequadamente. Verificar se ele está apropriado. Entrar na água, fazer a descida. Então eu preciso mostrar que eu sei como fazer caso o respirador escape, eu perca a máscara. Tirar a máscara embaixo d’água, tirar água de dentro da máscara. Tenho que fazer uma série de simulações de falta de ar, de acidentes com o cilindro. Fazer subidas de emergência e simulações de controle do acúmulo de nitrogênio no corpo. Tudo para garantir que eu não tenha que ficar em uma câmara hiperbarica quando sair da água. Fora os exercícios de navegação e flutuabilidade, para mostrar que eu não vou afundar além do limite que eu sou capacitada. Como mergulhadora de águas abertas eu estou apta a descer até 18m de profundidade desde que não entre em locais confinados ou com teto (cavernas ou naufrágios). Depois disso tudo, ele vai me deixar brincar um pouquinho com as tartarugas marinhas. Fora que a brincadeira é uma pequena fortuna. De qualquer forma, estou em êxtase! Vou tirar minha carteirinha PADI em um dos maiores paraísos de mergulho da Terra. Quando eu penso nisso não tem dor de dente, nem rabugice, ou TPM. Mas a gata ainda está doente...