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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

SILÊNCIO

Ando folgda. Confesso. Agora que tem outro voluntário, larguei todo o planejamento de aulas nas mãos dele. Virei as costas e fui tomar uma cerveja. Verdade. Fui mesmo. Estou tão cansada que todo dia quando sento para escrever aqui saem milhões de errinhos. Vou ver depois, mas dá uma preguiça ficar consertando. O teclado do netbook também é estreito, então cansa mais o punho. Dá preguiça e eu fico relaxada. Ando com uma fome danada também. Tive alguns casos de hipoglicemia (o que não me acontecia há algum tempo). Então agora eu estou parecendo uma gorda carregando comida para todos os lados. Sempre com alguma barrinha, chocolate, salgadinho, fruta. Qualquer coisa para evitar que eu comece a tremer como quem tem Parkinson. Não contei, mas tive uma no meio da trilha do Acatanango. Foi por estupidez. Estava andando há umas 3 horas já, só com o café da manhã que tinha sido antes de sair de Antigua. Bingo. Detesto quando o meu corpo me faz fraca. Minha turma anda insandecida essa semana no projeto. É um tal de se baterem, não sei mais o que faço. Hoje José deu um soco no estômago de Irma. Tudo bem que Irma não é fácil. Mas a menina estava quase vomitando. Ficou tossindo e cuspindo. Em seguida foi Danilo que virou um tapa em Marisol. Juro. Cinco minutos depois. Eu até entendo que essas crianças acabam lidando com agressividade porque é o modelo de comportamento que recebem. Mas que loucura. E me consome tanto. Dai vira assunto para os internos. A minha interna é a Phoebe, que é uma garota novinha, muito boazinha e cheia de boas intenções. Mas princesinha demais. Sabe aquelas pessoas que querem sempre agradar, que não conseguem ficar em uma posição em que não sejam o centro das atenções e amadas por todos? Tipo isso. Daí quando acontece um incidente grave como esse ela tem tanto medo de ser dura com as crianças e eles não gostarem dela, que ela passa a mão na cabeça e deixa eles fazerem o que quiserem. Vê se tem cabimento? Neguinho sai espancando os outros, começa a chorar porque vai ser levado para os internos e chegando lá, em vez de ter uma conversa séria sobre seu comportamento, a interna pega no colo, dá beijinho, abraça, chacoalha, mima bastante, e ainda fica perguntando se a criança “está brava com a professora”!!! Depois vem com discurso passivo-agressivo de que “a gente precisa entender que essas crianças passam por tanta coisa, eles sofrem tanto, tadinhos, a gente não pode ser tão dura com eles”. (Tão dura? Até parece que quem estava esbofeteando as crianças era eu!) Ah! Eu também vou sair esmurrando o povo para ser paparicada! Mas hoje falei para ela, que mimar aquelas crianças era egoísmo dela, que ela estava mais preocupada com os sentimentos dela do que com a formação do caráter deles. E que eu achava que o comportamento dela era nocivo para as crianças e enquanto eu estivesse aqui eu ia proteger meus alunos dela. Ai, ok! Eu preciso ser um pouco menos dura com os outros. Pode até ser que eu tenha pegado um pouco pesado com a rainha do baile. Mas engraçado que ultimamente não me sai da cabeça aquela frase do Martin Luther King: “History will have to record that the greatest tragedy of this period of social transition was not the strident clamor of the bad people, but the appalling silence of the good people.” Eu tenho sentido uma responsabilidade imensa ultimamente de não me calar quando considero que algo está errado. Não estou falando especificamente da Guatemala ou desse projeto. Mas de posicionamento de vida. Claro que todo mundo gosta de agradar. Todo mundo gosta quando gostam da gente. Ninguém quer ser considerado “encrenqueiro”. Mas silêncio eu guardo na minha alma para ocasiões especiais. De resto eu falo. Porque calar, para mim, é cumplicidade.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ERUPÇÃO

Hoje foi lava para todos os lados. Eu tive um incidente essa semana com os alunos. No intervalo eles recebem uma fruta. É uma coisa meio valiosa para eles, já que para alguns acaba sendo parte da pouca comida que recebem por dia. Algumas crianças pedem para guardar a fruta e pegar no final da aula porque se transforma em seus almoços. Meio punk. Então Melvin veio para mim e mentiu que tinha guardado a fruta, e acabou levando a fruta de outro aluno, Danilo. Danilo, obviamente ficou arrasado. Foi uma confusão até eu descobrir a mentira. Chamei Melvin na frente da classe inteira. Todos estavam indignados porque Melvin tinha mentido. Então eu dei um grande sermão de como mentira era uma coisa feia, que não era um comportamento aceitável e que, por causa da mentira dele, o colega tinha ficado com fome. Perguntei se ele achava que aquilo era justo. Ele concordou que não. E falei que a mentira nunca era a melhor opção porque a verdade sempre vinha a tona. E que eles deviam ser honestos e dizer sempre a verdade, porque a verdade não prejudicava ninguém, e blábláblá. Para consertar seu comportamento eu disse que hoje Melvin deveria dar sua fruta para Danilo. Ele ficou muito contrariado, mas sabia que estava errado, e toda a classe ficou mega satisfeita. Hoje na hora do intervalo, todos estavam ansiosos para que a “justiça” fosse feita. Eu fiz Melvin pegar seu pedaço de abacaxi e entregar a Danilo. Muito bem. Alguns minutos depois Kim vem me perguntar se Danilo era meu aluno, que ele estava chorando muito e que Sarah (uma das internas da GVI) estava com ele. Fui imediatamente falar com Sarah. Só que ela me dispensou e disse que estava tudo sob controle. Eu insisti, disse que tinhamos tido um incidente (e Sarah só aparece no projeto uma vez por semana), mesmo assim ela me deixou de fora. Em seguida passa ela com Danilo e dá uma laranja para Danilo. Então eu já pulei na frente, perguntei o que tinha acontecido. Resumo da ópera, depois de tudo, Melvin foi atrás de Danilo no intervalo e tirou o pedaço de abacaxi à força. Danilo ficou aos prantos e o que a alienada da interna faz? Passa a mão na cabeça de Melvin e dá uma outra fruta como prêmio de consolação para Danilo. Eu virei bicho. Não apenas porque ela estava me desautorizando completamente. Mas porque aquilo era muito injusto. Então ela vem para mim e diz, “we don´t punish with fruits. It´s our policy, because they are always so hungry.”. Cara! Naquela hora eu fiz juz ao meu DNA. Sentei com a garota e falei tanto. Mas tanto. Que a coitada nem deve ter encontrado o caminho de casa. “Eu sei que a gente não deve usar comida como castigo, ainda mais com o histórico que essas crianças possuem. Seria desumano se eu fizesse algo assim. Mas eu não estava usando comida como castigo. Eu estava fazendo com que Melvin reparasse uma falta grave, especialmente porque essas frutas são algo tão valioso para eles. Eu entendo que eles sentem fome. Mas fome não pode ser desculpa para mentira, trapaça e falta de caráter. O que você ensinou hoje para Melvin foi que está tudo bem mentir e trapacear por fome, porque vai ter sempre alguém redimindo os danos que ele causar nos outros. Repondo com uma outra fruta como prêmio de consolação. E isso pode até ser apaziguador para SUA consciência. Mas um dia você vai embora desse país, e essas crianças vão continuar passando fome. Isso não vai mudar. Então eu entendo que eles tenham fome, mas caráter e valores para mim vêm primeiro do que fome. E eu realmente não dou a mínima se é política da GVI ou não. Eu acho que agi corretamente e agirei da mesma maneira se passar por essa situação novamente. Eu sei que sou uma pessoa imperfeita. Eu cometo erros, vou cometer muitos erros. Mesmo que eu tivesse errada (o que eu não acho que era o caso) você nunca poderia ter passado por cima de uma decisão que eu tomei na frente da minha sala. Você deveria ter me chamado, resolvido entre adultos. E nunca me desautorizado na frente dos meus alunos. Eu perdi minha voz para ter controle dessa sala. Fuego é a sala mais comportada e disciplinada desse projeto, e isso não é à toa. Você nunca poderia ter aparecido do nada e me desautorizado na frente das crianças.”. Virei bicho! A garota só balançava a cabeça e pedia desculpas. Cara! Eu acho que tudo tem sempre sua sombra. Sempre que você se depara com algo incrível e maravilhoso, procure pela sombra. Porque aí sim você vai ter certeza da realidade. Esse é um projeto maravilhoso e eu certamente aconselharia milhões de amigos a passarem por essa experiência pelo menos uma vez na vida. Mas ninguém está se iludindo aqui. (e com aqui eu me refiro a mim mesma). O único motivo que eu estou fazendo esse trabalho voluntário é porque eu acredito que esse é um direito dessas crianças. Que as pessoas têm o direito de receber ferramentas para mudarem suas vidas. Eu não tenho a pretensão de mudar o mundo. Não sou tão megalômana assim. E eu tenho certeza de que se, em 10 anos, eu topar com uma dessas crianças com uma arma na minha cabeça, eles não vão pensar duas vezes em puxar o gatilho. Detesto o politicamente correto. Espero que eles sejam felizes e que esse trabalho faça alguma diferença em suas vidas, que proporcione outras possibilidades. Do fundo do meu coração. Mas eu não sou ingênua. Não sou uma patricinha qualquer de algum país de primeiro mundo colocando fotos no Facebook ao lado de exóticas crianças remelentas guatemaltecas. Não vou tapar o Sol com a peneira só porque é mais fácil para mim dormir à noite. Afinal, os beneficiários devem ser as crianças e não os voluntários. Se os voluntários se beneficiam, bônus. Mas não é o maior propósito. Pelo menos não deveria ser. Então não. Eu não vou aceitar que nenhuma garota inglesa passe a mão na cabeça de uma criança com comportamento errôneo só porque ela está com dó da vida de terceiro mundo que ele leva. Mau caratismo não tem raça, cor, credo, classe social ou localização geográfica. E se Melvin me considerar a Bruxa Má do Oeste, isso vai me deixar muito chateada porque eu gosto de todas aquelas crianças, mas eu estou aqui para ajudá-las e não para fazê-los se apaixonarem por mim. Eu já tenho bastante gente que me ama lá em casa. Não preciso vir até a Guatemala para me convencer de que sou uma boa pessoa. Se depois de tudo, eu ainda for amada. É como eu disse. Bônus. E até onde eu sei, a vida é cheia de bônus.

sábado, 8 de janeiro de 2011

GUATEMALA - DIA 5 E SÁBADO

Sobrevivi à primeira semana. Engraçado que faz tão pouco tempo que estou aqui, e parece uma vida. Estou completamente integrada na rotina, e as crianças... Ah! Como é que a gente pode criar afeto tão rápido? Eu me lembro no primeiro dia quando cheguei. Phoebe me fez uma apresentação do projeto, dizendo as regras que devíamos seguir. Uma das regras é que nós não podemos abraçar ou manifestar afeto pelas crianças na rua da comunidade. Não são hábitos da cultura indígena deles. “Mas quando estamos dentro do projeto, nós podemos abraçar, beijar, apertar.” Eu ouvi aquilo, e eu não me imaginava fazendo essas coisas com crianças completamente desconhecidas. Esse é o tipo de coisa que eu faço com os meus sobrinhos e só. E mesmo assim eles fogem de mim. Todavia, assim que cheguei no projeto foi uma explosão. Existe uma energia tão incrível, tão magnífica. Tudo o que eu queria fazer era abraçar, beijar, apertar aquelas crianças. Fico ansiosa de manhã esperando o momento de fazer isso. E elas se escancaram, pulam no seu colo, te beijo. Ontem, Maylin, uma aluna minha do período da manhã (bem inteligente por sinal) me abraçou no final da aula e disse “Estoy feliz, maestra. Estoy feliz que esteja aquí.”  Me apertou tão forte e disse “Te amo, seño!”. Deus! E para tanta gente é tão difícil dizer “Eu te amo”. Dizem inclusive que se você disser “eu te amo” para um cara, você provavelmente nunca mais vai vê-lo na vida (em compensação, se disser “eu te odeio”, vai ter o melhor sexo da sua vida...).Ontem foi também o último dia de Lyn e Alec. Lá estava eu chorando como uma bundona novamente. Eu e Alec, enquanto as crianças iam uma a uma se despedindo dele. No almoço rolou homenagem e discurso. A hora q Alec começou a falar, a voz embargada (porque ele é bundão como eu) eu já virei e avisei “If you cry, I cry”. E não deu outra. À noite fui com Martin (cino-inglês, também voluntário), Kim (australiano e doidinho, voluntário) e Hannah (escocesa, do staff da GVI e minha nova paixão aqui. Ela é demais!) comer uma pizza para nos despedirmos de Alec e Lyn. Um restaurante italiano de um americano (gato), mas o chef e o barman eram italianos (Gatos. Bem gatos.) A promoção era “Peça dois cocktails e ganhe uma pizza”. Eu e Hannah fomos de Apple Martinis. Quando o  barman soube que eu era brasileira e não tinha pedido caipirinha se sentiu ofendido. Mandou uma caipirinha mega caprichada para eu provar como cortesia da casa (Isso é para eu nunca dizer que nenhum gato pagou um drink para mim!). Depois de dois martinis e uma caipirinha, fomos dançar e tomar cervejas no La Sin Ventura. O lugar é aqueles tipos de infernos que eu só fui porque já estava altinha, não estou no meu país e a compania era boa. Imagina o pior do pop fm. Agora imagina isso em espanhol. Yeah, baby, yeah! Poperô guatemalteco. Acabou sendo divertidíssimo. Kim estava impossível, pulando de um lado para o outro e dançando. Martin estava mais no meu mood de tomar cerveja encostado em um canto. E Hannah desapareceu. Foi abduzida. (Ela está aqui há quase um ano. Completamente integrada a cultura local.) Cada música tinha seu respectivo videoclip exibido no telão... aquela coisa de um cara fazendo pose de mal com óculos escuros enquanto um par de gostosa rebola e faz cara de tesão atrás. Entre um poperô e outro rolava salsa. Kim me encheu tanto que eu fui dançar salsa com ele. Ou melhor, eu fui conduzí-lo na salsa.Tomei minha cerveja. Então um cara me tirou para dançar, a gente arrasou na salsa. Mais cerveja. Tentei ir ao banheiro. Mais cerveja. Resumo da ópera: eu já estava amiga do DJ, pulando igual louca ao som de “I´ve gotta feeling” dos Black Eyed Peas, Hannah rolava de rir e Martin incrédulo. Balada guatemalteca. Com a vantagem que não dá para correr o risco de amanhecer comendo sanduiche de pernil do Estadão porque tudo fecha a 1h. Por lei. Voltei para casa ameaçando Martin de morte caso ele falasse alguma coisa para alguém e acordei hoje às 9h. Quase uma benção depois dessa semana. O café da manhã tinha pasta de feijão e ovo frito de novo, mas dessa vez foi perfeito. Ótimo cardápio para ressaca. Encontrei com Martin e Hannah no Raibow Café (que é um charme. Tem um sebo e um pátio delícia.) e a gente passou o dia como lagartixas tomando Long Island Iced Teas e brigando com a conexão de internet que caía a cada 15 minutos. Quando a luz do Sol baixou Martin foi comido no mercado tirar fotos. O Mercado é como uma feira fixa a céu aberto. Meio como um camelódromo. Praticamente uma Disneyland para fotógrafos. Fiquei doida. Esse país é tão perfeito para fotografar. A luz, as cores, as pessoas. Estou totalemnte apaixonada. Amanhã acordo mega cedo. Saio às 5h para o Lago Atitlán. Mais mega fotos. Quem diria? Eu que não esperava nada!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

GUATEMALA - DIA 3

Nada como um dia depois do outro, não? Quase não faz sentido nenhum. Um dia puro caos, no dia seguinte parecia até que as crianças tinham tomado ritalina. A aula foi perfeita. Estamos retomando a alfabetização do zero, e as crianças responderam tão bem. Estavam concentradas, dinâmicas, participativas. Fizeram os exercícios lindamente, e os cadernos, uma graça! Depois ainda fizeram bilhetes e cartões de “regalo” para uma das voluntárias que estava indo embora hoje. No final de cada período, todas as crianças se concentraram no pátio (um pedaço de terra batida que fica no meio dos barracos de madeira onde damos aula) e, uma por uma, foi se despedir de Katie. Eu estou aqui não faz nem uma semana e chorava como uma boba de ver aquelas crianças abraçando e beijando a americana de 18 anos que resolveu vir para a Guatemala em seu Gap Year. Alguns entravam na fila duas, três vezes, para beijá-la e abraçá-la. E diziam que a amavam. “Yo te amo Seño Katie”. De matar. Eu morrendo de orgulho das minhas classes, que estão respondendo às regras de disciplina. Estavam todos organizadinhos, sentados educadamente, aguardando sua vez de se despedir. No final do dia recebi milhões de elogios da equipe. Sarah veio me dizer que eu era uma “star”, e uma outra interna do programa me disse que nunca tinha visto as crianças obedeceram tão prontamente um voluntário antes. Fiquei embasbacada. Eu achando que estava afundando irremediavelmente, e como em um passe de mágica está tudo certo. Meu terceiro dia no projeto, e acho que estou conquistando o respeito dessas crianças. Verdade que cada turma tem os seus. No período da manhã tenho a dupla dinâmica Oscar e Irma. Eles são inteligentes, rápidos e terríveis. Oscar hoje tirou o dia para me desafiar. Se jogava no chão e quando eu pedia para ele sentar-se direito, olhava bem para minha cara e dizia “No!”. Cara! Que desespero. Então eu olhava muito séria para ele e dizia “No estoy pedindo para se sente, estoy DICENDO que se sente.”. Rolava alguns segundos de silêncio, em que eu secretamente tremia com a idéia de que ele não cedesse e eu perdesse completamente a autoridade na sala. Então ele se levantava e se sentava. Internamente eu respirava aliviada. É verdade que crianças testam limites, e é saudável que façam isso, mas putz! Eu não fazia idéia de que tão difícil. Como as coisas parecem que começam a entrar nos trilhos, consegui planejar as aulas para o restante da semana. E recebi a maravilhosa notícia de que não ficarei sozinha com a sala na próxima semana. Teremos uma interna voltando e que dividirá a sala comigo. YEAH! Tem me incomodado ainda não ter tempo para nada. Ou talvez isso seja muito bom. Não sobra tempo para ficar pensando em coisas que não devem ser pensadas. De qualquer forma mudei o horário da minha aula de espanhol. Eu chegava do projeto e tinha de ir correndo para o espanhol, sem tempo nem de fazer xixi. Depois corria para casa, tomava banho, jantava, preparava aula. Quando via, era quase meia noite, e eu ainda queria escrever aqui. Sem perceber lá se foram todas as horas do dia. Hoje fui para o espanhol meia hora mais tarde. Deu tempo de chegar de Itzapa, sentar no café com o pessoal. Jogar papo fora. Tomar um café enorme, descansar um pouco. E então ir com calma, aprender verbos irregulares em espanhol. Como fico o dia todo falando em espanhol com as crianças, tenho a sensação que já estou fluente em menos de uma semana. Claro que para quem fala português, nem é um grande feito sair falando espanhol tão rápido. Mas eu sou uma pessoa que sempre odiou essa língua. Sempre achei que nunca conseguiria falar espanhol. Agora, vindo pelas vozes guatemaltecas, o espanhol e eu estamos fazendo as pazes. Comprei um livro de gramática, estou estudando quando sobra um tempinho. As vozes na minha cabeça estão todas “hablando”. Quem diria! Yo hablando español! Quando você está no lugar certo, fazendo a coisa certa, parece que o universo se escancara de oportunidades. Faz com que tudo flua rápido, verdadeiro, sem esforço. Se a coisa continuar nesse ritmo, eu resolvo o que eu vim resolver em mais dois dias e fico pronta para voltar para casa no final de semana.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

GUATEMALA - DIA 2

Caos. Caos. Caos. Nós tentamos preparar todo um roteiro de aula, e eu fiz só um terço, já que somos 3 os responsáveis pela turma. Acontece que Phoebe hoje ficou presa com um monte de papelada burocrática e quase não entrou na sala. Alec, tadinho, tem o pior espanhol do mundo, então a sala nos dois períodos ficou praticamente na minha mão. Que desespero. Phoebe ainda me deu a grande notícia de que semana que vem eu fico TOTALMENTE sozinha com a turma. Sem nem mesmo algum voluntário com espanhol capenga para ajudar. Tadinho do Alec. Chega a se engraçado. Ele é bem alto e tem cabelos todos grisalhos. Um jeitão ingênuo. Eu fico olhando aquele senhorzinho tentando passar uma folha de exercício para 20 crianças endiabradas. Ele vai meio corcunda em direção a um grupo de 4 alunos, dizendo com aquele sotaque forte gringo: “Porrrrfavorrrr, escrebe co-mo llama”. Querendo dizer que as crianças devem escrever seus nomes na folha. Enquanto isso as demais 15 estão tocando o puteiro, pulando mesas e cadeiras, simulando lutas, caindo no chão. Seria engraçado se não fosse trágico. Eu tentei criar algumas regras para colocar alguma disciplina. Tipo, um código para quando todos devem se sentar e fazer silêncio. Talvez por ser novidade na vida dessas crianças até que funcionou medianamente. Mas no geral eu tinha vontade de chorar. Em um momento fui até malvada. Larguei Alec sozinho sendo devorado pelas crianças e fui para nossa sala de descanso tomar uma água e comer uma banana. Quando voltei, graças à Deus, ninguém tinha furado o olho de ninguém. Eu não posso ser injusta. Essas crianças nunca foram normalizadas, então não é culpa delas. São crianças maravilhosas e é tudo uma questão de disciplina. Elas são tão carinhosas, que eu me seguro para não cair em lágrimas umas vinte vezes por dia. Hoje Phoebe estava muito triste porque seu namorado foi embora do projeto e eles vão ficar 3 meses sem se ver. No começo do período da manhã, enquanto brincávamos com as crianças, ela deixou escapar algumas lágrimas. As meninas todas pularam no pescoço dela e perguntavam “Porque chora Seño Phoebe?”. Então uma delas correu até a janela, pegou um pedaço de papel higiênico e veio limpar as lágrimas de Phoebe com suas mãozinhas encardidas. É inacreditável como essas crianças são capazes de dar amor. Elas, que recebem tão pouco. E tanta gente miguelando por aí... Pois é o que sempre digo. A gente só dá o que tem. Em sala de aula conseguimos indentificar três níveis diferentes. Um grupo que não faz a menor idéia do que está acontecendo. Não sabem nem escrever seus próprios nomes. Um outro grupo mediano, que entende, mas ainda está semi-alfabetizado. Muitos deles ainda espelham as letras. Escrevem o F do lado esquerdo, por exemplo, e isso é uma coisa comum em crianças de idade pré-escolar, com 3-4 anos. Não em crianças com 8-9. E temos um terceiro grupo, que está mais próximo do nível esperado deles. Não escrevem em letra cursiva, e não são capazes de montar frases. Mas atendem perfeitamente os exercícios propostos, são sempre os primeiros a terminar e (para nosso desespero) lideram a bagunça, pegam as folhas dos amigos para fazer o exercício para eles e ficam entediados. Muito entediados. Não faço idéia de como vamos fazer para trabalhar três níveis tão diferentes ao mesmo tempo. Além disso senti uma dose maciça de frustração hoje no final da tarde. De repente me ocorreu que é quase inútil todo esse trabalho. As necessidades dessas crianças são tão profundas que eu não vejo saída. Não acredito mesmo que haja alguma forma de mudar suas vidas. São tantos fatores. Culturais, familiares, sociais, politicos, educacionais, psicológicos, biológicos, etnicos, financeiros, alimentares, de desenvolvimento. Começou a me parecer até patético um bando de estrangeiro que vem aqui, fica uns dias se matando com um espanhol mezzo calabresa, mezzo mussarela, e vai embora achando que fez alguma coisa por eles. Eu fiquei brincando de esconde-esconde hoje com as meninas com uma certeza absoluta de que não há nada que eu possa fazer para mudar a vida delas. No intervalo cheguei a compartilhar esses pensamentos com Don (o diretor do projeto, um inglês divertidíssimo e apaixonado pelo Brasil). Ele concordou comigo, e disse “Mas nós podemos dar a elas educação, alimento enquanto estão conosco, atenção, carinho, amizade. Um momento do dia em que elas tenham uma experiência diferente de suas casas.” Pode ser.Talvez. Mais tarde eu estava recolhendo uma folha de exercícios de uma aluna muito fraca. Muito tímida e quieta também. Ela parece estar sempre com medo de tudo e de todos. Era um exercício de Ciências Sociais e eles precisavam completar uma ficha com suas características, como nome, idade, cor dos olhos e cabelos. A coitada não tinha escrito NADA, ela nem olhava para a folha e balançava a cabeça negativamente. Eu sentei ao lado dela com um balde de paciência, quase implorando para ela acreditar que conseguia e pelo menos tentar fazer o exercício. Demorou, foi aos poucos, mas ela completou a ficha. Quando terminou, olhei para ela e disse “Viu Marisol! Eu sabia que você conseguia. Você foi tão corajosa. Estou tão orgulhosa de você.” E essa pequena índia, de cabelos compridos e roupas coloridas, pulou no meu colo, me abraçou tanto. Mas tanto. Escondia o rosto no meu colo, depois levantava, olhava para o meu rosto, sorria e voltava a me abraçar e esconder o rosto. Ela não disse uma palavra, mas eu sei que disse tudo. É. Talvez seja isso mesmo. Talvez seja só uma gota no oceano. Mas ainda assim é uma gota, e não oceano.
PS.: O café da manhã hoje foi panquecas com maple syroup. Meu estômago ficou tão feliz! :-)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

GUATEMALA - DIA 1

Sabe qual é o café da manhã típico guatemalteco? Banana da terra frita, uma pasta bem temperada de feijão preto e ovos mexidos. Juro que comi isso hoje às 6h30 da manhã. Acompanhado de momento família com a minha host family e conversas sobre diferenças culturais dentro da América Latina. Depois fui andando até o café que é nosso ponto de encontro para irmos ao projeto. Eu estava um pouco apavorada. Hoje eu ia finalmente enfrentar uma horda de crianças remelentas sem ter a menor idéia do que fazer com todos eles juntos dentro de uma classe. A comunidade em que trabalho fica a 45 minutos de Antigua. O clima na van é de sono, café e uma ou outra conversa perdida. Phoebe e Sarah revisavam  as lições do dia em suas apostilas. As duas são internas do projeto. Sarah vai ser transferida para o projeto em Salvador no Brasil no próximo mês. Ela quer que eu ensine português para ela... me deu uma preguiça! Quando a gente fala em comunidade indígena vem toda uma imagem a nossa mente, não!? Ocas espalhadas no meio da floresta. Cabanas improvisadas com fogueiras na porta. Ou, melhor ainda, aquelas casas de pedra que nos remetem às ruínas mayas da região. Se você também pensou em uma dessas alternativas, sinto lhe dizer que nenhuma corresponde a realidade (nunca corresponde!). A comunidade de Itzapa nada mais é do que uma grande favela com casas precárias de alvenaria, algumas de madeira, sem água encanada e sem saneamento básico. Quase nenhum asfalto. O projeto tem recebido poucos voluntários, então algumas turmas estão em recesso. Eu peguei a sala Fuego, onde ficam as crianças de 6 à 10 anos. Phoebe é a responsável pela sala, eu e Alec (um senhor australiano que está com a esposa voluntariando no projeto) demos suporte. De manhã eu praticamente observei e ajudei a colocar um pouco de ordem. As crianças frequentam escolas públicas e participam do projeto no período livre para reforçar o conteúdo. Cerca de 80% da população da Guatemala é indígena. (Isso inclui o presidente). Até uma geração atrás essas pessoas não frequentavam nenhuma espécie de escola. Em parte por causa da pobreza e da necessidade de cada membro da família contribuir com o orçamento familiar (Nada muito diferente de qualquer periferia brasileira), mas em grande parte por uma questão cultural. Os índios não mandam seus filhos  para a escola, e quando mandam, vão os meninos. As meninas são completamente negligenciadas. O projeto procura suprir também essa lacuna. Essas crianças vêm em sua maioria de lares desestruturados. Famílias numerosíssimas, onde não há cultivo de afeto, individualidade ou privacidade. Convivem em ambientes violentos, com pais drogados e alcoolizados. As taxas de alcoolismo entre os índios é estratosférica. Sofrem abusos físicos, psicológicos e sexuais. Apresentam sintomas de desnutrição e subdesenvolvimento. SAbendo disso, eu fui preparada para me deparar com um verdadeiro caos. Crianças chorando, gritando, correndo, quebrando coisas. Piolhos pulando nos meus cabelos. Qual não foi minha surpresa ao encontrar as crianças mais doces e amáveis que já conheci. Elas chegam na escola completamente entregues, e dispostas a gostar de você, não importa quem você seja. Mesmo sem nem serem apresentadas, elas seguravam minha mão, me faziam elogios, pediam colo. Me abraçavam milhares de vezes. Conforme foram ficando mais “íntimas”, pulavam no meu pescoço, pediam abraços e sorriam. O tempo todo, sorriam. Na sala eles estavam bastante normalizados. Um pouco ansiosos, mas isso acredito que seja em parte pela falta de preparo pedagógico de todos os voluntários que passam por ali. Mesmo Phoebe, que é uma interna do projeto e é muito esperta e dedicada, não tem a mínima idéia de como estabelecer regras e rotinas em uma sala de aula. Não que eu mesma saiba muito, mas vinda de uma família de pedagogos e donos de escola por todos os lados, algumas coisas eu aprendi por osmose. A turma da tarde já foi mais caótica. Cerca de 22 alunos que começavam pela primeira vez no projeto. A grande maioria nem alfabetizada estava. Ficamos os três sambando com o exercío que tínhamos proposto (e que era anos luz mais puxado do que o nível das crianças), até que o sino finalmente tocou e nós pudemos sentar e tentar entender o que tinha acontecido. REsultado é que amanhã vamos ter de voltar do zero e revisar toda a matéria que crianças nessa faixa etária deveriam dominar. Alec ficou com os exercícios matemáticos. Eu estava até agora preparando uma folha de exercícos para trabalhar vogais. Muito divertido trabalhar linguagem de uma língua que não é sua e voce não domina. Fiquei horas procurando no dicionário palavras em espanhol que começavam com cada vogal para ter na manga. Assim que as crianças saíram, todo nós pulamos para dentro da van e voltamos para Antigua. Tomei um café muito rápido com Alec e Phoebe enquanto planejávamos o dia de amanhã e segui correndo para minha aula de espanhol. Vou dizer que não parecia tão puxado quando recebi toda a programação antes de vir para cá. Eu estava tão cansada, suja. Passei o dia lembrando do tal do café da manhã. Terminei minha aula (que é particular, então não dá nem para enrolar no meio da classe) e voltei me arrastando para casa. Já tinha escurecido e eu nunca senti tantas cólicas na minha vida. Dispensei o jantar, tomei um chá de boldo e camomila. Aquele café da manhã exótico não foi apenas uma lembrança do dia todo. Parece que a lembrança vai se estender por toda madrugada... Bem. Eu vim preparada para que isso acontecesse. Só não esperava que fosse tão logo. Amanhã começa tudo de novo. Com bananas fritas, frijoles e cólicas.