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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

CÁPSULA DE ADEUS

Em 2009 comecei a escrever. Já escrevia, sempre escrevi. Mas em 2009 resolvi que era tudo o que eu queria fazer. Me joguei em várias oficinas de escrita criativa. Acho que quando você resolve brincar de algo, tem que brincar direito. Em uma delas comecei uma série de fragmentos de narrativa que chamei de “Cápsulas de Medo e Amor”. Ainda não publiquei, mas tenho um carinho enorme por esse material. Cada fragmento conta uma história sobre amor, e sobre o amor vencendo o medo. Medo da solidão, medo da incerteza, medo da velhice, medo do desconhecido. Algumas eram pura criação da minha cabecinha, outras foram roubadas e coladas entre histórias de amigos. Algumas são verdadeiras e aconteceram comigo. 

Uma dessas cápsulas fiz em homenagem à minha avó paterna. É uma das cápsulas verdadeiras. Ela morou mais de 13 anos com a gente depois que teve um derrame e ficou perigoso morar sozinha. Odiava não poder morar sozinha. Ela era uma mulher independente dentro da sua cultura e criação. Adorava fazer tudo sozinha. Andava para baixo e para cima. Às vezes pegava uma linha de ônibus e ia até o final. “Para ver onde vai dar”. Era louca por supermercados. Ia todos os dias. Comprava todas as novidades das prateleiras. “Para saber que gosto tem”. Aprendi isso com ela. A vida é para se experimentar. Ser curiosa. Ande, explore, teste. Veja que gosto a vida tem. 

Semana passada minha prima me ligou chorando. Minha avó estava morando no interior com meu pai e havia sofrido um AVC violento. Fomos no domingo nos despedir. Ela estava inconsciente em uma cama de hospital. A boca murcha alimentada por sonda, os bracinhos frágeis e sem vida. O médico falou que 85% do cérebro estava comprometido. Fiquei angustiada de imaginar que tipo de vida ela teria se voltasse, se saísse daquele hospital. Uma pessoa que não gostava de se sentir presa nem pelo soutien. Só comprava blusas de gola aberta, para não sufocar. Passar o resto na vida vegetando em uma cama? 

Coloquei minhas mãos sobre sua cabeça, abri meus chacras e mandei toda energia de amor que consegui. Depois, me abaixei em seu ouvido e disse: “Vai vózinha! Vai descansar que essa vida é só ilusão. Tudo não passa de ilusão, de uma grande brincadeira. Você vai ver como eu tenho razão e vai ficar melhor”. Ela ainda esperou minha irmã voltar de viagem para se despedir. Morreu ontem de manhã, sem dar trabalho para ninguém, como ela queria. 

Hoje vamos enterrar minha avó. 

Eu, que aprendi a lidar com a morte de forma pragmática, só sinto alegria de ter participado de sua jornada. Teve uma vida dura, passou o final longe de quem ela amava. Mas cada um constrói sua história, vive sua própria batalha particular. Tenho apenas que ser grata de ter podido participar. 

Desenterrei a cápsula dela que compartilho aqui em baixo. É uma despedida. É o jeito que eu sei fazer. 


“Minha avó voltou do hospital hoje à tarde. Há cinco anos lidamos com suas idas e vindas na UTI. Oitenta e cinco anos. Ela está velhinha. E é um pouco doloroso ver a vida se esvaindo dela. Nunca foi uma mulher brilhante. Simples e ignorante. Repleta de defeitos e preconceitos. Às vezes capaz de uma maldade desconcertante. Mas ainda minha avó. Voltou mais enfraquecida que de costume. Desorientada. Com um riso bobo no rosto. Não consegue levantar da cama sem ajuda. Passei a mão em seus cabelinhos grisalhos e encaracolados. Levei-a até o banho. Ela se sentou no banquinho e se deixou banhar. Ensaboei minha avó hoje à tarde. Sua pele, suas mãos, seu sexo. Seus seios flácidos. Ela se deixou ensaboar. Enquanto eu enxugava o rosto com a toalha repleta de seu cheiro, ela segurou minha mão. Levou-a aos lábios e me beijou.”


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

TRÊS TAXISTAS


Taxista #1

Ele era todo sorrisos. Disputava os turistas na saída do desembarque no aeroporto. De empresa credenciada. Crachá no pescoço. Terno e gravata. Carro executivo, em excelente estado. Me alertou dos roubos nos faróis e guardou toda minha bagagem no bagageiro. Bancos de couro, mas nada de ar condicionado. Logo puxou conversa, simpático. Qual era meu nome. O que me trazia à Lima. De onde eu era. “AH, Brasil!”. Acha que os brasileiros e os peruanos são parecidos. São povos alegres. Me perguntou do calor e do carnaval. “É uma festa muito erótica, muito sexual, não é mesmo?”. Respondi que não sabia. “Não gosta de carnaval?”. Não. “Mas achei que toda brasileira se fantasiasse, soubesse dançar o samba”. Não. Não sei. Fechei a cara, abri meu livro e encerrei o papo.

Taxista #2

Parei o carro, negociei o preço. Em Lima os taxis não tem taxímetros. O motorista era um homem grade. A barriga protuberante batia no volante, embaixo de uma camisa azul clara manchada, de tecido ralo. Os cabelos brancos despenteados combinavam com o bigode cinza. Logo reconheceu, pelo meu sotaque, que eu era do Brasil. “De onde? Blumenau? Florianópolis? Curitiba? Porto Alegre? Goiânia?”. Me surpreendeu que ele não tivesse tentado nenhum dos centros óbvios para estrangeiros: São Paulo, Rio e Salvador. “Você votou em Dilma ou Aécio?”. Assim, na lata. Conhecia toda o contexto político brasileiro. Me perguntou de Lula, do Fome Zero, de Brizolla, de Jânio. Depois falamos de corrupção. Do impeachment de Collor, do mensalão, da Petrobrás. Ele me deu uma aula sobre a corrupção endêmica da América Latina, falando do histórico de governos desde o México até a Argentina. Quando eu achava que ele já sabia demais, passou a analisar a corrupção nos BRICS, falando dos governos da Rússia, China e Africa do Sul. Parou em um posto de gasolina para ir ao banheiro e abastecer. Pediu o pagamento da corrida adiantado para pagar pelo tanque. O carro tinha a porta amassada, e partes da pintura enferrujada. Me deixou em frente ao Museu Larco desejando “Boa sorte!”. Deixei sua gorjeta dobrada.

Taxista #3


O carro caía aos pedaços. Negociamos um preço baixo e sentei no banco torto. Durante a viagem toda ele não emitiu uma palavra. Lia um tablóide enquanto o carro parava no congestionamento, e ouvia uma seleção pop dos anos 80. Information Society, Depeche Mode, New Order, The B52’s, Eurythmics. O fim de tarde deixava o céu com uma concretude assustadora. Pensei como Lima é uma cidade literária. Cheia de histórias para contar. Em “Bizarre Love Triangle”, assobiamos juntos. 

quarta-feira, 19 de março de 2014

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Estou apaixonada por Chimamanda Ngozi Adichie. Li essa semana “Hibisco Roxo” e já vou emendar “Meio Sol Amarelo”. Contando os dias para chegar por aqui seu novo “Americanah”, que ganhou o National Book Critics Circle Awards de 2013. Chimamanda é uma moça linda, nigeriana radicada nos EUA, virginiana como eu. Dona de uma pele escandalosa e de um sorriso mais iluminado ainda. Fazia muito tempo que eu não me identificava tanto com uma escritora. Fazia tempo que eu não sentia que a vida de uma personagem era minha, e ainda, que essa personagem era melhor do que eu na mesma história de vida. Acho que literatura tem que ser uma pouco assim. Fazer a gente ser melhor. Sempre me incomoda como as editoras ainda cultuam uma literatura que é demasiada masculina, branca, hétero e ocidental. Acho extremamente desinteressante essa profusão de livros, com essa moda de “auto-ficção”, cheia de homens héteros, brancos e chatos, destilando seu machismo latente e remoendo suas superficiais questões existenciais. Sério. Quanto mais a gente consegue ler de homens perturbados, incomodados com seus papéis sociais, tomando cerveja ou conhaque pelas ruas de metrópoles, flertando com o submundo mas mantendo suas pseudo-intelectualidades intactas!? Eu fico enfadada só de ler a orelha desses livros, e já há algum tempo tenho evitado novos autores. Raro encontrar alguém que realmente tenha algo a dizer. E quando o mercado todo está viciado no mesmo modelo... a gente chega até a perder o tesão de ler. A gente, bem... eu, no caso. De qualquer forma, li uma entrevista de Chimamanda há algumas semanas no Estadão e fui correndo para o site da Livraria Cultura. Os livros chegaram antes do Carnaval, mas eu procrastinei até essa semana. Melhor. Seria difícil dividir com a paixão do mergulho, que me tomou todos os dias em Bonaire. Fiquei 100% submersa, mesmo quando estava na superfície. E eu sou uma garota monogâmica. Não consigo ter paixões concomitantes. Ah, que delícia encontrar uma boa escritora, mulher, negra, que pinta um mundo sob uma ótica tão diferente da que prolifera por aí. Muito mais delicada, muito mais sutil, mas exatamente por isso bem mais cruel e sobrevivente. Leiam! Corram, leiam!


sexta-feira, 14 de março de 2014

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Hoje tive uma grande lição sobre energia, respeito ao nosso próprio tempo e organização de foco. Verdade que a lição veio em forma de trabalho - muito trabalho - mas ainda assim me sinto mesmo uma privilegiada por trabalhar com coisas interessantes. Tive uma imersão com o autor de um ghostwritting que estou terminando. Foram 10 horas de trabalho, conversas e muitos cafés. Ao final saí com várias estratégias para minha vida pessoal. Entendendo melhor como funcionam pessoas invejosas, e porque me sinto bem em afastar algumas pessoas da minha vida. Entendendo que não posso priorizar completamente um único aspecto da minha vida como tenho feito, esperando todo o resto para fazer depois. Entendendo que eu preciso respeitar melhor o meu tempo, e me permitir parar, respirar. É melhor uma longa pausa que me recarregue por completa, do que ficar em stand by e funcionar sempre com 70% da potência. Uma grande aula para me resgatar. Já cansei de falar por aqui, é fácil a gente se perder. Acho que essas coisas funcionam como bússolas. Nos ajudam a encontrar o norte. 

Esse será um final de semana para recarregar energias. Voltar com a carga cheia. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

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Essa semana estou fazendo um Workshop de Edição Literária no Espaço Cult, com o André Conti. O André é editor da Cia. das Letras. Eu achava que ele fosse bem mais velho. Afinal existem meia dúzia de editores no Brasil e eles ficam mudando de uma editora para outra. E os outros são donos das editoras. Então eu tinha essa imagem de que ele seria um senhor, fumando cachimbo, no estilo do Pondé. O André é na verdade mais novo do que eu, e parece muito, muito, MUITO com o Dri, meu melhor amigo. O jeito de falar, a mania de fazer vozes para ilustrar as histórias que conta. Acho muito divertido quando a gente encontrar pessoas duplicadas na vida. Dá uma sensação de familiaridade e a gente já se sente íntima, mesmo sem a pessoa saber. O workshop está sendo bem interessante, para me ajudar a deixar as ideias mais claras e definir melhor o que estou procurando. A turma, todavia, foi um pouco decepcionante. Não consegui entender muito bem quem eram aquelas pessoas e porque estavam ali. Sempre tem alguém que está mais interessado em cavar uma vaga de emprego ou deixar um manuscrito na mão do professor, em vez de aproveitar a oportunidade para conhecer melhor sobre a função, entender como a coisa funciona. Por isso a sessão de perguntas ficou parecendo o grupo de orientação vocacional que eu tinha no colegial. É essa cultura do relacionamento competitivo, do networking, que existe nessa cidade. As pessoas estão sempre agressivamente se relacionando. Existe uma persona que deve-se assumir em festas, cursos, vernissagens, reuniões, lançamentos. Essa persona deve ter um toque de blasé, um calculado falso interesse no outro e a objetiva manipulação dos assuntos para caminharem aos seus interesses particulares. Antigamente eu me irritava com esse tipo de comportamento, é um dos maiores motivos de eu ter fugido do meio artístico. Hoje acho um desperdício apenas. Um desperdício de tempo onde se poderia criar vínculos e laços muito mais interessantes do que a troca de influência, e um desperdício de gente. Tão melhor conhecer as pessoas de verdade, sem essas personas na frente deixando tudo artificial e irreal. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

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O Augusto é uma pessoa deliciosa. Um amigo que reconheci na vida. Porque tem gente que a gente não conhece, reconhece. Tava óbvio que devia fazer parte da nossa vida. O Augusto é assim. Ele também é uma pessoa interessantíssima. Culto, talentoso, viajado. Sua casa reflete toda essa bagagem de quem gosta do lado bom da vida. Fotos fantásticas por todas as paredes, e uma biblioteca cobiçável. Augusto ainda é uma pessoa desapegada, e anda fazendo uns “bota-fora” das suas prateleiras. Veja bem, se eu for fazer um “bota-fora”, encho uma caixa de revista Vogue e Boa Forma e chamo o Exército da Salvação para retirar. Já o Augusto fazendo “bota-fora” você leva para casa a coleção da revista Serrote, exemplares de poesia japonesa e uma edição em caixa de “Em busca do tempo perdido” do Proust, no original. Quando penso na sorte de ter os amigos que tenho, sei que isso é luxo de verdade. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

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Ok, eu me rendo! Comecei a assistir Breaking Bad. Não estava muito empolgada para começar a assistir. Embora todos meus amigos digam que é isso, e aquilo, e que é bom demais, e até deram mais um Globo de Ouro para a série, eu não estava muito empolgada com a ideia da trama não. Mas estou gostando da série. Não amando, (como foi quando me rendi à GOT) mas é uma boa diversão. E sem dúvidas, a estrutura da trama é muito boa. Uma bela aula de roteiro. Quem me lembrou foi minha mãe. Ela me ligou ontem para descobrir como acessar o Netflix da smartTV dela. Foi então que lembrei que eu também tinha Netflix na minha. E já que eles estão exibindo as 5 primeiras temporadas, porque não!? Sentei ontem e vi os três primeiros episódios. É o tempo de entender como a trama funciona - e acabar viciado pela série. Hoje avancei até metade da segunda temporada. Gosto de como os personagens são tridimensionais. Como eles possuem nuances, falhas de caráter, inseguranças, vícios, defeitos. São personagens bem humanos. Detesto quando as séries colocam as pessoas de maneira maniqueísta. Às vezes parecem robôs. Gosto de gente complexa, com jeito de gente de verdade. Me deu vontade de escrever mais roteiro. E de ver logo a próxima temporada de GOT. Na verdade é o que me deixa mais ansiosa. Todas as outras séries são passatempos enquanto não vem GOT. Bom, o inverno vai chegar. Enquanto isso eu atualizo minha lista de séries, estudo mais Doc Comparato e, quem sabe, com a arrumação do escritório, volto a escrever. Não escrevi nada ainda esse ano. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

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Terminei meu primeiro livro do ano hoje. “Quinta Avenida, 5 da manhã - Audrey Hepburn, Bonequinha de Luxo e o surgimento da mulher moderna” de Sam Wasson. Uma mistura que não tem como não me agradar. Meu filme favorito, Audrey, Capote, cinema e uma análise da evolução dos direitos de gênero através da minha personagem. O livro estava na minha lista de procrastinação. Comprei em uma das minhas idas à livraria. Quando tenho uns acessos de vontade de ler o mundo todo, me apaixono por todos os livros e levo o que o cartão de crédito aguenta para casa. Achei que o livro seria mais superficial, mas também não é uma análise sociológica profunda. É uma narrativa divertida, que estimula a curiosidade por bastidores que todo cinéfilo tem. Não tem a ambição de ser a biografia de ninguém, mas acaba pincelando sobre a vida das pessoas mais influentes para a realização do filme. No final é isso, um relato de como essas pessoas acabaram juntas fazendo “Bonequinha de Luxo”, e porque esse filme representou um marco no papel das mulheres no cinema. Pela primeira vez uma mulher tinha uma sexualidade mais libertina, conquistava a simpatia dos telespectadores e ganhava um final feliz. Ainda que esse final seja careta e conservador. Perdi o hábito de ver filmes. Eu via tantos filmes. Via tudo o que estava em cartaz, tudo nas prateleiras da locadora. Passava os feriados emendando sessão atrás de sessão nos cinemas da cidade sozinha. De uns tempos para cá andei tendo “medo” de ir ao cinema sozinha. E como tudo na vida, se for esperar alguém para fazer as coisas junto, você acaba sem fazer nada. Coisa de quando a gente envelhece e fica bundona. Mas já estava na lista de promessas de ano novo: ir ao cinema toda semana. Pelo menos uma vez por semana. Ver mais filmes. É o mínimo para alguém que se formou em Cinema. Aproveitando o pique, passei o dia vendo filmes que perdi no cinema. Aluguei no Now, abri o Netflix e tive um domingo perfeito de muitos filmes e pipoca, como há muitos anos não tinha. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

SOBRE DÉBITOS E AREIA MOVEDIÇA


Ano passado, quando tirei férias e fiz uma roadtrip pela Itália, havia prometido ao Alê que passaria na volta por Barcelona para ficar um pouco com ele. Acabei cancelando e voltando antes para o Brasil por causa de alguns problemas de trabalho. Em janeiro havia me programado para uma nova temporada européia, e novamente prometi passar para ficar uns dias com o Alê. Cancelei a viagem por vários motivos, e aumentei meu débito de amiga que promete e não cumpre. Dessa vez cruzei o oceano novamente, mas nem considero uma viagem. Vim para um retiro budista em Sintra e resolvi aproveitar para visitar algumas amigas que tiveram filhos no último ano. Para quitar o grande débito, resolvi que chegaria por Barcelona, para cumprir a promessa e rever essa cidade que não tive a oportunidade de absorver de verdade da outra vez que estive. Acabei ficando uma semana inteira com o Alê, e foi como era quando estávamos saindo da FAAP e passávamos as tardes e noites por São Paulo. Continuamos os mesmo. Envelhecemos, mas continuamos os mesmos. Alê me leu alguns trabalhos lindos que tem escrito. Acho um desperdício tão grande ele não colocar um pouco mais de esforço em produzir e publicar. Alê é de verdade um escritor fantástico, um pós-beatinik com muito mais autenticidade do que todos os posers que tentam ser undergrounds no Brasil. Ele foi uma grande inspiração para mim. Foi por causa do Alê que comecei a pensar a sério em escrever, como profissão, como vida. Na verdade essa é a única coisa que realmente fazemos bem. Somos bons em várias coisas, somos versáteis, mas nossa essência é essa. Nós dois somos pessoas que escrevem. Alê tá levando uma vida ótima em Barcelona. Seu apartamento é espaçoso e confortável, tem até um terraço grande com churrasqueira, onde ele estende uma rede e planta girassóis. De onde também se avista as torres da Sagrada Família. O prédio não tem elevador, e nos primeiros dias senti meu pulmão desafiado para subir os 123 degraus até o sexto andar. Eu contei. Acho gostoso ver essa vida simples, sem extravagâncias que ele está levando. Coisa que nos é quase impossível em São Paulo. Faz quase três anos que eu me restabeleci, só com uma mochila de roupas velhas e surradas, e já acumulo mais coisas do que o Alê em 7 anos fixos em Barcelona. Porque acabamos tão rapidamente como acumuladores inúteis? Mesmo olhando para minha bagagem de não-viagem agora - já que não vim de mochila dessa vez - tenho a certeza de que carrego só o básico, mas o meu básico está excedendo os limites de despacho. Esse é o tal do piloto automático. Ficamos tão acomodados nessa vidinha de rotina e conforto urbano, que vamos afundando no supérfluo sem nem nos darmos conta. Vira areia movediça. O dia que você se pegar assinando contrato de casa em condomínio fechado, e blindando o carro para poder ir ao cinema no shopping, sinto muito! É porque já perdeu o fôlego e nada mais te salva. Quando eu quebrei com tudo e resolvi ir em busca do que me fazia sentir viva, eu achei que era uma coisa definitiva. Que aquela experiência e aquela transformação me pertenciam eternamente, e que eu nunca precisaria me preocupar de estar absorvida no nada novamente. Então eu estava arrumando minha mala ontem, me perguntando como era possível o meu “básico” ser tanto assim, quando me ocorreu que é preciso um trabalho contínuo. Aqui estou eu já afundando novamente, ligando o piloto automático e deixando tudo o que realmente me faz feliz para uma outra hora. É preciso acordar todos os dias, e quebrar essas amarras sociais todos os dias. É preciso partir e buscar o que nos faz vivos todos os dias. Porque quando relaxamos, quando nos acomodamos no que pode ser seguro e certo - ainda que seja a segurança e a certeza de que nos transformamos - a areia movediça nos engole, e passamos nossas semanas entre a rotina de trabalho, a cerveja com os amigos, o programa de TV, a pizza do sábado e a busca nas araras e prateleiras das lojas de uma satisfação que não está ali para vender. Compramos o que nos oferecem para que sirvam como substitutos. Compramos qualquer coisa que esteja ali para vender. Se não nos reinventamos todos os dias, e nos atiramos no mundo com os olhos ávidos pelo novo, pelo maravilhoso todos os dias; se não nos dispomos a experimentar, transgredir, inovar, podemos assassinar nossos talentos, endurecer nossa alma, até o ponto de que nem a memória nos resgate a euforia de sermos nós mesmos. Quando nos perdemos na insatisfação do trânsito, da política, da corrupção, dos impostos, da crise, deixamos de usar essa energia para mudar de lugar, e mudar nossa perspectiva. É preciso estar em constante movimento, constante renascimento. Resgatar nossas essências do lodo desse mundo amortecido, hipnotizado. Deixei meu livro em cima da mesa de centro do Alê. Escrevi na dedicatória: “Senta essa bunda na cadeira e escreva. É só isso que a gente sabe fazer. Te amo. d.”

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

FLORESCENDO



Semana cheia de surpresas. Se por um lado a saúde anda frágil, por outro tudo o que eu escrevo me faz mais feliz. Minhas colunas no PPQO essa semana foram avassaladoras. O John passou a semana empolgado, dividindo comigo os stats e celebrando um dos textos mais lidos de todo site. Fico feliz. Não só porque massageia o ego, e meu ego é um bichinho adestrado que faz direitinho seu trabalho histérico e carente; mas também porque sei como o PPQO é um projeto legal, como tem gente boa e com muita garra investindo nesse site, e se meu texto ajuda a contribuir para o sucesso, então VIVA! É aquilo que estava dizendo, quando escrevo perco o direito sobre o texto, e acredito que ele só se realiza quando passa a ser lido. Uma vez ouvi que “a folha está sempre em branco”, porque mesmo quando superamos o bloqueio criativo e escrevemos, o texto só se realiza quando é lido. Enquanto ninguém lê, a folha continua em branco. É um pensamento que me agrada. Além do sucesso das colunas, uma grande novidade. Vamos virar livro! Pois é. Ainda acontecendo de forma embrionária, mas em breve as melhores colunas do PPQO vão ser editadas em livro. Luxo duplo desse ano em que já debutei em tantas coisas. Falta enfim terminar meu livro autoral. Falta é muita vergonha na cara. De qualquer forma já agendei na Tattoo You um  horário para fazer minha tatuagem. Minha primeira. Vão ser flores de cerejeira, uma para cada conquista literária. O objetivo é ficar velhinha um dia com o ombro mais florido do mundo. :-)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013




Escrever é uma coisa engraçada. Não é o tipo de coisa que dá para encher muita linguiça. Você não consegue disfarçar falta de conteúdo. Ou tem, ou não tem. Você pode ser um ator medíocre, mas ainda assim sair em capa de revista, protagonizar novela das 9 e ganhar muito dinheiro fazendo campanhas publicitárias. Mas você não pode ser um puta escritor, sem ser um puta escritor. Você não pode provocar as pessoas sem ter opinião. Você não vai conseguir prender o leitor no seu texto, surpreender, emocionar, se não souber exatamente o que está fazendo. Se não tiver um bom domínio de seu estilo, se não escolher as palavras certas. É diferente de quando a gente fala. Em uma conversa. Nossa opinião fica diluída no ambiente, nas inflexões usadas, no tom de voz. No histórico que temos com o interlocutor. Se falamos com uma pessoa que gosta da gente, a tendência ao conteúdo do discurso ser bem recebido é maior. Quando alguém manifesta uma opinião contrária a nossa, nos inflamamos e falamos por cima, cortamos o raciocínio, fragmentamos a explicação. Escrever é colocar em público o processo de reflexão que muitas vezes não ousamos partilhar em uma conversa, porém a reação a leitura é muito mais forte do que a da palavra falada. Quando se lê, apropria-se do que está escrito. Ainda que o conteúdo seja pessoal, único e intransferível, há quem se ofenda com as palavras dos outros. Quando escrevo perco o direito às palavras. Aceito a livre interpretação do meu interlocutor. Talvez também por isso eu não responda comentários aqui. Quando comentamos um texto, comentamos mais o reflexo que enxergamos nele, do que as intenções de onde eles saíram. Não seria educado intervir na auto-imagem de ninguém.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

RENASCIMENTO

Nos últimos meses duas matérias sobre experiências que eu vivi foram publicadas na Vida Simples. Foram duas revoluções na minha vida, tanto pela experiência em si, quanto pela repercussão das matérias. Recebi uma enxurrada de cartas, elogios, comentários, convites. É um sentimento de estranhamento muito intenso. Existe uma distância entre o ideal e o real, e quando se quer muito uma coisa, e se prepara e se persegue essa coisa, quando recebemos respostas é um pouco surreal. Não cai a ficha direito de que, talvez, eu esteja cruzando a fronteira entre o tentar e o realizar. Já disse isso aqui: eu escrevo. Acho que é a única coisa que faço bem. A única coisa que me faz sentir inteira, completa. Então quando a Ana, minha editora, me mandou por email a carta dessa leitora, eu desabei em lágrimas.  Meu peito ficou pequenino para o meu coração. Eu faço um milhão de coisas erradas. Me estapeio todos os dias para tentar ser uma pessoa melhor. No geral, estou perdendo a guerra. Mas pelo menos nessa batalha, acho que estou ganhando. :-)




Meu nome é Rita e já faz um tempo que sou leitora da Vida Simples. Amo a forma como esta revista aborda temas variados como sustentabilidade, arte, gastronomia, atualidades e, principalmente, assuntos delicados como arrependimento, que foi a capa da última edição.

Sempre me identifiquei com os textos, mas o que aconteceu quando li o texto da Adriana Rossatti foi uma verdadeira catarse. Primeiro estranhei o assunto da reportagem, mas curiosa que sou fui em frente. A sinceridade e coragem com que ela se expôs me fascinou profundamente! Ao ler a parte ela cantando Beatles baixinho me fez rir e no próximo parágrafo eu estava chorando ao me reconhecer inteiramente quando conta sua história ao nascer (eu estava na linha verde do metrô de São Paulo e se alguém me visse ia achar que estava louca ao ir do riso ao choro em menos de dois minutos). Temos muita coisa em comum e ler o seu depoimento me fez entender um pouco mais o meu passado. De certa forma, eu também morri e renasci junto com ela e acabei me conhecendo um pouco melhor.

Nunca escrevi para vocês (nem pra nenhuma outra revista), mas foi a primeira coisa que pensei ao me recompor. Quero parabenizar a Adriana e pedir pra que ela continue escrevendo para a Vida Simples e que vocês continuem fazendo essa delícia de revista que tanto bem me faz!

Um grande abraço a todos!

Rita de Cassia Reis

segunda-feira, 1 de abril de 2013

MORE BOOKS, LESS LOOKS

O Alê é uma dessas pessoas que eu tenho vontade de bater. Primeiro porque a gente só sente instintos assassinos com pessoas que a gente ama muito. Segundo porque ele é talentoso até dizer chega e não produz um décimo do que deveria. Alê é um dos escritores mais talentosos que já li. Só que ninguém nunca ouviu falar dele porque o moço não publica. Ele foi uma das minhas grandes inspirações a escrever. Desde a época da FAAP, a gente ficava pelos corredores, enfiados na casa um do outro e ele escrevia de um jeito que parecia tão fácil que resolvi também enfrentar o medo. Ele tinha um livro lindo que abandonou no meio. Na época resolvi que era daquele jeito que queria terminar meus dias: escrevendo. Alê é uma dessas forças da natureza, tudo com ele é intenso. Nós tivemos paus homéricos e passamos alguns anos sem nem olhar para cara um do outro. Ele mudou para Barcelona e durante minha mochilada passei alguns dias maravilhosos com ele. Andamos por toda cidade, tomamos muitos drinks, taças de champagne. Foi tudo como nos velhos tempos. Foi lá que disse para ele que não ia esperar o fim dos meus dias para escrever. Que estava mudando tudo na minha vida e que só queria fazer isso agora. Secretamente eu esperava que ele se juntasse a mim. Que não desperdiçasse todo aquele talento somente com emails fechados para amigos. No meu livro tenho diversas homenagens a ele. 
Então ontem recebo um email dele. Que surpresa descobrir que ele está saindo da ostra. Resolveu fazer um Tumblr, e como tudo que ele faz é genial. Ele escreve suas poesias na máquina de escrever e publica as fotos. Bem old school, como só os puristas podem ser. Ainda que de purista o Alê não tenha nada, mas aí é que está sua maior virtude. Sua nada convencional genialidade. Para variar saí inspirada. Vou passar a semana em antiquários buscando uma velha Remington para mim. 
O Tumblr do Alê chama "More books, less looks", e já está nos favoritos. 


segunda-feira, 18 de março de 2013

COMO ENTENDI QUE O APEGO É MINHA MAIOR FORÇA



Em dezembro o João Luiz Vieira me convidou para escrever para o Paupraqualquerobra.com.br. O site é um projeto antigo dele, um portal que fala sobre sexo, relacionamento, comportamento e direitos de gênero. A princípio fiquei com medo, porque tenho uma pegada bem careta e tradicional. Meu texto é de mulherzinha. Mas era exatamente isso que ele procurava, então lá fui eu, achando que seria bombardeada. Em três meses o site alcançou 50mil acessos diários. É um fenômeno. E minha coluna, que entra todos os sábados, é super bem recebida. Virou uma diversão procurar assuntos e temas para a coluna da semana. Fuço pela internet, converso com amigos, ouço histórias. Às vezes o tema cresce sozinho e a coluna repercuti muito bem. Outras nem tanto. Mas é assim mesmo que funciona. Estou me divertindo tanto com a nova temática que tenho feito muitas pesquisas bibliográficas. Uma vez por semana dou um pulo na livraria e ataco a sessão de livros de “autoajuda”. Ali a gente encontra 90% do que está errado nas expectativas de relacionamentos das pessoas. Ainda se acredita que um relacionamento interpessoal pode ser conduzido como receita de bolo. Faça isso, não faça aquilo. Sem levar minimamente em consideração as nuances de personalidade de cada pessoa, suas necessidades emocionais, sua base afetiva. Ler livros do naipe de “Como fisgar um homem em 50 lições”, ou “Tudo o que você queria saber sobre as mulheres (mas nunca teve coragem de perguntar)” me ajuda a entender e conversar na coluna sobre as angustias dos relacionamentos. No geral somo todas pessoas carentes, querendo encontrar o amor de alguma forma. Sempre acreditei nisso. Mas nem sempre essas referências bibliográfica são pataquadas caça-níqueis. Vez ou outra eu esbarro com um livro que realmente aborda questões pertinentes sobre relacionamentos e sobre a forma das pessoas se relacionarem. Semana passada esbarrei em um livro que me trouxe luz e clareza sobre as necessidades de apego (sobre as minhas inclusive): Apegados - Um Guia Prático e Agradável para Estabelecer Relacionamentos Românticos Recompensadores, de Amir Levine e Rachel S. F. Heller. A dupla de psicólogos pegou a teoria do apego desenvolvida nos anos 50 por John Bowlby e passou a aplicar estudos com esse foto em relacionamentos românticos. O resultado é fascinante, entendendo as maneiras de se relacionar de forma autêntica e colocando por terra todas as teorias de regras para estabelecimento de intimidade e comprometimento. Eu particularmente adorei o estudo, porque coloca por terra a eficiência dos joguinhos românticos. Odeio jogos e nunca fui praticante, mas já tive dúvidas sobre se não deveria praticá-los. Se eu não deveria me mostrar menos disponível, ou “me fazer de difícil”. Se eu não deveria evitar manifestar minhas necessidades emocionais, porque não queria ser considerada frágil. São crenças cada vez mais em voga na nossa sociedade, que exalta a autossuficiência como um grande mérito. E vai acabar levando uma geração inteira a envelhecer solitária e infeliz. Eu sempre achei que a força vem da união, da capacidade de se entregar, de se submeter, de criar intimidade e vínculos profundos com outra pessoa. A maior descoberta para mim, no entando, foi finalmente entender que, para algumas pessoas, isso é completamente impossível. Que a intimidade é violenta e sufocante para algumas pessoas e elas terão muitas dificuldades para realmente construir uma relação de cumplicidade e apoio mútuo, constantemente criando armadilhas inconscientes para afastar o outro. Daí vem a infindável gama de relações infelizes que vemos por aí, onde pessoas se sentem sufocadas, ou frustradas, inseguras, carentes. É tudo uma questão de saber entender a linguagem afetiva do outro e assumir se somos capazes de falar a mesma língua. 

sexta-feira, 1 de março de 2013

O QUE APRENDI QUANDO ESCREVI SOBRE O QUE APRENDI POR AÍ


Nasceu. Saiu semana passada meu primeiro texto em uma revista. O processo foi um tanto doloroso. Primeiro, porque não sou jornalista. E respeito muito a profissão de jornalista. Então sentia um medo danado de escrever algo que não estava a altura dos profissionais que geralmente escrevem nessa mídia. Segundo porque era sobre um tema pessoal. Verdade que só sei escrever sobre meu umbigo. Sou capaz de uma abertura em texto que não tenho na vida real. Mas uma coisa é me abrir aqui no meu blog, onde só meia dúzia de amigos entram de vez em quando. Outra coisa é se abrir com uma tiragem de mais de 50 mil exemplares. Ainda tenho muito medo de pagar mico. Não sou tão desprendida assim. Quando a Ana Holanda me pediu para escrever sobre minha experiência de voluntariado na Guatemala, levei um susto. Eu tenho muita sorte de trabalhar para a Vida Simples, e lógico que intimamente sonhava em escrever para a revista, mas até a coisa concreta... Aflora em mim toda minha insegurança de bichinho do mato. Pois é. Sou uma pessoa imperfeita. Tenho medos, angústias, e inseguranças. Hoje em dia não tenho mais problema nenhum em manifestá-los. O que eu fiz na verdade foi enrolar a Ana por três longos meses até sentar minha bunda no computador e escrever. Quando terminei, enviei o arquivo tremendo por email, acompanhando de uma carta explicativa pedindo “desculpas por qualquer coisa”. Para minha surpresa a Ana me ligou 15 minutos depois dizendo que tinha amado o texto e que estava emocionada. Emocionada é bom, embora eu sempre tenha receio de ficar piegas com essa do povo sair se emocionando com meus textos. Então veio a segunda parte mais difícil. Como sou prolixa e superlativa, meu texto tinha 20 mil toques. Eu tinha o desafio editorial de cortar pela metade. Uma semana de sofrimento e 8 mil toques a menos, devolvi o texto para a Ana e falei “fiz o que consegui, pode cortar o que quiser”. Primeira conquista que escrever um texto para um veículo de massa me trouxe: desapego! É bem difícil exercitar o desapego com trabalhos intelectuais, ainda mais com relatos pessoais. Nessa hora entrou minha voz interior pedindo a mim mesma para ter confiança nos outros. Foi. Ana me retornou com o texto editado algumas semanas depois, lindamente. Tanto que eu quase não percebia as edições. Não é a toa que ela tem o cargo que tem, e é tão boa no que faz. A Ana é, antes de tudo, uma pessoa gentil e generosa, e isso é muito bom para bichinhos ressabiados e ariscos como eu. Então o texto entrou na pauta da edição de março. Continuei com a minha vida. No fechamento, Ana estava de férias e era a Jeanne quem estava revisando a edição final. Ela me mandou um email com duas dúvidas sobre meu texto e sugeriu uma alteração. Alterações são coisas que me deixam alterada. De imediato não recebi muito bem, acho que nem fui muito legal com a coitada que só estava querendo me ajudar. Mas depois pensei com calma, lembrei de aprender a confiar. Lembrei que precisava aprender a desapegar, e afinal de contas, a Jeanne é jornalista, tem muito mais experiência do que eu, está naquela revista desde sempre. Se ela sugere uma alteração é óbvio que vai ficar melhor. No dia seguinte fui lá, mandar um email pedindo desculpas e dizendo que confiava nela. Eu acho importante às vezes nomearmos as coisas. Hoje em dia fica tudo subentendido. Dizemos em alto e bom som tudo que odiamos, mas achamos que emoticons dão conta dos sentimentos positivos. Eu sou a prova viva de que, por mais que a casca de fora aparente segurança e auto-confiança, no fundo precisamos ouvir coisas boas a nosso respeito. Dizer com todas as letras “confio em você”, “você é bom no que faz”, “sinto orgulho de você”, “eu te amo” pode mudar o dia de alguém. E Jeanne me respondeu para eu ficar tranquila, que a matéria ficaria legal. Ela tinha razão. Ficou. Ainda ganhei de presente algumas ilustrações lindas da Lydia Megune e voilá! Estreei lindamente com um texto para revista. Melhor, ganhei uma consciência mais completa de como funcionam esses veículos de massa. Como o resultado é sempre um esforço entre escritores desapegados e editores generosos. Certamente se eu fosse mais arrogante e cabeça dura do que sou, não teria ficado tão perfeita. Então é isso. Estou pimpona. Estou aliviada de ter dado certo. Eu sei que para muitas pessoas isso nem é grande coisa, e não merece atenção de grande feito. Mas, dentro na minha nova proposta de ser generosa comigo mesma, eu comemoro a superação das minhas fraquezas. O entendimento de que, mesmo tão avessa e imperfeita, ainda dá para fazer alguma coisa certa. 

PS.: se você é um dos meus “meia dúzia” de amigos que lê esse blog e ainda não foi comprar a revista para ler, lembre-se que também faz parte do meu pacote de imperfeições a vingança e o dramalhão! :-P

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

ZOÉ VALDÉS



Mais uma coisa sobre Cuba. Quando li "Trilogia Suja de Havana" do Pedro Juán Gutierrez fiquei apaixonada por Cuba, pela literatura cubana e por aquele careca de charuto na boca e cara de mau. Inclusive um dos meus planos diabólicos era perseguir o escritor pelas ruas de Havana. Não aconteceu. Ano passado, na FLIP, assisti a mesa em que Zoé Valdés participou com o tema literatura no exílio. Zoé é uma escritora cubana, exilada em Paris. Já achei a garota esperta de imediato. Se é para se exilar, nada de ir para Miami, a cidade mais cafona do mundo. Exile-se em Paris, claro! Comprei o livro dela e deixei procrastinando na prateleira. Quando estava arrumando a mala, pensando qual seria a literatura da viagem, puxei o exemplar de "O Todo Cotidiano".  Na verdade é uma edição de dois livros de Zoé: "O nada cotidiano" de 1995, que narra sua infância e adolescência na ilha; e outro mais recente, de 2010, "O tudo cotidiano", que fala de seu exílio em Paris. Achei que seria uma leitura adequada nesse momento de suposta transição da ilha, ler dois relatos de Cubas diferentes. Acho que eu não podia ter feito escolha melhor de literatura. Zoé é uma escritora punk! Se eu achava Pedro Juán pauleira, nada como ver alguém de saias falando sobre Cuba. Sei que sou suspeita para defender escritoras mulheres, mas acho que quanto mais dolorosa é uma realidade, mais pungente fica a narrativa feita por mãos femininas. Mulheres possuem outra maneira de viver a dor, talvez porque é tão inerente a nossa vida. A fragilidade do sexo, que pode nos tornar cruéis e inocentes ao mesmo tempo. Independente de qualquer sentimento que você possa ter pela ilha, vale a pena ler os livros. Os dois. Um seguido do outro. 


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O MOMENTO PERFEITO


Hoje eu não queria levantar. Não estava em um dia perfeita. Estava sonhando com pessoas que me deixam intrigada e curiosa, e tinha dormido pouco. Fiquei fumando e tomando vinho até tarde com a Keka no Skype. Meu olho estava inchado, parecendo que tinha areia, da alergia à gata. O dia escuro e cinza, e eu só pensava se eu poderia ir à reunião na editora de tarde usando um moleton. Então eu desci, troquei amenidades com a empregada. Tomei café com leite, a manteiga estava dura na geladeira. Não dava para passar no pão. Fiz um ovo quente que esqueci no fogo e virou ovo cozido. Abri o computador, sentei no sofá. Olhei os emails, respondi perguntas. Assisti ao jornal na TV, mais sobre a tragédia do incêndio e sobre a mulher que esquartejou o marido. Contei para a Jô, minha empregada, sobre o meu próprio incêndio. Depois levantei, briguei com a gata. Abri uma caixa de cápsulas de Nespresso. Enviei emails. Corrigi alguns erros. Fiquei triste por ter errado. Sentei para escrever. Parei no meio. Achei que estava ruim. Fiz um chá. Aqueci o mel para ele descristalizar. Tirei a gata de cima da alface que estava de molho. Voltei a escrever. A empregada ligou o aspirador de pó. Briguei com a gata novamente. Coloquei de castigo na varanda. Desliguei o telefone. Escrevi. Liberei a gata do castigo. Tirei a gata novamente de cima da alface. Voltei a gata para o castigo. Subi para buscar um livro. Voltei a escrever. Tomei chá. Subi para buscar o dicionário analógico. Acabei com uma caixinha de lenços. Tomei um Allegra. Bufei por não achar uma palavra. Reli o texto. Achei ruim. Escrevi XXX no lugar da palavra que eu não encontrava. Me distraí lendo termos no dicionário. Chequei a grafia de “abdômen”. Escrevi. Escrevi. O chá esfriou. Escrevi. Li o texto em voz alta. Li outra vez. Fechei a janela que fazia corrente de ar. Encontrei a palavra. Substituí o XXX. Li o texto mais uma vez. Acho que ficou ok. Soltei a gata do castigo. Pinguei colírio. Me despedi da Jô. Desisti de ir ao ballet para continuar escrevendo. Abri outra caixa de lenço. Reli o texto. Salvei em doc. Enviei. Esquentei mais chá. Sentei. Então, pela primeira vez hoje parei. Meu computador aberto, o chá ao meu lado. A gata dormindo (finalmente quieta) no meu colo. A casa em silêncio. Os passarinhos cantando na árvore do vizinho. E é isso. O momento perfeito. Eu, no meu dia de não me sentir perfeita, vivendo o momento perfeito. O momento do dia pelo qual eu não sucumbi no edredon de manhã. Aquele momento pelo qual nos levantamos. A sensação de terminar um texto, sentar com uma xícara de chá e a gata no colo. Olhar o computador e abrir mais uma folha em branco. Felicidade para mim são várias folhas em branco. Escrevi.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

1001 maneiras diferentes de cozinhar melanzane


Acho que viajei mais nesses últimos 3 anos do que na minha vida inteira. É legal sim. É um puta privilégio. Um pouco cansativo também. Na minha última viagem eu ficava me perguntando como consegui ficar aquele tempo todo na mochila em 2010. Sem dúvida que os amigos que me abrigaram por jornadas mais longas no meio do caminho foram essenciais. Por mais maravilhoso que seja viajar, se você não tiver a mínima referência de casa, vai enlouquecer. De verdade. Trombei com vários que estavam bem fora da casinha. Cruzaram a linha. Ficaram tanto tempo fora que talvez nunca mais sejam capazes de voltar. Eles possuem uma certa ânsia nos olhos, e ficavam largados pelos hosteis. Estavam 2-3 anos fora de casa. Já não sabem mais nem definir suas nacionalidades. É muito sedutora a vida na mochila. Ela te chama, te clama. Você quer muito ir, mas depois de um tempo dá medo de não voltar. Eu sempre fico maquinando maneiras de descobrir o meio termo. Sempre disse que quero criar meus filhos na mochila, trocando fralda em aeroporto. Já não tenho mais essa ilusão. Pela simples razão de que não acredito mais ser possível encontrar alguém com o mesmo pique. Alguém que goste da mochila, sem ter dreads e ser hippie; ou que ame a cidade e todas as frescuras que eu gosto nela, sem ser um coxinha empertigado. De qualquer forma, não vem ao caso. Tirei umas férias esse mês e, embora em um primeiro momento meu impulso tenha sido de narrar a viagem como sempre faço por aqui, dessa vez senti que precisava de fato ficar em silêncio. Tenho sentido a vida me fechando tantas portas, e eu precisava ficar quietinha para poder ouvir onde as outras estavam se abrindo. Foi ótimo. Achei foco. Achei o que eu queria no meio da balburdia que eu sou. Voltei com o olho na bola. Decidida também a cortar o cabelo e fazer uma tatuagem. É. Viajar pode ser perigoso também. Dessa vez dei uma passada em Portugal, só para ver pessoas que eu amo e que não posso ver todo dia porque o mundo é muito grande e coloca pedaços da minha alma espalhados entre oceanos. Talvez por isso eu sinto que preciso sempre partir. Depois eu e a Keka embarcamos para a Itália. Primeiro porque ela não conhecia. Segundo porque em Roma foi um dos lugares onde eu fui mais feliz. E é sempre legal voltar para lugares onde se é feliz. O mais gostoso é descobrir que aquele lugar te desperta ainda mais amor do que você tinha pensado. De uma forma que eu só conseguia suspirar pontualmente ao longo do dia “Eu amo Roma!”. Sim, e Roma é amor ao contrário. Ela estava lá, do jeitinho que eu lembrava. Com o metrô caótico, as ruas cheias de turistas. O calor escaldante, os nasonos jorrando água. Os melhores gelatos do mundo. Depois descemos para Nápolis, que foi bem decepcionante. Feia, suja, perigosa. Totalmente dispensável. E de lá, Erna nos encontrou e embarcamos em um Panda pela Costianera Amalfitana até Réggio di Calábria. Foi lindo. Foi como viver em um filme. Aquela costa deslumbrante, de mar azul e seixos quentes. A água salgada e transparente. Os dias intermináveis à 40o e spritz ao final da tarde com aperitivos. Vilas medievais. Vielas que nos imploravam por fotos. Na Calábria encontramos Schilla. Uma vilazinha de pescadores que foi paixão imediata das três. Víamos o Sol se pondo quase na Sicília, e jantamos sobre pallets com uma lua cheia gigante refletida na água. O melhor de ter feito tudo isso, foi ter feito sem a neurose de mandar emails, trabalhar, verificar mídias sociais, falar em skype. Sem nenhuma interferência que me tirasse da viagem. Apesar de ter viajado tanto ultimamente sempre estou com interferências me deixando incompleta na viagem. Isso devo muito à Itália. O italiano vive o momento. Ele é muito inteiro no que ele faz. Se ama, ama. Se chora, chora. Se está vivendo aquele momento, ele vive o momento por inteiro. Acho que a vida cosmopolita nos impele a ser multitarefados demais. Não basta tirar férias, é preciso atualizar status de FB, twittar a previsão do tempo, mandar email pro povo do escritório. Eu resolvi assumir o italian way of life e quando chegamos em Schilla eu já tinha certeza de que, embora eu seja feliz na minha vida e goste das coisas que eu faço, eu não estava vivendo a vida que amo. Porque existe uma diferença entre gostar e amar. Sim, eu gosto do meu trabalho. Não, não é a coisa que mais amo. Acho que se não tivesse feito essa descoberta tão óbvia até Schilla, não teria tido uma experiência tão formidável na Sicília que estava para vir. Erna se despediu em Catânia. Eu e Keka continuamos na Sicília, seguimos para as Ilhas Eólicas e depois encontramos Fran em Palermo para seguir para Trapani e as Ilhas Égadi. Talvez seja a baixa expectativa, já que eu esperava da Sicília uma paisagem desgastada e maltratada. Talvez seja porque aquelas ilhas são mágicas mesmo. Mas eu me rendi, me bronzeei. Descobri mil maneiras diferentes de comer melanzane (a nossa berijela). Me fartei em comidas, cheiros, vinhos. Tudo encharcado de azeite (e que azeite!), de molho de tomate tão fresco e tão doce. Tardes engolindo azeitonas. Longas caminhadas, mergulhos entre água-vivas. Desencanei do peso, das manchas na pele. Das roupas sujas de tanto tempo de mochila. Tem algo dentro de mim que é italiano. Tem algo que mora ali, naquele mar mediterrâneo. Voltei mais cedo. Quando se resolve o que quer da vida, não temos muito mais vontade de enrolar. Naquele mar resolvi o conflito do meu livro, reconquistei minha vontade de me apaixonar. Resolvi também a trama para mais dois livros e inspiração para um outro. Assim, em algumas semana, quatro livros. Quatro tatuagens. Eu nunca comprava berinjela em casa. Nunca sabia o que fazer com ela. Essa semana fui à quitanda. Na geladeira tem dois tipos diferentes de berinjela. Manjericão, limão siciliano, abobrinha, cogumelos. Só o tomate que não deu certo. Tava feio e tão caro! Eu, particularmente, gosto da vida com sabores frescos. Muitas vezes é só descobrir o que fazer com os ingredientes. 

(PS.: eu ainda vou voltar para a Sicília, aprender a cozinhar e escrever um livro com esse nome: “1001 maneiras diferentes de cozinhar melanzane”)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

BACK FROM PARATY


O último dia de Flip foi mais reflexivo. Eu troquei a mesa do Suketu Mehta para ir à coletiva do Ian McEwan. Depois me arrependi. Não porque pela coletiva, que foi incrível. Mas por não poder estar em dois lugares ao mesmo tempo. E a mesa do Ian estava LO-TA-DA! Super concorrida, tava até calor lá dentro. Junto dele estava Jennifer Egan, uma das poucas mulheres de uma versão cheia de cromossomos Y da FLIP. Acho que foi a melhor mesa de todas. Os dois muito abertos, muito simples, e muito generosos com a plateia. Sem ficar regulando. Deram o que puderam no pouco mais de uma hora. É bom para refletir. E foi exatamente o que eu resolvi fazer. Resolvi sumir por um dia e refletir sobre o que eu quero, minha falta de foco e a habilidade de conseguir isso. Fiquei algum tempo andando pela cidade, que estava cheia, barulhenta e insuportável. Impossível tirar fotos, flanar, simplesmente parar em uma esquina e assistir a vida, porque logo alguém tropeçava no seu pé, ou dava um trombão no seu ombro. A contemplação não é muito amiga de pequenas cidades históricas super povoadas e ruas irregulares de pedras. Então resolvi experimentar o restaurante thailandês que eu tinha passado em frente em uma das andanças (e tinha um garçom tatuado gatinho). Como tudo na cidade estava caótico, cheio e insuportável, eu fiquei meio esquecida em um canto, em uma mesa sozinha, e tive o tempo de silêncio e contemplação que eu estava precisando. Li metade de um livro. Fiquei pensando nas escolhas e no comportamento que as pessoas acabam seguindo na vida. Quanto das nossas escolhas são nossas mesmo, ou são projeções do que consideramos ser o ideal para nós? Parei um minuto e percebi que 90% do meu dia é dedicado a coisas que não escolhi fazer. São coisas que fui fazendo e acabaram tomando conta da minha vida. Por isso tanto sofrimento para terminar meu livro. O coitado do livro não tem culpa. Fiz uma longa refeição pensando em algumas coisas que preciso decidir definitivamente. A caipirinha ajudou, confesso. Então voltei para a tenda para pegar a mesa com Zoé Valdés e Dany Laferrière. Eu queria muito ouvir a Zoé, porque adoro os cubanos e adoro qualquer livro que fale sobre a bizarra vida que resultou após o embargo. Acho mesmo que o mundo um dia vá virar uma grande Cuba. Mas isso é só minha opinião. O Dany Laferrière eu só tinha visto o livro na livraria (e largado na estante), mas não tinha ouvido falar nada dele. Achei que seria interessante um painel com dois exilados de países latinos, mas detestei o haitiano. Egocêntrico, narcisista, machista. Típico homem que foi criado rodeado por mulheres, e acha que elas devem alguma coisa a ele. Ok, que ele fez algumas observações interessantes (e todo mundo sabe que narcisistas podem ser até que bem charmosos quando querem), mas não existe milagre nesse mundo que me fizesse ler um livro desse cara. O problema do mundo é exatamente esse. Tendemos a perdoar um homem por qualquer canalhice desde que ele escreva/ toque/ componha/ atue ou faça qualquer coisa considerada descolada bem. E isso me leva a uma nova reflexão de vida. São mais de 3 décadas convivendo com narcisistas (não admira eu ter me tornado uma!). Chega né!? Na verdade no final do domingo eu tinha a sensação de ter tido muito. Muita informação, muita reflexão, muitas decisões, e definitivamente, muitas topadas nas pedras de Paraty. Tudo o que eu queria era sair logo de lá e fazer coisas práticas. Por mais que se discuta, que se fale, pense, especule, na prática o que precisa ser feito é sentar a bunda na cadeira e escrever. Ação. A vida é verbo. Eu ainda tenho uma viagem agendada logo mais. Vai ser minha despedida temporária. Chega de rua, chega de cursos, chega de viagens, expedições malucas. Quando 90% do tempo você está fazendo coisas por fazer, falta verbo. Falta ação.

sábado, 7 de julho de 2012

DIÁRIO DA FLIP - LOUCOS EM PARATY



Só hoje, sábado, é que consegui assentar e organizar um pouco mais o tempo. Os outros dias foram uma loucura de informações, e correria. Muita coisa para assimilar e a sensação constante de não estar realmente inteira em nada do que estava fazendo. A internet falha, os restaurantes lotados. O sono desgraçado que me atacava no meio da tarde. Hoje me sinto mais serena pela primeira vez. Ontem foi maratona. Trabalho, fotos pela rua, mesas interessantes. Teve Shakespeare ao meio-dia, disputadíssima. Depois Teju Cole e a única mulher que vi até agora, Paloma Vidal. Uma mesa que acabou prejudicada pela arrogância e falta de tato do mediador João Paulo Cuenca. Unanimidade nos comentários pós-mesa: “Pior do que o Jô entrevistando.” De onde eu venho isso não é elogio. À noite uma das grandes atrações que eu aguardava ansiosa. Jonathan Franzen em bate-papo com Angél Gurría-Quintana. No surto psicótico que eu tive na Livraria da Vila na quinta peguei os livros do Franzen umas 3 vezes na mão, mas devolvi sem a mínima vontade de ler. Imaginei um cara lento, prolixo e chato. Fui totalmente surpreendida com a conversa dele. Primeiro que o cara já entrou no palco correndo, meio como participante de programa de auditório. Fiquei imaginando que ele acenaria para a plateia e protagonizaria provas à lá Domingão do Faustão. Bizarro. Aliás, bizarro é a melhor definição para o cara. Um ser excêntrico que alternava períodos de silêncio viajandão, com um humor e auto-crítica, e discurso de raiva contra republicanos e o governo Bush. De longe a mesa mais interessante até agora pela peculiaridade e sair totalmente do lugar comum. Sim, o cara é louco. Totalmente lelé da cuca. Dizem pelas esquinas de Paraty que ele pediu para se hospedar sozinho em Ubatuba, longe do burburinho, e que é observador de pássaros e tem feito expedições no meio do mato. Eu posso bem imaginar o cara andando e falando sozinho pelo quarto, chacoalhando os punhos pelo ar e bradando frases de ordem revolucionária. “Die Bush, die!”. Fiquei apaixonada. Se existe algo que faz um escritor interessante é a completa falta de tédio de sua personalidade. Hoje, todavia, é o meu dia mais aguardado. Daqui a pouco tem a mesa com Ian McEwan e Jennifer Egan. Disputada à foice. Eu aproveitei os privilégios da minha credencial de imprensa hoje cedo e fui à coletiva de imprensa. Eu até tento ser blasè, mas eis uma coisa que não combina com meu sangue latino. Quando vi a cabecinha branca e inglesa do Ian, quase dei gritinhos. Me encostei na parede e assisti àquele senhor que escreve livros tão lindos e tão tristes falar com uma lucidez fenomenal sobre sua literatura, seus livros, e a maneira prática e límpida que encara o ofício. Por mais interessante que seja a loucura, definitivamente a solidez e a concretude da lucidez é furiosa. Tão oposto ao outro maluco americano. Muito curioso presenciar os dois em seguida. Dois extremos de um mesmo ofício. Ao mesmo tempo dois países que já experimentaram dias melhores. Não consegui evitar associar a tranquilidade e elegância de Ian com a sabedoria de um país que já foi um império e hoje sobrevive exatamente em saber enxergar os sinais dos tempos e se posicionar diplomaticamente no mundo. Enquanto o outro ainda carrega a angústia e a negação do que não considera ideal, brada revoltas, se debate, infla o ego acima da realidade prática cotidiana. Ainda que genial. Definitivamente, os EUA estão fora da casinha. Não sei se é preciso envelhecer, ou amadurecer. Acabei ficando com a sensação de que posso até ler Franzen, voltar à livraria e comprar seu livro. Mas McEwan é aquele que se perpetua, aquele que vamos ler todos os lançamentos, e continuar lendo depois de anos. Diplomaticamente.