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sábado, 21 de fevereiro de 2015

FECHANDO SAN ANDRES

Eu queria ter escrito antes, mas fiquei tão envolvida com San Andres que a última coisa que pensei foi em atualizar o blog. Depois cheguei em Cartagena onde encontrei uma amiga, e é mais difícil conseguir ter tempo para ficar sozinha e escrever quando se está viajando com alguém. Senti falta. 


A entrada da Pousada Playa Tranquilo, de Mo e Ray, e a vista feia com a qual me acostumei.


Mas antes de falar sobre a linda Cartagena de Índias, vou fechar San Andres. Minha ideia a princípio era mergulhar full-time no meu tempo na ilha. Não foi full-time, mas me deu a chance de explorar outras coisas e ampliar minha percepção. Uma coisa que não considerei foi a condição do mar, que esteve bem agitado todos os dias que passei em San Andres. Por causa dele tivemos um dia de mergulho perdido, porque nenhuma embarcação saiu. Até os tours para Johnny Cay (uma ilhota que fica na ponta norte da ilha, e é mega turística) foram cancelados. Com o mar revolto também ficou impossível fazer mergulho noturno. A lei na ilha não permite pequenas embarcações circulando à noite, então os mergulhos noturnos precisam sair pela costa. Com o mar agitado, ninguém era louco de pular com equipamento na água, e ser jogado contra as pedras em seguida. Sendo assim, tive apenas os mergulhos diurnos, mas que fizeram muito bem o seu papel. 

Entre cardumes de peixe em frenesi alimentar, estátua de Posseidon no fundo do mar, e um super mergulho profundo em um paredão - com passeio entre fendas nas pedras e tudo - os mergulhos que fiz foram perfeitos. Muita vida, água o tempo todo a 27º e visibilidade a perder de vista sempre. São condições que deixam qualquer mergulho confortável. Fiz muitos vídeos dos mergulhos e passeando pela ilha. Uma das propostas para 2015 é exatamente organizar e editar esses vídeos. Adoro filmar embaixo d’água, e estou até criando um gosto por falar com a câmera. A GoPro é o brinquedinho mais divertido que adquiri no ano passado. Estou passando por uma fase de amor completo pela mini-câmera. 

Mas entre um mergulho e outro, eu aproveitei cada segundo na ilha. A bicicleta motorizada foi a melhor ideia que aceitei. Pedalei horrores pela ilha toda. Pendurava a máquina fotográfica no pescoço e saía pela cidade com meu chapéu na cabeça. Pedalar pela ilha foi algo que me deixou tão, mas tão feliz! Sabe quando você pensa em se conter, mas depois se dá conta que não tem motivo para deixar de sorrir e se entrega ao sorriso rasgado no rosto? Eu estava exatamente assim. 

Ao final do 4º dia minhas pernas estavam exaustas. Começou a refletir o esforço de pedalar uns 30Km por dia. Ao final do 4º dia também o motor da bike morreu. Ainda que eu estivesse mais pedalando do que usando a função “mobilete” da bike, ficar sem o motor pesou. Cansada, embaixo de um Sol fenomenal, usar o motor em trechos de subida ou de muita brisa, era uma força danada. Sem minha bike-mobilete, tive de me render aos carrinhos de golfe. Até são divertidos quando se pega o jeito. Fiz vários filmes mostrando a ilha, conversando sobre o lugar em que estava. 

Outra coisa especial foi a companhia de Ray e Mo. Ray foi minha BFF em San Andres. Passamos tardes conversando e tomando cocktails na areia da praia, rolamos de rir pela carretera com o carrinho de golfe, e criamos o hábito de acordar pela manhã e procurar uma a outra pra combinarmos algo. 

A melhor coisa de não criar expectativas é que fica mais fácil aceitar tudo o que a vida mandar como novidade. Por isso acabei criando uma relação especial com San Andres, e uma experiência infinitamente melhor do que se tivesse tentado controlar cada segundo da minha viagem. 


Como quando a vida surpreende, ela é a que mais surpreende, encerrei meus dias em San Andres com um jantar delicioso e extravagante, com direito a pratos de frutos do mar,  cava rosé e raias e tubarões nadando na areia embaixo da varanda onde estávamos. Ganhei até carona até o aeroporto! Essas coisas que amigos fazem por amigos. Saí de San Andres tão satisfeita, tão realizada. Já acostumada. Com uma certeza bem clara: esse é um lugar que eu vou voltar. 

sábado, 14 de fevereiro de 2015

50 TONS DE VERDE


San Andres não cansa de me surpreender. Pedalei a ilha inteira e, mesmo a bike que aluguei sendo motorizada, tenho usado o pedal mesmo. A bike motorizada é um barato. Quando pego um trecho com muito vento, e fica difícil pedalar, é só mudar uma chave e a bike se transforma em uma mobilete. Bem divertido. Em três horas pedalando, rodei a ilha inteira. Tem uma estrada que faz a volta completa na ilha. Pedalei só para ver onde ia dar. As paisagens são inacreditáveis. Um verdadeiro clichê de tudo o que se imagina de Caribe, ilhas paradisíacas e lugares exóticos com areia branca e mar transparente. 

O mar, aliás, é uma dessas coisas que a gente demora para entender. Ele se desdobra em dezenas de tons diferentes de azul e verde. Não é brincadeira. Parece pintado à mão. Por isso o mergulho é algo ainda mais especial. Água quente, tão quente que tenho mergulhado de biquini apenas. Muita vida. Visibilidade à perder de vista. Só o vento que atrapalha. Mar batido, a gente enjoa muito no barco. Do jeito que estava hoje não dava nem para tentar entrar pela praia. E mesmo na embarcação, uma correnteza forte na superfície, exigia muita atenção para entrar e sair da água. Ainda assim, um pequeno detalhe para os dois mergulhos maravilhosos que fiz hoje cedo. Cardumes lindos, uma tartaruga que dava até para pegar no colo de tão pacífica (mas não pode! Colocar a mão, ainda mais em tartaruga que é super delicada, destrói o ambiente e pode matar os bichinhos.), e vi a maior moréia da minha vida. Uma verde enorme, fora da toca, que passou nadando entre a gente como se não estivesse nem aí para a nossa presença. Tirei fotos como uma louca com a GoPro, mas estava no contraluz e ficaram um pouco avermelhadas por causa do filtro. Ainda assim, dá para ver aquela serpente gigante entre os corais. Linda! 

Tenho feito os mergulhos com Mo, o dono da pousada, e a namorada dele, Rain. Apesar do nome super hippie, Rain até que é normal. Uma americana que estava passando pela ilha no ano passado, se apaixonou e mudou a vida por causa disso. Ela tem minha idade, só que é a cara da Elle Macpherson. Acabamos ficando amigas, e depois do mergulho e da siesta, fomos os três tomar uns “coco locos”  no centro. (Coco Loco é o drink típico por aqui. Consiste em basicamente colocar tudo o que tiver na prateleira de bebidas dentro de um liquidificador, acrescentar leite de coco, lícor de cereja e bater. Delicioso e mortal!). Sentamos em um bar na praia e ficamos assistindo um dos 3 casamentos que estavam montados na areia. Cena de cinema, aquelas cadeiras, a tenda e o mar coalhado de verde ao fundo. Chorei como uma boba!

Para fechar a noite, Rain me arrastou para um girls night out de Valentine’s Day. Mo estava trabalhando e ela ia sair com algumas amigas para um cinema e drinks. A ilha é bem calma, sem grande agitos. Existem duas baladas, que ficam na mesma rua, uma de frente para a outra. Todo o agito, mesmo em alta temporada, parece o de uma quinta-feira  em cidade de interior paulista. Mesmo eu não sendo uma entusiasta de baladas e DJs, gosto da ideia de cinema, drinks e girls night out. 

Mais uma surpresa? A ilha conta com dois cinemas! O que fomos ficava no 8º andar de um hotel. Sério. E uma garçonete passou o filme inteiro trazendo nachos, sanduiches e hamburgueres para as pessoas na plateia, como se estivéssmos em um drive-in. Lá pelas tantas os lugares estavam lotados, e a atendente entrou com algumas cadeiras de plástico e colocou na frente da tela para acomodar os retardatários. Muito barulho, muita conversa e interatividade com o que se passava na tela. 

O filme? Bem, o que se pode ver para um girls night out em uma ilha no Caribe? “50 Tons de Cinza” em espanhol. Não tinha lido o livro, mas pelo enredo fiquei surpresa mais uma vez. Não apenas pelo livro ter feito tanto sucesso, mas por terem resolvido fazer um filme dessa história. Em uma palavra? Vanilla. 

Com a gente, um grupo de 6 mulheres locais, cada uma de um estilo diferente da outra. A melhor de todas, e aniversariante da noite, era Janice. Uma colombiana grande. Não gorda - pelo contrário, ela tinha um super corpo - mas grande. Bem perua. Estava com um aplique com mechas platinadas no cabelo, usava um top bufante, com a barriga a mostra, os botões de cima abertos e um shorts todo de paetês em cima de saltos meia-pata azul cerúlio. Altíssimos. Exageradamente bronzeada e maquiada. Devia estar fazendo uns 48-50 anos. Não perguntei. Se a suspeita é dessa idade, nunca é uma boa ideia perguntar. 

Depois do filme, a caminho do clube no carro de Janice, ela falava com um inglês carregado sobre o filme que vimos. 
“Como é que alguém diz que esse é o melhor filme já feito na história? Esse não é o melhor filme já feito na história. O melhor filme é ‘Frozen’. Todo mundo sabe disso. Ou ‘Encontrando Nemo’...”
Rain corrigiu: “Procurando Nemo”
“...Isso! “Procurando Nemo”. Esse é um bom filme. Esse é um filme bem feito. Eu gosto do mar, então gostei do Nemo. Agora esse filme aí...”

Então entendi um pouco mais sobre essa ilha. Um lugar onde as pessoas estão vivendo. Sem drama, sem loucuras. Apenas construindo suas vidas da melhor forma que podem. Se relacionam com pessoas que não são iguais a elas, porque não estão procurando uma segregação em nichos, grupos, aptdições. Estão pouco se lixando para os parâmetros adequados de moda, para as opiniões da crítica especializada em cinema, para as pequenas ambições. 


Acho que quando você tem um mar com tantos tons de verde todos os dias na sua frente, não faz sentido mesmo seguir o senso comum de um universo que cada vez mais se apoia em tons de cinza. Sabe de uma coisa? Eu também gosto de mar, e pensando bem... Nemo é de fato um grande filme. ;-)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

UM CARNAVAL NÃO PLANEJADO


Há alguns meses eu fui para o Peru fazer uma viagem que era um dos sonhos da minha vida. Foi muito planejada. Daquelas viagens que o guia fica até desfolhado de tanto ser manuseado. Escrevi aqui sobre como arrumar a mochila, organizar reservas. Tudo perfeito, e que acabou sendo uma das melhores da minha vida. Como boa virginiana, sou uma entusiasta da organização. 

Agora no Carnaval resolvi fazer algo diferente. Eu moro no meio da concentração de metade dos blocos de rua de São Paulo. Três anos atrás minha casa era um oásis de paz e tranquilidade no feriado. Usava o Carnaval para assistir séries no sofá, gabaritar os filmes do Oscar no cinema. Era uma época em que Carnaval era sinônimo de cidade vazia, sossego e silêncio. Isso mudou. Com o resgate do carnaval de rua em SP, ficou impossível ficar na cidade, morando onde eu moro. As ruas travam, o barulho é infernal e non-stop, e episódios de vandalismo acontecem em toda vizinhança. A solução tem sido fazer as malas e sumir.

Como se isso fosse um castigo para mim!

Eu queria uma viagem que cumprisse dois propósitos: fosse um destino de mergulho e me desse uma nova figurinha na coleção de carimbos do passaporte. Claro, que também coubesse no meu bolso!

Depois de pesquisar pacotes, conversar com amigos, resolvi que iria para San Andres. Vi um pacote legal de mergulho para ilha colombiana que tem caído cada dia mais no gosto dos brasileiros. Mas o pacote fazia apenas San Andres. Como era minha primeira vez na Colombia, não queria deixar de conhecer Cartagena de las Indias também. A cidade histórica onde Gabo morava e inspirou tantos cenários de seu realismo fantástico. Negociei, conversei. Decidi que ia fazer a viagem self-tailored. Convidei alguns amigos para embarcar no programa, minha dupla de Bonaire no ano passado... Então o dólar disparou. 

Os amigos desistiram da viagem, a dupla desapareceu, o preço da passagem dobrou, e eu já estava fazendo estoque de água e comida em casa para sobreviver a um carnaval ilhada no meu apartamento, com risco de ser atacada pelo elenco de Walking Dead. Quando minha teimosia habitual falou: “Vai, Adriana! Vai de qualquer jeito!”. Liguei para minha agente de viagens que conseguiu uma passagem com o preço antigo saindo por Viracopos, algumas escalas e emiti na hora. 

Depois disso resolvi que ia deixar a viagem acontecer como ela quisesse. Não comprei um guia da Colômbia, não li nada a respeito dos destinos. Reservei um hotel que achei simpático longe do agito do centro da ilha, outro em Cartagena, peguei meu cartão de crédito, meu passaporte, joguei algumas roupas dentro da mala com o equipamento e entrei no avião sem nenhuma expectativa do que pudesse acontecer. 

Acredito que a vida é generosa quando confiamos nela. Ela nos abre oportunidades e fica feliz em poder nos surpreender. Logo de cara minha experiência tem sido fantástica. Cheguei ontem em San Andres com minha grande mala de equipamentos de mergulho, e descobri que o hotel que reservei tem uma loja de mergulho integrada. Ou seja: as operações de mergulho vão sair do meu quintal! Super! Outra surpresa? Um dos melhores pontos de mergulho da ilha, com um naufrágio, fica do outro lado da rua. Vou sair equipada do quarto e ir andando para o mar. Super 2!

O hotel é uma grande casa, com um jardim gigantesco. Uma piscina nos fundos cercada por um bungalô com redes e imagens de Buda. Os chuveiros ficam ao lado da casa, ao ar livre, em uma construção sem teto, cheia de pedras. Meu quarto tem uma grande porta de vidro que dá para uma varanda, onde estou escrevendo agora e olhando o mar. 

Aluguei uma bicicleta ontem. A ilha toda pode ser explorada pedalando. Os turistas alugam carrinhos de golfe que se vê para todos os lados. Eu preferi a ideia de pedalar acenando para os locais em suas casas, sentindo o vento dobrar os coqueiros e ouvindo as ondas quebrando nas pedras ao meu lado. Ontem, no final da tarde, estava pedalando até um restaurante cerca de 2Km daqui e o Sol se punha na baía a minha frente. Era como estar em um filme. Como aquelas cenas em que a personagem resolve largar tudo e buscar uma vida simples e rústica em algum lugar exótico, e de repente, a vida dá um jeito de lhe maravilhar. Um daqueles raros momentos em que a gente se sente tão viva que tudo faz sentido. 

Nem sempre viagens são feitas desses momentos de comunhão e perfeição. Não é o tempo todo que as grandes experiências acontecem. Mas é só viajando, é só quando saímos da zona de conforto, que o extraordinário acontece. Eu viajo para me maravilhar. É uma caça ao tesouro. Saio para a vida disponível para o que ela pode oferecer. 


E nada disso foi planejado. :-)


O Por do Sol que eu ganhei de presente na minha chegada à San Andres.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A TRILHA INCA


Eu fiz. Eu consegui. Eu sobrevivi à Trilha Inca. Acho “sobreviver” um verbo adequado para a experiência. Não foi nenhum passeio no shopping. A trilha é puxada e exige muito, não apenas fisicamente, mas principalmente psicológicamente. Vale à pena? Muito! Muito mesmo! É uma peregrinação transformadora, e por mais que eu tivesse me preparado anos para fazer esse caminho, nada me preparou para o que ele realmente é. 

Ainda estou assimilando a experiência. Cheguei ontem à noite de Machu Picchu e hoje cedinho entrei em um ônibus que ficou 10 horas na estrada até chegar em Puno. Estou mancando e não consigo descer escadas sem parecer que fui atropelada. Foram 4 dias, mas a sensação que eu tenho é de uma vida inteira. Impossível passar por isso sem sair transformado. 

Em síntese: São 4 dias de trilha. Os Incas utilizavam várias trilhas na região, mas essa é considerada a mais sagrada, e é a única que chega diretamente em Machu Picchu. Por isso recebe o nome de Trilha Real (ou Royal Trail). Ao longo da trilha vamos cruzando vilarejos e ruínas de templos estrategicamente construídos e que comprovam a teoria de que o caminho era usado como uma forma de peregrinação religiosa até Machu Picchu. E peregrinação nesse sentido tem tudo a ver com merecimento. A trilha é uma prova de fogo. São 43Km, repleto de escadarias de pedras irregulares e altitudes que variam dos 2600m aos 4215m. A trilha é bem controlada, e por isso também é segura. Cada dia de caminhada passa por um posto de controle, onde eles checam o nome e passaporte de cada pessoa que foi dado no momento da reserva (no meu caso, em abril desse ano). São permitidas apenas 500 pessoas na trilha por dia. Isso incluindo carregadores e guias. Para vocês terem uma ideia, meu grupo tinha 15 pessoas, 2 guias e 19 carregadores, incluindo um cozinheiro. O trabalho deles é impressionante e seria totalmente impossível realizar essa trilha sem eles. A estrutura dos carregadores e o papel deles na trilha merece um post à parte. Foi uma das coisas mais impressionantes e surpreendentes que testemunhei.

O começo da trilha. Nosso grupo em sua primeira foto de família. 


O primeiro dia é o mais tranquilo. Parte-se de Ollantaytambo à 2600m, um caminho agradável, repleto de vegetação, sem muita exigência e com poucos trechos íngremes. Ainda assim, são 12Km e acampamos à 3000m de altura. A altitude já faz o fôlego ficar bem curto, e apresenta algum mal-estar. No caminho vimos nossa primeira ruína, de pedras polidas e construída com precisão astronômica como tudo o que os Incas fizeram. Nesse caminho ainda encontramos vários povoados, quechuas vendendo água e gatorade, animais e plantações. 

Wilfredo, nosso maravilhoso guia, apresentando a super equipe de carregadores e cozinheiros que possibilitaram que a gente fizesse a trilha. Gratidão eterna a cada um deles. 


O segundo dia é a prova de fogo, e é o dia também em que muita gente desiste da trilha. Acordamos às 4h30. Os nossos guias são tão gentis que nos levam chá quentinho na barraca na hora de acordar. Tomamos café, empacotamos e caímos na trilha. O desafio hoje é fazer 12Km, subir 1215m, e depois descer 600m para o acampamento. Então o que nos espera são longos trechos de subida acentuada e um ar cada vez mais rarefeito. Até a hora do nosso segundo café da manhã, que foi na última vila habitada da trilha por vota das 10h da manhã, o caminho estava puxado, mas administrável. Depois dessa pausa foram 2h30 de subida íngreme em uma escadaria de pedras irregulares até chegar à “Passagem da Mulher Morta” (nome dado por causa de uma lenda andina. Alguém carregadores dizem que encontraram o corpo de uma mulher morta uma vez à noite nesse pico, e quando o socorro foi resgatá-la, ela tinha desaparecido. Hoje eles acreditam que ela vaga à noite pelos acampamentos atrás do homem ideal.), que fica à 4215m. Só para ter uma comparação, o Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil, tem 2994m. Esse foi o trecho mais desafiador. Fisicamente eu achei que ia morrer. Sentia meu coração na boca e qualquer movimento exigia todo o ar dos meus pulmões. Psicológicamente, toda sua vida passa em sua mente. Amaldiçoei os Incas, me questionei porque estava fazendo aquilo, duvidei, chorei, ri, briguei muito com os degraus. Foi o momento que me caiu a ficha que essa não era só uma aventura na montanha, um passeio para fazer aos finais de semana. Foi quando me dei conta de que essa é uma jornada espiritual. Quando pisei no summit percebi que não tinha como voltar atrás. Agora era ir até o fim. Depois disso ainda descemos 1h e 600m de escadarias íngremes e escorregadias até o acampamento, onde almoçamos. O resto do dia foi de cochilos e recuperação. 

A conquista da "Passagem da Mulher Morta". 4215m e toda minha capacidade de superação.


O terceiro dia foi lindo. Acordamos mais cedo ainda, às 4h20, para evitar filas no posto de controle. Todos os músculos da minha perna doíam. A panturrilha, o extensor, o quadríceps, os glúteos. Muita dor nos ombros também, pelo esforço feito com os bastões de hiking (que, aliás, são imprescindíveis.). A dor fez o ritmo fica mais lento. O terceiro dia é o mais longo. 15Km, mas a variação de altitude não era tanta. Subimos um pouco, mas descemos de novo para acampar nos mesmos 3600m do segundo dia. Esse é o dia com mais ruínas para explorar no caminho, cavernas, túneis de vegetação, montanhas cobertas de neve e lagos de água cristalina que aparecem no meio do nada. Lindo! Esse foi o dia em que aprendi a parar de brigar com o caminho. Aceitei a dor. Aceitei a irregularidade das pedras. Aceitei um ritmo mais lento. Aceitei, simplesmente. Depois do almoço caiu um temporal, e tivemos que descer até o acampamento embaixo de chuva pesada. Foi intenso. As pedras deslizavam, a água ensopava tudo. Os carregadores passavam voando em nossa volta e eu me sentia totalmente insignificante no meio daquela natureza. Acalmou apenas quando chegamos nos terraços da última ruína, perto do acampamento. Eu estava febril e vomitando, mas não de um jeito que me nocauteasse. Era como se os Incas estivessem me forjando para merecer Machu Picchu. Tomei remédios, me sequei, meditei. Pedi que fizesse um dia perfeito. Que a febre passasse. Que estivesse muito Sol. E que eu conseguisse chegar.

Em uma das ruínas pelas quais passamos no terceiro dia. Cada conversa, cada descoberta, mais e mais surpreendida com os Incas.

O quarto dia já é uma benção só por se chegar à ele. Acordamos às 3h30, a febre tinha passado. A fila do posto de controle já estava grande. Foi o caminho mais agradável de todos. Gentil e suave, como se os Incas me dissessem: “Muito bem! Passou no teste!”. Foram 1200m de descida em apenas 5Km de trilha. Fomos vendo o dia amanhecendo, as nuvens subindo para o céu. Quando chegamos ao Portal do Sol, ele também surgiu brilhante em um céu lindo, azul e imaculado. Os Incas tinham me ouvido. Subi as últimas escadarias, passei pelas colunas de pedra do Portal e, lá estava ela! Machu Picchu!!! A cidade perdida dos Incas. Deslumbrante no meio das montanhas. Parecendo estar intocada desde sempre, esperando que a gente chegasse a ela. É uma emoção indescritível. Ri. Chorei. Senti todo o ar do mundo voltar aos meus pulmões.

A conquista de Machu Picchu!


Uma opinião unânime entre meu grupo foi que ficou muito difícil imaginar chegar à Machu Picchu sem passar pela trilha, sem avistá-la do Portal do Sol. Mais ainda, enquanto arrastávamos nossos corpos sujos e machucados, cruzando com uma infinidade de turistas que chegavam arrumadinhos de ônibus, sentimos que havia algo deslocado. Peregrinar por 4 dias até chegar em Machu Picchu me deu pertencimento. É como uma cicatriz que vai ficar eternamente em mim. Machu Picchu me pertence. Eu a conquistei. Você pode visitar Machu Picchu mil vezes, você pode fazer fotos, decorar guias. Mas só tem uma forma de fazer com que ela se torne parte de você. E isso aconteceu nos outros 3 dias. 


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

LIMA, DE UMA VEZ


Hoje estou encerrando minha pequena temporada na capital peruana. Surpreendida positivamente com a cidade, as pessoas, a atmosfera. Antes de seguir viagem para Cusco, vamos a um post grandão com tudo sobre Lima.


BAIRROS


Eu, nas ruínas de Huaca Pucclana. Um sítio arquiológico bem no meio da cidade. 

Bonecos ilustrando como o espaço era usado nas ruínas.

Lima é uma metrópole, que cresce vertiginosamente. Uma cidade bem espalhada, com gente e carros para todos os lados, e você não vai (nem quer) conhecer cada cantinho para conhecer Lima. O importante é se concentrar onde estão as atrações e onde se pode ler melhor a cidade, como fazemos em qualquer cidade cosmopolita. 




Miraflores é o bairro mais central, não geograficamente, mas da vida urbana de Lima. É onde se concentram a maior parte dos hotéis e restaurantes. Muitas casas de câmbio, embaixadas e consulados, lojas, escolas, empresas, tudo o que você precisa. É de longe o bairro mais conveniente de Lima, e de fácil acesso para tudo o mais que você quiser visitar. Abundância de taxis e transporte, mas não é um bairro charmoso em si. Exatamente por ser tão central, concentra um fluxo intenso de pessoas de todas as partes de Lima, turistas, gringos e vendedores. É em Miraflores que fica uma das melhores atrações de Lima: Huaca Pucclana. Uma pirâmide pré-inca utilizada como centro de rituais religiosos e cerimônias funerárias. O passeio é muito legal. Os peruanos tem uma coisa de ilustrar os sítios arqueológicos então colocam bonecos e réplicas para encenar os hábitos e costumes da época no lugar. O tour dura pouco mais de 1 hora, os guias são muito bem informados e parecem gostar muito do que fazem. Tem até uma horta e criadoro de animais para exemplificar a dieta dos povos que viviam ali. Vi cuys, lhamas e o raro cão sem pelo peruano. Acho fascinante estar em um sítio arqueológico vivo. Ao mesmo tempo que você vê um grupo de crianças uniformizadas subir a pirâmide em excursão, do outro lado há uma barraca com arqueólogos ainda trabalhando nas escavações. No pequeno museu há até uma múmia. De frente para as escavações funciona um restaurante bem sofisticado. Pode-se jantar olhando as ruínas iluminadas. Descendo até o mar, tem um calçadão sobre as falésias de onde se pode saltar de parapente também. As pessoas sobrevoam os carros congestionados no final do dia.

Salão do Malabar. Sofisticado e maravilhoso.


San Isidro é o bairro mais sofisticado de Lima. Casarões, prédios de luxo, lojas de grife e restaurantes requintadíssimos. Tem algumas amostras interessantes de arquitetura, praças muito charmosas e bem cuidadas, e um enorme golf club. Ótimo para bater pernas, tomar um café em alguma das cafeterias chics e terminar o dia no Malabar, por exemplo, e ter uma super experiência gastronômica. 

Praça central de Pueblo Libre. 

Pueblo Libre é o bairro do Museu Larco, do qual já falei no post abaixo. Um bairro de classe média, legal para sentir como é a vida do limenho médio. Muitas escolas, comércio e opções de restaurantes legais e baratos. Só a “caça ao tesouro” entre um museu e outro já vale a diversão de um dia inteiro. 

Entrada do Bairro Chino. 



O Centro é o lugar de Lima onde se pode sentir mais o período colonial e a influência arquitetônica espanhola. É onde fica também a sede do governo peruano. Um tanto decadente e bem perigoso, tomando os devidos cuidados é um bairro bem interessante. Aqui você vai encontrar o peruano de verdade, o povo que batalha, trabalha e pega as conduções lotadas. Restaurantes simples e baratos, lojas populares, prédios decadentes e pequenas jóias históricas esquecidas entre placas de promoções de roupas chinesas e autofalantes de músicas duvidosas. O fluxo de pessoas é intenso. As duas praças principais são vestígios de um tempo em que Lima foi a capital espanhola da América Latina, e tem troca de guarda em frente ao palácio do Governo todos os dias às 12h. Não dá para ficar explorando as ruas aleatoriamente. Saindo das vias mais turísticas, o centro pode ser bem violento. Ficam ali perto o MALI, Museu de Arte de Lima, com exposições temporárias de arte peruana e um café/restaurante bem charmoso e barato. E o imperdível Museu da Inquisição, ao lado do Congresso. É um casarão onde funcionava a inquisição espanhola. O tour conta a história, anda pelas catacumbas onde (de novo) bonequinhos ilustram pagãos sendo torturados. Divertidíssimo! Vale também entrar no Barrío Chino, a Chinatown limenha. Como uma 25 de março apinhada em véspera de Natal, as ruas são fechadas para carros e o mar de pessoas circulam entre lojas baratas, camelôs e restaurantes tradicionais e generosos. Comi maravilhosamente ao lado de um aquário que exibia o Nemo, a Dory e dois peixes-leões. 

Tortura ilustrada com bonequinhos no Museu da Inquisição.

Ainda, bem perto de Miraflores, mas sem entrar muito no bairro, vale um pulo em Surquillo para visitar o Mercado. Flores, frutas, grãos e pedaços de animais pendurados ficam em barraquinhas ao redor desse pequeno mercado. Pode comer ceviche fresco feito com peixes e frutos do mar que você escolhe na hora na banca, e comprar frutas que as mulheres descascam e vendem em sacos. Paguei R$2 por meio quilo de morangos muito doces. Tentaram me vender corações de alcachofra também, limpinhos e cortados. 

Mercado de Surquillo.

Abaixo de San Isidro, caminhando em direção da praia, fica Magdalena del Mar. Não há nada nesse bairro para ver, mas eu me arrependi de não ter ido todos os dias tomar café da manhã na El Pain de la Chola. Uma padaria super modernosa e descolada. Fazem pães integrais de casca dura e fermentação natural e servem cafés orgânicos amazonenses com técnica barista perfeita e de latte arte. O público é alternativo, muita gente descolada, muitas bikes, roupas de ginástica, computadores e kindles. Dá para sentar nas mesas e escrever um livro inteiro. 


Amor à primeira vista pelo El Pan de la Chola!


Por último, mas não menos importante, o meu favorito bairro: Barranco. Se eu voltar a Lima um dia, esse seria o bairro que eu escolheria para me hospedar. Cheio de restaurantes alternativos e galerias de arte adaptadas em antigos casarões, o bairro é um charme e uma atração por si só. As ruelinhas tem um ar de balneário mediterrâneo. Muitas escolas de arte, teatros, música ao vivo e livrarias. Ah, gente linda para todos os lados. 

O fofo bairro de Barranco. Cara de baneário mediterrâneo. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

BEM-VINDA À LIMA


Cheguei hoje cedo em uma Lima acizentada, com cara de domingo de inverno lá em casa. Nas primeiras horas o dia estava bem abafado. Depois esfriou. Esfriou mais um pouco. E comecei a perceber que Lima tem essa cara de cidade litorânea do Reino Unido. Uma luz fosca pela cidade inteira. Há algo na luz dessa cidade. Não brilha como o amarelo que pinta o Tejo de Lisboa. É mais um filtro que esfria tudo, e deixa a vida com uma cara de estar longe do Equador, longe dos Trópicos. Cara de uma melancolia cortante no ar. Até nas pessoas dá para sentir isso. Existe uma força na identidade das pessoas pelas ruas. Bem diferente do que eu conheço de América Latina. Só por isso, Lima já teria me fascinado logo de cara. Mas tem mais. Muito mais. Uma metrópole engajada. Lima foi a capital do Império Inca, e da dominação colonial espanhola. Uma cidade que se destruiu e se reconstruiu inúmeras vezes, e sofre uma devastação programada a cada 25 anos com o fenômeno do El Niño, que causa chuvas maciças, inundações e some com os peixes do litoral. Lima hoje tem 9 milhões de habitantes. É gente pra caramba!

O trânsito é caótico e os congestionamentos se arrastam pela cidade toda. Você, enquanto pedestre, disputa na raça espaço com carros, motos e bicicletas. Aqui ninguém tem adesivinho no carro de “Trânsito mais gentil”. Ninguém para para você atravessar, mesmo que você esteja na faixa. Os carros nem diminuem. Aceleram em cima dos pedestres, que parecem não se importar. Nas calçadas, ondas de pessoas desviam de skates, patins e bicicletas. Tem ciclovia. Ciclovia de verdade. Daquelas planejadas, estudadas, feitas com tinta que não desbota. Com isolamento das vias de tráfego de carros, na pista interna para não atrapalhar ônibus, pedestres ou o fluxo do comércio. A cidade tem a maior pinta de ser bem administrada. Ou não. Tem seu próprio Malecón, sobre falésias duras sobre o mar do Pacífico. As cores lavadas, lindas, que me fizeram sentir bem longe de onde estou. Não estava preparada para isso. 

O B&B que eu reservei é uma graça. Um sobrado em uma vilinha super charmosa, em uma região tranquila e agradável de Miraflores. A dona morou no Brasil, está adorando praticar o português e tem uma gatinha branca de 3 meses que chama Sansa. Ela também, viciada em GOT. Para não perder tempo, deixei a mochila no quarto, tomei um banho e fui para a rua. 

O charmoso Café del Museo. Dá para casar nesse gramado!


Confesso que estou passando por uma crise para decidir quais museus visitar em minha curta estada. Lima tem tanta opções tentadoras de museus, que não sei nem por onde começar. Resolvi seguir o conselho do meu guia favorito, o Lonely Planet, e comecei pelo considerado um dos highlights da cidade: o Museu Larco. Um casarão incrível em Pueblo Libre, cercado de primaveras floridas e gatos vagando pelos muros. Nos fundos funciona o Café del Museo, onde aproveite para almoçar meu primeiro ceviche e meu primeiro pisco sour da viagem. Divinos! O ambiente é maravilhoso. Uma longa varanda em L, toda aberta para um jardim interno, com sofás descontraídos para você se abastecer antes (ou depois) da exposição. Seria lindo fazer um casamento ali! (Tenho essa mania de lugares de sonhos para realizar festas de casamento...) O atendimento é super gentil, e eu fechei a refeição com um cappuccino tirado com perfeição. 

O primeiro Pisco Sour.

O primeiro ceviche.

Depois fui encarar a exposição, sem muitas expectativas. O Museu Larco é um museu de cerâmicas encontradas nas escavações arqueológicas das diferentes regiões do Peru. Vamos combinar que não é a coisa mais empolgante do mundo pensar em passar uma tarde vendo cerâmica em um museu. Ledo engano! O museu é fantástico! A qualidade da curadoria, da organização da exposição faz com que esse seja um museu de altíssimo nível. Através da evolução das técnicas de confecção de peças de cerâmica, eles constroem uma linha do tempo dos diferentes povos que viveram nessa região, desde a época pré-colombiana, passando pelo império Inca e o período colonial. Existe uma sala especial sobre a confecção de tecidos, uma impressionante sala de apetrechos ritualísticos de sacrifício humano (que é toda vermelha! Muito impactante!), e finaliza com três salas contando a evolução das jóias e acessórios de ouro e prata usados pelos Incas e outros povos. Tão legal quando a gente não tem muitas expectativas quanto a algo, e sai completamente arrebatado. 

A difícil arte de transformar cerâmica em um assunto fascinante.

A impactante sala dos artefatos de sacrifício humano.

Curadoria feita com esmero.

Em um prédio à parte há ainda uma Galeria Erótica, só com cerâmicas de representações  sexuais. O mais interessante é ver a qualidade do acervo do museu, e o excelente estado de conservação. Dá muita vontade de virar arqueóloga e trabalhar em um lugar onde a pesquisa é feita com tanto esmero. 

Fornicação no período Inca.


Saindo do Museu Larco você pode ir andando até o Museu Nacional de Antropologia. Há uma linha azul pintada na calçada marcando o caminho que dura cerca de 20 minutos entre um museu e outro. A proposta é divertida. Tem uma atmosfera de “caça ao tesouro”. Você sai andando pelo bairro, seguindo a linha azul, cruzando ruas, parques. Às vezes a linha fica falha, quase desaparece, e você precisa encontrar a outra ponta em algum cruzamento. Divertidíssimo! Além do passeio em si, o caminho traz algumas surpresas da paisagem urbana de Lima. Cruzando um bairro de classe média, com crianças brincando em balanços e velhinhas carregando suas compras nas calçadas. Tirei fotos como uma louca. As linhas dos prédios de apartamentos, as placas que me remetiam à cidades de suburbio dos EUA, para cair em uma avenida movimentada, com supermercados, farmácias e toda uma vida de comércio te arrancando de volta para o Terceiro Mundo. O final da trilha é na porta do museu, que infelizmente estava fechado. Um casarão colonial amarelo, que ocupa todo um lado da praça onde fica a prefeitura de Pueblo Libre. Uma fonte no centro, uma enorme bandeira tentando embalar com o pouco vento. O busto de alguma grande personalidade peruana. Cafés e restaurantes convidativos para todos os lados. 







Paisagens na "Caça ao tesouro" entre um museu e outro. 


Voltei para Miraflores de taxi e fui explorar o bairro em que estou hospedada. Abundância de comércio, casas de câmbio, restaurantes, embaixadas, cassinos. Ruas limpas, mas cheias de gente. Casas de souvenirs, hostels, gringos sentados no café. Andei pelas ruas durante três horas. Sem tirar fotos. Sem me distrair. Só sentindo a cidade. Folheei livros em livrarias. As pessoas amam seus celulares. Os bancos ficam abertos até às 19h. Não há ostentação. 

Sofrendo com o jetleg (Lima está -3h de SP), e exausta da caminhada, eu me dei de presente uma pequena orgia gastronômica no Maido. Restaurante japonês fusion do chef nascido peruano Mitsuharu Tsumura. Foram 5 pratos e uma sobremesa que me arrebataram em cada garfada. Sabe quando seu paladar é surpreendido com cada coisa que você coloca na boca? De tudo que eu provei, destaques para o Niguiri de Paracas com emulsão de maca e o bacalhau de altitude marinado no missô - que me tirou as palavras da boca durante uns 5 minutos até eu conseguir processar a surpresa do sabor. 

O bacalhau de profundidade marinado em missô, com purê de camotillo (um tipo de batata peruana) e conserva de rabanete. Surpreendente. 

Voltei para o B&B satisfeita com o dia. Pronta para desmaiar. Com essa sensação boa de ter feito valer à pena. Sabe quando o dia não podia ser mais perfeito? Então. Acho que, até agora, Lima e eu estamos nos dando muito bem. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A MOCHILA

Holly e Sabrina, fiscalizando os últimos preparativos. 

Chegou a hora de fazer a mochila! Hora de drama para muita gente. Êxtase absoluto para virginianas de plantão. A maneira de arrumar a mala diz muito sobre quem você é, e o tipo de viajante que você é. Tem gente que é super metódica, gosta de deixar a mala arrumada com uma semana de antecedência. Eu sou mais desencanada. Sempre deixei a mochila para arrumar em cima da hora. Um pouco antes de ir para o aeroporto. Uma das vantagens de ficar muito tempo na estrada de uma vez é a praticidade em fazer as malas. Em pouco tempo aprendi o que é excesso, o que é útil, o que precisa ficar sempre à mão. Uma vez minha irmã chegou em casa para me dar uma carona até o aeroporto, em uma das viagens que eu ia fazer. Tínhamos que sair em 1 hora. Ela quase surtou quando viu que eu não tinha nada preparado. Sentei para comer alguma coisa com ela, tomei um banho e fiz a mochila em tempo. Puro exibicionismo! 

Hoje preparo a mala na manhã, ou na véspera de sair. Mas confesso que prefiro mil vezes fazer uma mochila para ficar 2 meses na estrada do que uma mala para uma semana em uma cidade com eventos e compromissos. Em junho fui para Lisboa para o casamento da Lícia e do Ivan e quase enlouqueci pensando em roupas para almoços, cerimônia, etc. Minha alma mochileira quer resolver tudo com duas calças e três camisetas. 

Com o tempo eu aprendi que viajar bem é viajar light. Levar roupas práticas, funcionais, que ocupem pouco espaço, sejam resistentes e sequem rápido. Gosto de usar roupas de marcas outdoor. The North Face é minha favorita. Gosto de Columbia e Marmot também. A Solo tem excelentes roupas térmicas, para usar por baixo de tudo quando se vai para áreas muito frias, ou subir montanhas como nessa viagem. A Curtlo também tem ótima qualidade, e ótimos acessórios de viagem. É deles minhas bolsas organizadoras e minha necessaire de primeiros socorros. Material feito para quem acampa, pega condições extremas. Então são bem duráveis. Vale investir em um equipamento de viagem de boas marcas. 

Tudo pronto para entrar na mochila. 


Nessa viagem minha bagagem consiste:

2 calças de hiking impermeáveis
1 calça jeans
4 camisetas de manga comprida térmicas
2 camisetas de manga curta dry-fit
2 calças térmicas
1 camisa manga comprida viajante
1 camisa manga curta viajante
2 fleeces
1 jaqueta water e wind proof light
1 jaqueta water e wind blocker revestida para baixas temperaturas
1 cachecol
1 gorro
1 luva
5 meias especiais para trekking
5 jogos de roupa íntima básica e confortável
1 chinelo
1 bota de hiking
1 toalha de viagem
1 cantil
1 garrafa dobrável
2 lanternas
1 canivete
1 saco de dormir
2 hiking poles
1 boné


É uma mochila até que grande para 15 dias. Posso ficar meses viajando com essa bagagem. Juntando a necessaire de toillet, o saco de dormir e tudo mais, a mochila ficou com 13Kg. É um bom peso, um pouco no limite para o meu tamanho. Quando se fecha uma mochila é preciso pensar que você vai carregar a bichinha nas costas por vários trajetos. Mesmo que tenham transfers agendados, qualquer bagagem extra pode ser um pesadelo depois de um tempo na estrada. 

Uma vez minha irmã caçula preparava a sua primeira mochilada e me pediu ajuda. Tive que tirar vestidinhos, sapatos e bolsas “caso eu vá em uma festa ou algum barzinho”. Mesmo assim ela deixou muita coisa e acabou encurtando o trajeto porque não aguentava mais carregar a mochila para todos os lados. Não que seja um problema querer se arrumar e estar bonita para aproveitar algumas atividades sociais durante a viagem, mas esse é outro tipo de viagem. Quando estou mochilando, assumo o figurino para todas as ocasiões. Se é uma viagem mais urbana até incluo um macacão básico e prático, que possa dar um ar mais elegante para visitar um restaurante ou alguma situação social. Mas em viagem com trilha e floresta, mantenho apenas uma das calças limpa para poder entrar nos restaurantes sem parecer o Indiana Jones. 

A maneira de colocar as coisas na mochila também pode fazer esse espaço que parece tão pequeno, ficar gigante. As roupas eu organizo nas bolsas enroladinhas. Ocupam muito menos espaço assim, e chegam mais organizadas e sem estar amassadas. Necessaires e sapatos na base da mochila, roupas mais leves em cima. Isso é importante. Deixar os itens pesados na base ajuda a manter o equilíbrio quando se carrega a mochila. 

À parte a mochilona, que será despachada nos trajetos, tenho uma mochila de ataque que levo comigo no avião, ou nos passeios durante o dia. Para o trajeto da viagem é nela que ficam minhas câmeras, documentos, programação e vouchers, um moleskine de diário, livro e computador. Todos os carregadores vão comigo também, em uma bolsinha separada. A parafernália de foto aumenta consideravelmente o peso total da bagagem, mesmo não sendo despachado. Estou com mais 5Kg de equipamento no ataque. Foi uma escolha bem consciente, porque quero me esbaldar de fotografar Machu Picchu e Titicaca. 

Meu equipamento de foto está bem exagerado. Minha Canon DSLR, uma automática Panasonic Lumix e a GoPro. O computador não vai para a trilha. 

Marca de mochila também é importante. Primeiro porque você vai usar bastante. Segundo porque, uma mochila vagabunda vai te deixar na mão no meio da viagem. E aí, acredite, é o tipo de pesadelo que você não precisa. A minha é uma Deuter. Melhor investimento que se possa fazer. Sempre recomendo. São as melhores do mundo. Não é uma mochila barata, mas você pode esperar usá-la por uns 30 anos. Se pensar assim, excelente custo-benefício. Tenho algumas de ataque. Essas troco sempre. As que mais uso ultimamente são, uma da North Face para viagens curtas, de final de semana; e a que vou usar amanhã, uma Jansport que comprei esse ano e estou apaixonada. Bonita, serve para estrada e para a cidade. 


Agora que está tudo pronto, hora de dormir. Amanhã às 4h chega um taxi aqui em casa para me pegar. Que comece a aventura! 

domingo, 9 de novembro de 2014

ORGANIZANDO O ROTEIRO



Ontem postei essa foto da programação da viagem impressa, e causou certa comoção no Instagram pela organização. Bom, eu sou virginiana, então eu vim nessa vida com o gene da organização ativado. Mas a coisa não é assim sempre, não. Quem der um pulo no meu escritório não acredita que é a mesma pessoa da foto aí de cima. Eu não sou tão organizada quanto parece, mas viajando acho que organização pode ser uma grande aliada. Quem se organiza evita imprevistos, controla melhor o orçamento da viagem e otimiza melhor o tempo. Claro que imprevistos vão acontecer, mas estando organizada eu consigo improvisar melhor caso, e quando, acontecerem. 

O que consiste essa programação organizada: bilhetes aéreos e de ônibus, emails e vouchers de hotéis impressos, cópia de comprovantes de pagamento e informações de tours pré-contratados. Junto faço um arquivo em word com a programação da viagem dia-a-dia. Qual transporte, horários, hospedagem, e passeios agendados. Em Lima vou fazer uma exploração gastronômica, e como muitos restaurantes são concorridíssimos, também imprimi a confirmação de reserva de todos eles. 

Mas daí você pensa, “poxa, precisa imprimir tudo?”. Olha, eu não costumava imprimir. Confiava que estavam na caixa de emails, no celular, e eu poderia usar se precisasse. Até uma viagem em que quase perdi meu vôo e tive que pagar uma nova passagem porque eles não conseguiram localizar meu nome pelo passaporte e eu não tinha o número localizador da passagem anotado em lugar nenhum. Isso acontece com frequência? Não. Mas quando acontece, melhor estar organizada para não detonar a viagem. 

Outra coisa legal de manter um roteiro organizado e impresso, é que depois eu posso fazer um  arquivo da viagem. Gosto de fazer pastas com as pesquisas, folhetos de empresas, lojas, hostels, restaurantes. Manter o roteirinho todo pronto ajuda muito quando algum amigo vai viajar para o mesmo lugar e te pede dicas. Claro, a pessoa vai fazer a viagem dela, mas uma das coisas mais importantes para se fazer antes de uma viagem é exatamente ouvir experiências de outras pessoas. Ajuda a pessoa a personalizar a própria viagem dentro de seu gosto pessoal. 

Para essa viagem eu li muito, guias e artigos sobre o Peru. Conversei com algumas pessoas que já tinham feito a trilha e peguei sugestões de restaurantes com amigos gourmets. O resultado é o que está impresso. Gosto de deixar um tanto de informações surpresas, para ir descobrindo pelo caminho. Tem muita coisa que vou ler só no aeroporto, esperando para o embarque. 

Claro que se organizar não quer dizer que a viagem vai ficar engessada. Tenho pavor desses pacotes que cronometram cada segundo do passeio. “1h30 livres para compras e almoço”. Gosto de viajar com alguns pontos de referência. Entre uma coisa e outra, vou sentindo para onde a cidade me leva. Em Lima tenho reservas praticamente em todas as refeições em restaurantes. Isso já define bem a rotina do dia. Durante o dia gosto de explorar. Adoro ficar horas tirando fotos. Tenho uma mania de museus, então sempre visito alguns. E sou louca por mercados. O de Lima está prometendo ocupar um dia inteiro. Mas isso são coisas que vou sentir na hora. Às vezes dá vontade de esticar em uma cafeteria fazendo “people watching”, outras vezes descubro algum spa e resolvo fazer uma massagem. Gosto de descobrir shows ou concertos e já até acabei pintando paredes em uma comunidade com essa coisa de deixar a cidade me levar. Quando a gente está aberto, as coisas acontecem. 

Outra vantagem de fazer esse roteiro, principalmente para mim, que viajo sozinha, é poder deixar uma cópia com a minha mãe para emergências. Acho que ela nem lê, deve deixar perdido na caixa de emails, mas, por mais que o roteiro possa sofrer alterações, é bom ter alguém sabendo qual o rastro que se pretende deixar. Costumo dizer que, se acontecer alguma catástrofe, fica mais fácil para a embaixada me localizar. 


Brincadeiras à parte, esse processo de preparação é um dos mais gostosos da uma viagem. É como começar a viagem antes de sair de casa. Quando se tem pouco tempo, ou um orçamento reduzido, ou ambos; começar a viagem com essa antecedência garante que você possa viajar muito mais, com bem menos. E depois, porque dispensar as preliminares? Elas são divertidas e ajudam que a gente chegue no gran finalle... feliz e relaxada.