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domingo, 16 de novembro de 2014

CUSCO


Cheguei em Cusco no sábado. Não precisa ser muito inteligente para saber que Lima é uma bolha no Peru, e o verdadeiro país iria se mostrar conforme eu fosse me afastando da capital. Cusco é isso. Tudo o que se imagina de Peru e mais um pouco. Muito turística, obviamente, mas logo se nota porque essa cidade há 3.600m de altura era considerada pelos Incas o umbigo do mundo. Dá mesmo a sensação de estar no topo dele. A cidade vive do turismo, e por isso é bem segura. Claro que batedores de carteira podem se aproveitar de turistas desavisados, mas a cidade é bem segura para circular, andar com a câmera pendurada no pescoço, fazer cara de gringa pelas esquinas tentando se localizar no mapa. À noite também uma paz. Circulei bastante sozinha, virando esquinas só para ver onde dava e a sensação de segurança pode ser cortada com uma faca. 

A cidade gira em torno da Plaza de Armas. Uma pequena jóia cercada por duas igrejas estonteantes, e de onde se pode ver subir ao horizonte o contorno das montanhas coalhadas de casas, torres e um céu lindo. Tudo tem cara de estar pedindo uma foto. Como toda cidade turística, o assédio é exaustivo. Nas ruas mais movimentadas tentam te vender de tudo. Pinturas, massagens, tours para Machu Picchu, passeios à cavalo, aulas de espanhol, câmbio de dólares, city tour, restaurantes. Há também quechuas paramentadas com roupas típicas, carregando filhotes de lhamas e alpacas e pedindo trocados para tirar fotos. Os filhotes de alpacas são as coisas mais fofas do mundo. Juro que se fosse permitido, levava uma para casa. As melhores agências não são as oferecidas em hotéis, ou nas casas ao redor da Plaza (que vendem ponchos, botas de hiking, Inka Cola, selos postais, câmbio de dólares, revelações de fotos e pacotes turísticos. Tudo ao mesmo tempo agora.)

É legal pesquisar na internet as empresas com tratamento ético de guias antes de sair fechando pacote com o primeiro que aparece. Existe muita exploração dos guias e portadores na região. Acho legal assumir a parcela de responsabilidade sobre o impacto da sua visita ao lugar. O roteiro da trilha Inca que vou fazer fechei no começo do ano depois de pesquisar umas 5 empresas diferentes, todas certificadas. A trilha clássica é controlada e é impossível fazer na última hora. São 4 dias de caminhada, subindo e descendo as montanhas, para ser presenteada ao final com Machu Picchu e um joelho detonado. 

A empresa que contratei foi a Peru Treks. Até agora, impecáveis. O briefing e a preparação que fazem é super detalhista e perfeccionista. No sábado fui até o escritório deles, conheci os guias, recebi um briefing completo dos quatro dias e orientação sobre a preparação. Depois tirei esses dias para descansar, me habituar à altitude e preparar os últimos detalhes para a trilha. Água, snacks, baterias, sistema de purificação de água e remédios para altitude e diarréia. Normalmente não tenho problemas com intoxicação alimentar, mas a água no Peru é um problema, e mesmo purificando, nunca se sabe. 

O pacote contratado inclui cozinheiro e alimentação em todo o percurso, tickets de entrada em Machu Pichu, trem de volta para Águas Calientes e transfer de ida e volta para Cusco. Passei o dia hoje tentando trocar dinheiro para levar. Troco é uma dificuldade  no Peru. Algumas vezes as pessoas preferiam não fazer a venda por não ter como fazer troco. Para a trilha, aconselha-se levar cerca de S/300-400, que serve para tudo. Gorjetas dos guias e portadores, compra de água, snacks, café da manhã em Ollantaytambo antes de começar a trilha, almoço no último dia, souvenirs e até uma massagem ao final da trilha em Águas Calientes para se recuperar. 

Vou confessar que ver o tanto de coisas que tem para se fazer nas redondezas em deu uma vontade danada de sair igual a uma louca, fazendo trilhas, SUP, yoga, andando de quadriciclos, cavalos, mountain bike. É muita coisa para se fazer. Mas é preciso ter foco. De nada adianta tentar fazer tudo e depois não conseguir terminar a trilha, meu grande sonho. Então peguei leve. Muito tempo descansando. Passeios leves. Muitas fotos. Nenhuma invenção gastronômica. Hoje à noite fiquei no hotel. Tomei um longo banho de banheira, assisti um filme na TV, arrumei a mochila. Afinal, vão ser 4 dias sem banho, sem cama e de muito esforço físico. 


O hotel que escolhi é ótimo. Estou bem feliz com a escolha. É uma rede peruana chamada Tierra Viva. Quarto espaçoso, confortável. Lençóis e toalhas macios e impecáveis. O serviço é super atencioso. E eles começam a servir o café da manhã às 5h! O que significa que eu vou ter uma “última refeição” bem servida amanhã cedinho, antes de partir às 5h20. É isso. Amanhã às 5h20 começo a famosa Trilha Inca. Durante 4 dias vou percorrer 44Km, chegando à 4600m de altura. Nada de computador, nada de internet, obviamente. Dizem que é a experiência de uma vida. Não vejo a hora de começar. 

domingo, 9 de janeiro de 2011

LAGO ATITLAN

O despertador tocou às 4h20 da manhã. Sabe o que é isso? 4h20!!! Meu corpo estava até achando que era pegadinha. Aquela sensação de que eu nem tinha pegado no sono e já tinha acordado. A van passou para me pegar 4h45. Entrei, sentei no lugar que me pareceu mais confortável e dormi. Fui a primeira a ser pega, então ainda rolou um pinga-pinga para pegar turistas em seus hotéis. Todos, todos mochileiros de 20 e poucos. Eu vou apenas até Panajachel que fica umas 2h30 de Antigua. Eles todos estavam indo para a fronteira. Seguindo a mochilada para o México. Do meu lado sentou uma garota inglesa que estava mochilando a América Latina há seis meses (e eu desconfio que a última vez que ela tomou um banho foi na Inglaterra). Detesto intimidade! Achei que seria melhor dormir. E dormi. Minha programação era chegar por volta de 7h30 em Panajachel e tomar café da manhã com calma. Era o programado. Só que as duas topeiras que estavam dirigindo a van fizeram tanta confusão com os turistas, se perderam, que eu só cheguei às 8h40. A saída para o tour de barco era às 9h. Me deram um lunch box e já tive de sair correndo até o barco. Eu necessitada de um café. Engraçado que a Guatemala é uma grande produtora de café, mas eles aqui tomam fraco e instantâneo. Imagina? Um dos melhores cafés do mundo e todo mundo tomando Nescafé. Eu achando que ia me esbaldar aqui, tenho muita dificuldade de encontrar um lugar que tire um bom espresso. Mesmo em Antigua que é bem turística. Anyway. Depois que entrei no barco a coisa acalmou. Eu detesto fazer coisas correndo, então o epísódio todo podia ter me deixado de muito mal humor. Mas eu não estava afim de estragar meu domingo. Tirei minha máquina fotográfica da mochila e relaxei. Um dia inteiro de fotografias. Viu como eu sou uma criança fácil de ser agradada? O Lago Atitlan é gigantesco, rodeado por três vulcões extintos. De manhãzinha tinha uma névoa beirando o lago, a luz estava azulada que nem dava para acreditar. Olhei aquilo e pensei “Olha só o quadro da minha sala!”. Ajustei a câmera com um ponto subexposta e... LINDO! Depois tirei mais umas 15 fotos dos vulcões e do lago. Brinquei com diferentes ajustes e exposições. Mas aquela primeira foto... Aquela vai ser ampliada e virar um quadro azul na minha sala (o dia que eu tiver uma). O lago é todo rodeado por povoados. São 12 no total. Cada um recebe o nome de um apóstolo. Visitei primeiro San Marcos Laguna, depois San Pedro Laguna e por último Santiago Laguna, onde ficamos mais tempo e almocei. Uma pena, porque meu favorito foi San Pedro. Super informal, repleto de cafés, restaurantes, spas de massagem e aulas de yoga. Até conheci um filipino-holandês que dá aulas de meditação e respiração em Antigua. (Adoro a globalização! Essa coisa de “sangue puro” é tão last season...) Peguei o contato dele e acho que vou fazer. Vai ser no mínimo divertido. No final do dia ainda tive um tempinho para explorar um pouco o mercado de Panajachel, mas eu estava tão cansada que já não tinha muitas forças para fotografar. Não saíram tão legais. Mas foi um bom dia. Saldo super positivo. Eu não sei se é por exaustão, ou porque esse é o tempo da coisa mesmo, mas parece que está tudo mais calmo. Como se o meu vulcão estivesse extinto. Sinto progresso na minha técnica de fotografar. Ando calma e minha cabecinha não criou abobrinhas nem uma vez. Parece que tudo está perfeito e que eu estou exatamente onde eu devia estar a cada segundo do dia. Não estou falando de estar na Guatemala, ou em São Paulo, ou no mundo. Estou falando de viver o presente e sentir que ele realmente está acontecendo nesse exato momento. Sem passado, sem futuro. Sem projeção do que poderia ter sido. Estou só eu. Sendo. Um vulcão adormecido na beira de um espantoso lago azul. Acho que é isso. Acho que sou eu. Como a foto aqui embaixo, que vai decorar a sala da minha casa. Se algum dia eu tiver casa.

sábado, 8 de janeiro de 2011

GUATEMALA - DIA 5 E SÁBADO

Sobrevivi à primeira semana. Engraçado que faz tão pouco tempo que estou aqui, e parece uma vida. Estou completamente integrada na rotina, e as crianças... Ah! Como é que a gente pode criar afeto tão rápido? Eu me lembro no primeiro dia quando cheguei. Phoebe me fez uma apresentação do projeto, dizendo as regras que devíamos seguir. Uma das regras é que nós não podemos abraçar ou manifestar afeto pelas crianças na rua da comunidade. Não são hábitos da cultura indígena deles. “Mas quando estamos dentro do projeto, nós podemos abraçar, beijar, apertar.” Eu ouvi aquilo, e eu não me imaginava fazendo essas coisas com crianças completamente desconhecidas. Esse é o tipo de coisa que eu faço com os meus sobrinhos e só. E mesmo assim eles fogem de mim. Todavia, assim que cheguei no projeto foi uma explosão. Existe uma energia tão incrível, tão magnífica. Tudo o que eu queria fazer era abraçar, beijar, apertar aquelas crianças. Fico ansiosa de manhã esperando o momento de fazer isso. E elas se escancaram, pulam no seu colo, te beijo. Ontem, Maylin, uma aluna minha do período da manhã (bem inteligente por sinal) me abraçou no final da aula e disse “Estoy feliz, maestra. Estoy feliz que esteja aquí.”  Me apertou tão forte e disse “Te amo, seño!”. Deus! E para tanta gente é tão difícil dizer “Eu te amo”. Dizem inclusive que se você disser “eu te amo” para um cara, você provavelmente nunca mais vai vê-lo na vida (em compensação, se disser “eu te odeio”, vai ter o melhor sexo da sua vida...).Ontem foi também o último dia de Lyn e Alec. Lá estava eu chorando como uma bundona novamente. Eu e Alec, enquanto as crianças iam uma a uma se despedindo dele. No almoço rolou homenagem e discurso. A hora q Alec começou a falar, a voz embargada (porque ele é bundão como eu) eu já virei e avisei “If you cry, I cry”. E não deu outra. À noite fui com Martin (cino-inglês, também voluntário), Kim (australiano e doidinho, voluntário) e Hannah (escocesa, do staff da GVI e minha nova paixão aqui. Ela é demais!) comer uma pizza para nos despedirmos de Alec e Lyn. Um restaurante italiano de um americano (gato), mas o chef e o barman eram italianos (Gatos. Bem gatos.) A promoção era “Peça dois cocktails e ganhe uma pizza”. Eu e Hannah fomos de Apple Martinis. Quando o  barman soube que eu era brasileira e não tinha pedido caipirinha se sentiu ofendido. Mandou uma caipirinha mega caprichada para eu provar como cortesia da casa (Isso é para eu nunca dizer que nenhum gato pagou um drink para mim!). Depois de dois martinis e uma caipirinha, fomos dançar e tomar cervejas no La Sin Ventura. O lugar é aqueles tipos de infernos que eu só fui porque já estava altinha, não estou no meu país e a compania era boa. Imagina o pior do pop fm. Agora imagina isso em espanhol. Yeah, baby, yeah! Poperô guatemalteco. Acabou sendo divertidíssimo. Kim estava impossível, pulando de um lado para o outro e dançando. Martin estava mais no meu mood de tomar cerveja encostado em um canto. E Hannah desapareceu. Foi abduzida. (Ela está aqui há quase um ano. Completamente integrada a cultura local.) Cada música tinha seu respectivo videoclip exibido no telão... aquela coisa de um cara fazendo pose de mal com óculos escuros enquanto um par de gostosa rebola e faz cara de tesão atrás. Entre um poperô e outro rolava salsa. Kim me encheu tanto que eu fui dançar salsa com ele. Ou melhor, eu fui conduzí-lo na salsa.Tomei minha cerveja. Então um cara me tirou para dançar, a gente arrasou na salsa. Mais cerveja. Tentei ir ao banheiro. Mais cerveja. Resumo da ópera: eu já estava amiga do DJ, pulando igual louca ao som de “I´ve gotta feeling” dos Black Eyed Peas, Hannah rolava de rir e Martin incrédulo. Balada guatemalteca. Com a vantagem que não dá para correr o risco de amanhecer comendo sanduiche de pernil do Estadão porque tudo fecha a 1h. Por lei. Voltei para casa ameaçando Martin de morte caso ele falasse alguma coisa para alguém e acordei hoje às 9h. Quase uma benção depois dessa semana. O café da manhã tinha pasta de feijão e ovo frito de novo, mas dessa vez foi perfeito. Ótimo cardápio para ressaca. Encontrei com Martin e Hannah no Raibow Café (que é um charme. Tem um sebo e um pátio delícia.) e a gente passou o dia como lagartixas tomando Long Island Iced Teas e brigando com a conexão de internet que caía a cada 15 minutos. Quando a luz do Sol baixou Martin foi comido no mercado tirar fotos. O Mercado é como uma feira fixa a céu aberto. Meio como um camelódromo. Praticamente uma Disneyland para fotógrafos. Fiquei doida. Esse país é tão perfeito para fotografar. A luz, as cores, as pessoas. Estou totalemnte apaixonada. Amanhã acordo mega cedo. Saio às 5h para o Lago Atitlán. Mais mega fotos. Quem diria? Eu que não esperava nada!

domingo, 2 de janeiro de 2011

GUATEMALA - PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Eu vim para a Guatemala sem uma imagem pré-concebida. Vim porque vim, nem pensei muito. Não fiquei estudando sobre o país e a cultura até virar PHD como sempre faço. Eu não tinha a mínima idéia nem de qual era a moeda local. Continuo sem fazer, sei que começa com Q e de resto não faço a mínima idéia do que é caro ou barato. O trecho do vôo até o Panamá foi dolorido. Saí de GRU às 4h30 da manhã. Seguindo direto de um jantar divino de Reveillon, com um taxista tagarela até o setor de embarque da Copa Airlines, uma fila chata e demorada de check in, para enfim sentar no assento 18C (detesto corredor) e enfim capotar antes mesmo do avião levantar vôo. Dormi praticamente todas as 7 horas até o Panamá. Mas foi um sono leve, sem comprometimento. Com o corpo dolorido e incomodado. Já as duas horas do Panamá até a Guatemala foram muito mais confortáveis. O vôo estava vazio, sentei sozinha na fileira e ainda pude escolher o lugar. Sentei em frente à passagem de emergência da porta em cima da asa. Dava tanto para esticar as pernas que minhas juntas até estalavam.  Enfim, Guatemala. Vou confessar que me bateu um medinho quando vi policiais com cachorros andando em cima das esteiras de bagagem, cheirando minha mala. Depois ainda escanearam e checaram meu passaporte umas 3 vezes mesmo depois de ter passado pela imigração. Falaram que era procedimento padrão. Eu tive um flash daquela cena de “Bridget Jones” quando ela vai para a Tailândia, mas mandei a imagem embora rapidinho. Só para não atrair. Uma representante do projeto estava me espeando na saída. Phoebe é uma australiana linda de 21 anos, muito inteligente e um poço de simpatia. Fomos conversando pelo caminho até Antigua, que fica cerca de 45 minutos de Guatemala City e é onde será nossa base. Deixamos minhas coisas na casa da minha host family e ela me levou para um tour prático pela cidade. Onde fica a lavanderia, onde fica caixa eletrônico, onde fica o supermercado, a farmácia, papelaria, internet café, correios, e a loja com o melhor espresso da cidade. Guatemala é uma grande produtora de café. Tenho uma certa expectativa em degustar muitos grãos diferentes nas próximas semanas. Depois sentamos para ela me fazer uma apresentação geral do projeto. A GVI é uma ong que atua em dezenas de países de Terceiro Mundo com projetos que agreguem melhorias urbanas, sociais ou ambientais. Esse projetos são financiados por doações e por voluntários que se dispõe a participar de um dos projetos pelo período mínimo de 2 semanas. Eles possuem escritórios na Austrália, UK, Irlanda e EUA, logo a grande maioria dos voluntários são desses países. O projeto que eu vou participar é uma escola em San Andrés Itzapa, um povoado indígena nas montanhas a 40 minutos de Antigua. O projeto todo é muito interessante, mas vou falar um outro dia dele aqui para não me alongar muito. Depois da explanação geral sobre o projeto, Phoebe me orientou sobre todos os riscos e perigos que podem acontecer durante minha estada. Desde intoxicação alimentar, até procedimentos de segurança em caso de terremotos. (A Guatemala teve um grande terremoto em 1976. Ele costuma acontecer a cada 30 anos, logo já estamos na prorrogação...) Depois ela ainda me mostrou onde eu terei aulas de espanhol e me apresentou para outros voluntários do projeto. Todos novinhos, mas transmitindo a mesma maturidade que ela. Tomei um suco de laranja com eles, mas fui para a cama às 20h30 da noite, com meu corpo mal aguentando escovar os dentes. Acordei hoje bem cedo, tomei café com minha host family. Angela e Duilio são dois aposentados adoráveis, que me receberam com tanto carinho e atenção que eu morderia a bochecha dos dois se esse tipo de manifestação de carinho fosse aceita por aqui. Dentro das diárias contratadas, eles não fornecem alimentação aos domingos, mas Angela me convidou pra tomar o café da manhã com eles antes de irem à missa. A casa é simples e pobre, mas muito bem cuidada e limpa. As paredes estão bem pintadas, e tem flores na janela. Os móveis estão sempre brilhando como se tivessem acabado de passar lustra móveis. Os dois são católicos, e inteligentes. Ficamos um tempão na mesa do café falando sobre algumas semelhanças e diferenças culturais. Eles pareceram tão acessíveis para me contar sobre a vida deles, algumas histórias do país. Antigua fica no meio de um vale entre dois vulcões. O Agua e o Fuego. Agua está inativo há muito tempo. Fuego vira e mexe cospe suas fumacinhas. Mas nenhum risco de uma erupção hollywoodiana. Agora é o que eles chamam de “inverno altiplano”, um período de seca, calor de dia e frio à noite. De manhã o Sol batia de leve esquentando o ar. Sai para explorar as poucas ruelas de paralelepípedo da cidade. É como uma Parati. Toda tombada, só que com casinhas coloridas. Cheias de lojas lindas de artesanato e cafés charmosérrimos. No centro há uma praça com um chafariz, rodeada pro dois prédios públicos com bandeiras em cima e galerias na frente, e uma igreja linda em frente. Gostoso se perder pelas ruas também para ir descobrindo ruínas, museus, igrejas para todos os lados. Barracas indígenas vendendo de tudo. Antigua é um festival de clichês da América Central. Tudo o que você sempre quis de um país de terceiro mundo. Para fotografar então. É como dar doce para criança. De deixar louco e com água na boca. As pessoas são lindas, as cores muitas e vibrantes. Tudo se contrasta com tanta harmonia. A vida cotidiana é tão interessante. Se você resolver ficar parado por cinco minutos em uma esquina qualquer, vai sair de lá com pelo menos uns 5 shots diferentes com jeitão de National Geographic. Parece que a cidade inteira estava acontecendo para minha lente hoje. Tirei mais de 300 fotos. Os indígenas olham um pouco desconfiados, mas no geral são um povo simples, do bem. Eles sorriem o tempo todo. Todo mundo te cumprimenta na rua, “Bueno Año”, “Buena Tarde”.  Mesmo depois das 11h, quando as ruas são invadidas por turistas em busca de um brunch de domingo, ainda assim a cidade não se descaracteriza. Não perde seu charme. A vida é. De um jeito despretencioso, descompromissado com tudo o mais que exista fora no mundo. Como viver em um quadro mágico de Frida Khalo. Não sei se é Antigua, ou toda a Guatemala, mas as pessoas aqui parecem que sabem de algum segredo. Algo que lhes confere uma leveza, uma plenitude que se conserva acima da pobreza, das limitações sociais, dos preconceitos, dos conflitos etnicos internos. Talvez seja coisa de quem está protegido e rodeado por tantos vulcões. Talvez não seja nada, mas eles querem nos fazer pensar que eles sabem de algo que não sabemos. Só sei que, assim de cara, Guatemala me parece um refúgio perfeito. Um universo paralelo de tudo o que eu achava que era mundo. Talvez seja algo que eles coloquem na água, vai saber... Também não quero pensar. Não quero concluir nada. Tudo é tão colorido, que eu vou apenas sorrir e cumprimentar as pessoas na rua.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

STRIKE A POSE!


Minha primeira câmera fotográfica eu comprei com 18 anos. Uma Pentax K1000. Acho que esse era o modelo “minha primeira reflex” de todo mundo na época. Fui lá na Sete de Abril. Dinheirinho juntado e mais ajuda da mamis. Comprei a Pentax, um filtro skylight, dois rolos de filme P&B da Fuji ISSO 400 e um envelope de papel fotográfico. Me inscrevi em um curso do Senac. Sonhava em juntar mais dinheirinho e comprar uma tele. Uma Nikon automática. Sempre gostei muito de tirar foto de gente. Na mesma época eu faculdade também tive aulas de fotografia. Mas era mais genérica. O legal era que o laboratório era liberado. Eu podia brincar de revelar filmes e ampliar. Experimentar técnicas de máscara, ficar na sala escura por horas. Tudo saía meio tosco, porque eu ainda estava aprendendo. Mas eu amava. Quando saí da casa dos meus pais, com 21 anos, fui dividir com uma amiga fotógrafa. Procuramos um apartamento planejando transformar o quarto da empregada em uma sala escura. Não preciso dizer que o quarto da empregada nunca mudou de status. A gente ficou tão ocupada com os 20 e poucos anos que tudo foi ficando procrastinado. Fiquei tão ocupada me tornando a “dancing queen”, descobrindo a música eletrônica (pois é! Eu já gostei disso...), fazendo um milhão de amigos... Até que eu fui ficando cansada da noite. Então a gente envelhece, entra na corrida das carreiras. Começamos a priorizar a conta bancária (que nunca ficava positiva), o corpo em forma, o sapato de marca. Os relacionamentos se complicam. Será que eu caso? Será que eu compro uma bicicleta? Será que eu vou na liquidação do QBazar no Jockey? No Ano Novo eu sempre fazia minha listinha de objetivos. Imprimia em uma cartolina, plastificava e colocava na agenda do ano. Nela tinhas as coisas que eu queria conquistar. Academia 3 vezes por semana. Trocar de carro. Emagrecer 6 Kilos. Viajar para NY. Comprar um laptop. E uma mega câmera fotográfica. E assim iam se passando os anos. Eu nunca comprava a câmera. Durante esse ano, durante toda a jornada que passei, eu fui revendo tudo o que eu gostava, o que eu queria, o que eu era. Então eu achei aquela garota descabelada, que queria ter uma sala escura no quarto da empregada. Achei ela perdida dentro de mim e me perguntei “Porque mesmo que eu a abandonei?”. Então quando eu estava fazendo minha lista de “Coisas que eu gosto”, meu passaporte emocional de volta para casa, eu coloquei lá. “Comprar uma mega câmera fotográfica (e fazer um curso de foto)”. Dessa vez eu fiz. Porque agora o foco é não me perder mais de mim. Troquei idéia com amigos que fotografam sobre equipamentos, aceitei dicas e, antes de embarcar de volta, comprei minha primeira câmera reflex digital. Uma Canon EOS 500D e mais três jogos de objetivas. Uma mochila linda para carregar todo o equipamento. Me inscrevi em um curso de foto que começava logo no dia que eu cheguei. Não quero nunca mais procrastinar. A gente vai deixando para depois até um dia que não nos lembramos mais porque estamos fazendo as coisas que fazemos. Com toda a bagunça que ainda eu preciso organizar nessa minha vida de volta, eu tenho ido no curso de foto direitinho. Fazendo dois módulos logo de cara. Os módulos mais básicos. Relembrando tudo aquilo que aprendi quando todas as câmeras eram analógicas e a gente nem sonhava com todos esses recursos digitais. Logo de cara tava sendo 10x0 para a câmera. Agora já estou começando a ter um pouco mais de domínio. Deixando de ser uma apertadora de botão e pensando na foto. Hoje voltei para casa cheia de orgulho. Durante nossa saída prática no curso de hoje à noite, resolvi bater uma foto da minha cidade. Apoiei a câmera em cima do Viaduto do Chá e fui exercitar foto de movimento. O resultado é esse aí. Não está perfeito, mas me deixou feliz pra burro. Tirei umas 5 fotos antes dessa até acertar o tempo de exposição para conseguir os risquinhos. São esses os tipos de detalhes que a gente esquece e a prática vai deixando cada vez mais automáticos.  Cada dia eu vou desperdiçar menos cliques. Estou apaixonada de voltar a fotografar. E ainda tenho São Paulo posando para mim.