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segunda-feira, 24 de março de 2014

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Uma vez a Noemi falou que se você praticar 5000 horas de alguma coisa, você vira expert nisso. Por exemplo, se você praticar 5000 horas de uma música no piano, vai virar expert nela. Ou praticar a escrita, um movimento de ballet, O que seja. Mas precisa ser uma prática dedicada, consciente. Então resolvi virar uma expert também. Em cupcakes! Há mais de um ano eu comprei um livro da Martha Stewart sobre como fazer cupcakes. Na época comprei também as foras e detalhes de decoração. Nunca saí da intenção. Nesses dias em que tenho sentido uma vontade violenta de reclusão e trabalhando muito na escrita, sempre rola aquele momento em que preciso relaxar um pouco. Quando o capítulo emperra e é hora de tomar um chá, fazer algo para distrair, antes de retomar o trabalho. Pois eu tenho feito bolos. A ideia é chegar à supremacia do cupcake. Lindos e decorados, como aqueles que vendem nos quiosques do shopping e eu desejo a morte do inventor sempre que me rendo e compro quatro de uma vez. E como os quatro de uma vez, sem um pingo de culpa. Pois bem, fiz hoje muffins de fubá orgânico, com farinha de trigo integral e.... o resultado foi decepcionante. Ficaram secos e estranhos. Mas gostosos, se comidos junto com o café. Acho que a farinha de trigo integral exige um pouco mais de leite, ou de manteiga. É muito pesada, deixa bem ressecado. De qualquer forma, como meu prazer está em fazer os bolinhos, distribuí todos por aí. Levei na redação da revista, na escola da minha mãe, fiz sacolinha para a Jô. Todo mundo comendo muffing ressecados de fubá e achando gostoso. Foram muito bem orientados a mentir na minha cara. Nada de jogar no lixo na minha frente. Disfarça, espera eu ir embora. Já sei quais serão as próximas experiências. Um pão de mel com cobertura de chocolate meio-amargo, e bolinhos prestígio, cheios de coco. A expectativa está boa. Vamos ver a realidade. 

domingo, 16 de março de 2014

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Dei um pulo hoje na Feirinha Gastronômica com as gêmeas e encontrei o Kqui que veio me agradecer pela entrevista que fizemos para a Vida Simples no ano passado. Eu sou tão pastel que nem vi a entrevista. E olha que eu leio a revista inteira de cabo à rabo todos os meses. Saiu na edição de dezembro, em que lançamos a campanha #chegadedieta. Acho que fiquei tão hipnotizada com a matéria de capa que nem me dei conta. De qualquer forma, fui lá no meu acervo de VS e fiquei feliz. O Kqui é um cara muito legal, um agitador cultural. Acho incrível a força que ele tem para criar projetos que dão certo. Conseguiu transformar a Praça Benedito Calixto em point paulistano também aos domingos. No dia da entrevista ficamos mais de uma hora falando sobre democratização, cultura de rua e a nova lei que - finalmente - legaliza a comida de rua. Uma pena que tínhamos um espaço pequeno, ele tem muito o que falar sobre o assunto. É inspirador. Dá vontade de experimentar mais, e de também fazer algo para deixar essa cidade melhor. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

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Terça-feira tem uma feira livre bem aqui na porta de casa. Para ser sincera eu não vou sempre. Estou sempre muito ocupada trabalhando, ou longe, na escola. Hoje resolvi parar tudo e fazer uma dessas pequenas coisas que a gente tem o privilégio de ter no Brasil: almoçar pastel de palmito e caldo de cana na feira! Sim, é uma bomba calórica. Mas, sim, é uma das coisas mais gostosas da vida. Sentar em um banquinho, no meio da rua, ouvindo os gritos dos vendedores da feira. Comer um pastel sequinho, tomar um grande copo de garapa com limão... E a vida fica maravilhosa, sendo simples. Com pouco, muito pouco. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

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Balde de Homus, que eu mesma fiz! 

Hoje a Quinta-feira da Champagne dançou. Baixou a Mônica Geller de manhã e eu limpei a casa inteira. Arrumei a geladeira, lavei louça, cuidei das gatas. Eu dou conta da casa, eu gosto. Mas como eu sou free-lancer e trabalho em casa, acabo consumindo horas preciosas que precisava estar trabalhando. Quero ver se consigo dar conta da casa durante as férias da Jô. Sem precisar chamar faxineira, nem nada. No andar de baixo está tudo ok. Agora o de cima... O banheiro precisa de um banho. E o escritório continua caótico. Será que consigo colocar ele em ordem até domingo!? É a grande dúvida da humanidade. Também, para dar conta da arrumação eu cabulei a academia. Tem algo que desperta em mim muito bem-estar nessa coisa de ser dona-de-casa. Não que eu conseguisse só fazer isso da vida e não trabalhar, longe disso. Mas adoro cuidar da minha casa. Adoro deixar as coisas em ordem. Me sinto muito bem quando está tudo bonito, organizado e limpo. Me sinto uma pessoa melhor. De verdade. E como meu embalo estava produtivo, aproveitei para ir no mercado natural e comprar a lista da nutricionista. Tão empolgada que cheguei em casa louca para cozinhar. Fiz grão de bico, feijão, pizza integral, torta de palmito e arroz com açafrão. Eu sempre usei açafrão em pó. Mas a nutricionista falou para eu aumentar o consumo de raizes, e frisou o açafrão. No Apanã sempre tem açafrão orgânico para vender. Eu sempre confundo com gengibre. Nunca tinha comprado. Mas fui lá, muito feliz, ralar o açafrão fresco para colocar no arroz integral. Acontece que açafrão é pior do que beterraba. Mancha, e mancha forte! Faca, tábua, ralador. Inclusive meus dedos e unhas. Tudo amarelo! De tanto esfregar, agora a esponja de lavar louça também está amarela, e o pano de prato - não faço ideia como. O arroz ficou ótimo, mas passei algumas horas na internet tentando descobrir como tirar as manchas. Algumas saíram. Os dedos e a unha continuam. Parece que eu tenho hepatite. Queria saber como os chefes de cozinha fazem. Por enquanto, vou na manicure amanhã tentar resolver. E a cozinha ficou um caos. Quem sabe amanhã a Monica Geller aparece novamente e dá um jeito em tudo. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

CUBA: TODA, INTEIRA E DE UMA VEZ



Pois é. Primeiro choque de Cuba foi me deixar completamente incomunicável virtualmente. Nos últimos dias até consegui internet (mas só porque estávamos em um hotel 5 estrelas), mas ela era cara, lenta e usei só para trabalho. Os planos de postar um diário da viagem foram por água a baixo. Agora, de volta, estou amargando uma virose chata no sofá de casa e vou fazer um resumão. Vai ficar um post longo, mas serve para situar um pouco da experiência que tive na ilha, e dar umas dicas para quem pensa em viajar para lá em breve. Vamos lá!
Primeira coisa a se notar, Cuba fica longe! Eu achei que o trajeto fosse mais curto, ainda nosso vôo tinha conexão em Lima, então fizemos um triângulo na América Latina. Foram quase 12 até chegar em Cuba, e depois mais duas de ônibus até chegar em Varadero. Some a isso que agora é regra nas companhias aéreas servir pão. É um tal de lanchinho aqui, lanchinho ali. Meu humor estava no chão. Eu estava voando na jugular de qualquer um que chegasse na minha frente. Tanto que virou frase de ordem durante a viagem sempre que o stress se instalava: “Olha o mau humor!”. Não dá para viver sem humor. 

Cubanos -
Primeira coisa que a gente percebe logo de cara, os cubanos nos adoram! Eles amam o Brasil e só de dizer de onde somos, eles abrem um sorrisão e repetem prolongando o final: “Brasiiiiilllll!!!!”. Acho tão gostoso esse fascínio que o Brasil gera em todo mundo. Onde vamos, as pessoas amam os brasileiros (menos em Portugal). Muito bom ser um povo amado, sinônimo de alegria, de felicidade, de coisa boa. Depois de relaxarem um pouco e abrirem o sorrisão por sermos brasileiras, o comentário era obrigatoriamente a principal referência brasileira que eles têm: novelas! Agora estão assistindo “Insensato Coração” e a reprise de “Por Amor”. Todos comentam da novela e perguntam sobre a trama. A gente se divertia contando segredinhos que estavam por vir. Eles adoram! A novela passa em horário nobre, três vezes por semana. O governo intercala o horário com uma produção cubana, para alavancar a audiência da novela nacional. Outra unanimidade é Glória Pires. Eles amam Glória Pires. Homens, mulheres, velhos e crianças. Todos eles perguntam de Glória Pires, se conhecemos Glória Pires e como ela é. Acho que se algum dia ela for para Cuba, os próprios irmãos Castros estariam esperando-a no aeroporto. Usando camisas polo da Lacoste. Depois dessa introdução comum a todos os cubanos as reações se dividiam dependendo do gênero do nosso interlocutor. Se fosse mulher, conversávamos normalmente sobre as unhas, as melhorias da abertura, o emprego. Agora, se fossem homens, começava um assédio insuportável. No começo a gente sorria, e até se sentia lisonjeada, mas logo se aprende que em Cuba fazer contato visual é perigoso. O povo gruda em você e não larga. É sério. Então diziam que éramos lindas, que mulher brasileira era a mais bonita do mundo, estalavam os lábios e puxavam o ar fazendo barulho, chamavam de Miss Brasil, pediam em casamento. Acho que recebi uns 200 pedidos de casamento. Isso é para acabar com qualquer crise pós-35 que uma mulher solteira possa ter. (Embora nenhum dos pedidos veio acompanhado de uma aliança Tiffany’s com diamante princess cut de 1ct.) Se a essa altura a gente não desse logo um corte no rapaz, a coisa ficava mais complicada. Começavam a colocar a mão, puxar pelo ombro... e dava um pouco de medo. Demorei alguns dias para inventar um “novio” e usá-lo para escapar de todas as situações. Outra coisa que era comum a todos cubanos, homens e mulheres: todos fechavam a cara quando o assunto era política, Fidel ou o governo cubano. O sorriso sumia, os olhos se enchiam de medo e então a gente descobria que eram pessoas tristes, sofridas. Toda aquela alegria e simpatia faz parte do mis-en-scéne turístico. Coisa para inglês ver. 

Dinheiro -
Em Cuba há duas moedas, o peso cubano e o peso convertible, ou CUC. O CUC é a moeda usada pelos turistas e tem taxa de 1-1 US dólar. Embora a base de cálculo seja o dólar, a melhor moeda para troca em Cuba é o Euro. Se você for tentar trocar dólares pagam CUC 0,80 por US$1. É a vingança comunista. Trocar CUCs ou qualquer outra moeda pelo peso cubano só no mercado negro, e certamente você via perder muito no câmbio. De qualquer forma, todos os serviços, lojas, restaurantes, taxis vão te cobrar em CUCs. A gente não tem muito acesso aos estabelecimentos dos cubanos. Tentamos entrar em um mercado do governo e quase fomos enxotadas. Era um salão grande, com grãos a granel e produtos com cara de baixíssima qualidade. Os produtos de higiene eram estranhos, todos com embalagens genéricas. Também havia uma longa fila para comprar pão (1 por pessoa) e um bar com café e rum baratos. Me proibiram de tirar fotos e disseram que não podíamos consumir nada ali. Lá os cubanos podem comprar produtos baratos ou trocar seus talões de “ração”. Ninguém morre de fome, mas estão muito longe poderem dizer que comem de verdade. O regime garante que todos “se alimentem”. O básico para sobreviver. Todo mundo sabe que existe uma grande diferença entre viver e sobreviver. O comunismo garante só a segunda opção. As pessoas mais ligadas ao partido garantem empregos mais privilegiados em hotéis e restaurantes, onde se recebe “propina” dos turistas. Embora os taxis sejam caros, não é tão lucrativo quanto uma camareira de hotel. A gasolina é muito cara e, por mais que ganhem em CUC, mais de 75% fica com o governo como pagamento de impostos. Camareiras além de gorjeta, ganham presentes e produtos dos hóspedes. Nós deixamos shampoos, cremes, pasta de dentes, sabonete, perfumes. Ela quase nos levantou no colo de tanto que agradeceu. Além de péssima qualidade, os produtos de higiene cubanos são caros e com o pequeno orçamento acabam virando itens supérfluos no final do mês. O salário médio cubano varia de 350-450 pesos. Algo como 13-18 CUCs. Eu comprei um shampoo na lojinha do hotel que era esse preço. É isso mesmo. As pessoas passam o mês com R$35 e um talãozinho de ração. Vidão!

Carros - 
Uma das imagens mais icônicas do meu imaginário do que seria Cuba era a frota de carros. Sonhava com aquele país parado no tempo, cheio de latas velhas sem manutenção e Bel Airs rabo de peixe. Eles continuam lá. Junto com Ladas aos montes. Muitos passaram por tantas funilarias que viraram carrocerias disformes, e mal se consegue determinar o modelo original. Mas há muitos carros impecáveis, brilhando. Compondo um quadro irresistível com os prédios em ruínas ao fundo. A surpresa veio da quantidade de Peugeuts, Kias e Hiundais novinhos em folha que também se encontram por todos os lados. Faz bem pouco tempo que o governo abriu o comércio de carros novos, até por isso não esperava ver tantos na rua. Esse é só um dos sintomas do quanto Cuba está mudando, e em que velocidade. Não vai demorar muito e talvez os Bel Airs sejam reduzidos a apenas alguns para divertimento turístico estacionados na entrada do Bairrio Cino. Não demora muito também para descobrir que todo e qualquer carro na rua é um taxi em potencial. Existem cinco modalidades de taxis: 
Os de empresa: são amarelos e se parecem muito com os rádio-taxis de São Paulo. Podem ser facilmente identificados nas ruas e alguns deles até tem taxímetro. Taxímetro é artigo de luxo e encarecem bastante o trabalho para os taxistas que são hiper-taxados pelo governo. Quase nenhum taxi tem. 
Os regulamentados: são taxis particulares, com motoristas regulamentados pelo governo. eles possuem carteirinha, registro, luminoso no teto do carro e, obviamente, pagam também uma fortuna de impostos. 
Os ilegais: nessa categoria entra praticamente qualquer carro nas ruas de Havana. Em sua maioria Ladas velhos e caindo aos pedaços, com bancos de mola estourando na sua bunda e maçanetas que podem te passar tétano. 
Os lotações: esses são carros comuns que dificilmente pegam turistas. São os mais usados pelos cubanos. Fazem um trajeto fixo e vão pegando pessoas pelo meio do caminho. São baratos, cobram em pesos, ou o mínimo em CUCs. Pegamos um desses só uma vez porque um casal cubano foi muito gentil e nos colocou lá dentro, senão nunca teria parado para nós. Nos cobrou apenas 1CUC por um trajeto em que normalmente nos cobravam 5CUCs. 
Os coquitos: são as tradicionais lambretas com carroceria em formato de coco. Vale para fazer trajetos curtos, porque não são as coisas mais confortáveis do mundo e à noite, com a temperatura mais baixa, você passa frio. Cobram o mesmo tanto que os ilegais, mas possuem autorização para trabalhar. Me lembraram os tuk-tuks que eu pegava na Guatemala. 
Com exceção dos regulamentados, todos os outros vão sempre tentar te dar um golpe. A boa notícia é que você nunca vai saber se estão mesmo dando um golpe ou não. Com a falta de um taxímetro o preço é estabelecido basicamente pela sua cara. O motorista olha para a sua cara e imagina quanto acha que consegue arrancar de você. No geral nós tínhamos cara de 10CUCs, porque qualquer trajeto que tentávamos fazer custava isso. É preciso negociar e ter muita paciência. Nas calçadas nós éramos atacadas por taxistas e representante o tempo todo. Depois de alguns dias estava tão farta da cara de pau dos taxistas que parei de negociar. Entrava no carro, se me falassem um valor muito alto, eu simplesmente dizia “No, gracías.” E saía do carro para procurar um outro. Eles podem até ter um regime comunista, mas eu cresci no capitalismo, onde impera a lei da oferta e da procura. E lá, há muito mais oferta do que procura.

“No, gracías” -
Golpes. O tempo todo vai ter alguém tentando te dar algum tipo de golpe. De todos os tipos. Eles não vêem turistas como iguais. Às vezes tinha a impressão que o regime os deixou tão individualistas pela sobrevivência que eles não vêem ninguém como igual. Por isso mesmo vão sempre tentar se aproveitar, passar a perna, te explorar de alguma forma. Seja cobrando 10 vezes o valor do produto, seja inventando uma história para te ludibriar a comprar gato por lebre, um cubano nunca vai vir conversar com você sem algum interesse por trás. A melhor coisa é relaxar e saber que invariavelmente você vai cair em algum golpe na sua estadia. É melhor pensar assim para não ficar muito revoltado quando acontecer. Claro que existem os mais óbvios. Quando estávamos indo para a Fábrica de Charutos  fomos abordados por um rapaz na rua que, depois do ritual Brasiiiilll-novela-brasileiraslindas-casacomigo nos garantiu que a fábrica estava fechada naquele dia porque era um feriado nacional onde “somente aquele dia” o governo permitia que as cooperativas de funcionários da fábrica vendenssem charutos em suas casas pela metade do preço. Para um desavisado parece mesmo a sorte do século! Qual a possibilidade de você estar viajando bem no dia de tão maravilhoso feriado!? Claro que é uma história inventada para levar turistas mais ingênuos para casas particulares onde se vendem charutos (de baixíssima qualidade, diga-se de passagem) no mercado negro. Eu já estava avisada desse tipo de golpe, então continuei sorrindo, agradeci a dica e enfiei meu “novio” na jogada. “Ah, que pena que a gente não sabia disso antes, mas é que meu ‘novio’ já está nos aguardando lá na fábrica. Quem sabe da próxima vez!?”. E sai andando. Depois de dois dias eu já nem me dava ao trabalho de inventar muitas desculpas. Só repetia, sorrindo, “no, gracías”, sem parar de andar, até o indivíduo desistir. Vencer pelo cansaço. A Lau me perguntou se o assédio era como no Marrocos. É bem diferente. Nas suks eles também pulam no seu pescoço e é um perigo fazer contato visual, mas a diferença é que o marroquino é um negociador. É uma coisa cultura. Ele tem um produto e ele vai exaltar todas as qualidades para conseguir o melhor preço por ele. Ele não quer te oferecer um lenço por 100 dirhans, para você pagar e ir embora. Ele quer que você barganhe, negocie, argumente. Ele conhece o produto que tem em mãos e você vai saber quando chegou no limite do que ele realmente vale. Em Cuba não. O que eles querem é te extorquir, te fazer de trouxa. O prazer está em enganar, levar vantagem. Fazem os vendedores de canga e taxistas cariocas parecerem trombadinhas pés de chinelo.

Segurança -
Com tudo isso você pode pensar que Cuba é um lugar perigoso. Não é. Super seguro! E a sensação de segurança é presente. Mesmo à noite, mesmo sendo mulher andando sozinha. Pode-se sacar dinheiro em caixa eletrônico no meio da rua, andar com câmeras a tira-colo, exibir IPhone, relógios, jóias. Sem nenhuma preocupação de ser assaltada. Parece estranho em um lugar onde as pessoas vivem com tão pouco e são expostas constantemente a uma abundância que não podem ter acesso, mas essa segurança tem pouco a ver com o caráter do cubano e muito mais a ver com a polícia do regime. Cuba tem um policiamento ostensivo, violento e implacável. Faz a ROTA e o BOPE parecerem seminaristas. Nos hotéis existem casos de furtos de dinheiro. Objetos, jóias, eletrônicos são mais complicados de justificar a posse, mas algumas camareiras podem não resistir de ver exposto o valor muitas vezes de um ano de trabalho. Nada que usar o cofre do quarto não resolva. 

Comida -
É horrível! Comi muito mal na maior parte do tempo. Tudo tem gosto artificial, enlatado, de baixa qualidade. Quanto mais fresca a comida, mais cara, então é um festival de purê de batata em pó, molho de tomate aguado, massas rançosas e arroz azedo. O queijo tinha gosto de plástico. Comer era sempre uma aventura, e muito caro para o que se oferecia. Em tudo, a Cuba em CUC era bem cara. Encontramos algumas opções mais palatáveis depois de quebrar um pouco a cara, e nisso vimos um certo refresco de uma Cuba que está aos poucos renascendo e se abrindo para o mundo. Havana está começando a ter novos endereços, restaurantes, cafés. Em imóveis reformados, muito bem decorados, com equipe treinada e chefs treinados nas técnicas culinárias. Nesse lugares encontramos uma comida criole revisitada e saborosa. Outra surpresa foi almoçar no La Bodeguita del Medio. Nem tínhamos planejado isso, por ser um dos endereços mais turísticos de Havana, mas os turistas passam em frente, tomam um mojito, tiram fotos e vão embora. No salão dos fundos fica um restaurante vazio, farto e de ótimo preço. Comida caseira, muito bem feita. Comi arroz de mouros, batata doce, banana frita e salada (com folhas!!!). E o mojito deles é mesmo o melhor de Cuba! Os restaurantes do hotel também salvavam a pátria. Ficamos no Meliá Havana, que é maravilhoso. Mesmo quem não liga para estrelas, como os preços são mais ou menos os mesmos, vale a pena ficar nesse. Limpo, seguro, correto, equipe muito atenta e com internet (Yeay!!!). Você não vai encontrar isso em nenhum outro lugar de Cuba.

Varadero -
Varadero é aquilo. Uma coleção de resort cafona, um atrás do outro. Coisa de chorar de rir de tão ridículo! No nosso tinha até show de cabaré todas as noites, daqueles bem decadentes, de inspirar nossos mais profundos instintos de vergonha alheia. A praia é incrível! Uma faixa sem fim de areia branca, um mar calmo e delicioso de água limpa e cristalina. Tudo aquilo que você espera quando junta as palavras “férias” e “Caribe” em uma frase. Mas como eu não sou muito rata de praia (por mais que quisesse, meu bronze vai de rosa à roxo sem escalas), passamos um dia só lagartixando na praia e provando todos os tipos de drinks. Nos outros dias fui buscar tours e passeios para fazer. Fui mergulhar na Baía de Cochinos (a Baía dos Porcos, cenário de episódios da Revolução) em um paredão de corais que dizem chegar à 200m. Não sei. Fui até 30m só. Maravilhoso! Vi peixe escorpião (que era louca para ver) e nenhum tubarão. Agora que não tem mais cubanos em boias no caminho para Miami acho que eles migraram para outros lugares. Queimei minha perna em alguns corais de fogo. Vi uma embarcação de pequeno porte naufragada bem raso. Uns 10m apenas. Visibilidade excelente, alcançando 30-40m, água a 29oC. Perfeito! No outro dia fizemos um safari de 4x4. Pegamos um jeep e dirigimos pelas cidades vizinhas, fizemos snorkling, mergulhamos em um lago de água doce dentro de uma caverna e almoçamos em uma fazenda. Pude satisfazer todo meu instinto Felícia e passei a tarde brincando com galinhas, gatos, cachorros, papagaios, burros, touros, cabras e bodes. A melhor parte de Varadero é poder explorar um pouco do interior de Cuba em passeios. Me deu vontade de voltar um dia, alugar um carro e viajar entre as cidades até chegar a Guantanamo. 

Arte -
Dizem que Hitler era um leitor voraz, mas que não assimilava nada do que lia. Seja para exibir na prateleira ou para auto-afirmar seus frágeis egos, todo regime totalitário acaba investindo em algumas modalidades artísticas para justificar suas atrocidades. A arte de Cuba é do tamanho da falta de liberdade. Se você tiver que ver apenas um museu em toda sua viagem a Cuba, nem pestaneje. Vá direto ao Museu de Belas Artes - Coleção Cubana. In-crí-vel!!! Reserve uma tarde inteira para ele. Você vai se arrepender se ficar sem tempo. Distribuído cronológicamente, a coleção do museu é abundante, rica, prolixa, enlouquecedora. Eu mal conseguia dar conta de tantas influências, tantas novidades, tantas coisas lindas e maravilhosas todas de uma vez. Poderia ficar aqui falando sobre os artistas cubanos por horas, mas dois me tiraram o fôlego. René Portocarrero e Wifredo Lam. Me parecem esses tipos de artistas que nunca se esgotam na gente. Então, depois dessa avalanche de frescor, angústias, vísceras e úteros, a gente descobre outra coisa que é um pecado no comunismo. A falta de uma lojinha de museu que nos abasteça de livros, catálogos, reproduções que possam ficar reverberando em nossas casas as maravilhas. Uma pena. Mas se o museu não está acessível como souvenir, as ruelinhas de Havana Vieja está carregada de pequenos studios e ateliers. Alguns bem turísticos, mas se enfiando entre um e outro, pode-se achar coisas lindas, interessantes, frescas, feitas por artistas que pintam pelo prato de comida, assim como Picasso em Paris. Dá para levar para casa algumas coisas muito boas por 100-300 CUCs. Comprei dois, de duas pintoras. Muito femininos. 
Outro motivo de orgulho cubano (e que eu não ia perder por NADA nesse mundo) é o Ballet Nacional de Cuba. A famosa cia dirigida por Alícia Alonso. Fui. Chorei. Me emocionei. Foi o ponto alto de toda minha viagem. Estavam apresentando um espetáculo em homenagem à Feira do Livro que acontecia na cidade. Uma sequência de peças. "La siesta del Fauno", primeira coreografia de Nijinski, obviamente perturbadora e genial. Algumas coreografias de Alicia inspiradas em obras de Portocarrero e obras de compositores cubanos e o ponto alto (que encerrou o primeiro ato da noite): o pas de deux do terceiro ato de "O Lago dos Cisnes". O desbunde de coreografia com Viengsay Valdés, primeira bailarina do Ballet Nacional de Cuba fazendo Odile e realizando impecavelmente as 32 piruetas... De tirar o fôlego. Se fosse só por essa peça já teria valido tudo. A viagem, o investimento, tudo. Saí de lá com vontade de virar anoréxica e me dedicar somente ao ballet. Uma pena que já é tarde...

Orgulhos Nacionais - 
Pode ser coisa de turista, mas existem algumas coisas que não se pode sair de um país sem fazer. Em Cuba elas são bem óbvias: rum, tabaco, música. Havana Club é o rum oficial de todos os lugares com um pouco mais de estrutura. É usado nos drinks de Hemingway (o mojito da Bodeguita e o daiquiri do Floridita, ambos ótimos!), e em todos os drinks de todos os bares e hotéis. Todavia, basta uma conversa mais profunda com alguém que entende para descobrir que o melhor rum de Cuba é o Santiago. Trouxe uma garrafa 15 anos. Não bebo rum, e quase não tenho bebido, mas se é para ver fotos da viagem e falar sobre Cuba com os amigos, que seja com o melhor rum. O charuto é orgulho nacional. Talvez o souvenir mais comprado pro turistas na ilha. Os únicos lugares confiáveis para comprar são casas de tabaco, lojas de hotéis e na fábrica. O resto nem vale tentar. São caros. Beeeem caros! Doce ilusão pensar que seriam baratos na fonte. Uma caixinha com 10 Cohibas saem facilmente por 200 CUCs. Os preços variam de acordo com a qualidade e o calibre. Eu aprendi a fumar charutos com meu tio há uns 15 anos atrás. Comprei alguns Cohibas e guardei para ocasiões especiais.
A música talvez tenha sido a única decepção da viagem. Eu esperava ver mais música, mais coisas atuais, verdadeiras. É bem difícil encontrar os endereços onde a música está acontecendo agora sem ter algum contato local. Todo mundo jogava a gente para os endereços turísticos onde as pessoas se contentam com um pastiche de Buena Vista Social Club ou com Gangnam Style em ritmo de salsa. Gustavo Lima também é uma unanimidade na noite (embora eu acredite que é só porque os Castros acreditam que a música é um hino revolucionário à Che: “
Tchê tcherere tchê tchê,
Tcherere Che Che Che, que hoje vai rolar”...). Tudo isso regado a mulheres vestidas como prostitutas (bom, eram prostitutas!) e danças muito sexualizadas. Nossa melhor noite foi no La Zorra y El Cuervo. Uma tradicional casa de jazz no Vedado, que fica em um porão apertado por onde se entra através de uma cabine telefônica inglesa. No palco uma pessoal jovem, músicos muito talentosos e jam rolando solta. É uma casa onde Chucho Valdés tocava e onde Roberto Fonseca toca todas às quintas. Lá também vendem CDs e consegui garimpar algumas novidades, e peguei sugestões com o DJ do que ele achava de melhor da nova safra de jazz cubano. É. Nem tudo está perdido. 

Havana -
Havana é a jóia de Cuba, e a gente não precisa de mais do que alguns minutos para entender por que. Linda! Mesmo decadente, deteriorada. Havana é linda. A gente consegue enxergar a cidade maravilhosa embaixo do abandono e falta de cuidados. As grandes avenidas e plazas. O Malecón interminável. Quando o tempo virou e vimos o mar revolto estourando ondas no muro daquelas calçadas, entendi porque todo escritor cubano coloca o Malecón em algum momento do livro. Ele é a passarela de Havana, e eu também o colocaria como protagonista se escrevesse um livro ali. A arquitetura é um deleite. Havana Vieja exibe ruelas e prédios que não deixam esquecer a colonização espanhola, Centro Havana com suas fachadas neo-clássicas caindo aos pedaços e prédinhos art-déco. O Vedado foi de longe meu bairro favorito. Cheio de gente jovem, paladares, lojinhas e casas de jazz. Nosso hotel ficava em Miramar, um pouco afastado do centro (o que significa 15 minutos de ônibus). Miramar é a Vila Nova Conceição de Havana. Lugar de alto padrão, com mansões gigantescas, embaixadas, jardins. Foi nesse bairro que Che foi morar depois da revolução. Ele e todos os altos cargos do partido. Não são bobos nem nada. Os casarões foram todos tomados pelos líderes do regime. Até hoje são. A melhor coisa para se fazer é se perder entre as ruas de Centro Havana e Havana Vieja. Eu passaria mais uma semana ali, tirando fotos, tomando mojitos e daiquiris. Fumando charutos. Entrando nas dezenas de museus por metro quadrado, livrarias, casas de artesanato. Descobrindo as lojas centenárias deixadas intactas. Havana é o que redime Cuba. Parece que há uma cidade cosmopolita, vibrante, rica, adormecida. Esperando ser libertada. Esperando que os tempos negros passem e ela possa se reerguer e tomar seu posto como uma das cidades mais interessantes do mundo. Aos poucos está sendo restaurada. É bom para os cubanos. É bom para a humanidade. Esse tempo vai passar. Os Castros não vão viver para sempre e, quem sabe, ganhamos Havana de volta. Quem sabe.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

OS INSTINTOS "MULHERZINHA" PARA TRABALHOS MANUAIS



Eu costumo dizer que dentro de mim mora uma Stepford Wife - referência às esposas robôs dos anos 50 no livro de Ira Lewin. Eu queria ter uma cozinha grande, com uma bancada de granito para espalhar massa de pão. Chegar de tarde e fazer um bolo formigueiro, deixar o aroma invadir a casa e passar um café fresquinho para acompanhar. A vida deveria ter bolo caseiro todos os dias. Acordei hoje com uma vontade danada de assar um bolo. A última vez que fiz isso foi um desastre. Consegui fazer a massa explodir, grudou no meu cabelo, no chão. Dois meses depois eu e a Jô ainda encontrávamos vestígios da tentativa em partes do armário. E olha que era de caixinha! Algum tempo atrás resolvi fazer cupcakes. Comprei a forma, um livro de receitas da Martha Stewart. Fiz até a lista de compras. Nunca passou disso. Tenho várias desculpas. A cozinha é pequena, não achei açúcar de confeiteiro. Verdade que nem procurei, mas não estava lá, na prateleira do Pão de Açúcar. Então não achei. Verdade também que a cozinha é pequena. Bem pequena. E eu não tenho uma bancada de granito para espalhar os ingredientes em potinhos e brincar de Ana Maria Braga. Quem nunca brincou de Ana Maria Braga!? Preparar todos os ingredientes bonitinhos em potinhos, e ir seguindo a receita como quem dá aula de culinária na TV!? Às vezes acho que deveria fazer mais coisas manuais. Decorar vasos de flores, pintar coisinhas de decoração para colocar na casa. Fazer potpourri. Arrumar um álbum de fotografias. Ser mais caprichosa. Talvez seja coisa de menina isso, né!? Quem sabe o dia que eu comprar o apartamento. Quem sabe quando abrir a cozinha e reformar a sala eu coloque uma bancada. Uma mini-bancada. Então eu fecho o segundo quarto, faço uma estante só de apetrechos. Com fitas, laços, lantejoulas, cola quente. Faça uma estante para os meus gatos colecionáveis. E um catálogo para os meus CDs. Quem sabe! Por enquanto a única coisa manual que eu faço é escrever. Sai bonitinho. Não é o tipo de coisa que se vê de relance, batendo o olho. Mas se a pessoa para e senta para ler, acha bonitinho. Quem sabe eu não faça aquele bolo com café para acompanhar!? Quem sabe!?

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O MELHOR MACARRON DO MUNDO


Sabe que eu comecei uma nova fase nesse ano. Virei uma “mulher de Chico”. Quando digo isso espero que você imagine aqueles olhos azuis e a voz aveludada cantando “Folhetim”:

“Se acaso me quiseres,
Sou dessas mulheres
Que só dizem "sim!",
Por uma coisa à toa,
Uma noitada boa,
Um cinema, um botequim.”



Daqui algumas linhas você vai desejar muito um desses...

Em síntese, essa nova fase consiste em dizer “sim” para qualquer convite, proposta, sugestão que me façam. É uma tentativa de resgatar minha vida social, já que 2012 foi de silêncio e ostracismo. Então no sábado eu disse “sim” para o convite da Isa de correr no parque, emendar com almoço vegetariano, exposição no White Cube e café para fechar a tarde. Como eu amo cafeterias, eu disse “sim” também para conhecer uma cafeteria nova na Vila Nova Conceição. Não é bem uma cafeteria, mas uma “boulangerie” - ou seja, uma padaria chic. Dos bairros caretas de São Paulo, a Vila Nova Conceição é o que eu tenho mais simpatia. É do lado do parque, cheio de ruazinhas charmosas e muito arborizado. O Marie Madeleine nem fica na rua mais charmosa da Vila Nova Conceição, mas ainda assim a gente esquece que a Santo Amaro fica logo ali do lado assim que entra e encara o balcão de doces. Tão lindos, que eu concordaria em colocar dentro de caixinhas azuis e dar de presente. De cara me senti na Le Fauchon, com aqueles doces que a gente nem sabe por onde começar a morder. Mas não é segredo que eu sou bem conservadora e tradicional, então fui direto nos macarrons. Todo mundo sabe que, da mesma forma que sabemos se alguém cozinha bem pelo arroz com feijão, identificamos uma boa pâtisserie pelo seu macarron. Os sabores já me intrigaram. Nada do quarteto habitual das padarias brasileiras chocolate-café-pistache-morango. Depois de me debater nas opções escolhi três: amêndoas com recheio de nutella, champagne e violeta (sim, a flor). Comecei com o de violeta e... incrível! Casquinha crocante, que se desmanchou perfeitamente assim que coloquei na boca. Foi derretendo, enquanto um aroma de flores inundava meu paladar. Um sonho. Depois o de nutella, que surpreendentemente não era doce em excesso, e repetiu a combinação perfeita de textura. Então o de champagne... É público e notório os meus sentimentos por champagne. Aquele macarron era simplesmente Di-vi-no! Tão suave e delicado, assim como um primeiro gole de Veuve Clicquot no final de uma tarde alaranjada de outono. É. Eu fico poética com comidas. A equipe também é de primeira. Um atendimento tão gentil e atencioso, que a gente se sente habitué depois de 5 minutos. Além dos doces, o croissant, a baguette, até o pão de queijo é divino. Aquele tipo de comida que te faz gemer a cada mordida. Toda essa expertise sensorial não é frescura minha. Depois descobri que os chefs do Madeleine foram treinados pelos ninjas do Lenôtre, e o lugar ainda oferece cursos de culinária, boulângerie e pâtisserie sempre que esses chefs vêem ao Brasil para fazer reciclagem da equipe e atualização do cardápio. Não sei quanto tempo vou continuar nessa fase “mulher de Chico”, só sei que, até agora, as experiências que dizer “sim” têm me proporcionado, vêm surpreendendo meus sentidos. Todos. 


Marie Madeleine
Av. Afonso Bráz, 511 - Vila Nova Conceição
Tel - 2387.0019

http://marie-madeleine.com.br

domingo, 1 de maio de 2011

QUENTE, QUENTE, QUENTE... QUEIMOU!

Funciona assim. A gente começa a ganhar peso. Dormir mal, ficar cansada. Então chega em casa um dia e resolve fazer uma revolução na alimentação. Nada mais de comer enquanto trabalha em frente ao computador. Nada mais de comida em saquinhos, barrinhas de gordura e açúcar. Eu cheguei em casa essa semana e resolvi cozinhar. Gãos integrais e legumes. Tudo bem caseiro para deixar minha pele mais bonita. Coloquei uma espiga de milho em água com sal para cozinhar e fui para o computador trabalhar. O problema de computadores é que eles nos transferem para uma realidade paralela. Uma outra dimensão onde o tempo e o espaço possuem massa, peso, cor e aroma diferentes. Após algumas horas a gente só sente que o tempo passou se a perna começar a formigar. Mesmo assim mudamos de posição e continuamos compenetrados no que quer que estivéssemos fazendo. Eu até cheguei a sentir cheiro de queimado, mas achei que o vizinho fosse desastrado. Como Murphy diz, a desastrada sou sempre eu. Resultado foi uma cozinha tomada pela fumaça. Uma panela jogada no lixo. Louças, paredes, meus cabelos e os lençóis limpinhos que estavam aguardando para serem passados, totalmente defumados. O cheiro de queimado impregna nas narinas, né!? E o jantar virou essa imagem aqui embaixo. Uma vez eu salguei demais a comida e me disseram que era sinal de que eu estava apaixonada. (Neguei. Neguei até a morte, mas eu estava.) Quando a gente produz carvão caseiro é sinal de que?

sábado, 26 de março de 2011

VER A VIDA

Essa semana me sugeriram tomar um banho de sal grosso. De verdade, não como figura de linguagem. Existe um tempo normal das coisas acontecerem. E, quando você muda sua vida completamente, quando você se desfaz de tudo o que tem, quando você fica meses absorvendo o mundo, conhecendo gente e fazendo coisas que você só sonhava em fazer; existe um tempo dilatado para se encaixar em uma vida novamente. O contrato do apartamento nunca sai. O carro nunca é entregue pela concessionária. Todos os problemas do mundo aparecem para você ter de trabalhar mais em coisas que você não necessariamente gostaria. Você nunca consegue ver seus amigos. Ainda tive de viajar à trabalho. Belém do Pará.Passei três dias entre cartórios, escritórios, taxis e o quarto do meu hotel trabalhando no computador. No geral eu não gosto de Belém. Estranha, feia, suja e úmida demais. O calor infernal. Sempre me transmite uma sensação de insegurança. De que a qualquer momento vão me assaltar ou bagunçar meu cabelo. Mas existem os momentos que me deleitam, então eu escolho o que eu acho que os lugares possuem de melhor. No quarto dia, (ou seja, hoje), antes de ir para o aeroporto, peguei o taxi e fui até o mercado. Eu acho que ninguém vai a Belém de verdade sem dar um pulinho que seja no Ver o Peso. O Ver o Peso sempre, com sua cacofonia, cores, risos, gente. A vontade de sair correndo provando tudo, conversando com todo mundo. Eu sou da opinião que a vida é mais intensa em mercados públicos. Existe mais emoção, mais autenticidade. É vida integral, não desnatada. Eu gosto. Passeei sem a câmera hoje. Senti que estava perdendo as fotos mais maravilhosas do mundo. Mas não deixa de ser também um exercício de olhar. Sentei sozinha em um dos boxes. Pedi pirarucu com açaí e farinha de tapioca. Que aprendi a comer com a Carol H. Amo! E foi a Carol H. também quem me sugeriu o Remanso do Peixe. Um restaurante que fica escondido nos fundos de uma vila. Desci do taxi e por um segundo juro que achei que fosse pegadinha. As senhoras sentadinhas nas portas das suas casas, olhando a noite quente e conversando. Tive daquelas refeições de sair flutuando. Tacacá, Moqueca Paraense com arroz e pirão, Escondidinho de banana no creme de castanha do Pará. Flutuando. Ontem almocei no Brasileirinho (também indicação dela. É tão bom ter amiga chef!). Eu não sou expert, mas que delícia. Um arroz de pato no tucupi impecável. Pastelzinho de vatapá e torta de cupuaçu com sorvete de Tapioca. Flutuando. Eu tenho passado por alguns bocados para me adaptar a vida de volta da mochila. Acho que o banho de sal grosso vai sim ser uma boa idéia. Estou encarando algumas mudanças definitivas em tudo o que eu sempre quis para minha vida. De tudo que eu tenho aprendido no furacão que eu estou agora, a melhor é que sempre existem prazeres nos detalhes. Que a gente nunca devia achar empecilhos para uma bela refeição. Que por mais que seja mágico viajar o mundo, a vida fora da mochila é mais concreta e exige muito mais entrega da gente. Não conheci uma só pessoa na estrada que não estivesse fugindo de algo. Todo mundo está sempre fugindo. Chega uma hora que a gente pára e encara. Não dá para fugir para sempre.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

GUATEMALA - DIA 4

Tive insônia hoje. Passei o dia tomando café. É quase imprescindível  tomar café. A gente sai de Antigua às 7h20. São 50 minutos até a comunidade. Chegando lá tenho que organizar o material para a aula, arrumar a sala, checar se todos os cadernos e textos estão em ordem. Então chegam as crianças. É preciso manter a energia alta o tempo todo. Se você der sinal de distração, de que não está 100%, eles te devoram.  Juro que essas crianças te devoram! No intervalo ainda temos que brincar. Não tem essa de sentar em um canto e vigiar as crianças não. Tem de correr, pular corda, brincar de esconde-esconde, dançar, andar de cavalinho. Às vezes tenho dois ao mesmo tempo no colo e um pendurado na perna. Eles acham divertidíssimo. Hoje as meninas estavam rolando no chão de terrra. Literalmente rolando. Então resolveram que seria legal me fazer um penteado. Imagina que delícia. Mãozinhas ávidas fazendo tranças nos meus cabelos. Passei o resto do dia com um penteado super torto na cabeça. A pausa para o almoço é o único momento de alívio. Logo em seguida já voltamos para o projeto e planejamos aulas, e à tarde tudo de novo como o período da manhã. Os alunos da tarde todos os dias foram mais comportados do que os da manhã. Hoje inverteram. Os da tarde estavam terríveis. Eu tinha a sensação que não parava de chamar a atenção. Exaustivo. Dona Helena, a líder comunitária que cozinha para a gente, fez um prato típico guatemalteco especial. Pepián. É um prato sofisticado, que eles fazem em datas comemorativas e casamentos. Demora umas 5 horas para ser feito. Tanto luxo porque os pais de Don estavam visitando o projeto hoje e Don é muito respeitado na comunidade. Nossa, tenho comido tão bem por aqui. Não fui em um único restaurante até agora. Só comida caseira. Eu acho isso luxo. No final da tarde passei na agência de turismo para ver quais as opções de passeio para o final de semana. Quero muito subir um vulcão. A Guatemala tem tantos vulcões. Pode-se subir inclusivo os ativos. Tirar fotos ao lado de rios de lava. Quando meu avião estava pousando eu vi um vulcão soltando um cogumelo de fumaça no ar. É bem impressionante. Parece desenho animado. Na terça-feira durante o jantar, Duilio (meu host father) estava me contando algumas lendas guatemaltecas. Coisas tipo “homem do saco” e “mula sem cabeça”. Todas as culturas possuem suas próprias versões das mesmas lendas. Adoro ouvir sobre isso. Hoje no café da manhã ele me disse que haveria uma apresentação das lendas na Casa de Cultura na praça central. Saí da aula de espanhol e fui para lá assistir. Nenhum dos outros voluntários se animou então eu fui sozinha. Cheguei lá e estavam alguns atores fantasiados dos personagens. Consegui identificar alguns pelas histórias que Duilio me contou. Sentei no fundo, Tinha um projetor de slides, microfone. Rolou uma grande cerimônia, com autoridades locais sendo homenageadas e discursos empolgadíssimos. Eles são bem cerimoniosos esses guatemaltecos. Muitos aplausos, entregas de certificados de honra. Depois de mais de meia hora de blábláblá, começou uma palestra de um parapsicólogo especializado em “estudos do outro mundo”. A palestra não era exatamente uma apresentação de tradições folclóricas, mas um seminário sobre a real existências dos personagens. Um exemplo, uma das lendas mais populares é o  da Chorona. Uma mulher que perdeu seu filho no parto e morreu, e acreditam que vaga pelas ruas durante as noites chorando em busca de seu filho. É uma versão do nosso “Homem do Saco”. Utilizada para assustar crianças. “Mira niño. Se no te comporta, la chorona ven te buscar, porque ella procura su hijo e va atras de los niños.”. O homem, muy serio, usando terno e gravata e tudo, dizia possuir pelo menos cinco gravações autênticas da tal da Chorona. Agora imagina só. Uma palestra com um cara a sério clamando ter provas irrefutáveis do Curupira!? Ai, sei que é feio, mas eu estava quase rolando de rir. Acabei fazendo amizade com uma chinesa turista e saímos para tomar um café. Foi gostoso ter uma pausa da loucura que foi essa semana. Amanhã é o último dia de Alec e Linn no projeto (o casal na terceira idade da Austrália). Acho incrível o pique que os dois têm. Eles seguem para Honduras no domingo. Preciso pensar em algo e propor para as crianças fazerem amanhã para se despedirem de Alec.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

COMER


Eu não tinha pensado exatamente em me empanturrar em Portugal, mas a comida daqui... Hum!!! Me faz ter vontade de engordar 20Kg e ainda pedir sobremesa. Além do bacalhau, que é uma paixão nacional e eu tenho comido dia sim, dia também para ir à forra dos preços absurdos no Brasil, tem os doces também. Muito ovo, açúcar e massa folhada. Bases de pão de ló recheadas com cremes melecados maravilhosos, pastéizinhos, bolos, queijadas. Tudo daquelas coisas que a gente lambe os beiços e ainda fica com os dedos grudentos por um par de horas. Meu favorito, que já virou um hábito, é a “nata”. Uma versão genérica dos divinos pastéis de Belém. Não é em todo lugar que elas são boas, mas no geral é só olhar a cara da pastelaria que dá para sentir o potencial. Não passo uma tarde sem pedir um café e uma nata, e ficar olhando a vida pela janela de alguma pastelaria. Das diversas receitas de bacalhau, minha favorita é a de Bacalhau com Natas. Uma tijelona de bacalhau desfiado, refogado com cebola e temperos e colocado para assar com batatas raladas, creme de leite e molho bechamel. Vem com a superfície gratinadinha e muito azeite… ainda não povei um que não fosse um desbunde.


À parte das informações básicas da culinária portuguesa, precisava muito falar aqui de uma das melhores refeições da minha vida. Sempre que dou umas voltinhas, reservo uma grana para fazer uma boa refeição completa no local. Nem sempre é caríssima, quase nunca na verdade. Mas sempre procuro um restaurante que seja muito bem indicado, quase uma unanimidade; e que traga muito da culinária local. Em Évora fui à “Tasquinha do Oliveira”. Mega recomendado pelo Lonely Planet (e eles nunca erram!), e mega recomendado por 10 entre 10 pessoas que você cruzar no Alentejo. A “Tasquinha do Oliveira” é um micro-restaurante, são 5 mesas apenas, e todo o serviço é feito pelo Sr. Oliveira e sua esposa. Ela na cozinha, e ele fazendo as honras da casa. Abriram o local em 96, com a intenção de vender vinhos e petiscos apenas, mas o boca-a-boca foi rápido e os clientes exigentes, então ampliaram o menu e se tornaram um dos melhores restaurantes de Évora. Cheguei na hora do almoço decidida a seguir qualquer recomendação que o Sr. Oliveira me desse. Para entrada ele tinha exposto no balcão algumas saladas para escolha (acho que vem daí nossa cultura de aperitivos de balcão em botecos). Fui em uma de cogumelos paris frescos curtidos em azeite e vinagre com folhas de hortelã, e pedi um queijo de ovelha feito na região. O queijo, servido em pedacinhos individuais ainda com o tecido envolto, era curado na parte externa e por dentro extremamente cremoso e suave. Feito de leite fresco, o sabor era do azedo da coalhada, só que mais doce e macio na língua. O vinho que Sr. Oliveira me sugeriu foi o Herdade do Pombal, da região de Estremoz. Tão perfeito que se abria em sabores super complexos junto com o queijo e o vinagre. Então ele começou a me trazer várias opções de entrada para eu experimentar. Pataniscas de bacalhau, uma espécie de tempurá feito de massa muito leve de farinha, bacalhau desfiado e bastante salsinha. Parecia um floco de neve gigante de tão leve. E uma outra versão dos cogumelos paris, só que assados com lascas de paio. Como prato, segui a proposta da Rota dos Sabores do Alentejo (um projeto organizado pelo Turismo que estipula um sabor alentejano por mês e que é o grande foco nos restaurantes participantes). Abril é o mês do borrego (carneiro). Então fui de Borrego Assado à Alentejana, que são pedaços de perna e mão de carneiro assados em forno com batatinhas inteiras douradas e servido no molho da própria gordura e saladinha de couve picada. Para acompanhar, Sr. Oliveira me trouxe bolinhas de melão geladíssimas e super doces, que junto com a carne (que parecia uma manteiga de tão perfeita) explodiam na minha boca despertando algumas papilas gustativas que não são sempre exigidas. Cada garfada era um orgasmo, te juro! E enquanto eu estava lá, mastigando borrego e me encharcando com a complexidade frutada da trincadeira (uma casta comum nos vinhos do Alentejo, e a que mais agrada meu paladar), eu resolvi que nunca mais iria comer por come, só para me alimentar e pronto. Decidi que daquele momento em diante toda refeição seria um acontecimento, ou não seria. Quero me maravilhar com a comida, vibrar com os encontros do meu paladar, mesmo que seja um fast food, mesmo que seja pipoca no cinema. Cada refeição deve ser incrível em seu contexto. O ser humano é o único animal que desfruta as nuances da gastronomia, todos os outros apenas se alimentam. É um desperdício negar a si mesmo essa experiência. Acho até que é pecado! Na sobremesa fui superlativa e pedi Sericaia e Encharcada. Sericaia é um doce típico alentejano, uma espécie de pudim feito de farinha, ovos, canela e servido com uma ameixa em calda, e a Encharcada é um doce de ovos, açúcar e canela curtido em calda. Para acompanhar fui de vinho licoroso Mouchão, que é um vinho muito próximo no paladar ao Porto (produzido pela mesma técnica), mas da região. Como toda refeição deve ser terminada com um café (e café ainda é minha paixão), Sr. Oliveira me serviu um espresso bem tirado, com espuma caramelo na superfície e paus de canela fresca para mexer e deixar o aroma. Muito tímido, Sr. Oliveira puxa conversa aos poucos, fala baixo, sorri de lado, e parece ter muito carinho pelo Brasil. Se ele pensa em ampliar as 5 mesinhas para aumentar o faturamento? De jeito nenhum! Está preocupado mais em nunca perder a qualidade. Vai mantendo a vidinha com a esposa, de forma despretenciosa, simples e muito bem cuidada. Espero mesmo que a ganância capitalista fique bem longe de Évora. Enquanto eu flutuava pelas calçadas, ainda anestesiada dessa experiência deliciosa, cheguei a conclusão do seguinte. Comendo do jeito que eu comi, já entendi como foi que a esposa do Sr. Oliveira arrumou o marido.

sábado, 20 de março de 2010

BANAL

Se me perguntarem porque eu resolvi ir para Viseu, eu só tenho uma resposta. Li em algum lugar que era uma ótima cidade para comer. Então fui a Viseu para comer. A cidade em si é um charme também, e essa coisa de conhecer cidades charmosas já está ficando entediante. Eu fico um pouco irritada comigo mesma quando me pego ansiosa, desesperada para ver tudo “o que deve ser visto” como a maioria dos turistas. Não sou uma turista. Acho que não nasci com o gene. Realmente me aborrece a estrutura contemporânea de turismo, de ver tudo pela janela, ouvir os guias, tirar fotos, comprar souvenirs. O que me motiva são coisas diferentes. Vou deixar de ver e fazer muitas coisas “obrigatórias”, porque meu olhar busca outro tipo de coisa. O que me encanta muitas vezes é a fragilidade de um velho passeando com seu cão. É a massa da população esperando um trem na plataforma. O comerciante abrindo a porta da sua loja. O cotidiano, o comum, o banal. Então eu fechei o Lonely Planet, sentei na praça do Rossio e fiquei muito tempo olhando a vida passar. Toda cercada de esqueletos de árvores que vão florecer (mais algumas semanas só, e vai estar tudo verde), tranquilizada pelo som da água na fonte ao lado. Ouvindo as conversas, assistindo duas mulheres do leste europeu mendigarem. Crianças caçando pombas, e para sorte das pombas as perninhas delas ainda são muito curtas para isso. Não consegui nem abrir um livro. A vida que me rodeava já era interessante demais. Tenho pensado no sentido de ler e escrever tantas histórias, quando existem tantas acontecendo ao vivo. E pensando nisso também me dei conta que já faz mais de um mês que não escrevo uma linha. Fui consumida pelo carnaval, a mudança, a viagem, a chegada, a virose, a estrada, e quando dei por mim muitas semanas já se passavam sem que eu escrevesse uma linha. E eu tenho um livro que falta isso para ser terminado. Ele é minha única pendência agora. Preciso voar. Terminar. Porque um novo já se aponta. Depois fui ao Museu Grão Vasco, considerado o maior pintor português da história. A sensação de ficar sentada em frente ao seu quadro “São Pedro” me valeu o ingresso, a viagem até Viseu e toda o dia. Uma daquelas obras que realmente te tiram as palavras. Pena que qualquer reprodução em livro não consegue causar o mesmo impacto de ver a obra ao vivo. Mas em Viseu eu comi. Alguns doces (e esses doces portugueses, vou te falar!) na melhor “pastelaria” da cidade, que depois fui descobrir era de um carioca da Ilha do Governador. Viriato brincou depois que todos os padeiros em Portugal são brasileiros. E desbravei uma ruelinha toda minúscula, cheia de opções de restaurantes e bares. Fiz uni, duni, te e entrei no “O Cortiço”. Bem tradicional, com pernas de presunto penduradas no teto. Vinho de primeira (da região do Dão que rodeia a cidade) servido em jarra de madeira. Morcela, linguiça, Parma e queijo de aperitivo. Pedi uma sopa de legumes de entrada. Um coelho cozido em vinho com batatas como prato. Então o coelho veio acompanhado de uma verdura maravilhosa que eu não conseguia distinguir pelo sabor. Verde escura, pouco folhosa. Na aparência me lembrava um brócolis picado com os talos, mas o sabor não era tão doce. Finalizava um certo amargo de chicória, só que bem mais saborosa. Perguntei para o garçom o nome da verdura. “Ah! Estás a comer grelos.” Corei! Quase me matei para segurar a gargalhada e dei um belo gole de vinho para conseguir repetir o tal nome. Acho o máximo essas peculiaridades da língua, que podem transformar algo tão vulgar em uma verdura saborosa e excelente para acompanhar um coelho cozido. Depois de tanta comida, não cabia mais nada de sobremesa, mas não dispensei o licor. Sai rolando pelas ruas de pedras até o albergue, onde (bem embaixo da minha janela) Joelma me aguardava com os maiores sucessos da Banda Calipso.


Agora estou em Londres. Cheguei ontem à noite, chovendo. Uma jornada para vir de Gatwick até a Old Street Station. Mais uma jornada para conseguir um táxi. Eu e Isa só fizemos uma pizza e tomamos uma cerveja, para desmaiar em seguida. Em Londres quero dar um tempo. Nada de maratona para ver tudo. Pode ser que eu saia daqui sem ter visto a Abadia de Westminster, sem ter passeado pelo Hyde Park. Sem nem uma foto do Big Ben. Não importa. É minha Londres, minha jornada. Vou fazer só o que realmente tiver vontade de fazer.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ADORO AS TAÇAS TRIANGULARES...


Dois cocktails hoje à noite e eu já nem acho que estou deprimida.
Fui visitar bar novo. O Gorilla Café, na Melo Alves. Ao lado do da amiga Dida. Uma casa toda transada, super confortável e um cadápio despretencioso que transita pelo oriental e o natureba. Dahl de lentilha, escondidinho de bacalhau, polentinha caprichada, couscouz marroquino vegeta, sanduiches e massinhas criativas. Cachaça orgânica nas caipirinhas e uma sessão só de martinis no cardápio (como não respeitar um bar tão dedicado aos martinis!!?).
Senti vontade de provar todos, mas o Kallel só me deixou provar dois. O Cosmopolitan e o Watermelon (melância e vodka baunilha). Vou voltar para o resto antes de viajar.
Ah! Os donos, umas delícias! Queridos até dizer chega.
Me like it!

Gorilla Café
Rua Melo Alves, 74
fone - 2364.0436