"...estou procurando, estou procurando. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi." (Clarice Lispector - Paixão Segundo GH)
Mostrando postagens com marcador Escócia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Escócia. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
TUDO NOVO
Noite exaustiva no aeroporto. Embora o sleeping bag tenha sido uma benção (dormi enroladinha e quentinha dentro dele) é ainda bem desconfortável para alguém que nunca cogitou a possibilidade de acampar. Fiquei no setor de embarque onde tinham algumas outras pessoas dormindo nos bancos. Enfiei minha bagagem embaixo e estiquei o sleeping na frente. Do lado ficava a escada rolante com uma gravação ininterrupta e alta dizendo “Please watch the step. If you are carrying a large bag, please consider to take the lift. Thank you!”. Isso sendo repetido um zilhão de vezes por toda a madrugada parecia um mantra nos meus sonhos. Às quatro da manhã a sala estava lotada de gente. Povo passando e empurrando carrinhos e bagagens do meu lado. Levantei, enrolei o sleeping e desci para fazer o check in. Ainda tive de esperar as atendentes da British Airways abrirem para despachar a mochilona. Elas com uma cara de sono tão forte quanto a minha. Fui até o banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes. Me sentindo o próprio Tom Hanks. Eu não tinha jantado ontem, então estava me sentindo um pouco fraca. Comi uma versão light do café da manhã escocês. Pão, linguiça, bacon, ovo frito, café e suco de laranja. A versão completa vem ainda com feijão cozido (!!!), tomate e cogumelos assados e haggis. Eu comi haggis em Edinburgh, e vou falar que não é comida para começar o dia. Haggis é comida de gente pobre que, assim como nossa feijoada, acabou virando tradicional e todo mundo come. Antigamente as melhores partes do carneiro ficavam com as pessoas ricas. A classe média se apoderava dos fígados, rins, coração, etc... E quem era pobre, pegava todo o resto (e eu digo TODO o resto mesmo) triturava em uma massaroca, enfiava tudo dentro do estômago do bicho e assavam. O resultado é uma almondega duvidosa que se come com purê de batata e molho de pimenta. É bem saboroso se você não pensar o que pode ter lá dentro. Mas eu também não penso o que tem dentro de uma salsicha quando como cachorro quente. É só torcer para não morder em nada “sólido” demais (vai que é um dente...). Meu vôo saiu às 6h30 e eu capotei de sono antes mesmo de ouvir os avisos de segurança. Sou tão grata por ter comprado uma almofadinha de pescoço inflável há alguns meses atrás. Acordei com o baque do avião pousando em Gatwick, Londres. Uma hora de conexão e peguei um outro vôo para Dubrovnik. Do meu lado uma adolescente de cerca de 18 anos, muito bonita, digitava frenéticamente no blackberry conversando com alguma amiga por IM. “Agora que veio a tona que papai tem um caso a situação toda tá uma merda. Eu não sei se eles vão se divorciar, ou não, mas mamãe fica fingindo que está tudo bem e eu sou a única que está puta com tudo isso...”. Olhei para o lado e nas outras poltronas estavam a irmã mais nova lendo um dos livros descartáveis de Jodi X, o pai adultero com cara de cidadão exemplar em um blazer Zegna (muito bem cortado por sinal), a mãe e um menino de uns 8 anos tocando o terror. A mulher era bonita, muito bem conservada. Devia ter uns 48 anos, magra, elegante, e com olhos de completo terror. Acontece até nas melhores famílias inglesas. Cheguei em Dubrovnik e passei por um segundo de desespero quando imaginei que minha mochilona havia sido extraviada em algum lugar da conexão de Glasgow para Gatwick. Só susto. Foi a última a sair na esteira, mas saiu. Enquanto eu puxava a mochilona para colocar no carrinho pensei que talvez teria sido uma boa idéia extraviar a bagagem. Minhas coisas essenciais estão na minha bagagem de mão (laptop, diários, HD, cartões e documentos). Ando sentindo que minha “bagagem” anda pesada demais. Talvez eu esteja me agarrando a coisas e insistindo em carregar. Talvez seja melhor largar algumas coisas por aqui... Eu fiz uma sessão estabanada de “Dia da Noiva” em Glasgow antes de voltar para o verão. Resolvi eu mesma fazer minhas unhas, depilação, tingir o cabelo (que sempre desbota depois daquela vez que tive de ficar loira e ruiva... quando eu tinha outra vida.). As unhas estão todas machucadas para variar. E tortas. Deixei o creme depilatório tempo demais, então minhas axilas estão doloridas. Arranquei um pedaço do meu lábio superior com a cera fria tentando fazer o buço. Só dói quando eu rio. O cabelo, todavia, ficou milagrosamente perfeito. Mais escuro e no tom exato do natural. Estava saindo para o saguão aqui no aeroporto (o vôo da Kika chega em uma hora e estou esperando ela para irmos juntas para a cidade) e minha imagem apareceu refletida na porta de vidro. Parei por um minuto. Me olhei no reflexo. Sem maquiagem, com o rabo de cavalo. Os ossos dos ombros estão um pouco saltados porque perdi peso. Meu cabelo escuro como há muito tempo eu não via. Estou no controle da minha vida, pensei. Estou no controle da minha vida. Passei pela porta automática e recebi na cara o bafo quente do verão dos balcãs. Não falo a língua (não dá nem para tentar uma versão Tarzan), não entendo o dinheiro. Agora é tudo novo. Meus primeiros minutos na Croácia e eu já aprendi duas palavras. Voda e Pivo. (Água e cerveja, respectivamente!) Agora é tudo novo.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
THE JACOBITE
Semana passada eu tinha entrado no site da West Coast Railways para ver os tickets para o “Jacobite”. Um dos poucos trem à vapor que ainda funcionam e faz o percurso de Fort William até Mallaig. É ele que aparece nos filmes de Harry Potter e esse roteiro é um dos mais famosos e considerado um dos mais bonitos do mundo. Semana passada os tickets tanto para ontem como para hoje já estavam esgotados. Eu fiz todo meu planejamento de transporte e estadia pensando em pegar esse trem hoje. O Jacobite sai às 10h20 de Fort William. Não dá tempo de chegar de Glasgow em tempo no mesmo dia. Então ontem eu peguei um trem de Glasgow e fui até Fort William para tentar conseguir um milagre de última hora. Eu já tinha planejado tudo, e não estava afim de mudar meus planos. O caminho de Glasgow até Fort William já é um desbunde. Trem comum, mas as paisagens maravilhosas conforme vamos entrando nas Highlands (again!). Cheguei em Fort William e fiquei no mesmo hotel que a gente tinha ficado na sexta-feira. A cidade estava diferente, toda movimentada. Tinha uma farmes´market acontecendo, várias barracas pelo calçadão. Eu dei uma volta, fiquei escrevendo um pouco, lendo. Fui dormir cedo para não perder a hora de manhã cedo. Me informaram que eu precisava falar com os funcionários da West Coast Railways antes do tem partir para ver se conseguia um ticket de última hora. Então lá fui eu com minha mega mochila (que agora está maior ainda porque eu comprei um saco de dormir) ver se eu conseguia entrar no trem. Logo na plataforma tinha uma placa enorme dizendo que estava esgotado. Mas como eu sou brasileira e não desisto nunca, fui falar com a funcionária que organizava as dezenas de crianaças correndo de um lado para o outro e se pendurando nas janelas. Ela me disse que talvez eu pudesse ir de pé, mas que não aceitavam cartão de crédito. Hum! Já que estou aqui, pensei. Vou de pé mesmo. Não tinha nenhum outro plano para hoje e amanhã às 6h30 parto para a Croácia. Quais as minhas opções? Voltar para Glasgow e ficar vagando com minha mochila até dar a hora de ir para o aeroporto? Então resolvi colocar a mochilona em um locker na estação, atravessei a rua, retirei dinheiro e voltei para pegar o trem que ia partir em poucos minutos. Mas, como eu sou uma pessoa de sorte e a vida sempre se encarrega de providenciar tudo o que eu quero, quando eu voltei para comprar o ticket inteiro para viajar de pé, a mulher me diz que houve uma desistência de última hora. Na Primeira Classe!!! O legal é que o vagão da primeira classe é o único conservado original por dentro. Os outros são como um trem comum, só a parte de fora é antiga. Então eu sentei no meu sofazinho super confortável, serviram café da manhã (outra vez, ebaaa!!!). A viagem é um desbunde. E passar por cima do viaduto do Glennfinan foi mais divertido do que eu pensei. Descobri inclusive que esse viaduto (o tal do filme do Harry Potter) foi o primeiro viaduto de concreto construído no mundo. (Viu só!) Na parte de baixo a gente vê um monte de turistas tirando fotos, parados no mesmo lugar em que eu e Y fizemos as fotos com a plaquinha para a MH. Depois de passar o viaduto o trem faz uma parada de 20 minutos na estação de Glennfinan, que é toda charmosinha e tem um vagão restaurante. Foi nessa parada que eu descobri que minha sorte era maior ainda do que eu pensava. Assim que as portas se abriram a plataforma foi inundada por uma legião de crianças correndo, gritando e estapeando os pais. Não só eu dei sorte de ficar na primeira classe, como eu também me livrei de todos os Gremmlins pelo dia todo. Do meu lado, no vagão, viajaram um casal na terceira idade de irlandeses. (Aliás, toda a Primeira Classe era da Terceira Idade. Verdadeiro Coccoon rolando lá!) Super simpáticos e engraçados. Viajam o tempo todo, conheceram já quase o mundo inteiro. Na minha frente foi um homem super charmoso. Piloto da Eurostar, 42 anos. Ele é apaixonado por trems e faz a rota do Jacobite todos os anos. Ele foi me dando as dicas de onde tirar as fotos legais, me contou sobre o funcionamento de um trem à vapor e me levou para almoçar em um restaurante com uma vista linda para as ilhas na nossa parada em Mallaig. Depois na volta, quando chegamos à Fort William, ele ficou comigo esperando meu trem para Glasgow, tomando um pint em um pub perto da estação. Verdade que é um programa meio para crianças, mas não dá para negar que foi um dia quase perfeito. E vou dizer que o “quase” fica só porque agora estou no aeroporto de Glasgow fazendo hora para o meu check in que vai ser daqui algumas horas. Dormir em aeroportos não é mais novidade por aqui. Pelo menos dessa vez eu tenho um saco de dormir.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
GLASGOW
Ai que dó de Glasgow! É o patinho feio, sabe? Ninguém dá muita bola para ele não. Fica todo mundo fascinado com Edinburgh, lavando a alma nas Highlands, e Glasgow acaba ficando por fora da competição. É triste dizer, mas é uma cidade desprovida de charme. Entendi porque 10 em cada 10 viajantes que cruzei me aconselharam a pular Glasgow. Mas não me entendam mal. Não me arrependo nem um minuto de ter vindo para cá. Não tem charme, mas não quer dizer que não seja interessante. Afinal, é como homem. Nem todo homem é bonito, charmoso e interessante. A gente precisa ser generoso na vida. E eu quero, antes de tudo, me tornar uma pessoa melhor. Então eu me joguei nas ruas hoje com o coração aberto para aceitar. Foi assim que a cidade ficou interessante. Glasgow tem um quê de cosmopolita. Não tem nada da Escócia que estava estampada na cara de todas as outras cidades pelas quais passei. Muitas lojas. Muitas marcas. Restaurantes, empresas. Homens ruivos e charmosos andando engravatados pelas ruas. Adolescentes de moicano pink, ou revivendo Robert Smith com maquiagem gótica. Milhões de carrinhos de bebê de gêmeos. O que me leva a pensar que Glasgow deva ser a capital escocesa da inseminação artificial. Existe uma atmosfera mesmo no ar de que as pessoas passaram muito tempo cuidando da carreira. Era aqui que eu iria morar se eu fosse escocesa e yuppie. Muita gente de tudo quanto é lugar também. E nada de gafanhotos pela rua. Uma benção! Claro que vários turistas devem estar tirando fotos por aí, mas a cidade é maior do que o espetáculo. Camufla os gafanhotos. O centro é cortado por dois calçadões para pedestres que fazem uma cruz. Me lembrou a Rua Direita no centro de São Paulo em dia de pagamento. Uma babel de gente. Brancos, negros, asiáticos. Em uma esquina alguém tocava uma gaita de fole, só para me lembrar que eu continuava no mesmo país. Mas em seguida uma senhora do Leste-Europeu arranhava um violino mais para cima. Até os escoceses acabam camuflados por aqui. Andando pelos bairros descobre-se comunidades indianas, paquistanesas, chinesas. Tudo o que uma cidade grande tem, mas com anonimato. No almoço encontrei Francesca, que conheci em Roma estudando italiano. Uma querida, mas ainda me choca um pouco interagir com alguém tão novo. Francesca tem apenas 17 anos e eu sinto que nunca sei onde colocar as mãos quando converso com ela. A gente foi passear pelo Jardim Botânico, que é lindo e pacífico e seria meu lugar de contemplação favorito se eu fosse ficar mais por aqui. E eu me desmanchei toda por um lindo Cavalier que estava com a dona, uma senhora simpática com um delicioso sotaque. Ele pulou no meu colo, me lambeu, deitou de barriga para cima e se esparramou nos meus carinhos. Eu me esparramei por ele também. À noite sentei no computador e só cuidei de trabalho. Estou querendo deixar o mínimo de pendência possível para ir para a Croácia na sexta sossegada. Sexta de madrugada embarco para a Dubrovnik. Encontro com a Kika no aeroporto. Estou louca para me jogar no Sol, na cidade, no mar. Reta final de inferno astral. Estou com pena de deixar Glasgow amanhã. Vou subir para Fort William denovo. Tentar conseguir uma passagem para o trem à vapor da West Coast Railway. O trem do Harry Potter. Nem tanto pelo personagem ou pelo filme. Mais porque acho divertidíssimo roteiros de trem. E esse é um dos mais famosos do mundo. Se eu fosse ficar mais por aqui, talvez eu fosse explorar o cenário musical alternativo que rola nessa cidade. Glasgow não tem charme, mas tem uma vida musical fervilhante. Cheia de bares com música ao vivo. Afinal, daqui saíram Belle and Sebastian, Primal Scream, Simple Minds, Franz Ferdinand, The Marmalade e Mark Knopfler, guitarrista do Dire Straits, entre tantos outros. Quem chega procurando tirar foto com o Mickey, pode mesmo achar Glasgow desinteressante. Eu, como fui patinho feio tantas vezes, gosto de acreditar que dá sempre para virar cisne.
GLASGOW BY ABBA
Cheguei em Glasgow ontem à noite. Chovendo. Acabou a boa vida das Highlands!
Mas meu hostel é ótimo e eu acho que eu vou gostar da cidade (apesar de umas duzentas pessoas terem me dito que Glasgow não valia a pena).
Sempre que penso em Glasgow me vem essa música na cabeça. Vim no caminho inteiro do trem cantarolando... Eu gosto de ABBA. Pronto, falei!
Então, cantando junto:
"I was sick and tired of everything,
When I called you last night from glasgow
All I do is eat and sleep and sing..."
Mas meu hostel é ótimo e eu acho que eu vou gostar da cidade (apesar de umas duzentas pessoas terem me dito que Glasgow não valia a pena).
Sempre que penso em Glasgow me vem essa música na cabeça. Vim no caminho inteiro do trem cantarolando... Eu gosto de ABBA. Pronto, falei!
Então, cantando junto:
"I was sick and tired of everything,
When I called you last night from glasgow
All I do is eat and sleep and sing..."
KEEP WALKING
Outro dia eu falei aqui do comercial da Johnny Walker com o Robert Carlyle. Esse eu conheci também por meio da Eva. Só para manter o clima scottish que está rolando. O filme é bem mais longo do que um comercial comum, mas um show de ator.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
HIGHLANDER
Depois de Skye nós pegamos o dia mais azul nas Highlands em seis anos. Passamos pelo Eilean Donan Castle. O mais incrível de todos. Fica em uma pequena ilhota no meio do lago com uma pontezinha de arcos ligando até ele. Como o dia estava azul, lindo e incrível, as águas do lago funcionavam como um espelho gigante duplicando a imagem do castelo, da ponte e das montanhas. Era como andar no meio de um cartão postal. A gente tirou milhões de fotos pulando em frente ao castelo. Fazendo uma sessão “Maxwell Jump”. De lá passamos pelo lendário Loch Ness. Pausa aqui. Eu não entendia direito a história do tal do monstro. Loch Ness é o maior lago da Escócia. Tem mais de 23Km de comprimento. É tão profundo que os pesquisadores não conseguiram até hoje medir com precisão. Existem alguns satélites tentando definir essas medidas. Há 500 anos alguns moradores da região reportaram terem visto um monstro, parecido com um dinossauro, nadando pelo lago. Desde então mais de 100 pessoas juraram que viram o bichão pelas águas. Até hoje parece que ele faz aparições esporádicas. Fazendo a média, uma aparição a cada cinco anos. Nenhuma quando eu estive lá. Eu coloquei a mão na água, chamei o bichinho. Até joguei pedrinhas para ver se ele acordava, mas nada. A água aliás é bem gelada, não muda de temperatura durante o ano inteiro. O volume é tão grande que ela permanece a mesma no verão e no inverno. Conheci alguns malucos que deram um mergulho. Águas escuras e sinistras. Dizem que é algo obrigatório, dar um mergulho com o monstro de Loch Ness. Isso é o que dizem, eu mesma nem tentei. De lá fomos para Inverness, a única cidade das Highlands (para ser considerada “city” é preciso ter uma catedral. Todo o resto é considerado “town”.) e a menor cidade da Escócia. Bem simpática Inverness, uma pena termos ficado só por essa noite. Parece que tem bastante coisas para se fazer nas redondezas e está cheio de gente que se perdeu e acabou ficando por ali. Uma boa estrutura de comércio, restaurantes. Todavia não tirei nem uma foto. Sei lá. Não deu vontade. Depois do almoço fomos até Fort George. Estava terminando algum festival ou comemoração. Um monte de barraquinhas montadas no gramado reproduzindo campanhas de guerra. Gente fantasiada para todos os lados e crianças fantasiadas de soldados e guerreiros. O Forte é grande, bonito. Com uma vista linda para outra parte de Loch Ness, mas a gente esquece que é um lago e parece mais um mar. Gaivotas voando e descansando nas muralhas. Fizemos mais uma sessão de “Maxwell Jump”, com um céu tão azul que era uma ignorância. Dia lindo. Quente. E eu sentei em cima da muralha, em uma parte gramada, e fiquei um tempo contemplando o horizonte que dava a volta em mim e me abraçava. À noite, depois de voltarmos de um “nutritivo” jantar no MacDonalds (apesar do nome, não era culinária típica escocesa) Y e o irmão dela foram para o B&B e eu fui para o meu hostel. Um hostel bem legal. Cheio de gente louca, mas tranquilo. Com uma atmosfera de casa e conforto. Eu fiquei até tarde conversando com as pessoas no lounge. Gente bêbada passava na porta o tempo todo. Ficavam batendo na janela. O recepcionista do hostel, um australiano de 27 anos que tinha cara de 17, me disse que todos os dias era assim. Que toda as Highlands eram assim. A noite dos mortos-vivos. As pessoas saem para os pubs, enchem a cara e se jogam nas ruas pelas madrugadas procurando desesperadamente alguma interação humana. A grande maioria é inofensiva. Zumbis bonzinhos. Parecem cachorrinhos arranhando a porta e querendo entrar. Querem conversar, falar. Querem companhia. Em um dos lugares mais lindos do mundo as pessoas estão anestesiadas pelo alcóol, carentes de amor. Chocante? Não. Nem um pouco. Chocante mesmo é o quanto as pessoas se assustam e saem correndo quando ouvem “Eu te amo”. Pensando assim deve mesmo ser uma maldição ser um “Highlander”. Quem quer viver para sempre? Para que viver para sempre se for assim?
domingo, 15 de agosto de 2010
SKYE
Nós somos as pessoas mais sortudas do mundo. Desde quinta-feira estamos sendo presenteados por dias lindo, céus azuis, Sol brilhante e nem uma gotinha de chuva. Ainda é frio, principalmente para nossos padrões de verão, mas os dias estão muito agradáveis. Perfeito para ficarmos ao ar livre sem nos cansarmos. Às vezes dá até para abandonar o montão de casacos e arriscar umas voltas usando manga curta ou blusinhas leves. Ontem chegamos em Skye. A ilha mais famosa da Escócia. Foi uma viagenzinha curta da Fort William para Mallaig. O mesmo caminho que o trem à vapor usado nos filmes de Harry Potter passa. Eu vou voltar a Fort William semana que vem para tentar pegar esse trem. Cruza o Glenfinnan, aquela ponte em arcos que também aparece no filme. Divertidíssimo. Tiramos milhões de fotos. E ainda escrevemos “MH” em um papel e tiramos fotos com ela. Para MH se sentir parte da viagem. Ela está em outro momento de vida, cozinha um bebê fofo (que por sorte eu vou estar de volta ao Brasil para o nascimento), então a gente deu um jeito de colocar o terceiro vértice do trio na foto. Também porque ela é fã de Harry Potter e na verdade acho que essa era uma viagem que ela deveria estar fazendo. De Mallaig pegamos um ferry para Isle of Skye. Então é como entrar em um mundo paralelo. Vários vilarejos, muitos turistas para todos os lado. A sensação de sermos os únicos brasileiros em toda ilha. Skye é um local muito popular de esportes de aventura. Rafting, hiking, escaladas. Muita gente fazendo cayaking nessas águas que parecem cristal. Ficamos no vilarejo de Portree. É a maior cidade de Skye (o que não quer dizer muita coisa). Todos os hotéis e as centenas de Bed & Breakfast lotados. Não havia uma única vaga na cidade. Y e o irmão dela ficaram em um B&B e eu em outro que já estava reservado. O legal de ficar em B&B é sentir como as pessoas realmente vivem. B&B são casas de pessoas adaptam alguns quartos para receber hóspedes. Mary, uma senhorinha de uns 85 anos era minha host. A casa era tudo o que se imagina de uma casa de vó. Fofa, cheia de babado e bibelôs. Com uma varanda fechada, cadeiras de madeira com almofadas floridas e um cocker babão fazendo festa para você. Uma senhora adorável que não tirava o sorriso do rosto e estava encantada porque eu era a primeira brasileira que ela conhecia. Perguntou o que eu queria para o café da manhã e só faltou tricotar um cachecol para mim. Depois fomos explorar um pouco da ilha. Bem pouco mesmo porque a ilha é grande e o ideal seria passar uma semana aqui fazendo trilhas, se perdendo pelas florestas de pinheiros. Assistindo o Sol se pôr às 20h30. Em junho dizem que o Sol se põe às 22h30 aqui e nasce às 4h. Nem chega a ficar totalmente escuro durante a noite. A gente foi fazer a trilha para o Old Man Stone. Nada demais, nivel de dificuldade zero. Trilha marcadinha, degraus de pedra para subir a montanha. Y ficou na base, nem arriscou tentar subir. No quesito aventura somos extremos opostos. Subimos o irmão dela e eu, para ficarmos sentados em uma pedra babando na vista inacreditável lá de cima. Eu me sentia o Frodo em “O Senhor dos Anéis” (não precisa falar, eu sei que “O Senhor dos Anéis” é Nova Zelândia, mas é bonito igual.) Depois voltamos para pegar a preguiçosa da Y na base e voltar para o carro. Ainda dirigimos para ver um penhasco e uma cachoeira. A essa hora o ar já estava tomado pelos mosquitinhos. Acho que umas 30 pessoas me aconselharam a trazer repelente para Skye, mas eu sou teimosa e só me arrependi depois que a gente engoliu umas dezenas desses mosquitinhos insuportáveis que insistem em entrar por todos os orifícios do seu rosto. A gente poderia dedetizar a ilha, verdade. Mas daí não teria graça. Como dizia o poetinha, não basta ser só bela. É preciso ter algo de ri, algo que chora. Mais ou menos isso. Skye faz jus ao nome. Um pouco como o paraíso. Um pouco com um mundo mágico em outra dimensão. A gente dirigia pela estrada e reinava uma paz. Nada de ruim pode te acontecer ali. Uma aldeia habitada por pessoas adoráveis, emanando amor por todos os lados. Um lugar que mais parece terreno de fábula. Parece que aqui o mundo conta uma história diferente, os relógios ticam em outro tempo. E se você pegar um barquinho, for navegando, desviando das montanhas do Cuillen. Se você mirar bem no meio e seguir sem falar nada, assim que chegar no horizonte, você alcança o céu.
sábado, 14 de agosto de 2010
APAIXONADA
Estou apaixonada pela Escócia. Isso sim foi uma coisa surpreendente. Escócia nem fazia muito parte dos meus planos iniciais. Acabei vindo porque precisava dar um tempo fora da Comunidade Européia então, olhando no mapa... Hum! Tem a Escócia ali em cima. Se é para conhecer a Escócia, que seja no verão pelo menos. Hum! E tem o festival em Edinburgh. Hum! Então tá. Vim para a Escócia. Na verdade pensava em passar só um par de dias e ir para outro lugar. A gente nunca ouve falar muito de Escócia (e é praticamente um alívio de turistas brazileiros por aqui). Acho que é mais legal quando a gente se apaixona do nada. Sem esperar. Sem nenhuma expectativa. As Highlands Escocesas são supreendentemente verdes. Verdes, vivas e vibrantes. Eu achei que ia me deparar com uma paisagem muito mais próxima daquele comercial da Johnny Walker com o Robert Carlyle. Alguma vantagem deve ter tanta chuva. Temos dirigido de cidade em cidade. As paisagens são breathless! Montanhas surreais que se desdobram umas atrás das outras. Lagos e mais lagos de águas cristalinas. Rochas que parecem estar aqui há milênios. Uma imensidão de paz e silêncio. Começo a entender um pouco do povo escocês. Uma nação que não é nação. Que ganhou um parlamento há pouco mais de 15 anos. Que é um país, mas vive sob o poder da Rainha de um outro país. Que tem o mesmo dinheiro, mas imprime suas próprias cédulas. Quando cheguei em Edinburgh no começo da semana achei que isso tudo era submissão. Achei que os escoceses tinham um quê de covardia. Mas água e óleo não se misturam, e o que faz de um povo, povo, é muito mais do que as leis escritas e assinadas por alguns homens em salas cheias de pompa e pedaços de papel. É o país que eles respiram. A língua que falam. (Tem o gaélico, mas mesmo o inglês é praticamente incompreensível com o sotaque deles). Andando por esse país, pela imensidão e grandiosidade desse país, a gente começa a acreditar em Deus. Em uma força mais absoluta do que todos nós. Na imensurável fragilidade humana. A vida é só uma paisagem. De tirar o fôlego. Eu tenho experimentado momentos de grande euforia. De uma felicidade que quase não cabe no peito. Seguidos de alguns momentos de instrospecção. De olhar para mim e para onde eu estou. Grata, imensamente grata por estar na segurança da companhia da minha amiga. É longe. Mas é lar. Meu lar vai comigo onde vou. Eu sinto o vento gelado emaranhando meus cabelos. O cheiro fresco de vida. A grande imensidão deste mundo, tão antigo e tão aparentemente intocado. Então eu suspiro baixinho “Obrigada! Obrigada!”. Esperando que essa força maior (O astral? Deus?) me ouça e entenda. Estou tão apaixonada pelo mundo.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Só porque eu estava perguntando sobre as pessoas de 30, uma pessoa de 30 muito especial veio me pegar na porta do meu hostel em Edinburgh para a gente fazer as Scottish Highlands juntas. Y está na Escócia e, além de uma das minhas melhores amigas, ela está salvando a pátria agora. Tudo o que eu precisava era mesmo gente que me conhecesse há mais de algumas horas para conversar. Y é trabalhadora de verdade (cá entre nós, NUNCA faria o tipo de viagem que estou fazendo), mas tirou férias esse mês e vai passar 20 dias em UK. Andou por Oxford, Bath, Stratford. Ontem estava parecendo um zumbi porque tinha dormido só uma hora. Veio de Mount St. Michel na França na Quarta-feira à noite e embarcou para Edinburgh ontem de manhãzinha. Ela está com o irmão dela de 25 anos, que acabou de se formar em medicina e os dois dirigindo pelo lado esquerdo da pista é uma coisa que eu tenho procurado nem pensar muito à respeito. Ainda bem que temos um médico no carro. De presente fez um dia lindo. O primeiro desde que estou na Escócia. Frio, verdade. Mas lindo. Sol o dia todo, céu limpo. Verdade que apareceram algumas nuvens no final da tarde, mas foi só ameaça. Dia de presente para a gente começar nosso tour. De Edinburgh fomos para Stirling, ver o castelo. Foi decepcionante. Nada do que a gente imaginava, embora a visão dele à distância em cima da montanha seja mesmo algo impressionante. Vimos o Wallace Monument, construído para o grande herói nacional Willlian Wallace (vulgo Mel Gibson em Braveheart). E depois ainda dirigimos em volta de Loch Lohrmon, e eu consegui ver as vaquinhas cabeludas que eu tanto queria (é um tipo de gado típico das Highlands que chama exatamente “Highlands Cow”, porque o povo é muito criativo para dar nome aos bois). As paisagens escocesas são deslumbrantes. Ainda temos muito chão para dirigir, cidadezinas para visitar e fotos para tirar, mas se a coisa continuar como tem estado, esse vai ser um dos trechos mais bonitos da jornada (embora eu ainda ache que alguém podia ligar o aquecedor!!!). Agora estou em Oban, terminando de empacotar para jogar tudo no porta malas do carro. Hoje vamos fazer algumas ilhas aqui em volta, ver mais castelos e mais lagos. Oban é uma mini-cidade. Li em algum lugar que tem 500 habitatante. Imagina a conexão de internet... Tenho 20 minutos apenas. Em tempo de um post rápido. Afinal, não sei quando vou conseguir postar denovo.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
WHERE ARE ALL THE 30´s PEOPLE GO?
Edinburgh é mesmo uma cidade fascinante. Eu ligaria um pouco o aquecedor, mas é uma cidade fascinante. Cheia de lendas, histórias, becos que parecem te transportar para uma dimensão paralela. É como se a cidade fosse uma cebola, e você vai descobrindo as várias camadas dela. É um personagem coadjuvante interpretado por um ator fenomenal. A gente não consegue tirar os olhos dele, mas a peça é sobre outra coisa. De qualquer forma, fui fazer o super recomendado Edinburgh Literary Pub Tour. Não conheço muito da literatura escocesa além dos clássicos óbvios (O Médico e o Monstro, Rob Roy, etc), e de Harry Potter (só que J. K. Howling é inglesa, não escocesa.). Então foi legal fazer um tour passando pelos bares icônicos e pelos lugares onde grandes poetas e escritores viviam. Dois atores vão levando o grupo de bar em bar e, enquanto você toma um pint de alguma cerveja escocesa, vão contando as biografias e declamando poemas e trechos desses autores. O tour parece até uma peça interativa. Cada ator representa um personagem, eles seguem um roteirinho e vão alternando entre narração e personagem. Fiquei louca para ler tudo de Walter Scott, Robert Burns e Muriel Spark. Os guias ainda te dão dicas das melhores livrarias de Edinburgh e inside tips para aproveitar melhor. Agora, adivinha só. Era um pub tour, né? Quantas pessoas de 20 e poucos estavam nesse tour? Exato. Nenhuma! Depois fiquei conversando com umas alemãs super descoladas. Me encheram de dicas sobre a Alemanha, roteiros para fazer, o que evitar. Falamos sobre “Adeus Lenin” e “A Vida dos Outros”, e sobre a queda do muro. Todas na faixa dos 50. Voltando para o hostel eu comecei a prestar atenção nas pessoas que andavam na rua. Nos turistas. Uma horda de pós-adolescentes produzidos para a balada. Grupos de 20 e poucos na porta dos pubs. Todos sempre em bando. É o comportamento da matilha. E saindo dos restaurantes alguns casais de meia idade. Grupos de terceira idade também estão para todos os lados. Pequenos grupos de amigas na faixa dos 40. Algumas famílias... Comecei a refazer meus passos durante o dia. As salas do Castelo de Edinburgh. A Royal Mille. O Elephant Cafe. Então caiu a ficha! Eu estava sozinha. Em todo o trajeto do Grassmarket, pelo tour literário, pelos pubs, e por toda a multidão desviando de performances na Royal Mille. Eu era a única pessoa de 30 e poucos viajando sozinha. Me lembro de dois casais no Elephant Cafe com um bebê e uma criança de 2 anos insuportável. Um casal na minha frente na fila para ver as jóias da corôa no Castelo de Edinburgh com um bebê lindinho pendurado nas costas, dormindo como um anjinho. Lembro de um casal australiano de “quase 30” (ela tinha 26, ele 28) indo à pé para Arthur Seat, e da australiana de 28 que viu o show de stand up comigo. (mas acho que esses não contam, porque não têm 30 e poucos) E me lembro ... Não! Não lembro de mais nada. É isso. Tinha eu. E tinha um monte de gente ou mais nova, ou mais velha. Eu estava sozinha. Onde é que foram parar todas as pessoas de 30 e pouco do mundo? Será que está todo mundo tendo filho e aparando a grama do jardim no final de semana? Será que é isso? Tão triste! Será que as pessoas só criam coragem para viajar depois dos 40? Ou deixam para se jogar na vida na terceira idade? Porque a gente faz isso? A molecada de 20 anos só quer festa. Eles bebem a noite inteira, beijam todo mundo, não sabem nada da história e da cultura do lugar. Voltam para o hostel no meio da madrugada e dormem até meio dia. As mais velhas seguem tours agendados, nunca se arricam. Pagam guias, comem em restaurantes caros. São cheias de horários e rotinas, e acabam perdendo um pouco da vida autêntica de rua dos lugares. E se você está bem no meio, é obrigada a se enfiar em um inútil pub crawl no estilo “American Pie” ou discutir Hume em uma mesa de bar onde a sua chegada vai DIMINUIR a média de idade em uns 10 anos. O que aconteceu com as pessoas de 30 e pouco? Não é possível que estavam todas fazendo o roteiro “Edinburgh para crianças”. Eu cheguei no meu hostel (que já falei, parece uma república) e Cindy Lauper cantava “Girls Just Wanna Have Fun” a plenos pulmões. Uma menina loira passou correndo na minha frente com enormes óculos escuros de aro branco e um lenço de oncinha amarrado na cabeça. Na escada para o quarto tinha um casal quase chegando às vias de fato. As coisas não mudaram nada desde o tempo em que eu dançava essa mesma música da Cindy Lauper. Já tive 20 anos uma vez. Não quero ter denovo. Também não quero viver a meia idade por antecedência. Eu tenho 33 anos de idade. Eu quero viver meus 33 anos de idade. Não quero viver a vida de filhos, nem de uma comunidade de casais. Não agora. Eu quero viver minha vida de 33, não um personagem. Um papel que foi estipulado para mim. Quando eu penso nisso eu vejo que o mundo não reservou muito espaço para pessoas assim. Nunca senti tão forte a inadequação quanto depois que passei da marca dos 30. Estou vivendo. Estou vendo meus amigos perdidos. Ninguém sabendo direito o que fazer, para onde ir. Todo mundo se descobrindo insatisfeito. Todo mundo tentando se agarrar a alguma certeza. Eu mesma só estou aqui porque resolvi sair em busca de alguma coisa. Onde estão as pessoas da minha geração? Quando foi que a gente deixou isso acontecer?
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
VIVENDO COMO MAGGIE DICKSON
Vou contar uma história que ouvi ontem. História de uma escocesa chamada Maggie Dickson. Ela era casada com um cara que não dava nenhum valor para ela. Ele era um pescador, foi o que era considerado um bom casamento para a época, e Maggie gostava de verdade do cara. Mas um dia esse cara sumiu. Desapareceu. Escafedeu-se. Largando Maggie desesperada e sem nada. A garota então mudou de cidade e começou a trabalhar em uma estalagem. Acontece que o dono dessa estalagem tinha um filho, e os dois se apaixonaram perdidamente. Amor à primeira vista. Um amor tão forte e tão intenso, que ignoraram todas as circusntâncias e depois de um tempo aconteceu o inevitável. Maggie ficou grávida. Como a situação seria um escândalo, já que ela ainda era casada, Maggie resolveu esconder a gravidez. Disfarçava com roupas, vestidos mais largos. Tanto que ninguém, nem mesmo o dono da estalagem descobriu. Maggie teve um parto prematuro e seu filho nasceu morto. Arrasada, Maggie pega o corpinho de seu filho e enterra na margem de um rio. Alguns dias depois descobrem o corpo e acabam chegando até Maggie. Ela estava encrencada. Não porque teve um filho de outro homem quando ainda era casada. Nem por ter sido acusada de matar o próprio filho. Nem mesmo por ter enterrado a criança na margem do rio. Maggie foi acusada de esconder a gravidez. Naquela época uma mulher que escondesse sua gravidez da sociedade era acusada de crime grave e condenada à forca. Foi exatamente isso que aconteceu com Maggie. Ela foi trazida para Edinburgh e enforcada em 1728 no Grassmarket. Lugar onde ficava o cadafalso e onde eram feitas todas as execuções da Escócia na época. Depois dos sete minutos habituais o corpo de Maggie foi retirado da forca, ela foi declarada oficialmente morta e colocada em um caixão para ser levada de volta a sua cidade e ser enterrada. Só que, no caminho de volta, Maggie acorda e começa a bater no caixão. Os cocheiros ficam assustados, abrem o caixão e se deparam com Maggie vivinha da silva! A única coisa que poderiam fazer era trazer Maggie de volta à Edinburgh para ser enforcada novamente (e dessa vez de maneira eficiente). Então Maggie é levada de novo para o Grassmarket, é colocada no cadafalso e quando está prestes a ser enforcada pela segunda vez no mesmo dia, alguém na multidão intervém. “Ei! Espere um pouco! Margareth Dickson foi executada e declarada morta de acordo com as leis escocesas, pelo crime de ter escondido sua gravidez.” Correto. “Só que, de acordo com essas mesmas leis, uma pessoa não pode ser condenada e executada duas vezes pelo mesmo crime.” Hummmm... Correto. Isso se chama Double Jeopardy. Então as autoridades foram obrigadas a libertar Maggie e deixá-la ir. E como ela havia sido considerada morta e as leis matrimoniais exigiam fidelidade “até que a morte os separe”, Maggie Dickson conseguiu cancelar seu casamento, se casou com o filho do dono da estalagem e eles foram felizes para sempre. Eles mudaram para Edinburgh, compraram um apartamento no Grassmarket, bem de frente ao cadafalso. Todas as vezes que ia haver alguma execução, Maggie sentava na janela para assistir. E quando o condenado tinha a corda envolta ao pescoço, ela se debruçava e gritava: “Não é tão ruim quanto parece. Eu passei por isso e SOBREVIVI!”.
Eu sou louca por histórias de mulheres. Por história de mulheres fortes. De mulheres ousadas. Principalmente de mulheres inteiras. Às vezes a melhor solução é entregar para o astral. A gente está envolvido demais para achar as melhores soluções para nós mesmos. Não importa que a gente esteja literalmente com “a corda no pescoço”. O universo sempre vai achar uma maneira simples, óbvia, fantástica para nos garantir um final feliz.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
EDINBURGH CRAZY
Edinburgh ferve. Cheguei aqui ontem e a cidade pulsa de um jeito, que não dá para explicar. Durante todo o mês de agosto acontece o Edinburgh Fringe. O maior Festival de artes performáticas do mundo. São mais de 25 mil artistas apresentando peças, stand-up, dança, música e performances de rua. Uma loucura. Você vai andando pela rua e tropeçando em tudo quando é tipo de gente. Os atores passam o dia entregando flyers de seus espetáculos, tentando chamar a atenção do público para, de alguma forma, se destacarem na imensidão de ofertas da programação. Cartazes com atores fazendo poses e caretas espalhados por TODA a cidade. São tantas coisas, tantas coisas, que não dá vontade de ver nada. Depois de uma hora eu tinha a impressão de que era tudo igual. Tudo um pouco mais do mesmo. Eu fui fazer um walking tour e tirar minhas primeiras impressões da cidade. O clima está doidinho. Amanheceu com Sol, mas antes de eu terminar o café da manhã ficou nublado. Depois choveu. Abriu Sol de novo. Choveu. Nublou. E terminamos a tarde com um Sol gostoso e um dia claro. Entendam que Sol gostoso aqui significa aqueles dias de inverno com Sol gelado que a gente tem em São Paulo. O povo andando de regata na rua e eu pensando em comprar luvas. Compras aliás, tem sido uma tortura. Não apenas porque não tenho como carregar, mas também porque as coisas são caras. Tudo bem, é cashmere. Mas é caro. Eu tenho vontade de comprar tudo, mergulhar em um mundo de cardigãs, suéters, boinas e cachecóis tão fofinhos que eu nunca mais usaria outra roupa na vida. Cores lindas. As padronagens de tartans a gente nem sabe por onde começar. Mas eu acho £30 por um cachecol muito dinheiro. Mesmo sendo cashmere. Então eu ficava entrando nas lojas, babando. Passando a mão em tudo. Esfregando minha bochecha nas araras. Os vendedores deixam. Acho que todo mundo faz isso. Cashmere tem esse poder magnético sobre as pessoas. Seria um crime se não deixassem. Verdade que estou conhecendo uma Edinburgh bem descaracterizada. Jovens festejando e enchendo a cara por todos os lados, performances, música. Imagina a Virada Cultural. Agora imagina isso por um mês todos os dias. É assim que Edinburgh está. Quando você consegue achar um escocês perdido no meio da multidão, dá para sentir o ar de cansaço. As pessoas estão nervosas no trânsito. Andam buzinando e xingando. Ônibus enormes estão sempre fechando o cruzamento. Dá para entender. Todo mundo vem para cá nessa época do ano em busca dessa ebulição. Eu achei que ia chegar aqui e mergulhar no meio da loucura. Me inebriar pelas noites. Redescobrir o teatro em mim. Falar, conversar, fazer um milhão de amigos. Eu pensei que eu ia para a lama. Mas não sinto a menor vontade de virar uma “party animal”. Tudo o que eu consigo ver é uma grande feira de vaidades. Meu tempo já passou. Eu aproveito a diversidade, sorrio. Tiro fotos, dou risada. Mas assisto. É o que eu sinto vontade. Eu desconstrui tantas coisas em mim e estou começando a juntas os pedacinhos. Acho que gosto mesmo é de assistir. Observar. Distanciar. As coisas se processam em mim de uma outra forma. Eu não quero ser a pessoa maquiada no centro do palco. Nem a que comprou lugares na primeira fila. Não quero ser a pessoa no meio da galera na mesa do bar. Também não quero ser a “Dancing Queen” na pista do club (Young and sweet, only seventeen). Acho que comecei a enxergar em que lugares eu estou realmente confortável. Comecei a enxergar uma possibilidade de vida em que se pode ter tudo e nada. A vida é uma grande feira de vaidades. A gente acaba se matando para sentar na primeira fila, ou distribuindo flyers para convencer o público de nossos espetáculos particulares. Às vezes o melhor mesmo é nem se inscrever no Festival.
Assinar:
Postagens (Atom)
