Adoro essa foto. Tirei no Kilmahain Goal em Dublin. É um presídio que conta muito da história dos rebeldes irlandeses. Você viaja por celas e paredes onde aconteceram algumas das cenas de maior miséria, dor, sofrimento e desumanidade que aquele povo viveu. Mas gosto da idéia de que, décadas depois, somos capazes de trazer amor, mesmo sem perder a memória das atrocidades.
"...estou procurando, estou procurando. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi." (Clarice Lispector - Paixão Segundo GH)
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sexta-feira, 9 de abril de 2010
sábado, 3 de abril de 2010
AS SURPRESAS DE DUBLIN
Dublin é uma cidade que me surpreendeu completamente. A princípio parece que não há muito o que fazer, mas a cidade vai se revelando aos poucos, a cada hora que se anda pelas ruas. Não é um acontecimento arrebatador como New York, nem o aconchego de lar que senti em Londres. Não tem o encanto charmoso do Porto, nem a tal da “poesia concreta” da minha amada São Paulo. A primeira vista Dublin parece uma próspera periferia. Cheia de pessoas comuns, gente que acorda todo dia para pegar condução e trabalhar em empregos completamente desprovidos de glamour. Extremamente úmida. Você dificilmente ficará alguns dias em Dublin sem se molhar. Chove todos os dias, isso é até uma piada nacional. Passei muito frio nesses dias. Neve no começo da primavera, que surpreendeu os próprios irlandeses. Manter os pés aquecidos e secos (além de uma questão de sobrevivência) foi uma tarefa hércula. Estou com uma coleção de meias térmicas e meias de lã na bagagem agora. E embora todos esses fatores pudessem fazer qualquer mortal detestar a experiência, Dublin se revela na verdade encantadora. A principal razão disso é pelo seu povo. Difícil não se encantar pelo povo irlandês. Todos carregam a marca de séculos e séculos de guerras, humilhações, fome, sofrimento. Um povo que foi conquistado por diferentes impérios ao longo de toda sua história, mas sempre resistiu. Que foi perseguido e eliminado aos milhões por suas crenças e sempre resistiu de uma maneira quase incompreensível. Hoje carregam na bandeira uma esperança de diálogo, perdão e paz (o verde da bandeira representa os católicos, o laranja os anglicanos e protestantes, e o branco no meio a paz que eles esperam conquistar entre eles). Chega a ser desconcertante a capacidade de sobreviver. Mais desconcertante ainda é a gentileza de que eles são capazes. O tempo todo, todos os dias, fui testemunha de atitudes de pessoas comuns em ajudar o próximo sem o menor interesse de recompensa. Só como um exemplo vou contar uma situação que passei. Eu e Vanessa (uma outra brasileira que estava no Hostel e tornou-se uma companhia muito querida pelas andanças por Dublin) estávamos meio perdidas procurando o Kilmahain Goal. Entramos em uma rua meio sinistra, cheia de casinhas fechadas de um lado, com um terreno baldio do outro. Paramos embaixo da chuva (para variar) tentando entender o mapa que derretia na nossa mão. Então uma senhora muito idosa abre a porta de uma das casas e pergunta se precisamos de ajuda. E quando falamos que estamos perdida, aquela senhora sai embaixo da chuva, se molha toda e faz questão de nos explicar pacientemente como fazemos para chegar ao museu. Ainda, com toda sua dificuldade de locomoção, abre um sorriso e nos deseja um dia de muita diversão. Existem muitas outras coisas que eu poderia falar sobre Dublin. Passei cinco dias de muita felicidade lá. Mas o que trouxe da Irlanda foi essa impressão de solidariedade e compaixão que senti das pessoas. Talvez por terem vivido uma história tão desumana, os irlandeses tornaram-se um povo caloroso, com muita consciência e respeito pelo próximo. Existem histórias no mundo todo de medo, mágoa, vingança. Mas há sempre aqueles que pegam um limão e tranformam em caipirinha.
terça-feira, 30 de março de 2010
DUBLIN
Zero graus agora em Dublin. A sensação térmica é de menos 6. Eu que nasci para ser nordestina me escondo embaixo do edredon e tento imaginar uma boa razão para sair lá fora. Cheguei ontem no final da tarde. Visibilidade quase zero. Vim de Londres com uma companhia aérea irlandesa chamada Aer Lingus. O logotipo deles, um óbvio trevo de três folhas e verde para todo lado. O avião ficou 40 minutos sobrevoando o aeroporto, quase arremeteu. Acabou pousando por instrumentos. Um pouco de tensão nas poltronas. Eu só dormia. (A hora que for a hora, foi. O que se pode fazer?) Na alfândega o oficial me pergunta: "What brings you to Ireland?" Sem pestanejar, abri um sorrrisão (também porque sorrisos são as coisas mais poderosas quando estamos viajando), olhei bem nos olhos dele e respondi apenas: "Beer!!!" E o oficial soltou uma bela gargalhada "That´s a really good answer!" Então conversamos sobre Joyce, sobre Oscar Wilde, ele carimbou meu passaporte e disse "Please, be very wellcome to Ireland!" E eu entrei em Dublin com as portas escancaradas. Os irlandeses são como aquele tio bonachão que enche a cara no almoço de domingo. Só que aqui, todo dia é domingo. Ontem conheci duas garotas e um garoto brasileiros. Estudam hotelaria na Suiça e estão viajando no Mid-Break. Fomos jantar na região de Temple Bar e depois tomar pints de Guinness. Para sorte nossa o barman era brasileiro também (e a coisinha mais fofa do mundo...) e cobrava metado do valor da gente. O bar cheio de gente, com música irlandesa. As pessoas cantando, batendo palmas e sapateando. Nós éramos as únicas três almas ali ainda sóbrias. Então aparece Fred, um verdadeiro Leprechaun Irlandês tamanho família, enorme, ruivo, com uma barba que ia até o meio do peito; e que arranha meia dúzia de palavras em português, é corintiano e começou a se contorcer (no que ele chamou de Samba) como um louco quando soube que a gente era brasileiro. Ele sapateava, tocava um tambor maluco e ainda me agarrou pelas pernas, me jogou em cima dos ombros e rodou comigo no meio do bar. Eu só fiquei esperando aquele irlandês louco (eu ia dizer irlandês bêbado, mas é pleonasmo.) me derrubar no chão e eu precisar usar meu seguro saúde. Mas o cara era enorme, e me botou de volta ao chão como se eu fosse uma folhinha de uva. Andamos de volta para o hostel no meio da garôa. Totalmente surpeendida pela cidade. Zero graus agora em Dublin. E caem alguns floquinhos de neve lá fora, que derretem antes de chegar no chão. Eu que nasci para ser nordestina, sempre fugi do frio e nunca vi neve na vida, consigo pensar em um único motivo para levantar da cama agora. Eu estou viva.
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