Mostrando postagens com marcador hiking. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador hiking. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A TRILHA INCA


Eu fiz. Eu consegui. Eu sobrevivi à Trilha Inca. Acho “sobreviver” um verbo adequado para a experiência. Não foi nenhum passeio no shopping. A trilha é puxada e exige muito, não apenas fisicamente, mas principalmente psicológicamente. Vale à pena? Muito! Muito mesmo! É uma peregrinação transformadora, e por mais que eu tivesse me preparado anos para fazer esse caminho, nada me preparou para o que ele realmente é. 

Ainda estou assimilando a experiência. Cheguei ontem à noite de Machu Picchu e hoje cedinho entrei em um ônibus que ficou 10 horas na estrada até chegar em Puno. Estou mancando e não consigo descer escadas sem parecer que fui atropelada. Foram 4 dias, mas a sensação que eu tenho é de uma vida inteira. Impossível passar por isso sem sair transformado. 

Em síntese: São 4 dias de trilha. Os Incas utilizavam várias trilhas na região, mas essa é considerada a mais sagrada, e é a única que chega diretamente em Machu Picchu. Por isso recebe o nome de Trilha Real (ou Royal Trail). Ao longo da trilha vamos cruzando vilarejos e ruínas de templos estrategicamente construídos e que comprovam a teoria de que o caminho era usado como uma forma de peregrinação religiosa até Machu Picchu. E peregrinação nesse sentido tem tudo a ver com merecimento. A trilha é uma prova de fogo. São 43Km, repleto de escadarias de pedras irregulares e altitudes que variam dos 2600m aos 4215m. A trilha é bem controlada, e por isso também é segura. Cada dia de caminhada passa por um posto de controle, onde eles checam o nome e passaporte de cada pessoa que foi dado no momento da reserva (no meu caso, em abril desse ano). São permitidas apenas 500 pessoas na trilha por dia. Isso incluindo carregadores e guias. Para vocês terem uma ideia, meu grupo tinha 15 pessoas, 2 guias e 19 carregadores, incluindo um cozinheiro. O trabalho deles é impressionante e seria totalmente impossível realizar essa trilha sem eles. A estrutura dos carregadores e o papel deles na trilha merece um post à parte. Foi uma das coisas mais impressionantes e surpreendentes que testemunhei.

O começo da trilha. Nosso grupo em sua primeira foto de família. 


O primeiro dia é o mais tranquilo. Parte-se de Ollantaytambo à 2600m, um caminho agradável, repleto de vegetação, sem muita exigência e com poucos trechos íngremes. Ainda assim, são 12Km e acampamos à 3000m de altura. A altitude já faz o fôlego ficar bem curto, e apresenta algum mal-estar. No caminho vimos nossa primeira ruína, de pedras polidas e construída com precisão astronômica como tudo o que os Incas fizeram. Nesse caminho ainda encontramos vários povoados, quechuas vendendo água e gatorade, animais e plantações. 

Wilfredo, nosso maravilhoso guia, apresentando a super equipe de carregadores e cozinheiros que possibilitaram que a gente fizesse a trilha. Gratidão eterna a cada um deles. 


O segundo dia é a prova de fogo, e é o dia também em que muita gente desiste da trilha. Acordamos às 4h30. Os nossos guias são tão gentis que nos levam chá quentinho na barraca na hora de acordar. Tomamos café, empacotamos e caímos na trilha. O desafio hoje é fazer 12Km, subir 1215m, e depois descer 600m para o acampamento. Então o que nos espera são longos trechos de subida acentuada e um ar cada vez mais rarefeito. Até a hora do nosso segundo café da manhã, que foi na última vila habitada da trilha por vota das 10h da manhã, o caminho estava puxado, mas administrável. Depois dessa pausa foram 2h30 de subida íngreme em uma escadaria de pedras irregulares até chegar à “Passagem da Mulher Morta” (nome dado por causa de uma lenda andina. Alguém carregadores dizem que encontraram o corpo de uma mulher morta uma vez à noite nesse pico, e quando o socorro foi resgatá-la, ela tinha desaparecido. Hoje eles acreditam que ela vaga à noite pelos acampamentos atrás do homem ideal.), que fica à 4215m. Só para ter uma comparação, o Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil, tem 2994m. Esse foi o trecho mais desafiador. Fisicamente eu achei que ia morrer. Sentia meu coração na boca e qualquer movimento exigia todo o ar dos meus pulmões. Psicológicamente, toda sua vida passa em sua mente. Amaldiçoei os Incas, me questionei porque estava fazendo aquilo, duvidei, chorei, ri, briguei muito com os degraus. Foi o momento que me caiu a ficha que essa não era só uma aventura na montanha, um passeio para fazer aos finais de semana. Foi quando me dei conta de que essa é uma jornada espiritual. Quando pisei no summit percebi que não tinha como voltar atrás. Agora era ir até o fim. Depois disso ainda descemos 1h e 600m de escadarias íngremes e escorregadias até o acampamento, onde almoçamos. O resto do dia foi de cochilos e recuperação. 

A conquista da "Passagem da Mulher Morta". 4215m e toda minha capacidade de superação.


O terceiro dia foi lindo. Acordamos mais cedo ainda, às 4h20, para evitar filas no posto de controle. Todos os músculos da minha perna doíam. A panturrilha, o extensor, o quadríceps, os glúteos. Muita dor nos ombros também, pelo esforço feito com os bastões de hiking (que, aliás, são imprescindíveis.). A dor fez o ritmo fica mais lento. O terceiro dia é o mais longo. 15Km, mas a variação de altitude não era tanta. Subimos um pouco, mas descemos de novo para acampar nos mesmos 3600m do segundo dia. Esse é o dia com mais ruínas para explorar no caminho, cavernas, túneis de vegetação, montanhas cobertas de neve e lagos de água cristalina que aparecem no meio do nada. Lindo! Esse foi o dia em que aprendi a parar de brigar com o caminho. Aceitei a dor. Aceitei a irregularidade das pedras. Aceitei um ritmo mais lento. Aceitei, simplesmente. Depois do almoço caiu um temporal, e tivemos que descer até o acampamento embaixo de chuva pesada. Foi intenso. As pedras deslizavam, a água ensopava tudo. Os carregadores passavam voando em nossa volta e eu me sentia totalmente insignificante no meio daquela natureza. Acalmou apenas quando chegamos nos terraços da última ruína, perto do acampamento. Eu estava febril e vomitando, mas não de um jeito que me nocauteasse. Era como se os Incas estivessem me forjando para merecer Machu Picchu. Tomei remédios, me sequei, meditei. Pedi que fizesse um dia perfeito. Que a febre passasse. Que estivesse muito Sol. E que eu conseguisse chegar.

Em uma das ruínas pelas quais passamos no terceiro dia. Cada conversa, cada descoberta, mais e mais surpreendida com os Incas.

O quarto dia já é uma benção só por se chegar à ele. Acordamos às 3h30, a febre tinha passado. A fila do posto de controle já estava grande. Foi o caminho mais agradável de todos. Gentil e suave, como se os Incas me dissessem: “Muito bem! Passou no teste!”. Foram 1200m de descida em apenas 5Km de trilha. Fomos vendo o dia amanhecendo, as nuvens subindo para o céu. Quando chegamos ao Portal do Sol, ele também surgiu brilhante em um céu lindo, azul e imaculado. Os Incas tinham me ouvido. Subi as últimas escadarias, passei pelas colunas de pedra do Portal e, lá estava ela! Machu Picchu!!! A cidade perdida dos Incas. Deslumbrante no meio das montanhas. Parecendo estar intocada desde sempre, esperando que a gente chegasse a ela. É uma emoção indescritível. Ri. Chorei. Senti todo o ar do mundo voltar aos meus pulmões.

A conquista de Machu Picchu!


Uma opinião unânime entre meu grupo foi que ficou muito difícil imaginar chegar à Machu Picchu sem passar pela trilha, sem avistá-la do Portal do Sol. Mais ainda, enquanto arrastávamos nossos corpos sujos e machucados, cruzando com uma infinidade de turistas que chegavam arrumadinhos de ônibus, sentimos que havia algo deslocado. Peregrinar por 4 dias até chegar em Machu Picchu me deu pertencimento. É como uma cicatriz que vai ficar eternamente em mim. Machu Picchu me pertence. Eu a conquistei. Você pode visitar Machu Picchu mil vezes, você pode fazer fotos, decorar guias. Mas só tem uma forma de fazer com que ela se torne parte de você. E isso aconteceu nos outros 3 dias. 


domingo, 16 de novembro de 2014

CUSCO


Cheguei em Cusco no sábado. Não precisa ser muito inteligente para saber que Lima é uma bolha no Peru, e o verdadeiro país iria se mostrar conforme eu fosse me afastando da capital. Cusco é isso. Tudo o que se imagina de Peru e mais um pouco. Muito turística, obviamente, mas logo se nota porque essa cidade há 3.600m de altura era considerada pelos Incas o umbigo do mundo. Dá mesmo a sensação de estar no topo dele. A cidade vive do turismo, e por isso é bem segura. Claro que batedores de carteira podem se aproveitar de turistas desavisados, mas a cidade é bem segura para circular, andar com a câmera pendurada no pescoço, fazer cara de gringa pelas esquinas tentando se localizar no mapa. À noite também uma paz. Circulei bastante sozinha, virando esquinas só para ver onde dava e a sensação de segurança pode ser cortada com uma faca. 

A cidade gira em torno da Plaza de Armas. Uma pequena jóia cercada por duas igrejas estonteantes, e de onde se pode ver subir ao horizonte o contorno das montanhas coalhadas de casas, torres e um céu lindo. Tudo tem cara de estar pedindo uma foto. Como toda cidade turística, o assédio é exaustivo. Nas ruas mais movimentadas tentam te vender de tudo. Pinturas, massagens, tours para Machu Picchu, passeios à cavalo, aulas de espanhol, câmbio de dólares, city tour, restaurantes. Há também quechuas paramentadas com roupas típicas, carregando filhotes de lhamas e alpacas e pedindo trocados para tirar fotos. Os filhotes de alpacas são as coisas mais fofas do mundo. Juro que se fosse permitido, levava uma para casa. As melhores agências não são as oferecidas em hotéis, ou nas casas ao redor da Plaza (que vendem ponchos, botas de hiking, Inka Cola, selos postais, câmbio de dólares, revelações de fotos e pacotes turísticos. Tudo ao mesmo tempo agora.)

É legal pesquisar na internet as empresas com tratamento ético de guias antes de sair fechando pacote com o primeiro que aparece. Existe muita exploração dos guias e portadores na região. Acho legal assumir a parcela de responsabilidade sobre o impacto da sua visita ao lugar. O roteiro da trilha Inca que vou fazer fechei no começo do ano depois de pesquisar umas 5 empresas diferentes, todas certificadas. A trilha clássica é controlada e é impossível fazer na última hora. São 4 dias de caminhada, subindo e descendo as montanhas, para ser presenteada ao final com Machu Picchu e um joelho detonado. 

A empresa que contratei foi a Peru Treks. Até agora, impecáveis. O briefing e a preparação que fazem é super detalhista e perfeccionista. No sábado fui até o escritório deles, conheci os guias, recebi um briefing completo dos quatro dias e orientação sobre a preparação. Depois tirei esses dias para descansar, me habituar à altitude e preparar os últimos detalhes para a trilha. Água, snacks, baterias, sistema de purificação de água e remédios para altitude e diarréia. Normalmente não tenho problemas com intoxicação alimentar, mas a água no Peru é um problema, e mesmo purificando, nunca se sabe. 

O pacote contratado inclui cozinheiro e alimentação em todo o percurso, tickets de entrada em Machu Pichu, trem de volta para Águas Calientes e transfer de ida e volta para Cusco. Passei o dia hoje tentando trocar dinheiro para levar. Troco é uma dificuldade  no Peru. Algumas vezes as pessoas preferiam não fazer a venda por não ter como fazer troco. Para a trilha, aconselha-se levar cerca de S/300-400, que serve para tudo. Gorjetas dos guias e portadores, compra de água, snacks, café da manhã em Ollantaytambo antes de começar a trilha, almoço no último dia, souvenirs e até uma massagem ao final da trilha em Águas Calientes para se recuperar. 

Vou confessar que ver o tanto de coisas que tem para se fazer nas redondezas em deu uma vontade danada de sair igual a uma louca, fazendo trilhas, SUP, yoga, andando de quadriciclos, cavalos, mountain bike. É muita coisa para se fazer. Mas é preciso ter foco. De nada adianta tentar fazer tudo e depois não conseguir terminar a trilha, meu grande sonho. Então peguei leve. Muito tempo descansando. Passeios leves. Muitas fotos. Nenhuma invenção gastronômica. Hoje à noite fiquei no hotel. Tomei um longo banho de banheira, assisti um filme na TV, arrumei a mochila. Afinal, vão ser 4 dias sem banho, sem cama e de muito esforço físico. 


O hotel que escolhi é ótimo. Estou bem feliz com a escolha. É uma rede peruana chamada Tierra Viva. Quarto espaçoso, confortável. Lençóis e toalhas macios e impecáveis. O serviço é super atencioso. E eles começam a servir o café da manhã às 5h! O que significa que eu vou ter uma “última refeição” bem servida amanhã cedinho, antes de partir às 5h20. É isso. Amanhã às 5h20 começo a famosa Trilha Inca. Durante 4 dias vou percorrer 44Km, chegando à 4600m de altura. Nada de computador, nada de internet, obviamente. Dizem que é a experiência de uma vida. Não vejo a hora de começar. 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

CONTAGEM REGRESSIVA




Contagem regressiva para a minha grande viagem do ano! Verdade que já viajei bastante esse ano, mas tenho a proposta de realizar alguns sonhos de viagem. Desde que voltei do sabático (em que realizei muitos sonhos de uma vez), estou buscando ir para, pelo menos, um lugar dos meus sonhos por ano. 

Fui para a Patagônia em 2011. Para Bolívia, Noronha e Africa do Sul em 2012. Ano passado foi a vez de Cuba, sonho bem antigo. E esse ano vou - finalmente - realizar o sonho de fazer a Trilha Inca para Machu Picchu. 

A trilha Inca é um desses roteiros almejados durante a vida inteira. Desde a adolescência, muito antes de criar coragem de comprar minha primeira mochilona (uma "Trilhas e Rumos" azul, que era um sacão e eu usei até arrebentar no carrossel de bagagens de um aeroporto), eu queria ir para a Índia e fazer a trilha Inca. Curiosamente, depois de tantos anos na estrada, não realizei nenhum dos dois. 

Já tentei fazer a trilha algumas vezes no passado, cheguei a abortar em cima da hora em 2011. Quase que não rola esse ano também. É preciso reservar com bastante antecedência, e nisso fica uma das maiores dificuldades. A trilha é controlada. Permitem que apenas 500 pessoas estejam na trilha por dia, incluindo os guias e portadores. Veja bem, não são 500 pessoas entrando na trilha por dia. São 500 pessoas no total, do início ao fim. Levando em conta que a trilha leva 4 dias para ser completada, são cerca de 125 pessoas apenas entrando todos os dias. Também, só se faz a trilha com guia. Por mais que você seja experiente, não rola de chegar lá de alegre e subir pelo clássico caminho que os Incas usavam para chegar até Machu Picchu. Claro, existem trilhas alternativas, que também eram usadas pelos Incas, mas quem é montanhista sonha em um dia fazer a trilha clássica. É quase um ISO9000 no currículo de qualquer mochileiro que se preze. Viajantes do mundo inteiro tem essa viagem em seus “To do lists”. 

Esse ano fiz minha reserva em Março (o ideal mesmo é reservar com um ano de antecedência). Conseguir encaixar na agenda não foi fácil. As vagas para junho ou julho, que é a alta temporada da trilha, estavam esgotadas. Tive que me organizar para ir agora, em Novembro. Mesmo assim, quase fico sem essa vaga também. 

Daqui uma semana vou estar em Lima, começando quinze dias de uma viagem que sonho há muito tempo em fazer. O roteiro fechei todo no último final de semana. Alguns dias em Lima, visitando restaurantes - e provando o que a Condé Nast Traveller elegeu como a capital gastronômica da América Latina. Cusco por alguns dias, para me adaptar à altitude. Quatro dias da clássica trilha, na floresta, acampando e tirando fotos. Machu Picchu, que vem com a promessa de ser um dos lugares mais impressionantes que se pode visitar na vida. Depois Puno, por dois dias, apenas para conhecer o maior lago da América do Sul, o Lago Titicaca. (Gente, tenho crises de riso com o nome desse lago... muito boba!) 

Ultimamente eu não tenho atualizado muito esse blog, mas se tem uma coisa que eu adoro fazer é escrever sobre minhas viagens. Então, abrindo a contagem regressiva para a aquisição de uma das figurinhas mais ambicionadas do meu passaporte, vou fazer uma coisa que nunca fiz por aqui: Nos próximos dias vou falar sobre a preparação da viagem, planos, reservas, as pesquisas e expectativas, antes do diário de bordo que vai começar dia 11, terça-feira que vem. 

Como toda véspera de viagem, eu estou atolada de trabalho, varando noites para dar conta de preparar tudo para poder sair. Muito do “caminho das pedras” para realizar esses sonhos está exatamente nesses 7 dias que antecedem o embarque. 

Então, acompanhem. De certa forma, a viagem já começou. ;-)

domingo, 8 de janeiro de 2012

QUATRO DIAS E NENHUMA MOSCA MORTA


El Chaltén é uma gracinha de cidade. Mesmo. Pequena, charmosa. Às margens de um rio glacial azul turvo e emoldurada pelo Cerro Torres e o Fitz Roy nevado. Lindo, pontiagudo. Apontando para o céu. É fascinante a visão dessas montanhas imponentes. A mesma sensação que tive em Zermatt em 2010, quando vi o Motterhorn e resolvi gostar da cidade de imediato. Internet foi um problema em El Chaltén, o que acabou virando uma boa coisa. Eu queria mesmo desconectar por um tempo e estava impossível. Mais pelo vício da pessoa que a impede de simplesmente desligar e guardar todos os gadgets. Aproveitando a desconexão forçada, me joguei em um trekking de 4 dias nas trilhas em torno do Fitz Roy. Isso significou 4 dias de contato direto com a natureza, paisagens de tirar o fôlego, silêncio, meditação e contemplação. Mas também significou 4 dias de camping no meio do mato, com insetos, água estranha, xixi em arbustos, banho zero e muito carregamento de peso. Pois é! Ninguém chega ao castelo sem atravessar o fosso antes. Foi a primeira vez que eu acampei sozinha. Sozinha de tudo. Carregando mochila, montando barraca, cozinhando miojo. Se foi loucura eu não sei dizer. Só sei que foi uma experiência incrível e eu começo a entender porque pessoas como minha irmãzinha Carol gostam tanto de acampar. Primeiro houve todo o tempo de preparação. Você precisa pensar em todos os detalhes do que vai ou pode precisa no camping, porque depois não tem como correr na padaria da esquina ou na farmácia na última hora. Uma grande vantagem é que toda a água do parque é muito fresca e potável. O que me livrou de carregar litros na bagagem e racionar o consumo para escovar os dentes e lavar pratos. Aproveitei para comprar alguns queijos e vinho e me mimar um pouco ao pôr do Sol (que aqui é às 22h30) com pequenos prazeres na natureza. Kerri (uma americana que conheci junto com Tanja em Torres Del Paine e acabamos nos encontrando e fazendo várias coisas juntas em Chaltén) disse que eu faço “camping deluxe”. Bom, acho que se é para fazer, faça com estilo! E isso vale para tudo na vida. O único problema é que em uma situação como essa, estilo tem um preço. E não estou falando de algo que se resolva com um cartão de crédito. Ao final de toda a arrumação da mochila (com toneladas de Baby Wipes para uma alternativa de banho, vinho, queijos, pães, molho para o macarrão, café de coador, legumes para salada e geléia para o café da manhã) minha mochila de “camping deluxe” estava com cerca de 17Kg. Você pode até pensar que 17Kg é algo absolutamente administrável. Meu sobrinho pesa 17Kg e vivo brincando com ele no colo. Acontece que carregar uma criança de 17Kg por 5 minutos é moleza. Depois de 30 minutos os braços já sentem. Agora experimente carregar uma criança de 17Kg por 4 horas durante um percurso de 9,5Km de terreno acidentado e íngreme. Gostoso! Agora deve mesmo estar parecendo loucura, mas juro que existe uma satisfação de se descobrir capaz, de vencer cada trecho da trilha, de chegar até seu objetivo, e essa é o tipo de satisfação que molda nosso caráter. Foi um sacrifício, mas juro que em nenhum momento eu me violentei. Em nenhum momento cheguei a um ponto de achar que não podia mais, de chorar, de pensar em desistir. A primeira hora de trilha foi difícil. Era o trecho mais íngreme e cada passo me obrigava a usar uma pedra alta como degrau. Dava para sentir cada músculo da minha perna sendo exigido. O trajeto na verdade era estimado para ser feito em 3h30, mas como eu sabia que estava com sobrepeso, calculei que demoraria 30 minutos a mais. Quando cansava, parava e tirava a mochila por uns minutos. Bebia água, tirava algumas fotos, comia uma barrinha de cereal, e depois continuava. As duas últimas horas foram muito agradáveis. O terreno era mais estabilizado e as paisagens tão bucólicas e cinematográficas. Acabei pegando um ritmo e fazendo uma caminhada bastante prazerosa. Acampei por dois dias no Camping Poicenot, que não tem estrutura nenhuma. Nada mais é do que uma área embaixo de árvores reservada pela administração do parque para que os trekkers acampem com segurança. Estava bem cheio. Com o incidente em Paine, todos os trekkers da Patagônia vieram para Chaltén. Com o acampamento montado pude fazer trilhas em volta durante o dia carregando apenas minha mochila de ataque. No geral as trilhas eram de nível moderado. A da Laguna de los Três era a mais exigente, mas nada que não se resolvesse em 1h30-2h de esforço mais árduo. Em compensação a recompensa era uma deslumbrante visão de uma lagoa azul turquesa no alto da montanha, aos pés do Fitz Roy e cercada por dois glaciares, um de cada lado. Nesse dia acordei às 5h para tirar fotos do Sol nascendo. A desconcertante visão da luz laranja surgindo no horizonte e tingindo de fogo as torres e as montanhas, prometendo um dia espetacular. Depois voltei para o acampamento, tomei meu café da manhã deluxe, com pão, queijo, geléia, café passadinho na hora, cereal com leite e suco de laranja. Dá para comer de tudo porque você vai ficar horas queimando até o último grama de caloria nas trilhas. Às 7h30 me joguei na trilha para a Laguna (é toda subida em 70o e de pedras, o que é sempre traiçoeiro porque você escorrega, as pedras rolam e você nunca sabe onde firmar o pé direito). O bom foi que no horário em que eu saí a maioria do camping ainda estava acordando. Cheguei à Lagoa sozinha, sem uma viva alma lá em cima. Sentei em uma pedra bem no centro e meditei por meia hora. Fortíssima a energia de abrir seus chacras em meio a um paraíso como aquele. Depois fiquei mais um tempo contemplando o som do vento no vale, e quando eu descia de volta para o acampamento, as pessoas subiam em peso. Comecei a entender o ditado “Deus ajuda quem cedo madruga”. A única coisa de matar em todas as trilhas e experiências no Parque eram as moscas mutantes que nos atacavam. Juro! Moscas mutantes! Eram umas moscas gigantescas, do tamanho de uma varejeira, mas elas zumbiam como abelhas. Você ali, se matando na trilha e as bichinhas rondando sua cabeça e te enlouquecendo com o zum-zum. Pior de tudo! Elas picavam! Nunca vi mosca picar. Aquelas davam umas mordidinhas doídas se você descuidasse e as deixasse pousarem na sua roupa (Sim! Picavam ATRAVÉS da roupa!!!) De enlouquecer. Às vezes eu era atacada por umas 15 ao mesmo tempo. Era uma coisa completamente sem propósito. De repente todas elas resolviam que seria legal ficar zumbindo em volta da sua cabeça e Bum! Todas juntas a sua volta por uns 10 minutos. Então elas cansavam, e todas desapareciam. Assim. Sem nenhuma explicação plausível. Minha vontade era sair correndo pelo camping gritando e chacoalhando os braços no ar, como um boneco inflável de posto. E vai achando que repelente funcionava? Nada! Destemidas, as danadas. Passar repelente ou Chanel no.5 dava tudo na mesma. Eu tinha delírios de comprar um pote gigante de Baygon e sair pelas trilhas pulverizando e rindo maquiavelicamente. Mas então comecei a pensar no conceito de não-violência. Muito fácil a gente pensar em conceitos de não-violência quando falamos das crianças na África, ou de Yorkshires fofinhos. Todo mundo é contra matar coelhinhos, chinchilas, minks para fazer casaco de pele. Mas quando falamos de uma mosca mutante nojenta e irritante parece a coisa mais natural do mundo borrifar com veneno ou estabacar seus corpos contra as pedras, até que elas agonizem e morram. Fiquei pensando muito nisso enquanto era levada à loucura por elas. E cheguei à conclusão que toda vida é um milagre (mesmo eu tendo certeza que aquelas moscas não são obra divina e foram manipuladas genéticamente em laboratório). E matar uma mosca mutante é tão violento quanto aquelas imagens de caçadores enfiando machadinhas nas cabeças das focas na Antártida. Então eu tenho muito orgulho em dizer que nenhuma mosca foi morta durante a execução das minhas trilhas pelo Fitz Roy! :-)


No terceiro dia mudei minhas coisas para o Camping Di Agostini que era na parte mais baixa do Parque. Mais 4 horas de trilha com mochila pesada nas costas. Dessa vez um pouco mais leve já que eu havia consumido dois dias do meu cardápio de camping deluxo em Poicenot. Essa trilha foi mais chatinha. O primeiro trecho muito aprazível, beirando as Lagunas Madre e Hija, com visões de bosques, flores e nada de moscas. Em compensação as restantes 3 horas foram de uma tortura sem fim. Parecia que o caminho não acabava nunca. O camping, todavia, estava mais vazio e era mais confortável. Um rio forte abastecia com água. Mas como era um rio de glacial a água era turva. Bem estranho. Lá fiz mais algumas trilhas, mais uma tonelada de meditação em pedras estratégicas no meio dos caminhos e em mirantes. E voltei para El Chaltén na sexta-feira no final da tarde. Mais 3h30 de caminhada, dessa vez descida. Estourando meus joelhos e me fazendo pensar com muito amor e saudades na minha manicure, na minha podóloga, no meu cabeleireiro e em uma bela sessão de massagem em um SPA. Mais do que tudo, o que eu pensava era em um banho quente. De verdade. Com água correndo em cima do corpo e cheirinho de sabonete. Eu tenho minhas frescuras, eu sei. Tenho minhas particularidades, minhas neuroses, minhas manias. Tenho, inclusive, (um monte) minhas chatices. Mas quando você se encontrar submersa na natureza, com todas suas coisinhas dobráveis que sustentam fragilmente seus hábitos civilizatórios. Quando você acorda no meio da noite ouvindo o vento quase arrancar sua barraca, e a poeira sujar tudo o que você tem pelas frestas de respiro. Quando você cruza com um carcará gigante buscando comida pelo mato ao amanhecer. Quando você olha para trás, no alto de uma montanha, e perde de vista a trilha, mas sabe que no começo mal enxergava o lugar onde chegou. Quando você trás aos lábios uma concha de mão cheia de água gelada e pura e sente a sede de duas horas de esforço se aplacar enquanto o estrondo de uma avalanche ressoa pelo ar. Quando seu suor gruda na sua roupa e você sabe que ela não vai estar limpa e passada na sua gaveta no dia seguinte. Alguns conceitos de necessidade, precisão, alguns conceitos que nos fornecem a estrutura de quem somos, o que somos, eles mudam. Porque quando você estabelece seus limites de conforto vem à tona sua verdadeira essência de ser humano. E essa é a que nós vivemos nos esquecendo, e nos transformando em profissões, em marcas, em consumidores. Ao final do dia só queremos descobrir como não sucumbir ao selvagem. Como nos livrar das moscas sem matá-las. A melhor coisa de todo esse contato com a natureza é encontrar esse limite que nos faz humanos e animais ao mesmo tempo.


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

DRI E O VULCÃO

Eu subi o vulcão. Subi e ainda dormi lá. Entrou para minha lista de lugares-exquisitos-onde-já-dormi. Ao lado do deserto, do aeroporto e daquele hostel estranhérrimo em São Luis do Maranhão. O Acatanango é o segundo maior vulcão da América Central. Mas o mais difícil de escalar. Só me deram essa informação quando eu já estava quase no summit, congelando de frio e me perguntando se o gosto que eu sentia na boca era de massa encefálica. Quando eu fechei o pacote eu só gostei da idéia de dormir em cima do vulcão. Mas o Acatanango é pauleira. Martin também topou a roubada. Ele participou do “Volcano Challenge” (uma competição meio brincadeira que rola aqui onde os participantes devem escalar uns cinco vulcões na redondeza.) Ele já tinha escalado o Pacaya (peace of cake), o Santa Maria, o Água, o Tolimã e subiu o Acatanango comigo no sábado. Falou que nem dava para comparar. O que faz o Acatanango tão punk nem acho que sejam os 3900m de altura. A gente foi bem devagar, parando para se adaptar a altitude, então eu quase não senti efeitos. O que matava mesmo era o solo. Uma areia preta estranhérrima, que levantava uma poeira danada. O primeiro trecho já me arrebentou com os pulmões e eu duvidei que conseguisse. Começamos a trilha às 10h30 (achei meio tarde) então o primeiro trecho que era descoberto, bem ingreme e escorregadio foi embaixo de um Sol de rachar. Como a gente ia acampar lá em cima, cada um precisava carregar a mochilona com sleeping bag, mattress, utensilios, roupas térmicas e extras, primeiros socorros, kit básico de higiene, água, comida. Isso significava 15Kg nas costas. Imagina subir uma ladeira de areia fofa, com inclinação maior de 45o com 15Kg nas costas! Isso considerando que eu tô pesando 52Kg, então 15Kg dá uma boa interferida no meu centro de gravidade. Vou confessar que o me fez continuar e não voltar ao pueblo e contratar um carregador foi um menino de 9 anos de idade que estava no grupo. O pai do moleque é um escritor trash estadusinense. Aqueles tipos cabeludos e vegetarianos que parecem personagem de filme dos Irmãos Coen. A gente começou a trilha, o cara disparou numa passada tão insana que nem os guias locais (que sobem aquele vulcão todos os dias nos últimos 15 anos) alcançaram o cara. Detalhe, o largou o filho pra trás. Assim. Sem avisar ninguém. Na maior cara de pau. O molequinho de 9 anos, carregando uma mochila do tamanho dele (tudo bem que o guia estava com a maior parte do peso da mochila dele, mas se eu estava carregando cerca de 1/3 do meu peso, aquele moleque estava com certeza carregando 1/2). Então o guia, com toda sanidade do mundo, fez o papel de pai e foi acompanhando o menino. Toda vez que eu amaldiçoava o peso nas minhas costas eu pensava no moleque. Muita vergonha né? Chamar um carregador quando tem uma criança fazendo melhor do que você? Então eu pensava, “se ele consegue, eu consigo”, e seguia. Nossa passada acabou ficando muito mais lenta por causa dele. Então eu e Martin dávamos uma puxada na frente, parávamos em algum ponto com vista bonita, descansávamos, recuperávamos o fôlego até o guia e o moleque nos alcançarem. E foi assim. Durante as 7 horas e meia que demoramos para subir o vulcão. (Nossa subida estava programada para 5 horas ao todo). Quando chegamos a uns 3500m o frio era inexplicável. Vento, a gente no meio das nuvens. Minhas mãos congelando (para variar eu tinha esquecido as luvas). O menino estava enrolado em posição fetal quase todo roxo, e o pai dele tinha desaparecido completamente. Não estava em nenhum dos postos de descanso. Começava anoitecer (não é uma boa idéia andar por aquelas trilha a noite) e a gente ainda precisava chegar ao summit para ver se achávamos o maluco. Eu e Martin subimos, enquanto o guia ficou com o menino e nossas coisas. Só para ter uma idéia da dificuldade do trecho, foram 35 minutos para subir 400m. Insano! Assim que coloquei o pé no topo do vulcão, bem na beirada da cratera adormecida há mais de 100 anos, os raios laranjas daquele dia que se ia me atingiram a cara. O Sol, quase inutil em sua temperatura, mas imponente de luz, sumia na altura dos meus olhos, enquanto eu içava o que sobrava do meu corpo sobre aquela imensidão de terra vulcânica. Nessa horas a gente não fala. A gente não tira fotos. A gente mal respira. Não havia frio, nem fome, nem músculos queimando. Éramos eu e o vulcão. E minha certeza de que a vida existe exatamente para momentos como aquele. Nós sentamos em silêncio por alguns minutos. Ou talvez tenhamos ficado de pé, já nem sei direito. E voltamos para encontrar o guia, o garoto abandonado e seguir para o acampamento. Esse foi com certeza o pior trecho. A noite caiu rápido, não tínhamos luz. O caminho era por um desfiladeiro escorregadio e muito íngrime. Eu escorregava, minha mochila me puxava para baixo. Me deu pânico. Para ajudas começou a nevar. Quando eu já estava imaginando equipes de busca para resgatar meu corpo hipotérmico de algum burado, avistamos a fogueira do acampamento e um barulho estrondoso em seguida. Uma luz iluminado todo o céu. Como uma explosão. Todos nós demos um salto para trás e um grito. Era Fuego, o vulcão vizinho que tem estado mega ativo nos últimos dias. Cuspindo fogo para os céus e derramando lava pelo cume num dos mais belos espetáculos que eu já vi da natureza. Sentamos em volta da fogueira, todos olhando para Fuego. Jantamos arroz com legumes e chá bem quente. Contamos histórias. O garoto coitado imaginando que o pai ia ser encontrado morto. A gente deu risada e fizemos brincadeiras para ele dar risada. Capotei na barraca em seguida, sendo acordada a cada meia hora com o rugido daquele vulcão ao lado. Acordei também com passos de coiotes rondando a barraca (talvez sentindo o cheiro das barrinhas de chocolate na minha mochila). E acordei enfim para vomitar, com o meu corpo incapaz de processar a altitude, o ar rarefeito, as paisagens, a voz de um vulcão. De manhã comemos fruta e granola em silêncio. Afinal o único que falava o tempo todo era Fuego. O pai do menino ainda desaparecido. Foi encontrado depois e levado para a base. Estava todo enfesadinho. Eu fico pensando, porque alguem faz isso? Todo mundo sabe que não se pode afastar de um grupo quando faz hiking. Que deve-se permanecer sempre as vistas do guia. E todo mundo sabe que o mais fraco dita o ritmo do passo. Eu não entendo porque uma pessoa leva o próprio filho para escalar seu primeiro vulcão, sai correndo na frente e acaba perdendo tudo. Ele não estava lá quando o menino caiu, nem quando escorregou. Não era a mão dele que estava estendida quando ele precisou de ajuda. Não estava todas as vezes que ele via algo maravilhoso e chamava pelo o pai para compartilhar. Mais importante, não estava para ver que seu filho conseguiu. Chegou até o alto. O cara estava tão mais preocupado em provar alguma coisa para si mesmo, que perdeu um do maiores momentos que pai e filho podem ter juntos. Ontem voltamos no final da tarde para Antigua. O cara na van falando um monte de besteira e eu me segurando no banco de trás. Martin fazia meditação chinesa para não voar no pescoço do babaca. Na agência, ele resolveu virar bicho. Foi para cima do proprietário, acusando o guia e todos. Daí não aguentei. Baixou a filha da minha mãe novamente. “Escuta aqui, eu tava quieta, mas não sou o tipo de pessoa que fica quieta quando vê injustiça. O senhor foi irresponsável, egoísta. Se afastou do grupo, colocou a minha vida, do meu amigo, do guia e do seu filho em perigo. Não é trabalho do guia ser babá do seu filho, e o senhor simplesmente virou as costas e não estava lá para ver se ele estava vivo ou morto, com fome ou com frio, nem quando ele te chamava no meio da trilha para te mostrar algo. O senhor estava tão preocupado em ser o primeiro a chegar sei lá aonde, que não viu vulcão, não viu caminho e não viu nada. Se se perdeu é porque quis. Todos nós, que ficamos acompanhando o SEU filho, chegamos no acampamento direitinho, ficamos aquecidos a noite e fizemos todas as refeições. Se o senhor acha que é tão melhor do que todo mundo aqui, contrate um guia particular da próxima vez e uma babá para seu filho, porque não é trabalho do guia fazer o que ele fez nas últimas 24 horas. Quando você faz hiking em grupo, você permanece em grupo. O que o senhor fez foi irresponsável e errado.” É assim. Nem que seja uma cusparada de fumaça no ar, tem gente que nunca fica dormente. Mas as vezes a gente precisa escalar todo um Acatanango para ver Fuego eclodir.