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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

SOBRE ESSA NEUROSE COM OS CORPOS DAS MULHERES POR AÍ

Três situações que deram muito "talking about" nas últimas semanas pelas mídias sociais:

1 - Pierce Brosnan que permanece casado com a esposa APESAR dela ter engordado (trofeu para o moço, minha gente!)
2 - Fernanda Gentil foi à praia e ousou usar biquini com seu corpo de mulher normal magra e - pasmem - sem hidrogel, silicone ou sinais de anorexia. Quanta petulância!
3 - Ilze Scamparini esconde a barriga e, SIM ela tem barriga! (Gente! Ela mora em Roma! Se não fosse gordinha seria um despedício!!!)

Eu acordo todos os dias e me olho no espelho. Tenho uns brações de mamma italiana que me deixam cheia de vergonha. Tem umas calças que não entram, umas blusas que não caem bem. Mas eu gosto de ser saudável. Dou minhas corridinhas, tomo meu suco detox, minha saladinha orgânica. Vou até aí só. Não abro mão do chopp com os amigos, da taça de vinho para celebrar, da pizza no final de semana e da sobremesa. A vida é curta demais para abrir mão da sobremesa. Mesmo quando você tem consciência de que não tem nada errado com você, que não tem nada de errado com a aparência do seu corpo, saudável, bem cuidado. Vai ter sempre a voz inconsciente te fazendo acreditar que está certo o moço não querer te namorar por causa da sua barriguinha, e você será menos elegante ou levada menos a sério em suas opiniões se não tiver braços fininhos, e que a sua aparência física é algo que necessita de supervisão constante, atenção, alerta. Não pode relaxar. Não pode escorregar nem um pouco. 

Tenho vários amigos que engordaram muito ao longo dos anos. Ficaram barrigudos, carecas. Tenho certeza que nenhum deles acordou hoje de manhã, se olhou no espelho, e pensou que sua vida profissional e amorosa estava em jogo porque eles não exibiam os músculos do Chris Pine.

Uma vez ouvi de uma modelo que, por contrato, ela não podia ser vista comendo em público. Vejam bem! Não é comer se esbaldando em um restaurante italiano. Não. Ela não podia ser vista comendo nem mesmo uma maçã! Comer é essa coisa mundana, que seres humanos fazem. Onde já se viu, mulher agindo como ser humano por aí, em público. Absurdo. Coloca umas asas nas costas da moça e vamos fingir que elas são o que são: lindos objetos animados, que andam para cima e para baixo.

Quando uma mulher é flagrada, agindo como humana em público, logo se busca uma justiicativa. "Fernanda Gentil está grávida". Ufa! Ainda bem, hein, Fernanda?! Já pensou desfilar por aí de biquini com um corpo de mulher normal sem poder se justificar com um estado transcendental de iluminação feminina como a gravidez?! Entenderam o recado, meninas? É um pouco assustador como em 2015 ainda tenhamos uma sociedade que não tolera flagrar mulheres agindo como seres humanos. É muito angustiante me olhar no espelho todos os dias e, apesar da minha consciência, apesar da minha cultura e inteligência, ainda me sentir massacrada por esse inconsciente coletivo. 

Eu já tive muito preconceito. Preconceito com quem faz cirurgia do estômago, com quem coloca silicone. Com quem vira rata de academia, e com quem engorda até a obesidade. Hoje sinto uma admiração enorme por qualquer mulher que tome posse do próprio corpo. Seja malhando, colocando hidrogel, assumindo os braços de Mamma, tatuando, alterando, deixando totalmente ao natural. Acordar de manhã, olhar no espelho e dizer: esse é o meu corpo! É uma das coisas mais difíceis para uma mulher. Eu me reconheço em cada uma delas. Consigo me enxergar na mulher que resolveu engordar depois de ter 3 filhos, na que botou o biquini embora não se parecesse com a capa da Boa Forma, e na que mudou para a Itália e não é besta de não aproveitar isso. Consigo também me enxergar na minha amiga que colocou 200ml de silicone e passou a se sentir mais bonita. Na que fez a cirurgia do estômago e encontrou uma nova vida depois disso. Naquela que entrou em um programa de reeducação alimentar e perdeu 20Kg, e naquela que tingiu os cabelos de loiro e aumentou os lábios. Consigo me enxergar em todas as mulheres que estão por aí, tomando posse de seus corpos, e fazendo escolhas que as fazem felizes.

Acordar todos os dias, olhar no espelho, e enfrentar a vida, é uma batalha feroz. As mídias sociais estão aí para nos lembrar que fazer escolhas sobre os nossos corpos não é tão simples assim. Mas nós ainda saímos para a rua, nós ainda enfrentamos. Nós ainda ousamos andar em público como seres humanos. Por isso eu sinto uma compaixão gigantesca por todas as mulheres, que estão enfrentando a vida com seus corpos. 

Minas, eu me reconheço em vocês! <3

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

CÁPSULA DE ADEUS

Em 2009 comecei a escrever. Já escrevia, sempre escrevi. Mas em 2009 resolvi que era tudo o que eu queria fazer. Me joguei em várias oficinas de escrita criativa. Acho que quando você resolve brincar de algo, tem que brincar direito. Em uma delas comecei uma série de fragmentos de narrativa que chamei de “Cápsulas de Medo e Amor”. Ainda não publiquei, mas tenho um carinho enorme por esse material. Cada fragmento conta uma história sobre amor, e sobre o amor vencendo o medo. Medo da solidão, medo da incerteza, medo da velhice, medo do desconhecido. Algumas eram pura criação da minha cabecinha, outras foram roubadas e coladas entre histórias de amigos. Algumas são verdadeiras e aconteceram comigo. 

Uma dessas cápsulas fiz em homenagem à minha avó paterna. É uma das cápsulas verdadeiras. Ela morou mais de 13 anos com a gente depois que teve um derrame e ficou perigoso morar sozinha. Odiava não poder morar sozinha. Ela era uma mulher independente dentro da sua cultura e criação. Adorava fazer tudo sozinha. Andava para baixo e para cima. Às vezes pegava uma linha de ônibus e ia até o final. “Para ver onde vai dar”. Era louca por supermercados. Ia todos os dias. Comprava todas as novidades das prateleiras. “Para saber que gosto tem”. Aprendi isso com ela. A vida é para se experimentar. Ser curiosa. Ande, explore, teste. Veja que gosto a vida tem. 

Semana passada minha prima me ligou chorando. Minha avó estava morando no interior com meu pai e havia sofrido um AVC violento. Fomos no domingo nos despedir. Ela estava inconsciente em uma cama de hospital. A boca murcha alimentada por sonda, os bracinhos frágeis e sem vida. O médico falou que 85% do cérebro estava comprometido. Fiquei angustiada de imaginar que tipo de vida ela teria se voltasse, se saísse daquele hospital. Uma pessoa que não gostava de se sentir presa nem pelo soutien. Só comprava blusas de gola aberta, para não sufocar. Passar o resto na vida vegetando em uma cama? 

Coloquei minhas mãos sobre sua cabeça, abri meus chacras e mandei toda energia de amor que consegui. Depois, me abaixei em seu ouvido e disse: “Vai vózinha! Vai descansar que essa vida é só ilusão. Tudo não passa de ilusão, de uma grande brincadeira. Você vai ver como eu tenho razão e vai ficar melhor”. Ela ainda esperou minha irmã voltar de viagem para se despedir. Morreu ontem de manhã, sem dar trabalho para ninguém, como ela queria. 

Hoje vamos enterrar minha avó. 

Eu, que aprendi a lidar com a morte de forma pragmática, só sinto alegria de ter participado de sua jornada. Teve uma vida dura, passou o final longe de quem ela amava. Mas cada um constrói sua história, vive sua própria batalha particular. Tenho apenas que ser grata de ter podido participar. 

Desenterrei a cápsula dela que compartilho aqui em baixo. É uma despedida. É o jeito que eu sei fazer. 


“Minha avó voltou do hospital hoje à tarde. Há cinco anos lidamos com suas idas e vindas na UTI. Oitenta e cinco anos. Ela está velhinha. E é um pouco doloroso ver a vida se esvaindo dela. Nunca foi uma mulher brilhante. Simples e ignorante. Repleta de defeitos e preconceitos. Às vezes capaz de uma maldade desconcertante. Mas ainda minha avó. Voltou mais enfraquecida que de costume. Desorientada. Com um riso bobo no rosto. Não consegue levantar da cama sem ajuda. Passei a mão em seus cabelinhos grisalhos e encaracolados. Levei-a até o banho. Ela se sentou no banquinho e se deixou banhar. Ensaboei minha avó hoje à tarde. Sua pele, suas mãos, seu sexo. Seus seios flácidos. Ela se deixou ensaboar. Enquanto eu enxugava o rosto com a toalha repleta de seu cheiro, ela segurou minha mão. Levou-a aos lábios e me beijou.”


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A TRILHA INCA


Eu fiz. Eu consegui. Eu sobrevivi à Trilha Inca. Acho “sobreviver” um verbo adequado para a experiência. Não foi nenhum passeio no shopping. A trilha é puxada e exige muito, não apenas fisicamente, mas principalmente psicológicamente. Vale à pena? Muito! Muito mesmo! É uma peregrinação transformadora, e por mais que eu tivesse me preparado anos para fazer esse caminho, nada me preparou para o que ele realmente é. 

Ainda estou assimilando a experiência. Cheguei ontem à noite de Machu Picchu e hoje cedinho entrei em um ônibus que ficou 10 horas na estrada até chegar em Puno. Estou mancando e não consigo descer escadas sem parecer que fui atropelada. Foram 4 dias, mas a sensação que eu tenho é de uma vida inteira. Impossível passar por isso sem sair transformado. 

Em síntese: São 4 dias de trilha. Os Incas utilizavam várias trilhas na região, mas essa é considerada a mais sagrada, e é a única que chega diretamente em Machu Picchu. Por isso recebe o nome de Trilha Real (ou Royal Trail). Ao longo da trilha vamos cruzando vilarejos e ruínas de templos estrategicamente construídos e que comprovam a teoria de que o caminho era usado como uma forma de peregrinação religiosa até Machu Picchu. E peregrinação nesse sentido tem tudo a ver com merecimento. A trilha é uma prova de fogo. São 43Km, repleto de escadarias de pedras irregulares e altitudes que variam dos 2600m aos 4215m. A trilha é bem controlada, e por isso também é segura. Cada dia de caminhada passa por um posto de controle, onde eles checam o nome e passaporte de cada pessoa que foi dado no momento da reserva (no meu caso, em abril desse ano). São permitidas apenas 500 pessoas na trilha por dia. Isso incluindo carregadores e guias. Para vocês terem uma ideia, meu grupo tinha 15 pessoas, 2 guias e 19 carregadores, incluindo um cozinheiro. O trabalho deles é impressionante e seria totalmente impossível realizar essa trilha sem eles. A estrutura dos carregadores e o papel deles na trilha merece um post à parte. Foi uma das coisas mais impressionantes e surpreendentes que testemunhei.

O começo da trilha. Nosso grupo em sua primeira foto de família. 


O primeiro dia é o mais tranquilo. Parte-se de Ollantaytambo à 2600m, um caminho agradável, repleto de vegetação, sem muita exigência e com poucos trechos íngremes. Ainda assim, são 12Km e acampamos à 3000m de altura. A altitude já faz o fôlego ficar bem curto, e apresenta algum mal-estar. No caminho vimos nossa primeira ruína, de pedras polidas e construída com precisão astronômica como tudo o que os Incas fizeram. Nesse caminho ainda encontramos vários povoados, quechuas vendendo água e gatorade, animais e plantações. 

Wilfredo, nosso maravilhoso guia, apresentando a super equipe de carregadores e cozinheiros que possibilitaram que a gente fizesse a trilha. Gratidão eterna a cada um deles. 


O segundo dia é a prova de fogo, e é o dia também em que muita gente desiste da trilha. Acordamos às 4h30. Os nossos guias são tão gentis que nos levam chá quentinho na barraca na hora de acordar. Tomamos café, empacotamos e caímos na trilha. O desafio hoje é fazer 12Km, subir 1215m, e depois descer 600m para o acampamento. Então o que nos espera são longos trechos de subida acentuada e um ar cada vez mais rarefeito. Até a hora do nosso segundo café da manhã, que foi na última vila habitada da trilha por vota das 10h da manhã, o caminho estava puxado, mas administrável. Depois dessa pausa foram 2h30 de subida íngreme em uma escadaria de pedras irregulares até chegar à “Passagem da Mulher Morta” (nome dado por causa de uma lenda andina. Alguém carregadores dizem que encontraram o corpo de uma mulher morta uma vez à noite nesse pico, e quando o socorro foi resgatá-la, ela tinha desaparecido. Hoje eles acreditam que ela vaga à noite pelos acampamentos atrás do homem ideal.), que fica à 4215m. Só para ter uma comparação, o Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil, tem 2994m. Esse foi o trecho mais desafiador. Fisicamente eu achei que ia morrer. Sentia meu coração na boca e qualquer movimento exigia todo o ar dos meus pulmões. Psicológicamente, toda sua vida passa em sua mente. Amaldiçoei os Incas, me questionei porque estava fazendo aquilo, duvidei, chorei, ri, briguei muito com os degraus. Foi o momento que me caiu a ficha que essa não era só uma aventura na montanha, um passeio para fazer aos finais de semana. Foi quando me dei conta de que essa é uma jornada espiritual. Quando pisei no summit percebi que não tinha como voltar atrás. Agora era ir até o fim. Depois disso ainda descemos 1h e 600m de escadarias íngremes e escorregadias até o acampamento, onde almoçamos. O resto do dia foi de cochilos e recuperação. 

A conquista da "Passagem da Mulher Morta". 4215m e toda minha capacidade de superação.


O terceiro dia foi lindo. Acordamos mais cedo ainda, às 4h20, para evitar filas no posto de controle. Todos os músculos da minha perna doíam. A panturrilha, o extensor, o quadríceps, os glúteos. Muita dor nos ombros também, pelo esforço feito com os bastões de hiking (que, aliás, são imprescindíveis.). A dor fez o ritmo fica mais lento. O terceiro dia é o mais longo. 15Km, mas a variação de altitude não era tanta. Subimos um pouco, mas descemos de novo para acampar nos mesmos 3600m do segundo dia. Esse é o dia com mais ruínas para explorar no caminho, cavernas, túneis de vegetação, montanhas cobertas de neve e lagos de água cristalina que aparecem no meio do nada. Lindo! Esse foi o dia em que aprendi a parar de brigar com o caminho. Aceitei a dor. Aceitei a irregularidade das pedras. Aceitei um ritmo mais lento. Aceitei, simplesmente. Depois do almoço caiu um temporal, e tivemos que descer até o acampamento embaixo de chuva pesada. Foi intenso. As pedras deslizavam, a água ensopava tudo. Os carregadores passavam voando em nossa volta e eu me sentia totalmente insignificante no meio daquela natureza. Acalmou apenas quando chegamos nos terraços da última ruína, perto do acampamento. Eu estava febril e vomitando, mas não de um jeito que me nocauteasse. Era como se os Incas estivessem me forjando para merecer Machu Picchu. Tomei remédios, me sequei, meditei. Pedi que fizesse um dia perfeito. Que a febre passasse. Que estivesse muito Sol. E que eu conseguisse chegar.

Em uma das ruínas pelas quais passamos no terceiro dia. Cada conversa, cada descoberta, mais e mais surpreendida com os Incas.

O quarto dia já é uma benção só por se chegar à ele. Acordamos às 3h30, a febre tinha passado. A fila do posto de controle já estava grande. Foi o caminho mais agradável de todos. Gentil e suave, como se os Incas me dissessem: “Muito bem! Passou no teste!”. Foram 1200m de descida em apenas 5Km de trilha. Fomos vendo o dia amanhecendo, as nuvens subindo para o céu. Quando chegamos ao Portal do Sol, ele também surgiu brilhante em um céu lindo, azul e imaculado. Os Incas tinham me ouvido. Subi as últimas escadarias, passei pelas colunas de pedra do Portal e, lá estava ela! Machu Picchu!!! A cidade perdida dos Incas. Deslumbrante no meio das montanhas. Parecendo estar intocada desde sempre, esperando que a gente chegasse a ela. É uma emoção indescritível. Ri. Chorei. Senti todo o ar do mundo voltar aos meus pulmões.

A conquista de Machu Picchu!


Uma opinião unânime entre meu grupo foi que ficou muito difícil imaginar chegar à Machu Picchu sem passar pela trilha, sem avistá-la do Portal do Sol. Mais ainda, enquanto arrastávamos nossos corpos sujos e machucados, cruzando com uma infinidade de turistas que chegavam arrumadinhos de ônibus, sentimos que havia algo deslocado. Peregrinar por 4 dias até chegar em Machu Picchu me deu pertencimento. É como uma cicatriz que vai ficar eternamente em mim. Machu Picchu me pertence. Eu a conquistei. Você pode visitar Machu Picchu mil vezes, você pode fazer fotos, decorar guias. Mas só tem uma forma de fazer com que ela se torne parte de você. E isso aconteceu nos outros 3 dias. 


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Carte de amor ao Gregorio e à São Paulo

Vou confessar, ando com uma quedinha pelo Gregorio Duvivier.
Eu sou uma apaixonada por São Paulo. Acho que no Brasil não tem melhor cidade para se viver. Veja bem, não quer dizer que é uma cidade perfeita e maravilhosa, apenas que, do que temos, é a melhor. E muito melhor do que muita cidade por onde já passei na Europa, por exemplo. Acho um saco gente que reclama da minha cidade. Acho de uma deselegância sem tamanho ficar achando defeito em tudo, apontando só para o que é ruim. Acho cafona pra burro ficar de mimimi e continuar morando aqui. Seja porque é onde se trabalha, seja porque é onde tem dinheiro, seja pelo motivo ou desculpa que for. São Paulo é uma cidade generosa pra caramba. É a Geni das cidades brasileiras. Nos enche de cultura, de gente, de oportunidades, de diversão, de amigos, de milhões de formas de sair da rotina, mas ainda assim só é feita pra apanhar, só é boa de cuspir. Li o texto da outra que também falou mal dos homens paulistanos, e fiquei com uma dó danada da moça. Em uma cidade de 19 milhões de habitantes só saiu com coxinha na vida, que pena, né!? Acho que isso diz mais sobre ela do que sobre a cidade. Sinceramente, acho que gente que detesta São Paulo tem mais é que ficar só com o pior da cidade. Tem que amargar umas horas de trânsito e passar o final de semana de bico no sofá de casa. Tem que ficar resmungando que a cidade é um lixo e liberar os shows no parque para quem gosta; as exposições, o centrão lindo maravilhoso, a variedade de cinemas, as centenas de teatros, a vida noturna, os restaurantes, os cursos, as colônias de imigrantes, a babel de gente de todos os cantos de todas as raças que chamam essa cidade de casa. 

Gregório, pode amar minha cidade, viu! Fique à vontade. Vem, é uma delícia. Te encontro para uma água de coco no parque, guarda lugar na fila daquela mega exposição. Se bater saudades, a gente vai na Praça do Pôr do Sol e também aplaude.


quarta-feira, 26 de março de 2014

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Ontem eu estava falando do André Gravatá com uma amiga em comum. Dizia que tenho certeza de que, quando ele chega em casa, tira a camiseta, e duas enormes asas de anjo saem de suas costas. Tenho certeza absoluta disso. Ontem também eu estava chateada porque tenho desistido de tomar algumas atitudes, de tentar algumas ações, porque não existe interlocução. As pessoas estão tão cegas com suas próprias verdade, tão preocupadas em cuspir suas certezas na sua cara que não se dão conta do quão violentas e abusivas são. Pior, não possuem os ouvidos abertos ao que o outro diz, porque estão esbravejando, preocupadas demais em ter a última palavra. Eu aprendi a deixar os outros terem a última palavra. Faz mais bem a eles, do que a mim. E tenho vontade em manter minhas manifestações no superficial, no que não gerem em ninguém a vontade de ter a última palavra. Então aparecem os anjos da nossa vida, que servem para escrever textos como esse aqui. Coisa que anjo escreve. Eu já passei por tudo isso aí que ele descreveu, já testemunhei as mesmas coisas. E quando a gente tem vontade de deixar o presente se afastar, seja por covardia, por fraqueza, ou por humanidade, vem o André me lembrar que a gente não pode deixar isso acontecer. Então respira, e vai agarrar o dia com as duas mãos. 

(Se você tiver que ler um único texto hoje, apenas um, leia esse.)


sexta-feira, 21 de março de 2014

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A Vi disse que o ano novo começou somente ontem. Rolou uma mega conjunção especial no céu. Saturno e a Lua estiveram bem atípicos e, embora o calendário tenha mudado quando a gente estava juntas no Rio, o ano só mudou mesmo ontem, enquanto a gente falava de energia, confabulava sobre anos sabáticos e os planos para 2014. Seja pelo que for, sinto na pele a mudança. Produzi absurdamente esses últimos dias. Escrevi muito, organizei muitas coisas que estavam para trás. Sinto uma vontade e uma energia que há meses não aparecia por aqui. Se é um ano novo, já estou gostando dele. Já estamos enchendo de amor. Porque acreditamos que, sim, e o amor que transforma, e ele que oferece o melhor de nós. Amar de forma complexa, absoluta, incondicional. Tudo e todos e o que se faz. Ter fé que a vida nos oferece amor, aceitar e ser grata. Essa é a promessa de ano novo. Um feliz ano novo astral para vocês! 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

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Vi esse vídeo pela manhã e me emocionou tanto que levei pelo resto do dia. Para mim a única coisa que importa é como se resolve viver. Que vida você escolhe viver. Vida de verdade não é cheia de glamour, festas, fama, fortuna. Vida de verdade é isso aqui. Amor, olho no olho, superação. Essa é a que eu escolhi viver. Porque todos os dias de manhã eu me reinvento, me arranco da cama e tento fazer diferente. Nem sempre funciona, aliás. Dá mais errado do que certo. Mas eu continuo levantando da cama todos os dias, e tentando. 


domingo, 9 de fevereiro de 2014

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 Minhas salsichas e os meninos na água. 


Dia de passar a tarde na piscina com os sobrinhos. Minha irmã tinha um compromisso, deixou-os aqui. Pena que a Bibi estava toda borocoxô. Com dor de garganta e um pouco de febre. Mal falava, tadinha. Ficou deitada no sofá assistindo Harry Potter, enquanto eu desci com os meninos e fiquei brincando na água. Mesmo a água eu achei quente demais. Está tão calor que nem a piscina refresca direito. No final do dia fizemos um mega lanche em casa, e eu adoro como eles comem bem. Bia e Rafa já estão adolescente, então me ajudam a zerar a geladeira. Qualquer coisa que você coloque na mesa, vai. Frutas, torradas, suco, geleia, pão de queijo, bolo, sorvete. Tudo. E olha que aqui em casa é tudo orgânico, natureba, com cara de que criança não gosta. Eles comem com a mesma alegria a barrinha de goiaba orgânica sem açúcar, quanto a cobertura de chocolate do bolo de cenoura que fui comprar na padaria. Gosto de passar tempo de qualidade com eles. Eu sei que sou uma tia que nem sempre está presente. Vira e mexe me enfio em um avião e acabo perdendo aniversários, formaturas, premiações e medalhas. Então quando posso, passo tempo com eles. Converso, abraço, encho de beijos. Não compensa, porque o tempo passa e passa bem rápido. Mas é meu compromisso de sempre estar inteira com eles. Nem sempre estou presente fisicamente, mas nunca ausente. Agora, quando minha irmã veio buscá-los, perguntou para a Bibi se ela tinha melhorado:

- Bia, qual o seu sentimento!
- Eu te amo, mamãe. 
- Eu sei, mas como você está se sentindo?
- Ah! Muito amada! 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

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Dylan foi liberado hoje da UTI. Ele teve um probleminha pulmonar, não estava conseguindo expelir todo o líquido do pulmão depois do parto, então teve que ficar de castigona UTI esses dias. Hoje peguei ele no colo pela primeira vez e, já estamos apaixonados. Ele me adorou. Encaixou nos meus braços e ficou gostosinho feliz. Existe uma coisa em recém-nascidos que nos faz sentir tão bem! Meio como se a vida fizesse sentido e a gente pudesse ficar o resto do dia com aquela coisinha frágil e indefesa no colo. Congelar o momento em que a vida ainda é calma, controlada. Queremos garantir que o mundo lhe seja gentil. Sabemos que não será sempre. Tomara que não seja. A vida está exatamente em todas as emoções e adversidades que podem acontecer. Mas até que ele cresça e possa viver tudo isso, eu aproveito esses momentos em que se pode congelar o tempo e sentir a respiração pura e mínima de quem acabou de chegar ao mundo. 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

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Dylan nasceu!  Agora a noite. Lindão, 49 cm e 3,285Kg. Perfeito. Estamos todos muito felizes. Minha irmã sempre teve o sonho de ser mãe. Ela está com 42 anos e houve um tempo que chegou a pensar que tinha perdido a oportunidade. Adoro como a vida funciona às vezes. Há um ano e meio reencontrou um amigo de infância, se apaixonaram, casaram e agora veio o Dylan. Se em 2012 alguém dissesse que tudo o que ela sempre sonhou estaria acontecendo, ela não acreditaria. Não conseguia enxergar como isso podia acontecer. Mas a vida tem sempre um jeito muito melhor de contar histórias do que quando a gente tenta controlar. Está aí! Viva a vida!

domingo, 26 de janeiro de 2014

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Desafio pessoal (fadado ao fracasso óbvio): ver todos os filmes do Oscar até o Carnaval. Como eu estou dedicada esse ano, lá fui eu ver o favorito ao Oscar de Filme Estrangeiro na Reserva Cultural. “Alabama Monroe” foi uma surpresa completa. Que filme mais delicado! Os atores estão perfeitos, com um entrosamento, uma intimidade, bem rara de se conseguir. Aquelas químicas que não se explica, nem se planeja. Ela acontece e pronto. O filme é bem mais triste do que eu estava preparada. Fiquei na cadeira, chorando como um bebezinho, e limpando as lágrimas na barra da saia. Nem caixinha de lenço eu tinha. A história, sem spoiler, é sobre a relação entre uma tatuadora e um músico country em Gent na Bélgica. Uma cidade que guarda o mérito de ser o berço da Revolução Industrial, e que tive a impressão de ser bem dura e imperfeita quando visitei. Acho que exatamente por isso, muito humana. Cidade de verdade, não aquela coisa cartão-postal-disney como é Bruges. Assim como a cidade, o casal é imperfeito, levemente descalibrado, e exatamente por isso aquele amor parece ser tão autêntico e real. Tanto que a gente se pega pensando durante o filme que se quer um amor assim. Encontrar aquela pessoa meio torta, cujos defeitos a fazem perfeita. E viver uma vida de verdade, daquelas que as pessoas normais vivem. Sem sucesso, glamour, pompa e circunstância. Mas com contas para pagar, rotina, reformas inacabadas e pequenas desafios para se superar juntos. A trilha sonora vale um Oscar à parte. Repleta de banjos, gaitas e alma folk. A primeira coisa que falei quando o filme acabou foi: “Eu quero essa trilha sonora”. Estou aceitando de presente!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

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Hoje foi o dia mais esperado das férias escolares: o Dia da Tia Dri!!! 

Todas as férias eu e meus sobrinhos fazemos o “Dia da Tia Dri”. É um dia em que a gente sai juntos e fazemos coisas divertidas. Teve vez de passar a tarde jogando Wii e comendo doce da “cesta da felicidade” (uma cesta cheia de balas, chocolates e pirulitos, para terror da minha irmã), tivemos muitas sessões de cinema, passeios em livrarias, confecção de cupcakes, tarde de escalada. Dessa vez resolvi inaugurar minha mochila de picnic “recém-chegada da China”! É uma mochila super legal que comprei no AliExpress. Vem com pratos, taças, talheres, guardanapos, um compartimento térmico para colocar a comida, suporte para garrafa de vinho e um grande cobertor para jogar na grama e fazer o picnic em cima. De sonho! Fiquei tão feliz quando chegou. Vi muitos desses kits na Europa, as pessoas fazendo picnics nos parques, às margens do Sena e na Villa Borghese. Estava louca para usar mais esses parques que temos na cidade. Então enchi a mochila de frutas, queijos, saladinhas e sanduiches; e fomos para o Parque Vila Lobos andar descalços na grama e comer deitados no chão. Todas as vezes que fui ao Vila Lobos foi para ir em algum show, ou alguma coisa específica. Nunca tinha ido de fato usufruir do parque. Poxa, que delícia de parque é esse! A área de picnic é perfeita, cheia de árvores. Fiquei feliz de ver que várias famílias, casais, grupos de amigos também resolveram fazer um picnic no meio da tarde de quarta-feira. Descolamos uma bela sombra, tiramos os sapatos e almoçamos ao ar livre. Depois as crianças enterraram sementes de cereja (jurando que nasceria uma cerejeira), subiram em árvores, brincaram de pega-pega, enquanto eu deitei um pouco na grama e fiquei olhando o Sol por entre as folhas das árvores. Pensando em como é gostoso quando a vida fica simples. Mateus encheu o pé de barro, até o Rafa, que está na difícil pré-adolescência, se permitiu ser criança mais um pouquinho. Bebemos todo o suco de goiaba e demos uma volta no parque para descobrir o que mais tinha por lá. Descobri quadras de tênis para uso livre, aparelhos de ginástica e uma super ciclovia. Talvez eu devesse incluir o Vila Lobos às minhas corridas de final de semana. Talvez eu crie coragem de aprender a andar de patins também. Talvez eu até arrume alguém para me segurar nos tombos e ajudar a carregar a cesta de picnic das próximas vezes. Talvez. 

domingo, 19 de janeiro de 2014

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Nada como almoço de domingo em família. Esse ainda teve comemoração de aniversário da minha tia. Sabe o que isso significa? Significa que depois de uma mesa gigante, lotada de comida, e depois da sobremesa, a gente ainda cantou parabéns e cortou um bolo antes do café da tarde. Pois é! Nessa família se manja! Eu gosto muito da minha família. Tenho uma família grande, ruidosa, italiana. Dessas que ama e odeia acima de qualquer suspeita. Para mim é muito paradoxal, já que não tenho nada a ver com minha família. Para eles eu sou a ovelha negra, a que “saiu esquisita”. Não casou, gosta de umas músicas estranhas, uns filmes parados, e tem essa mania de viajar para lugar cheio de pobre e se hospedar sem nenhum conforto. Eles me acham esquisitíssima. Mas já desisti de tentar me explicar para eles. Minhas escolhas e opções de vida não seguiram a minha família. Mas ainda assim, eles sempre estão ao meu lado, sempre vão me segurar se eu precisar. São mais constantes do que muitas pessoas que eu tinha tudo em comum, e achava que eram amigas. Família é isso aí mesmo. Um negócio que a gente não entende, mas ama. Aceita. Acho que é disso que é feito o tal do amor incondicional, né!?

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

SOBRE DÉBITOS E AREIA MOVEDIÇA


Ano passado, quando tirei férias e fiz uma roadtrip pela Itália, havia prometido ao Alê que passaria na volta por Barcelona para ficar um pouco com ele. Acabei cancelando e voltando antes para o Brasil por causa de alguns problemas de trabalho. Em janeiro havia me programado para uma nova temporada européia, e novamente prometi passar para ficar uns dias com o Alê. Cancelei a viagem por vários motivos, e aumentei meu débito de amiga que promete e não cumpre. Dessa vez cruzei o oceano novamente, mas nem considero uma viagem. Vim para um retiro budista em Sintra e resolvi aproveitar para visitar algumas amigas que tiveram filhos no último ano. Para quitar o grande débito, resolvi que chegaria por Barcelona, para cumprir a promessa e rever essa cidade que não tive a oportunidade de absorver de verdade da outra vez que estive. Acabei ficando uma semana inteira com o Alê, e foi como era quando estávamos saindo da FAAP e passávamos as tardes e noites por São Paulo. Continuamos os mesmo. Envelhecemos, mas continuamos os mesmos. Alê me leu alguns trabalhos lindos que tem escrito. Acho um desperdício tão grande ele não colocar um pouco mais de esforço em produzir e publicar. Alê é de verdade um escritor fantástico, um pós-beatinik com muito mais autenticidade do que todos os posers que tentam ser undergrounds no Brasil. Ele foi uma grande inspiração para mim. Foi por causa do Alê que comecei a pensar a sério em escrever, como profissão, como vida. Na verdade essa é a única coisa que realmente fazemos bem. Somos bons em várias coisas, somos versáteis, mas nossa essência é essa. Nós dois somos pessoas que escrevem. Alê tá levando uma vida ótima em Barcelona. Seu apartamento é espaçoso e confortável, tem até um terraço grande com churrasqueira, onde ele estende uma rede e planta girassóis. De onde também se avista as torres da Sagrada Família. O prédio não tem elevador, e nos primeiros dias senti meu pulmão desafiado para subir os 123 degraus até o sexto andar. Eu contei. Acho gostoso ver essa vida simples, sem extravagâncias que ele está levando. Coisa que nos é quase impossível em São Paulo. Faz quase três anos que eu me restabeleci, só com uma mochila de roupas velhas e surradas, e já acumulo mais coisas do que o Alê em 7 anos fixos em Barcelona. Porque acabamos tão rapidamente como acumuladores inúteis? Mesmo olhando para minha bagagem de não-viagem agora - já que não vim de mochila dessa vez - tenho a certeza de que carrego só o básico, mas o meu básico está excedendo os limites de despacho. Esse é o tal do piloto automático. Ficamos tão acomodados nessa vidinha de rotina e conforto urbano, que vamos afundando no supérfluo sem nem nos darmos conta. Vira areia movediça. O dia que você se pegar assinando contrato de casa em condomínio fechado, e blindando o carro para poder ir ao cinema no shopping, sinto muito! É porque já perdeu o fôlego e nada mais te salva. Quando eu quebrei com tudo e resolvi ir em busca do que me fazia sentir viva, eu achei que era uma coisa definitiva. Que aquela experiência e aquela transformação me pertenciam eternamente, e que eu nunca precisaria me preocupar de estar absorvida no nada novamente. Então eu estava arrumando minha mala ontem, me perguntando como era possível o meu “básico” ser tanto assim, quando me ocorreu que é preciso um trabalho contínuo. Aqui estou eu já afundando novamente, ligando o piloto automático e deixando tudo o que realmente me faz feliz para uma outra hora. É preciso acordar todos os dias, e quebrar essas amarras sociais todos os dias. É preciso partir e buscar o que nos faz vivos todos os dias. Porque quando relaxamos, quando nos acomodamos no que pode ser seguro e certo - ainda que seja a segurança e a certeza de que nos transformamos - a areia movediça nos engole, e passamos nossas semanas entre a rotina de trabalho, a cerveja com os amigos, o programa de TV, a pizza do sábado e a busca nas araras e prateleiras das lojas de uma satisfação que não está ali para vender. Compramos o que nos oferecem para que sirvam como substitutos. Compramos qualquer coisa que esteja ali para vender. Se não nos reinventamos todos os dias, e nos atiramos no mundo com os olhos ávidos pelo novo, pelo maravilhoso todos os dias; se não nos dispomos a experimentar, transgredir, inovar, podemos assassinar nossos talentos, endurecer nossa alma, até o ponto de que nem a memória nos resgate a euforia de sermos nós mesmos. Quando nos perdemos na insatisfação do trânsito, da política, da corrupção, dos impostos, da crise, deixamos de usar essa energia para mudar de lugar, e mudar nossa perspectiva. É preciso estar em constante movimento, constante renascimento. Resgatar nossas essências do lodo desse mundo amortecido, hipnotizado. Deixei meu livro em cima da mesa de centro do Alê. Escrevi na dedicatória: “Senta essa bunda na cadeira e escreva. É só isso que a gente sabe fazer. Te amo. d.”

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O LADO BOM DA VIDA



Nos últimos dias estou sucumbindo a uma crise de stress. Estou enfrentando alguns problemas particulares e, mais uma vez, a vida está me mostrando que eu não sou forte o suficiente. O resultado é que o stress, que eu “sabiamente” ignorei na esperança que ele deixasse de existir sozinho, passou a somatizar fisicamente. Primeiro um sono violento, falta de energia, irritabilidade, início de depressão. Então nesse final de semana uma crise de alergia de pele. Estou com dermatite nos braços, unhas quebradiças, a pálpebra do olho inchado. Até aí eu ainda estava duvidando do poder do stress. Mas quando chegamos no limite, quando nos sentimos sufocados pela impotência de não poder fazer nada, a garganta trava. Assim, do dia para a noite, fiquei completamente afônica, com uma bela inflamação de garganta. Daquelas que nos impedem até de atender ao telefone. Quando isso acontece a gente para tudo. Cancela a corrida, desencana dos compromissos. Guarda todos os recursos para que o corpo possa se recuperar e combater o inimigo. Portanto, guardada em casa e com a boca fechada à força, resolvi tirar o atraso de filmes que eu queria ter visto e não vi, seja por falta de tempo, seja por falta de coragem de ir ao cinema sozinha. 
Ontem vi “O Lado bom da vida”, o filme que deu à Jennifer Lawrence o Oscar de melhor atriz. Se ela mereceu? Não. Muito menos tirando o prêmio de Emmanuelle Riva no arrebatador “Amour”. Mas a garota faz bonito, em um papel que exigia muita honestidade e delicadeza para ser justo. Eu gosto de filmes em que as pessoas encontram o amor, gosto de histórias em que mesmo as pessoas mais improváveis de encontrarem o amor, encontram o amor. Porque não acredito em uma fórmula perfeita de felicidade eterna, mas acredito sim que, desde que você esteja disposto e vulnerável, a vida pode ter surpreender por inteiro. Não acredito em gente perfeita, gente sem falhas, sem culpas, sem arrependimentos. Se você não flertou com a loucura, não teve o seu momento na borda da piscina, é bem provável que não tenha vivido direito. E vão nos dizer sempre que não pode ser assim. Sempre haverá quem nos queira controlar, quem nos alerte sobre os comportamentos adequados. Sempre haverá alguma medicação para nos enquadrar no que é considerado correto, convencional. Mesmo que você não se reconheça, mesmo que você se torne um estranho para si mesma. Por isso precisamos encontrar os nossos iguais, aqueles loucos como nós. Para nos amar é preciso ter passado por uma loucura igual a nossa. Só mesmo na insanidade acreditamos em coisas assim. Perdendo de 10x0 para as adversidades que não sei como resolver, calada muito mais na alma, do que na voz em si, mas ainda assim acreditando que haverá quem consiga entender exatamente onde dói em mim. 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

EU, VOCÊ E TODOS OS OUTROS



Ontem fez um domingo lindo de Sol. Ainda está muito frio em São Paulo, mas o Sol faz o dia ficar mais bonito. Adoro esses domingos de inverno. Correr no parque de moletom, comprar o jornal e tomar chá bem quente com leite. Já falei em outros posts o quanto adoro correr no Ibirapuera. Tenho uma relação bem intensa com esse parque. Sinto saudades de morar mais perto, poder ir ao parque todos os dias. Respirar as árvores, olhar as pessoas. Organizar meus pensamentos e viver mais essa cidade ao ar livre. Agora morando em Pinheiros as corridas matinais passaram a ser na academia do prédio. O parque só mesmo aos finais de semana. Quando eu me junto à população que vem dos bairros e ocupam o parque, cada tribo ao seu estilo. Ontem o parque não parecia domingo. Sem aquela movimentação frenética, alamedas cheias, ciclovia lotada. Apenas os frequentadores de sempre, praticando esporte, passeando com suas famílias, entretendo os cachorros. Me faz tão bem estar no meio da natureza, a energia de quem se gosta e cuida de si. Eu chamo isso de qualidade de vida, e me sinto bem privilegiada de poder ter isso na minha cidade. Enquanto eu corria ia observando as pessoas. Pessoas são curiosas. São lindas. E no parque vemos pessoas de todos os jeitos. Altas, magras, tortas, atarracadas, carecas, cheias de pêlos, atléticas, siliconadas, sorridentes, carrancudas, pessoas perfeitas, assoberbadas, deficientes, obesas, apaixonadas, sozinhas, comunitárias. São tantos tipos de pessoas, e o mais maravilhoso, não existe nenhuma igual a outra. Acho isso algo realmente formidável. Em todo o mundo, de todas as pessoas que já nasceram, morreram e ainda vão nascer, não existe ninguém igual a nós. Somos únicos, irrepetíveis. Pensando assim é sempre uma benção conhecer alguém. É a única oportunidade em toda a história da humanidade de você conhecer alguém como aquela pessoa. Talvez se tivéssemos mais consciência do quão raras as pessoas são, não desperdiçaríamos um segundo do privilégio de tê-las. Vale para nós também. Eu sou uma pessoa única, exclusiva. Nunca existirá ninguém no mundo com as minhas característica físicas e psicológicas, e o privilégio de me ter, de ter a minha companhia é raro e exclusivo para essa vida, para esse lugar em que estou. Engraçado como, apesar de desfrutarmos dessa vantagem valiosíssima, nos esforçamos tanto para camuflar exatamente o que nos torna especiais. Fazemos tanta força para nos tornar mais um, iguais. Usamos as mesmas roupas, mudamos a cor e a textura dos cabelos, adquirimos vícios de linguagem. Até que nos tornemos cópias mal-feitas uns dos outros. Até que nossas essências pessoais desapareçam no perfume de uma imagem social pré-estabelecida. Porque fazemos isso? Porque é tão apavorante sermos únicos? Porque temos tanta necessidade de mudar o que somos para parecermos o que não somos? Eu me entedio com o óbvio. Me entedio com a imagem produção em série. A beleza se revela na diversidade, na diferença. Naquilo que temos e ninguém mais tem. Então a gente pega todas essas coisas maravilhosas, únicas e exclusivas que temos, e levamos para correr no parque, para passear por aí. Por mais que os olhos hoje busquem a maquiagem genérica da mesmice, ainda acredito em olhos ávidos por aquilo que é raro e belo de verdade. 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

RENASCIMENTO

Nos últimos meses duas matérias sobre experiências que eu vivi foram publicadas na Vida Simples. Foram duas revoluções na minha vida, tanto pela experiência em si, quanto pela repercussão das matérias. Recebi uma enxurrada de cartas, elogios, comentários, convites. É um sentimento de estranhamento muito intenso. Existe uma distância entre o ideal e o real, e quando se quer muito uma coisa, e se prepara e se persegue essa coisa, quando recebemos respostas é um pouco surreal. Não cai a ficha direito de que, talvez, eu esteja cruzando a fronteira entre o tentar e o realizar. Já disse isso aqui: eu escrevo. Acho que é a única coisa que faço bem. A única coisa que me faz sentir inteira, completa. Então quando a Ana, minha editora, me mandou por email a carta dessa leitora, eu desabei em lágrimas.  Meu peito ficou pequenino para o meu coração. Eu faço um milhão de coisas erradas. Me estapeio todos os dias para tentar ser uma pessoa melhor. No geral, estou perdendo a guerra. Mas pelo menos nessa batalha, acho que estou ganhando. :-)




Meu nome é Rita e já faz um tempo que sou leitora da Vida Simples. Amo a forma como esta revista aborda temas variados como sustentabilidade, arte, gastronomia, atualidades e, principalmente, assuntos delicados como arrependimento, que foi a capa da última edição.

Sempre me identifiquei com os textos, mas o que aconteceu quando li o texto da Adriana Rossatti foi uma verdadeira catarse. Primeiro estranhei o assunto da reportagem, mas curiosa que sou fui em frente. A sinceridade e coragem com que ela se expôs me fascinou profundamente! Ao ler a parte ela cantando Beatles baixinho me fez rir e no próximo parágrafo eu estava chorando ao me reconhecer inteiramente quando conta sua história ao nascer (eu estava na linha verde do metrô de São Paulo e se alguém me visse ia achar que estava louca ao ir do riso ao choro em menos de dois minutos). Temos muita coisa em comum e ler o seu depoimento me fez entender um pouco mais o meu passado. De certa forma, eu também morri e renasci junto com ela e acabei me conhecendo um pouco melhor.

Nunca escrevi para vocês (nem pra nenhuma outra revista), mas foi a primeira coisa que pensei ao me recompor. Quero parabenizar a Adriana e pedir pra que ela continue escrevendo para a Vida Simples e que vocês continuem fazendo essa delícia de revista que tanto bem me faz!

Um grande abraço a todos!

Rita de Cassia Reis

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Coisas que me fizeram sorrir essa semana

1.
A singeleza da amizade entre uma criança e um cachorro.



2.
Coisas que me lembram que o ser humano é do bem.



3.
Coisas que eu não pensava desde os anos 90... AQUI



4.
Constatar a passagem do tempo.



5.
Mensagem dele no meu celular. <3

domingo, 7 de abril de 2013

1996 - 2013



1996
Eu tinha 19 anos, estava com o coração partido e fui ao Hollywood Rock ver o show do The Cure. Era uma pessoa ansiosa, queria fazer tantas coisas. Eu não sabia muita coisa da vida naquela época. Não que eu saiba muito mais agora, mas tenho uma visão muito mais real do que é a vida. Muito menos ilusões. Minha bagagem era pequena. Eu tinha muitos sonhos e planos para realizar. Queria viajar. Sonhava em ir para a Índia, mas o máximo que tinha chegado era a Disneyworld. Queria escrever, fazer cinema. Queria fazer trabalho voluntário, ser correspondente de guerra, grande executiva, mudar o mundo. Lia compulsivamente. Ia ao cinema mais compulsivamente ainda. Eu não sabia me expressar direito naquela época. Não sabia falar, opinar. Estava em metamorfose. Eu era magrela, tinha o cabelo armado. Sabia tocar os acordes de “Close to me” no piano (talvez por isso ainda hoje seja minha música favorita deles) e, durante aquele show, me apaixonei. O moço estava fascinado por mim. Era narigudo e tinha um sorriso lindo. Me levantou nos ombros, cantou “Friday, I’m love” no meu ouvido e trocamos de camiseta. Levei para casa a sua da “Física - USP”. Ainda demorei meses em uma paixão platônica até ficar com ele. Depois ficamos, desficamos. Namoramos, brigamos. Eu fui morar nos EUA, voltei. Ele foi morar nos EUA, voltou. Viramos vegetarianos. Fizemos yoga. Namoramos de novo. Até que eu parti o coração dele e ficamos anos sem nos falar. 

2013
Comprei o ingresso no primeiro dia de venda do show do The Cure. Ainda liguei para o moço e rimos como seria divertido irmos juntos nesse show 17 anos depois. Ele hoje é um amigo querido, está no segundo casamento e só não foi ao show porque acabou de ser papai. Eu dessa vez fui tranquila. Com o coração inteiro, sem nada para consertar. A tranquilidade de quem está conseguindo viver a vida que sonhou. Faço o que amo. Moro onde amo. Tenho amigos que amo e conheço muito mais do que a Disneyworld. Sem a energia que eu tinha em 1996, mas a bagagem necessária para assistir 3h30 de show sem nem me abalar. Ou talvez, abalada demais. Foi uma máquina do tempo. Uma viagem por memórias, momentos, sentimentos, tudo o que eu vivi nesse intervalo de 17 anos. Cada música que tocava era como se um flash involuntário na minha mente. Memórias de tantas coisas que fiz e fui. De tantas coisas que amei. Os anos de FAAP. As festas, os porres. As tarde chuvosas ouvindo “Lullaby”. As madrugadas dançando “In between days” e dublando a música com raiva para outro moço. Discussões ao som de “Push”. O carro cheio com as meninas gritando a plenos pulmões pelas janelas “Friday, I’m in love”. Dias preguiçosos no sofá do Alê ouvindo “The Caterpillar”. Estradas que se desenrolaram ao som de “Lovecats”. Sem querer estavam tocando a trilha sonora da minha vida. E foi uma danada de uma vida. “To kill an arab” me lembrando que eu estava sim, viva. Sempre. “Just like heaven”, “A night like this”, “Why can’t I be you”... São tantas, tantas lembranças. A gente sai pela vida com uma camiseta de um curso universitário na mão e anda tanto, faz tanto, que nem lembra onde ela foi parar. De repente, em uma noite, alguém vai jogando luzes em pontos da nossa trajetória e nos lembramos do caminho que percorremos. Do quanto nos transformamos. Aquelas músicas vão tomando um outro significado. Vão ficando impregnadas com nossas vivências. Viram um canal para tudo que construímos e amamos. Assim, quando estamos perdidos no meio de algum país estrangeiro, depois de muitos meses longe de casa e já sem nenhuma referência de quem somos; ouvir “Close to me” faz com que nos resgatemos. Vem com a memória de quem somos. No show, a voz de Robert Smith já não é mais desamparada também. É mais densa, mais encorpada, e ele não é mais capaz dos gritinhos. Mas ainda é doce. Não podemos nunca deixar de ser doces. Então, quando os acordes de “Close to me” tocaram, me dei conta que não os sei mais decór. Ainda não fui para a Índia. Não mudei o mundo. Não estava apaixonada. Ainda assim, tinha construído uma trajetória muito melhor do que tinha imaginado, descoberto novas formas de amar, de tolerar, de viver. Eu estou exatamente onde quero estar e isso me faz sentir inteira. Olhei no telão e ele sorria. De forma inédita, Robert Smith sorria. Ele também talvez não seja mais aquele garoto melancólico. Eu? Eu também sorria. 

domingo, 31 de março de 2013

INTOCÁVEIS



Eu sei que estou atrasada. A Gi me chamou para ver esse filme umas 10 vezes no cinema. Sempre acontecia alguma coisa e não dava. Geralmente era minha preguiça de sair de casa, mas chegamos a ir ao cinema umas duas vezes e perder o horário. Enfim, ontem resolvi pegar no Now e fazer uma sessão pipoca particular. Que delícia de filme! No budismo sempre falam sobre o “saber apreciar o outro”. Vi muito disso nesse filme. Quando conseguimos tirar da frente nossos preconceitos, nossa bagagem cultural, nossos fantasmas e limitações, e dos outros também, conseguimos enxergar o verdadeiro ser humano. Deixando de lado toda a maluquice de cada um descobrimos que no fundo somos todas pessoas inseguras, com medo, querendo ser amada e sem saber direito como fazer isso. Mais do que isso. Somos todas pessoas capazes de um grande poder de amor. E descobrir isso no outro é ouro. Faz com que a gente rejuvenesça 15 anos. É aí que a vida acontece. Às vezes sinto que estou passando pela vida sem viver. Talvez porque são poucos os momentos que realmente paro para enxergar o outro. É um longo caminho até evoluir. Não basta apenas a meditação. A vontade de ajudar os outros. É preciso olhar, apreciar. Eu sei muito pouco disso. Mas acho que, assim como o amor, é questão de prática.