sábado, 22 de maio de 2010

CARROCINHA 2


Só porque eu falei que era uma "cat person", lá vem a vida calar minha boca para variar. Estou eu hoje em uma lojinha em Monti. Dessas que tem um senhorzinho bem velhinho atrás do caixa e vendem de tudo. Estou comprando caderno e lápis para o curso de segunda, e entra pela porta uma mulher toda sorridente com uma Cavalier King Charles na coleira. Meu cachorro de sonho! Eu ainda vou ter uma Cavalier marrom, que vai me acordar de manhã e brincar com as minhas filhas, e dormir no meu pé enquanto eu escrevo meus livros. O dia que eu sossegar e resolver casar e ter filhos, e uma família com casa. E a Cavalier vem direto correndo na minha direção. Ela me adora, e me lambe, e a gente fica fazendo a maior festa no chão da loja. A mulher ainda diz: "É uma maravilha de cachorro. Não faz um barulho, não dá trabalho, e é uma grande companheira"
Ok! Galera aí de cima. Entendi o recado, Pode até ser um cão pulguento, mas eu ainda vou querer levar um Cavalier para casa, e fazer tudo como manda o figurino.

ROMA=AMOR

Assim que eu desembarquei no aeroporto de Roma, foi-se toda a evolução espiritual que eu havia conquistado no deserto e eu voltei a ter impulsos consumistas e dar gritinhos nas vitrines de todas aquelas lojas maravilhosas Tax Free (Ah! Mulher de pouca fé!!!). Roma é mesmo tudo sobre moda. Se em London as pessoas esbanjam estilo, em Roma o que dita é a elegância. TOOODO mundo é elegante. Muito. Mesmo. E lindos. Os italianos (Ai, Meu Deus!!!!) são lindos até dizer chega. Vontade de levar todos para casa. O problema é que as italianas também. Ando nas ruas e minha impressão é que todo mundo caiu de alguma página da Vogue ou da Elle. Tropeçou e foi parar na minha frente. Tá sendo super legal para minha auto-estima. Sabe aquela sensação de estar com o vestido errado para a festa? Mais ou menos isso. Casacos, bolsas, sapatos. AHHHHH! Sapatos.... Eu sei. Eu sei que eu não PRECISO de nada disso, e que minha essência não vai ser alterada por causa disso. Mas olhando a vitrine da Prada na Via del Corso ontem, eu podia jurar que ia. Que o caminho da iluminação incluía uns 3 ou 4 acessórios daquele quarteirão. E que eu ia sim, ser uma pessoa melhor com um Jimmy Choo nos pés. Mesmo que ele enrroscasse no calçamento do Centro Histórico. Brincadeiras à parte, minha primeira sensação de Roma foi essa mesma. Gente linda, elegante, e muuuito bem vestida. E gente. Gente. Gente. Juro que o mundo inteiro está em Roma. Como tem gente! Os pontos mais turísticos como a Piazza di Spagna e a Piazza Navona parecem Salvador no Carnaval. Todo mundo está aqui. Ainda nem me arrisquei pela região do Colisseu e da Piazza San Pietro. Estou criando coragem para ir durante a semana. Agora vai ser assim. Três semanas de curso de italiano aqui em Roma. Finalmente tirei todas minhas coisas da mochila, e minhas roupas foram penduradas em cabides (algumas delas pela primeira vez na vida... hahahah). Estou instalada em um quarto grande e confortável, na casa de uma “signora” meio sinistra, para quem torci o nariz no primeiro dia, mas resolvi que seria um bom exercício de tolerância aguentar as três semanas sorrindo e acenando. E depois, a casa é super bem localizada. Ao lado da Villa Borghese, walk distance da escola. (Resolvi exercitar a tolerância, mas também fiquei com medo da escola me trocar para uma casa com uma localização horrível...) Planos agora são estudar pelas manhãs e conseguir meu diplominha em Italiano Tarzan (Me Tarzan, You Jane). Aproveitar as tardes para explorar Roma. Nos finais de semana viajar para algumas cidades que estão na lista. Mas principalmente, aproveitar esse tempo para pôr em ordem muitas coisas. Escrever, organizar anotações, trabalhar, planejar os próximos passos. Mais importante, pôr em ordem a cabecinha. Que anda uma zona, (acho que nunca na minha vida vou conseguir processar tudo o que estou passando). O coração vai continuar em banho-maria. Vou voltar a correr (tem um parque lindo aqui do lado, como não poderia!), meditar mais. Ser uma pessoa melhor e uma blogueira melhor. Eu juro! Tô lendo o OSHO até. Roma vai ser só sobre amor. Porque não tem como ser diferente. Porque eu já cansei de dizer que Amor é uma força poderosa e transformadora. Porque foi aqui que resolvi fazer uma pausa na jornada e tentar me achar de volta no meio de tudo. Porque Amor é o que me move todos os dias. E está até no nome da cidade. Estou falando de Amor, AMOR. AMOR total, incondicional. Antes de tudo, AMOR com essa pessoinha aqui, que tá frágil e descascada.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

CARROCINHA


Meu guru me escreveu esses dias: "o problema de encontrar alguém com muita coisa em comum é que é como encontrar um cachorro na rua abandonado. A gente fica com dó, leva para casa. Mas depois vem as pulgas, as sarnas, precisa dar vacina... e o arrependimento..."
Então não passa de um cão pulguento? Tudo bem. Sou uma "cat person" mesmo...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

SLEEPING IN AIRPORTS



Meu vôo de volta do Marrocos chegou no Aeroporto de Barajas às 22h. No dia seguinte eu ia pegar outro vôo para Lisboa. Imagina só: chegar, pegar mala, arrumar algo para comer, pegar o último metrô até a região central de Madrid, se hospedar em Hostel, abrir mochila, pegar necessaire, tomar banho, voltar para o quarto, colocar pijama, dormir algumas horas, acordar, empacotar toalha molhada na mochila, ir até metrô, voltar para o aeroporto para, enfim, fazer check in e pegar um avião tudo de novo. Parece meio sem sentido, não? Então eu estava pensando em “dormir” no aeroporto. Ficar por lá mesmo. Escrevendo no computador, lendo alguma coisa. Passeando pelos terminais. (Se o Tom Hanks ficou morando no JFK, porque eu não posso passar uma noite em Barajas?) Compartilhando essas idéias com alguns viajantes que encontro pelo caminho, eles me falaram desse site:


Funciona como um guia para ajudá-lo a tirar o melhor das pernoites nos principais aeroportos do mundo. A prática é tão comum e popular que aeroportos mais concorridos como o de Heatrow em Londres até fornecem colchão e corbertor para os malucos que vão passar a noite entre os terminais. Entrei no site, adorei e resolvi colocar mais essa experiência no currículo. Me estiquei no Terminal 1 do Aeroporto de Madrid. Dizem que o Terminal 4 é o mais confortável, mas ficava do outro lado do mundo, então fiquei por ali mesmo. Do meu lado uma família portuguesa jogava “Stop” para passar o tempo. Algumas outras pessoas se aninharam perto da cadeira que eu estava. Por volta de 1h da manhã comecei a tentar várias posições fracassadas para dormir, até que resolvi deitar no chão frio de mármore mesmo. Às 2h estava com frio e entediada, a cadeira era desconfortável demais e a bateria do meu Ipod tinha acabado, então resolvi dar uma volta. Quando me disseram que dormir no aeroporto era uma prática popular, eu não imaginava que fosse tanto. Para todos os lados as pessoas de todas idades estavam deitadas, encolhidas, lendo, vendo filmes nos laptops. No setor de embarque então, parecia acampamento de férias. Grupos de amigos em círculos, namorados enrolados embaixo de jaquetas. Eram tantas pessoas que parecia aquelas cenas de caos aéreo que a gente vê no telejornal. As esteiras do check in tinham sido todas transformadas em suites particulares. Para não dizerem que é história de pescador (e como eu estava mesmo entediada) fiz um ensaio para colocar aqui. Agora, pensa bem. Isso é um pouquinho do Terminal 1 do Aeroporto de Madrid às 2h da manhã. Imagina que só Barajas tem 4 terminais. Vai multiplicando pelo número de aeroportos e terminais nas principais cidades do mundo... Agora se pergunta: Como é que eu nunca fiz isso antes???


terça-feira, 18 de maio de 2010

MULHERES

Para finalizar o capítulo Marrocos, não posso deixar de colocar um post só sobre as mulheres. Claro que o que eu falo aqui (não só nesse post, mas como em todo blog) não tem nenhuma intenção de oferecer dados jornalísticos, reproduzir a realidade ou levantar teses sobre o assunto. É apenas minha opinão. Simples e pura. Formada pela minha experiência pessoal, umbiguista, totalmente particular e parcial. E muitas vezes eu sou dúbia, tendenciosa, antagônica. Mas é assim e pronto. E eu gosto de ser assim. Então é lógico que devam existir milhares de histórias que não condizem em nada com o que eu vou falar, mas para mim é assim que as mulheres vivem no Marrocos hoje.

Sempre que pensamos em um país mulçumano... bom, pelo menos eu (já que sou apaixonada pelo Jack Bauer e assisti todas as temporadas de 24H), penso na situação em que as mulheres são submetidas. Burcas. Prisão domiciliar. Comércio de noivas. Crianças escravas. Apedrejamento de mulheres adulteras. Coisas assim, que a gente sabe que acontecem sim em um monte de lugar por aí. A castração feminina ainda é praticada em muitos vilarejos (e não vai ter Cristo no mundo que me convença, sob o argumento que seja de proteção cultural ou o diabo, de que isso não seja uma barbárie e as pessoas que fazem isso não mereçam uma morte lenta e dolorosa sem seus testículos). A gente sabe, que existem lugares no mundo em que ser mulher é bem complicado (não que não seja também complicado em São Paulo, mas digo complicado de uma maneira muito mais explícita). Uma das minhas maiores preocupações em visitar o Marrocos era exatamente essa: uma mulher viajando sozinha. É um choque cultural, e é bom ter cuidado com isso. Conversei com muita gente. Li muito antes de ir. Mas nada como a experiência prática para colocar por terra alguns tabus e temores. Primeiro, senhoras e senhores, Marrocos não é o Afeganistão. Nada de burcas pelas ruas, muito pelo contrário. As mulheres se vestem de maneira bem ocidentalizada. Dependendo da idade e classe social. Entre as mais velhas ainda via uma ou outra que cobria o rosto com o véu, mas no geral todas com seus belos rostos à mostra. Indo para os bairro mais ricos então, nem o véu se via. Longos cabelos negros e grossos brilhando sob o Sol. Adolescentes passeando sorridentes de jeans e salto alto. Mulheres indo trabalhar usando raybans ou óculos enormes à la Jackie O. Elas se vestem com decoro, isso é verdade. Mas vi uma garota toda estilosa andando com o namorado, com véu na cabeça, uma camiseta meio punk com o ombro caído, revelando a alça do soutien preto. Bem sexy! Muitas ainda usam os trajes tradicionais. É bem comum vê-las pelas ruas de kaftã, babuche e véu. São muito vaidosas. Sempre combinam lindamente o véu com o kaftã, ou a roupa que estiverem usando. Usam muita maquiagem nos olhos. Olhos pretos, com kilometros de delineador. Gostam de usar rosa. Em todas as idades. Das crianças às idosas. Todas adoram rosa. E combinações de dourado com marrom e verde. Muito brilho também. Andam pelas ruas sempre brilhando, mesmo embaixo do Sol. Mas o mais importante aqui é esse detalhe da frase acima "Andam pelas ruas". As mulheres marroquinas andam muito pelas ruas. Todas as horas do dia e da noite. Na medina de Marrakech elas disputam buzinadas em vespas e lambretas no meio do trânsito caótico. Trabalham, estudam. Pegam transportes públicos sozinhas. Embora os empregos nas souks ainda sejam de uma grande maioria masculina, você às vê atrás dos balcões de algumas lojas. Barganham também. Carregam os filhos para “obrigar” as turistas a fazerem tatuagens de henna na mão (foi mais ou menos assim que consegui a minha e perdi Dh30). Cozinham em restaurantes, servem mesas. E nos bancos e correios, são unanimidade. Todas as caixas são mulheres. Elas tingem os cabelos. Adoram o ruivo. E adoram Vichy. (Eu também!!!). Estampas do logotipo da Louis Vuitton em malas e babuches, e a estampa da Burbery em absolutamente tudo são praticamente uma febre. Elas amam! Muitas mudanças forma conquistadas dentro da legislação marroquina em favor das mulheres na última década. Antes, um marido que se cansasse da esposa simplesmente a abandonava. Ela (invariavelmente rejeitada pela própria família), não tinha outra opção além de acabar como pedinte na rua, sem direito de ver os próprios filhos. Hoje a legislação marroquina garante direito de propriedade sobre a casa da família, guarda dos filhos, pensão alimentícia. É bem enternecedor ver as mães com os filhos pelas ruas. Existe muito amor e muita manifestação de carinho. Existem marcas nos rostos das mais velhas que eu nem tento imaginar pelo que passaram, mas a nova geração transborda vida. Andam aos bandos pelas noites das medinas. Trocam olhares de paquera entre a fumaça e as barracas da Dejemaa el-Fna. Recusam pretendentes (Ah! Pobres garotos! Só mesmo no antigo regime eles tinham alguma chance!!!). Quando cruzam por mim sorriem solidárias. Me davam dicas de quanto pagar pelo taxi, e me tranquilizaram o coração nas situações em que eu não entendia a ordem do caos. Depois, quando nos despedíamos, um tanto de “mercis” e “shukrans” daqui e de lá. Sorrisos sinceros em ambos os lábios. E nos olhos delas eu via cumplicidade. Elas sabem que ainda não dispõe da liberdade que eu possuo, mas era como se me dissessem que iriam chegar lá.

UMA PORÇÃO DE FÉ

Quando uma pessoa resolve fazer uma longa viagem. Quando alguém resolve fazer uma jornada, mais ou menos, como eu estou fazendo. Essa pessoa não está em busca de férias. Tem dias que são incríveis, que a gente toma champagne, vê paisagens absurdas. Tem dias de fazer babar de inveja até aqueles que pagam para não sair de casa. Tem outros que simplesmente não fazem sentido. Não dá para acreditar que uma pessoa em sã consciência escolha deliberadamente passar por dias assim. E por isso não é férias. Porque existem esses dias em que dá vontade de chorar e chamar minha mãe. Eu sabia desses dias. Me preparei para eles, porque eu sabia que eles viriam. Quando alguém resolve fazer uma viagem assim, esse alguém precisa estar disposto a sair da zona de conforto, a colocar em risco as fronteiras de normalidade a qual está acostumado. Por isso que eu digo que não sou turista, sou viajante. Porque minha zona de conforto é colocada muito mais em risco, muitas mais vezes e por muito mais tempo. (Afinal, se eu quisesse permanecer na zona de conforto tinha contratado a CVC.) Então eu peguei um trem de Marrakech para Fès. Eu estava em dúvida entre Meknès e Fès. Mas se eu estou indo para Roma porque a palavra é AMOR ao contrário, resolvi ir para Fès, pela óbvia proximidade da palavra FÉ. E porque se formos pensar assim, é como uma porção de Fé, já que está no plural. Sete horas dentro de um trem, (onde descobri que minha licença temporária para o pacote office expirou e vou ter mesmo que dar um certo tanto do meu pobre dinheirinho para o nada pobre Bill Gates). Eu dormi a maior parte do tempo. Estava dormindo quando o trem chegou à Fès, e se não fosse pela bondade de dois nigerianos que estavam ao meu lado e me acordaram, sabe-se lá onde eu teria parado. A chegada na Gare de Fès então foi meio na loucura, meio acordando, meio carregando a mochila com a jaqueta quase arrastando no chão. Meio correndo junto com a multidão na plataforma. E bem certa de ter esquecido alguma coisa na cabine do trem. Nada importante como pude checar depois. Então uma loucura pegar um taxi. Pegar um taxi em Fès (em qualquer lugar e à qualquer hora) é como liquidação no setor do 37 da Shoestock. Nem preciso dizer mais nada! E depois de uns 20 minutos, sobrou um Uno caindo aos pedaços que fechou um preço (tenho certeza que fui roubada) que eu achei conveniente e entrei para ir até o hotel que eu tinha reservado. Então um outro homem entra junto no banco do acompanhante. E eu não entendo porque, e começo a discutir. O motorista tenta me explicar que ele está dando uma carona para o amigo dele, mas eu estou fragilizada e não gosto da idéia de ter dois homens em um taxi comigo. Depois de um blábláblá no meu Francês Tarzan (Me Tarzan, You Jane!), percebo que o cara que está indo junto tinha uma pinta de evangélico e que o motorista só estava tentando ganhar uma grana a mais com a viagem. Chegando no hotel que eu havia reservado, desço com a minha mochilona, mas não gosto nada do que vejo. O lugar fica em uma rua completamente deserta, meio afastado de tudo. Fora da medina (tudo bem que a loucura da medina é complicada, mas dá uma certa sensação de segurança ter um monte de gente pra tudo quanto é lado). Fiquei me imaginando voltando para o hotel sozinha naquela rua e não gostei nada do que senti. Como aprendi que a intuição é muito valiosa nessas situações e não vou arriscar minha segurança, virei as costas e resolvi procurar outro lugar para ficar enquanto ainda estava claro. Fui descendo pela rua, beirando a muralha da medina, procurando a entrada, quando dois meninos começam a puxar conversa. Deviam ter entre 6-8 anos. Começam a conversar e a sorrir e se oferecem para serem meus guias até uma riad. Ok, nada mal. Vou seguindo os garotos, paramos em duas riads. Uma não tinha vagas, a outra era muuuuito cara para o meu orçamento. E os garotos vão me levando pelas ruas da medina, e eu vou mostrando no mapa do Lonely Planet onde era a riad que eu estava procurando, que era central (e caso não tivesse vaga, era próxima de outras opções), mas às vezes eles pareciam tão perdidos quanto eu. Passamos por um grupo de moleques jogando bola, e como uma mochilona de 15Kg em uma branquela que não tem cara de marroquina não é algo que se passe sem notar, alguns dos moleques que estavam jogando bola começam a me rodear e se oferecer para me guiar. Esses eram mais velhos, tinham uns 14-15 anos. Então eu começo a ficar preocupada, porque eu tenho uma meia dúzia de moleques falando e me apontando direções e tentando me levar para sei lá que lado, e as ruelinhas são todas estreitas e sinistras e desertas, e cada um deles me diz que o lugar que eu procuro fica para uma direção oposta. Então eu resolvo andar. Andar sem dar muito ouvido para eles. E sem fazer contato visual. E quando eu cruzava com alguma mulher, eu parava e perguntava para ela o caminho. Os moleques iam me seguindo e falando, falando, falando. Daí juntam-se ao grupo uns marmanjões. De verdade. Uns caras grandões e mal-encarados. Que também ficam me seguindo e perguntando se eu preciso de guia, ou para onde eu quero ir. Eu só penso: "Ok! Vai ser agora! Vai ser agora que eu vou ser assaltada!". Eu continuo andando, sem olhar para nenhum deles. Sem seguir nenhuma das instruções deles. Perguntando para uma ou outra mulher que cruzo no caminho e procurando as ruas mais movimentadas da medina. Um dos marmanjos começa a me falar um monte de coisas em francês, que eu ignoro. Então ele diz "Eu sei que você me entende. Eu sei que você entende muito bem francês.", e eu continuo ignorando completamente. Tem uns 10 moleques atrás de mim. Todos eles dizem que conhecem uma riad, ou um hotel barato, e que eu tenho que segui-lo. Até que eu começo a ver mais lojas e mais movimento na rua. Começo a chegar na parte mais central da Medina e ficar mais aliviada. Vejo placas indicando a riad que eu procurava e passo a segui-las, enquanto os garotos pulam na minha frente. O marmanjão que estava me falando besteiras em francês começa a falar meio baixo atrás de mim "Bitch! Bitch!", e eu chego na porta da Riad quase implorando ajuda ao dono que estava na porta. Ele afasta os moleques atrás de mim e me diz que está lotado, mas pergunta qual era o meu orçamento. Então me leva para o vizinho dele, que também tem uma Riad, mas mais reservada, sem placa na porta nem nada. Eu sigo aquele senhor por um beco, ele toca a campainha, abrem uma porta gasta de madeira e eu entro. Só sinto a porta se fechando atrás de mim e o silêncio das vozes daqueles moleques insuportáveis. O dono da Riad é um homem robusto, barbudo e com muita bondade nos olhos. Sabe aqueles homens que exalam dignidade? Eu confiei nele imediatamente. Me mostrou o quarto. Um luxo! Com ar condicionado, cama de casal, TV, chuveiro quente e muito espaço. Eu joguei minha mochila no sofá e tive vontade de chorar. Ainda precisei de um tempo para recuperar o fôlego e depois, como gato assutado, sai pela medina para retirar dinheiro, comprar algo para comer e mandar alguns email. Não estava gostando. Não estava gostando nem um pouco. Jantei dois potes de Danette e o proprietário da Riad mandou me servirem um chá de hortelã. Eu agradeci. Muito.


No dia seguinte fiz o que toda pessoa deve fazer em Fès. Me perdi na Medina. É impossível não se perder. Andava, dava voltas, descobria, me redescobria. E comecei a entender que essa completa falta de segurança, completa falta de ordem, de lógica e de direção é exatamente o que é Fès. E quanto mais se resiste, pior. É como dar murros em ponta de faca. Fès é completamente diferente de Marrakech. Faz a outra cidade até parecer um parque temático. Fès é crua, de verdade. Não tem figurino, nem decoração. Repleta de cheiros, que te enlouquecem depois de um tempo. Animais, sons. Pessoas pelo chão. Zero de higiene. Quanto mais eu me perdia, mais perdida eu descobria que eu estava. Completa, irremediavelmente perdida. Vai ser muito difícil voltar daqui. Como é que se volta daqui? Alguém me explica? Um homem (com certeza um doente mental) passa por mim em uma rua e me puxa pela cabeça. Eu o empurro e falo "Ne touchê pas!", na mesma hora cerca de seis outros homens saem na rua para me proteger. Lojistas, pessoas que estavam no bar. Me perguntam o que houve e cercam o homem, o empurram na parede. Eu digo que ele havia tocado em mim, e todos me pedem desculpas pelo homem e abrem passagem para eu passar. "Já pode passar, senhorita. Pode ficar tranquila." Eu fui assaltada em São Paulo. No meio da Avenida do Estado às 18h. Havia um ponto de ônibus com umas 60 pessoas do lado. A bateria do meu carro arriou e dois garotos me abordaram e me espancaram. Nenhuma das 60 pessoas do ponto de ônibus moveram um mùsculo para me ajudar. Ficaram todas assistindo. Não veio uma única alma me ajudar. No final de semana fiquei doente. Cheguei na Riad e comecei a sentir meu corpo estranho. Passei a noite com diarréia e vomitando. Uma febre fraca também. Tomei um tylenol, esperei amanhecer e comprei frutas e coca-cola. Passei o dia comendo bananas, tomando coca-cola e atualizando o meu diário. Escrevi. Escrevi muito. Meditei. Fiquei trancada comigo mesma no quarto. Revi meus passos. Pensei. Deixei de pensar. Meditei. O dono da Riad vinha de tempos em tempos saber se eu havia melhorado, se eu precisava de alguma coisa. Me mandou sequilhos mornos e caseiros para eu comer. Eu expurguei. Fisicamente, tudo o que estou expurgando espiritualmente. Não fiquei com medo. Não fiquei preocupada. Eu não me sentia doente. Era como se meu corpo estivesse se manifetando, se purificando. Assim que tudo se foi. Assim que eu havia vomitado tudo. Zerei. Saúde de ferro. Não é algo que tenha lógica, eu sei. Dizem que no ritual do Santo Daime vomita-se muito. Nunca participei, não sei como é. Acho que vomitei meu ego. Foi-se na descarga de uma Riad. Hoje, indo embora, me arrastava com minha mochila. Não queria ir. Não queria deixar. Como se volta? Não sei dizer o que se passou. Eu sei que foi difícil sair de Fès, difícil deixar o que ficou de mim ali. Só consegui ir embora porque sei que estou carregando algo também. Não sei o que é (talvez seja fé !?), mas também não tenho como enxergar o que está na minha bagagem agora.

sábado, 15 de maio de 2010

O CÉU QUE ME PROTEGE


Fazer uma excursão para o deserto era minha única prioridade aqui em Marrocos. Não fazia questão nenhuma de visitar determinadas cidades, mas queria ir ao deserto. Um dos meus filmes favoritos é “O Céu que nos Protege” do Bernardo Bertolucci. Sempre que assisto (e já o assisti um bom par de vezes) me toca a alma em um lugar que, se não é o âmago, é bem próximo dele. Não preciso me perder pelo Saara e ser sequestrada por berberes como a Debra Winger, mas tem algo naquele filme, alguma melancolia, alguma imensidão, que me resgata uma nostalgia de algo que eu nem me lembro de ter vivido. Talvez eu tenha sido berbere em outra encarnação. Ou talvez seja como aquela linda, antológica cena. Ela e John Malkovich, à beira de um penhasco, incapazes de fazer amor. Onde só lhes restam um ao outro, e o céu. Imenso e absoluto, que os protegem. Eu queria ir atrás desse céu. E fui. Sem a atmosfera pós-guerra de Bertolucci, mas acordei às 5h da manhã para me juntar a um grupo e passar uma noite no deserto com uma tribo berbere. No meu grupo estávamos eu e Rocío (a argentina que estava na mesma riad que eu), dois casais de meia idade também argentinos, um jovem casal francês que nunca falavam (só cochichavam um com o outro) e Will, um jornalista australiano (tão lindo, que dava vontade de morder). Rocío acabou se juntando com os conterrâneos, e como o casal francês era praticamente mudo, eu e Will acabamos ficando meio deslocados e criamos uma ligação de cumplicidade. Dividíamos a garrafa de água, tirávamos fotos um do outro. Nada muito comunicado ou estabelecidos, apenas fazíamos companhia um ao outro. Aliás (tirando os argentinos que falavam o tempo todo, mas não se entedia nada), havia muito silêncio durante a viagem. E isso foi mesmo uma bênção. A viagem é bem longa. São quase dez horas em uma van, atravessando todo o Vale de Drâa. Um frio desgraçado nas montanhas. Paramos em Aït Benhaadou (que foi locação do filme “Gladiador” e hoje os berberes abrem suas casas-locações para visita na tentativa de ganhar alguns Dirhams com a glória de tantos Oscars). E só no final da tarde chegamos à Zagora, porta de entrada para a parte marroquina do deserto. (A maior parte do Saara fica na Argélia, mas eu não iria lá se fosse vocês. Existem muitos casos de sequestro por terroristas na região da fronteira, e nem os marroquinos se arriscam muito.). De Zagora foram mais duas horas de camelo até chegar no local onde estavam montadas as tendas e passaríamos a noite. Haviam três outros grupos como o nosso fazendo o mesmo roteiro, mas ficavam em tendas separadas. Um dos grupos cheio de brasileiros barulhentos (é pleonasmo, eu sei!), então de certa forma fiquei até feliz de ter caído no grupo dos argentinos. Chegamos com o Sol se pondo, lindo no horizonte. Um grupo de berberes homens, bem jovens, eram nossos anfitriões. As idades variavam entre 16 e 30 anos. Nos levaram até nossa tenda, que estava aquecida. Haviam vários tapetes no chão, colchões simples e finos para dormirmos e pilhas de cobertores. Hassan, era o responsável pela nossa tenda. Veio nos servir chá. Se apresentou, agradeceu nossa presença. Perguntou o nome de cada um, e fez os típicos comentários sobre cada país para mostrar que conhecia os lugares de onde vínhamos ( “Kanguru!!!!”, pobre Will!), nos desejou boas vindas calorosas e ficou sentado conosco falando banalidades. Depois se retiraram para preparar o jantar. Enquanto eu morria de fome e aguardava, fui andar por volta da barraca. Já havia anoitecido e o céu….. Ah! Ele estava lá. Ainda não inteiro, mas coalhado de estrelas. Estava embasbacada, quase com torcicolo, olhando para cima de boca aberta, quando percebo Will do meu lado fazendo a mesma coisa. “Ainda vai ficar melhor, quando anoitecer mais.” Ele comentou. Sim, a gente tinha um laço de cumplicidade ali. Serviram uma tahine de legumes e frango (muuuuuuuito gostosa, com os sabores derretendo), pão e chá. Um melão extremamente doce de sobremesa. Então acenderam uma fogueira no meio das dunas e juntaram os quatro grupos para uma sessão de conversa e música berbere. Hassan estava me contando que por toda Marrocos a população é berbere. Os árabes se concentram nas principais cidades como Marrakech, Agadir, Casablanca, Rabbat… mas todo o interior e os vilarejos é de população berbere. Um povo muito pobre, e eles sim vivem nas condições precárias que acostumamos ver em filmes. A sessão de música rapidamente se transformou no pior e mais desafinado cancioneiro brasileiro (Ah! Onde tem um brasileiro… Imagine seis!). Eu me encostei em uma duna ao lado de Will e ficamos olhando o céu que se tornava cada hora mais impressionante. Enquanto estrelas cadentes riscavam de tempos em tempos, os brasileiros tentavam ensinar para os berberes a versão de Gilberto Gil para “Woman Don´t Cry”. Do outro lado da fogueira o grupo de argentinos tentava contra-atacar em espanhol (mas na boa! Difícil bater a música brasileira na preferência popular!). Depois de um tempo as pessoas começaram a entrar para as tendas, para dormir. A areia tinha esfriado, eu começava a tremer, mas não queria deixar aquele céu de jeito nenhum. Muito menos para me enfiar em uma tenda com oito outras pessoas e dormir. Então Will vira para mim e diz que gostaria de dormir nas dunas, para poder ficar olhando as estrelas. Praticamente a fome e a vontade de comer. Conversamos com Hassan para saber se poderíamos pegar uns cobertores e colocar os colchões do lado de fora para dormir ao ar livre. “Vocês estão no deserto, podem fazer o que quiserem.”, foi a resposta. E eu fiquei muito grata pelo Will topar a roubada porque isso é uma coisa que eu não arriscaria fazer sozinha. Então deitamos perto da fogueira apagada. Com dois cobertores cada um. E ficamos os dois, de barriga para cima, olhando o céu. O céu supremo, absoluto. Céu que só o deserto tem. Com tantas estrelas cadentes que esgotei todos os meus pedidos, ainda pedi por todos que amo… e sobravam estrelas. Absoluto silêncio. Conforme ia avançando a madrugada o frio aumentava. Realmente aumentava. Graças a ele eu sabia que ainda tinha corpo, que ainda estava viva. Que não havia me desintegrado, me misturado àquela grandiosidade. O céu me sugou. Foi me tirando os pensamentos, as vergonhas, os medos. Foi me sugando as inseguranças, expectativas. O que sobrou tremendo de frio no meio do deserto era só eu. E silêncio. Fiquei tão grata de ter encontrado silêncio. Silêncio em mim. Na minha cabeça. Pela primeira vez em muito tempo se fez silêncio. No silêncio e em mim nua, entendi o que era verdadeiro. O que era essencial. Quando se livra de tudo que não somos nós, sobra muito ainda. Passamos a enxergar o tanto de peso extra ao qual nos agarramos para viajar. O céu nos provem. Nos protege. Nos oferece tudo. Sempre, o que pedimos. Nos oferece tudo. Um pouco inútil voltar para a Terra carregando tanta banalidade. Ficamos em silêncio por nem sei quanto tempo. Algumas horas talvez. Adormeci imóvel. Congelando embaixo das cobertas. Agradecendo incansavelmente fosse lá o que eu estivesse vivendo. Eu estava atravessando. Começando a pisar do outro lado da porta. No meio da noite fomos acordados por cachorros correndo e latindo a nossa volta. Eu estava embarcada no sonho, tinha até esquecido de onde estava. Um dos cachorros parou na nossa frente e ficou cerca de 20 minutos latindo para nós. Eu e Will demos risadas e continuamos em silêncio, olhando o céu e esperando o cachorro cansar para que pudéssemos voltar a dormir. Meu sonho de novo. Sonho repleto de águas turvas que ficavam claras e cristalinas. Pela primeira vez minhas águas ficam claras e cristalinas. Quando começou a amanhecer, meu corpo doía de frio. Um frio que chegava ao limite do suportável. Me encolhi em posição fetal, ainda mais enrolada nos cobertores grossos (mas ainda assim inúteis). Não sentia meus pés, os dedos. Sentia apenas uma dolorida pedra de gelo nas minhas extremidades. Então abri os olhos para enxergar uma das visões mais lindas da minha vida. Metade do céu estava azul escuro, com algumas estrelas inclusive. Como se a noite fosse se retirando de cena, arrastando um manto atrás de si. A outra metade estava azul claro. E o horizonte, um barrado cor-de-rosa soberbo, anunciando o Sol que chegaria em mais alguns minutos. Eu abri os olhos e vi aquilo. Aquele micro-momento em que uma coisa pode ser três. Mas pode ser uma. Ou pode ser nada. Mas quando eu abri os olhos, eu vi que uma coisa pode ser tudo. E estava acima de mim. Estava cuidando de mim. Estava também me protegendo. Atravessei.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

PARA LÁ DE MARRAKECH


Chegar em Marrakech é como abrir a porta de uma sauna a vapor. Não tanto pelo calor, mas por aquele bafo que te toma a cara e não te deixa enxergar um palmo na frente. Depois de um tempo você se acostuma e descobre que está em um lugar onde o cheiro, as cores, a textura e, principalmente, a respiração são diferentes. O transfer que eu havia bookado para me pegar no aeroporto e me levar para o hostel não estava lá, claro! Então eu passei em um câmbio para trocar meus míseros Euros por Dirhams e sai pela porta do aeroporto para pegar um táxi. Uns 15 motoristas de táxi me rodearam e começaram a fazer leilão pelo preço da corrida. Os táxis aqui não possuem taxímetro, então é bom negociar tudo antes de sentar no banco de trás. Os taxistas estavam tão empolgados brigando para ver quem ia fazer a corrida que nem perceberam quando eu segui um grupo de mochileiros até o ônibus e resolvi ir até a Medina por conta própria (gosto de imaginar que eles estão até agora lá, brigando entre si.). No ônibus comecei a puxar conversa com um inglês que estava carregando equipamento de windsurf e grudei nele quando chegamos à Dejemaa el-Fna, a praça central famosa pelas barracas de comida a céu aberto, encantadores de serpente e todo tipo de show de bizarrices do nosso imaginário ocidental. A Dejemaa el-Fna é uma babel. Embora os guias especializados escrevam que ela é fechada para o trânsito, alguém esqueceu de avisar os marroquinos disso porque sobreviver sem ser atropelado é quase como participar daqueles programas de gincana japoneses. Motos, mobiletes, vespas, scooters, bicicletas, carros, carroças, cavalos, burros. Tudo e todos vindo de todas as direções sem nenhuma organização aparente. E ninguém conhece freio também. Só buzinam e aceleram bem na sua direção. Na praça já fomos atacados por uns tipos se oferecendo para nos guiar até os hostels. Antes que eu me desse conta tinha me perdido do inglês e estava carregando minha mochilona por umas ruelinhas estreitas no meio dos souks atrás de um tipo bem sinistro que usava uma camisa do Real Madrid numero 9, do Ronaldo. Chegamos ao hotel que eu havia agendado, ele me extorquiu alguns dirhams, reclamou e foi embora. O hotel que estou é uma riad. Tipo de pousada simples, geralmente administrada por famílias e que são estabelecidas em antigas casas marroquinas. Possui uma arquitetura quadrada com alguns andares de quartos rodeando uma pracinha central, onde fica o salão de chá. Já na recepção encontrei com uma argentina que estava no meu voo de Sevilla. Agendamos juntas uma excursão para o deserto, eu subi para o meu quarto abafado e finalmente respirei. Pelo menos é um quarto e um banheiro só para mim (o que tem sido um luxo, quando não estou hospedada na casa de amigos!) pela bagatela de Dh120 a noite (algo menos do que €11 pela noite). Nas minhas primeiras andanças por Marrakech eu ainda estava um pouco apreensiva. Havia lido e conversado com várias pessoas sobre segurança, as questões de diferença cultural, e o que acarretava uma mulher viajar sozinha por um país mulçumano. E, adivinhe só!? Marrakech é muito mais tranquila do que todas as previsões. Claro que existe um assédio, e isso é o tempo todo e chega a ser insuportável. Tento prestar atenção em coisas que são muito comuns e habituais para nós brasileiros, como sorrir (principalmente quando dizemos “Não, Obrigada”) e fazer contato visual. Tenho essa coisa de olhar direto nos olhos, é instintivo até. Mas aqui quando você faz isso parece que os homens vão pular em cima de você (só parece, viu! Eles não pulam!) No geral me sinto em um desenho do Pica-Pau. Sabe aquele desenho em que o Pica-Pau está faminto, em uma cabana, morrendo de fome mesmo, e ele e o gato ficam olhando um para o outro e se imaginando uma grande e suculenta perna de presunto cozido? Pois bem! Andando pelas souks eu me sentia uma grande perna de presunto cozido ambulante. Quando você pergunta o preço de alguma coisa então, eles sempre te perguntam antes que língua você fala e de onde vem. Quando digo que sou do Brasil, automaticamente passo de perna de presunto para a Valéria Valença nua, com o corpo cheio de purpurina. No começo foi um pouco assutador. Mas depois, olhando com olhos mais tolerantes e generosos, comecei a perceber que eram como vários peões de obra. Sabe? Quando a gente passa em frente de uma obra e ouve aquele monte de observações desconcertantes dos peões? É a mesma coisa. Só que aqui você passeia no meio da obra. Virou uma coisa até turística. Eles gritam coisas como “Mil camelos, Um milhão de camelos.”, porque sabem que as ocidentais gostam de voltar para casa e dizerem que ofereceram camelos por elas no meio de Marrakech. Tomando os cuidados básicos (o mesmo que você toma quando vai comprar porcaria na 25 de Março), são totalmente inofensivos. Já o assédio comercial é um pouco mais agressivo. Todo mundo está o tempo todo te vendendo alguma coisa. Panos, roupas, comida, bugigangas, prataria (lindas aliás!), machetaria, temperos, luminárias, artigos de couro, iguanas, camaleões, tartarugas, macacos (te juro! Fico pensando quem é que compra um camaleão e manda despachar para casa!!!). Tudo! E dá vontade de comprar tudo. O tempo todo. Porque é lindo, e exótico, e tão hipnotizador. Então você pergunta o preço e se prepara para uma grande sessão de barganha. Minha técnica (depois de ter sido “roubada” algumas vezes) é, perguntar o preço, falar que está muito caro e ficar esperando a resposta deles. Eles sempre hiper-inflacionam a primeira oferta e jogam a bola de volta, perguntando quanto eu quero pagar. Daí eu falo um valor ultrajante do tipo: se algo custa Dh120, jogo para Dh10. Eles me olham incrédulos, eu viro as costas e saio andando, como se aquilo não fosse fazer diferença nenhuma na minha vida (e não vai mesmo). Quando você faz isso eles começam a gritar e te chamar de volta: “Madame, Madame, Dh100, Dh100. Dh80, Dh80”. Ok! Começamos a conversar. Daí eu volto, e digo que Dh80 ainda é muito caro. Ofereço Dh20. Eles batem em Dh80. Eu subo para Dh30. Eles baixam para Dh70, Dh60. Eu fico balançando a cabeça e falando “No, No, No. N´est pas d´argent!”. E depois de uma partida de quase 15 minutos, você já está até suando devido ao esforço físico, eu tiro da carteira duas notas de Dh20 e fecho em Dh40. Mesmo assim você sempre sai com a sensação de que foi roubada. Pode ter certeza! Você foi! Outra coisa curiosa foi descobrir como Marrocos é na verdade um grande destino turístico para famílias. Várias famílias com crianças, bebês. Muitas mulheres viajando sozinhas. Quando meus olhos começaram a se acostumar com o vapor, Marrakech se tornou uma cidade simpática e totalmente inofensiva. As pessoas sempre se preocupam em falar em uma língua que você entenda, sempre perguntam quanto tempo vai ficar em Marrocos, o que está achando. Gostam de falar alguma referência do país que você veio (conheci um australiano que disse que não aguentava mais ouvir os marroquinos gritarem “Kanguru!!!” toda vez que ele dizia de onde vinha). Então eles sorriem e dizem “Seja bem-vindo!”, na língua que for mais acessível à você. É bem enternecedor. Nas souks, onde centenas de pequenos lojistas se apinham um ao lado do outro disputando sua atenção à fórceps, comecei a enxergar pais de família, cidadãos de respeito que só estão tentando ganhar a vida. Uma jornada árdua, já que só fecham perto a meia noite, quando os turistas cansados se retiram para as várias riads escondidas ao redor da Medina. Cruzando os muros da cidade, ainda descobri uma Marrakech toda próspera. Marrakech de poucos. Grandes resorts, luxuosos condomínios. Ferraris e porshes pelas ruas. Mulheres andando sem o véu na cabeça, casas noturnas, anúncio de Coca-Cola e todo tipo de franquia multinacional (Sim! Tem McDonalds, KFC…). Nem todo país de Terceiro Mundo é a Praça da Sé. Nem todo país de Terceiro Mundo é a Vila Olímpia. Mas sempre será, inegavelmente, um país de Terceiro Mundo. E nesse sentido, estou mais perto de casa do que imaginava. Atravessei um espelho. É inverso. Mas é espelho.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

SAINDO DAS MONUMENTAIS PLAZAS DE TOROS

Em Madrid fui visitar a Monumental Plaza de Toros de Ventas. Um belíssimo prédio, para um esporte horroroso. Não entendo touradas. Não entendo barbárie com animais. Sempre torço para o touro (mas eu sempre torço para o Tom também, e em toda minha vida foi o Jerry quem ganhou). Mas eu fui até a Plaza de Toros de coração aberto, sem julgamentos. Aberta para entender a razão. Não assisti nenhuma tourada, mas fui no palco para ver se haviam manchas de sangue. O curioso é o seguinte: Todo o funcionamento das touradas é algo que não tem muita lógica. Assim como jogar na Mega-Sena. Quem joga sabe que não vai ganhar. Durante a visita guiada à Monumental Plaza de Toros de Ventas, meu guia (um madrileno orgulhoso e com um horrível sotaque em inglês) narrou muito animado cada etapa de uma tourada. A Monumental Plaza de Ventas é a maior plaza de toros de toda a Espanha e se orgulha de ser a mais importante. Em uma tourada o público tem papel central na decisão do bom desempenho de um toureiro. O toureiro possui 20 minutos para cansar o touro (que é atirado à plaza enfurecido, com os testículos amarrados e perseguido por “picadores” em cavalos, homens que vão enfiando lanças em seu lombo, fazendo o touro sangrar e ajudando no processo de derrota covarde e cruel pelo toureiro). Ao final desse tempo o público, munido de lenços brancos que são agitados no ar, decide se o toureiro foi um bom ou mal toureiro. Então o presidente da Plaza emite o julgamento oficial, permitindo que o toureiro mate o touro. Conforme o desempenho do toureiro, lhe é permitido levar uma ou duas orelhas do touro como troféu pelo seu feito. No caso de um toureiro excepcional, é permitido que ele leve as duas orelhas e o rabo como troféu (e isso só aconteceu uma única vez em todos os 80 anos da Plaza de Ventas). Os toureiros que conseguem a glória de serem premiados com duas orelhas do touro (e estou falando orelhas, orelhas de verdade. Feita de pele, cartilagem, pêlos e sangue.), esses são considerados os melhores toureiros da história. Eles serão carregados nos ombros da multidão, e sairão com pompa e circunstância pela porta principal da plaza, que só é usada nessas raras situações. Ao lado dessa porta há um mural de azulejos com o nome de todos os toureiros que saíram por aquela porta carregados nos ombros. Não eram muitos, para tanta história de barbárie. A minha surpresa veio depois, quando perguntei se todos os touros eram mortos inevitavelmente. E ele me respondeu que não. Que o toureiro podia pedir pela clemência do touro ao público, e o público aprovando, aquele touro seria levado para uma pacata vida no campo, curtindo a aposentadoria como reprodutor. Naquele momento eu fiquei mais aliviada. Imaginar que havia certa justiça e compensação mesmo nas coisas mais bizarras. Todavia, como minha intuição nunca falha (e eu ainda acredito no amor, mas acredito também no gigante potencial de medo e crueldade do ser humano), perguntei quantos touros já haviam sido poupados de uma morte sangrenta na areia. E a resposta, em oitenta anos, um! Apenas um touro foi abençoado com a clemência por ser bravo, e pode desfrutar da vida idílica que eu imagino que todos os touros deveriam desfrutar por natureza. Então eu fiquei olhando para minha volta. Para os milhares de assentos vazios que guardavam vaias surdas de uma multidão enlouquecida. Fiquei olhando para as paredes, as marcas de chifres nas madeiras. As manchas de sangue seco e apodrecido da última temporada. Manchas essas não humanas, com certeza. E cheguei a conclusão de que, não faz sentido. A matemática não bate. Não importa o quão forte, bravo, poderoso um touro seja. Ele nunca terá chances. Ele sempre terminará sangrando na areia. Aqueles que bufam, correm, chifram, lutam. Os touros que se jogam na arena. Esses terão por certas suas mortes. Estão fadados a serem picados, cansados, humilhados e assassinados. Até que enfraqueçam, cambaleiem. Que uma espada seja trespassada encerrando sua monumental luta por nada. Pensando assim, não é nossa vida uma Monumental Plaza de Toros? Eu vejo touros todos os dias. Correndo, chifando, dando coices no ar. O carro esporte, a promoção na multinacional, a capa da revista, a notinha na coluna social, a busca por fama, a vaidade exacerbada, a bolsa louis vuitton, as roupas de marca, o relógio de ouro e titânio, a casa, o terno, o padrão, a ostentação. Somos todos um bando de touros, os mais bravos acabam sangrando na areia. Não tem clemência. O público é muito exigente, muito cruel. Nunca vai acenar com lenços brancos em seu socorro. Não me parece inteligente. Tentar ser um touro bravo. Eu sai do Brasil porque não gosto desse tipo de barbárie. Eu deixei minha carreira de atriz por causa disso. Não vou ficar dando chifradas no ar. Também não vou entrar em jogos em que sei que sairei picada e com as orelhas cortadas para o troféu de alguém. Talvez tenha algo muito errado comigo, mas eu acho “touradas” sem sentido. Eu me retiro da Monumental Plaza de Toros. Deixo o esporte para aqueles que acham graça. Estou agora a caminho de Marrocos. Devo pousar em Marrakech em uma hora. Talvez algumas feridas em mim não estejam muito cicatrizadas. Talvez eu precise me isolar até parar de ouvir as vozes das multidões nas arquibancadas. Foi incrível conhecer tanta gente até agora, tantas experiências e emoções. Foi muito bom ter estado com as pessoas com quem eu estive, e tentar me apaixonar total e irremediavelmente. Mas agora eu preciso de silêncio, e de ficar sozinha. Preciso muito ficar sozinha. E organizar mais minha literatura, que é a única coisa que me mantém inteira. Sempre sonhei em conhecer o Marrocos. Estou quase pousando em Marrakech. Muito longe de casa. Muito longe. Graças a Deus, eu estou muito longe de onde eu estava.

domingo, 9 de maio de 2010

SAFETY

Eu tenho procurado me preservar muito. Muito mais emocionalmente, do que de qualquer outra forma.Eu acredito no amor. Falo disso aqui o tempo todo. Acredito no amor como uma força linda, potente, revolucionária e protetora. Acredito que existem algumas coisas que simplesmente não podem acontecer. Pelo simples motivo de que eu não concebo. A gente sempre tem a sensação de que algumas coisas nunca vão acontecer com a gente. E hoje eu estou aqui, fazendo muita força para acreditar que esse tipo de coisa não acontece. Não comigo...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

IN THE EDGE

Se eu disser que estou confusa, talvez seja pouco. Mas estou bem, estou plena e muito feliz. Sem que eu tivesse feito nenhum planejamento especial, essa primeira parte da minha jornada foi um mergulho no escuro do meu passado. Nas coisas que ainda estavam nas sombras. Acabei encontrando pessoas que me espelharam cada lugar pelo qual eu passei até chegar no ponto que estou hoje. Parece que alguém lá em cima é muito melhor roteirista do que eu. Agora que estou solta. Estou completamente sem pendências. Desci para o Sul da Espanha para, enfim, encontrar a Espanha que sempre povoou meu imaginário. Ruas labirínticas, vozes fortes de flamenco perdidas no meio da madrugada. Um gosto forte de vinho e rabada. O espanhol começa a se desvendar como língua, tenho me arriscado em conversas. Fui encantada por Sevilla. E surpreendida. Completamente desprevinida.  O que inquieta meu coração agora (ou talvez não inquiete, mas maravilhe) foi a surpresa de conhecer alguém com tanto em comum. Me fez pensar que alguém estava lendo meus sentimentos mais profundos e secretos. (Dá uma sensação de nudez, eu confesso.) Isso foi um susto. Não estava preparada. Difícil está sendo não me apavorar. Alguém já viu aquele filme "Antes do Amanhecer"? Foi igualzinho. Mas pelas ruas de Sevilla. Com a diferença de que, em vez de nos despedirmos na estação de trem, ele mudou os planos e me seguiu até Granada. E está agora ao meu lado, enquanto eu estou colocando esse post-sinal-de-fumaça, só para lembrar que ainda existo. Granada é a terra do meu bisavô. Ainda não assimilei nada desse calderão de surpresas, resgates e raízes. No horizonte somos maravilhados pelas superficie sempre branca de Sierra Nievada, e nos perdemos horas pelos jardins de Alhambra. Eu que me achava uma grande encrenca, começo a pensar em me dar um desconto. Pensando se pulo, me jogo, ou saio correndo. Mas como boa procrastinadora, vou deixar esse tipo de escolha para depois. Quando enfim nos despedirmos na estação.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

SURFING

Agora estou na Espanha. Acabei de sair de Madrid e estou indo para Barcelona. Em Madrid tive minha primeira experiência no Couch Surfing. Eu nunca tinha ouvido falar do Couch Surfing, mas aqui na Europa ele é bem popular e usado por todo mundo. Vou tentar explicar o conceito. Sabe aquela amiga que você tem que mora em… Fortaleza, por exemplo? E quando você vai tirar férias, resolve ficar na casa dela? Ela deixa uma cópia da chave com você, dá dicas do que vale a pena e do que é roubada na cidade, sai para trabalhar enquanto você passeia, e depois vocês pedem uma pizza à noite no jantar? Nem sempre essa amiga tem um quarto de hóspedes, e às vezes você dorme no sofá, certo? Agora, imagina uma rede online em que você pudesse “pegar emprestado” amigos que liberassem o sofá de suas casa para você se hospedar quando estiver viajando. Esse é mais ou menos o conceito do Couch Surfing (na tradução “Surfando em Sofás”). Até os anos 90 a moda dos mochileiros era o Europass. Você comprava um passe com viagens de trem ilimitadas pela Europa, assim fazia as locomoções durante a noite, dormia na cabine do trem, economizava na estadia e conhecia várias cidades de uma mochilada só. Hoje, com a abundância de cias aéreas de low cost, viajar de trem virou um luxo, e o Couch Surfing permite baratear a aventura (com muito mais conforto do que dormir torto no trem, convenhamos). Mas antes de achar que é como “hotel de graça” vou explicar como funciona o sistema: você cria um profile no site. Esse profile é verificado pela administração da ONG que gerencia o site, eles checam se você é você mesmo, se o endereço que você inscreveu na sua ficha existe ou e inventado, e coisas assim. Nesse profile você procura colocar o máximo de informações sobre você (é importante, afinal é através dele que seus potenciais hosts vão decidir se te aceitam ou não em seus sofás), tais como gostos, manias, temperamento, hobbies, profissão, lugares que já morou, lugares que já viajou e, obviamente, línguas que fala (para possibilitar comunicação entre host e guest). Você pode escolher ser host, guest, ambos ou apenas uma companhia para um café, caso algum surfer esteja na sua cidade. Quando você faz uma busca por cidade que você pretende visitar, o site apresenta os hosts que estão afim de emprestar seus couchs e você dá uma olhada no perfil de cada um. Neles dá para sentir que tipo de pessoa é e escolher aqueles que você gostaria de ser hospedada. Por exemplo, se você é alérgico a cachorros, já elimina aquele que tem animal de estimação. Se você é uma pessoa baladeira, não vai pedir para ficar no couch de um host que diz que gosta de ler e de dormir cedo, e assim por diante. Quando você encontra uma pessoa que você acha que tem a ver com você, manda uma mensagem com as datas que você pretende usar o couch e uma pequena apresentação falando dos seus projetos de viagem e porque você seria um surfer legal. O host então vai receber sua mensagem, analisar seu profile e, dependendo do que ele achar e da disponibilidade do couch, vai te convidar para ficar na casa dele. Pode parecer um pouco estranho e arriscado (pois é Y, sei que seus cabelos estão de pé até agora), mas esse sistema é antes de tudo um veículo de troca cultural. É uma possibilidade de aprender, conhecer outra cultura, experienciar uma cidade sob os olhos de quem mora nela, e, principalmente, fazer amigos. Ok, você deve estar pensando “Mas como assim? Você fica na casa de uma pessoa que você nunca viu na vida? E se for um louco? Se for um tarado, psicopata?”. Bom, vou contar para vocês. Minhas experiências com loucos sempre vieram de pessoas com referência, amigos em comum, nunca de estranhos. Mas essa é uma opinião subjetiva. Para sermos mais práticos, o Couch Surfing geralmente tem em seus integrantes pessoas com alma de viajante. E isso já é um grande parâmetro de seleção. Viajantes tendem a ser pessoas mais adaptáveis, mais tolerantes e abertas às diferenças. São pessoas de espírito livre, generosas, que sentem prazer em vivenciar experiências de troca. Por isso abrem a porta de suas casas e adoram receber gente de todos os lugares do mundo, fazem questão de que você se sinta em casa, aproveite e tenha uma ótima experiência como seu hóspede. Claro que como hóspede essa reciprocidade é desejada. Coisas básicas que mamãe nos ensinou quando éramos crianças e íamos brincar na casa da amiguinha, são úteis nessa situação:


- Diga “Porfavor” e “Obrigada”.

- Mantenha suas coisas organizadas.

- Respeite as regras da casa.

- Ofereça-se para ajudar. (Não precisa virar a faxineira do lugar, mas lave as louças que utilizar pelo menos.)

- Procure interagir e passar tempo com seu host. Ele não está te hospedando pelos seus lindos olhos, ou porque está afim de contribuir para suas economias. Ele está te hospedando principalmente porque está interessado em te conhecer, conhecer sua cultura, entender como funciona seu país.

- Não se chega na casa de ninguém de mãos vazias. Dentro do Couch Surfing aconselha-se levar ao seu host um presente típico do seu país, como uma forma de intercâmbio. (Eu, como não tenho espaço na mochila e já estou longe de casa há algum tempo, tenho levado chocolatinhos do Duty Free e me oferecido para fazer caipirinhas.)

- Confie. (Na pior das hipóteses você ganha um amigo.)

O site também mantém um arquivo com todas as mensagens trocadas entre surfers e hosts para questões de segurança de ambos. Após um contato ou uma visita, tanto surfer como host escrevem um depoimento um para o outro que fica gravado no perfil e serve de referência para futuros contatos. Assim você vai carregando seu histórico de relacionamento no Couch Surfing. E as pessoas são bem sinceras. Se você for problemática, faltar com respeito, desrespeitar regras, abusar da confiança, ser desonesto na sua apresentação só para conseguir um sofá ou tiver só interessado em economizar no hotel, o seu host vai (além de pedir para você sair da casa dele) deixar um depoimento negativo a seu respeito, e fica bem difícil continuar na comunidade com depoimentos negativos. Em caso de abusos do sistema, um integrante pode até ser expulsos. Então, aqueles que estavam achando meio absurda essa ideia de eu estar me enfiando na casa dos outros por aqui, podem guardar as armas. O sistema se auto-regulamenta, a rede de participantes é selecionada pela própria natureza da brincadeira (Vamos combinar? Não é qualquer pessoa que tem a generosidade suficiente para abrir a porta de casa para os outros pelo simples fato de que gosta de fazer amigos e de ser útil.) Carol e Viriato foram os primeiros a me falar do Couch Surfing. Fazem questão de ter um quarto de hóspedes todo arrumadinho e já receberam gente de todo lugar do mundo. É como viajar sem sair de casa. Eu vou muito emprestar meu sofá (assim que tiver um novamente…) Meu host em Madrid foi um engenheiro alemão de 32 anos, que passou a infância no Brasil e toca bateria em uma banda de blues. Ele fala um excelente português e estava louco para conversar com alguém com as mesmas referências de infância que ele teve. Logo que eu cheguei me convidou para patinar (Bem… na verdade foi mais uma sessão de tombos absurdos na ciclovia e completa humilhação na frente de meninas de 6 anos equipadas com patins cor de rosa da Hello Kitty…), ele ainda me ligava no final da tarde para saber o que eu queria jantar, me convidou para o show da banda dele ontem à noite, me levou ao aeroporto hoje de manhã e disse que faz questão de me hospedar novamente sempre que eu estiver em Madrid. Diz? Não é uma experiência incrível? Acho sim, que sempre tem alguma coisa que pode dar errado, que às vezes a química não bate e a gente não é obrigado a se dar bem com todo mundo. Mas acho também que se você planta desconfiança, colhe medo. Se você planta generosidade, colhe amor.

http://www.couchsurfing.com/

segunda-feira, 26 de abril de 2010

SALDO

Dois meses. Foram sessentas dias que passaram assim, ó. Eu nem me dei conta. Eu estava com uma sensação enorme de tudo ser o mesmo. Mas agora, parando para olhar, foi um monte de coisas. No saldo geral contabilizo 3 países. 13 cidades. 5 aeroportos. 3 escovas de dentes. 2 potes grandes de shampoo. Uma porção de amigos novos. Outro tanto de amigos antigos que estavam ficando empoeirados no meu coração mas foram devidamente curtidos, abraçados, beijados e amados no tempo que foi possível. E devidamente devolvidos ao meu coração, de onde nunca vão sair. As saudades batendo de casa (casa?), do amigos que ficaram, dos poucos que só falo por MSN agora, e daqueles que nunca dá tempo de falar. De mim, uma bagunça fenomenal. Me sinto desconstruída, mas ainda não completamente. Algumas paredes ainda para serem implodidas. Estou descobrindo restos de civilizações dentro de mim mesma. Como uma auto-arqueologia de quem eu sou. Entendo o que estou fazendo. Sei exatamente porque a vida me colocou nesse caminho. Porque o astral me trouxe até as pessoas que tenho encontrado. São minhas ferramentas de demolição. Estão me ajudando entender de onde sai, por onde passei e como cheguei até aqui. Tudo sendo desconstruído aos poucos. Para que eu possa decidir para onde ir. Era exatamente isso que eu queria. Não posso construir um castelo em cima de areia, e eu sou uma princesinha. Preciso de um castelo. É muito reconfortante me encontrar no caminho certo. Só não sei ainda para onde ele está me levando, e nesse sentido dois meses é muito pouco. Só o comecinho do caminho, não dá para ter ideia do que eu vou encontrar no final. Mas não se julga o destino. Alcança-se. O importante é o caminho. Amanhã embarco para Madrid. Quinze dias de Espanha e depois uma pequena loucura. (Conto depois.) Língua nova. Comida nova. Pessoas novas. Estou bem empolgada. Mais ainda agradecida. Me sinto a pessoa mais sortuda do mundo. Tenho tudo do jeito que eu quero, faço exatamente o que eu quero. E, sim. Como eu havia decidido. Esse está sendo o melhor ano da minha vida. Hoje, empacotando mochila, malas, e deixando bagagem armazenada na casa da Kika, fui me dando conta de como algumas coisas que eram bem importantes para mim mudaram. Não compro mais cosméticos pelas marcas. Agora só olho o tamanho das embalagens. Todas com menos de 100ml. Não subi em uma balança todos esses dias, e parece que isso me emagreceu. As calças estão largas (largas de verdade! Muito mesmo!!!), embora eu coma uma quantidade indecente de açúcar, gordura, e todo tipo de maravilha proibitiva em uma vida saudável. Estou experimentando dormir até tarde sem me sentir culpada (tive uma criação tão traumatizante pelo meu pai, que não consigo acordar tarde sem me sentir o pior ser humano do mundo). Também estou aprendendo a deixar as coisas se acertarem pelo destino, e constatar que (por mais que eu queira controlar tudo) nossa visão de nossas próprias vidas é tão limitada que não podemos mesmo saber o que é o melhor para a gente. Descobri que um dia é muito tempo para se jogar fora. E que dinheiro é algo completamente virtual. Que pacotes de lenços de papel podem salvar sua vida (literalmente!). E que nem sempre meu Ipod vai me oferecer uma trilha sonora melhor do que o som da vida a minha volta. Pelo mesmo motivo quase não peguei em um livro desde que saí do Brasil (isso é um peso extra que sempre me questiono quando empacoto). Descobri que a vida é sábia e na maioria das vezes nós ignoramos portas que estão escancaradas a nossa volta para ficar forçando a fechadura de outras que só nos vão tornar infelizes. Que felicidade é algo contagiante e funciona como um imã. A gente acaba atraindo pessoas e situações que só se somam infinitamente. Aprendi que amor é um exercício. Essencial como hábitos de higiene, tem que ser praticado várias vezes ao dia. E que uma pessoa incapaz de amor não consegue ficar ao seu lado muito tempo se a sua vibração estiver alta. Nem que seja por um final de semana a mais. E essa talvez seja a condição mais triste do ser humano. A incapacidade de aceitar amor na vida. O meu saldo é positivo. Azul marinho. Arrisquei tudo. Mas apliquei no mais rentável fundo de investimento possível.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Esses dias me disseram que "uma vez mochileira, sempre mochileira". Cara, isso está na minha cabeça até agora! Por dois motivos. Dúbios, como tudo em mim. Eu espero mesmo que seja verdade, porque me imagino no futuro trocando fraldas em estação de trem. Acho incrível essas famílias de viajantes que a gente tromba nos aeroportos. Me imagino daqui há 30 anos viajando com o meu marido (ele mais velhinho do que eu, lóóógico!!!), pegando barcos para cruzar países e contratando guias para nos apresentar a tribos africanas. E eu espero mesmo que não, pelos mesmo detalhes aí de cima. Porque eu também me imagino casada, com filhos. Morando em alguma casa grande, com jardim. Em alguma cidade de poucos mil habitantes (mas que seja perto o suficiente de alguma metrópole para eu descarregar meu eu urbano de vez em sempre). E eu vou ter um cachorro, vários gatos. Vou ficar escrevendo na varanda e cuidar da minha horta de ervas para fazer chá fresco todas as tardes. No inverno, a gente vai acender a lareira e eu vou contar para minhas filhas histórias dos lugares e das pessoas que eu conheci. E tudo vai estar calma, certo e verdadeiro. Eu digo isso porque passei alguns dias surtando com roupas espalhadas na mochila, e a falta de estrutura, e looouca para chegar logo na Itália e me assentar por um tempo. Ter rotina, horário para refeições. Organizar meu shampoo no banheiro em vez de carregar minha necessarie todos os dias. Usar salto alto. Coisas do meu lado princesinha, que adora brincar de casinha. Tenho mesmo uma primeira-dama aprisionada dentro de mim. Então eu estava esperando meu trem na Santa Apolônia em Lisboa, e a estação estava um caos. Gente de tudo quanto é lado tentando alternativas para o vôos que perderam. Pessoas dormindo na sala de espera, uma fila kilometrica no guichê. Mochileiros sentados na plataforma comendo salada de frutas e executivos com cara de precisarem de um banho. Me deu uma vontade. Uma vontade de agarrar a mochila, chegar no guiche e perguntar "Tem passagem para onde?". Saudades daquela sensação de "roubada" que só os viajantes passam, quando você não faz idéia de como sair de um lugar, ou como fazer para chegar no seu destino, e um "anjo da guarda" aparecer e as coisas se resolverem milagrosamente. Vontade de não fazer a mínima idéia do que vai ser da minha vida daqui dois dias. Então cheguei no Porto e já baguncei todos os planos que tinha daqui para frente. Atrasei minha ida para a Itália (meu curso só começa dia 25 de maio, tenho um tempinho...) e arrumei algumas sarnas para me coçar. À noite, conversando com a Van, que depois de Dublin ainda foi para Amsterdam. "Dri, acabei de chegar no Brasil, mas só de ver suas fotos me dá vontade de arrumar a mochila denovo e ir te encontrar." Talvez seja verdade. Eu nunca vou deixar de ser mochileira. Talvez, quando eu estiver escrevendo e tomando chá na varanda da minha casa, meus olhos se percam no horizonte e minha alma viaje para estações de trem caóticas e cidades que eu nunca venha a conhecer. Mas eu acredito que dê para ter tudo. Pedi à "papai do céu" uma coisa: que eu encontre alguém incrível, com uma mochilona como a minha. Que tenha muitas histórias para contar a nossas filhas na lareira, mas esteja segurando minha mão quando a gente chegar à tribo na África.

domingo, 18 de abril de 2010

DIVÃ

Ok, vou fazer uma coisa muito íntima e pessoal aqui. Uma coisa que é quase como, fazer xixi de porta aberta na frente de quem entra nesse blog. Ou seja, o cúmulo da íntimidade. Vou postar uma pequena troca de emails que tive com o meu terapeuta hoje. Ex-terapeuta. Whatever. A questão é que, ele foi o cara que me acompanhou nos últimos 7-8 anos, e a quem eu devo a pessoa que eu sou hoje. Virou um amigo e, mesmo não tendo mais minhas sessões semanais, eu ainda abuso à distância (mesmo porque ele está habituado, pegou amor, sabe? A gente não pode cortar a relação assim, do dia para a noite, senão ele pode sofrer...)
Mandei um email essa semana para o Victor, contando de um sonho que eu tive. Victor adora sonhos e eu nunca levava sonhos para a sessão porque tinha preguiça de lembrar. Mas quando ele resolvia trabalhar questões que eu não tinha muito saco para abordar, eu lançava mão de uns sonhos para dar uma distraída na sessão... Bom. Eu tenho alguns sonhos recorrentes.Que sempre aparecem, a mesma temática, mas de diversas maneiras e em diversos momentos da minha vida. Trabalhamos alguns desses sonhos em sessões, que sempre representavam manifestações do meu inconsciente com a minha incapacidade de manifestação de sentimentos, meu pavor de envolvimento emocional, minha visão de relacionamentos como coisas perigosas e ameaçadoras e meu medo de me envolver e me machucar, e blábláblá (Vejam bem, claro que todas essas questões são inconscientes e eu não consigo controlalas racionalmente. Senão eu não precisaria passar quase uma década da minha vida com o Victor me explicando como minha cabecinha trabalha e o porque de eu boicotar tão sistematicamente minha vida.)  Essa semana tive dois desses sonhos seguidos na mesma noite. Mas, pela primeira vez na minha vida, eles tiveram finais diferentes do que sempre tive. Mandei os sonhos toda feliz, assim que acordei, porque entendi que uma vez que os sonhos mudaram, talvez meu inconsciente também tenha mudado a sua forma de trabalhar minha cabecinha zoada.

Victor -
"Eu estava me perguntando qual teria sido o fator capaz de provocar este break-through no teu inconsciente. E foi lendo o teu blog - coisa que não fazia há semanas, admito - que me ocorreu uma pista. Você se sente tão múltipla e indefinida como sempre, mas - tem se sentido amada. Amada por pessoas que não tem nenhum motivo para te amar, mal te conhecem, talvez nem te vejam de novo. Portanto: vc tem provado do chamado amor incondicional, aquela rara matéria-prima que se transforma depois em fé, e em seguida em auto-confiança. Isto é o que tem acontecido com você: nenhuma resposta, mas a certeza de que as perguntas tem valido a pena. E isto quer dizer também: o meu caminho, completa e unicamente meu, valerá a pena. Não preciso me preocupar, não preciso obedecer, não preciso...
Os vínculos familiares sobrevivem, mas vão se tornando menos importantes (é isto que vejo no primeiro sonho). E quanto ao rio pinheiros - bem, lembra-me de sonhos que eu tinha com trombadinhas quando morava por aí. Acho que vc está num momento de afastar-se do Brasil; como se ele fosse ficar guardado numa gaveta, um biquini a ser usado novamente apenas no verão, sei lá.
E as cinzas do vulcão, o que te evocam? o céu está de outra cor?
Grande beijo
V."
 
Eu -
"pois é. acho que agora as "águas" vão clarear tb. ainda me pego, dia sim dia tb, louca para ter algum controle na vida, pensando em me assentar em algum lugar. mas daí fico angustiada e não adianta. dura uma horinha e depois passa. mas estou aprendendo, tentando ser um pouco mais espontânea. não vou te dizer que isso vai acontecer do dia para a noite, mas eu chego lá.
estou achando um barato essa coisa de fumaça de vulcão. um barato mesmo. todo mundo em pânico e milhões de planos destruídos por uma coisa que ninguém pode controlar/prever/culpar/processar. rsssss. é hilário, não é?
estou em oeiras e aqui o céu está limpinho e azul. fui andar hoje à tarde na praia e estava um dia lindo. amanhã vou subir para o porto buscar uma mala na carol, vamos ver se mais para o norte as coisas estão melhores. tenho passagem marcada para dia 27 para a espanha (comprei há um mês em uma tentativa de fazer algum planejamento e ter controle de alguma coisa), acredito que até lá as coisas estejam melhores. dizem que a última erupção durou dois anos. isso sim seria engraçado. dois anos com o espaço aéreo europeu bloqueado. hoje na mina horinha de caos e angústia estava pensando sobre isso. vai que fecham o aeroporto de madrid no dia do meu vôo, e o de roma depois, e todos os mínimos planos que eu tinha feito na tentativa de me organizar um pouco vão-se por água abaixo (olha a água aí). Mas depois pensei direito, e daí? Né. Penso outro lugar para ir. Ou fico aqui. Ou vou de trem. Ou não vou. A verdade é que não existe caos. Quando não é para ser, não é. Nem que um vulcão tenha de ficar em erupção por dois anos. E sim. Estou me sentindo muito amada. E estou vivendo muito amor. E o mais legal. Estou trazendo muito amor e conforto para as pessoas com quem tenho me encontrado, e isso me faz sentir melhor. é aquilo. acordo todo dia tentando ser uma pessoa melhor. no final do dia constato que estou conseguindo. cá entre nós, acho que vou alcançar a iluminação ainda nessa vida!!! hahahahah! mas não espalha, é segredo.
mesmo porque ainda não decidi nem o que vou fazer ao certo depois de amanhã, quanto mais se eu quero mesmo encontrar a iluminação. dá que algum vulcão entra em erupção....

PS.: só para saciar sua curiosidade latente (porque sei da sua alma alcoviteira), ainda não me apaixonei, mas continuo querendo me apaixonar. me apaixonei por dublin, mas acho que isso não conta. acho mesmo que, nesse momento, eu sou uma encrenca. ocupada demais para me apaixonar, e arriscada demais. para se apaixonarem por. mas isso tb, vai mudar. quando não é um vulcão, é tsunami ou furacão. o mundo está cheio de catástrofes naturais. ;-)
te beijo
d."

sexta-feira, 16 de abril de 2010

COMER


Eu não tinha pensado exatamente em me empanturrar em Portugal, mas a comida daqui... Hum!!! Me faz ter vontade de engordar 20Kg e ainda pedir sobremesa. Além do bacalhau, que é uma paixão nacional e eu tenho comido dia sim, dia também para ir à forra dos preços absurdos no Brasil, tem os doces também. Muito ovo, açúcar e massa folhada. Bases de pão de ló recheadas com cremes melecados maravilhosos, pastéizinhos, bolos, queijadas. Tudo daquelas coisas que a gente lambe os beiços e ainda fica com os dedos grudentos por um par de horas. Meu favorito, que já virou um hábito, é a “nata”. Uma versão genérica dos divinos pastéis de Belém. Não é em todo lugar que elas são boas, mas no geral é só olhar a cara da pastelaria que dá para sentir o potencial. Não passo uma tarde sem pedir um café e uma nata, e ficar olhando a vida pela janela de alguma pastelaria. Das diversas receitas de bacalhau, minha favorita é a de Bacalhau com Natas. Uma tijelona de bacalhau desfiado, refogado com cebola e temperos e colocado para assar com batatas raladas, creme de leite e molho bechamel. Vem com a superfície gratinadinha e muito azeite… ainda não povei um que não fosse um desbunde.


À parte das informações básicas da culinária portuguesa, precisava muito falar aqui de uma das melhores refeições da minha vida. Sempre que dou umas voltinhas, reservo uma grana para fazer uma boa refeição completa no local. Nem sempre é caríssima, quase nunca na verdade. Mas sempre procuro um restaurante que seja muito bem indicado, quase uma unanimidade; e que traga muito da culinária local. Em Évora fui à “Tasquinha do Oliveira”. Mega recomendado pelo Lonely Planet (e eles nunca erram!), e mega recomendado por 10 entre 10 pessoas que você cruzar no Alentejo. A “Tasquinha do Oliveira” é um micro-restaurante, são 5 mesas apenas, e todo o serviço é feito pelo Sr. Oliveira e sua esposa. Ela na cozinha, e ele fazendo as honras da casa. Abriram o local em 96, com a intenção de vender vinhos e petiscos apenas, mas o boca-a-boca foi rápido e os clientes exigentes, então ampliaram o menu e se tornaram um dos melhores restaurantes de Évora. Cheguei na hora do almoço decidida a seguir qualquer recomendação que o Sr. Oliveira me desse. Para entrada ele tinha exposto no balcão algumas saladas para escolha (acho que vem daí nossa cultura de aperitivos de balcão em botecos). Fui em uma de cogumelos paris frescos curtidos em azeite e vinagre com folhas de hortelã, e pedi um queijo de ovelha feito na região. O queijo, servido em pedacinhos individuais ainda com o tecido envolto, era curado na parte externa e por dentro extremamente cremoso e suave. Feito de leite fresco, o sabor era do azedo da coalhada, só que mais doce e macio na língua. O vinho que Sr. Oliveira me sugeriu foi o Herdade do Pombal, da região de Estremoz. Tão perfeito que se abria em sabores super complexos junto com o queijo e o vinagre. Então ele começou a me trazer várias opções de entrada para eu experimentar. Pataniscas de bacalhau, uma espécie de tempurá feito de massa muito leve de farinha, bacalhau desfiado e bastante salsinha. Parecia um floco de neve gigante de tão leve. E uma outra versão dos cogumelos paris, só que assados com lascas de paio. Como prato, segui a proposta da Rota dos Sabores do Alentejo (um projeto organizado pelo Turismo que estipula um sabor alentejano por mês e que é o grande foco nos restaurantes participantes). Abril é o mês do borrego (carneiro). Então fui de Borrego Assado à Alentejana, que são pedaços de perna e mão de carneiro assados em forno com batatinhas inteiras douradas e servido no molho da própria gordura e saladinha de couve picada. Para acompanhar, Sr. Oliveira me trouxe bolinhas de melão geladíssimas e super doces, que junto com a carne (que parecia uma manteiga de tão perfeita) explodiam na minha boca despertando algumas papilas gustativas que não são sempre exigidas. Cada garfada era um orgasmo, te juro! E enquanto eu estava lá, mastigando borrego e me encharcando com a complexidade frutada da trincadeira (uma casta comum nos vinhos do Alentejo, e a que mais agrada meu paladar), eu resolvi que nunca mais iria comer por come, só para me alimentar e pronto. Decidi que daquele momento em diante toda refeição seria um acontecimento, ou não seria. Quero me maravilhar com a comida, vibrar com os encontros do meu paladar, mesmo que seja um fast food, mesmo que seja pipoca no cinema. Cada refeição deve ser incrível em seu contexto. O ser humano é o único animal que desfruta as nuances da gastronomia, todos os outros apenas se alimentam. É um desperdício negar a si mesmo essa experiência. Acho até que é pecado! Na sobremesa fui superlativa e pedi Sericaia e Encharcada. Sericaia é um doce típico alentejano, uma espécie de pudim feito de farinha, ovos, canela e servido com uma ameixa em calda, e a Encharcada é um doce de ovos, açúcar e canela curtido em calda. Para acompanhar fui de vinho licoroso Mouchão, que é um vinho muito próximo no paladar ao Porto (produzido pela mesma técnica), mas da região. Como toda refeição deve ser terminada com um café (e café ainda é minha paixão), Sr. Oliveira me serviu um espresso bem tirado, com espuma caramelo na superfície e paus de canela fresca para mexer e deixar o aroma. Muito tímido, Sr. Oliveira puxa conversa aos poucos, fala baixo, sorri de lado, e parece ter muito carinho pelo Brasil. Se ele pensa em ampliar as 5 mesinhas para aumentar o faturamento? De jeito nenhum! Está preocupado mais em nunca perder a qualidade. Vai mantendo a vidinha com a esposa, de forma despretenciosa, simples e muito bem cuidada. Espero mesmo que a ganância capitalista fique bem longe de Évora. Enquanto eu flutuava pelas calçadas, ainda anestesiada dessa experiência deliciosa, cheguei a conclusão do seguinte. Comendo do jeito que eu comi, já entendi como foi que a esposa do Sr. Oliveira arrumou o marido.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ando completamente relapsa com o blog. Sei disso. Recebi cobranças também. Desculpe. Hoje entrei em uma loja de celular no meio de Évora e comprei um desses minimodens portáteis. Agora posso acessar com mais tranquilidade, até de dentro do ônibus. Mas não vou me esconder atrás dessa desculpa. Não foi apenas a falta de net. Estava em Lisboa e tinha tanta coisa para fazer. Depois voltávamos para casa e, minha nova prima e eu ficávamos até horas falando, e falando. Muito papo mulherzinha, que eu amo. E a última coisa que eu pensava era em vir aqui escrever. Só confirmando minhas suspeitas de que blog é coisa de quem não tem mais o que fazer (e umbiguistas assumidas como eu).
Ok, de onde eu parei? Eu estava em Lisboa com amigos tão amados e ganhei uma prima nova.
Além disso preciso registrar que havia esquecido de como os portugueses são grossos quando querem. AFE!!! Às vezes tenho a sensação de estar participando de alguma pegadinha, que horror!!! Lóóógico que recebo manifestações deliciosas de gentileza (e que, de acordo com a "Lei do Bom Retiro"*, essas manifestações tornam-se ainda mais carinhosas com a falta de cortesia que reina absoluta nesse país), mas no geral o português é grosso. Eu é que não vou criar caso com isso e estragar meu dia, então já acostumei, dou risada e guardo no diário para se tornarem ótimas histórias de viagem.
Essa semana fui um pouco de Lisboa e resolvi dar uma voltinha pelo Alentejo. Fui para Évora. Agora estou em Reguengos de Monsaraz (fala isso rapidinho, três vezes!). Évora é uma fofura de cidade, tombada pela UNESCO e blábláblá, mas só chove esses dias e tudo o que se há para fazer é ao ar livre. Então vim para Reguengos procurar vinículas para visitar. Ah, essas cidaddes são cheias delas! Fui em uma hoje em Évora. Me falaram que era perto, que dava para ir andando. Eu com a mochilona nas costas. Atravesso a muralha (já que Évora é uma cidade muralhada) e sigo pela estrada. Anda, anda. Anda mais. Chove. Eu com o meu guarda-chuvinha de poá preto e branco e barra pink comprado na Renner e com a resitência daquelas sombrinhas de papel vegetal que vendem na Liberdade. Carros buzinado ao meu lado na estradinha da largura de um corredor. Sério. Se passa carro, nem bicicleta cabe ao lado. Se for um SUV então, eu sou obrigada a pular no meio do mato. Mas tudo bem, super adventure. Meu cabelo que está parecendo palha de tão ressecado, depois de tomar chuva e secar o dia inteiro parecia a peruca do Bozo. Cheio de personalidade. Calça molhada. Mas cheguei até a Vinicula. E depois de fazera visita, voltei. À pé. E achei a Rodoviária sozinha, sem ajuda de mapa. Toda orgulhosa de mim. De ter explorado a Zona Rural de Évora (hahahah). Estava quase desistindo de vir para cá, quase voltando para Lisboa (porque Kika é uma linda e fica me ligando para dizer que está com saudades, e que me adora, e que minha estadia na casa dela fez muito bem a ela. Eu fico feliz, faço de tudo para colocar meus amigos para cima. Às vezes não dá certo, mas é muito legal quando funciona. Então ela grita no telemóvel "Vê logo o que tem para ver aí e volta pra cá, Gordaaaaa!". Kika adora chamar todo mudno de gorda.), mas chegando à rodoviária o ônibus para Reguengos de Monsaraz está pronto para sair. Então eu pulo dentro e venho para aqui. Cheguei na rodoviária, sentei na guia da calçada para atachar minha mochila de ataque na mochilona e me dou conta de que são 20h. Ainda estava claro, mas estou em uma cidade de 11mil habitantes. As ruas estão desertas. A rodoviária nada mais é do que uma garagem com um teto de cimento, e aparentemente estou completamente sozinha ali (todos os outros passageiros e o motorista desapareceram misteriosamente). Eu estou sozinha, em uma cidade deserta e que eu não conheço, com um endereço de um hotelzinho barato que eu não faço idéia de onde fica (ou se eu serei a única coisa respirando no quarto), molhada, totalmente descabelada, sentada na guia. E eu penso em como eu devo agradecer ao astral por tudo isso. Como eu sou sortuda, e abençoada, e feliz, e plena; eu penso em como eu tenho uma vida perfeita e conquisto tudo, exatamente como eu quero. Chega a me dar frio na barriga, certa angústia, porque como toda brasileira eu sou programada genéticamente para reclamar de tudo, a sempre esperar o pior, a diminuir meus méritos, e a achar que se algo bom me acontece, ele tem prazo de validade. Mas não. Não é assim. Engulo o calafrio e agradeço porque eu estou vivendo todas as experiêcias que eu queria. Joguei a mochila nas costas, sai andando pelas ruas embaixo de chuva e, como tudo está sendo perfeito, óbvio e natural, ando duas quadras e acho o hotelzinho que estou. Assim. Sem mais nem menos. Porque as coisas devem ser assim. O quarto uma graça. Cama confortável. Chuveiro quentinho. Horas abusando da minha internet, agendando detalhes dos próximos destinos, conversando com minha mãe. Cuidando da minha "quinta" no Farmville. Parabenizando o meu sobrinho lindo que faz aniversário. Sempre que eu acho que o caos se instala, a vida me inunda. Me enche de água até o nariz. Eu gosto de fazer bolhinhas. Só para garantir uma cereja no bolo, vou dormir bem tarde, depois de falar meia hora com meus sobrinhos. Eles receberam hoje meus postais de Dublin e ficam me contando tudo o que fazem. Antes de desligar, Bia me fala "Muitas saudades, Tia Dri. Eu não consigo viver sem você.". Eu também não, Bibi. Eu também não. Sorte nossa que temos uma à outra.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

EU VEJO AMOR


Adoro essa foto. Tirei no Kilmahain Goal em Dublin. É um presídio que conta muito da história dos rebeldes irlandeses. Você viaja por celas e paredes onde aconteceram algumas das cenas de maior miséria, dor, sofrimento e desumanidade que aquele povo viveu. Mas gosto da idéia de que, décadas depois, somos capazes de trazer amor, mesmo sem perder a memória das atrocidades.