terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

CUBA: TODA, INTEIRA E DE UMA VEZ



Pois é. Primeiro choque de Cuba foi me deixar completamente incomunicável virtualmente. Nos últimos dias até consegui internet (mas só porque estávamos em um hotel 5 estrelas), mas ela era cara, lenta e usei só para trabalho. Os planos de postar um diário da viagem foram por água a baixo. Agora, de volta, estou amargando uma virose chata no sofá de casa e vou fazer um resumão. Vai ficar um post longo, mas serve para situar um pouco da experiência que tive na ilha, e dar umas dicas para quem pensa em viajar para lá em breve. Vamos lá!
Primeira coisa a se notar, Cuba fica longe! Eu achei que o trajeto fosse mais curto, ainda nosso vôo tinha conexão em Lima, então fizemos um triângulo na América Latina. Foram quase 12 até chegar em Cuba, e depois mais duas de ônibus até chegar em Varadero. Some a isso que agora é regra nas companhias aéreas servir pão. É um tal de lanchinho aqui, lanchinho ali. Meu humor estava no chão. Eu estava voando na jugular de qualquer um que chegasse na minha frente. Tanto que virou frase de ordem durante a viagem sempre que o stress se instalava: “Olha o mau humor!”. Não dá para viver sem humor. 

Cubanos -
Primeira coisa que a gente percebe logo de cara, os cubanos nos adoram! Eles amam o Brasil e só de dizer de onde somos, eles abrem um sorrisão e repetem prolongando o final: “Brasiiiiilllll!!!!”. Acho tão gostoso esse fascínio que o Brasil gera em todo mundo. Onde vamos, as pessoas amam os brasileiros (menos em Portugal). Muito bom ser um povo amado, sinônimo de alegria, de felicidade, de coisa boa. Depois de relaxarem um pouco e abrirem o sorrisão por sermos brasileiras, o comentário era obrigatoriamente a principal referência brasileira que eles têm: novelas! Agora estão assistindo “Insensato Coração” e a reprise de “Por Amor”. Todos comentam da novela e perguntam sobre a trama. A gente se divertia contando segredinhos que estavam por vir. Eles adoram! A novela passa em horário nobre, três vezes por semana. O governo intercala o horário com uma produção cubana, para alavancar a audiência da novela nacional. Outra unanimidade é Glória Pires. Eles amam Glória Pires. Homens, mulheres, velhos e crianças. Todos eles perguntam de Glória Pires, se conhecemos Glória Pires e como ela é. Acho que se algum dia ela for para Cuba, os próprios irmãos Castros estariam esperando-a no aeroporto. Usando camisas polo da Lacoste. Depois dessa introdução comum a todos os cubanos as reações se dividiam dependendo do gênero do nosso interlocutor. Se fosse mulher, conversávamos normalmente sobre as unhas, as melhorias da abertura, o emprego. Agora, se fossem homens, começava um assédio insuportável. No começo a gente sorria, e até se sentia lisonjeada, mas logo se aprende que em Cuba fazer contato visual é perigoso. O povo gruda em você e não larga. É sério. Então diziam que éramos lindas, que mulher brasileira era a mais bonita do mundo, estalavam os lábios e puxavam o ar fazendo barulho, chamavam de Miss Brasil, pediam em casamento. Acho que recebi uns 200 pedidos de casamento. Isso é para acabar com qualquer crise pós-35 que uma mulher solteira possa ter. (Embora nenhum dos pedidos veio acompanhado de uma aliança Tiffany’s com diamante princess cut de 1ct.) Se a essa altura a gente não desse logo um corte no rapaz, a coisa ficava mais complicada. Começavam a colocar a mão, puxar pelo ombro... e dava um pouco de medo. Demorei alguns dias para inventar um “novio” e usá-lo para escapar de todas as situações. Outra coisa que era comum a todos cubanos, homens e mulheres: todos fechavam a cara quando o assunto era política, Fidel ou o governo cubano. O sorriso sumia, os olhos se enchiam de medo e então a gente descobria que eram pessoas tristes, sofridas. Toda aquela alegria e simpatia faz parte do mis-en-scéne turístico. Coisa para inglês ver. 

Dinheiro -
Em Cuba há duas moedas, o peso cubano e o peso convertible, ou CUC. O CUC é a moeda usada pelos turistas e tem taxa de 1-1 US dólar. Embora a base de cálculo seja o dólar, a melhor moeda para troca em Cuba é o Euro. Se você for tentar trocar dólares pagam CUC 0,80 por US$1. É a vingança comunista. Trocar CUCs ou qualquer outra moeda pelo peso cubano só no mercado negro, e certamente você via perder muito no câmbio. De qualquer forma, todos os serviços, lojas, restaurantes, taxis vão te cobrar em CUCs. A gente não tem muito acesso aos estabelecimentos dos cubanos. Tentamos entrar em um mercado do governo e quase fomos enxotadas. Era um salão grande, com grãos a granel e produtos com cara de baixíssima qualidade. Os produtos de higiene eram estranhos, todos com embalagens genéricas. Também havia uma longa fila para comprar pão (1 por pessoa) e um bar com café e rum baratos. Me proibiram de tirar fotos e disseram que não podíamos consumir nada ali. Lá os cubanos podem comprar produtos baratos ou trocar seus talões de “ração”. Ninguém morre de fome, mas estão muito longe poderem dizer que comem de verdade. O regime garante que todos “se alimentem”. O básico para sobreviver. Todo mundo sabe que existe uma grande diferença entre viver e sobreviver. O comunismo garante só a segunda opção. As pessoas mais ligadas ao partido garantem empregos mais privilegiados em hotéis e restaurantes, onde se recebe “propina” dos turistas. Embora os taxis sejam caros, não é tão lucrativo quanto uma camareira de hotel. A gasolina é muito cara e, por mais que ganhem em CUC, mais de 75% fica com o governo como pagamento de impostos. Camareiras além de gorjeta, ganham presentes e produtos dos hóspedes. Nós deixamos shampoos, cremes, pasta de dentes, sabonete, perfumes. Ela quase nos levantou no colo de tanto que agradeceu. Além de péssima qualidade, os produtos de higiene cubanos são caros e com o pequeno orçamento acabam virando itens supérfluos no final do mês. O salário médio cubano varia de 350-450 pesos. Algo como 13-18 CUCs. Eu comprei um shampoo na lojinha do hotel que era esse preço. É isso mesmo. As pessoas passam o mês com R$35 e um talãozinho de ração. Vidão!

Carros - 
Uma das imagens mais icônicas do meu imaginário do que seria Cuba era a frota de carros. Sonhava com aquele país parado no tempo, cheio de latas velhas sem manutenção e Bel Airs rabo de peixe. Eles continuam lá. Junto com Ladas aos montes. Muitos passaram por tantas funilarias que viraram carrocerias disformes, e mal se consegue determinar o modelo original. Mas há muitos carros impecáveis, brilhando. Compondo um quadro irresistível com os prédios em ruínas ao fundo. A surpresa veio da quantidade de Peugeuts, Kias e Hiundais novinhos em folha que também se encontram por todos os lados. Faz bem pouco tempo que o governo abriu o comércio de carros novos, até por isso não esperava ver tantos na rua. Esse é só um dos sintomas do quanto Cuba está mudando, e em que velocidade. Não vai demorar muito e talvez os Bel Airs sejam reduzidos a apenas alguns para divertimento turístico estacionados na entrada do Bairrio Cino. Não demora muito também para descobrir que todo e qualquer carro na rua é um taxi em potencial. Existem cinco modalidades de taxis: 
Os de empresa: são amarelos e se parecem muito com os rádio-taxis de São Paulo. Podem ser facilmente identificados nas ruas e alguns deles até tem taxímetro. Taxímetro é artigo de luxo e encarecem bastante o trabalho para os taxistas que são hiper-taxados pelo governo. Quase nenhum taxi tem. 
Os regulamentados: são taxis particulares, com motoristas regulamentados pelo governo. eles possuem carteirinha, registro, luminoso no teto do carro e, obviamente, pagam também uma fortuna de impostos. 
Os ilegais: nessa categoria entra praticamente qualquer carro nas ruas de Havana. Em sua maioria Ladas velhos e caindo aos pedaços, com bancos de mola estourando na sua bunda e maçanetas que podem te passar tétano. 
Os lotações: esses são carros comuns que dificilmente pegam turistas. São os mais usados pelos cubanos. Fazem um trajeto fixo e vão pegando pessoas pelo meio do caminho. São baratos, cobram em pesos, ou o mínimo em CUCs. Pegamos um desses só uma vez porque um casal cubano foi muito gentil e nos colocou lá dentro, senão nunca teria parado para nós. Nos cobrou apenas 1CUC por um trajeto em que normalmente nos cobravam 5CUCs. 
Os coquitos: são as tradicionais lambretas com carroceria em formato de coco. Vale para fazer trajetos curtos, porque não são as coisas mais confortáveis do mundo e à noite, com a temperatura mais baixa, você passa frio. Cobram o mesmo tanto que os ilegais, mas possuem autorização para trabalhar. Me lembraram os tuk-tuks que eu pegava na Guatemala. 
Com exceção dos regulamentados, todos os outros vão sempre tentar te dar um golpe. A boa notícia é que você nunca vai saber se estão mesmo dando um golpe ou não. Com a falta de um taxímetro o preço é estabelecido basicamente pela sua cara. O motorista olha para a sua cara e imagina quanto acha que consegue arrancar de você. No geral nós tínhamos cara de 10CUCs, porque qualquer trajeto que tentávamos fazer custava isso. É preciso negociar e ter muita paciência. Nas calçadas nós éramos atacadas por taxistas e representante o tempo todo. Depois de alguns dias estava tão farta da cara de pau dos taxistas que parei de negociar. Entrava no carro, se me falassem um valor muito alto, eu simplesmente dizia “No, gracías.” E saía do carro para procurar um outro. Eles podem até ter um regime comunista, mas eu cresci no capitalismo, onde impera a lei da oferta e da procura. E lá, há muito mais oferta do que procura.

“No, gracías” -
Golpes. O tempo todo vai ter alguém tentando te dar algum tipo de golpe. De todos os tipos. Eles não vêem turistas como iguais. Às vezes tinha a impressão que o regime os deixou tão individualistas pela sobrevivência que eles não vêem ninguém como igual. Por isso mesmo vão sempre tentar se aproveitar, passar a perna, te explorar de alguma forma. Seja cobrando 10 vezes o valor do produto, seja inventando uma história para te ludibriar a comprar gato por lebre, um cubano nunca vai vir conversar com você sem algum interesse por trás. A melhor coisa é relaxar e saber que invariavelmente você vai cair em algum golpe na sua estadia. É melhor pensar assim para não ficar muito revoltado quando acontecer. Claro que existem os mais óbvios. Quando estávamos indo para a Fábrica de Charutos  fomos abordados por um rapaz na rua que, depois do ritual Brasiiiilll-novela-brasileiraslindas-casacomigo nos garantiu que a fábrica estava fechada naquele dia porque era um feriado nacional onde “somente aquele dia” o governo permitia que as cooperativas de funcionários da fábrica vendenssem charutos em suas casas pela metade do preço. Para um desavisado parece mesmo a sorte do século! Qual a possibilidade de você estar viajando bem no dia de tão maravilhoso feriado!? Claro que é uma história inventada para levar turistas mais ingênuos para casas particulares onde se vendem charutos (de baixíssima qualidade, diga-se de passagem) no mercado negro. Eu já estava avisada desse tipo de golpe, então continuei sorrindo, agradeci a dica e enfiei meu “novio” na jogada. “Ah, que pena que a gente não sabia disso antes, mas é que meu ‘novio’ já está nos aguardando lá na fábrica. Quem sabe da próxima vez!?”. E sai andando. Depois de dois dias eu já nem me dava ao trabalho de inventar muitas desculpas. Só repetia, sorrindo, “no, gracías”, sem parar de andar, até o indivíduo desistir. Vencer pelo cansaço. A Lau me perguntou se o assédio era como no Marrocos. É bem diferente. Nas suks eles também pulam no seu pescoço e é um perigo fazer contato visual, mas a diferença é que o marroquino é um negociador. É uma coisa cultura. Ele tem um produto e ele vai exaltar todas as qualidades para conseguir o melhor preço por ele. Ele não quer te oferecer um lenço por 100 dirhans, para você pagar e ir embora. Ele quer que você barganhe, negocie, argumente. Ele conhece o produto que tem em mãos e você vai saber quando chegou no limite do que ele realmente vale. Em Cuba não. O que eles querem é te extorquir, te fazer de trouxa. O prazer está em enganar, levar vantagem. Fazem os vendedores de canga e taxistas cariocas parecerem trombadinhas pés de chinelo.

Segurança -
Com tudo isso você pode pensar que Cuba é um lugar perigoso. Não é. Super seguro! E a sensação de segurança é presente. Mesmo à noite, mesmo sendo mulher andando sozinha. Pode-se sacar dinheiro em caixa eletrônico no meio da rua, andar com câmeras a tira-colo, exibir IPhone, relógios, jóias. Sem nenhuma preocupação de ser assaltada. Parece estranho em um lugar onde as pessoas vivem com tão pouco e são expostas constantemente a uma abundância que não podem ter acesso, mas essa segurança tem pouco a ver com o caráter do cubano e muito mais a ver com a polícia do regime. Cuba tem um policiamento ostensivo, violento e implacável. Faz a ROTA e o BOPE parecerem seminaristas. Nos hotéis existem casos de furtos de dinheiro. Objetos, jóias, eletrônicos são mais complicados de justificar a posse, mas algumas camareiras podem não resistir de ver exposto o valor muitas vezes de um ano de trabalho. Nada que usar o cofre do quarto não resolva. 

Comida -
É horrível! Comi muito mal na maior parte do tempo. Tudo tem gosto artificial, enlatado, de baixa qualidade. Quanto mais fresca a comida, mais cara, então é um festival de purê de batata em pó, molho de tomate aguado, massas rançosas e arroz azedo. O queijo tinha gosto de plástico. Comer era sempre uma aventura, e muito caro para o que se oferecia. Em tudo, a Cuba em CUC era bem cara. Encontramos algumas opções mais palatáveis depois de quebrar um pouco a cara, e nisso vimos um certo refresco de uma Cuba que está aos poucos renascendo e se abrindo para o mundo. Havana está começando a ter novos endereços, restaurantes, cafés. Em imóveis reformados, muito bem decorados, com equipe treinada e chefs treinados nas técnicas culinárias. Nesse lugares encontramos uma comida criole revisitada e saborosa. Outra surpresa foi almoçar no La Bodeguita del Medio. Nem tínhamos planejado isso, por ser um dos endereços mais turísticos de Havana, mas os turistas passam em frente, tomam um mojito, tiram fotos e vão embora. No salão dos fundos fica um restaurante vazio, farto e de ótimo preço. Comida caseira, muito bem feita. Comi arroz de mouros, batata doce, banana frita e salada (com folhas!!!). E o mojito deles é mesmo o melhor de Cuba! Os restaurantes do hotel também salvavam a pátria. Ficamos no Meliá Havana, que é maravilhoso. Mesmo quem não liga para estrelas, como os preços são mais ou menos os mesmos, vale a pena ficar nesse. Limpo, seguro, correto, equipe muito atenta e com internet (Yeay!!!). Você não vai encontrar isso em nenhum outro lugar de Cuba.

Varadero -
Varadero é aquilo. Uma coleção de resort cafona, um atrás do outro. Coisa de chorar de rir de tão ridículo! No nosso tinha até show de cabaré todas as noites, daqueles bem decadentes, de inspirar nossos mais profundos instintos de vergonha alheia. A praia é incrível! Uma faixa sem fim de areia branca, um mar calmo e delicioso de água limpa e cristalina. Tudo aquilo que você espera quando junta as palavras “férias” e “Caribe” em uma frase. Mas como eu não sou muito rata de praia (por mais que quisesse, meu bronze vai de rosa à roxo sem escalas), passamos um dia só lagartixando na praia e provando todos os tipos de drinks. Nos outros dias fui buscar tours e passeios para fazer. Fui mergulhar na Baía de Cochinos (a Baía dos Porcos, cenário de episódios da Revolução) em um paredão de corais que dizem chegar à 200m. Não sei. Fui até 30m só. Maravilhoso! Vi peixe escorpião (que era louca para ver) e nenhum tubarão. Agora que não tem mais cubanos em boias no caminho para Miami acho que eles migraram para outros lugares. Queimei minha perna em alguns corais de fogo. Vi uma embarcação de pequeno porte naufragada bem raso. Uns 10m apenas. Visibilidade excelente, alcançando 30-40m, água a 29oC. Perfeito! No outro dia fizemos um safari de 4x4. Pegamos um jeep e dirigimos pelas cidades vizinhas, fizemos snorkling, mergulhamos em um lago de água doce dentro de uma caverna e almoçamos em uma fazenda. Pude satisfazer todo meu instinto Felícia e passei a tarde brincando com galinhas, gatos, cachorros, papagaios, burros, touros, cabras e bodes. A melhor parte de Varadero é poder explorar um pouco do interior de Cuba em passeios. Me deu vontade de voltar um dia, alugar um carro e viajar entre as cidades até chegar a Guantanamo. 

Arte -
Dizem que Hitler era um leitor voraz, mas que não assimilava nada do que lia. Seja para exibir na prateleira ou para auto-afirmar seus frágeis egos, todo regime totalitário acaba investindo em algumas modalidades artísticas para justificar suas atrocidades. A arte de Cuba é do tamanho da falta de liberdade. Se você tiver que ver apenas um museu em toda sua viagem a Cuba, nem pestaneje. Vá direto ao Museu de Belas Artes - Coleção Cubana. In-crí-vel!!! Reserve uma tarde inteira para ele. Você vai se arrepender se ficar sem tempo. Distribuído cronológicamente, a coleção do museu é abundante, rica, prolixa, enlouquecedora. Eu mal conseguia dar conta de tantas influências, tantas novidades, tantas coisas lindas e maravilhosas todas de uma vez. Poderia ficar aqui falando sobre os artistas cubanos por horas, mas dois me tiraram o fôlego. René Portocarrero e Wifredo Lam. Me parecem esses tipos de artistas que nunca se esgotam na gente. Então, depois dessa avalanche de frescor, angústias, vísceras e úteros, a gente descobre outra coisa que é um pecado no comunismo. A falta de uma lojinha de museu que nos abasteça de livros, catálogos, reproduções que possam ficar reverberando em nossas casas as maravilhas. Uma pena. Mas se o museu não está acessível como souvenir, as ruelinhas de Havana Vieja está carregada de pequenos studios e ateliers. Alguns bem turísticos, mas se enfiando entre um e outro, pode-se achar coisas lindas, interessantes, frescas, feitas por artistas que pintam pelo prato de comida, assim como Picasso em Paris. Dá para levar para casa algumas coisas muito boas por 100-300 CUCs. Comprei dois, de duas pintoras. Muito femininos. 
Outro motivo de orgulho cubano (e que eu não ia perder por NADA nesse mundo) é o Ballet Nacional de Cuba. A famosa cia dirigida por Alícia Alonso. Fui. Chorei. Me emocionei. Foi o ponto alto de toda minha viagem. Estavam apresentando um espetáculo em homenagem à Feira do Livro que acontecia na cidade. Uma sequência de peças. "La siesta del Fauno", primeira coreografia de Nijinski, obviamente perturbadora e genial. Algumas coreografias de Alicia inspiradas em obras de Portocarrero e obras de compositores cubanos e o ponto alto (que encerrou o primeiro ato da noite): o pas de deux do terceiro ato de "O Lago dos Cisnes". O desbunde de coreografia com Viengsay Valdés, primeira bailarina do Ballet Nacional de Cuba fazendo Odile e realizando impecavelmente as 32 piruetas... De tirar o fôlego. Se fosse só por essa peça já teria valido tudo. A viagem, o investimento, tudo. Saí de lá com vontade de virar anoréxica e me dedicar somente ao ballet. Uma pena que já é tarde...

Orgulhos Nacionais - 
Pode ser coisa de turista, mas existem algumas coisas que não se pode sair de um país sem fazer. Em Cuba elas são bem óbvias: rum, tabaco, música. Havana Club é o rum oficial de todos os lugares com um pouco mais de estrutura. É usado nos drinks de Hemingway (o mojito da Bodeguita e o daiquiri do Floridita, ambos ótimos!), e em todos os drinks de todos os bares e hotéis. Todavia, basta uma conversa mais profunda com alguém que entende para descobrir que o melhor rum de Cuba é o Santiago. Trouxe uma garrafa 15 anos. Não bebo rum, e quase não tenho bebido, mas se é para ver fotos da viagem e falar sobre Cuba com os amigos, que seja com o melhor rum. O charuto é orgulho nacional. Talvez o souvenir mais comprado pro turistas na ilha. Os únicos lugares confiáveis para comprar são casas de tabaco, lojas de hotéis e na fábrica. O resto nem vale tentar. São caros. Beeeem caros! Doce ilusão pensar que seriam baratos na fonte. Uma caixinha com 10 Cohibas saem facilmente por 200 CUCs. Os preços variam de acordo com a qualidade e o calibre. Eu aprendi a fumar charutos com meu tio há uns 15 anos atrás. Comprei alguns Cohibas e guardei para ocasiões especiais.
A música talvez tenha sido a única decepção da viagem. Eu esperava ver mais música, mais coisas atuais, verdadeiras. É bem difícil encontrar os endereços onde a música está acontecendo agora sem ter algum contato local. Todo mundo jogava a gente para os endereços turísticos onde as pessoas se contentam com um pastiche de Buena Vista Social Club ou com Gangnam Style em ritmo de salsa. Gustavo Lima também é uma unanimidade na noite (embora eu acredite que é só porque os Castros acreditam que a música é um hino revolucionário à Che: “
Tchê tcherere tchê tchê,
Tcherere Che Che Che, que hoje vai rolar”...). Tudo isso regado a mulheres vestidas como prostitutas (bom, eram prostitutas!) e danças muito sexualizadas. Nossa melhor noite foi no La Zorra y El Cuervo. Uma tradicional casa de jazz no Vedado, que fica em um porão apertado por onde se entra através de uma cabine telefônica inglesa. No palco uma pessoal jovem, músicos muito talentosos e jam rolando solta. É uma casa onde Chucho Valdés tocava e onde Roberto Fonseca toca todas às quintas. Lá também vendem CDs e consegui garimpar algumas novidades, e peguei sugestões com o DJ do que ele achava de melhor da nova safra de jazz cubano. É. Nem tudo está perdido. 

Havana -
Havana é a jóia de Cuba, e a gente não precisa de mais do que alguns minutos para entender por que. Linda! Mesmo decadente, deteriorada. Havana é linda. A gente consegue enxergar a cidade maravilhosa embaixo do abandono e falta de cuidados. As grandes avenidas e plazas. O Malecón interminável. Quando o tempo virou e vimos o mar revolto estourando ondas no muro daquelas calçadas, entendi porque todo escritor cubano coloca o Malecón em algum momento do livro. Ele é a passarela de Havana, e eu também o colocaria como protagonista se escrevesse um livro ali. A arquitetura é um deleite. Havana Vieja exibe ruelas e prédios que não deixam esquecer a colonização espanhola, Centro Havana com suas fachadas neo-clássicas caindo aos pedaços e prédinhos art-déco. O Vedado foi de longe meu bairro favorito. Cheio de gente jovem, paladares, lojinhas e casas de jazz. Nosso hotel ficava em Miramar, um pouco afastado do centro (o que significa 15 minutos de ônibus). Miramar é a Vila Nova Conceição de Havana. Lugar de alto padrão, com mansões gigantescas, embaixadas, jardins. Foi nesse bairro que Che foi morar depois da revolução. Ele e todos os altos cargos do partido. Não são bobos nem nada. Os casarões foram todos tomados pelos líderes do regime. Até hoje são. A melhor coisa para se fazer é se perder entre as ruas de Centro Havana e Havana Vieja. Eu passaria mais uma semana ali, tirando fotos, tomando mojitos e daiquiris. Fumando charutos. Entrando nas dezenas de museus por metro quadrado, livrarias, casas de artesanato. Descobrindo as lojas centenárias deixadas intactas. Havana é o que redime Cuba. Parece que há uma cidade cosmopolita, vibrante, rica, adormecida. Esperando ser libertada. Esperando que os tempos negros passem e ela possa se reerguer e tomar seu posto como uma das cidades mais interessantes do mundo. Aos poucos está sendo restaurada. É bom para os cubanos. É bom para a humanidade. Esse tempo vai passar. Os Castros não vão viver para sempre e, quem sabe, ganhamos Havana de volta. Quem sabe.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

CUBA VAI LANÇAR UM FOGUETE...


Já falei aqui que uma das minhas ressoluções de ano novo foi virar uma “mulher de Chico”, dessas que só dizem sim. Estou dizendo “sim” para qualquer proposta que me façam, e está sendo muito divertido. Além de me dispensar dos questionamentos típicos da pessoa controladora que eu sou, dizer “sim” tem um quê de libertador. Diga “sim”, Adriana, e está decidido. Outra resolução de ano novo foi o de realizar alguns sonhos. Ano passado eu viajei pra caramba. Foram 7 países diferentes, sendo que 4 deles eram inéditos. Além dessas, 3 viagens nacionais. De todas essas viagens, só Fernando de Noronha estava na minha lista de lugares top para conhecer. Não que eu não quisesse conhecer os outros lugares, mas todo mundo tem aqueles lugares de sonho. Aquela experiência que a gente jura que vai fazer antes de morrer. Então se eu estou colocando tanta energia em colecionar figurinhas no passaporte, porque não começar exatamente por aqueles lugares que sempre sonhei em conhecer!? Esse vai ser o ano de realizar esses sonhos. Estão na lista Macchu Picchu, Chapada Diamantina e a Ásia. Toda a Ásia. Tailândia, Indonésia, Vietnam, Cambodja... Sinto frio na barriga só de pensar em Ásia. Sinto uma atração muito forte pelo oriente. Existe algo na minha alma que mora lá. Mas a Ásia é uma viagem mais elaborada. Algo que precisa de planejamento, tempo e, se tudo der certo, vai coroar esse ano. Enquanto isso tem um feriadinho começando amanhã. Não dá para passar 36 horas em um vôo para conhecer o Laos, mas dá para realizar um outro sonho antes que não dê mais tempo: conhecer Cuba. Pois é. Passagem comprada, visto emitido. Embarco amanhã cedinho para uma semana longe da folia, mas conhecendo de perto a Cuba de Fidel. A Cuba de Pedro Juan Gutierrez. A Cuba do Mamute Siberiano. Dessa vez não vou de mochila. Lalau e eu vamos juntas, com um desses pacotes que tem tudo o que a gente precisa. Resort all inclusive em Varadero, hotel 5 estrelas em Havana. Ganhamos até uma necessaire bacanuda da agência de viagens. Não vai ser daquelas aventuras que estou acostumada escrever aqui. Sem os imprevistos de carregar 15Kg de mochila e descobrir o caminho para sair do aeroporto. Vou com uma mala de verdade, dessas que tem rodinhas, para conseguir carregar o equipamento de mergulho. Sim. Há planos de mergulhar em Varadero. E tirar alguns milhares de fotos em Havana. Pegar o Malecon com a luz do fim de tarde. Ouvir bolero. Assistir as negras enrolando charutos em suas coxas fortes. Tomar mojitos no bar do Hemingway. - Aliás, dúvida: é muito clichê ler Hemingway viajando para Cuba!? - Amanhã cedinho embarco para realizar o primeiro sonho de 2013. Prometo contar tudo em postagens diárias, como sempre faço quando estou viajando. Podem aguardar. Nesse carnaval vamos ver Cuba lançar!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

50 TONS DE GANGNAM STYLE

De tempos em tempos temos uma epidemia musical. Aquele tipo de música que todo mundo aprende a dançar, define gerações, e que depois de anos vamos rir de lembrar a coreografia com os amigos. Não há dúvida de que "Gangnam Style" é a música da nossa época. A "Macarena" pós-fim do mundo. Uma síntese do que é o nosso tempo. A música é uma sátira aos playboys sul coreanos. Pega muito mal ser playboy hoje. Foi-se o tempo da ostentação, da diferença social óbvia. A tendência é cada vez mais colocar o pé no chão. O luxo está tendo que se reinventar, porque virou motivo de piada. Além disso, Psy não é um produto estadunidense, como foi a dominação cultural do século passado. Ele é produto de uma globalização que quebra os estereótipos entre ocidente e oriente. Ele é sexy, quebrando todas as referências óbvias de sexualidade, e é cool porque a novidade é que o mundo hoje nos chega mais aberto, mais cheio de informações, referências. E também porque o mundo hoje cabe em uma url, a gente pode desmembrar, reinventar, clonar, repaginar, reinventar. Essa semana fiquei fascinada encontrando versões do sucesso pop. Que maravilha é isso, não!? Viver em uma época em que podemos ver tantos desdobramentos de um tema, sem tirar os nossos pijamas, do sofá de casa. Aquilo que poderia ser um pastiche de uma cultura cada vez mais plástica, mais medíocre, digna dos piores programas de auditório do mundo todo; renasce com humor, criatividade e nos ajuda a lembrar que nossos julgamentos são sempre carregados de preconceitos. O humor e a beleza vem de olhar uma mesma coisa por ângulos diferentes. Então aqui, minha seleção de Gangnam Style, em tons diferentes. 

Essa é uma das minhas favoritas: O dissidente chinês Ai Weiwei fazendo uma paródia-protesto dançando a coreografia dos cavalinhos. 




Outra que caí de amores essa semana. Versão cover acústica por Jayesslee. Linda!
 




Versão bossa nova.




No violão.




O grupo Wonderful Pistachios no meio de New Orleans.




Várias universidades fizeram flash mobs. É só procurar na rede. Essa é na Cornell.




E o viral irresistível da semana. A gente entende a pequena Amaya. É um mundo tão louco, a melhor coisa é acordar e se chacoalhar. ;-)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Eu nunca abro os stats do blog. Hoje resolvi dar uma olhada e é legal porque dá pra ver tudo sobre o visitante. De onde é, que tipo de sistema operacional usa, como chegou no site, quanto tempo ficou lendo as postagens. Tem um monte de gente de Portugal que anda lendo esse blog. Legal essa coisa da língua ser a mesma e a gente poder se entender e se ler. 
Daí vou descendo o relatório de acessos e começo a ver uma, duas, três... algumas entradas dos EUA. Palo Alto. E o sistema operacional era "facebook"... Mark! Você tá lendo meu blog!!! \o/

sábado, 2 de fevereiro de 2013

OS INSTINTOS "MULHERZINHA" PARA TRABALHOS MANUAIS



Eu costumo dizer que dentro de mim mora uma Stepford Wife - referência às esposas robôs dos anos 50 no livro de Ira Lewin. Eu queria ter uma cozinha grande, com uma bancada de granito para espalhar massa de pão. Chegar de tarde e fazer um bolo formigueiro, deixar o aroma invadir a casa e passar um café fresquinho para acompanhar. A vida deveria ter bolo caseiro todos os dias. Acordei hoje com uma vontade danada de assar um bolo. A última vez que fiz isso foi um desastre. Consegui fazer a massa explodir, grudou no meu cabelo, no chão. Dois meses depois eu e a Jô ainda encontrávamos vestígios da tentativa em partes do armário. E olha que era de caixinha! Algum tempo atrás resolvi fazer cupcakes. Comprei a forma, um livro de receitas da Martha Stewart. Fiz até a lista de compras. Nunca passou disso. Tenho várias desculpas. A cozinha é pequena, não achei açúcar de confeiteiro. Verdade que nem procurei, mas não estava lá, na prateleira do Pão de Açúcar. Então não achei. Verdade também que a cozinha é pequena. Bem pequena. E eu não tenho uma bancada de granito para espalhar os ingredientes em potinhos e brincar de Ana Maria Braga. Quem nunca brincou de Ana Maria Braga!? Preparar todos os ingredientes bonitinhos em potinhos, e ir seguindo a receita como quem dá aula de culinária na TV!? Às vezes acho que deveria fazer mais coisas manuais. Decorar vasos de flores, pintar coisinhas de decoração para colocar na casa. Fazer potpourri. Arrumar um álbum de fotografias. Ser mais caprichosa. Talvez seja coisa de menina isso, né!? Quem sabe o dia que eu comprar o apartamento. Quem sabe quando abrir a cozinha e reformar a sala eu coloque uma bancada. Uma mini-bancada. Então eu fecho o segundo quarto, faço uma estante só de apetrechos. Com fitas, laços, lantejoulas, cola quente. Faça uma estante para os meus gatos colecionáveis. E um catálogo para os meus CDs. Quem sabe! Por enquanto a única coisa manual que eu faço é escrever. Sai bonitinho. Não é o tipo de coisa que se vê de relance, batendo o olho. Mas se a pessoa para e senta para ler, acha bonitinho. Quem sabe eu não faça aquele bolo com café para acompanhar!? Quem sabe!?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O MOMENTO PERFEITO


Hoje eu não queria levantar. Não estava em um dia perfeita. Estava sonhando com pessoas que me deixam intrigada e curiosa, e tinha dormido pouco. Fiquei fumando e tomando vinho até tarde com a Keka no Skype. Meu olho estava inchado, parecendo que tinha areia, da alergia à gata. O dia escuro e cinza, e eu só pensava se eu poderia ir à reunião na editora de tarde usando um moleton. Então eu desci, troquei amenidades com a empregada. Tomei café com leite, a manteiga estava dura na geladeira. Não dava para passar no pão. Fiz um ovo quente que esqueci no fogo e virou ovo cozido. Abri o computador, sentei no sofá. Olhei os emails, respondi perguntas. Assisti ao jornal na TV, mais sobre a tragédia do incêndio e sobre a mulher que esquartejou o marido. Contei para a Jô, minha empregada, sobre o meu próprio incêndio. Depois levantei, briguei com a gata. Abri uma caixa de cápsulas de Nespresso. Enviei emails. Corrigi alguns erros. Fiquei triste por ter errado. Sentei para escrever. Parei no meio. Achei que estava ruim. Fiz um chá. Aqueci o mel para ele descristalizar. Tirei a gata de cima da alface que estava de molho. Voltei a escrever. A empregada ligou o aspirador de pó. Briguei com a gata novamente. Coloquei de castigo na varanda. Desliguei o telefone. Escrevi. Liberei a gata do castigo. Tirei a gata novamente de cima da alface. Voltei a gata para o castigo. Subi para buscar um livro. Voltei a escrever. Tomei chá. Subi para buscar o dicionário analógico. Acabei com uma caixinha de lenços. Tomei um Allegra. Bufei por não achar uma palavra. Reli o texto. Achei ruim. Escrevi XXX no lugar da palavra que eu não encontrava. Me distraí lendo termos no dicionário. Chequei a grafia de “abdômen”. Escrevi. Escrevi. O chá esfriou. Escrevi. Li o texto em voz alta. Li outra vez. Fechei a janela que fazia corrente de ar. Encontrei a palavra. Substituí o XXX. Li o texto mais uma vez. Acho que ficou ok. Soltei a gata do castigo. Pinguei colírio. Me despedi da Jô. Desisti de ir ao ballet para continuar escrevendo. Abri outra caixa de lenço. Reli o texto. Salvei em doc. Enviei. Esquentei mais chá. Sentei. Então, pela primeira vez hoje parei. Meu computador aberto, o chá ao meu lado. A gata dormindo (finalmente quieta) no meu colo. A casa em silêncio. Os passarinhos cantando na árvore do vizinho. E é isso. O momento perfeito. Eu, no meu dia de não me sentir perfeita, vivendo o momento perfeito. O momento do dia pelo qual eu não sucumbi no edredon de manhã. Aquele momento pelo qual nos levantamos. A sensação de terminar um texto, sentar com uma xícara de chá e a gata no colo. Olhar o computador e abrir mais uma folha em branco. Felicidade para mim são várias folhas em branco. Escrevi.

domingo, 27 de janeiro de 2013

AMOUR

Eu nunca tive medo de envelhecer... Até assistir a esse filme. Agora tenho medo de envelhecer, e tenho medo de envelhecer sozinha. A nossa imagem de amor acaba sempre sendo associada a juventude. A vida inteira pela frente. Mas como é depois que a vida inteira está atrás? É preciso um amor sem tamanho, absoluto, onipresente, para nos preservar da nossa própria condição humana. Amor esse que talvez nossas mães tivessem, caso estivessem vivas quando chegamos nesse ponto. Amor incondicional. Capaz de amar sempre e mais, quando vivemos o lado B da vida. É bonita a vida. É linda. Mas você há de querer chegar ao final dela, esgotá-la assim. Com alguém que te ame assim. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

DIÁLOGOS COM Y

No WhatsApp:

Eu - Sonhei que eu estava casando...

Y - Ahhh! Tem uns sonhos que dão uma sensação tão boa, né!?

Eu - Só que eu estava casando com um cara que eu sei que é gay. Eu não tinha a mínima intimidade com ele. Meu vestido estava inacabado e era horrível. Depois da cerimônia, meu cabelo despencava, e eu ficava sozinha. Não tinha ninguém comigo. Nenhuma amiga. Nem o noivo. Você não ficou lá me ajudando. 

Y - Ai, fudeu!


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O MELHOR MACARRON DO MUNDO


Sabe que eu comecei uma nova fase nesse ano. Virei uma “mulher de Chico”. Quando digo isso espero que você imagine aqueles olhos azuis e a voz aveludada cantando “Folhetim”:

Se acaso me quiseres,
Sou dessas mulheres
Que só dizem "sim!",
Por uma coisa à toa,
Uma noitada boa,
Um cinema, um botequim.”



Daqui algumas linhas você vai desejar muito um desses...

Em síntese, essa nova fase consiste em dizer “sim” para qualquer convite, proposta, sugestão que me façam. É uma tentativa de resgatar minha vida social, já que 2012 foi de silêncio e ostracismo. Então no sábado eu disse “sim” para o convite da Isa de correr no parque, emendar com almoço vegetariano, exposição no White Cube e café para fechar a tarde. Como eu amo cafeterias, eu disse “sim” também para conhecer uma cafeteria nova na Vila Nova Conceição. Não é bem uma cafeteria, mas uma “boulangerie” - ou seja, uma padaria chic. Dos bairros caretas de São Paulo, a Vila Nova Conceição é o que eu tenho mais simpatia. É do lado do parque, cheio de ruazinhas charmosas e muito arborizado. O Marie Madeleine nem fica na rua mais charmosa da Vila Nova Conceição, mas ainda assim a gente esquece que a Santo Amaro fica logo ali do lado assim que entra e encara o balcão de doces. Tão lindos, que eu concordaria em colocar dentro de caixinhas azuis e dar de presente. De cara me senti na Le Fauchon, com aqueles doces que a gente nem sabe por onde começar a morder. Mas não é segredo que eu sou bem conservadora e tradicional, então fui direto nos macarrons. Todo mundo sabe que, da mesma forma que sabemos se alguém cozinha bem pelo arroz com feijão, identificamos uma boa pâtisserie pelo seu macarron. Os sabores já me intrigaram. Nada do quarteto habitual das padarias brasileiras chocolate-café-pistache-morango. Depois de me debater nas opções escolhi três: amêndoas com recheio de nutella, champagne e violeta (sim, a flor). Comecei com o de violeta e... incrível! Casquinha crocante, que se desmanchou perfeitamente assim que coloquei na boca. Foi derretendo, enquanto um aroma de flores inundava meu paladar. Um sonho. Depois o de nutella, que surpreendentemente não era doce em excesso, e repetiu a combinação perfeita de textura. Então o de champagne... É público e notório os meus sentimentos por champagne. Aquele macarron era simplesmente Di-vi-no! Tão suave e delicado, assim como um primeiro gole de Veuve Clicquot no final de uma tarde alaranjada de outono. É. Eu fico poética com comidas. A equipe também é de primeira. Um atendimento tão gentil e atencioso, que a gente se sente habitué depois de 5 minutos. Além dos doces, o croissant, a baguette, até o pão de queijo é divino. Aquele tipo de comida que te faz gemer a cada mordida. Toda essa expertise sensorial não é frescura minha. Depois descobri que os chefs do Madeleine foram treinados pelos ninjas do Lenôtre, e o lugar ainda oferece cursos de culinária, boulângerie e pâtisserie sempre que esses chefs vêem ao Brasil para fazer reciclagem da equipe e atualização do cardápio. Não sei quanto tempo vou continuar nessa fase “mulher de Chico”, só sei que, até agora, as experiências que dizer “sim” têm me proporcionado, vêm surpreendendo meus sentidos. Todos. 


Marie Madeleine
Av. Afonso Bráz, 511 - Vila Nova Conceição
Tel - 2387.0019

http://marie-madeleine.com.br

sábado, 12 de janeiro de 2013

CONSULTA NA DERMATOLOGISTA

Eu - Doutora, eu ando com muita celulite...
Dra. - Hum!
Eu - ... Não que eu não tivesse antes, eu sempre tive celulite. Mas é que está demais. Não era desse jeito. Sabe? Não reconheço mais minhas pernas. 
Dra. - Você engordou, Adriana?
Eu - Então, engordei. 10Kg desde que voltei para o Brasil. 
Dra. - E você está namorando?
Eu - Não. Tirei um ano sabático de homens. 
Dra. - Sei... Adriana, arruma um namorado! Vai fazer sexo, que emagrece e acaba com a celulite. 
Eu - ....

Recomendações médicas, minha gente! Recomendações médicas...

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A SENSAÇÃO LIBERTADORA DE ACEITAR AS COISAS COMO ELAS SÃO


Christina Hendricks - nenhuma Miss Universo.

Eu queria ter o corpo da Gisele Budchen. Não é clichê não. Queria mesmo. Queria também a conta bancária dela, mas eu até que estou feliz com a minha. Também estou feliz com o meu corpo. É o que temos para hoje, fazer o quê!? Acho que todo mundo tem aquele desejo secreto (ou não tão secreto) de espelhar alguma insatisfação em outra pessoa. A gente queria ter o cabelo da atriz, o corpo da atleta, a inteligência da intelectual, o sucesso da celebridade, a grana da milionária. Como se a solução de todos os problemas do mundo estivessem nessas coisinhas. Nos detalhes que achamos imperfeitos. Só porque em algum momento alguém colocou um padrão e estabeleceu o que era ideal e o que não era. A gente começa a sentir necessidade de coisas que nem sabíamos que precisávamos. No final do ano passado eu tava assistindo ao Miss Universo (é público e notório que amo programas trash de TV) e acompanhando pela minha timeline do twitter. Então alguém retweetou um comentário qualquer em inglês: “Não sei porque fazer um concurso de Miss Universo depois de Christina Hendricks”. Eu sorri. Para quem não conhece, Christina Hendricks é a Joan de Mad Men (minha atual série favorita). Ela é uma bombshell, linda, voluptuosa. Uma unanimidade dentro e fora da trama. A única coisa curiosa é que Christina Hendricks é gorda. Dentro dos atuais padrões de “beleza”, ela é o que chamam de “plus size”. Sempre gostei dela. Gosto da sua interpretação bem discreta e do tom de ruivo do cabelo. Então fui pesquisar e descobri que, com 1,71m e 70Kg, embora seja considerada “melhor do que uma Miss Universo”, Christina Hendricks vive se debatendo com a mídia por causa de suas medidas. E sofreu durante o começo de sua carreira por não atender aos padrões de abdomen negativo exibido pelas Misses no concurso. Não é muito engraçado!? As mulheres que estavam se candidatando a serem as mulheres mais bonitas do universo exibem formas tão artificiais e plásticas que geravam comentários de pena e repulsa, enquanto aquela que era endeusada como uma “Miss universo óbvia”, sofre em sua intimidade porque não tem aquelas formas. Continuando a pesquisar descobri que Mariska Hargitay (a detetive Benson de L&O SVU e filha de Jayne Mainsfield) tem 64Kg. Descobri ainda que Marilyn Monroe tinha praticamente minha altura (1m66 - eu 1m68) e sofria com o efeito sanfona exatamente na mesma abrangência de peso em que eu vivo me debatendo (53-64Kg). Agora pensa aqui comigo, se é para se projetar em alguma imagem de atriz ou celebridade, porque eu queria ter o corpo da Gisele Bundchen, se eu tenho o corpo da Marilyn Monroe, a mulher mais bonita e sexy que já existiu!? Jeniffer Lopes pesa 65Kg e tem 1m64. Kate Winslet pesa 63Kg e tem minha altura, também as mesmas medidas de Marilyn. Não é mais fácil aceitar a coisa do jeito que é!? Aceitar que as pessoas são belas e especiais por serem como são!? É tão libertador aceitar as coisas como são e descobrir a beleza disso. Aceitar que seus amigos são daquele jeito, que nosso nível de genialidade é aquele mesmo. Aceitar que a cidade tem trânsito, e as pessoas não seguem muito bem as regras de civilidade. Aceitar que seus pais vão te enlouquecer de vez em quando, e a empregada nem sempre vai lavar a louça direito. Aceitar que tem dias que o texto não sai muito bem, e a gente fuma um cigarro porque deu vontade. Aceitar que nesse mundo nada é perfeito, e é exatamente na “imperfeição” que ele fica maravilhosa, intrigante, interessante, surpreendente. Brigar para colocar as coisas na idealização de uma expectativa de “perfeição” é inútil, é doloroso. Só traz sofrimento. A gente vive decepcionado. Vive reclamando que a cidade é ruim, que as pessoas são mal educadas, que os amigos pisam na bola. Para quê!? Eles são o que são. E também existe beleza nisso. Às vezes a gente precisa parar de perseguir o corpo da Gisele Bundchen, e aceitar que se tem o da Marilyn Monroe. Vamos todos concordar? A realidade é muito melhor!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

NUTELLA NOS OLHOS DOS OUTROS É REFRESCO




Chega aquele dia em que você resolve jogar a toalha. Descer do salto. Abrir mão de todo seu orgulho. E admitir que precisamos de ajuda. No meu caso vou ser muito sincera. Acordei de um transe semana passada. Engatei um ano de reflexões pessoais, com um vício maldito em um jogo estúpido online. Coisa de quem é gordo, infeliz e não tem mais nada para fazer. Verdade que eu não sou infeliz, e tenho muita coisa para fazer, mas viciei no jogo. Então você vai pensar: Ahá! Tá gorda... Não é que eu esteja gorda (afinal, quem me conhece sabe que isso nunca vai acontecer), mas existe comprovação científica das consequências físicas de Nutella combinada a horas bundando jogando besteira no IPad. Depois de exaustivas pesquisas com mulheres entre 18 e 45 anos, das mais diversas classes sociais, que foram submetidas ao hábito da inércia somado ao consumo de Nutella de colherinha concluiu-se: 80% delas culpam a TPM, mesmo não estando em TPM. 10% culparam os próprios sobrinhos. 5% culparam o cachorro. 3% desenvolveram bulimia, e apenas 2% não sentiram nenhuma diferença por se tratarem de mulheres alienígenas com alto metabolismo e que não engordam com cremes de avelã. De qualquer forma o resultado da pesquisa foi contundente: Nutella faz com que suas formas fiquem mais roliças do que o desejado. Sim! Estou roliça. Pessoalmente acredito em uma conspiração malévola da empresa fabricante de Nutella para alterar as formas das minhas nádegas. Tudo bem que não precisava ficar aquela coisa esquálida de quando eu voltei da Guatemala, mas é de conhecimento público que coxas do tamanho das de assistentes de palco dos programas de auditórios só ficam bonitas em filmes de chanchada ou gosto duvidoso (Dúvida: Ainda fazem chanchadas?). Pode ser um baita preconceito meu (e quem não tem nenhunzinho preconceito, que atire a primeira pedra), só sei que a coisa não está legal. Sábado à noite fui parada por um bêbado na rua para elogiar minhas formas, caminhões de feira adoram buzinar quando estou andando na calçada (mesmo que eu esteja vestindo tailleur e com cara de brava), e ontem um morador de rua não sossegou enquanto não amarrou um balão de gás no meu pulso. De presente. Nutella deixa nossas curvas mais populares. Faz a gente cair no gosto do povo. Ganhar assobio na frente da obra, e ouvir na calçada do Trianon um cantado “Ô lá em casa!”. O que me levou a conclusão de que é uma grande injustiça da mídia nacional ao apelidar de frutas as mulheres roliças que tanto fazem nossos homens salivarem. Mulher melancia, mulher maçã, mulher jabuticaba. Meus senhores! Nenhuma dessas mulheres comeu melão ou banana com aveia para alcançar aquelas curvas. Vamos falar a verdade: estou virando a Mulher Nutella. Daquelas mulheres que passam bem longe da Vogue e se encaixam melhor em folhinhas de borracharia. Deus do céu! Como minhas ambições passam longe da exposição do corpinho em cadeia nacional, e eu sempre fui muito mais Audrey Hepburn do que Marilyn Monroe, tá na hora de assumir o problema, parar com a negação e procurar ajuda. Ah, principalmente: Jogar a Nutella fora! Portanto amiguinhos, vale tudo. Convite para corrida de rua. Indicação de nutricionista. Parceria para passeio de bike. Programa de trekking em montanha. Escalada em parede de alpinismo. Mergulho no final de semana. Dupla pra jogo de tênis. Companhia para massagem modeladora. Endereço de spa. Convite para jantar folhas e, principalmente, não me deixar voltar a fumar. Podem até dizer que eu estou bonita e estou bem e que "para-de-besteira-adriana-você-está-ótima, mas no fundo, quem passa o dia inteiro nesse corpo sou eu. E sou eu quem precisa se sentir bem. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

LEITULA DA VIDA


Sr. Hiroji e a desesperadora situação das linhas da minha mão. 

Esses dias hospedei o querido Dudu aqui em casa. O Dudu é uma dessas pessoas super agregadoras, super coração, que eu herdei de um outro amigo que fiz na vida. Eu adoro herdar amigos de amigos. Vira turma, cria história. Então, Dudu passou uma semana em SP e veio acampar aqui no sofá, já que eu não tenho ainda um quarto de hóspedes. Eu adoro ser anfitriã de São Paulo. Amo tanto essa cidade e adoro levar as pessoas para verem o que eu vejo nela. Em uma dessas, lá fomos nós almoçar na Liberdade no meu restaurante japonês favorito. Um trânsito chato de sábado, paramos o carro alguns quarteirões antes e subimos à pé até o Sushi Yassu olhando lojinhas e amando as calçadas. Foi quando eu vi um senhorzinho sentado em uma mesa de metal, na porta de uma galeria, com uma placa escrito “Leitula da vida”. Sim. Assim. Igual ao Cebolinha. Quer coisa mais adorável!? Como é que a gente pode resistir. Tirei R$20 do bolso, sentei na cadeira e estiquei minhas mãos. Houve um tempo em que eu fui mais crente, em que eu precisava acreditar na segurança de que as coisas estavam por vir. Já fui em cartomantes, tarólogas. Fazia até mapa astral todos os anos. Hoje acredito que essas visões são um pouco simplistas perto das possibilidades da vida. Mas ainda vejo com ternura um senhorzinho imigrante, sentado com um caderninho no colo, esticando uma lupa sobre a palma da minha mão. Tenho certeza que ele crê que aquilo pode ajudar as pessoas. E fico feliz de saber que algumas pessoas encontrem naquilo algum alento. Sr. Hiroji esticou minhas mãos e logo de cara me perguntou: “Você namorado com 34 anos?”. Respondi que sim. Que eu estava namorando quando tinha 34 anos. “Agora, não mais namorado.” Respondi novamente que sim. “Aquele namorado era casamento. Você não casou. Pedeu.” Cuma!??? “Perdeu. Cabô.” Que velhinho sacana! Como assim? Perdeu playboy? É isso? “Agora não casar mais.” Hein!? “Você, boca muito grande. Falar muito.” Quem te contou!? “Falar muito. Homem procurar mulher mais carinhosa.” Tá de sacanagem! “Você, fechar boca.”  E só para encerrar a “leitula”, ainda repetiu: “Cabô. Perdeu.” Pois é! Não se fazem mais videntes como antigamente. Foi-se o tempo em que todos viam que eu seria famosa, casar com uma cara rico e viajar para o exterior. Hoje a coisa é mais PCC: Perdeu, playboy! Claro, que rimos muito disso. Ainda mais porque em seguida o velhinho disse que eu teria 3 filhos. Mas, tirando a brincadeira toda, fiquei pensando muito nessas fórmulas e ideais todos. É como o médico da academia que me sugeriu congelar os óvulos (vide Um, dois, três indiozinhos...). Nessa carência gigante que nos faz buscar respostas nas linhas das mãos ou em cartas jogadas sobre panos indianos. Como se houvesse uma fórmula para ser feliz. Como se o segredo fosse esse mesmo. “Mulher fala muito. Falei pouco e encontrará o amor.” Então eu vejo hordas de meninas desesperadas, se espremendo em ideais que se auto-impõe, simplesmente porque querem ser aceitas. Vão minguando por dentro, assassinando o que possuem de mais lindo e precioso, para se sentirem dignas das projeções inventadas de futuro. Como é que pode haver felicidade se você mata o que faz de você, você? Como é que pode haver amor, se o que te move são os padrões de uma sociedade que você nem sabe se correspondem às suas vontades? Eu sou uma romântica. Sou mesmo, incorrigível. Eu acredito naquele amor absoluto. Poderoso. Naquele amor que abala estruturas e faz o ar faltar. Acredito no amor que faz com que duas pessoas façam sentido na vida. No amor “não-sei-como-vivia-sem-você-antes”. E exatamente por acreditar nisso que não acredito na “sorte” das previsões. Geralmente, as pessoas que conheço e seguem previsões de cartomantes, são mulheres tão inseguras e desesperadas que são capazes de fazer qualquer coisa para se enquadrarem àquela expectativa de felicidade. Inclusive serem infelizes. Se prendem em relacionamentos fracassados. Pior. Geralmente são mulheres que se sentem tão indignas de um grande amor que tratam o parceiro como se ele lhes estivesse fazendo um favor. Tornam-se submissas, ignoram suas vontades. Vivem uma imagem de felicidade fina, tal qual casca de ovo. Acabam solitárias, em seus ideias de vida perfeita. Eu sei que eu sou uma pessoa intensa. O velhinho tem razão, eu falo muito. Geralmente ofusco. Sou para iniciados. Mas se eu for acreditar que isso faz de mim um fracasso... Se eu for acreditar que minha autenticidade destruiu as únicas possibilidades de amor, isso seria negar o próprio amor. Porque eu acredito que a melhor coisa que se pode oferecer a outro é nós mesmos. Inteiros. Sem edição. E se alguém se “assusta”, é porque não era para ser. Não era seu amor. Não era sua alma gêmea. Na verdade, editar-se para outro é desonesto. Você o priva de te ter por completo. Portanto, com toda ternura que o Sr. Hiroji me despertou - e tenho certeza, ele só queria meu bem - não acredito que acabou, que todas minhas possibilidades de amor se foram. Não posso ser menos, nem mais do que sou. E, se o próximo moço não aguentar... Perdeu. Cabô. ;-)

domingo, 30 de setembro de 2012

NÃO SEI SE ADOTO, OU SE COMPRO UM NAMORADO


Vamos falar a verdade. Não é clichê não. Dez entre dez solteiros que moram sozinhos têm em seu maior pesadelo morrer sozinho e ser encontrado dias depois semi-comido pelos cachorros. Ninguém está falando da lógica racional de que eu nem cachorro tenho. E caso algo assim aconteça eu espero que a Holly não coma metade do meu rosto e confio fielmente na Jô em chamar ajuda quando chegar para trabalhar na segunda de manhã. A única diferença é a espécie animal e o tempo que vão demorar para encontrar o corpo. O medo continua o mesmo. No geral eu gosto da solidão. Busquei isso na minha vida. Gosto do silêncio, da rotina. De fazer as coisas que eu gosto sem negociar. Sem depender de ninguém. Mas existem os momentos que a gente sente falta de ter alguém por perto. Na hora da pizza sábado à noite. No frio embaixo do edredon. Naquele dia que foi estressante e dá vontade de abrir uma cerveja e conversar com alguém. Verdade que existem amigos para isso. Os meus faz tempo que não estão disponíveis. Ainda assim, amigo tem uma obrigação mais social. Inclui um programa, um compromisso. Telefonemas e combinações. Por mais íntimos que sejam, não correspondem à necessidade que a gente sente às vezes de estar junto. Tô falando daquela coisa família. Daquela companhia incondicional, que está ali porque vive ali. E da qual fazemos tanto parte da vida, quanto eles das nossas. Hoje cedo tinha planejado um domingão bem solitário. Tava um dia lindo de Sol, eu ia fazer um café gostoso em casa, ler o jornal e ouvir Rachmaninov. Depois pegar a bike e pedalar até o Ibirapuera. Adoro assistir às pessoas no Ibirapuera. Tomar água de côco. Voltar para casa, escrever. À tarde eu ia ao retiro no Centro Kadampa e, dependendo do pique no final do dia, assistir Cosmópolis porque todo mundo andou falando desse filme. Só que logo no “café da manhã gostoso”, fiz uma tapioca, capuccino na Nespresso, esquentei um ovo e... não é que ele explodiu no meu rosto. Quente. Fervendo. Bem na hora que eu colocava a cara em cima dele, pronta para jogar sal e comer. Foi uma explosão e tanto. Holly desapareceu de susto embaixo do sofá pelo resto do dia. Eu olhava em volta, a cozinha coberta de casca e ovo por todos os lado, e meu olho doía muito. Pensei: “Ceguei”. À lá Saramago. Mas não. Dramática. Corri para lavar o rosto e quando olhei no espelho lá estava, meu olho esquerdo todo queimado e vermelho. Então foi nessa hora, nesse momento, que eu me dei conta: Preciso arrumar um namorado! Porque essa é a típica situação em que você precisa correr para um hospital. Você vai largar a cozinha coberta de ovo, trocar de roupa apenas e correr para um pronto socorro (ou para a fila de transplante de córneas). Hoje de manhã senti muita falta de ter alguém que segure a minha mão. Que me diga que eu não vou precisar usar um tapa-olho, e nem vou precisar de cirurgia plástica. E que também eu não vou ficar com o rosto manchado para o resto da vida. É lógico que eu sei que nada disso iria acontecer. A dor era suportável e eu conseguia enxergar meu rosto no espelho, mas não existe nada mais solitário do que dar entrada no pronto socorro em um domingo de manhã. Começa assim, você vai para o pronto socorro sozinha, e quando menos se dá conta não tem ninguém no seu enterro e a única pessoa que chora é a carpideira do plano da funerária. A situação é preocupante, minha gente. Não é tanto pelos momentos que a gente vive, mas a solidão que existe no momento em que se morre. Ninguém deveria morrer sozinho.  Não deveria, mas a gente sabe que vai. No meu caso, como não estava morrendo nem com cachorros devorando meu corpo, resolvi ligar para o K porque ele sempre me salva. Acabei com o domingo dele. Dirigiu até o hospital, me disse que eu não ia precisar de um tapa-olho e nem ficar com o rosto deformado. Depois de eu ganhar uma pomada e um encaminhamento para um oftalmologista, voltamos para casa. K, que tem mais fobia de relacionamentos do que eu, me confessou que não gostaria de morar sozinho. Se não fosse a mãe moraria com um amigo, mas não moraria sozinho. Falei que tenho sentido vontade de adotar uma criança. Ou de arrumar um namorado (embora em alguns casos isso seja praticamente a mesma coisa). K me disse que achava mais fácil adotar uma criança do que morar com alguém. Não sei. Cada um sabe onde o sapato aperta. Talvez eu esteja amadurecendo. Deixando de lado um pouco essa ideia de autonomia absoluta. Talvez eu resolva baixar a guarda, assumir que eu preciso das pessoas. Deixar me envolver em um relacionamento outra vez. Ou eu sempre posso transformar a gata em vegetariana e ensiná-la a discar 190 para pedir ajuda. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012




Corridinha depois de meses sem participar de uma. Na minha camiseta estava escrito “Eu corro por mais AMOR”. Haviam camisetas com Solidariedade, Amizade, Paz, Igualdade, Respeito. O minha caiu justamente a “mais AMOR”. O amor me persegue. Acho bom, porque eu também persigo ele. Então eu larguei, percurso de 7K delícia, saindo do Parque das Bicicletas até o Shopping Eldorado. Eu ainda mal ganhando a República do Líbano, no primeiro kilometro e... TIBUM! Sem água. Pisei em falso em um desses olhos de gato da rua e me estabaquei no chão de asfalto. Senti a palma da mão ralada. Uma dor excruciante no tornozelo esquerdo. Parei, tirei o tênis. O pessoal do apoio chegou de bicicleta. Passei gelol, alonguei. Acho que dá para continuar. Se inchar eu paro. Continuei. Me senti guerreira. O corpo já estava quente, então foi fácil não sentir muita dor. Manquei em alguns trechos, andei em outros. No último kilometro a coisa pesou. O andar leve claudicante deu lugar para uma dessas cenas que a gente vê em final de maratona nas Olimpíadas. Cruzei a linha de chegada arrastando a perna, fazendo caretas e imaginando “Carruagens de Fogo” na minha cabeça. Tantan tantanrantãããã! Me sentindo o próprio exemplo da força e da perseverança do esporte. A própria Gabriela Andersen-Schiess. Preparando meu discurso para o Fantástcio. Mas ninguém me deu bola. Sai da linha de chegada e fui direto para o posto médico. Ganhei um saquinho de gelo e um aviso de castigo. Conforme o tornozelo esfriava, as lágrimas desciam pelo meu rosto. Dói, mas não inchou. Cheguei em casa, fiz mais gelo. Enfaixei, tomei antiinflamatório. A dor passou. Pensei que estava tudo bem. Pensei que dava para ver o timão jogar tomando cerveja no Filial, e ir para o aniversário de 10 anos do Bar da Dida, e falar um monte, dar risada, andar para lá e para cá. Até fiz sala para o ex-namorado que resolveu passar férias no Brasil (isso porque estamos os dois muito bem resolvidos, obrigada!). Então, ontem de manhã, o tornozelo parecia uma bola de baseball. Ou melhor, de tênis. Não tenho nenhuma familiaridade com bolas de baseball. Cancelei compromissos, botei o pé para cima. Assustei. Não é que eu sinta dor mais, só que os movimentos estão limitados e parece que sempre vou puxar de mais alguma coisa. Suspeitei que não poderia fazer ballet essa semana. Suspeitei que não poderia correr. Fui hoje ao médico. Ganhei elogio pela corrida. Ganhei puxão de orelha por não ter parado e por não ter ficado quietinha. Tiramos uma “chapa”. Boas notícias. Lesão nível 1. O médico vira e diz: “quatro semanas de repouso”. Respiro fundo, puxo a bombinha de asma, e respondo:


- Ok, doutor. Só quero te pedir umas coisinhas: Vamos diminuir esse tempo aí. Eu nunca quebrei um osso na vida, meu corpo se recupera logo.
- Você é o que chamamos de péssima cliente! Hummm... Ok. Duas semanas. Mas em repouso.
- Repouso é o quê?
- Nada de ficar correndo 7K por aí. Tornozeleira de neoprene durante o dia. Pode tirar para dormir.
- Ok. Outra coisa. Um atestado para eu levar na academia.
- Certo.
- E, por fim. Posso fazer bicicleta?
- Na academia?
- Do prédio, em casa. Não tem atrito, não força a articulação.
- Hummm.... Ok, um pouco. E vou liberar membros superiores.
- Yes!
- Estou até me sentindo mal. Você tão atleta e eu sou totalmente sedentário. 


Amém! Alguém reconhecendo meu esforço. Para alguma coisa havia de servir cruzar parecendo o Smeagol a linha de chegada.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

FUCKING SPECIAL

Hoje a música Creep do Radiohead faz 20 anos. Uau! 20 anos. É um pouco assustador pensar que eu já me conhecia por gente e já era neurastênica 20 anos atrás. Eu tenho uma relação de muita completude com essa música. Pensa só: eu tinha 16 anos. Gostava de um garoto que não me dava bola. Sonhava em escrever cinema. Detestava meu cabelo. Usava camisas de flanela xadrez bem grandonas que cobriam meu corpo até legalzinho, de quem jogava handbol e praticava natação. E tudo o que eu queria era me sentir especial. Daí vem esse cara, cantando com vozinha rouca no microfone, que também gostaria de se sentir espeical, mas que ele é um estranho, um esquisito e que não se sente parte daqui. Bum! Tudo fez sentido. Eu não era a única. Até hoje quando ouço essa música parece que alguém escreveu lendo bem pertinho o que falava meu coração. É verdade também que se sentir estranho e esquisito era uma epidemia quando eu tinha 16 anos, (e definiu todo o movimento grunge, do qual tenho muito orgulho de ser filha e testemunha). Ok, eu sei que todo adolescente se sente estranho e esquisito, é o imperativo. Só que Creep foi escrita uma única vez e somente há 20 anos atrás. Desde então não vi outras coisas calando fundo como essa música. Estou bem longe de ser crítica musical, então não é o caso de dissertar sobre a qualidade musical ou técnica do Radiohead. Só sei que, ainda hoje, quando ouço essa música, minha alma assenta. 20 anos depois eu ainda sinto que não faço parte, e começo a desconfiar de que todos meus contemporâneos acabaram encontrando um caminho para "a perfect body, a perfect soul". Pior, começo a desconfiar de que, talvez, eu nunca vá ouvir essa música como uma balada apenas. Ela vai sempre me descrever... Ainda bem!

Aqui vai uma seleção minha das diferentes vezes que essa música espremeu meu coração.

O clipe oficial com o Thom Yorke merecendo um colo.





Essa é a fofa cena de "And they lived happily ever after" com Johnny Depp e Charlotte Gainsbourg, (os creepies mais descolados do cinema).




Uma animação linda feita com a versão acústica da música.




Maravilhosa em coro, com os suécos do Vega Choir. (Está na trilha sonora de "The Social Network").




E essa é minha favorita: o mendigo Mustard, que ficou famoso cantando Creep nas ruas do Village. (Irônico, não!?) Gosto de pensar que, tanto eu (uma pseudo-perua paulistana) quanto ele podemos nos sentir da mesma forma com uma música. :-)




terça-feira, 28 de agosto de 2012

Birth...

Falei que não ia mais reclamar da vida, então não vou falar sobre o meu aniversário.
A única coisa que importa é que agora eu tenho 36 anos. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

PRECISO muito disso!



1001 maneiras diferentes de cozinhar melanzane


Acho que viajei mais nesses últimos 3 anos do que na minha vida inteira. É legal sim. É um puta privilégio. Um pouco cansativo também. Na minha última viagem eu ficava me perguntando como consegui ficar aquele tempo todo na mochila em 2010. Sem dúvida que os amigos que me abrigaram por jornadas mais longas no meio do caminho foram essenciais. Por mais maravilhoso que seja viajar, se você não tiver a mínima referência de casa, vai enlouquecer. De verdade. Trombei com vários que estavam bem fora da casinha. Cruzaram a linha. Ficaram tanto tempo fora que talvez nunca mais sejam capazes de voltar. Eles possuem uma certa ânsia nos olhos, e ficavam largados pelos hosteis. Estavam 2-3 anos fora de casa. Já não sabem mais nem definir suas nacionalidades. É muito sedutora a vida na mochila. Ela te chama, te clama. Você quer muito ir, mas depois de um tempo dá medo de não voltar. Eu sempre fico maquinando maneiras de descobrir o meio termo. Sempre disse que quero criar meus filhos na mochila, trocando fralda em aeroporto. Já não tenho mais essa ilusão. Pela simples razão de que não acredito mais ser possível encontrar alguém com o mesmo pique. Alguém que goste da mochila, sem ter dreads e ser hippie; ou que ame a cidade e todas as frescuras que eu gosto nela, sem ser um coxinha empertigado. De qualquer forma, não vem ao caso. Tirei umas férias esse mês e, embora em um primeiro momento meu impulso tenha sido de narrar a viagem como sempre faço por aqui, dessa vez senti que precisava de fato ficar em silêncio. Tenho sentido a vida me fechando tantas portas, e eu precisava ficar quietinha para poder ouvir onde as outras estavam se abrindo. Foi ótimo. Achei foco. Achei o que eu queria no meio da balburdia que eu sou. Voltei com o olho na bola. Decidida também a cortar o cabelo e fazer uma tatuagem. É. Viajar pode ser perigoso também. Dessa vez dei uma passada em Portugal, só para ver pessoas que eu amo e que não posso ver todo dia porque o mundo é muito grande e coloca pedaços da minha alma espalhados entre oceanos. Talvez por isso eu sinto que preciso sempre partir. Depois eu e a Keka embarcamos para a Itália. Primeiro porque ela não conhecia. Segundo porque em Roma foi um dos lugares onde eu fui mais feliz. E é sempre legal voltar para lugares onde se é feliz. O mais gostoso é descobrir que aquele lugar te desperta ainda mais amor do que você tinha pensado. De uma forma que eu só conseguia suspirar pontualmente ao longo do dia “Eu amo Roma!”. Sim, e Roma é amor ao contrário. Ela estava lá, do jeitinho que eu lembrava. Com o metrô caótico, as ruas cheias de turistas. O calor escaldante, os nasonos jorrando água. Os melhores gelatos do mundo. Depois descemos para Nápolis, que foi bem decepcionante. Feia, suja, perigosa. Totalmente dispensável. E de lá, Erna nos encontrou e embarcamos em um Panda pela Costianera Amalfitana até Réggio di Calábria. Foi lindo. Foi como viver em um filme. Aquela costa deslumbrante, de mar azul e seixos quentes. A água salgada e transparente. Os dias intermináveis à 40o e spritz ao final da tarde com aperitivos. Vilas medievais. Vielas que nos imploravam por fotos. Na Calábria encontramos Schilla. Uma vilazinha de pescadores que foi paixão imediata das três. Víamos o Sol se pondo quase na Sicília, e jantamos sobre pallets com uma lua cheia gigante refletida na água. O melhor de ter feito tudo isso, foi ter feito sem a neurose de mandar emails, trabalhar, verificar mídias sociais, falar em skype. Sem nenhuma interferência que me tirasse da viagem. Apesar de ter viajado tanto ultimamente sempre estou com interferências me deixando incompleta na viagem. Isso devo muito à Itália. O italiano vive o momento. Ele é muito inteiro no que ele faz. Se ama, ama. Se chora, chora. Se está vivendo aquele momento, ele vive o momento por inteiro. Acho que a vida cosmopolita nos impele a ser multitarefados demais. Não basta tirar férias, é preciso atualizar status de FB, twittar a previsão do tempo, mandar email pro povo do escritório. Eu resolvi assumir o italian way of life e quando chegamos em Schilla eu já tinha certeza de que, embora eu seja feliz na minha vida e goste das coisas que eu faço, eu não estava vivendo a vida que amo. Porque existe uma diferença entre gostar e amar. Sim, eu gosto do meu trabalho. Não, não é a coisa que mais amo. Acho que se não tivesse feito essa descoberta tão óbvia até Schilla, não teria tido uma experiência tão formidável na Sicília que estava para vir. Erna se despediu em Catânia. Eu e Keka continuamos na Sicília, seguimos para as Ilhas Eólicas e depois encontramos Fran em Palermo para seguir para Trapani e as Ilhas Égadi. Talvez seja a baixa expectativa, já que eu esperava da Sicília uma paisagem desgastada e maltratada. Talvez seja porque aquelas ilhas são mágicas mesmo. Mas eu me rendi, me bronzeei. Descobri mil maneiras diferentes de comer melanzane (a nossa berijela). Me fartei em comidas, cheiros, vinhos. Tudo encharcado de azeite (e que azeite!), de molho de tomate tão fresco e tão doce. Tardes engolindo azeitonas. Longas caminhadas, mergulhos entre água-vivas. Desencanei do peso, das manchas na pele. Das roupas sujas de tanto tempo de mochila. Tem algo dentro de mim que é italiano. Tem algo que mora ali, naquele mar mediterrâneo. Voltei mais cedo. Quando se resolve o que quer da vida, não temos muito mais vontade de enrolar. Naquele mar resolvi o conflito do meu livro, reconquistei minha vontade de me apaixonar. Resolvi também a trama para mais dois livros e inspiração para um outro. Assim, em algumas semana, quatro livros. Quatro tatuagens. Eu nunca comprava berinjela em casa. Nunca sabia o que fazer com ela. Essa semana fui à quitanda. Na geladeira tem dois tipos diferentes de berinjela. Manjericão, limão siciliano, abobrinha, cogumelos. Só o tomate que não deu certo. Tava feio e tão caro! Eu, particularmente, gosto da vida com sabores frescos. Muitas vezes é só descobrir o que fazer com os ingredientes. 

(PS.: eu ainda vou voltar para a Sicília, aprender a cozinhar e escrever um livro com esse nome: “1001 maneiras diferentes de cozinhar melanzane”)

sábado, 4 de agosto de 2012

Eu estou fazendo brainstorm aqui com a Keka, tentando descobrir que filme nacional termina com uma cena de duas pessoas se encontrando em uma rodoviária, em um aeroporto, ou em uma junção de caminhos...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Dolce far niente


Embora eu viaje mais do que o Lula na época do governo, estou no meio das minhas férias oficiais. Minha ânsia por conhecer o mundo antes de morrer queria carimbar o passaporte com outros países inéditos no álbum de figurinha, mas daí entre conversas com a Keka, planos de visitar a Carol no Porto, acabei pegando as milhagens guardadas e investindo tudo em uma volta ao Velho Mundo. Passei uma semana em Portugal revendo amigos e embarquei de volta a Roma, um dos lugares onde fui mais feliz durante meu ano sabático. Existe uma coisa curiosa quando você revisita um lugar que lhe é importante. Nos damos conta do tempo, da jornada. De tudo o que eu buscava quando estive na Itália pela primeira vez. A Itália foi um lugar em que eu amei. Amei em toda complexidade do verbo. Amei lugares, amei prazeres, amei amigas, amei um garoto. Mas uma das coisas que eu havia esquecido, é que foi na Itália que eu mais me amei. Foi um pouco chocante voltar e descobrir em mim como tem escapado tudo o que eu fui em busca e conquistei. Como eu deixei a vida me engolir novamente e me perdendo de mim mesma. Verdade que encontrei muitas outras coisas. Algumas de forma dolorida, outras alentadoras. Eu engordei. Perdi tantos amigos. Mas voltei ao vegetarianismo com uma propriedade enorme, e encontrei o budismo. Virei mãe de uma gata. E descobri que posso ser boa profissionalmente em tantas coisas. Fui capaz de reconstruir uma rotina e montar uma vida. Só que não é exatamente a vida que eu queria. Não estou reclamando. Tenho uma vida muito boa. Mas será que depois de ter ido tão longe, abdicado de tanta coisa, era essa a vida que eu buscava. Eu tive a sorte de ganhar um bilhete em branco, para ser o que eu quisesse. E é isso que eu estou fazendo com ele? Porque é tão fácil se perder de nós mesmos? Sempre achei que o mais difícil era largar tudo e pular. Porque então eu insisto em voltar para o mesmo lugar? Eu penso se talvez nossas frustrações pessoais não venham exatamente do medo de se reinventar de verdade. E se não agora, quando? Se existe um lugar no mundo onde eu me sinto inteira é na Itália. Talvez porque ela vá sempre permanecer. Talvez porque entre a bagunça e o barulhos dessas cidades, as pessoas vivem. Eles falam, gritam, brigam, comem. Mas de todas as pessoas no mundo, os italianos são os únicos que estão inteiros no momento. É o “dolce far niente”. A capacidade de aproveitar o momento com calma, de absorver a vida com tudo o que ela tem. Mesmo carregando o peso de toda a história da civilização ocidental, as coisas são no momento. Nunca deixaram de ser. Por isso a Itália vai permanecer. Mesmo com a crise, mesmo que o Euro quebre semana que vem. A Itália é um país eterno. E se você não é capaz de ser inteira aqui, não será em nenhum lugar. Nós descemos de Nápoles pela Costa Amalfitana, comemos kilos de pizzas, risotos e pasta. Tomamos vinhos, graniti di limone, gelato todos os dias. Como se cada dia fosse o único que nos sobrasse. No budismo acredita-se que você deve meditar sobre a morte. Sobre a possiblidade da morte. Somente sentindo verdadeiramente que a morte pode acontecer a qualquer momento, daremos o valor e a importância que o dia de hoje tem. A vida é uma benção. Não é glamurosa, nem extraordinária. Não vem repleta de aventuras mirabolantes como filme hollywoodiano. Mas é uma benção e acontece em um só momento: agora. Por isso é pouco passar os dias sendo quem você não quer ser. E se não agora, quando?

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


Ando precisada de esvaziar-me. Passei o último ano procurando sentido para justificar minha vida e acabei perdendo tudo aquilo que fui em busca. Só agora, à distância, começo a enxergar que não tenho nada que me segure. Nada na minha vida. Embora eu tenha passado os últimos meses sentindo como se isso fosse uma perda enorme, começo a entender que é uma grande liberdade. Busquei tanto me encontrar e quando voltei me perdi na ideia do que eu pensava possuir. De São Paulo só sobra o amor que sinto pela cidade. A família, que sempre será minha não importa onde eu vá ou o que eu faça. As portas estão se fechando. Tenho apenas uma última missão para terminar. Depois, vou cortar o cabelo, comprar uma passagem e nunca mais voltar. Esse é o plano.

Ando precisada de esvaziar-me. Passei o último ano procurando sentido para justificar minha vida e acabei perdendo tudo aquilo que fui em busca. Só agora, à distância, começo a enxergar que não tenho nada que me segure. Nada na minha vida. Embora eu tenha passado os últimos meses sentindo como se isso fosse uma perda enorme, começo a entender que é uma grande liberdade. Busquei tanto me encontrar e quando voltei me perdi na ideia do que eu pensava possuir. De São Paulo só sobra o amor que sinto pela cidade. A família, que sempre será minha não importa onde eu vá ou o que eu faça. As portas estão se fechando. Tenho apenas uma última missão para terminar. Depois, vou cortar o cabelo, comprar uma passagem e nunca mais voltar. Esse é o plano.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

BACK FROM PARATY


O último dia de Flip foi mais reflexivo. Eu troquei a mesa do Suketu Mehta para ir à coletiva do Ian McEwan. Depois me arrependi. Não porque pela coletiva, que foi incrível. Mas por não poder estar em dois lugares ao mesmo tempo. E a mesa do Ian estava LO-TA-DA! Super concorrida, tava até calor lá dentro. Junto dele estava Jennifer Egan, uma das poucas mulheres de uma versão cheia de cromossomos Y da FLIP. Acho que foi a melhor mesa de todas. Os dois muito abertos, muito simples, e muito generosos com a plateia. Sem ficar regulando. Deram o que puderam no pouco mais de uma hora. É bom para refletir. E foi exatamente o que eu resolvi fazer. Resolvi sumir por um dia e refletir sobre o que eu quero, minha falta de foco e a habilidade de conseguir isso. Fiquei algum tempo andando pela cidade, que estava cheia, barulhenta e insuportável. Impossível tirar fotos, flanar, simplesmente parar em uma esquina e assistir a vida, porque logo alguém tropeçava no seu pé, ou dava um trombão no seu ombro. A contemplação não é muito amiga de pequenas cidades históricas super povoadas e ruas irregulares de pedras. Então resolvi experimentar o restaurante thailandês que eu tinha passado em frente em uma das andanças (e tinha um garçom tatuado gatinho). Como tudo na cidade estava caótico, cheio e insuportável, eu fiquei meio esquecida em um canto, em uma mesa sozinha, e tive o tempo de silêncio e contemplação que eu estava precisando. Li metade de um livro. Fiquei pensando nas escolhas e no comportamento que as pessoas acabam seguindo na vida. Quanto das nossas escolhas são nossas mesmo, ou são projeções do que consideramos ser o ideal para nós? Parei um minuto e percebi que 90% do meu dia é dedicado a coisas que não escolhi fazer. São coisas que fui fazendo e acabaram tomando conta da minha vida. Por isso tanto sofrimento para terminar meu livro. O coitado do livro não tem culpa. Fiz uma longa refeição pensando em algumas coisas que preciso decidir definitivamente. A caipirinha ajudou, confesso. Então voltei para a tenda para pegar a mesa com Zoé Valdés e Dany Laferrière. Eu queria muito ouvir a Zoé, porque adoro os cubanos e adoro qualquer livro que fale sobre a bizarra vida que resultou após o embargo. Acho mesmo que o mundo um dia vá virar uma grande Cuba. Mas isso é só minha opinião. O Dany Laferrière eu só tinha visto o livro na livraria (e largado na estante), mas não tinha ouvido falar nada dele. Achei que seria interessante um painel com dois exilados de países latinos, mas detestei o haitiano. Egocêntrico, narcisista, machista. Típico homem que foi criado rodeado por mulheres, e acha que elas devem alguma coisa a ele. Ok, que ele fez algumas observações interessantes (e todo mundo sabe que narcisistas podem ser até que bem charmosos quando querem), mas não existe milagre nesse mundo que me fizesse ler um livro desse cara. O problema do mundo é exatamente esse. Tendemos a perdoar um homem por qualquer canalhice desde que ele escreva/ toque/ componha/ atue ou faça qualquer coisa considerada descolada bem. E isso me leva a uma nova reflexão de vida. São mais de 3 décadas convivendo com narcisistas (não admira eu ter me tornado uma!). Chega né!? Na verdade no final do domingo eu tinha a sensação de ter tido muito. Muita informação, muita reflexão, muitas decisões, e definitivamente, muitas topadas nas pedras de Paraty. Tudo o que eu queria era sair logo de lá e fazer coisas práticas. Por mais que se discuta, que se fale, pense, especule, na prática o que precisa ser feito é sentar a bunda na cadeira e escrever. Ação. A vida é verbo. Eu ainda tenho uma viagem agendada logo mais. Vai ser minha despedida temporária. Chega de rua, chega de cursos, chega de viagens, expedições malucas. Quando 90% do tempo você está fazendo coisas por fazer, falta verbo. Falta ação.

sábado, 7 de julho de 2012

DIÁRIO DA FLIP - LOUCOS EM PARATY



Só hoje, sábado, é que consegui assentar e organizar um pouco mais o tempo. Os outros dias foram uma loucura de informações, e correria. Muita coisa para assimilar e a sensação constante de não estar realmente inteira em nada do que estava fazendo. A internet falha, os restaurantes lotados. O sono desgraçado que me atacava no meio da tarde. Hoje me sinto mais serena pela primeira vez. Ontem foi maratona. Trabalho, fotos pela rua, mesas interessantes. Teve Shakespeare ao meio-dia, disputadíssima. Depois Teju Cole e a única mulher que vi até agora, Paloma Vidal. Uma mesa que acabou prejudicada pela arrogância e falta de tato do mediador João Paulo Cuenca. Unanimidade nos comentários pós-mesa: “Pior do que o Jô entrevistando.” De onde eu venho isso não é elogio. À noite uma das grandes atrações que eu aguardava ansiosa. Jonathan Franzen em bate-papo com Angél Gurría-Quintana. No surto psicótico que eu tive na Livraria da Vila na quinta peguei os livros do Franzen umas 3 vezes na mão, mas devolvi sem a mínima vontade de ler. Imaginei um cara lento, prolixo e chato. Fui totalmente surpreendida com a conversa dele. Primeiro que o cara já entrou no palco correndo, meio como participante de programa de auditório. Fiquei imaginando que ele acenaria para a plateia e protagonizaria provas à lá Domingão do Faustão. Bizarro. Aliás, bizarro é a melhor definição para o cara. Um ser excêntrico que alternava períodos de silêncio viajandão, com um humor e auto-crítica, e discurso de raiva contra republicanos e o governo Bush. De longe a mesa mais interessante até agora pela peculiaridade e sair totalmente do lugar comum. Sim, o cara é louco. Totalmente lelé da cuca. Dizem pelas esquinas de Paraty que ele pediu para se hospedar sozinho em Ubatuba, longe do burburinho, e que é observador de pássaros e tem feito expedições no meio do mato. Eu posso bem imaginar o cara andando e falando sozinho pelo quarto, chacoalhando os punhos pelo ar e bradando frases de ordem revolucionária. “Die Bush, die!”. Fiquei apaixonada. Se existe algo que faz um escritor interessante é a completa falta de tédio de sua personalidade. Hoje, todavia, é o meu dia mais aguardado. Daqui a pouco tem a mesa com Ian McEwan e Jennifer Egan. Disputada à foice. Eu aproveitei os privilégios da minha credencial de imprensa hoje cedo e fui à coletiva de imprensa. Eu até tento ser blasè, mas eis uma coisa que não combina com meu sangue latino. Quando vi a cabecinha branca e inglesa do Ian, quase dei gritinhos. Me encostei na parede e assisti àquele senhor que escreve livros tão lindos e tão tristes falar com uma lucidez fenomenal sobre sua literatura, seus livros, e a maneira prática e límpida que encara o ofício. Por mais interessante que seja a loucura, definitivamente a solidez e a concretude da lucidez é furiosa. Tão oposto ao outro maluco americano. Muito curioso presenciar os dois em seguida. Dois extremos de um mesmo ofício. Ao mesmo tempo dois países que já experimentaram dias melhores. Não consegui evitar associar a tranquilidade e elegância de Ian com a sabedoria de um país que já foi um império e hoje sobrevive exatamente em saber enxergar os sinais dos tempos e se posicionar diplomaticamente no mundo. Enquanto o outro ainda carrega a angústia e a negação do que não considera ideal, brada revoltas, se debate, infla o ego acima da realidade prática cotidiana. Ainda que genial. Definitivamente, os EUA estão fora da casinha. Não sei se é preciso envelhecer, ou amadurecer. Acabei ficando com a sensação de que posso até ler Franzen, voltar à livraria e comprar seu livro. Mas McEwan é aquele que se perpetua, aquele que vamos ler todos os lançamentos, e continuar lendo depois de anos. Diplomaticamente.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

DIÁRIO DE PARATY - WOODSTOCK


Ontem o Edu me falou: “Daqui a pouco você vai perceber que isso aqui é o Woodstock da Terceira Idade”. Eu entendi o que ele quis dizer. A Flip é badalada. A cidade está apinhada, restaurantes lotados, gente para todos os lados. A expectativa é chegar em 25 mil visitantes no sábado. Vai ser legal manter barrinhas de cereal na bolsa, porque vai estar impossível sentar em algum restaurante. Mas porque uma pessoa viria à Flip se não é apaixonada por livros? Em síntese o que acontece o dia inteiro é que um monte de escritores sentam com outros escritores e respondem perguntas de mais escritores, sobre os seus livros, ou como escreveram seus livros, ou porque escreveram seus livros, ou como gostam de escrever seus livros, e que livros liam quando escreveram seus livros. Como a maioria das pessoas que eu conheço dizem que gostam de ler livros, mas gostam mesmo é do efeito decorativo que o livro dá à mesinha de cabeceira do quarto, dá para entender que neguinho para se enfiar cinco dias chutando pedrinha nas ruas de Paraty, só mesmo sendo apaixonado por literatura. E nisso a terceira idade sai ganhando. É um festival de cabecinhas brancas. Velhinhos e velhinhas em caravana, grupos de amigas fofocando nos cafés. Eu fico eufórica de saber que, enfim, minha vida social pode ter algum tipo de salvação. Mesmo que minha turma não tenha exatamente a mesma faixa etária. Hoje cedo fui para a sala de imprensa logo depois do café da manhã. A internet virou artigo de luxo e estava todo mundo reclamando. Ficava um tempão fora do ar, e quando voltava todo mundo corria para postar, mandar emails, fazer upload de fotos; o que durava 5 minutinhos, até aparecer a página de erro no seu browser novamente. Então eu pegava um café, puxava papo com os jornalistas do meu lado, e esperava a próxima onda de conexão. O 3G também é lenda urbana. Vi gente dizendo que postou foto no Instagram, mas só acredito vendo. O meu é totalmente inexistente. Depois peguei a coletiva de imprensa do Enrique Vila-Matas. Ok, eu não vou bancar a jornalista investigativa, mesmo porque eu não engano ninguém, e eu não tenho pauta nenhuma para escrever. Então o que eu fiz foi ficar quietinha na mesa, gravar tudo e anotar o que achava interessante. Algumas coisas deram para ser usadas como conteúdo. Outras anotei para mim. O que mais gosto de ouvir de escritores consagrados é sobre seus métodos de trabalho. Escrever é, talvez, um dos ofícios mais solitários que existem. Eu sinto muita falta de interação, de troca. Só quem escreve sabe como é torturante o processo de erro e acerto, e revisão, e tentativa, e comiseração. Aos poucos cada um vai criando um processo para facilitar o trabalho, melhorar a qualidade, otimizar o tempo. Acho que por ser um ofício tão pessoal, a gente não encontra um “Manual do escritor” para vender nas bancas. Não existe uma regra de como organizar seu tempo, ser disciplinado, facilitar a criatividade. Existem momentos em que a coisa flui miraculosamente. Outros de um desespero descomunal. E nesse processo todo a gente escreve muita coisa ruim, muita coisa que vai para o lixo. E muita coisa que somos capazes de matar para não deixar ninguém ler. Literatura não é texto de blog, que eu sento na cama antes de dormir, digito o que vem na cabeça e posto sem nem revisar os acentos. Literatura é ruminada. E esse processo de criação, a maneira como cada escritor trabalha e retrabalha seu texto, pode ser a diferença entre um romance de sucesso ou um texto nunca terminado. Por isso quando o Enrique Vila-Matas disse que imprime cada capítulo, trabalha à mão no papel, depois volta para o computador para reescrever, imprime novamente, volta para o computador... Eu achei brilhante (embora totalmente insustentável). Quantas vezes tive vontade de voltar para versões antigas do meu romance e que se perderam completamente em arquivos interminados e “salvar como” que nunca mais encontrei. Por mais que a virtualidade nos ofereça a praticidade da condensação do espaço físico, nada como manter uma trilha real de migalhas de pão do seu percurso para ter certeza de que vai chegar até o fim. A coletiva me garantiu material para o resto do dia, então resolvi tirar folga. Fechei o computador e assisti às duas mesas da tarde sem nem olhar para o celular. Me apaixonei de imediato por Alejandro Zambra. Corri comprar o livro dele assim que saí da tenda. Comprei outros 13 livros também. Sempre tive problemas com limites, não vai ser agora que isso vai mudar. Depois uma deliciosa mesa com Javier Cercas e Juan Gabriel Vásquez. Dei uma volta pelas ruas do centro histórico sozinha. Tirei fotos. Me senti apaixonada novamente. (E olha que faz muito tempo que não me sinto apaixonada). Tantas coisas que eu gosto tanto. Livros, histórias, literatura, pessoas andando pelas pedras, as luzes nas janelas das esquinas históricas, fotografias com cores de fábula. E eu me sentindo inteira como há muito não me sentia. Com aquela certeza de que estou exatamente no lugar onde eu deveria estar. Resolvi não assistir à última mesa, (era Fernando Gabeira e Luiz Eduardo Soares falando de autoritarismo). Encontrei a Lu para jantar em um restaurante bacana no centro. Tomamos vinho branco. Falamos sobre os livros. E na saída tivemos momento frissón ao ver Luis Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura do nosso ladinho. Eu fiquei exausta desse primeiro dia. Sempre disse que sou uma senhoura de 85 anos aprisionada nesse corpinho de 35. Tudo o que eu queria era voltar para a pousada e começar a ler “Bonsai”. Dormir cedo. Ficar em silêncio assimilando tudo. Muito longe do rock and roll. Assim como minhas colegas da caravana da Terceira Idade, esse é sem dúvidas o meu tipo de Woodstock.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

DIÁRIO DA FLIP - LIBERTADORES EM PARATY



A primeira FLIP a gente nunca esquece. Dizem. Há anos tenho muita vontade de vir. Às vezes faltava recursos ($), às vezes faltava amigos. Dessa vez uma união cósmica (que só ocorre de 100 em 100 anos e pode ser vista a olho nú na altura do Trópico de Capricórnio) permitiu. Apareceu uma pousadinha conveniente, um pessoal do grupo de escrita começou a agitar, compramos convites para as mesas há um mês atrás, rolou até credencial de imprensa, e ontem às 13h14 eu peguei Domi na casa dela e nos metemos na estrada para Paraty. Primeira observação: porque é mesmo que eu faz tanto tempo que não desço para o litoral paulista? Porque é mesmo que faz 15 anos que não venho para Paraty? Eu havia esquecido como nossas paisagens são maravilhosas. A serra tropical possui mesmo uma aura mais humana, mais de verdade. E eu devia considerar usar alguns dos meus finais de semana procrastinadores para fazer umas trilhas por aqui. Tão lindo e tão perto. Domi é uma querida do meu grupo de escrita, e vai ser nossa anfitriã no upgrade do grupo no segundo semestre. Ela ainda é uma mulher forte, bonita, com sobrenome kilométrico de realeza. Acho fina. A gente tagarelou até chegar em Paraty, o que me deu ate certa dor no maxilar. Chegamos em cima da hora, tempo só de largar a bagagem no hotel e correr para as tendas para assistir à abertura. Eu ainda passei na sala de imprensa, sofri com a internet e peguei a programação de coletivas (vai ser legal demais poder participar das coletivas!!!). A internet está de fato sendo um grande desafio. Eu entendo que, um evento desse porte muitas coisinhas podem acontecer, detalhes e problemas aparecem só quando são colocados em uso mesmo, mas dá para ver que o pessoal da organização também está se matando para dar conta. De tempos em tempos eles precisam dar um reboot no servidor e daí gritam para os jornalistas “salvem seus textos!”, todo mundo salvando o texto e ficamos sem internet por uns 5 minutos até que ela volte. Mas funciona por uns 10 minutos e cai novamente. Acho que é para entrar no clima do tombamento histórico. Internet tombada! Well, well. A palestra de abertura foi quase técnica demais. Luis Fernando Veríssimo estava super nervoso, tremia segurando o papelzinho. Legal ver esses mitos em situação humana. Eu também tremeria igual vara verde no lugar dele, e talvez isso nos faça parecidos em alguma coisa. Pelo menos em alguma coisa. ;-) Depois foi o impecável Silviano Santiago fazendo um resgate da trajetória de Drummond através de uma análise de suas poesias. Lindo. Parecia aula de Literatura. Era, não era? E o Antonio Cicero, que tem aquela cara de mau, aquela voz potente, e esmiuçou alguns poemas com tanto (acho que a palavra certa aqui é “culhão”) que me fez lembrar o tanto que eu amava poesia na minha adolescência e me sentir um pouco culpada por negligenciá-la hoje em minha vida. Nunca mais li poesias. Acho que quando você deixa de ler poesias é porque está abdicando de um tantão de paixão na vida. Aliás, paixão era o que mais dava para sentir na palestra dele. O cara falou com sangue no olho. Desconstruiu a abstração típica em algo concreto, real, tocável. Eu apaixonei. Se você não consegue falar sobre algum assunto na sua vida com aquele sangue no olho, você está fazendo algo errado, meu amigo! Embora a abertura tenha sido um pouco “dura” por ter priorizado a técnica à emoção, eu gosto do que me instiga a pensar e fazer e sentar a bunda e escrever, mais do que o circo. Mesmo porque o circo para mim viria logo depois. Minha grande preocupação era onde ver a Final da Libertadores e o meu Coringão. A programação da FLIP apresentava um show com Lenine para a noite de abertura. Cheguei até a questionar a organização se eles iam atrasar o show ou algo assim. Achei sacanagem colocar o Lenini para competir com o Corinthians. Tadinho do Lenini, gosto dele. Mas competir com final da Libertadores... Isso é bullying. Sinto muito querido Lenini! Eu vou ver meu time ser campeão. Senti falta dos manos, senti falta do bando de loucos. Mas eu, o Edu, a Lu e algumas amigas dela sentamos em uma chopperia quase na periferia de Paraty (as mano as it gets) e roemos as unhas, comemos batatas fritas frias e vimos o meu time amado acabar com a piada favorita dos anti. Fiquei triste pela piada. Tenho vários amigos que gostavam de usá-la contra mim. Acho que estava acontecendo uma conjunção astral rara mesmo. De repente as coisas acontecem tão calmas e tranquilamente quanto nunca. Eu dou um ponta pé no passado, finalmente realizo coisas que nunca realizei antes, meu time ganha a Libertadores, e eu ainda tenho 4 dias de literatura pela frente. Agora, vou correr aqui. Me enfiar na coletiva do Enrique Vila-Matas. Ficar quietinha e ouvir. Coisa que também eu quase nunca faço. Deve ser a tal conjunção astral. 

terça-feira, 3 de julho de 2012

CORRENDO ATRÁS DO RABO


Minha gata corre atrás do próprio rabo. Eu acho engraçado, geralmente é um comportamento associado a cachorros. Ela sobe em cima do sofá e, de repente cisma com o rabo e começa a perseguição. A veterinária-tia disse que é normal. Que alguns gatos acabam inclusive destruindo os próprios rabos. Ficam com o rabo careca, peladinho, igual rato. É uma ação estúpida, não é mesmo? Correr atrás do próprio rabo. É engraçado e nos faz enternecer pelo serzinho naquela função inútil. Então por que diabos será que a gente se pega em momentos da vida correndo atrás do próprio rabo. Parada em cima do sofá, andando em círculos tentando alcançar algo que sabemos o que é o onde vai dar? De vez em quando a gente dá um basta. Ou pelo menos tenta. Eu tenho meditado muito sobre desapego. É o tipo de coisa que a gente almeja mas não consegue ter uma noção prática do que é. Desapegar não é apenas não dar valor desnecessário a coisas materiais. Desapegar inclui ideias, vontades, carinho e amor inclusive. Ainda mais quando você está “no sofá” sem fazer nada, sem muita coisa rolando a sua frente, a vontade de virar e correr atrás daquele rabo que está ali, você já conhece, já sabe como é, fica ainda mais tentadora. Não posso dizer que não tenho evoluído. No meu ritmo, do meu jeito, ando muito orgulhosa das minhas conquistas pessoais e espirituais. Mas estou subindo por uma escada em caracóis. De tempos em tempos me pego rodando no mesmo lugar, perseguindo coisas que já tinha abandonado lá atrás. Porque será que a gente faz isso? Medo? Carência? Falta de paciência de esperar? Às vezes é preciso dar um basta de verdade. Para conseguir subir um degrauzinho. Estamos vivendo uma época de culto à felicidade incondicional, do “todo mundo se relaciona com todo mundo”. Eu acho que isso deixa a gente estagnada. Tentando resolver coisas antagônicas simplesmente porque não pega bem abrir mão das coisas, das pessoas. Então somos pessoas incompletas, amigos incompletos, profissionais incompletos. Porque se você “curte” muita coisa, twitta, coloca foto no instagram, faz check in e mantém a popularidade administrada em todas essas novas esferas de relacionamento, é impossível você realmente se relacionar com uma pessoa de verdade. Como diz Brecht, não se come a carne sem matar a vaca. Mas eu sou vegetariana. E isso também é uma escolha. É desapegar de algumas coisas para escolher trilhar um outro caminho de forma mais real e profunda. Mesmo porque eu aprendi que, quando a gente corre muito atrás do próprio rabo, ele acaba mesmo machucado. Peladinho igual rabo de rato. Se foi preciso um chacoalhão para me lembrar que algumas coisas a gente abandona na vida para não doer, pelo menos alguma coisa me fez lembrar que não quero ficar andando em círculos em cima do sofá. Evolução não é tomar decisões e nunca mais se abalar. Eu, pessoalmente, acho que é sempre reencontrar o caminho que escolheu quando escapar. Então lá vou eu novamente. Respirando fundo, virando as costas, sem olhar para trás. Mesmo porque, dá que eu olhe para trás, veja o rabinho balançando e dê uma vontade de correr... de novo.