sábado, 3 de abril de 2010

AS SURPRESAS DE DUBLIN

Dublin é uma cidade que me surpreendeu completamente. A princípio parece que não há muito o que fazer, mas a cidade vai se revelando aos poucos, a cada hora que se anda pelas ruas. Não é um acontecimento arrebatador como New York, nem o aconchego de lar que senti em Londres. Não tem o encanto charmoso do Porto, nem a tal da “poesia concreta” da minha amada São Paulo. A primeira vista Dublin parece uma próspera periferia. Cheia de pessoas comuns, gente que acorda todo dia para pegar condução e trabalhar em empregos completamente desprovidos de glamour. Extremamente úmida. Você dificilmente ficará alguns dias em Dublin sem se molhar. Chove todos os dias, isso é até uma piada nacional. Passei muito frio nesses dias. Neve no começo da primavera, que surpreendeu os próprios irlandeses. Manter os pés aquecidos e secos (além de uma questão de sobrevivência) foi uma tarefa hércula. Estou com uma coleção de meias térmicas e meias de lã na bagagem agora. E embora todos esses fatores pudessem fazer qualquer mortal detestar a experiência, Dublin se revela na verdade encantadora. A principal razão disso é pelo seu povo. Difícil não se encantar pelo povo irlandês. Todos carregam a marca de séculos e séculos de guerras, humilhações, fome, sofrimento. Um povo que foi conquistado por diferentes impérios ao longo de toda sua história, mas sempre resistiu. Que foi perseguido e eliminado aos milhões por suas crenças e sempre resistiu de uma maneira quase incompreensível. Hoje carregam na bandeira uma esperança de diálogo, perdão e paz (o verde da bandeira representa os católicos, o laranja os anglicanos e protestantes, e o branco no meio a paz que eles esperam conquistar entre eles). Chega a ser desconcertante a capacidade de sobreviver. Mais desconcertante ainda é a gentileza de que eles são capazes. O tempo todo, todos os dias, fui testemunha de atitudes de pessoas comuns em ajudar o próximo sem o menor interesse de recompensa. Só como um exemplo vou contar uma situação que passei. Eu e Vanessa (uma outra brasileira que estava no Hostel e tornou-se uma companhia muito querida pelas andanças por Dublin) estávamos meio perdidas procurando o Kilmahain Goal. Entramos em uma rua meio sinistra, cheia de casinhas fechadas de um lado, com um terreno baldio do outro. Paramos embaixo da chuva (para variar) tentando entender o mapa que derretia na nossa mão. Então uma senhora muito idosa abre a porta de uma das casas e pergunta se precisamos de ajuda. E quando falamos que estamos perdida, aquela senhora sai embaixo da chuva, se molha toda e faz questão de nos explicar pacientemente como fazemos para chegar ao museu. Ainda, com toda sua dificuldade de locomoção, abre um sorriso e nos deseja um dia de muita diversão. Existem muitas outras coisas que eu poderia falar sobre Dublin. Passei cinco dias de muita felicidade lá. Mas o que trouxe da Irlanda foi essa impressão de solidariedade e compaixão que senti das pessoas. Talvez por terem vivido uma história tão desumana, os irlandeses tornaram-se um povo caloroso, com muita consciência e respeito pelo próximo. Existem histórias no mundo todo de medo, mágoa, vingança. Mas há sempre aqueles que pegam um limão e tranformam em caipirinha.

Um comentário:

madame disse...

Gostei tanto de Dublin. Mas tanto, tanto. se já não tivesse feito a coisa de morar fora iria pra lá.