sexta-feira, 30 de abril de 2010

SURFING

Agora estou na Espanha. Acabei de sair de Madrid e estou indo para Barcelona. Em Madrid tive minha primeira experiência no Couch Surfing. Eu nunca tinha ouvido falar do Couch Surfing, mas aqui na Europa ele é bem popular e usado por todo mundo. Vou tentar explicar o conceito. Sabe aquela amiga que você tem que mora em… Fortaleza, por exemplo? E quando você vai tirar férias, resolve ficar na casa dela? Ela deixa uma cópia da chave com você, dá dicas do que vale a pena e do que é roubada na cidade, sai para trabalhar enquanto você passeia, e depois vocês pedem uma pizza à noite no jantar? Nem sempre essa amiga tem um quarto de hóspedes, e às vezes você dorme no sofá, certo? Agora, imagina uma rede online em que você pudesse “pegar emprestado” amigos que liberassem o sofá de suas casa para você se hospedar quando estiver viajando. Esse é mais ou menos o conceito do Couch Surfing (na tradução “Surfando em Sofás”). Até os anos 90 a moda dos mochileiros era o Europass. Você comprava um passe com viagens de trem ilimitadas pela Europa, assim fazia as locomoções durante a noite, dormia na cabine do trem, economizava na estadia e conhecia várias cidades de uma mochilada só. Hoje, com a abundância de cias aéreas de low cost, viajar de trem virou um luxo, e o Couch Surfing permite baratear a aventura (com muito mais conforto do que dormir torto no trem, convenhamos). Mas antes de achar que é como “hotel de graça” vou explicar como funciona o sistema: você cria um profile no site. Esse profile é verificado pela administração da ONG que gerencia o site, eles checam se você é você mesmo, se o endereço que você inscreveu na sua ficha existe ou e inventado, e coisas assim. Nesse profile você procura colocar o máximo de informações sobre você (é importante, afinal é através dele que seus potenciais hosts vão decidir se te aceitam ou não em seus sofás), tais como gostos, manias, temperamento, hobbies, profissão, lugares que já morou, lugares que já viajou e, obviamente, línguas que fala (para possibilitar comunicação entre host e guest). Você pode escolher ser host, guest, ambos ou apenas uma companhia para um café, caso algum surfer esteja na sua cidade. Quando você faz uma busca por cidade que você pretende visitar, o site apresenta os hosts que estão afim de emprestar seus couchs e você dá uma olhada no perfil de cada um. Neles dá para sentir que tipo de pessoa é e escolher aqueles que você gostaria de ser hospedada. Por exemplo, se você é alérgico a cachorros, já elimina aquele que tem animal de estimação. Se você é uma pessoa baladeira, não vai pedir para ficar no couch de um host que diz que gosta de ler e de dormir cedo, e assim por diante. Quando você encontra uma pessoa que você acha que tem a ver com você, manda uma mensagem com as datas que você pretende usar o couch e uma pequena apresentação falando dos seus projetos de viagem e porque você seria um surfer legal. O host então vai receber sua mensagem, analisar seu profile e, dependendo do que ele achar e da disponibilidade do couch, vai te convidar para ficar na casa dele. Pode parecer um pouco estranho e arriscado (pois é Y, sei que seus cabelos estão de pé até agora), mas esse sistema é antes de tudo um veículo de troca cultural. É uma possibilidade de aprender, conhecer outra cultura, experienciar uma cidade sob os olhos de quem mora nela, e, principalmente, fazer amigos. Ok, você deve estar pensando “Mas como assim? Você fica na casa de uma pessoa que você nunca viu na vida? E se for um louco? Se for um tarado, psicopata?”. Bom, vou contar para vocês. Minhas experiências com loucos sempre vieram de pessoas com referência, amigos em comum, nunca de estranhos. Mas essa é uma opinião subjetiva. Para sermos mais práticos, o Couch Surfing geralmente tem em seus integrantes pessoas com alma de viajante. E isso já é um grande parâmetro de seleção. Viajantes tendem a ser pessoas mais adaptáveis, mais tolerantes e abertas às diferenças. São pessoas de espírito livre, generosas, que sentem prazer em vivenciar experiências de troca. Por isso abrem a porta de suas casas e adoram receber gente de todos os lugares do mundo, fazem questão de que você se sinta em casa, aproveite e tenha uma ótima experiência como seu hóspede. Claro que como hóspede essa reciprocidade é desejada. Coisas básicas que mamãe nos ensinou quando éramos crianças e íamos brincar na casa da amiguinha, são úteis nessa situação:


- Diga “Porfavor” e “Obrigada”.

- Mantenha suas coisas organizadas.

- Respeite as regras da casa.

- Ofereça-se para ajudar. (Não precisa virar a faxineira do lugar, mas lave as louças que utilizar pelo menos.)

- Procure interagir e passar tempo com seu host. Ele não está te hospedando pelos seus lindos olhos, ou porque está afim de contribuir para suas economias. Ele está te hospedando principalmente porque está interessado em te conhecer, conhecer sua cultura, entender como funciona seu país.

- Não se chega na casa de ninguém de mãos vazias. Dentro do Couch Surfing aconselha-se levar ao seu host um presente típico do seu país, como uma forma de intercâmbio. (Eu, como não tenho espaço na mochila e já estou longe de casa há algum tempo, tenho levado chocolatinhos do Duty Free e me oferecido para fazer caipirinhas.)

- Confie. (Na pior das hipóteses você ganha um amigo.)

O site também mantém um arquivo com todas as mensagens trocadas entre surfers e hosts para questões de segurança de ambos. Após um contato ou uma visita, tanto surfer como host escrevem um depoimento um para o outro que fica gravado no perfil e serve de referência para futuros contatos. Assim você vai carregando seu histórico de relacionamento no Couch Surfing. E as pessoas são bem sinceras. Se você for problemática, faltar com respeito, desrespeitar regras, abusar da confiança, ser desonesto na sua apresentação só para conseguir um sofá ou tiver só interessado em economizar no hotel, o seu host vai (além de pedir para você sair da casa dele) deixar um depoimento negativo a seu respeito, e fica bem difícil continuar na comunidade com depoimentos negativos. Em caso de abusos do sistema, um integrante pode até ser expulsos. Então, aqueles que estavam achando meio absurda essa ideia de eu estar me enfiando na casa dos outros por aqui, podem guardar as armas. O sistema se auto-regulamenta, a rede de participantes é selecionada pela própria natureza da brincadeira (Vamos combinar? Não é qualquer pessoa que tem a generosidade suficiente para abrir a porta de casa para os outros pelo simples fato de que gosta de fazer amigos e de ser útil.) Carol e Viriato foram os primeiros a me falar do Couch Surfing. Fazem questão de ter um quarto de hóspedes todo arrumadinho e já receberam gente de todo lugar do mundo. É como viajar sem sair de casa. Eu vou muito emprestar meu sofá (assim que tiver um novamente…) Meu host em Madrid foi um engenheiro alemão de 32 anos, que passou a infância no Brasil e toca bateria em uma banda de blues. Ele fala um excelente português e estava louco para conversar com alguém com as mesmas referências de infância que ele teve. Logo que eu cheguei me convidou para patinar (Bem… na verdade foi mais uma sessão de tombos absurdos na ciclovia e completa humilhação na frente de meninas de 6 anos equipadas com patins cor de rosa da Hello Kitty…), ele ainda me ligava no final da tarde para saber o que eu queria jantar, me convidou para o show da banda dele ontem à noite, me levou ao aeroporto hoje de manhã e disse que faz questão de me hospedar novamente sempre que eu estiver em Madrid. Diz? Não é uma experiência incrível? Acho sim, que sempre tem alguma coisa que pode dar errado, que às vezes a química não bate e a gente não é obrigado a se dar bem com todo mundo. Mas acho também que se você planta desconfiança, colhe medo. Se você planta generosidade, colhe amor.

http://www.couchsurfing.com/

2 comentários:

Victor-Pierre disse...

Dri, alguns obrigados: pela escrita fluida e elegante de uma cronista nata; pela expressão cada vez mais determinada de uma visão de mundo que ressoa minha própria experiência; e pela generosidade de alma - que sempre tem sabor de surpresa, mesmo quando já conhecida.
V.

MH disse...

Legal. Eu já tinha ouvido falar, acho itneressante. Mas como boa paulistana, vamos combinar só uma coisa? Sempre que você for surfar o sofá de alguém, manda todos os dados (data de chegada, saída, nome da pessoa, endereço) para pelo menos UMA pessoa amiga/familia? Não custa, vá...

miss U!!!