sexta-feira, 23 de julho de 2010

MEDO

Eu já falei aqui algumas vezes. De como eu acredito que o único jeito de vencer o medo é através do amor. Nem sempre isso é simples. Deveria ser, mas não é. Às vezes o amor desaparece da minha vida. Fica fraquinho. E o medo toma conta de tudo, como erva daninha. Se alastra. Domina tudo. Então minha vibração vai lá para baixo. Fico obsessiva, chata. Acabo me torturando e me machucando. O problema é que é um círculo vicioso. Ontem fiquei um tempo conversando com o Kallel depois de um dia bem puxado de trabalho. K é a pessoa que mais me ensina amor (e olha que a gente se estapeia de vez em quando). Eu falava para ele onde eu estava (emocionalmente, não fisicamente), de como eu estava ansiosa, em dúvida. E tudo isso tem um só nome. S. Eu me entreguei e agora estou me arrependendo. Com voltade de voltar para o trampolim. O problema é que não se volta para o trampolim sem sair da piscina. Depois que pulou, pulou. Aproveita a água. Ou lambe os azulejos. O que vier primeiro. Meu coração se espreme todo com milhões de questões que a minha cabecinha insiste em correr atrás. Milhões de “e se”. “E se ele conhece outra pessoa?”. “E se ele virar para mim e disser que não está preparado para um relacionamento agora?”. “E se eu pulei, mas ele nem subiu no trampolim?”. “E se eu nunca mais vê-lo?”. “E se...” Tudo o que K me respondia era “Isso não lhe diz respeito”. HEIN!??? Como não? “Se vocês vão ficar juntos , ou não. Não depende de você. Isso é com Deus. Você vive.” Mas eu não quero me machucar. Eu não quero ser abandonada. Eu não quero que doa. “Se doer, é porque tinha que doer. É porque você precisava aprender alguma coisa. Daí você vive a dor e agradece o ensinamento.” Ah, tá bom! Estou cansada de histórias de dor. Gato escaldado... e todo mundo sabe que eu sou uma cat person. K já estava me irritando com esse zen budismo todo, já estava com vontade de tacar o skype na parede. Eu preciso de respostas, de controle... “Você está com medo”. Ahááá!!! Verdade. Estou vivendo medo. Nem vi como ele foi entrar. A pior coisa do medo é que ele deixa nossa alma pequenininha. A gente começa a se debater, tentando controlar as coisas, tentando segurar um rio com a palma da mão. A idéia de controle cria uma ilusão de segurança. Então vem o ciúmes, a auto-estima vai pro chinelo. É nesse ponto em que a gente começa a machucar as pessoas. Principalmente a nós mesmos. Sabe porque a gente pula do trampolim? Porque é gostoso. Porque é um sensação incrível de entrega, de liberdade. Porque é muito triste ver um trampolim e só ficar olhando. Ver um trampolim e não saltar. O medo congela a gente. Nos impede de viver, de aproveitar. Gera intolerância. Gera muito mais dor do que pular em uma piscina vazia. Acredite em mim. Eu tinha feito um trabalho muito bom em tirar o medo da minha vida. Relaxei só um pouquinho e cá está ele de novo. Um deserto de medo, e eu parada bem no meio. Agora é achar um caminho para sair daqui. Achar um caminho que me leve de volta para onde haja amor, aceitação, entendimento (em vez de medo, dúvida, angústia). É difícil. É doloroso. Eu nem sei por onde começar.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

MEU CARO AMIGO

Às vezes fica tudo uma bagunça. E só quem já ficou muito tempo longe de casa (e muito tempo sem casa nenhuma) é que vai entender como um email como esse faz o dia da gente ficar mais lindo. Obrigada Eva! De coração.

"Nos últimos 2 dias me pus a ler seu blog; resultado: viajei com você por um mês no seu Promance até sua vinícola! Senti meio que invadindo, espiando pelo buraquinho dos seus campos de lavanda, mas acalmei a sensação dizendo que afinal, os blogs devem ser pra isso mesmo, né? Muito bacana; você consegue mesmo ir contando, vivendo, de um jeitinho bem humorado e a gente vai indo, indo, quando vê, foi. Tô aqui torcendo pelo próximo capítulo da novela S, fiquei íntima da história.
Percebi que a falta da referência diária do Brasil, mesmo sendo exatamente o que você foi atrás, contem uma certa vontade sua.

Muito bem, como diria o santo Chico,

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando e também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

Não deve ser de notícias que você tem falta, afinal existe o UOL, a Veja, a família, amigos, telefone, etc.

Então, umas coisas que tão por aí:
- um inverno esquisito, poucos dias bem frios como gosto; mesmo estes cheios de chuva, depois de 1 mês sem, enchendo os fins de tarde daquelas cores tão lindas quanto poluídas.
- a vingança da colonização está acontecendo: o Serra está com um vice, um tal deputado Índio da Costa, que só abre a boca pra falar besteira e deixar o negócio pior do que já está a favor da fofa da Dilma.
- o visual que o Celso Kamura fez pra Dilma está arrasando. Tem fila na porta dele pra fazer igual.
- o Bruno, goleiro do Flamengo é mais notícia do que tudo; só se fala nos depoimentos, em onde enfiou a moça Eliza, se os pit bulls realmente comeram a carne da dita cuja e por aí vai.
- a situação econômica do país é relatada como maravilha, só não encontro ninguém que pense isso quando olha a própria vida.
- a novela das 9 (vulgo 8) é um saco, mas a Mariana Ximenes está dando um banho de vilã.
- o Dunga sumiu, escafedeu-se, ninguém ouve falar nem tem saudade; espera-se ansiosamente o anúncio do novo mágico. Será Felipão? Será Mano Menezes?
- o trem bala vai e vem na imaginação de muitos e nada rola.
- o Largo da Batata está ficando lindo, quase nem parece mais aquele lixão.
- a Marina Silva e seu vice, Guilherme Leal (Natura) combinam tanto quanto goiabada com brócolis.
- o JB deixará de circular em versão impressa, fica só na @. Triste.
- as manicures brasileiras continuam arrasando.
- parece que a Noemi vai dar um curso sobre literatura, num sábado por mês, neste semestre. Que tal?
- o gordo (Ronaldo) continua gordo.
- o baixo Augusta continua bombando nas nights.
- os restaurantes continuam enchendo o saco com "espumas" de tudo.
- só se fala na %$#@ da Copa de 2014, como se fosse amanhã.

Beijo, curta o rosé por mim.
Eva."

Ah, para constar. Essa é minha música favorita do Chico....

quarta-feira, 21 de julho de 2010

FARMVILLE

Howdy Farmers!!!!!!!
YEAP! Eu já andava de bode monstro do Facebook, pensando muito em abandoner minha fazendinha do Farmville. Agora é que não faz mais sentido mesmo ficar perdendo meu precioso tempo em uma fazendinha virtual quando eu tenho uma de verdade pra brincar. Parece mesmo uma farmville. A gente fica na Manor, que é grande, tem duas salas com lareira, uma sala gigante de jantar junto com a cozinha. A pia fica de frente para uma janelona que dá para o quintal e para a winery. Tem um barn (mas é dos vizinhos). Um Pond. Com um pequeno deck para sentar e patinhos nadando. Os patinhos são os melhores. São bebês-patinhos e saem todos desesperados se batendo na água para acompanhar a mãe. Um barato. Ao lado do pond, uma árvore grande com um pneu fazendo a vez de balanço. Uma mesa grande de madeira com bancos e uma churrasqueira de metal. Descendo um pouquinho tem uma estufa de vidro. Lembro que demorei tanto para comprar a minha no FV. Então entramos nas vinhas. Todas enfileiradinhas. Mas a propriedade não é muito grande. Tanto que são os dois quem cuidam sozinhos de tudo. De plantar e colher, a fazer o vinho, engarrafar e vender. Ontem eu salvei a vida de um coelho. Era um bebê coelho, tão fofinho. A gente estava trabalhando na “lavoura”, e a Jesse (a cachorra doidinha que segue a gente para todos os lados) estava igual louca brincando com alguma coisa nos arbustos ao lado. Então Kate (uma outra adolescente, garota da cidade, que é voluntária aqui e ajuda a gente todos os dias) comenta, “Ah, Ela achou uma toca de coelho.” Hein!??? Lá estava a cachorra jogando um filhotinho de coelho para cima e para baixo. Então eu saí correndo, porque o coelhinho estava vivo. Penny disse que na verdade eles queriam que o coelhinho estivesse morto, porque coelhos comem uvas. (E são como uma praga por aqui, estão para todos os lados) Mas eu não resisti, e peguei o filhotinho no colo. Era tão fofinho, todo marrom. Com o coraçãozinho disparado de tanto medo. Abracei o coelhinho, e esfreguei meu nariz no focinho dele. Penny ficou morrendo de dó da minha cara e me deixou devolver o coelhinho para dentro da toca. No almoço ela comentou com Steve. Steve todo contente de se ver livre de pelo menos um coelho comedor de uvas. Quando ela disse que eu soltei, Steve olhou para mim como quem diz “Meu Deus! O que eu vou fazer com essa brasileira maluca!”. Então eu sorri e encolhi os ombros. “Eu tenho certeza de que, quando ele crescer, vai ser bem saboroso... Mas agora é ainda um bebê!”. Então a gente mudou o assundo para o sabor da carne de coelho, e como o final de semana vai ser frio e com chuva. Muito bom. Tenho vários livros para ler e alguns capítulos para acabar.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A SIMPLE LIFE

Eram 20h ontem quando Penny levou nossos pratos para a mesa do lado de fora da casa. A cozinha tava toda perfumada com o pedaço de porco assado que ela tinha feito. Alguns legumes e batatas salteados. Sentamos Ela, Steve e eu. O clima um pouquinho pesado porque eles tinham acabado de ter uma discussão sobre o espumante rosè que tomávamos na refeição. Parece que o espumante não estava dentro dos padrões de qualidade de Steve, mas eu e Penny gostamos. E tomamos a garrafa inteira. “Isso não é comum, viu! Jantar do lado de fora, à essa hora aqui em Folkestone.” Steve disse isso porque o tempo tem estado agradável e quente até à noite. Folkestone costuma ter noites frias. Depois arrumamos a cozinha, fizemos um chá. Subi para o meu quarto e fiquei lendo um livro até 23h30, quando meus olhos já não se aguentavam sozinhos. Foi assim que terminou meu primeiro dia de Helpx na vinícula de Penny e Steve. Antes disso eu ajudei na winery durante a tarde. Lavando garrafas, selando a rolha e etiquetando. Separamos alguns pedidos que iam para restaurantes e organizamos em caixas. Ainda tive tempo de trabalhar um pouco no livro, conversar com S pelo Skype, trocar mensagenzinhas rápidas com os amigos e responder emails. A vinícula de Penny e Steve fica em Folkestone, Sul da Inglaterra. É uma propriedade pequena e nada longe da cidade. Dá para dar uma caminhada, andar de bicicleta. Bem menos meio do mato do que eu estava me preparando. A casa é grande, cheia de quartos, super confortável. Eu estou no quarto que era do filho de Penny. (Ele aparece aqui todos os dias, mas saiu de casa e foi morar sozinho). No fundo da propriedade ficam as vinhas, depois tem mais um pouquinho de terra, o mar, e a França. Juro que dá para enxergar daqui. Além dos dois, mora aqui Rose. A filha adolescente de Penny. Que é linda (mas é adolescente). Passa quase o dia todo fora de casa e quando chega, se tranca no quarto e ouve heavy metal no último volume. Tão alto que consigo ouvir daqui da cozinha. Parece que semana que vem ela vai para um acampamento de verão. Hum! E semana que vem também chega um outro Helpx que vai ficar por aqui. Um canadense, que vem todos os anos ficar com eles. Hoje o trabalho foi diferente. Depois do café da manhã fomos para as vinhas. Houve muito vento nas últimas semanas e as parreiras estão parecendo umas couve-flores. Todas abertas. A gente passou a manhã amarrando os galhinhos das parreiras, porque Steve precisava pulverizar hoje à tarde. No começo foi divertido. Eu sou meio obsessiva com padrões estéticos, então era como ligar no piloto automático e fazer um mantra. Até terapeutico. Depois de algumas horas eu já estava achando um bode. Penny dividiu as tarefas da cozinha. Cada dia eu, ela ou Steve somos responsáveis por cozinhar. Hoje é o meu dia. No almoço não rola uma culinária. Como eles voltam para o lerêlerê, preferem fazer um lanche, comer coisas leves e frias. Então eu basicamente abri um monte de potinhos com saladas, cole slaw, feijões, grãos de bico, ervilhas, salmão defumado, couscous gelado. E botei tudo em cima da mesa. Para não dizer que não cozinhei, peguei o resto da carne que Penny assou ontem para o jantar, dei uma refogada com tomate e pimentão, e tcharã! Mega sucesso da culinária brasileira! Adoraram, me elogiaram. E eu fiquei toda pimpona! Tão pimpona que liguei a Stepford Wife no 220, fui até a horta e colhi cenouras. Lavei, cozinhei com vagens. Fiz uma maionese e deixei na geladeira para o jantar. E como eu tô pimpona que nem me aguento, saí fuçando nos armários para ver o que tinha e o que não tinha e resolvi assar um bolo. Bolo de laranja. Bati a massa na mão, do jeito que minha avó me explicou. As apostas estão de 250 para 1 de que o bolo vai solar. Eu não tenho dúvidas. Vai solar! Daqui à pouco começo a cuidar do jantar. Tô me adorando toda dona de casa! Quero ver quanto tempo vai durar. Amanhã talvez eu acorde mais cedo. Dar minha corridinha matinal. Hoje eu tava de bóia-fria. Não rolou. Acho que fiz a escolha certa vindo pra cá. Ainda não senti muito como vai ser a rotina, o trabalho. Quanto vai ser produtivo para mim. Mas em 24 horas eu já me sinto outra. Estou calma, serena. Feliz, e amando denovo. É uma vida simples. Coisas simples. Não importa muito qual o trabalho que eu tenha de fazer, aqui eu sinto que eu posso simplesmente ser.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

TO THE COUNTRYSIDE

Último dia em London, e fez um domingo lindo de Sol. Eu cheguei aqui achando que ia me espreguiçar nos parques, fazer picnic. Mas foi uma semana inteira dando 15-18 graus. Todos os dias nublados e meio úmidos. Hoje não tinha cara de verão. Mas estava quente e bonito. E o céu estava bem azul. Eu fui almoçar com a Flo em Hampstead. Foi como se London me pedisse uma trégua. Como se ela estivesse falando para mim que era uma metrópole sim. Que era uma baita de uma cidade. Mas que também guardava lugares gostosos e agradáveis. Ruas lindas, cheias de lojinhas e mercados escondidos. Onde pessoas também lindas passeavam com seus amigos e seus filhos, igualmente lindos. Daí fica tudo com cara de fofo. Com cara de “Kings of Convenience”. A gente comeu mexilhões e tomou vinho rosè. Eu estou com essa coisa de tomar vinho rosè desde a França. Mentira. Desde novembro do ano passado. Fez tanto calor no Brasil que eu mudei todos meus vinhos da adeguinha para rosados. Gosto do tinto só no inverno. Sozinha, a luz de velas. Ouvindo Bob Dylan. No resto do tempo gosto de champagne e rosé. E gosto quase nada dos brancos. Nunca tomo. Hoje tomei rosè. Depois a gente andou pelas lojas. Summer Sales em London. Juro que ganha um certificado de elevação espiritual quem voltar para casa sem nem uma sacolinha que seja. Eu quase consigo. Mas é que precisava comprar algumas coisas mesmo. Um moleton, para ficar mais confortável no campo. Camisetas de manga comprida, que eu não comprei ontem porque a Oxford Street parece final de micareta. Com o chão cheio de urina e cerveja, e gente bêbada pelo canto. Simplesmente não vale a pena. Tão difícil achar coisas básicas. Básicas, confortáveis, simples. Hoje tem tanta gente criativa, tanta gente querendo por tanta personalidade em tanta coisa. Que difícil mesmo é comprar uma simples camiseta de manga comprida cinza. Sem uma costura, ou laçarote, ou nheco-nheco que algum estilista (de ego enorme e modéstia mínima) achou que seria legal colocar. Acabei na GAP. As coisas são simples lá. Sai com uma sacolinha na mão e muito feliz de estar básica, simples e confortável hoje. Comprei 3 livros também outro dia na Stanfords em Covent Garden. Minha livraria favorita aqui, de longe. Tudo bem que ela é especializada em livros e artigos de viagem, guias e mapas e etc (já falei dela aqui em “Três lojinhas para amar em Londres”). Mas eles são tão incríveis que possuem prateleiras de livros para ler durante as viagens também. (AHÁÁÁ!!!) Uma seleção de romances que combinam com a viagem que você quer fazer. Tem até um setor dividido por países. Ou seja, se você vai viajar para o Brasil a sugestão deles é “Cidade de Deus” de Paulo Lins. (Mas eu acho que eu não ia querer viajar para o Brasil depois de ler esse livro... pior ainda ir lendo enquanto está esticando as objetivas por aí!) Mas eu comprei três livros aleatórios. E a quantidade foi só porque havia uma promoção de “Compre 2. Leve 3”. Eu não resisto à promoções. Ainda mais de livros. Então eu tenho combustível para as próximas semanas. Roupas confortáveis. Livros. Bastante material para escrever. Ainda não tenho nenhuma informação sobre como vai funcionar a coisa no Helpx. Se vou ter conexão wi-fi no lugar que eu escolhi ficar. Então é possível que eu tenha dificuldades em postar por aqui. Descubro em algumas horas. Agora vou terminar de empacotar. Ir para a estação de St. Pancras. Fazer a experiência que eu escolhi. Ao meio dia minha hostess vai me pegar. Não vejo a hora de chegar. Estou indo bem. Estou indo com vontade. Melhor, fiz as pazes. London, não é nada pessoal. É só que talvez eu não seja uma garota cosmopolita. Que eu não seja uma garota de cidade como eu sempre achei. Talvez eu seja de lugares pequenos e pessoas com vidas comuns. De vida em comunidade. Amizade com vizinhos, bolo caseiro e chá às 17h. Talvez eu seja mais low profile. De brincar com border colies. Talvez eu seja isso. Não sei. Eu brinquei bastante tempo de cidade grande. Pelo menos nas próximas semanas vou brincar diferente.

domingo, 18 de julho de 2010

HARUKI


Outro dia eu estava falando de correr aqui e lembrei agora desse livro que eu li há alguns meses atrás. Li em inglês, mas eu acho que já foi lançado no Brasil. Provavelmente com uma tradução literal do título. É um livro de memórias do escritor japonês Haruki Murakami. Bem gostoso de ler, mesmo que você sinta calafrios só de olhar para um tênis de corrida. Enquanto treina para a Maratona de NY ele vai lembrando de como a decisão de virar escritor fez com que ele começasse a correr. E como o hábito de correr longas distâncias ajudou-o a construir seu caráter e dar consistência a sua carreira de romancista. Afinal, escrever um livro é uma maratona. Uma lição de vida. Ajuda a gente a rever várias coisas. Muito sábio, Sr. Murakami!
Antes que dê preguicinha, o livro em si não é nenhuma maratona de 600 páginas. Bem compacto, dá para ler em uma sentada. ;-)

LONDON, LONDON

Às vezes a gente precisa dar uma volta inteira para ver como nossa percepção de nós mesmos mudou. Explico. A primeira vez que eu estive em London foi logo no começo da jornada. Eu tinha passado um tempo com minha irmãzinha Carol, viajado um pouco por Portugal, e estava começando a me colocar no ritmo da jornada. Quem já teve gato vai entender o que eu estou falando. Quando você muda de casa e leva um gato para uma casa nova ele demora um tempo para se soltar. Cachorros não. Cachorros saem correndo para todos os lados, se batendo, babando, cheirando, fazendo xixi nos cantos. Mesmo porque eles nem fazem muita idéia de onde estão ou porque. Gatos são diferentes. Gatos se escondem em um canto em que se sentem seguros e ficam observando o espaço por um tempo. Depois eles arriscam atravessar o cômodo. Ainda encolhidinhos, até alcançar algum outro buraco. O importante para eles é que estejam em lugares que se sintam protegidos. “Entocados”. Até se sentirem seguros no ambiente novo, eles arregalam os olhos e ficam atentos. Só depois de terem certeza de que estão em casa é que começam a circular alegremente de um lado para outro. Eu sou uma cat person. Eu me entoquei, e quando eu vim para London foi quando eu comecei a circular de um lado para o outro. E London teve cara de casa. Porque me trazia tanto de São Paulo. Porque é uma cidade grande, cosmopolita. Sem o trânsito caótico. Com tanto mais acesso e civilização. Com mais respeito nas ruas. Sem tantos dos defeitos que dava dó em São Paulo. Então eu viajei. Fui para Dublin, voltei para Portugal. Fui para Espanha. Tive a experiência fantástica de Marrocos. Então Itália, e tanto amor na Itália. O test-drive na França, (que só chegando aqui é que eu fui me dar conta de que foi um turbilhão, e foi intenso, e me afetou muito mais do que eu estava imaginando). Então chegar em London foi como voltar para casa. O problema é que eu não quero voltar para casa. Mesmo melhorada. Mesmo sem tantos defeitos. Londres é uma cidade grande. Maravilhosa, irresistível, cosmopolita. Tudo o que São Paulo também é. Mas é também uma Plaza de Toros. E eu já falei aqui como estava saindo das Plazas de Toros. Não existe nada lá fora que eu não conheça. Nada que possa me maravilhar. Não da maneira que eu quero ser maravilhada. Hoje combinei de almoçar com a Flo. Estou aqui enrolando para tomar um banho depois da corridinha. Tenho taquicardia de pensar no tube. Ontem fui comprar camisetas de manga comprida para o friozinho que tem feito. Oxford Street e eu com vontade de chorar. Nem consegui comer o resto do dia. Eu sei, é até pecado. Me sinto no fundinho um pouco culpada. Estou em uma das cidades mais incríveis do mundo, e eu não quero ficar aqui. Ainda bem que já comprei minha passagem. Amanhã pego o tube pela última vez. Para uma estação de trem.

sábado, 17 de julho de 2010

HELPX

Ah, para quem se animar também com a idéia. Tiver afim de passar as próximas férias cuidando de lhamas na Escócia, ou dando aula de inglês para crianças no Quênia, ajudando a reformar um casarão do Séc. XVIII no Sul da França, trabalhando em um hostel no Peru, ou ainda cuidar de kangurus na Austrália; só se inscrever no site:
http://www.helpx.net/
Alguns anúncios são bem malucos (Tem bastante gente maluca no mundo!), mas na maioria são experiências que a gente adoraria tentar. Nem que fosse só por uma semaninha na vida.

DÚVIDAS, DÚVIDAS...

É sempre assim na vida. A gente sempre tem alguma minhoquinha na cabeça para deixa a gente louca. Primeiro eu cheguei aqui em Londres, sem ter a menor idéia de para onde ir. Eu sabia mais ou menos o que estava procurando, mas não sabia direito onde encontrar. Até que essa situação de stand by por uns dias foi bom para mim. Me fez pensar em um monte de coisa. Me fez dar risada de algumas coisas também. Eu troquei idéia com vários amigos. Ouvi sugestões. Minha vontade sempre foi sair de Londres, ir para algum outro canto. Mas eu também não queria ficar pulando igual macaco. 2 dias aqui. 3 dias ali. 5 dias acolá. Deus! Uma hora alguém precisa parar com essa loucura. Tenham uma coisa em mente. Tirar férias é completamente diferente do que eu estou fazendo. Tirar férias a gente pode até pular de galho em galho. Mas a gente se planeja para isso. Geralmente com meses de antecedência. Arruma mala, lê todo o guia. Compra ingresso para os shows. E depois faz o pula-pula. Mas dura umas duas semanas. Vinte dias no máximo. Eu estou fazendo isso há quase cinco meses agora. E essa coisa de fazer planos eu já descobri que não é uma boa idéia uns três meses atrás. Então o que eu mais quero agora é uma experiência diferente. Nada de tour, de fotos na frente de igrejas. Nada de restaurantes e bares. Eu estou procurando por outro tipo de experiência. Então resolvi fuçar no Helpx. Ouvi sobre o Helpx pela primeria vez em Maio. No avião, indo para Marrakech, sentei do lado de uma francesa bem doida que estava me contando que vinha de 30 dias colhendo frutas em uma fazenda no interior da Espanha. (Hein?) Funciona assim. O Helpx é uma entidade de help exchange. Um site (na linha Couch Surfing) onde pessoas que precisam de ajuda para as mais diferentes tarefas oferecem estadia e alimentação para viajantes que estão afim de dedicar um pouco do seu tempo ajudando no trabalho e convivendo com eles. Existe no mundo inteiro e tem de tudo. Muitas das ofertas são no campo, ajudar em fazenda, ordenhar vaca, alimentar porco. Ou em reformas de casas. Pintura, jardinagem, etc. Eu passei a semana inteira fuçando e fuçando. Mandando solicitação para alguns hosts no interior da Inglaterra. Recebi algumas respostas dizendo que não tinham disponibilidade. Alguns silêncios. E algumas pessoas bem empolgadas em me receber por um par de semanas. Daí veio a questão crucial (e para a qual eu não tinha me preparado). Escolher. Mandei solicitação para uma meia dúzia de hosts, mas imaginei que como está meio em cima da hora, se tivesse sorte arrumaria um lugar. Não imaginei que teria várias opções para escolher. Então fui pro eliminação. E sobraram dois. Dois que estão me dividindo ao meio. O primeiro é uma vinícula ao norte de Londres. Montanhas, caminhadas. Paisagens absurdas. Bastante contemplação. E vinho nas refeições. Esse era meu host favorito quando mandei as solicitações. Mas o que me deixou com um pé atrás é que ela precisa de alguém para fazer serviços domésticos. (Lá vai Maria!) Limpeza, ajuda na cozinha. Lavar, passar. Não vai rolar muito trabalho nos vinhedos ou na vinícula. Verdade que tem o vinho nas refeições, mas... O segundo me pegou de surpresa. É uma mulher super astral. Ela tem uma escola de inglês e faz intercâmbio... com crianças! Na verdade foi ela quem entrou em contato comigo quando viu meu perfil. Eu nem tinha visto o anúncio dela antes. Ela precisa de ajuda para arrumar as camas de manhã, dar uma mão no breakfast. E cuidar das crianças, em excursões para Canterbury e London. Fica na costa Leste, na região de Kent. Verdade que não tem vinho, e que a criançada pode sugar minha energia. Mas é na praia, e eles são super esportivos, e tem toda a promessa de diversão e adrenalina. Então eu preciso mandar um email, para um desses hosts, e tomar minha decisão logo. Porque, seja para uma vinha ou para a versão disney, eu preciso estar lá na segunda-feira com a minha mochilona. Embora sejam experiências completamente diferentes, meu coração está no meio. Tem uma parte de mim que quer me enfiar no meio do mato e ficar em silêncio. Uma outra parte que acredita que me jogar no meio da criançada vai ser revigorante. Eu fico olhando para os dois emails e não sei o que fazer.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Eu gosto do OSHO...

"O mundo é como você é. É complicado se você for complicado. É muito simple se você for simples. Por outras palavras, você é o mundo. A mente torna tudo complicado. Até a coisa mais simples se torna complicada pela simples razão de que a função da mente é lutar contra as complexidades e ganhar em terrenos que ela própria projectou. Mas, para o coração, tudo é simples. O coração aceita simplesmente o mundo como ele é. E se conseguir ir um pouco mais fundo, para o ser, até a palavra é demasiado complicada. As coisas são como são. E nesta experiência, a existência passa a ser a sua casa - não uma luta para resolver problemas, não uma confusão de emoções, mas um lugar para descansar, relaxar e deixar as coisas serem como são."

Então tá!

COISAS QUE EU ADORO NAS MINHAS AMIGAS

Atualizando a vida ontem no Skype, uma amiga me contando do date da noite passada...

"Agora, Cara! ODEIO quando eles não fazem a barba. Eu estou usando ácido. Fica tudo sensível!!!"

BOUTIQUE

Mudei de hostel na quarta. Estava em um super bem localizado (em frente ao Hyde Park), mas daí achei esse e foi melhor coisa que eu fiz na vida. E é o melhor hostel que eu já estive na vida. O Hillspring Lodge. Para começar que eles se auto-denominam “Boutique Backpackers”, o que já bota um respeito. Neguinho vira para você e diz que está em uma “Boutique Backpackers”, a gente até levanta a sobrancelha. O lugar parece um hotel. Extremamente limpo, super confortável. Os quartos são espaçosos, cheios de lugar para desempacotar (coisa rara em hostel). Tudo funcionando a cartão. Porta do quarto, de acesso ao corredor, do locker. O café da manhã é até melhor do que eu tive em alguns hotéis. E fica todo cercado de árvores, em um bairro residencial super tranquilo. Lógico que é mais afastado. Pegando a Jubilee Line, depois de Swiss Cottage, quase Zona 3. Mas eu não pude resistir em soltar um sorrisinho e agradecer milhões de vezes ao astral quando cheguei aqui. É como ficar em Londres, sem ter a loucura da cidade grande. Eu sou mesmo muito sortuda e abençoada, porque tudo o que eu peço a vida se encarrega de mandar. Quando quero dar uma volta, o metrô é do lado e dá para passear, ver lojas, etc. E quando eu quero ficar ostra, o hostel tem bastante espaço e áreas comuns. Wi-fi para todos os lados, um bom lounge, um bar legal, mesa de bilhar. Os dias aqui tem estado com cara de outono/ inverno em São Paulo. Garôa fina, nada de Sol. Aquele friozinho gostoso que dá vontade de ficar na cama e assistir DVD com pipoca. Então eu estou pegando leve. Vou correr no parque aqui perto. Me entupo de canecas de café. Escrevo. Escrevo. Exatamente o que eu queria fazer. Ainda não sei se continuo ou não em Londres. Se vou ou não para o interior. Mas por enquanto está confortável ficar aqui. E eu não passo de uma preguiçosa folgada. Fico sempre onde está confortável.


Ah, para vocês verem: http://www.hillspringlodge.co.uk/

quinta-feira, 15 de julho de 2010

RUN LOLA RUN

*aquele pontinho no fundo sou eu correndo da tempestade de raios em Gorges du Verdon.

Eu comecei a correr com 28 anos. Quase seis anos atrás já. Um dia acordei, olhei no espelho e tinha uma boêmia lá. Olheiras profundas reforçadas pelo rímel da noite em claro. Inchada de cerveja. Uma ressaca moral de virar o quarteirão. Daí tocou uma sirene na minha cabeça. “Atenção Senhores Passageiros: Última chamada para quem quer chegar aos 40 inteirona. Embarque imediato.” E foi ali que eu decidi que ia embarcar e mudar todo meu estilo de vida. No começo foi bem radical. Sumi da noite, entrei em uma dieta espartana. Desinchei 7Kg, e em poucos meses já estava correndo 4Km todos os dias. Nunca tive a intenção de correr exatamente. Comecei caminhando. Eu grunhia, de tanto mal humor. Pensava em desistir todos os dias quando o relógio despertava. Mas como a gente sabe que perspectiva é tudo (e MH sabe das coisas!), falava para mim mesmo que eu só precisava fazer aquele dia. Um dia de cada vez. (AH! A gente precisa se tratar como uma dependente química de vez em quando.) E fui andando, andando. Bufando e andando. Até que andar ficou fácil. Então eu comecei a correr e andar. Correr e andar. Até que um dia eu só estava correndo. Acordava, caía na pista e corria. Meus dias começaram a mudar completamente. Era nítido. Eu tinha os melhores dias quando acordava cedo e corria. Como a motivação estava em alta, me matriculei e frenquentei direitinho uma academia pela primeira vez. (Até então eu era a tradicional turista. Sempre me matriculava, ia duas semanas e sumia, perdendo cheques que eram depositados todos os meses por donos de academias felizes!) Nessa época também resolvi participar da minha primeira corrida de rua. A Nike 10K. Essa é uma corrida bem legal. Rola no mesmo dia, em várias cidades do mundo. Tem um clima bem festivo, muita gente bonita e animada. Mas até aí, eu nunca tinha corrido 10K na minha vida e estava com medo. Comecei a treinar, conversava com o professor da academia. Na véspera bateu um medinho. Quase desisti. Meu professor me ligou no celular e me deu um dos maiores sermões que eu já ouvi. “Tá louca? Você está treinando há tanto tempo. Se esforçou tanto, tá preparada. Vai desistir porquê? Por que é boba?” Então eu fiquei com vergonha, acordei no domingo cedo, amarrei bem forte os cadarços dos tênis e corri 10K. O mais incrível? Foi fácil! Conforme eu cruzei a linha de chegada, mesmo cruzando depois de milhares de outros corredores, não importa. Quando eu cruzei a linha de chegada, eu tinha conseguido aquilo sozinha. Eu tinha me proposto a fazer uma coisa e conseguido. Daí para virar rata de academia foi um pulinho. Durante um bom tempo eu acordava 5h30 todos os dias. Corria 8K, fazia musculação, aula de jump, step, GAP, abdominal, alongamento. Ficava pelo menos 3 horas na academia todos os dias. Tive o melhor corpo da minha vida. Sério! Dá vontade de chorar só de lembrar. Sabe aquelas barrigas tanquinho? Eu tinha! Comprei até um biquini de lacinho branco. Tamanho P. Mas acho que o segredo é encontrar a medida das coisas. Encontrar o equilíbrio. E eu não queria ser boêmia barriguda, mas também não queria ser rata de academia. Então fui fazendo adaptações. Liberando a dieta, cancelando academia. Voltando a sair mais vezes. E o que sobrou foi onde eu comecei. A corrida. Verdade que eu não tenho sido das mais disciplinadas. Não tenho corrido nada durante a viagem. Mas correr faz parte da minha vida, mesmo quando eu não tiro os tênis da mochila. Como agora estou querendo dar uma pausa e resgatar o que é importante para mim (para ver se eu me acho no meio de tudo), a primeira coisa que eu fiz chegando em Londres foi retomar a corrida todos os dias. Estava em um hostel em frente ao Hyde Park. Era só atravessar a rua. Então eu acordei e fui correr. Dava a volta na Serpentine olhando os cisnes descansando nas margens. Eu e todos os londrinos saudáveis, com seus Ipods e cachorros a tira colo. E o resultado é que esses dias têm sido muito mais produtivos do que todos os outros até agora. A corrida é um elemento essencial de saúde para mim. Me aterra, me deixa mais calma. Mais confiante. Relaxada. Aprendi muito correndo. Aprendi a ser tartaruga. Que sempre vai dar vontade de desistir, mas daí a gente lança mão da filosofia da tartaruga e da lebre “Devagar e sempre!”, então eu vou no meu ritmo e tento me manter constante. Aprendi que eu posso sempre me superar. Que a sensação de chegar no final faz a gente se sentir capaz de qualquer coisa. Que os momentos em que eu passo com meus pensamentos, enquanto meu corpo corre, são os em que eu estou mais consciente em todo o dia. Que muitas vezes é dolorido, ou exaustivo, mas passa. Sempre passa. E a endorfina se espalhando pelos músculos quando a gente termina uma corrida é sublime. Que eu não preciso ser a melhor, ou a mais rápida, ou a mais resistente corredora do mundo. Que não adianta colocar metas absurdas (Vou correr 10K em 35´!!!), porque as conquistas são feitas aos poucos. Um pacinho de cada vez. Não estou dizendo que corrida é o melhor esporte do mundo, ou que “Só a Corrida Salva!”. Só que, correr funciona para mim. Cabe na minha mochila. Tem épocas que corro sempre, tem épocas que rola uma preguiça. Mas nos últimos seis anos, com tudo o que eu mudei, que eu fui e deixei de ser, a corrida é sempre uma constante. E cada vez que eu me entrego a ela, sinto minha vida mais inteira. Então agora que eu estou em um gap. Que eu não sei direito o que fazer ou para onde ir. E que meu coração está na Irlanda. Tem sido uma salvação encontrar a corrida novamente. Porque ela me ajuda a ter certeza de que vai passar. E depois, é nesses momentos em que a corrida fica “pesada” que a gente conquista o melhor trabalho cardio-vascular.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

SHAKESPEARE AND COMPANY

Pois é. Eu estou em London, mas a Shakespeare and Company que eu quero falar fica em Paris. É uma dessas dicas legais que a gente só ganha porque está com um guia. A fofa do Free Tour de Paris que nos levou lá. Essa livraria fica no Quartier Latin, do lado oposto ao rio da Notre Dame. O fundador, Sr. George, mochilou por anos pela América do Sul e sempre ficou tocado com a hospitalidade das pessoas que ofereciam hospedagem e comida para ele. Quando voltou à Paris ele abriu uma livraria, e resolveu devolver o favor. Hospedando escritores e artistas. No andar de cima, no meio das prateleiras, tem essas camas onde mais de 50 mil escritores repousaram suas cabecinhas pensantes durante a noite. Figurinhas como Henry Miller, Anaïs Nin (meu casal favorito) e Allen Guinsberg viviam por lá. Nessas prateleiras também ficam livros que não estão à venda, e contam um pouco da história da livraria. Uma delícia se perder entre os volumes e ver as dedicatórias escritas nas folhas amareladas pelos autores à Shakespeare and Company. Tem também um piano e uma máquina de escrever antiga, que fica à disposição dos clientes. Entre, escreva o que quiser, pendure na parede. Faz tudo parte do clima de liberdade de expressão que se respira por ali. Hoje a livraria é comandada pela filha do Sr. George. Há ainda um festival realizado todos os anos. Eu, que sou empolgada e penso muito pouco antes de fazer qualquer coisa, já queria me inscrever e ficar por lá mesmo. Mas S é ponderado, e não me leva à sério (Sorte dele!). Só virou para mim e disse “Tem certeza que você quer passar meses dormindo aqui, no meio de estranhos que nem devem tomar banho?”. Baixou a princesinha e eu deixei o projeto para os autores atormentados dos anos 50. De qualquer forma, a gente baba. Vai o link:
http://www.shakespeareandcompany.com/


Se inscrever no newsletter não arranca pedaço.

FREE TOUR

Eu falei do Free Tour em Paris e resolvi fazer o de Londres também. Pena que só exista Free Tour na Europa. Acho uma idéia tão genial. Os guias são divertidos, bem humorados. Eu sempre fico impressionada com a quantidade de informações e a precisão que eles dão para a gente. Eles respondem qualquer pergunta, por mais esdrúxula que você resolva fazer. Sempre misturam fatos históricos com fofoquinhas que a gente adora saber. Tipo, a vez que o Palácio de Buckingham foi invadido por um bêbado irlandês (Eu sei. É pleonasmo.) que ficou meia hora conversando com a Rainha, sentado na cama dela, até que ela conseguisse chamar a segurança. Contam as deliciosas citações de Winston Churchill, e dão pinceladas de cultura inútil no meio do caminho. Curiosamente são essas informações que a gente acaba guardando depois (Você sabia que os pelicanos de St. James Park comem pombos???). O melhor é que é assim. Você não precisa agendar, só aparecer no lugar marcado todos os dias. E paga quanto quiser no final (se quiser). Quem estiver planejando um pulinho pela Europa vale checar o site:

http://www.neweuropetours.eu/

Minha dica pessoal: geralmente tem bastante gente, então eles dividem em vários grupos. Tente ficar com os guias mais esquisitos, que se vestem estranho, em vez dos gatinhos. Os esquisitos são mais engraçados, empolgados e cultos. ;-) E uma vez que o tour começar, grude no guia. Vá andando de um ponto ao outro ao lado dele, fique próximo nas paradas. Além de ouvir melhor (muitos deles não sabem projetar a voz e vivem roucos), você vai puxando conversa e ganhando várias dicas de lugares, bares, restaurantes ou o jeito de assistir aquele show imperdível por um terço do preço.

E para quem não acredita que pelicano come pombo, segue aqui embaixo o vídeo do youtube. É um pouco longo porque dá trabalho pro bichinho, tá achando o quê? Mas é divertido. Parece desenho animado.

terça-feira, 13 de julho de 2010

LONDON CALLING 2

Meu primeiro dia de volta a Londres. Adivinha só o que eu fiz??? (Ah, Y vai me matar!) NADA! Necadipitibiriba. Ando tão cansada, que tudo o que eu fiz foi arrumar um monte de fotos no computador, escrever um pouco, atualizar alguns registro, um pouquinho de trabalho.E assistir um monte de filme no lounge do hostel. Para não dizer que eu não pisei na calçada, eu saí para comprar um sanduiche no supermercado e um caramel macchiato no Starbucks. Só. A França é tão cara que a primeira coisa que eu pensei quando cheguei aqui foi “Deus! London é barata!”. Daí dá para a gente ter uma idéiade como eu ando sem referência nenhuma. Ainda não sei o que vou fazer, se vou ficar por aqui. Para falar a verdade estou evitando pensar. Eu precisava sair da Comunidade Européia. Nada demais. O visto de turista permite que você fique 90 dias na Comunidade Européia. Eu estou bem mais do que isso. Pensei que quando eu saísse para o Marrocos essa conta fosse zerar, mas quando passei pela imigração em Madrid denovo, me explicaram que são 90 dias em 180. Na verdade verdadeira não pega nada, mas eu não estou afim de arriscar. E como existem alguns lugares que não entram na conta da imigração e eu ainda quero visitar, resolvi seguir para cá. Lógico que se o curso de Escrita Criativa tivesse rolado tudo seria mais fácil. Mas uma coisa às vezes não é boa, nem ruim. É apenas diferente. E eu ainda estou aqui tentando descobrir o que fazer de diferente. Uma possibilidade é assentar por aqui durante um tempo. Não é nem um pouco difícil ficar em Londres. Outra (que é a que eu quero mais) é procurar algum buraco no interior da Inglaterra e fica por lá um tempo. Eu gosto mais dessa hipótese. Ando bem cansada de cidades grandes. De ter de fazer coisa. De conhecer lugar. Ando louca por um pouquinho de rotina. Ficar em um lugar que não tenha nada para fazer. Acordar, dar minha corridinha. Escrever. Contemplar. Gosto muito de ócio e contemplação. E depois eu cheguei à conclusão de que, vai ser muito difícil me encontrar pulando como uma macaco de lá para cá. Com tanto barulho por todos os lados. Até o final de semana fico em London. Em hostel. O que não é propriamente silêncio. Enquanto escrevo isso tem um bando de pós-adolescentes, todos por volta dos 25 anos. Assistindo “Jackass 2”, tomando cerveja e dando risada a minha volta. Eu amo muito Londres. Mas acho que vai ser bem difícil ficar aqui agora.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

COISINHAS DE PARIS

Mega onda de calor esses dias. Tirando sábado, que estava abafado e quente, mas um pouco menos quente, então deu para a gente passear sem ter vertigem de desmaios. Todos os outros dias foram de um calor abominável. Isso quem está falando é uma paulista que nasceu para ser nordestina, de tanto que sou sensível ao frio. Os relógios eletrônicos na rua avisavam para a população ficar em alerta, e redobrar a atenção com crianças e pessoas de idade. Paris é pouco afoita ao ar condicionado. Culpa dos terraços, das mesinhas nas calçadas. Das portas de todos os restaurantes e bistrots escancaradas para o dia que nunca acaba. Resultado que a gente acabou comendo muitas vezes em redes de fast food. Só porque lá tinha ar condicionado. É também mais barato. Bem mais barato. €4 por uma garrafinha de Coca-Cola é caro. Mais caro ainda é €2,5 por um simples café espresso. Se enfrescar e pedir cappuccino, ou mocha, daí sobe para €5. Comer no terraço é charmoso, mas é mais caro. E nem se come tão bem assim. Não com o orçamento viajante da gente. Precisa ficar esperto com a bolsa. Muito trombadinha nas mesas nas calçadas. Também as mesas são bem minúsculas. Certamente a pessoa da mesa ao lado vai estar com o cotovelo no seu peito, e fumando em cima da sua comida. E o serviço é revoltante. S está acostumado aos USA, onde a excelência do serviço determina a gorjeta. Eu sou paulistana. A gente sempre é bem atendido em restaurante paulistano. Então a hora das refeições eram meio estressantes. Virou piada. Mas a coisa é bem assim: os garçons não estão nem aí. Talvez seja essa a fama de grossos e metidos que as pessoas tem dos parisienses quando vêm para cá. Não adianta levar para o pessoal. Não é nada com você. O serviço é ruim mesmo. E ponto.

O hotel que a gente ficou era terrível. A gente tem uma limitação de orçamento. Não queríamos gastar mais de €40 por cabeça. Não tinha ar condicionado, o encanamento era velho. O segundo quarto para o qual nos mudaram tinha bed bugs, e eu estou parecendo que tenho catapora agora. S ficava teimando que estava cansado de ficar procurando hotel, e amaldiçoando as paredes do quarto. E nessas horas é que pesa a gente não se conhecer tão bem assim. Eu fui aguentando, porque não sabia como ele ia reagir. Até que tudo tem limite e decidi. Mudamos de hotel, mesmo perdendo diária. Corri para o primeiro Ibis que achei. Virei para S e avisei “Agora sou eu quem decide. Vamos fazer do meu jeito e pronto”. Ele empacotou a mochila e foi meio resmungando. Pagamos um pouco mais por cabeça, mas dormimos bem, com ar condicionado e internet decente. Ele passou os dois últimos dias me agradecendo por termos mudado de hotel. Mas não pense que foi azar o hotel não. Viajar com pouco orçamento para Paris é quase sinônimo de ficar em uma pocílga. Encontramos casais que estavam em situações piores e mais revoltantes. Uns canadenses nos disseram ontem que estavam pagando €30 por cabeça, para ficar em um hostel, um quarto minúsculo e escuro, cheirando à mofo, com banheiro compartilhado que ficava do outro lado do corredor. E o quarto ainda ficava no sétimo andar. Não tinha elevador.

Brasileiros. Estão por todos os lados, em todos os lugares. Parece uma invasão. Algumas vezes até me esquecia que estava na França de tanto ouvir o português com nosso sotaque. Todos os restaurantes, tours, atrações, cafés. É impossível não notá-los. Famílias, adolescentes, grupos e mochileiros. Parece que nós todos amamos Paris. Mais um motivo para eu ficar revoltada de nenhum, NENHUM, folheto de informação nos pontos turísticos virem com tradução em Português. No Louvre você tem à disposição o guia do museu em cerca de 10 línguas diferentes. Mas não em Português. Têm até em holandês! Holandês!!! Ah, vamos combinar? Quantas pessoas no mundo falam Holandês??? O Português é falado por muito mais pessoas no mundo todo (e considerando a quantidade de brasileiros tirando fotos da Monalisa, aposto que a saída de folhetos em português seria maior até que a de espanhol).

Louvre aliás, não vale à pena. Ok! Ok! Eu sei. Parece blasfêmia. Mas não vale. Tem fila. É caro. É cheio de coisa que nem tem graça. Você se mata o dia inteiro, anda, sobe escada, se engalfinha com gafanhoto. E no final, tudo só para ver a Monalisa, a Vênus de Milo e uns dois quadros do Veermer (que nem são os mais icônicos). Sabe o que é melhor? Senta em uma das fontes em volta da pirâmide, tira os sapatos e se refresca na água. Depois vai no Musèe D´Orsay (que eu acabei não indo, porque cansei tanto no Louvre e fiquei de bode de museu por um tempo). Bem que a guia do Free Tour tinha aconselhado. “Se você tiver de escolher apenas um museu para ir em Paris, vá ao D´Orsay”. Eu sou teimosa e não ouvi.

Mas se é para ir em algum lugar óbvio. Algum lugar bem gafanhoto. Então é a Torre Eiffel. Que podem dizer o que quiserem, mas é a Torre Eiffel. Eu tirei acho que umas 200 fotos dela. Linda. De noite ela brilha. Solta faíscas. A gente até deitou bem no meio, e ficou olhando para cima. Verdade que tem um monte de coisa que não é perfeita. Que a cidade não é a mesma dos meus escritores dos anos 30. Nem dos meus filmes dos anos 60. Mas é ali, olhando a Torre, que Paris é Paris. E nesse sentido, eu vou ser cafona até dizer chega!

domingo, 11 de julho de 2010

BYE BYE PARIS...


Acho que o que eu mais gostei em Paris foram as Catacumbas. A fila era insana, mas a gente ficou conversando e acabou passando rápido. Então você desce mais de cem degraus de uma escada em caracol e passeia por ruas subterrâneas que guardam um número impressionante de ossadas da época da peste. S estava tão empolgado para ver, que parecia um menininho. “I want to see Dead French People. Dead French People.”À primeira vista é bem impressionante. A quantidade de caveiras e o número de ossos... Rola um arrepio na espinha. Depois a gente acostuma. E os ossos estão todos empilhadinhos. Com as caveiras formando desenhinhos nas paredes. Bem doente esses franceses. Fazer desenhinho com caveiras de verdade? São 2Km de corredores gelados e úmidos, que seriam cenários perfeito para brincar de RPG (do tempo que eu era adolescente e Nerd).Depois de ter acostumado, eu ficava fazendo voz de criança e cantando musiquinhas infantis para assustar S. Funcionava! Depois a gente pegou o metrô e ficou abraçado nos Jardins de Luxembourg, que são lindos e roxos. E tinha todos os parisienses nos gramados aproveitando o verão e o sábado. Eu gosto muito dessa atitude européia. Todo mundo vai para os parques, se espreguiça nos gramados. Muitos picnics, vinho e música. Parece que o mundo inteiro está ao ar livre. Muito gostoso. Eu morava ao lado do parque mais gostoso de São Paulo, e não tinha muito disso não. Um desperdício. Agora estou empacotando para ir para Londres. Vou ficar em um hostel ao lado do Hyde Park e tenho planos de aproveitar muito o verão por lá também. Pois é, acabou. Eu aqui falando de "french dead people" e de "gramados no verão", só para ignorar que nesse momento estou sozinha no quarto do hotel. Fim oficial do test drive. O vôo de S para Dublin era mais cedo hoje. Eu vou de Eurostar no final da tarde para Londres. Eu estou completamente esmigalhada de ter de me separar dele. A gente acordou muito cedo hoje. Nenhum dos dois conseguiu dormir muito bem. Ficamos abraçados por horas. Eu ouvindo o coração dele. Ontem ele me levou para jantar em Montmartre, prometeu que vai assistir Amélie Poulain por mim. E eu cheguei a conclusão que não moraria em Paris. É linda. Vou voltar milhões de vezes na minha vida. Mas não moraria aqui. Não sei porque. Não sei dizer. É só que estou buscando algo mais calmo, mais seguro. Mais estável. Também não sei como voltar de onde eu vim... Mas isso não é coisa para se pensar agora. Agora eu estou sozinha denovo. Depois de um mês acordando com S ao meu lado. A única coisa que consigo pensar é como algum dia eu consegui acordar sem ele ao meu lado. Enquanto ele fechava a mochila, eu desabei. Olhava a cena com as lágrimas caindo, sem conseguir fazer nada. Ele, que é menino e não chora, e que tem dificuldade de mostrar emoções, me olhava quieto com os olhos vermelhos. Me beijou. Me beijou denovo. E quando estava na porta, eu o chamei e ele voltou para me beijar mais uma vez. Me abraçou e disse “Eu não sabia que seria tão difícil ir embora”. Eu também não.

sábado, 10 de julho de 2010

HEAT

Eu reclamo da temperatura o tempo todo. Ou porque está muito frio, ou muito calor. A única coisa que tenho vontade de fazer hoje é ficar parada, pelada, com a janela aberta. Hoje não está dando nem para reclamar. A voz não sai. Pelo menos no Brasil a gente tem aquela típica chuvinha de verão para dar uma refrescada no fim do dia. Aqui o tormento se arrasta até 21h30, quando ainda tem luz de dia. Paris é romântica, mas não tem dado para tocar um no outro. Os dois derretendo. Uma pena, porque tem algumas coisas que eu gostaria de fazer pela cidade antes de ir embora. Adoraria bater perna pelo Marais, me perder mais pela cidade, andar de bicicleta. Mas não dá. É completamente inviável. A gente leva uma garrafa de água para a rua e em meia hora ela já está morna. Morna de verdade. Outro dia S até jogou uns saquinhos de chá dentro da garrafa e deu certo. Para ajudar ontem a gente foi no Pub Crawl. Também é um tour organizado nas principais cidades européias. Basicamente um bando de molecada de 20 e poucos anos, seguindo uns guias loucos de bar em bar. Em cada bar a gente tomava um pint e ganhava um shot. Lógico que isso não é uma boa idéia, e é lógico que a gente ficou muito bêbado. Loucura mesmo foram as coincidências da noite. Reencontramos um australiano que tínhamos conhecido no hostel em Nice. Uma garota me reconheceu de Veneza (Bizarro! Ela disse que lembrava de mim, compenetrada, torcendo para o Brasil no Pub... Isso foi há quase um mês atrás, no exato dia que eu e S nos encontramos em Veneza...). E a única brasileira que também estava no grupo, era a garota que deixou Florence na roubada no Carnaval na Ilha do Cardoso. (Isso foi ainda mais bizarro!!!) Mas apesar de tantas coincidências a gente acabou ficando a noite inteira com um casal de dinamarqueses da nossa idade, e fofos até dizer chega. Nos demos tão bem que acabamos abandonando o Pub Crawl na última casa noturna e sentando em um bar para bebermos mais irresponsavelmente o resto da noite. Estou colecionando amigos pelo caminho. Acabo conhecendo um monte de gente, mas tem sempre algumas pessoas que a amizade bate mais forte. A gente acaba cultivando e mantendo o vínculo depois. Eles, com certeza, vão ser um desses. Uma hora que os dois estavam comprando bebidas no balcão, S me disse que ele ia pedí-la em casamento. Quer coisa mais fofa? Fofo mesmo foi a realidade batendo na cara da gente de manhã. Um dia de ressaca e uma sensação muito forte de estarmos velhos. Fomos visitar o túmulo do Jim Morrisson. Não consegui encontrar o da Piaf, porque o cemitério parecia um labirinto e a gente não tinha um pingo de força física. O metrô é uma tortura. Cheio, velho. Bem fedorento. Parece que ninguém toma banho nessa cidade. Punk! Verdade que é prático e te leva para exatamente qualquer lugar da cidade. Mas precisa estar preparado. Atravessar a cidade dentro daquelas caixas de metal abafadas, sem ventilação. Será, certamente, um dos piores tormentos que você vai experimentar na vida. Agora estou deitada, pelada e não entra nem um ventinho pela janela. Para variar sem conexão de internet. Ainda tenho de fazer reserva em algum lugar para dormir em Londres. Comprei minha passagem do Eurostar hoje cedo. Uma fortuna, doeu no bolso. Domingo eu vou para Londres. S vai para Dublin. Fim do Test Drive. Estou evitando pensar nisso. Acho que vai ser muito bom para nós dois ficarmos um tempo longe depois dessa overdose um do outro. Vai ser bom sentir saudades. Eu resolvi pular de cabeça só agora. Só depois de quase um mês. Parece bobeira, mas não é. Estou calma. Algo me diz que está tudo certo. Tudo perfeito. Vai ser o fim do Test Drive, mas o começo de uma outra coisa. Vai ser triste não ter ele por perto todos os dias. E para falar a verdade não conversamos muito sobre “depois de domingo”. A gente sabe que vai se encontrar denovo. Não sei onde, nem exatamente quando. Mas vamos nos encontrar. Sinto que agora já nos pertencemos. Um ao outro. E quando é assim, a distância não muda nada.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

BORBOLETAS EM PARIS

Me joguei em Paris. De alma aberta. Respirando, sentindo, cheirando. Fizemos o Free Tour como introdução. Eu tinha feito em Dublin, e as maiores cidades sempre têm. O Free Tour é um bom jeito de se introduzir a uma cidade com tantas coisas. Como o próprio nome diz, é um tour gratuito. O guias trabalham apenas pelas gorjetas dadas ao final. Geralmente são universitários, descolados, gentis e engraçados, que saem andando com um grupo pela cidade e contando curiosidades, fatos históricos e todos os detalhes de cada monumento. E ainda te dão um monte de dicas, como por exemplo, uma entradinha secreta para o Louvre para evitar as filas, ou os lugares onde os parisienses fazem picnic durante a semana. O verão chegou com tudo aqui na França. Foram 3h30 de free tour embaixo de um Sol de rachar! Depois sentamos em um café (também sugestão da guia, onde dava para tomar vinho e comer queijinhos por um valor acessível no coração de Paris) e ficamos conversando com algumas outras pessoas do tour. De lá, fui fazer a coisa mais obrigatória em Paris. Eu sei. É coisa de gafanhoto, chega até ser cafona de tão óbvio, mas eu fiz S me levar até a Torre Eiffel. Na verdade ele estava mais empolgado do que eu. Tinha me proibido de subir na Torre sem ele. Primeiro compramos um vinho rosé gelado e uma caixa de framboesas. Deitamos no gramado e improvisamos um picnic nos pés da Torre. Depois subimos. À pé. Pelas escadas. Porque a gente acha que não tem graça nenhuma vir à Torre Eiffel e não subir pelas escadas, não sentir embaixo dos pés cada centímetro daquela maravilha. Tiramos fotos fazendo caretas, fizemos um monte de piadas. Depois corremos para o telão que fica em frente e tem passado todos os jogos da Copa. Eu que disse que não ia mais ver Copa, acabei gritando e torcendo com um monte de espanhóis, só porque foi na Espanha que eu e S nos conhecemos. E de lá, a gente se perdeu. Ficamos igual bobos olhando a Torre iluminada, linda, brilhando. E nos perdemos pelas ruas, virando pelas esquinas charmosas. Pelas mesas dos cafés, todas nas calçadas. Pela magnitude do Arco do Triunfo alaranjado de luz. Caimos não sei como em um restaurante tailandês. Comendo maravilhosamente, trocando algumas confidências e descobrindo que nossos passados também têm muito em comum. Que éramos adolescentes bem parecidos, e talvez seja uma pena não termos estudado na mesma escola... Dá um frio na barriga. Um pouco de medo de me perder. A gente tem tanta coisa diferente, mas tanto mais em comum... Eu, que estava durona, que estava até cética com esse Test Drive. Cheguei à Paris achando que não havia muito mais o que descobrir. Mas Paris é tudo, menos óbvia. Menos cética. Menos dura. Eu que procurava tanto as borboletas, resolvi naquela noite. Sentada em um restaurante tailandês. Que não era frio o que eu sentia na barriga. Eram elas mesmas. Estou em Paris, e estou pulando de cabeça.