segunda-feira, 29 de julho de 2013

EU, VOCÊ E TODOS OS OUTROS



Ontem fez um domingo lindo de Sol. Ainda está muito frio em São Paulo, mas o Sol faz o dia ficar mais bonito. Adoro esses domingos de inverno. Correr no parque de moletom, comprar o jornal e tomar chá bem quente com leite. Já falei em outros posts o quanto adoro correr no Ibirapuera. Tenho uma relação bem intensa com esse parque. Sinto saudades de morar mais perto, poder ir ao parque todos os dias. Respirar as árvores, olhar as pessoas. Organizar meus pensamentos e viver mais essa cidade ao ar livre. Agora morando em Pinheiros as corridas matinais passaram a ser na academia do prédio. O parque só mesmo aos finais de semana. Quando eu me junto à população que vem dos bairros e ocupam o parque, cada tribo ao seu estilo. Ontem o parque não parecia domingo. Sem aquela movimentação frenética, alamedas cheias, ciclovia lotada. Apenas os frequentadores de sempre, praticando esporte, passeando com suas famílias, entretendo os cachorros. Me faz tão bem estar no meio da natureza, a energia de quem se gosta e cuida de si. Eu chamo isso de qualidade de vida, e me sinto bem privilegiada de poder ter isso na minha cidade. Enquanto eu corria ia observando as pessoas. Pessoas são curiosas. São lindas. E no parque vemos pessoas de todos os jeitos. Altas, magras, tortas, atarracadas, carecas, cheias de pêlos, atléticas, siliconadas, sorridentes, carrancudas, pessoas perfeitas, assoberbadas, deficientes, obesas, apaixonadas, sozinhas, comunitárias. São tantos tipos de pessoas, e o mais maravilhoso, não existe nenhuma igual a outra. Acho isso algo realmente formidável. Em todo o mundo, de todas as pessoas que já nasceram, morreram e ainda vão nascer, não existe ninguém igual a nós. Somos únicos, irrepetíveis. Pensando assim é sempre uma benção conhecer alguém. É a única oportunidade em toda a história da humanidade de você conhecer alguém como aquela pessoa. Talvez se tivéssemos mais consciência do quão raras as pessoas são, não desperdiçaríamos um segundo do privilégio de tê-las. Vale para nós também. Eu sou uma pessoa única, exclusiva. Nunca existirá ninguém no mundo com as minhas característica físicas e psicológicas, e o privilégio de me ter, de ter a minha companhia é raro e exclusivo para essa vida, para esse lugar em que estou. Engraçado como, apesar de desfrutarmos dessa vantagem valiosíssima, nos esforçamos tanto para camuflar exatamente o que nos torna especiais. Fazemos tanta força para nos tornar mais um, iguais. Usamos as mesmas roupas, mudamos a cor e a textura dos cabelos, adquirimos vícios de linguagem. Até que nos tornemos cópias mal-feitas uns dos outros. Até que nossas essências pessoais desapareçam no perfume de uma imagem social pré-estabelecida. Porque fazemos isso? Porque é tão apavorante sermos únicos? Porque temos tanta necessidade de mudar o que somos para parecermos o que não somos? Eu me entedio com o óbvio. Me entedio com a imagem produção em série. A beleza se revela na diversidade, na diferença. Naquilo que temos e ninguém mais tem. Então a gente pega todas essas coisas maravilhosas, únicas e exclusivas que temos, e levamos para correr no parque, para passear por aí. Por mais que os olhos hoje busquem a maquiagem genérica da mesmice, ainda acredito em olhos ávidos por aquilo que é raro e belo de verdade. 

sábado, 27 de julho de 2013

SONHOS




Andei pensando ultimamente sobre os sonhos de vida. Quando eu era mais nova eu tinha muitos sonhos. Uma vontade gigante de ser e fazer. Parecia sempre que o mundo não era suficiente. Aos poucos essses sonhos foram enfraquecendo, mudando, até que acabaram. Tenho sentido há alguns anos que não tenho um grande sonho. Uma grande vontade. Será que é um sinal da tal maturidade? Enquanto envelhecemos vamos perdendo a utopia de fazer algo significante na vida? Eu escrevo, é verdade. Não tanto quanto gostaria. É minha válvula de escape. Mas por mais apaixonada que eu seja por literatura, escrever não é um desafio para mim. É orgânico. É o que eu sou. Não é algo que eu anseie ou busque com uma vontade descabida. É algo que eu possuo e sei que jamais vai me abandonar. Então como fica a necessidade de se realizar? De conquistar algo com esforço? De estabelecer um objetivo inalcançável e conquistá-lo apesar de tudo e todos? Em que momento a vida entra no piloto automático? Quando foi que a gente se acomodou na zona de conforto até o ponto em que não se enxergar mais as fronteiras dos que nos maravilha? Já saí pelo mundo buscando ser maravilhada, mas ainda preciso descobrir como fazer isso nos limites da minha casa. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

FASES


Essa semana terminei mais uma fase conturbada. Dá uma exaustão encerramento de fase. A gente fica meses respirando fundo, tirando força do útero e dizendo para si mesma que é só uma fase. Ajuda a passar os dias. É como fazer natação. Depois de uma hora na piscina, fazendo uma série interminável, os braços doem, o fôlego some e a gente pensa “só mais uma piscina”. Essa frase acessa uma carga de bateria extra, aquele tanto de gasolina depois que a luzinha no painel acendeu. Eu nado. Consigo dar as braçadas. Mais uma piscina. Mais um dia. Mais uma fase. Depois o cansaço se apossa do corpo. A exaustão toma conta da alma. Sinto necessidade de colo, de silêncio. De ficar dias deitada no sofá até acreditar que passou, que acabou. Que eu sobrevivi. Eu tenho sobrevivido fases desde o começo do ano. Tantas fases que elas começaram a se cornubar. Uma fase em cima da outra. Eu termino uma, mas ainda estou no meio de outra. Não tenho conseguido colocar a cabeça acima da água para respirar. Uma sacanagem já que eu estou vivendo as coisas mais legais que já me aconteceram, e as fases mais tensas ao mesmo tempo. Tremenda sacanagem dos roteiristas da minha vida. Intensificando os conflitos, estabelecendo o clímax do herói. A gente sabe que depois de toda a provação vem a redenção. Mas antes tem mais uma fase. É só uma fase. Mais uma piscina para nadar. Tem mais força aí para arrancar do útero, e você sente até vergonha de estar miguelando com a vida quando descobre todo novo dia que consegue dar mais. Eu dou mais. Mais um dia. Mais uma fase. E for isso? Se a vida toda for só uma fase? E se no final a gente só sobrevive e acaba desfalecida no sofá de casa? E se a calmaria é só uma ilusão que contam para a gente conseguir nadar mais uma piscina? E se essa piscina nunca tiver fim? Não vai existir momento posterior de calma e tranquilidade para viver. Ou eu encontro a força - mais força - para me sobrepor às fases agora, ou vou afogar no meio da raia, sem nunca encontrar a borda. Hoje vou aceitar a vitória de ter sobrevivido mais uma. Com os óculos embaçados e cãimbras na panturrilha, buscar ar na superfície e continuar. Mais uma piscina.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

VAMOS DESENHAR...

Para quem não está entendendo nada:

sexta-feira, 10 de maio de 2013

RENASCIMENTO

Nos últimos meses duas matérias sobre experiências que eu vivi foram publicadas na Vida Simples. Foram duas revoluções na minha vida, tanto pela experiência em si, quanto pela repercussão das matérias. Recebi uma enxurrada de cartas, elogios, comentários, convites. É um sentimento de estranhamento muito intenso. Existe uma distância entre o ideal e o real, e quando se quer muito uma coisa, e se prepara e se persegue essa coisa, quando recebemos respostas é um pouco surreal. Não cai a ficha direito de que, talvez, eu esteja cruzando a fronteira entre o tentar e o realizar. Já disse isso aqui: eu escrevo. Acho que é a única coisa que faço bem. A única coisa que me faz sentir inteira, completa. Então quando a Ana, minha editora, me mandou por email a carta dessa leitora, eu desabei em lágrimas.  Meu peito ficou pequenino para o meu coração. Eu faço um milhão de coisas erradas. Me estapeio todos os dias para tentar ser uma pessoa melhor. No geral, estou perdendo a guerra. Mas pelo menos nessa batalha, acho que estou ganhando. :-)




Meu nome é Rita e já faz um tempo que sou leitora da Vida Simples. Amo a forma como esta revista aborda temas variados como sustentabilidade, arte, gastronomia, atualidades e, principalmente, assuntos delicados como arrependimento, que foi a capa da última edição.

Sempre me identifiquei com os textos, mas o que aconteceu quando li o texto da Adriana Rossatti foi uma verdadeira catarse. Primeiro estranhei o assunto da reportagem, mas curiosa que sou fui em frente. A sinceridade e coragem com que ela se expôs me fascinou profundamente! Ao ler a parte ela cantando Beatles baixinho me fez rir e no próximo parágrafo eu estava chorando ao me reconhecer inteiramente quando conta sua história ao nascer (eu estava na linha verde do metrô de São Paulo e se alguém me visse ia achar que estava louca ao ir do riso ao choro em menos de dois minutos). Temos muita coisa em comum e ler o seu depoimento me fez entender um pouco mais o meu passado. De certa forma, eu também morri e renasci junto com ela e acabei me conhecendo um pouco melhor.

Nunca escrevi para vocês (nem pra nenhuma outra revista), mas foi a primeira coisa que pensei ao me recompor. Quero parabenizar a Adriana e pedir pra que ela continue escrevendo para a Vida Simples e que vocês continuem fazendo essa delícia de revista que tanto bem me faz!

Um grande abraço a todos!

Rita de Cassia Reis

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Coisas que me fizeram sorrir essa semana

1.
A singeleza da amizade entre uma criança e um cachorro.



2.
Coisas que me lembram que o ser humano é do bem.



3.
Coisas que eu não pensava desde os anos 90... AQUI



4.
Constatar a passagem do tempo.



5.
Mensagem dele no meu celular. <3

quinta-feira, 18 de abril de 2013

DIÁLOGO

EU - Não estou conseguindo subir a foto. Acho que está muito pesada para o FB.
EDITOR DE ARTE - Qual que você está usando?
EU - Tô usando a _WEB, como a gente falou ontem.
EDITOR DE ARTE - Tá com quanto.
EU - 3,5M... Acho que está muito pesada.
EDITOR DE ARTE - Deve ser sua net.
EU - Mas minha net é 10mega, não pode ser minha n.... Ahhhhh!!! Lembrei! Estou baixando a 1a Temporada inteira de Game of Thrones
EDITOR DE ARTE - É isso!
EU - Sabe como é... sou nerd. Não queria assistir, mas não consegui resistir por muito tempo...
EDITOR DE ARTE - Poxa, eu também! Tanta gente falando. Também não sei se vou resistir...

NERDS. A gente disfarça, mas sempre se entrega. <3

domingo, 7 de abril de 2013

1996 - 2013



1996
Eu tinha 19 anos, estava com o coração partido e fui ao Hollywood Rock ver o show do The Cure. Era uma pessoa ansiosa, queria fazer tantas coisas. Eu não sabia muita coisa da vida naquela época. Não que eu saiba muito mais agora, mas tenho uma visão muito mais real do que é a vida. Muito menos ilusões. Minha bagagem era pequena. Eu tinha muitos sonhos e planos para realizar. Queria viajar. Sonhava em ir para a Índia, mas o máximo que tinha chegado era a Disneyworld. Queria escrever, fazer cinema. Queria fazer trabalho voluntário, ser correspondente de guerra, grande executiva, mudar o mundo. Lia compulsivamente. Ia ao cinema mais compulsivamente ainda. Eu não sabia me expressar direito naquela época. Não sabia falar, opinar. Estava em metamorfose. Eu era magrela, tinha o cabelo armado. Sabia tocar os acordes de “Close to me” no piano (talvez por isso ainda hoje seja minha música favorita deles) e, durante aquele show, me apaixonei. O moço estava fascinado por mim. Era narigudo e tinha um sorriso lindo. Me levantou nos ombros, cantou “Friday, I’m love” no meu ouvido e trocamos de camiseta. Levei para casa a sua da “Física - USP”. Ainda demorei meses em uma paixão platônica até ficar com ele. Depois ficamos, desficamos. Namoramos, brigamos. Eu fui morar nos EUA, voltei. Ele foi morar nos EUA, voltou. Viramos vegetarianos. Fizemos yoga. Namoramos de novo. Até que eu parti o coração dele e ficamos anos sem nos falar. 

2013
Comprei o ingresso no primeiro dia de venda do show do The Cure. Ainda liguei para o moço e rimos como seria divertido irmos juntos nesse show 17 anos depois. Ele hoje é um amigo querido, está no segundo casamento e só não foi ao show porque acabou de ser papai. Eu dessa vez fui tranquila. Com o coração inteiro, sem nada para consertar. A tranquilidade de quem está conseguindo viver a vida que sonhou. Faço o que amo. Moro onde amo. Tenho amigos que amo e conheço muito mais do que a Disneyworld. Sem a energia que eu tinha em 1996, mas a bagagem necessária para assistir 3h30 de show sem nem me abalar. Ou talvez, abalada demais. Foi uma máquina do tempo. Uma viagem por memórias, momentos, sentimentos, tudo o que eu vivi nesse intervalo de 17 anos. Cada música que tocava era como se um flash involuntário na minha mente. Memórias de tantas coisas que fiz e fui. De tantas coisas que amei. Os anos de FAAP. As festas, os porres. As tarde chuvosas ouvindo “Lullaby”. As madrugadas dançando “In between days” e dublando a música com raiva para outro moço. Discussões ao som de “Push”. O carro cheio com as meninas gritando a plenos pulmões pelas janelas “Friday, I’m in love”. Dias preguiçosos no sofá do Alê ouvindo “The Caterpillar”. Estradas que se desenrolaram ao som de “Lovecats”. Sem querer estavam tocando a trilha sonora da minha vida. E foi uma danada de uma vida. “To kill an arab” me lembrando que eu estava sim, viva. Sempre. “Just like heaven”, “A night like this”, “Why can’t I be you”... São tantas, tantas lembranças. A gente sai pela vida com uma camiseta de um curso universitário na mão e anda tanto, faz tanto, que nem lembra onde ela foi parar. De repente, em uma noite, alguém vai jogando luzes em pontos da nossa trajetória e nos lembramos do caminho que percorremos. Do quanto nos transformamos. Aquelas músicas vão tomando um outro significado. Vão ficando impregnadas com nossas vivências. Viram um canal para tudo que construímos e amamos. Assim, quando estamos perdidos no meio de algum país estrangeiro, depois de muitos meses longe de casa e já sem nenhuma referência de quem somos; ouvir “Close to me” faz com que nos resgatemos. Vem com a memória de quem somos. No show, a voz de Robert Smith já não é mais desamparada também. É mais densa, mais encorpada, e ele não é mais capaz dos gritinhos. Mas ainda é doce. Não podemos nunca deixar de ser doces. Então, quando os acordes de “Close to me” tocaram, me dei conta que não os sei mais decór. Ainda não fui para a Índia. Não mudei o mundo. Não estava apaixonada. Ainda assim, tinha construído uma trajetória muito melhor do que tinha imaginado, descoberto novas formas de amar, de tolerar, de viver. Eu estou exatamente onde quero estar e isso me faz sentir inteira. Olhei no telão e ele sorria. De forma inédita, Robert Smith sorria. Ele também talvez não seja mais aquele garoto melancólico. Eu? Eu também sorria. 

terça-feira, 2 de abril de 2013

DIÁLOGOS

Diálogo com meu sobrinho de 11 anos.

"Rafa, você não falou nada sobre o meu novo corte de cabelo."
"Eu sei."
"Hum... Mas e aí? Você gostou?"
"É. Eu vou me acostumar."

Meninos: Fazendo garotas se sentirem inseguras desde a mais tenra idade. 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

MORE BOOKS, LESS LOOKS

O Alê é uma dessas pessoas que eu tenho vontade de bater. Primeiro porque a gente só sente instintos assassinos com pessoas que a gente ama muito. Segundo porque ele é talentoso até dizer chega e não produz um décimo do que deveria. Alê é um dos escritores mais talentosos que já li. Só que ninguém nunca ouviu falar dele porque o moço não publica. Ele foi uma das minhas grandes inspirações a escrever. Desde a época da FAAP, a gente ficava pelos corredores, enfiados na casa um do outro e ele escrevia de um jeito que parecia tão fácil que resolvi também enfrentar o medo. Ele tinha um livro lindo que abandonou no meio. Na época resolvi que era daquele jeito que queria terminar meus dias: escrevendo. Alê é uma dessas forças da natureza, tudo com ele é intenso. Nós tivemos paus homéricos e passamos alguns anos sem nem olhar para cara um do outro. Ele mudou para Barcelona e durante minha mochilada passei alguns dias maravilhosos com ele. Andamos por toda cidade, tomamos muitos drinks, taças de champagne. Foi tudo como nos velhos tempos. Foi lá que disse para ele que não ia esperar o fim dos meus dias para escrever. Que estava mudando tudo na minha vida e que só queria fazer isso agora. Secretamente eu esperava que ele se juntasse a mim. Que não desperdiçasse todo aquele talento somente com emails fechados para amigos. No meu livro tenho diversas homenagens a ele. 
Então ontem recebo um email dele. Que surpresa descobrir que ele está saindo da ostra. Resolveu fazer um Tumblr, e como tudo que ele faz é genial. Ele escreve suas poesias na máquina de escrever e publica as fotos. Bem old school, como só os puristas podem ser. Ainda que de purista o Alê não tenha nada, mas aí é que está sua maior virtude. Sua nada convencional genialidade. Para variar saí inspirada. Vou passar a semana em antiquários buscando uma velha Remington para mim. 
O Tumblr do Alê chama "More books, less looks", e já está nos favoritos. 


domingo, 31 de março de 2013

INTOCÁVEIS



Eu sei que estou atrasada. A Gi me chamou para ver esse filme umas 10 vezes no cinema. Sempre acontecia alguma coisa e não dava. Geralmente era minha preguiça de sair de casa, mas chegamos a ir ao cinema umas duas vezes e perder o horário. Enfim, ontem resolvi pegar no Now e fazer uma sessão pipoca particular. Que delícia de filme! No budismo sempre falam sobre o “saber apreciar o outro”. Vi muito disso nesse filme. Quando conseguimos tirar da frente nossos preconceitos, nossa bagagem cultural, nossos fantasmas e limitações, e dos outros também, conseguimos enxergar o verdadeiro ser humano. Deixando de lado toda a maluquice de cada um descobrimos que no fundo somos todas pessoas inseguras, com medo, querendo ser amada e sem saber direito como fazer isso. Mais do que isso. Somos todas pessoas capazes de um grande poder de amor. E descobrir isso no outro é ouro. Faz com que a gente rejuvenesça 15 anos. É aí que a vida acontece. Às vezes sinto que estou passando pela vida sem viver. Talvez porque são poucos os momentos que realmente paro para enxergar o outro. É um longo caminho até evoluir. Não basta apenas a meditação. A vontade de ajudar os outros. É preciso olhar, apreciar. Eu sei muito pouco disso. Mas acho que, assim como o amor, é questão de prática. 

sábado, 30 de março de 2013

NA OSTRA



Eu passo longos períodos na ostra. Outro dia um amigo meu até me falou que isso era problema de autoestima. Não é não. Gosto de ficar em casa. Gosto de ficar reclusa, sozinha. Ler, trabalhar, escrever. Elaborar planos mirabolantes. Bundar no sofá vendo besteira na TV. Ficar enroscada com a gata na cama. Fazer roteiros para minha próxima viagem. Às vezes coloco uma música e fico horas olhando pela janela. Outras, abro o aplicativo de algum jogo bobo no celular. Dependendo do que eu esteja estudando, tiro diversos livros de ordem da estante, desço todos para a sala. Vou folheando aleatoriamente. Quando canso, levanto para descascar uma fruta. Fazer um chá. Então me distraio com uma revista ou com um livro de receitas sonhando em realmente um dia fazer todas. Eu realmente gosto muito da minha casa e da minha companhia. Chego às vezes até a ficar irritada se o telefone tocar. Como se alguém estivesse atrapalhando a incrível simbiose minha comigo mesma. Hoje, no final da tarde, resolvi ir à pé até a Livraria Cultura comprar um livro de roteiro que estava faltando para minha pesquisa e um presente de aniversário para o meu sobrinho amanhã. Quem sabe um novo CD com um concerto de Rachmaninov. Pensei em dar um passeio, respirar ar puro depois de dois dias de computador e livros. Tomar um café olhando a rua. Os primeiros minutos foram até revigorantes. Me senti animada em ver as pessoas. Pegar metrô, ouvir conversas. Fiquei pensando comigo mesma como eu deveria me obrigar a sair mais, a fazer mais coisas à pé e na rua. Gosto tanto da cidade e há tanta diversidade. Desci na Paulista e tinha um grupo de bailarinas dançando na ponta para ganhar uns trocados. Mais a frente um senhor tocava clarineta. Ah, que delícia de cidade! Então eu entrei na Livraria Cultura, no final da tarde de um sábado de feriado. E me lembrei porque eu detesto gente. Aquele caos, a cacofonia. Gente aos montes, falando alto, tropeçando, esbarrando no meu ombro. Pessoas que param para conversar no meio da passagem, e outras lerdas que sobem escadas pensando na morte da bezerra. Filas enormes. Crianças chorando. Uma falta de educação coletiva revoltante. E asssim, de repente, foi-se toda minha predisposição em fazer parte do mundo um pouquinho. Corri para o primeiro vendedor que achei, comprei os livros protocolarmente, e desisti do CD ou do café. Já sou ansiosa demais no meu íntimo. Tanta bagunça me deixa nervosa. De volta a ostra me sinto tranquila novamente. Vou ler, fazer algo para comer e quem sabe depois alugar um filme no Now. Sábados são terríveis para sair da ostra. Eu até gosto de fazer parte do mundo, mas fora dos horários comerciais. 

quinta-feira, 28 de março de 2013

MEDO, MEDO, MANO VELHO.



Impressionante que por mais que a gente se esforce, medite, tente ser uma pessoa melhor, existem algumas características que são muito difíceis de serem mudadas. Vira e mexe, cá estou eu esbarrando nas minhas falhas. Isso é para provar que se livrar de alguns traumas não é tão fácil. Se eu fizer uma busca de quantos textos já escrevi sobre meu medo de relacionamento nesse blog e no meu anterior, acho que dá para escrever um livro. Todas as vezes eu quero fazer diferente, eu quero passar por cima desse medo. Mas lá vou eu de novo me autoboicotar. Eu sempre estrago tudo. Eu fujo, ou mostro o pior de mim para o cara fugir, ou surto, ou menosprezo o moço, ou ignoro, ou sufoco, ou machuco, ou... Eu sempre dou um jeito de acabar com qualquer chance da coisa dar certo de forma irremediável. É como se eu tivesse dizendo o tempo todo “olha, eu sou uma baita de uma encrenca”, porque daí, quando o cara vai embora, ou quando eu consigo fazer o cara perder o interesse, eu posso voltar para a tranquilidade da minha solidão e dizer para mim mesma: “Viu só! Eu tinha razão!”. Completamente isenta de culpa. Meu modelo de relacionamento não é saudável. Também não quero entrar em detalhes aqui. Mas eu sempre acho que homens vão me machucar, me julgar, me humilhar e me abandonar. Invariavelmente eu acabo contribuindo para que eles reforcem  esse modelo e eu possa sempre falar, “Viu só. Eu sabia.”. Por que será que é tão difícil fazer a ponte da consciência racional para o comportamento prático? Por que será que esse medo nunca vai embora? A Keka e a Carol brigam comigo. Dizem que eu sou muito corajosa, e de fato não tenho medo para um milhão de coisas que botam medo nas pessoas. Viajo pelo mundo sozinha. Encaro o monstro da solidão. Mas daí é que entra a picareta. Eu me sinto segura na solidão. Meu medo é quando tem mais alguém. A minha coragem é só de fachada. É só porque eu me sinto segura no que dá medo aos outros. Daí não é coragem. Coragem é quando a gente encara o desafio apesar de. E não quando o desafio não nos custa nada. Essa semana saí para almoçar com uma amiga. Ela me contava sobre o relacionamento dela com um cara que talvez nunca tivesse imaginado que ela ficaria. No meu caso acho que nem aceitaria um convite para jantar. Mas ela, não só está com ele há mais de um ano como pensando em morar junto. “Dri, ele não é nada do que eu sempre sonhei ou quis, mas eu não acredito em coisas perfeitas. Eu vou até o fim.”. Se for pensar assim talvez eu tenha sim sido corajosa em algumas coisas. Nas vezes em que me via chorando no meio da mochilada sem saber o que estava fazendo ali. Ou depois de 9 horas de trilha carregando uma mochila de 15Kg e desejando por um helicóptero que me tirasse dali. Nas vezes que tive vontade de deletar meu livro e jogar o computador pela janela. Ou quando eu me vi em trabalhos com pessoas completamente sem caráter e me senti impotente. Em todas essas vezes eu disse exatamente a mesma coisa, “Vai demorar, vai ser sofrido, mas eu vou até o fim.” Eu tive medo, mas empurrei um pouco mais os limites da minha zona de conforto e ganhei experiências incríveis como resultado. Talvez eu precise começar a fazer isso nos relacionamentos. Nas horas que eu perceber que estou começando a boicotar, a desejar um helicoptero que me tire dali, me propôr a ir até o fim. Me propôr a ver onde a coisa vai dar. Dessa vez eu fiz uma coisa inédita. Engoli meu orgulho, pedi desculpas e pedi para voltar. Não sei se funcionou. Mas eu empurrei o limite da zona de conforto. Resolvi que vou esperar para ver o fim. Se o fim chegar, prometo não usar para reforçar minhas certezas de medo e abandono. Mas se ele não chegar... quem sabe eu não vivo uma experiência incrível. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

UM SHOW PERFEITO


Ontem fui arrastada ao Show da Bluebell e Blacktie no Auditório Ibirapuera. Não que fosse um peso para mim, mas é que passei o dia me sentindo muito mal, com dores no corpo, um princípio de gripe e a noite estava chuvosa. A vontade era continuar na cama lendo até que meu corpo fosse encontrado pela empregada na segunda-feira de manhã. Mas como já havia combinado com a Kika e ela tinha comprado os ingressos, eu me arrastei até o Ibira para não deixar ninguém na mão. Melhor coisa que eu fiz. Eu gosto da Bluebell, gosto do timbre dela. Ela consegue agudos invejáveis. Mas é uma voz perigosa, pode se tornar irritante ou enjoativa. Acho que ela sabe disso e conhece muito bem o instrumento que tem, porque o repertório que escolheu para o show é perfeito para ela. Com Cole Porter, Piaf, The Who e Nelson Cavaquinho. Ainda convidou para participações Laura Lavieri, Mariana Aydar (mega grávida) e o sempre apaixonante-casa-comigo Zeca Baleiro em versões de Beatles. Para finalizar cantou “It’s Oh So Quiet”, que foi gravada pela Bjork (foi minha mensagem de caixa postal no celular por anos), mas que parece ter sido composta para a voz dela. Some a isso que a garota é um fofa, super carismática e com presença de palco impecável e pronto. Um show impecável e um domingo que se salvou pelo gongo. A gripe acabou me pegando de verdade, ajudada pela chuva que tomei do estacionamento até o auditório. Mas junto com o chá de gengibre, mel e limão que estou tomando agora, estou também caçando o CD da parceria da cantora com os músicos do Blacktie. São dessas músicas que fazem a vida parecer mais linda e leve. :-)




domingo, 24 de março de 2013

O CAOS, MINHA GATA E O PARADOXO DA DEPENDÊNCIA

Uma das minhas grandes lutas é trabalhar minha mania de controle. Eu sou uma pessoa controladora. Perfeccionista. Cheia de manias. Tenho momentos em que a virginiana bate forte. Gosto de ordem e método. De planejamento, organização, rotina. De saber com antecedência das coisas para poder organizar da maneira como eu acho mais adequada. Gente assim sofre, eu sei. Nunca satisfeita. Acho que por isso de tempos em tempos sinto uma necessidade tão grande de sair da zona de conforto. Ir para o caos, para o inseguro. E depois volto e tenho períodos de mania extrema, onde arrumo o homeoffice, jogo fora sacos de papéis (às vezes alguns importantes) e organizo os livros em ordem alfabética. Na minha casa eu tinha manias que beiravam o TOC. A ordem das almofadas no sofá, o alinhamento dos livros de foto em cima do rack. Até a maneira de dobrar o paninho da pia. A Kika me enchia o saco porque parecia que ninguém morava na minha casa. Fica aquelas salas congeladas, com cara de novela, de revista. Totalmente sem vida. Até que, um ano atrás, eu tive um desses meus momentos impulsivos. Saí para dar uma volta, passei em uma feira de doações e trouxe a Holly para casa. Lindinha, toda bebezinha. Até que ela crescesse o suficiente para subir em todos os móveis e descobrisse como afiar as garras na minha poltrona retrô, a casa ainda refletia meus distúrbios de organização. Não demorou muito para eu entender que quem manda na casa é ela. Enche de pêlos, derruba CDs, quebra enfeites, desaparece com anéis que eu amo. Nunca sei para o que vou acordar, ou voltar para casa. A casa sempre se transforma com ela. De certa forma me ajuda a relaxar. A aceitar um certo caos incontrolável no meu íntimo. Hoje acordei tarde com dor nas costas, porque a gata estava estirada bem no centro da cama, me jogando para escanteio. Levantei e pisei descalça na bombinha de asma que ela tinha transformado em brinquedo no meio da noite. O chão cheio de lenços de papel. No banheiro o tapete estava revirado, dois potes de gel para cabelo no chão e diversos cotonetes jogados dentro da pia. Ela, sem cerimônias, foi pulando os obstáculos e parou em frente ao box miando para eu abrir a porta. Holly agora deu para só beber água no box. Na sala, um furão de pelúcia está em cima do receptor da NET, sacolas que usei para comprar vinhos ontem estão destroçadas pelo chão, marcas de patas em cima da mesa e mais uma mancha no sofá porque ela derrubou suco ontem à noite. Como eu fiquei fora o dia todo ontem e voltei bem tarde de madrugada, Holly achou legal também jogar um tanto de areia para fora da caixa. A poltrona jangadeiro está com fios puxados, existem rolhas nos vãos do sofá e bolinhas de amendoim japonês que ela pegou para brincar embaixo do puff. Holly está em cima da pia, tentando pegar os pingos d’água que caem da torneira. Com a mudança da ordem eu também já deixo louça suja dentro da pia e livros espalhados pela casa. O IPAD carregando no chão, o celular embaixo da mantinha da TV e caixinhas de lenço em cima dos móveis. Me abrir para o caos que outro possa criar me faz ser mais humana. Deflagra minha fragilidade e imperfeição, e é exatamente isso que me faz inteira. Ainda não sinto que tenho muito espaço para viver com outra pessoa. Mas permitir que um ser vivo entre em minha vida e desconstrua meus ideais controladores, me ajuda a ficar mais aberta para o que a vida traz. Amplia minha zona de conforto. Deixa as fronteiras mais largas. Quem sabe assim quando eu tiver que fugir, que buscar o inseguro, eu possa ousar mais. É a maior beleza desse paradoxo. Quanto mais crio vínculos, dependências no meu íntimo, mais livre me torno para ousar. Ganho mais independência. Por enquanto é uma gata que entra e domina minha vida. Ando pensando em fazer agora um jardim, ou uma horta. Quem sabe no final do ano comprar um cachorro. - O Cavallier que sempre sonhei. - Aos poucos vou me deixando depender de outros seres vivos. Se uma gatinha está me deixando tão livre de mim mesma, imagine quando eu for enfim capaz de depender de alguém. Acho que então vou poder conquistar o mundo. 

sexta-feira, 22 de março de 2013



Acho bom quando a vida me coloca em situações para confrontar o que eu realmente quero. Reforça minhas crenças. Ao mesmo tempo é frustrante. Secretamente fico pensando se não busco algo que não existe. Acho que estamos vivendo uma época de superficialidades. Uma época sem comprometimento. Sem verticalização em nada. Somos milhões de pessoas sozinhas, tentando se convencer de que a auto-suficiência é nossa única saída. Nos forçando a viver sozinhos, a nos adaptar. Não existe mais o "junto", o ensemble. Vive-se ao lado. Em paralelos. Não quero isso. Quero mais. Quero aquele nivel de cumplicidade que só temos quando nos conhecemos por inteiro. Quero a disponibilidade completa e apavorante de se perder em outra pessoa, até um ponto em que não se pode achar um caminho de volta. Talvez eu seja a pessoa certa, na época errada. Uma época onde tudo deve ser leve, suave, despretencioso. São coisas boas também. Mas eu sou intensa. Quero tudo. Quero o pesado, o ríspido, o apegado também. A ideia de ter algo em frações, de ter algo meia boca, me dá uma aflição terrível de não estar vivendo. De desperdiçar. Eu preciso me maravilhar. Preciso queimar, mesmo que eu me quebre. Nessa época de gente morna. De gente com medo de fogo. Com medo de gosto. Com medo de vida. 

terça-feira, 19 de março de 2013

"Quão feliz é o destino de um inocente sem culpa. O mundo em esquecimento pelo mundo esquecido. Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Cada orador aceito e cada desejo renunciado."
Alexander Pope



Pensando em coragem hoje. Pensando em fazer o que é certo ao invés do que é conveniente. Pensando que ninguém é uma ilha, embora a gente não escolha quem participa da reunião de condomínio. Pensando em como eu estou triste hoje. Tristeza faz parte. Como disse em um conto meu, “dói até em dente de leite”. Acho horrível essa coisa de auto-suficiência. Não quero ser auto-suficiente. Não quero ser só eu resolvendo toda a bagunça. Não precisa ajudar também, mas só de ficar ao lado... De dizer que dá tudo certo no final, já estava bom. Às vezes eu acho que São Paulo é muito cruel. Nessas horas tenho vontade de fugir, de hibernar. Morar em Roma, ou na Tailândia, ou nas Ilhas Maurício. Ou em algum lugar onde minha bagagem pudesse ficar longe. Extraviada. Apagar as memórias como no filme do Michel Gondry. Virar um donut, sem nada no meio. Mas não é São Paulo o problema. É a história que construí aqui. A necessidade tão angustiante de ser amada. Hoje dói tudo. Doem todos os meu músculos.

segunda-feira, 18 de março de 2013

COMO ENTENDI QUE O APEGO É MINHA MAIOR FORÇA



Em dezembro o João Luiz Vieira me convidou para escrever para o Paupraqualquerobra.com.br. O site é um projeto antigo dele, um portal que fala sobre sexo, relacionamento, comportamento e direitos de gênero. A princípio fiquei com medo, porque tenho uma pegada bem careta e tradicional. Meu texto é de mulherzinha. Mas era exatamente isso que ele procurava, então lá fui eu, achando que seria bombardeada. Em três meses o site alcançou 50mil acessos diários. É um fenômeno. E minha coluna, que entra todos os sábados, é super bem recebida. Virou uma diversão procurar assuntos e temas para a coluna da semana. Fuço pela internet, converso com amigos, ouço histórias. Às vezes o tema cresce sozinho e a coluna repercuti muito bem. Outras nem tanto. Mas é assim mesmo que funciona. Estou me divertindo tanto com a nova temática que tenho feito muitas pesquisas bibliográficas. Uma vez por semana dou um pulo na livraria e ataco a sessão de livros de “autoajuda”. Ali a gente encontra 90% do que está errado nas expectativas de relacionamentos das pessoas. Ainda se acredita que um relacionamento interpessoal pode ser conduzido como receita de bolo. Faça isso, não faça aquilo. Sem levar minimamente em consideração as nuances de personalidade de cada pessoa, suas necessidades emocionais, sua base afetiva. Ler livros do naipe de “Como fisgar um homem em 50 lições”, ou “Tudo o que você queria saber sobre as mulheres (mas nunca teve coragem de perguntar)” me ajuda a entender e conversar na coluna sobre as angustias dos relacionamentos. No geral somo todas pessoas carentes, querendo encontrar o amor de alguma forma. Sempre acreditei nisso. Mas nem sempre essas referências bibliográfica são pataquadas caça-níqueis. Vez ou outra eu esbarro com um livro que realmente aborda questões pertinentes sobre relacionamentos e sobre a forma das pessoas se relacionarem. Semana passada esbarrei em um livro que me trouxe luz e clareza sobre as necessidades de apego (sobre as minhas inclusive): Apegados - Um Guia Prático e Agradável para Estabelecer Relacionamentos Românticos Recompensadores, de Amir Levine e Rachel S. F. Heller. A dupla de psicólogos pegou a teoria do apego desenvolvida nos anos 50 por John Bowlby e passou a aplicar estudos com esse foto em relacionamentos românticos. O resultado é fascinante, entendendo as maneiras de se relacionar de forma autêntica e colocando por terra todas as teorias de regras para estabelecimento de intimidade e comprometimento. Eu particularmente adorei o estudo, porque coloca por terra a eficiência dos joguinhos românticos. Odeio jogos e nunca fui praticante, mas já tive dúvidas sobre se não deveria praticá-los. Se eu não deveria me mostrar menos disponível, ou “me fazer de difícil”. Se eu não deveria evitar manifestar minhas necessidades emocionais, porque não queria ser considerada frágil. São crenças cada vez mais em voga na nossa sociedade, que exalta a autossuficiência como um grande mérito. E vai acabar levando uma geração inteira a envelhecer solitária e infeliz. Eu sempre achei que a força vem da união, da capacidade de se entregar, de se submeter, de criar intimidade e vínculos profundos com outra pessoa. A maior descoberta para mim, no entando, foi finalmente entender que, para algumas pessoas, isso é completamente impossível. Que a intimidade é violenta e sufocante para algumas pessoas e elas terão muitas dificuldades para realmente construir uma relação de cumplicidade e apoio mútuo, constantemente criando armadilhas inconscientes para afastar o outro. Daí vem a infindável gama de relações infelizes que vemos por aí, onde pessoas se sentem sufocadas, ou frustradas, inseguras, carentes. É tudo uma questão de saber entender a linguagem afetiva do outro e assumir se somos capazes de falar a mesma língua. 

segunda-feira, 4 de março de 2013

NÃO VIOLENTA


Está fazendo um ano que eu adotei o budismo como religião. De todas as linhas religiosas, o budismo foi o que eu me reconheci mais. E mesmo dentro do budismo, até encontrar a Ordem Kadampa, de origem tibetana, eu passei por uns lugares que não me senti nada a vontade. Faz parte. Não acredito que exista ideologia perfeita. Exista aquela em que você se reconhece. Até por isso não faço muito alarde. Faço minhas meditações, minha sadhana diária, estudo e apareço no templo quando tenho vontade. Mas isso diz respeito somente a mim. Quando alguém se interessa, respondo às perguntas, até dou o site, mas fico na minha. Duas coisas que aprendi: As pessoas só vão de encontro a alguma religião quando sentem real necessidade, e aquilo que para mim faz sentido, pode não fazer para outra pessoa. Sei que é bem possível que se algum amigo se mostrar interessado na minha ordem e for comigo ao centro, vá achar tudo uma maluquice. Ou não. A verdade é que religião é algo muito pessoal, e por isso cada um encontra a sua. Para mim foi uma das melhores coisas que aconteceu em 2012. Hoje acabo me encontrando em situações muitas vezes que em outros tempos teria reações de muita angústia, tomaria atitudes precipitadas. Mas sinto que estou bem mais calma, centrada e relaxada. Eu sei que devo isso ao budismo. Tenho muitas coisas para trabalhar e conquistar ainda, mas eu me sinto melhor e mais feliz depois que passei a praticar. Claro que isso não muda minha natureza. Eu continua uma pessoa sensível, reclusa. Mas tem sido mais fácil lidar com alguns confrontos do dia a dia. Uma das maiores descobertas foi o sentimento real de não-violência. Ele primeiro foi se manifestando de força mais física, e agora tenho conquistado suas outras acepções. Eu nunca fui uma pessoa violenta, fisicamente. Mas sempre fui bem violenta na maneira de pensar e de opinar. Pensar na não-violência através do vegetarianismo, das influências que recebo, foi fácil. Eu não assisto a lutas na TV, por exemplo. Esses UFC da vida. Não vejo, não gosto. Me faz mal. Hoje não mato nem barata com inseticida. Acho bem fácil praticar a não-violência quando estamos defendendo cachorrinhos fofinhos, mas é um grande exercício respeitar o direito à vida de uma barata nojenta. Eu fico feliz de conseguir seguir a risca aquele ditado “não faz mal a uma mosca”. Agora tenho buscado outras formas de não-violência. A pela palavra é mais difícil. Falamos coisas agressivas o tempo todo e nem nos damos conta disso. É preciso me policiar o tempo todo e geralmente tenho perdido mais do que ganhado. Ainda assim, é com o exercício e a intenção que vou chegar lá. Esse ano me deparei com um novo desafio: a não-violência comigo mesma. Depois de experimentar a dizer “sim” para tudo, comecei a perceber que algumas situações me violentam. Temos uma tendência a suportar mais a dor quando ela é submetida a nós mesmos. Porque tenho mais cuidado com a violência ao outro e me permito ser violenta comigo? Talvez o segredo não seja dizer “sim” ou “não”, mas se permitir viver o que não lhe cause violência. E dizer “não” para qualquer coisa que lhe violente. Nessa horas tem muita gente que vem dizer “ah, deixa disso”, ou “não dê tanta importância”, e normalmente achamos que é por aí mesmo. Não damos tanta importância para a violência que estamos sentindo e continuamos com relações e situações que nos agridem. Para algumas pessoas, um local com música alta, repleto de gente bêbada pode ser muito violento. Relacionamentos protocolares em ambientes cheios de fofoca podem ser muito violentos. Tudo o que vai contra nossa natureza mais íntima, pode ser muito violento. Essa semana fui colocada a prova, em uma situação muito difícil de escolher. Talvez se fosse em outra época da minha vida, minha decisão seria diferente. Talvez quando eu for mais forte e tiver mais prática, eu consiga tomar outra decisão. Nesse momento eu decidi não me violentar. Me preservar. Me retirar. Não por que eu tenha medo, ou rancor. Mas porque eu não vou me submeter a qualquer coisa que possa me causar dor.