quarta-feira, 16 de outubro de 2013

SOBRE DÉBITOS E AREIA MOVEDIÇA


Ano passado, quando tirei férias e fiz uma roadtrip pela Itália, havia prometido ao Alê que passaria na volta por Barcelona para ficar um pouco com ele. Acabei cancelando e voltando antes para o Brasil por causa de alguns problemas de trabalho. Em janeiro havia me programado para uma nova temporada européia, e novamente prometi passar para ficar uns dias com o Alê. Cancelei a viagem por vários motivos, e aumentei meu débito de amiga que promete e não cumpre. Dessa vez cruzei o oceano novamente, mas nem considero uma viagem. Vim para um retiro budista em Sintra e resolvi aproveitar para visitar algumas amigas que tiveram filhos no último ano. Para quitar o grande débito, resolvi que chegaria por Barcelona, para cumprir a promessa e rever essa cidade que não tive a oportunidade de absorver de verdade da outra vez que estive. Acabei ficando uma semana inteira com o Alê, e foi como era quando estávamos saindo da FAAP e passávamos as tardes e noites por São Paulo. Continuamos os mesmo. Envelhecemos, mas continuamos os mesmos. Alê me leu alguns trabalhos lindos que tem escrito. Acho um desperdício tão grande ele não colocar um pouco mais de esforço em produzir e publicar. Alê é de verdade um escritor fantástico, um pós-beatinik com muito mais autenticidade do que todos os posers que tentam ser undergrounds no Brasil. Ele foi uma grande inspiração para mim. Foi por causa do Alê que comecei a pensar a sério em escrever, como profissão, como vida. Na verdade essa é a única coisa que realmente fazemos bem. Somos bons em várias coisas, somos versáteis, mas nossa essência é essa. Nós dois somos pessoas que escrevem. Alê tá levando uma vida ótima em Barcelona. Seu apartamento é espaçoso e confortável, tem até um terraço grande com churrasqueira, onde ele estende uma rede e planta girassóis. De onde também se avista as torres da Sagrada Família. O prédio não tem elevador, e nos primeiros dias senti meu pulmão desafiado para subir os 123 degraus até o sexto andar. Eu contei. Acho gostoso ver essa vida simples, sem extravagâncias que ele está levando. Coisa que nos é quase impossível em São Paulo. Faz quase três anos que eu me restabeleci, só com uma mochila de roupas velhas e surradas, e já acumulo mais coisas do que o Alê em 7 anos fixos em Barcelona. Porque acabamos tão rapidamente como acumuladores inúteis? Mesmo olhando para minha bagagem de não-viagem agora - já que não vim de mochila dessa vez - tenho a certeza de que carrego só o básico, mas o meu básico está excedendo os limites de despacho. Esse é o tal do piloto automático. Ficamos tão acomodados nessa vidinha de rotina e conforto urbano, que vamos afundando no supérfluo sem nem nos darmos conta. Vira areia movediça. O dia que você se pegar assinando contrato de casa em condomínio fechado, e blindando o carro para poder ir ao cinema no shopping, sinto muito! É porque já perdeu o fôlego e nada mais te salva. Quando eu quebrei com tudo e resolvi ir em busca do que me fazia sentir viva, eu achei que era uma coisa definitiva. Que aquela experiência e aquela transformação me pertenciam eternamente, e que eu nunca precisaria me preocupar de estar absorvida no nada novamente. Então eu estava arrumando minha mala ontem, me perguntando como era possível o meu “básico” ser tanto assim, quando me ocorreu que é preciso um trabalho contínuo. Aqui estou eu já afundando novamente, ligando o piloto automático e deixando tudo o que realmente me faz feliz para uma outra hora. É preciso acordar todos os dias, e quebrar essas amarras sociais todos os dias. É preciso partir e buscar o que nos faz vivos todos os dias. Porque quando relaxamos, quando nos acomodamos no que pode ser seguro e certo - ainda que seja a segurança e a certeza de que nos transformamos - a areia movediça nos engole, e passamos nossas semanas entre a rotina de trabalho, a cerveja com os amigos, o programa de TV, a pizza do sábado e a busca nas araras e prateleiras das lojas de uma satisfação que não está ali para vender. Compramos o que nos oferecem para que sirvam como substitutos. Compramos qualquer coisa que esteja ali para vender. Se não nos reinventamos todos os dias, e nos atiramos no mundo com os olhos ávidos pelo novo, pelo maravilhoso todos os dias; se não nos dispomos a experimentar, transgredir, inovar, podemos assassinar nossos talentos, endurecer nossa alma, até o ponto de que nem a memória nos resgate a euforia de sermos nós mesmos. Quando nos perdemos na insatisfação do trânsito, da política, da corrupção, dos impostos, da crise, deixamos de usar essa energia para mudar de lugar, e mudar nossa perspectiva. É preciso estar em constante movimento, constante renascimento. Resgatar nossas essências do lodo desse mundo amortecido, hipnotizado. Deixei meu livro em cima da mesa de centro do Alê. Escrevi na dedicatória: “Senta essa bunda na cadeira e escreva. É só isso que a gente sabe fazer. Te amo. d.”

terça-feira, 1 de outubro de 2013

CORRA, DRI CORRA



Eu sou da opinião que, cada pessoa deve achar qual o seu esporte. Não que cada pessoa tenha apenas um esporte, mas cada pessoa vai se sentir bem fazendo determinada(s) atividade(s) física(s). Tem gente que gosta de tudo, é verdade. Faz, pula, pinta e borda. Outros já comparam qualquer atividade com uma sessão de tortura chinesa. Mas a verdade é que, quando encontramos alguma atividade que nos dá prazer, a vida fica muito mais gostosa e fácil de se levar. Já vão 10 anos e eu descobri a corrida. É uma das atividades da minha vida. Nesses 10 anos passei por períodos de intensa dedicação, e completa abstinência. Mas sempre corri. O que gosto na corrida? É um esporte independente. Não dependo de ninguém para correr. Sou eu, meu tênis e uma pista. A gente pode correr em qualquer lugar do mundo, qualquer hora do dia. Funciona quase como uma meditação. Enquanto corro sou eu e meus pensamentos, e nós vamos nos organizando conforme meu corpo vai sendo desafiado. Para mim sempre foi um problema, a mente muito ativa e o corpo nunca cansava. Sofri anos de insônia por causa disso. A corrida me ajuda a equilibrar a equação. Me faz um bem danado. Com os acontecimentos dos últimos meses, que me obrigaram a refletir sobre todas as coisas que eu tenho feito na vida, comecei a resgatar o que realmente me é caro. Com isso voltou a corrida à toda. Ainda não recuperei o fôlego dos meus tempos aureos, mas o gostoso de atividade física é que conseguimos ver resultados rápidos, eles são perceptíveis. O fôlego melhorou gigantescamente. E já estou alcançando um ritmo que não dá mais vergonha de contar para os amigos. Para me coroar retomei com tudo as corridas de rua. Esse é um dos meus grande prazeres. Adoro corridas de rua!!! Acho que todo mundo deveria participar de pelo menos uma na vida. É uma atmosfera muito boa, muito positiva, de alegria, dedicação, saúde. Cheia de gente bonita. A gente vai correndo pelas ruas da cidade, enquanto voluntários gritam frases de incentivo e nos aplaudem quando a gente passa. No final a gente ganha um monte de brindes e até uma medalha. Quer coisa mais legal!? Eu sinto falta de companhia para fazer essas coisas. Meus amigos são todos sedentários, e ninguém nunca se anima a me acompanhar. Mas a corrida pode ser assim também. Uma história da gente com a gente mesmo. Esse final de semana fiz dobradinha. Fiz a Fila Night Race e a Etapa Primavera do Circuito das Estações da Adidas. A Fila Night Race foi na USP. Achei um pouco desorganizada. A largada estava quase sendo dada e ainda havia uma fila kilométrica para retirar o chip. Os funcionários sem nada de proatividade. Alguns sem fazer nada, parados, olhando a banda passar, em vez de se prontificarem e ajudarem a distribuir os chips para que todos os corredores pudessem largar com calma. Ainda não entendo porque esse frescura de entregar chip no dia. Antes tivessem entregado já com o kit. Eu gosto bastante de corridas na USP. A USP é como um dos nossos quintais, um lugar tradicional para corredores paulistanos. Também é uma das poucas oportunidades de ir ao campi. Desde que saí da faculdade o universo universitário foi ficando cada vez mais distante. É gostos correr entre as faculdade, beirando a raia. Uma pena que a USP esteja tão abandonada. As ruas estão todas esburacadas, feias, mal tratadas. A prova virou praticamente uma corrida de obstáculos. Desvia do buraco, pula a cratera, e cuidado para não tropeçar no degrau. Fiz 5K assim, passando por todos os obstáculos sem torcer o pé nem uma vez. No domingo foi o dia do Circuito das Estações. Acordei às 5h30 e tava uma chuva forte na janela, o dia todo escuro. Juro que fechei os olhos e considerei por dois minutos a possibilidade de ficar na cama e cabular a corrida. Mas depois resolvi ir, porque correr me faz sentir muito melhor do que ficar na cama. Fui esperando fazer a corrida na chuva. Me agasalhei, coloquei uma camiseta de manga longa por baixo, tênis velho para poder ensopar na chuva e saí toda descabelada, esperando que a chuva desse um jeito na juba. Mas Murphy sabe das coisas. Assim que cheguei no Pacaembu o céu abriu, o tempo esquentou e no primeiro km eu já estava super-aquecida. Tive que perder um tempo parando e tirando a blusa de baixo para continuar a corrida. Essa prova é bem legal. Tem um pouco de altimetria, para aumentar o desafio. A gente sai da Praça Charles Miller, desce a Pacaembu e pega o Minhocão, depois volta pela contramão até a praça de volta. É um circuito gostoso de fazer. Adoro correr no Minhocão. A organização lançou um desfio bem legal. Fez percursos com 1K a mais para quem quisesse se desafiar um pouco mais. Como não aceitar uma proposta dessas!? Claro que fiz 6K, feliz, tranquila. Cheguei descabelada, mas com um sentimento de bastante completude. Depois o tempo fechou de vez, mas daí eu já estava em casa. Pude ficar nas cobertas, trabalhando em um livro o domingo inteiro, sem um pingo de peso na consciência. Achar uma atividade física é um pouco assim, deixa de ser um sacrifício. Passa a ser um suporte para a vida, algo que soma e fortalece os nossos dias. 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013


Acho que se eu for escolher algumas palavras para definir meus últimos meses seriam dor e mudança. Ah sim, e um enorme sentimento de “foda-se”. Uma vontade muito grande de me jogar verticalmente em mim mesma. Já parou para pensar no quanto a gente vive pelos outros. As relações que construímos, as pessoas que amamos, as responsabilidades que assumimos. Quando nos damos conta a vida dos outros nos influencia mais do que nossa própria. E é muito doloroso se desvincular emocionalmente das provações que as pessoas que nós amamos passam. É como diz aquele ditado, aprendemos pelo amor ou pela dor. Para mim a lição veio em uma crise de stress, meia dúzia de consultas médicas, exames, uma doença crônica e uma cirurgia para biopsia. Enquanto eu estou aqui, aguardando o resultado da biopsia e vivendo um pós-operatório chato, com remédios que me enchem de sono, volto a questionar onde está minha vida no meio disso tudo. O que é meu, o que faz parte da minha história, e o que eu peguei emprestado por achar que era responsabilidade minha. Ah, a gente faz terapia a vida inteira e continua errada. Sabe o que tem me feito feliz esses dias? Ser saudável. Gosto muito de ser saudável. De me cuidar. De fazer esportes, correr. Sentir meu sistema cardio-respiratório sendo exigido. Gosto de me alimentar bem. De comer coisas saudáveis. De ver a reação de uma boa nutrição no meu organismo. Gosto de ser vegetariana. Eu gosto de lubrificar a maquininha. Eu estou me pegando no colo. Quando a gente se dissocia do que não nos pertence, parece mais evidente cuidar de quem realmente faz parte da nossa história. Quero me rodear do que é bom. Do que é saudável. Do que faz bem.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

FLORESCENDO



Semana cheia de surpresas. Se por um lado a saúde anda frágil, por outro tudo o que eu escrevo me faz mais feliz. Minhas colunas no PPQO essa semana foram avassaladoras. O John passou a semana empolgado, dividindo comigo os stats e celebrando um dos textos mais lidos de todo site. Fico feliz. Não só porque massageia o ego, e meu ego é um bichinho adestrado que faz direitinho seu trabalho histérico e carente; mas também porque sei como o PPQO é um projeto legal, como tem gente boa e com muita garra investindo nesse site, e se meu texto ajuda a contribuir para o sucesso, então VIVA! É aquilo que estava dizendo, quando escrevo perco o direito sobre o texto, e acredito que ele só se realiza quando passa a ser lido. Uma vez ouvi que “a folha está sempre em branco”, porque mesmo quando superamos o bloqueio criativo e escrevemos, o texto só se realiza quando é lido. Enquanto ninguém lê, a folha continua em branco. É um pensamento que me agrada. Além do sucesso das colunas, uma grande novidade. Vamos virar livro! Pois é. Ainda acontecendo de forma embrionária, mas em breve as melhores colunas do PPQO vão ser editadas em livro. Luxo duplo desse ano em que já debutei em tantas coisas. Falta enfim terminar meu livro autoral. Falta é muita vergonha na cara. De qualquer forma já agendei na Tattoo You um  horário para fazer minha tatuagem. Minha primeira. Vão ser flores de cerejeira, uma para cada conquista literária. O objetivo é ficar velhinha um dia com o ombro mais florido do mundo. :-)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O LADO BOM DA VIDA



Nos últimos dias estou sucumbindo a uma crise de stress. Estou enfrentando alguns problemas particulares e, mais uma vez, a vida está me mostrando que eu não sou forte o suficiente. O resultado é que o stress, que eu “sabiamente” ignorei na esperança que ele deixasse de existir sozinho, passou a somatizar fisicamente. Primeiro um sono violento, falta de energia, irritabilidade, início de depressão. Então nesse final de semana uma crise de alergia de pele. Estou com dermatite nos braços, unhas quebradiças, a pálpebra do olho inchado. Até aí eu ainda estava duvidando do poder do stress. Mas quando chegamos no limite, quando nos sentimos sufocados pela impotência de não poder fazer nada, a garganta trava. Assim, do dia para a noite, fiquei completamente afônica, com uma bela inflamação de garganta. Daquelas que nos impedem até de atender ao telefone. Quando isso acontece a gente para tudo. Cancela a corrida, desencana dos compromissos. Guarda todos os recursos para que o corpo possa se recuperar e combater o inimigo. Portanto, guardada em casa e com a boca fechada à força, resolvi tirar o atraso de filmes que eu queria ter visto e não vi, seja por falta de tempo, seja por falta de coragem de ir ao cinema sozinha. 
Ontem vi “O Lado bom da vida”, o filme que deu à Jennifer Lawrence o Oscar de melhor atriz. Se ela mereceu? Não. Muito menos tirando o prêmio de Emmanuelle Riva no arrebatador “Amour”. Mas a garota faz bonito, em um papel que exigia muita honestidade e delicadeza para ser justo. Eu gosto de filmes em que as pessoas encontram o amor, gosto de histórias em que mesmo as pessoas mais improváveis de encontrarem o amor, encontram o amor. Porque não acredito em uma fórmula perfeita de felicidade eterna, mas acredito sim que, desde que você esteja disposto e vulnerável, a vida pode ter surpreender por inteiro. Não acredito em gente perfeita, gente sem falhas, sem culpas, sem arrependimentos. Se você não flertou com a loucura, não teve o seu momento na borda da piscina, é bem provável que não tenha vivido direito. E vão nos dizer sempre que não pode ser assim. Sempre haverá quem nos queira controlar, quem nos alerte sobre os comportamentos adequados. Sempre haverá alguma medicação para nos enquadrar no que é considerado correto, convencional. Mesmo que você não se reconheça, mesmo que você se torne um estranho para si mesma. Por isso precisamos encontrar os nossos iguais, aqueles loucos como nós. Para nos amar é preciso ter passado por uma loucura igual a nossa. Só mesmo na insanidade acreditamos em coisas assim. Perdendo de 10x0 para as adversidades que não sei como resolver, calada muito mais na alma, do que na voz em si, mas ainda assim acreditando que haverá quem consiga entender exatamente onde dói em mim. 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013




Escrever é uma coisa engraçada. Não é o tipo de coisa que dá para encher muita linguiça. Você não consegue disfarçar falta de conteúdo. Ou tem, ou não tem. Você pode ser um ator medíocre, mas ainda assim sair em capa de revista, protagonizar novela das 9 e ganhar muito dinheiro fazendo campanhas publicitárias. Mas você não pode ser um puta escritor, sem ser um puta escritor. Você não pode provocar as pessoas sem ter opinião. Você não vai conseguir prender o leitor no seu texto, surpreender, emocionar, se não souber exatamente o que está fazendo. Se não tiver um bom domínio de seu estilo, se não escolher as palavras certas. É diferente de quando a gente fala. Em uma conversa. Nossa opinião fica diluída no ambiente, nas inflexões usadas, no tom de voz. No histórico que temos com o interlocutor. Se falamos com uma pessoa que gosta da gente, a tendência ao conteúdo do discurso ser bem recebido é maior. Quando alguém manifesta uma opinião contrária a nossa, nos inflamamos e falamos por cima, cortamos o raciocínio, fragmentamos a explicação. Escrever é colocar em público o processo de reflexão que muitas vezes não ousamos partilhar em uma conversa, porém a reação a leitura é muito mais forte do que a da palavra falada. Quando se lê, apropria-se do que está escrito. Ainda que o conteúdo seja pessoal, único e intransferível, há quem se ofenda com as palavras dos outros. Quando escrevo perco o direito às palavras. Aceito a livre interpretação do meu interlocutor. Talvez também por isso eu não responda comentários aqui. Quando comentamos um texto, comentamos mais o reflexo que enxergamos nele, do que as intenções de onde eles saíram. Não seria educado intervir na auto-imagem de ninguém.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

EU, VOCÊ E TODOS OS OUTROS



Ontem fez um domingo lindo de Sol. Ainda está muito frio em São Paulo, mas o Sol faz o dia ficar mais bonito. Adoro esses domingos de inverno. Correr no parque de moletom, comprar o jornal e tomar chá bem quente com leite. Já falei em outros posts o quanto adoro correr no Ibirapuera. Tenho uma relação bem intensa com esse parque. Sinto saudades de morar mais perto, poder ir ao parque todos os dias. Respirar as árvores, olhar as pessoas. Organizar meus pensamentos e viver mais essa cidade ao ar livre. Agora morando em Pinheiros as corridas matinais passaram a ser na academia do prédio. O parque só mesmo aos finais de semana. Quando eu me junto à população que vem dos bairros e ocupam o parque, cada tribo ao seu estilo. Ontem o parque não parecia domingo. Sem aquela movimentação frenética, alamedas cheias, ciclovia lotada. Apenas os frequentadores de sempre, praticando esporte, passeando com suas famílias, entretendo os cachorros. Me faz tão bem estar no meio da natureza, a energia de quem se gosta e cuida de si. Eu chamo isso de qualidade de vida, e me sinto bem privilegiada de poder ter isso na minha cidade. Enquanto eu corria ia observando as pessoas. Pessoas são curiosas. São lindas. E no parque vemos pessoas de todos os jeitos. Altas, magras, tortas, atarracadas, carecas, cheias de pêlos, atléticas, siliconadas, sorridentes, carrancudas, pessoas perfeitas, assoberbadas, deficientes, obesas, apaixonadas, sozinhas, comunitárias. São tantos tipos de pessoas, e o mais maravilhoso, não existe nenhuma igual a outra. Acho isso algo realmente formidável. Em todo o mundo, de todas as pessoas que já nasceram, morreram e ainda vão nascer, não existe ninguém igual a nós. Somos únicos, irrepetíveis. Pensando assim é sempre uma benção conhecer alguém. É a única oportunidade em toda a história da humanidade de você conhecer alguém como aquela pessoa. Talvez se tivéssemos mais consciência do quão raras as pessoas são, não desperdiçaríamos um segundo do privilégio de tê-las. Vale para nós também. Eu sou uma pessoa única, exclusiva. Nunca existirá ninguém no mundo com as minhas característica físicas e psicológicas, e o privilégio de me ter, de ter a minha companhia é raro e exclusivo para essa vida, para esse lugar em que estou. Engraçado como, apesar de desfrutarmos dessa vantagem valiosíssima, nos esforçamos tanto para camuflar exatamente o que nos torna especiais. Fazemos tanta força para nos tornar mais um, iguais. Usamos as mesmas roupas, mudamos a cor e a textura dos cabelos, adquirimos vícios de linguagem. Até que nos tornemos cópias mal-feitas uns dos outros. Até que nossas essências pessoais desapareçam no perfume de uma imagem social pré-estabelecida. Porque fazemos isso? Porque é tão apavorante sermos únicos? Porque temos tanta necessidade de mudar o que somos para parecermos o que não somos? Eu me entedio com o óbvio. Me entedio com a imagem produção em série. A beleza se revela na diversidade, na diferença. Naquilo que temos e ninguém mais tem. Então a gente pega todas essas coisas maravilhosas, únicas e exclusivas que temos, e levamos para correr no parque, para passear por aí. Por mais que os olhos hoje busquem a maquiagem genérica da mesmice, ainda acredito em olhos ávidos por aquilo que é raro e belo de verdade. 

sábado, 27 de julho de 2013

SONHOS




Andei pensando ultimamente sobre os sonhos de vida. Quando eu era mais nova eu tinha muitos sonhos. Uma vontade gigante de ser e fazer. Parecia sempre que o mundo não era suficiente. Aos poucos essses sonhos foram enfraquecendo, mudando, até que acabaram. Tenho sentido há alguns anos que não tenho um grande sonho. Uma grande vontade. Será que é um sinal da tal maturidade? Enquanto envelhecemos vamos perdendo a utopia de fazer algo significante na vida? Eu escrevo, é verdade. Não tanto quanto gostaria. É minha válvula de escape. Mas por mais apaixonada que eu seja por literatura, escrever não é um desafio para mim. É orgânico. É o que eu sou. Não é algo que eu anseie ou busque com uma vontade descabida. É algo que eu possuo e sei que jamais vai me abandonar. Então como fica a necessidade de se realizar? De conquistar algo com esforço? De estabelecer um objetivo inalcançável e conquistá-lo apesar de tudo e todos? Em que momento a vida entra no piloto automático? Quando foi que a gente se acomodou na zona de conforto até o ponto em que não se enxergar mais as fronteiras dos que nos maravilha? Já saí pelo mundo buscando ser maravilhada, mas ainda preciso descobrir como fazer isso nos limites da minha casa. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

FASES


Essa semana terminei mais uma fase conturbada. Dá uma exaustão encerramento de fase. A gente fica meses respirando fundo, tirando força do útero e dizendo para si mesma que é só uma fase. Ajuda a passar os dias. É como fazer natação. Depois de uma hora na piscina, fazendo uma série interminável, os braços doem, o fôlego some e a gente pensa “só mais uma piscina”. Essa frase acessa uma carga de bateria extra, aquele tanto de gasolina depois que a luzinha no painel acendeu. Eu nado. Consigo dar as braçadas. Mais uma piscina. Mais um dia. Mais uma fase. Depois o cansaço se apossa do corpo. A exaustão toma conta da alma. Sinto necessidade de colo, de silêncio. De ficar dias deitada no sofá até acreditar que passou, que acabou. Que eu sobrevivi. Eu tenho sobrevivido fases desde o começo do ano. Tantas fases que elas começaram a se cornubar. Uma fase em cima da outra. Eu termino uma, mas ainda estou no meio de outra. Não tenho conseguido colocar a cabeça acima da água para respirar. Uma sacanagem já que eu estou vivendo as coisas mais legais que já me aconteceram, e as fases mais tensas ao mesmo tempo. Tremenda sacanagem dos roteiristas da minha vida. Intensificando os conflitos, estabelecendo o clímax do herói. A gente sabe que depois de toda a provação vem a redenção. Mas antes tem mais uma fase. É só uma fase. Mais uma piscina para nadar. Tem mais força aí para arrancar do útero, e você sente até vergonha de estar miguelando com a vida quando descobre todo novo dia que consegue dar mais. Eu dou mais. Mais um dia. Mais uma fase. E for isso? Se a vida toda for só uma fase? E se no final a gente só sobrevive e acaba desfalecida no sofá de casa? E se a calmaria é só uma ilusão que contam para a gente conseguir nadar mais uma piscina? E se essa piscina nunca tiver fim? Não vai existir momento posterior de calma e tranquilidade para viver. Ou eu encontro a força - mais força - para me sobrepor às fases agora, ou vou afogar no meio da raia, sem nunca encontrar a borda. Hoje vou aceitar a vitória de ter sobrevivido mais uma. Com os óculos embaçados e cãimbras na panturrilha, buscar ar na superfície e continuar. Mais uma piscina.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

VAMOS DESENHAR...

Para quem não está entendendo nada:

sexta-feira, 10 de maio de 2013

RENASCIMENTO

Nos últimos meses duas matérias sobre experiências que eu vivi foram publicadas na Vida Simples. Foram duas revoluções na minha vida, tanto pela experiência em si, quanto pela repercussão das matérias. Recebi uma enxurrada de cartas, elogios, comentários, convites. É um sentimento de estranhamento muito intenso. Existe uma distância entre o ideal e o real, e quando se quer muito uma coisa, e se prepara e se persegue essa coisa, quando recebemos respostas é um pouco surreal. Não cai a ficha direito de que, talvez, eu esteja cruzando a fronteira entre o tentar e o realizar. Já disse isso aqui: eu escrevo. Acho que é a única coisa que faço bem. A única coisa que me faz sentir inteira, completa. Então quando a Ana, minha editora, me mandou por email a carta dessa leitora, eu desabei em lágrimas.  Meu peito ficou pequenino para o meu coração. Eu faço um milhão de coisas erradas. Me estapeio todos os dias para tentar ser uma pessoa melhor. No geral, estou perdendo a guerra. Mas pelo menos nessa batalha, acho que estou ganhando. :-)




Meu nome é Rita e já faz um tempo que sou leitora da Vida Simples. Amo a forma como esta revista aborda temas variados como sustentabilidade, arte, gastronomia, atualidades e, principalmente, assuntos delicados como arrependimento, que foi a capa da última edição.

Sempre me identifiquei com os textos, mas o que aconteceu quando li o texto da Adriana Rossatti foi uma verdadeira catarse. Primeiro estranhei o assunto da reportagem, mas curiosa que sou fui em frente. A sinceridade e coragem com que ela se expôs me fascinou profundamente! Ao ler a parte ela cantando Beatles baixinho me fez rir e no próximo parágrafo eu estava chorando ao me reconhecer inteiramente quando conta sua história ao nascer (eu estava na linha verde do metrô de São Paulo e se alguém me visse ia achar que estava louca ao ir do riso ao choro em menos de dois minutos). Temos muita coisa em comum e ler o seu depoimento me fez entender um pouco mais o meu passado. De certa forma, eu também morri e renasci junto com ela e acabei me conhecendo um pouco melhor.

Nunca escrevi para vocês (nem pra nenhuma outra revista), mas foi a primeira coisa que pensei ao me recompor. Quero parabenizar a Adriana e pedir pra que ela continue escrevendo para a Vida Simples e que vocês continuem fazendo essa delícia de revista que tanto bem me faz!

Um grande abraço a todos!

Rita de Cassia Reis

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Coisas que me fizeram sorrir essa semana

1.
A singeleza da amizade entre uma criança e um cachorro.



2.
Coisas que me lembram que o ser humano é do bem.



3.
Coisas que eu não pensava desde os anos 90... AQUI



4.
Constatar a passagem do tempo.



5.
Mensagem dele no meu celular. <3

quinta-feira, 18 de abril de 2013

DIÁLOGO

EU - Não estou conseguindo subir a foto. Acho que está muito pesada para o FB.
EDITOR DE ARTE - Qual que você está usando?
EU - Tô usando a _WEB, como a gente falou ontem.
EDITOR DE ARTE - Tá com quanto.
EU - 3,5M... Acho que está muito pesada.
EDITOR DE ARTE - Deve ser sua net.
EU - Mas minha net é 10mega, não pode ser minha n.... Ahhhhh!!! Lembrei! Estou baixando a 1a Temporada inteira de Game of Thrones
EDITOR DE ARTE - É isso!
EU - Sabe como é... sou nerd. Não queria assistir, mas não consegui resistir por muito tempo...
EDITOR DE ARTE - Poxa, eu também! Tanta gente falando. Também não sei se vou resistir...

NERDS. A gente disfarça, mas sempre se entrega. <3

domingo, 7 de abril de 2013

1996 - 2013



1996
Eu tinha 19 anos, estava com o coração partido e fui ao Hollywood Rock ver o show do The Cure. Era uma pessoa ansiosa, queria fazer tantas coisas. Eu não sabia muita coisa da vida naquela época. Não que eu saiba muito mais agora, mas tenho uma visão muito mais real do que é a vida. Muito menos ilusões. Minha bagagem era pequena. Eu tinha muitos sonhos e planos para realizar. Queria viajar. Sonhava em ir para a Índia, mas o máximo que tinha chegado era a Disneyworld. Queria escrever, fazer cinema. Queria fazer trabalho voluntário, ser correspondente de guerra, grande executiva, mudar o mundo. Lia compulsivamente. Ia ao cinema mais compulsivamente ainda. Eu não sabia me expressar direito naquela época. Não sabia falar, opinar. Estava em metamorfose. Eu era magrela, tinha o cabelo armado. Sabia tocar os acordes de “Close to me” no piano (talvez por isso ainda hoje seja minha música favorita deles) e, durante aquele show, me apaixonei. O moço estava fascinado por mim. Era narigudo e tinha um sorriso lindo. Me levantou nos ombros, cantou “Friday, I’m love” no meu ouvido e trocamos de camiseta. Levei para casa a sua da “Física - USP”. Ainda demorei meses em uma paixão platônica até ficar com ele. Depois ficamos, desficamos. Namoramos, brigamos. Eu fui morar nos EUA, voltei. Ele foi morar nos EUA, voltou. Viramos vegetarianos. Fizemos yoga. Namoramos de novo. Até que eu parti o coração dele e ficamos anos sem nos falar. 

2013
Comprei o ingresso no primeiro dia de venda do show do The Cure. Ainda liguei para o moço e rimos como seria divertido irmos juntos nesse show 17 anos depois. Ele hoje é um amigo querido, está no segundo casamento e só não foi ao show porque acabou de ser papai. Eu dessa vez fui tranquila. Com o coração inteiro, sem nada para consertar. A tranquilidade de quem está conseguindo viver a vida que sonhou. Faço o que amo. Moro onde amo. Tenho amigos que amo e conheço muito mais do que a Disneyworld. Sem a energia que eu tinha em 1996, mas a bagagem necessária para assistir 3h30 de show sem nem me abalar. Ou talvez, abalada demais. Foi uma máquina do tempo. Uma viagem por memórias, momentos, sentimentos, tudo o que eu vivi nesse intervalo de 17 anos. Cada música que tocava era como se um flash involuntário na minha mente. Memórias de tantas coisas que fiz e fui. De tantas coisas que amei. Os anos de FAAP. As festas, os porres. As tarde chuvosas ouvindo “Lullaby”. As madrugadas dançando “In between days” e dublando a música com raiva para outro moço. Discussões ao som de “Push”. O carro cheio com as meninas gritando a plenos pulmões pelas janelas “Friday, I’m in love”. Dias preguiçosos no sofá do Alê ouvindo “The Caterpillar”. Estradas que se desenrolaram ao som de “Lovecats”. Sem querer estavam tocando a trilha sonora da minha vida. E foi uma danada de uma vida. “To kill an arab” me lembrando que eu estava sim, viva. Sempre. “Just like heaven”, “A night like this”, “Why can’t I be you”... São tantas, tantas lembranças. A gente sai pela vida com uma camiseta de um curso universitário na mão e anda tanto, faz tanto, que nem lembra onde ela foi parar. De repente, em uma noite, alguém vai jogando luzes em pontos da nossa trajetória e nos lembramos do caminho que percorremos. Do quanto nos transformamos. Aquelas músicas vão tomando um outro significado. Vão ficando impregnadas com nossas vivências. Viram um canal para tudo que construímos e amamos. Assim, quando estamos perdidos no meio de algum país estrangeiro, depois de muitos meses longe de casa e já sem nenhuma referência de quem somos; ouvir “Close to me” faz com que nos resgatemos. Vem com a memória de quem somos. No show, a voz de Robert Smith já não é mais desamparada também. É mais densa, mais encorpada, e ele não é mais capaz dos gritinhos. Mas ainda é doce. Não podemos nunca deixar de ser doces. Então, quando os acordes de “Close to me” tocaram, me dei conta que não os sei mais decór. Ainda não fui para a Índia. Não mudei o mundo. Não estava apaixonada. Ainda assim, tinha construído uma trajetória muito melhor do que tinha imaginado, descoberto novas formas de amar, de tolerar, de viver. Eu estou exatamente onde quero estar e isso me faz sentir inteira. Olhei no telão e ele sorria. De forma inédita, Robert Smith sorria. Ele também talvez não seja mais aquele garoto melancólico. Eu? Eu também sorria. 

terça-feira, 2 de abril de 2013

DIÁLOGOS

Diálogo com meu sobrinho de 11 anos.

"Rafa, você não falou nada sobre o meu novo corte de cabelo."
"Eu sei."
"Hum... Mas e aí? Você gostou?"
"É. Eu vou me acostumar."

Meninos: Fazendo garotas se sentirem inseguras desde a mais tenra idade. 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

MORE BOOKS, LESS LOOKS

O Alê é uma dessas pessoas que eu tenho vontade de bater. Primeiro porque a gente só sente instintos assassinos com pessoas que a gente ama muito. Segundo porque ele é talentoso até dizer chega e não produz um décimo do que deveria. Alê é um dos escritores mais talentosos que já li. Só que ninguém nunca ouviu falar dele porque o moço não publica. Ele foi uma das minhas grandes inspirações a escrever. Desde a época da FAAP, a gente ficava pelos corredores, enfiados na casa um do outro e ele escrevia de um jeito que parecia tão fácil que resolvi também enfrentar o medo. Ele tinha um livro lindo que abandonou no meio. Na época resolvi que era daquele jeito que queria terminar meus dias: escrevendo. Alê é uma dessas forças da natureza, tudo com ele é intenso. Nós tivemos paus homéricos e passamos alguns anos sem nem olhar para cara um do outro. Ele mudou para Barcelona e durante minha mochilada passei alguns dias maravilhosos com ele. Andamos por toda cidade, tomamos muitos drinks, taças de champagne. Foi tudo como nos velhos tempos. Foi lá que disse para ele que não ia esperar o fim dos meus dias para escrever. Que estava mudando tudo na minha vida e que só queria fazer isso agora. Secretamente eu esperava que ele se juntasse a mim. Que não desperdiçasse todo aquele talento somente com emails fechados para amigos. No meu livro tenho diversas homenagens a ele. 
Então ontem recebo um email dele. Que surpresa descobrir que ele está saindo da ostra. Resolveu fazer um Tumblr, e como tudo que ele faz é genial. Ele escreve suas poesias na máquina de escrever e publica as fotos. Bem old school, como só os puristas podem ser. Ainda que de purista o Alê não tenha nada, mas aí é que está sua maior virtude. Sua nada convencional genialidade. Para variar saí inspirada. Vou passar a semana em antiquários buscando uma velha Remington para mim. 
O Tumblr do Alê chama "More books, less looks", e já está nos favoritos. 


domingo, 31 de março de 2013

INTOCÁVEIS



Eu sei que estou atrasada. A Gi me chamou para ver esse filme umas 10 vezes no cinema. Sempre acontecia alguma coisa e não dava. Geralmente era minha preguiça de sair de casa, mas chegamos a ir ao cinema umas duas vezes e perder o horário. Enfim, ontem resolvi pegar no Now e fazer uma sessão pipoca particular. Que delícia de filme! No budismo sempre falam sobre o “saber apreciar o outro”. Vi muito disso nesse filme. Quando conseguimos tirar da frente nossos preconceitos, nossa bagagem cultural, nossos fantasmas e limitações, e dos outros também, conseguimos enxergar o verdadeiro ser humano. Deixando de lado toda a maluquice de cada um descobrimos que no fundo somos todas pessoas inseguras, com medo, querendo ser amada e sem saber direito como fazer isso. Mais do que isso. Somos todas pessoas capazes de um grande poder de amor. E descobrir isso no outro é ouro. Faz com que a gente rejuvenesça 15 anos. É aí que a vida acontece. Às vezes sinto que estou passando pela vida sem viver. Talvez porque são poucos os momentos que realmente paro para enxergar o outro. É um longo caminho até evoluir. Não basta apenas a meditação. A vontade de ajudar os outros. É preciso olhar, apreciar. Eu sei muito pouco disso. Mas acho que, assim como o amor, é questão de prática. 

sábado, 30 de março de 2013

NA OSTRA



Eu passo longos períodos na ostra. Outro dia um amigo meu até me falou que isso era problema de autoestima. Não é não. Gosto de ficar em casa. Gosto de ficar reclusa, sozinha. Ler, trabalhar, escrever. Elaborar planos mirabolantes. Bundar no sofá vendo besteira na TV. Ficar enroscada com a gata na cama. Fazer roteiros para minha próxima viagem. Às vezes coloco uma música e fico horas olhando pela janela. Outras, abro o aplicativo de algum jogo bobo no celular. Dependendo do que eu esteja estudando, tiro diversos livros de ordem da estante, desço todos para a sala. Vou folheando aleatoriamente. Quando canso, levanto para descascar uma fruta. Fazer um chá. Então me distraio com uma revista ou com um livro de receitas sonhando em realmente um dia fazer todas. Eu realmente gosto muito da minha casa e da minha companhia. Chego às vezes até a ficar irritada se o telefone tocar. Como se alguém estivesse atrapalhando a incrível simbiose minha comigo mesma. Hoje, no final da tarde, resolvi ir à pé até a Livraria Cultura comprar um livro de roteiro que estava faltando para minha pesquisa e um presente de aniversário para o meu sobrinho amanhã. Quem sabe um novo CD com um concerto de Rachmaninov. Pensei em dar um passeio, respirar ar puro depois de dois dias de computador e livros. Tomar um café olhando a rua. Os primeiros minutos foram até revigorantes. Me senti animada em ver as pessoas. Pegar metrô, ouvir conversas. Fiquei pensando comigo mesma como eu deveria me obrigar a sair mais, a fazer mais coisas à pé e na rua. Gosto tanto da cidade e há tanta diversidade. Desci na Paulista e tinha um grupo de bailarinas dançando na ponta para ganhar uns trocados. Mais a frente um senhor tocava clarineta. Ah, que delícia de cidade! Então eu entrei na Livraria Cultura, no final da tarde de um sábado de feriado. E me lembrei porque eu detesto gente. Aquele caos, a cacofonia. Gente aos montes, falando alto, tropeçando, esbarrando no meu ombro. Pessoas que param para conversar no meio da passagem, e outras lerdas que sobem escadas pensando na morte da bezerra. Filas enormes. Crianças chorando. Uma falta de educação coletiva revoltante. E asssim, de repente, foi-se toda minha predisposição em fazer parte do mundo um pouquinho. Corri para o primeiro vendedor que achei, comprei os livros protocolarmente, e desisti do CD ou do café. Já sou ansiosa demais no meu íntimo. Tanta bagunça me deixa nervosa. De volta a ostra me sinto tranquila novamente. Vou ler, fazer algo para comer e quem sabe depois alugar um filme no Now. Sábados são terríveis para sair da ostra. Eu até gosto de fazer parte do mundo, mas fora dos horários comerciais. 

quinta-feira, 28 de março de 2013

MEDO, MEDO, MANO VELHO.



Impressionante que por mais que a gente se esforce, medite, tente ser uma pessoa melhor, existem algumas características que são muito difíceis de serem mudadas. Vira e mexe, cá estou eu esbarrando nas minhas falhas. Isso é para provar que se livrar de alguns traumas não é tão fácil. Se eu fizer uma busca de quantos textos já escrevi sobre meu medo de relacionamento nesse blog e no meu anterior, acho que dá para escrever um livro. Todas as vezes eu quero fazer diferente, eu quero passar por cima desse medo. Mas lá vou eu de novo me autoboicotar. Eu sempre estrago tudo. Eu fujo, ou mostro o pior de mim para o cara fugir, ou surto, ou menosprezo o moço, ou ignoro, ou sufoco, ou machuco, ou... Eu sempre dou um jeito de acabar com qualquer chance da coisa dar certo de forma irremediável. É como se eu tivesse dizendo o tempo todo “olha, eu sou uma baita de uma encrenca”, porque daí, quando o cara vai embora, ou quando eu consigo fazer o cara perder o interesse, eu posso voltar para a tranquilidade da minha solidão e dizer para mim mesma: “Viu só! Eu tinha razão!”. Completamente isenta de culpa. Meu modelo de relacionamento não é saudável. Também não quero entrar em detalhes aqui. Mas eu sempre acho que homens vão me machucar, me julgar, me humilhar e me abandonar. Invariavelmente eu acabo contribuindo para que eles reforcem  esse modelo e eu possa sempre falar, “Viu só. Eu sabia.”. Por que será que é tão difícil fazer a ponte da consciência racional para o comportamento prático? Por que será que esse medo nunca vai embora? A Keka e a Carol brigam comigo. Dizem que eu sou muito corajosa, e de fato não tenho medo para um milhão de coisas que botam medo nas pessoas. Viajo pelo mundo sozinha. Encaro o monstro da solidão. Mas daí é que entra a picareta. Eu me sinto segura na solidão. Meu medo é quando tem mais alguém. A minha coragem é só de fachada. É só porque eu me sinto segura no que dá medo aos outros. Daí não é coragem. Coragem é quando a gente encara o desafio apesar de. E não quando o desafio não nos custa nada. Essa semana saí para almoçar com uma amiga. Ela me contava sobre o relacionamento dela com um cara que talvez nunca tivesse imaginado que ela ficaria. No meu caso acho que nem aceitaria um convite para jantar. Mas ela, não só está com ele há mais de um ano como pensando em morar junto. “Dri, ele não é nada do que eu sempre sonhei ou quis, mas eu não acredito em coisas perfeitas. Eu vou até o fim.”. Se for pensar assim talvez eu tenha sim sido corajosa em algumas coisas. Nas vezes em que me via chorando no meio da mochilada sem saber o que estava fazendo ali. Ou depois de 9 horas de trilha carregando uma mochila de 15Kg e desejando por um helicóptero que me tirasse dali. Nas vezes que tive vontade de deletar meu livro e jogar o computador pela janela. Ou quando eu me vi em trabalhos com pessoas completamente sem caráter e me senti impotente. Em todas essas vezes eu disse exatamente a mesma coisa, “Vai demorar, vai ser sofrido, mas eu vou até o fim.” Eu tive medo, mas empurrei um pouco mais os limites da minha zona de conforto e ganhei experiências incríveis como resultado. Talvez eu precise começar a fazer isso nos relacionamentos. Nas horas que eu perceber que estou começando a boicotar, a desejar um helicoptero que me tire dali, me propôr a ir até o fim. Me propôr a ver onde a coisa vai dar. Dessa vez eu fiz uma coisa inédita. Engoli meu orgulho, pedi desculpas e pedi para voltar. Não sei se funcionou. Mas eu empurrei o limite da zona de conforto. Resolvi que vou esperar para ver o fim. Se o fim chegar, prometo não usar para reforçar minhas certezas de medo e abandono. Mas se ele não chegar... quem sabe eu não vivo uma experiência incrível. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

UM SHOW PERFEITO


Ontem fui arrastada ao Show da Bluebell e Blacktie no Auditório Ibirapuera. Não que fosse um peso para mim, mas é que passei o dia me sentindo muito mal, com dores no corpo, um princípio de gripe e a noite estava chuvosa. A vontade era continuar na cama lendo até que meu corpo fosse encontrado pela empregada na segunda-feira de manhã. Mas como já havia combinado com a Kika e ela tinha comprado os ingressos, eu me arrastei até o Ibira para não deixar ninguém na mão. Melhor coisa que eu fiz. Eu gosto da Bluebell, gosto do timbre dela. Ela consegue agudos invejáveis. Mas é uma voz perigosa, pode se tornar irritante ou enjoativa. Acho que ela sabe disso e conhece muito bem o instrumento que tem, porque o repertório que escolheu para o show é perfeito para ela. Com Cole Porter, Piaf, The Who e Nelson Cavaquinho. Ainda convidou para participações Laura Lavieri, Mariana Aydar (mega grávida) e o sempre apaixonante-casa-comigo Zeca Baleiro em versões de Beatles. Para finalizar cantou “It’s Oh So Quiet”, que foi gravada pela Bjork (foi minha mensagem de caixa postal no celular por anos), mas que parece ter sido composta para a voz dela. Some a isso que a garota é um fofa, super carismática e com presença de palco impecável e pronto. Um show impecável e um domingo que se salvou pelo gongo. A gripe acabou me pegando de verdade, ajudada pela chuva que tomei do estacionamento até o auditório. Mas junto com o chá de gengibre, mel e limão que estou tomando agora, estou também caçando o CD da parceria da cantora com os músicos do Blacktie. São dessas músicas que fazem a vida parecer mais linda e leve. :-)