sábado, 3 de julho de 2010

CHEIRO DE LAVANDA

Então acabou, né? Eu chorando sozinha no meio de um bar de uma vilazinha francesa. S tentando pedir lenços de papel para a dona através de mímica. Fiquei arrasada e amaldiçoei todos os holandeses do mundo (que nem são tantos assim...). Depois retirei, porque a gente não pode levar para o pessoal. Para mim acabou a Copa do Mundo. Não quero ver mais jogo. Estou em Cavallion. Uma cidadezinha ao norte de Aux en Provence. Perto da rota da lavanda. Hoje acordamos, eu fazendo a maior cara de paisagem, ignorando o chororô e o vexame de ontem. Pegamos o carro e seguimos atrás de campos de lavanda. Na minha fantasia (Ai, lá vem!!!) haveriam milhares de campos de lavanda super floridos, e eu ia correr entre as flores. Meus cabelos voando ao vento. O Sol batendo na minha pele. Passarinhos levantando vôo por onde eu passasse. Então na outra ponta estaria S. Todo lindo, em uma camisa branca. Ele me abraçava e me rodava. E nós dois ficávamos deitados no meio da paisagem de Provence, trocando beijos apaixonados e tomando um vinho gelado. Sim. Essa era a minha fantasia. Na prática... A gente viu vários campos de lavanda, mas não dava coragem de sair do ar condicionado do carro, porque o calor que tem feito aqui é desumano (Lembra São Paulo em janeiro? Então. Sem as chuvas no final do dia.). Até que, enfim, resolvemos parar em um campo e andar entre as flores. Não dá para correr. O terreno é meio acidentado e é cheio de arbustos secos que pinicam o pé e a perna. E ficam umas abelhas voando em volta do seu olho. Não rolou de protagonizar uma cena “Sound of Music” e, como não tinha banheiro, eu tive de fazer xixi escondida com um matinho pinicando minha bunda. Daí paramos em uma destilaria, que tinha tudo de tudo feito com lavanda. Sabonete, sachet, óleos essenciais, bolachinhas, mel e uns syroups para misturar com água bem legais. Fui provar um e derrubei o vidro inteiro em cima da minha saia e do chão. A vendedora, que era um anjo, deu risada comigo, disse para eu não me preocupar e me ajudou a arrumar a bagunça. Nessa hora S estava do outro lado da loja rolando de rir. Para variar eu estava suja e descabelada, e agora toda melecada de syroup de lavanda. Então S vai até o balcão e compra um vidro de syroup, “Acho que depois dessa, é melhor eu comprar um né!?”. É minha gente! Sabe aquelas propagandas de perfume? Que tem sempre alguém fresco e lindo correndo pela relva florida? Tudo mentira! A gente pulava entre os arbustos, e a camisa de S (que era cinza e não branca) estava toda molhada nas costas, e ele andava de um lado para o outro com os chinelos dele (que são horríveis e cafonas, e faz ele parecer um pato andando, mas que ele adora e diz que não troca por um par de Havaianas nem que eu importe a coleção inteira para ele). Na maior parte do tempo a gente ficava olhando igual idiota para o mapa das estradas e para as plaquinhas nos acostamentos, tentando adivinhar como chegar onde a gente queria... Mas como a vida é linda, e as coisas às vezes são engraçadas, outras vezes são apenas caóticas, mas tem muitas vezes que são fofas e balançam a gente. Quando a gente abria a porta do carro no meio de um campo de lavanda e recebia nos poros, nas narinas, na alma; aquele perfume doce e absoluto de flores e vida. E a gente tirou os chinelos e deitou no gramado de uma vilinha no pé de uma montanha, e ficamos olhando o Sol abrindo caminho entre as folhas de uma árvore, e tiramos um cochilo de conchinha (Big spoon, little spoon). Às vezes fazíamos uma piadinha que só nós dois entendíamos enquanto esperávamos em uma fila para comprar cartões postais para meus sobrinhos. E S quebrou um raminho de lavanda e me deu de presente com um beijinho. E teve também o momento em que, o Sol finalmente se pondo, já passando bem das 20h. Estávamos os dois sujos, descabelados. Eu comendo cerejas dentro do carro e cuspindo as sementes pela janela. Passei minha mão pelo braço dele. Pela sua barba ruiva que está crescendo, e agradeci por ele ter dirigido para mim. Por ter me trazido aos campos de lavanda. E S, que é sempre tão educado e tímido, fica meio vermelho, sorri e diz “Thank you, for bringing me with you”.

3 comentários:

Vanessa disse...

Na maioria das vezes imaginamos viver as cenas de filmes que outros personagens viveram, mas a vida escreve nosso roteiro que é tão mais real, cheio de vida, detalhes e pequenos gestos que os tornam especiais e inesquecíveis!!! Seu roteiro está muito melhor querida! Continue a ser a protagonista principal de sua vida!! ;)

MH disse...

Ai que lindo!!! Quero fotos, muitas fotos.
E que saudades fdp, cherie!

Ana Carolina Avilez disse...

Querida!! Já viste se tivessem filmado só este bocadinho que partilhaste aqui? Isso sim seria, para mim, como uma cena romântica ideal. Estas dos filmes super românticos, não são credíveis... são lindas é facto, mas pouco prováveis :)
Continue a viver intensamente, mesmo que descabelada, pois o convívio também é feito de embaraços e muitas vezes são as partes mais divertidas :)
Continue a partilhar este momentos, nós amigos/expectadores, agradecemos rsrs
Mil beijos!!