terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Tranquei o MBA até que eu coloque ordem na minha bagunça pessoal. Mas tive de ir para a GV ontem e hoje para finalizar uma matéria do ano passado. Não acho o MBA da GV a coisa mais incrível do mundo não. Pode até soar arrogante, mas achei minha pós em Marketing da FAAP muito mais interessante do que o MBA. Mas isso pode ser frescura minha. A única coisa que eu não engulo de jeito nenhum é o coffee break da GV. Ontem tinha micro-pizza de queijo. Ok. E mini-baguette gordurosa com calabresa. Geralmente as opções são todas com carne. Embora a micro-pizza possa ser um alimento vegetariano, não podemos dizer que seja uma opção saudável de lanche. E isso eu acho de uma falta inadmissível para uma instituição como a GV. Como é que, nos dias de hoje, uma empresa que se considere referência não ofereça opções vegetarianas em seus eventos e momentos de convivência. Como é que uma empresa como a GV tenha no seu cardápio apenas opções para deixar seus executivos cada dia mais obesos e com as artérias entupidas? Como é que uma empresa dessas abuse de copos e suportes descartáveis, produzindo lixo desnecessário e totalmente não sustentáveis? Então, como forma pacífica de protesto, eu escrevo em todos os formulários de avaliação de disciplina: “Acredito que a qualidade do coffee break destoe do padrão de qualidade dos serviços oferecidos pela GV e apreciaria se pudessem considerar a inclusão de alimentos mais saudáveis e opções vegetarianas ao cardápio.” É mais ou menos isso. Às vezes estou mais raivosa, outras mais política. Mas todas vezes estou adorando me posicionar sobre algo que acredito. Eu fui vegetariana por 5 anos. Durante 1 ano desses 5 eu não dizia que era vegetariana. Dizia que não comia carne. Eram coisas diferentes. Nunca fui militante tampouco. Passei 5 anos (talvez alguns meses mais) sem colocar nenhum bichinho no estômago. E depois disso passei por períodos de vegetarianismo que iam e viam, simplesmente porque a ausência de proteína animal me fazia sentir muito mais conectada com o astral. Quando eu voltei da Guatemala flertei com o vegetarianismo novamente. Passei um mês e meio em desintoxicação, tentando encontrar meu rumo de volta ao Brasil. Então me mudei, voltei a cozinhar na minha própria casa, e não demorei muito para descobrir que eu não sabia e nem tinha vontade de aprender a cozinhar carne. Tive algumas tentativas que me deixavam com nojo da tábua de corte e das louças para serem lavadas. Até que resolvi que não teria mais carne em casa e somente comeria carne quando comesse fora. Não demorou muito até que comecei a ler alguns artigos bastante perturbadores sobre a indústria de carne, frangos, peixes e porcos. E como é irremediavelmente insustentável ingerir esses alimentos. É como acordar depois de um longo sonho. Por mais que você tente, não consegue voltar a dormir. Não se pode continuar a comer carne sabendo o que eu sei sobre a produção de carne. E eu nem sei tanta coisa assim. É só que , o que eu sei, é suficiente para nunca mais colocar um pedaço de animal da boca para em alimentar. Também, mastigar, engolir e digerir um animal assassinado não é o tipo de energia que eu tenho procurado para mim. Tem sido minha temática constante nos últimos meses, a não-violência. Como praticar a não-violência precisando que animais sejam assassinados para que eu me alimente. Antes fosse simplesmente pela alimentação em si. Na maioria das vezes as pessoas continuam financiando essa indústria cruel pelo simples prazer do sabor efêmero de uma garfada. Em 99% das vezes “É gostoso!” é o argumento usado pelas pessoas carnívoras que eu conheço. Não quero ser uma militante. Acho chato gente assim. Mas acredito que quando a gente descobre algo muito legal e muito verdadeiro (algumas vezes descobrimos inclusive algumas facetas revoltantes) a gente tem vontade de compartilhar com as pessoas que a gente gosta. Do mesmo jeito, sem ser agitadora de nenhuma forma, acredito que seja sinal de caráter não se omitir perante uma injustiça, perante um absurdo, perante algo quando você carrega informação de ser cruel, perigoso, insustentável, mesquinho. E só por isso eu vou exigir que empresas que me prestam serviços tenham atitudes de responsabilidade ambiental. Porque foi-se o tempo em que o hedonismo vigorante nos nossos padrões de vida funcionassem como argumentos suficientes para sustentar estilos de vida que gerem violência, agridam o meio-ambiente e inviabilizem a sustentabilidade futura da vida na Terra.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

EM UM RELACIONAMENTO SÉRIO


Amor é o meu tema favorito. Em todas suas formas e variantes. Falo, persigo, busco. Tanto que cruzei, literalmente, um oceano inteiro em busca dele. Houve momentos que o senti tão perto, como se roçasse meu nariz e me fizesse espirar. Mas também há os períodos negros em que tudo é árido de sentimentos. Hoje eu estava trabalhando, lendo um artigo ótimo sobre amor e me toquei que, às vezes, não é questão de encontrar o amor, mas de encontrar nós mesmos. Então eu parei por um segundo e admiti que ainda há muito em mim que não me pertence. Há muito em mim que é vício, é trauma, é medo. E é impossível cultivar amor em solo pouco fértil. Ele vai sempre roçar meu nariz se eu não permitir me desnudar verdadeiramente em vez de fingir que vivo experiências que não são reais. Os últimos meses foram talvez os meses de maior disponibilidade de autoconhecimento que já tive na vida. A dolorosa constatação da minha imperfeição. O sentimento de traição daqueles em que eu mais depositava afeto e amizade. Enfim me encontrei desarmada. Face a face a minha verdadeira realidade. Sem auto-piedade. Sem comiseração. Somente a pessoa real que eu sou, e que não é perfeita, e nunca vai alcançar meus delírios de perfeição. Eu não tenho amigos de verdade. Eu não confio mais no meu terapeuta. Eu não tenho uma família que eu possa deixar que se aproxime. Eu não tenho uma profissão. No final, essas eram as únicas certezas que me sobraram na virada do ano. Essas e a certeza de que eu estou sozinha, nasci sozinha e vou morrer sozinha. Acho inclusive que aceitar esse fato imutável pode ser bastante libertador para qualquer pessoa. Você está sozinho! Então caem todas as obrigações inconscientes de ser perfeita, de agradar quem me rodeia, de ser amada... Ser amada. Eu que busquei tanto o amor, nunca me senti amada. E me vendo sozinha, do jeito que eu tinha nascido, percebi enfim que a única pessoa que poderia me amar era eu mesma. Mas não da boca para fora. Falo de perceber de verdade. Não de discurso de auto-ajuda: “O importante é se amar!”, “ninguém vai te amar se você não se amar”. Isso é besteira. É abstrato. Eu só serei amada pela única pessoa que faz parte do meu universo, e não acho que eu seja capaz de explicar isso aqui. Então eu tomei a decisão mais séria da minha vida. Resolvi virar a namorada de mim mesma. Pular de cabeça, como eu fiz com todas as outras pessoas que passaram na minha vida, no único relacionamento que eu deveria ter me dedicado desde o princípio. Antes de pensar em ter qualquer outro relacionamento. Antes de me decepcionar por desprezarem o que posso dar como amizade. Iniciei um relacionamento sério comigo mesma. Fui até o Facebook, mudei meu status de relacionamento. Tentei colocar “em um relacionamento sério com Adriana R.”, mas o Facebook não permitiu. Apareceu uma mensagem de erro dizendo: “você não pode ter um relacionamento sério com você mesmo”. Acho que deve ser assim mesmo, né? Em um universo em que eu tenho 824 amigos, não se pode mesmo amar a única pessoa que eu deveria.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ASTROMELIAS

Comprei um buquê de flores para colocar no vaso em cima da mesa da sala. Um buquê de astromelias roxas que alegraram o ambiente por um par de dias. No final de semana começaram a despetalar. Engraçado que elas não murcharam, não perderam a cor. Simplesmente se despetalam aos poucos quando eu não estou olhando. Cada vez que passo por elas, recolho um tanto de pétalas mortas caídas sobre a mesa e jogo no lixinho da pia. Elas ainda parecem com um buquê, mas eu sei que os dias estão contados. Que em pouco tempo todas as pétalas ter-se-ão ido, e o que sobrará será um punhado de caules embolorados em uma água turva. Fico pensando em qual foi o exato momento que o buquê deixou de ter vida. O instante em que esse processo todo se iniciou. Aquele limite sem volta em que o vivo e vistoso condenou-se irreversivelmente ao destino árido de um vaso morto. E cheguei a conclusão que eu mesma não notei quando minha primeira pétala caiu sobre o tampo de madeira. Nesse final de semana me despetalei. Sem dor nenhuma. Como quando uma rajada de vento joga ao chão as pétalas soltas de astromelia da alma. Elas já estavam soltas, só precisavam de algo que as desprendessem. Seja o vento, seja a gravidade. Pétalas soltas caem. Agarrar-se à ilusão de que ainda são flores não vai fazer delas um buquê. Perdi a confiança em todo mundo que conheço. Não é um exagero. Perdi a confiança na minha família, nos meus amigos. Naqueles que eu tinha certeza que eram amigos. Amei tanto a beleza de um vaso florido, que nem percebi que ele não é mais vaso, não é mais flor. Ainda amo, embora não saiba o que eu ame. Não sei se amo a idéia de astromelias, ou se sou capaz de amar o lixo orgânico que elas se tornam. Confiança é uma pétala. Quando ela se desprende, nunca mais será flor novamente. É possível amar sem confiar?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

EU TE PEGO!

Eu nunca acompanho essas sensações instantâneas e efêmeras (do pior) da música POP. Não ouço, não sei quem são. Mas dessa vez eu não consegui resistir e me entreguei à Michel Teló!

domingo, 8 de janeiro de 2012

QUATRO DIAS E NENHUMA MOSCA MORTA


El Chaltén é uma gracinha de cidade. Mesmo. Pequena, charmosa. Às margens de um rio glacial azul turvo e emoldurada pelo Cerro Torres e o Fitz Roy nevado. Lindo, pontiagudo. Apontando para o céu. É fascinante a visão dessas montanhas imponentes. A mesma sensação que tive em Zermatt em 2010, quando vi o Motterhorn e resolvi gostar da cidade de imediato. Internet foi um problema em El Chaltén, o que acabou virando uma boa coisa. Eu queria mesmo desconectar por um tempo e estava impossível. Mais pelo vício da pessoa que a impede de simplesmente desligar e guardar todos os gadgets. Aproveitando a desconexão forçada, me joguei em um trekking de 4 dias nas trilhas em torno do Fitz Roy. Isso significou 4 dias de contato direto com a natureza, paisagens de tirar o fôlego, silêncio, meditação e contemplação. Mas também significou 4 dias de camping no meio do mato, com insetos, água estranha, xixi em arbustos, banho zero e muito carregamento de peso. Pois é! Ninguém chega ao castelo sem atravessar o fosso antes. Foi a primeira vez que eu acampei sozinha. Sozinha de tudo. Carregando mochila, montando barraca, cozinhando miojo. Se foi loucura eu não sei dizer. Só sei que foi uma experiência incrível e eu começo a entender porque pessoas como minha irmãzinha Carol gostam tanto de acampar. Primeiro houve todo o tempo de preparação. Você precisa pensar em todos os detalhes do que vai ou pode precisa no camping, porque depois não tem como correr na padaria da esquina ou na farmácia na última hora. Uma grande vantagem é que toda a água do parque é muito fresca e potável. O que me livrou de carregar litros na bagagem e racionar o consumo para escovar os dentes e lavar pratos. Aproveitei para comprar alguns queijos e vinho e me mimar um pouco ao pôr do Sol (que aqui é às 22h30) com pequenos prazeres na natureza. Kerri (uma americana que conheci junto com Tanja em Torres Del Paine e acabamos nos encontrando e fazendo várias coisas juntas em Chaltén) disse que eu faço “camping deluxe”. Bom, acho que se é para fazer, faça com estilo! E isso vale para tudo na vida. O único problema é que em uma situação como essa, estilo tem um preço. E não estou falando de algo que se resolva com um cartão de crédito. Ao final de toda a arrumação da mochila (com toneladas de Baby Wipes para uma alternativa de banho, vinho, queijos, pães, molho para o macarrão, café de coador, legumes para salada e geléia para o café da manhã) minha mochila de “camping deluxe” estava com cerca de 17Kg. Você pode até pensar que 17Kg é algo absolutamente administrável. Meu sobrinho pesa 17Kg e vivo brincando com ele no colo. Acontece que carregar uma criança de 17Kg por 5 minutos é moleza. Depois de 30 minutos os braços já sentem. Agora experimente carregar uma criança de 17Kg por 4 horas durante um percurso de 9,5Km de terreno acidentado e íngreme. Gostoso! Agora deve mesmo estar parecendo loucura, mas juro que existe uma satisfação de se descobrir capaz, de vencer cada trecho da trilha, de chegar até seu objetivo, e essa é o tipo de satisfação que molda nosso caráter. Foi um sacrifício, mas juro que em nenhum momento eu me violentei. Em nenhum momento cheguei a um ponto de achar que não podia mais, de chorar, de pensar em desistir. A primeira hora de trilha foi difícil. Era o trecho mais íngreme e cada passo me obrigava a usar uma pedra alta como degrau. Dava para sentir cada músculo da minha perna sendo exigido. O trajeto na verdade era estimado para ser feito em 3h30, mas como eu sabia que estava com sobrepeso, calculei que demoraria 30 minutos a mais. Quando cansava, parava e tirava a mochila por uns minutos. Bebia água, tirava algumas fotos, comia uma barrinha de cereal, e depois continuava. As duas últimas horas foram muito agradáveis. O terreno era mais estabilizado e as paisagens tão bucólicas e cinematográficas. Acabei pegando um ritmo e fazendo uma caminhada bastante prazerosa. Acampei por dois dias no Camping Poicenot, que não tem estrutura nenhuma. Nada mais é do que uma área embaixo de árvores reservada pela administração do parque para que os trekkers acampem com segurança. Estava bem cheio. Com o incidente em Paine, todos os trekkers da Patagônia vieram para Chaltén. Com o acampamento montado pude fazer trilhas em volta durante o dia carregando apenas minha mochila de ataque. No geral as trilhas eram de nível moderado. A da Laguna de los Três era a mais exigente, mas nada que não se resolvesse em 1h30-2h de esforço mais árduo. Em compensação a recompensa era uma deslumbrante visão de uma lagoa azul turquesa no alto da montanha, aos pés do Fitz Roy e cercada por dois glaciares, um de cada lado. Nesse dia acordei às 5h para tirar fotos do Sol nascendo. A desconcertante visão da luz laranja surgindo no horizonte e tingindo de fogo as torres e as montanhas, prometendo um dia espetacular. Depois voltei para o acampamento, tomei meu café da manhã deluxe, com pão, queijo, geléia, café passadinho na hora, cereal com leite e suco de laranja. Dá para comer de tudo porque você vai ficar horas queimando até o último grama de caloria nas trilhas. Às 7h30 me joguei na trilha para a Laguna (é toda subida em 70o e de pedras, o que é sempre traiçoeiro porque você escorrega, as pedras rolam e você nunca sabe onde firmar o pé direito). O bom foi que no horário em que eu saí a maioria do camping ainda estava acordando. Cheguei à Lagoa sozinha, sem uma viva alma lá em cima. Sentei em uma pedra bem no centro e meditei por meia hora. Fortíssima a energia de abrir seus chacras em meio a um paraíso como aquele. Depois fiquei mais um tempo contemplando o som do vento no vale, e quando eu descia de volta para o acampamento, as pessoas subiam em peso. Comecei a entender o ditado “Deus ajuda quem cedo madruga”. A única coisa de matar em todas as trilhas e experiências no Parque eram as moscas mutantes que nos atacavam. Juro! Moscas mutantes! Eram umas moscas gigantescas, do tamanho de uma varejeira, mas elas zumbiam como abelhas. Você ali, se matando na trilha e as bichinhas rondando sua cabeça e te enlouquecendo com o zum-zum. Pior de tudo! Elas picavam! Nunca vi mosca picar. Aquelas davam umas mordidinhas doídas se você descuidasse e as deixasse pousarem na sua roupa (Sim! Picavam ATRAVÉS da roupa!!!) De enlouquecer. Às vezes eu era atacada por umas 15 ao mesmo tempo. Era uma coisa completamente sem propósito. De repente todas elas resolviam que seria legal ficar zumbindo em volta da sua cabeça e Bum! Todas juntas a sua volta por uns 10 minutos. Então elas cansavam, e todas desapareciam. Assim. Sem nenhuma explicação plausível. Minha vontade era sair correndo pelo camping gritando e chacoalhando os braços no ar, como um boneco inflável de posto. E vai achando que repelente funcionava? Nada! Destemidas, as danadas. Passar repelente ou Chanel no.5 dava tudo na mesma. Eu tinha delírios de comprar um pote gigante de Baygon e sair pelas trilhas pulverizando e rindo maquiavelicamente. Mas então comecei a pensar no conceito de não-violência. Muito fácil a gente pensar em conceitos de não-violência quando falamos das crianças na África, ou de Yorkshires fofinhos. Todo mundo é contra matar coelhinhos, chinchilas, minks para fazer casaco de pele. Mas quando falamos de uma mosca mutante nojenta e irritante parece a coisa mais natural do mundo borrifar com veneno ou estabacar seus corpos contra as pedras, até que elas agonizem e morram. Fiquei pensando muito nisso enquanto era levada à loucura por elas. E cheguei à conclusão que toda vida é um milagre (mesmo eu tendo certeza que aquelas moscas não são obra divina e foram manipuladas genéticamente em laboratório). E matar uma mosca mutante é tão violento quanto aquelas imagens de caçadores enfiando machadinhas nas cabeças das focas na Antártida. Então eu tenho muito orgulho em dizer que nenhuma mosca foi morta durante a execução das minhas trilhas pelo Fitz Roy! :-)


No terceiro dia mudei minhas coisas para o Camping Di Agostini que era na parte mais baixa do Parque. Mais 4 horas de trilha com mochila pesada nas costas. Dessa vez um pouco mais leve já que eu havia consumido dois dias do meu cardápio de camping deluxo em Poicenot. Essa trilha foi mais chatinha. O primeiro trecho muito aprazível, beirando as Lagunas Madre e Hija, com visões de bosques, flores e nada de moscas. Em compensação as restantes 3 horas foram de uma tortura sem fim. Parecia que o caminho não acabava nunca. O camping, todavia, estava mais vazio e era mais confortável. Um rio forte abastecia com água. Mas como era um rio de glacial a água era turva. Bem estranho. Lá fiz mais algumas trilhas, mais uma tonelada de meditação em pedras estratégicas no meio dos caminhos e em mirantes. E voltei para El Chaltén na sexta-feira no final da tarde. Mais 3h30 de caminhada, dessa vez descida. Estourando meus joelhos e me fazendo pensar com muito amor e saudades na minha manicure, na minha podóloga, no meu cabeleireiro e em uma bela sessão de massagem em um SPA. Mais do que tudo, o que eu pensava era em um banho quente. De verdade. Com água correndo em cima do corpo e cheirinho de sabonete. Eu tenho minhas frescuras, eu sei. Tenho minhas particularidades, minhas neuroses, minhas manias. Tenho, inclusive, (um monte) minhas chatices. Mas quando você se encontrar submersa na natureza, com todas suas coisinhas dobráveis que sustentam fragilmente seus hábitos civilizatórios. Quando você acorda no meio da noite ouvindo o vento quase arrancar sua barraca, e a poeira sujar tudo o que você tem pelas frestas de respiro. Quando você cruza com um carcará gigante buscando comida pelo mato ao amanhecer. Quando você olha para trás, no alto de uma montanha, e perde de vista a trilha, mas sabe que no começo mal enxergava o lugar onde chegou. Quando você trás aos lábios uma concha de mão cheia de água gelada e pura e sente a sede de duas horas de esforço se aplacar enquanto o estrondo de uma avalanche ressoa pelo ar. Quando seu suor gruda na sua roupa e você sabe que ela não vai estar limpa e passada na sua gaveta no dia seguinte. Alguns conceitos de necessidade, precisão, alguns conceitos que nos fornecem a estrutura de quem somos, o que somos, eles mudam. Porque quando você estabelece seus limites de conforto vem à tona sua verdadeira essência de ser humano. E essa é a que nós vivemos nos esquecendo, e nos transformando em profissões, em marcas, em consumidores. Ao final do dia só queremos descobrir como não sucumbir ao selvagem. Como nos livrar das moscas sem matá-las. A melhor coisa de todo esse contato com a natureza é encontrar esse limite que nos faz humanos e animais ao mesmo tempo.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

PARTINDO DE PUERTO NATALES


Festa de Ano Novo ontem foi aqui ao lado do Erratic Rock, no Base Camp. É um bar e loja de aluguel de equipamentos do mesmo dono, o Bill. É também onde rolam as palestras sobre os circuitos de Torres Del Paine gratuitamente todos os dias às 15h. Nós estouramos champagne, cantamos, dançamos. Todos sentindo que nem parecia Ano Novo. Eu e umas cariocas, porque estava frio demais. Os europeus, porque estava calor. De qualquer forma, todo mundo muito longe de casa. Mas foi legal. Formou-se uma irmandade, uma união. Na expectativa de boas notícias, na distância e estranhamento da própria casa, na vontade de colocar a mochila nas costas e continuar. Principalmente na frustração de termos chegado tão perto sem ter visto as belas torres. Eu fui dormir cedo. Porque não queria me embriagar, estava cansada e acordava cedo hoje para um passeio de barco que tinha reservado. Existe essa empresa chamada Agunsa que organiza uma excursão de lancha de um dia inteiro pelos fiordes e pelos glaciares aqui de Puerto Natales. Tirei algumas fotos legais, fiz uma trilha tranquila até o Glacial Serrano. Dormi bastante nos trechos de navegação. Depois nos levaram até uma Estância onde foi servido o almoço. Churrasco para variar. Um prato de legumes picados e refogados para mim. Sentei ao lado de um casal venezuelano que está morando no Rio há um ano e meio. Adoro esses encontros ao acaso que as viagens propiciam. São ótimos para conhecer pessoas, conhecer mais sobre seus países, e distanciar a visão que eu tenho do meu próprio. Um passeio agradável, e foi bom poder explorar um pouco da paisagem e das atrações desse lado da Patagônia. Que não é só o parque. Sobre o incêndio, está finalmente sob controle. Agora combate-se o fogo subterrâneo que ainda queima a terra e as raízes. Acredita-se que até que tudo seja resfriado e apagado ainda demore um mês. Um mês, por causa de um descuido de algums minutos. Sabe-se lá quantas décadas até que a natureza se reencontre e apague as cicatrizes. Foram 11.000 hectares queimados. Todo o W. E essa é a última coisa que eu falo dessa tragédia. Hoje à noite deixei Puerto Natales e os queridos amigos que fiz lá. Durmo em Calafate para amanhã cedinho pegar o primeiro ônibus para El Chaltén. O plano é acampar por 3 dias em volta do Fitz Roy. Segundo o guia “Trekking na Patagônia” do Lonely Planet, Torres Del Paine e Fitz Roy são os dois highlights da Patagônia. Como não foi possível ver um, vou correndo de encontro ao outro. Estou ansiosa mesmo para desligar completamente pelos três dias. (Mas nem tanto pela expectativa de banho zero no mesmo período!) Quase perdi o ônibus para Calafate. Desembarquei do passeio e fui correndo buscar a mochila no hostel. Correndo é força de expressão. O vento voltou e é IMPOSSÍVEL correr contra esse vento. É uma coisa assustadora, não estou exagerando não. Você precisa pisar firme e inclinar o corpo para frente para conseguir se locomover. Minhas coxas até doeram com a força da resistência. Então foi basicamente isso: peguei a mochila voando, mal dei tchau para as pessoas e fui a última, no último minuto, a entrar no ônibus. Cansada, bufando. Sentei no meu lugar, o ônibus deu partida e saiu. Ufa! Uma viagem de cerca de 5 horas de Punta Arenas à Calafate. De novo aquela paisagem linda e desértica. Eu coloquei The Lucksmiths no Ipod e encostei a cabeça no vidro do ônibus. Desenrolavam-se centenas de kilometros na minha frente de uma paisagem seca e linda. O campo que se perdia até um altiplano no horizonte. A estrada dura, reta, vazia que seguia impiedosa. Ovelhas pastando. Pássaros enormes pousados em rochas assistindo o pôr do Sol. Sim. Às 21h30 começou o pôr do Sol mais espetacular que eu já vi. Ele caia atrás do meu ombro direito. Eu via refletido o contorno do ônibus no asfalto, enquanto a luz alaranjada devorava toda a paisagem até fazer as nuvens do céu criarem vida e tornarem-se sólidas. Paralelo à estrada um bando de cavalos corriam livres sem destino, desviando de pequenas lagoas, com o vento balançando suas crinas, me fazendo puxar o ar em angústia de ver tanta liberdade assim, explícita. Três raios grossos e vermelhos saíam do horizonte e cortavam o azul implacável, e nesse momento eu não agüentei e chorei. Chorei porque meus olhos não agüentaram tanta beleza. Chorei porque a maneira como a vida acontece aqui faz com que eu tenha vontade de abraçá-la mesmo sabendo que eu vou sucumbir no segundo seguinte. Chorei porque, se eu estou começando o ano desse jeito é porque eu sou muito abençoada. Chorei porque é isso o que a gente faz quando presencia um milagre. Do outro lado do ônibus o Sol executava um espetáculo de despedida de seu primeiro dia. Ele ardia, quase cantava, e suas chamas se agigantavam pelo céu e o horizonte até que não pudesse enxergar. Fez o dia vermelho, de vida; e me deu de presente as fotos laranjas que eu tanto procurava. Como uma pintura, pinceladas de Van Gogh na minha frente. O céu da Patagônia.


sábado, 31 de dezembro de 2011

UM ALENTO NO ÚLTIMO DIA DO ANO PARA COMEÇAR 2012 COM ESPERANÇAS

Hoje acordei com algumas mordidas de aranha nas mãos e no rosto. No café da manhã rolou uma boa conversa sobre o que deveríamos fazer com a coitadinha. A opinião geral é exterminar e matar. Eu, que sou a suposta vítima, tenho estado cada vez mais praticante da não-violência, então o que eu queria era encontrar nossa amiguinha e soltá-la na grama do parque em frente ao hostel. “Corra para a floresta, amiga!”. Pura maldade! Ela seria carbonizada até a morte lá. Hahaha. Ai, sem humor negro hoje. Eu provavelmente matei esmagada a coitada da aranha e ela deve ter me mordido em tentativas desesperada de me tirar de cima dela. De qualquer forma a conversa de não-violência no café da manhã foi uma quebra no assunto constante do incêndio que já está deixando todo mundo um pouco cansado. É tanta gente falando tanta coisa. E muita especulação. As pessoas vêm bater na porta do hostel, com os olhos arregalados, fazendo perguntas, querendo saber da situação. A política agora aqui no Erratic Rock é não falar mais nada. Porque tem muita fofoca correndo por aí, e as pessoas possuem um gosto mórbido por fofocas e tragédias. O que sabemos é que ao final os Refúgios se mantiveram intactos, embora o fogo esteja queimando todos os acampamentos ao redor. Ou seja, Paine Grande sobreviveu! Após a notícia do fogo alcançando Las Torres não sabemos mais nada, então esperamos que ele também se salve. Ontem por volta das 17h uma chuva começou no parque. Talvez fruto de tanta oração das pessoas locais. E o que nos chegou hoje cedo foi que a chuva ajudou a diminuir a intensidade do fogo e os ventos estão mais moderados. Embora ele continue ardendo em três frentes, o panorama geral parece se apresentar mais controlável. Quanto a situação do parque, ele permanece fechado e deve continuar por toda a temporada. Alguns dizem que por todo janeiro, outros até fevereiro. O que ninguém diz é que, não importa quando seja aberto, será um grande cemitério carbonizado sem nenhum traço da fauna e da flora única da Patagônia. Esse é o tipo de coisa que ninguém nunca quer pronunciar mesmo. Sobre os suspeitos... Tenho evitado falar sobre eles porque já ouvi muita besteira e muita coisa perigosa por aqui. O Felipe, que é um guia local e foi o cara que identificou o fogo, testemunhou os culpados e ficou combatendo sozinho com as próprias mãos até que a ajuda chegasse, estava aqui no hostel até ontem. Ele passou pela investigação, identificou os culpados. Segundo ele foi um grupo de turistas israelenses, 2 meninas e 4 garotos. Estavam acampando fora da região permitida e acenderam uma fogueira. Fogueiras são proibidas no parque. De acordo com o relato dele o grupo foi preso e as garotas pareciam assustadas, mas os rapazes apresentaram uma atitude arrogante o tempo todo. Se recusaram a falar qualquer coisa e disseram que só falariam com a presença de alguém da embaixada. Daí existe especulação sobre um dos garotos ser VIP, (ter imunidade diplomática ou algo assim), ou sobre um vídeo que eles apresentaram colocando-os fora do local. De qualquer forma eu sempre acho muito complicado qualquer tipo de acusação e especulação em cima de culpa sobre um crime tão terrível. Os turistas israelenses foram liberados na quinta-feira, e devem estar muito longe do Chile hoje. Agora a polícia disse que continua em busca dos culpados. A verdade é que todo mundo sabe que esses culpados nunca vão aparecer. Existe um certo movimento no ar contra turistas israelenses em geral, o que eu pessoalmente acho MUITO perigoso. No momento em que começarmos a generalizar atitudes de pessoas pelas suas raças, sexos, nacionalidades, religiões... estamos a um passo de perdermos nossa essência de humanidade. A violência se manifesta de maneiras muito sutis antes de explodir em manifestações físicas. Eu acho que o mundo já tem violência demais e não precisa de mais. Então eu não vou falar de culpas, eu não vou falar de punição e castigo. Eu acredito que, por mais irresponsável que a pessoa tenha sido, ninguém faria uma coisa dessas intencionalmente. Eu não acredito que alguém seja capaz de tamanha maldade de forma consciente. Então eu acredito que essa pessoa vai ter de passar o resto da vida sabendo que sua irresponsabilidade causou um desastre natural de proporções gigantescas. E cada um sabe o que carrega quando coloca a cabeça no travesseiro à noite para dormir. Embora eu concorde que uma punição protocolar deveria ser aplicada, mas acho que a maior punição que se pode ter é o peso da própria consciência. Isso já é de uma violência agressiva suficiente. Não sou eu quem vai incentivar qualquer julgamento, raiva ou mais violência. Hoje vou fazer uma cavalgada na Dorotéa, uma serra ao redor de Puerto Natales. Pode-se ver os condores de cima lá. Nas agências de turismo as pessoas fazem filas para receberem reembolsos de seus pacotes de viagem, muitas desistências. Todo mundo fugindo da cidade. Pode-se ver a tristeza nos olhos dos agentes. Existem várias coisas para se fazer em Puerto Natales além de Torres Del Paine. Enquanto eu estiver aqui, vou tentar ajudar a economia local. O vento hoje parou. As folhas das árvores nem se mexem. Amanhã começa um ano todo novo, cheio de possibilidades e esperanças. Vamos esperar que a chuva volte, que o vento pare. Que os turistas não fujam. Que as pessoas locais possam continuar com suas vidas. Que nós sejamos capazes de encontrar as aranhas que nos mordem e soltá-las livres nas florestas. E que essas florestas não estejam em chamas. Feliz Ano Novo para todos vocês. =)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

TRAGÉDIA


Não dá para definir de outra forma o que está acontecendo aqui em Puerto Natales. Os chilenos são muito discretos, a vida continua, mas o luto está no ar. Até agora mais de 8.500 hectares forma consumidos pelo fogo, que está incontrolável e muito abastecido pelos fortes ventos. (Chegam à 100Km/h!!!). Existe falhas de autoridades em todas as partes. A evacuação está sendo feita sem nenhum planejamento. Conversei com um casal brasileiro que saiu do parque hoje cedo e disseram que vans estão fazendo leilão com assentos para deixar o parque. Você praticamente tem de pagar para ser evacuado. Não existe nenhum órgão governamental a cargo, praticamente terra de ninguém. Consequentemente os hotéis e hostels da cidade estão lotados. Transporte para deixar a cidade também. Algumas pessoas estão pagando caro por pacotes turísticos para El Calafate apenas para utilizarem o transporte privado para sair de Puerto Natales. O incêndio está tomando proporções gigantescas. Embora o último grande incêndio tenha atingido 15 mil hectares (corrigindo informação do outro post) em 2005, ele aconteceu em uma zona erma do parque e não afetou os circuitos clássicos de trekking (W, O e Q). As notícias que chegam hoje são difíceis de acreditar. O fogo agora avança por duas frentes. Segue ao Sul por todo o Lago Pehoe. Já atingiu o Campamento Las Carretas e está próximo da administração central do Parque. (!!!) A sede administrativa da CONAF deve estar em chamas no momento em que eu publico esse post. Ao leste o fogo avançou pelas margens do Lago Nordenskjöld. Destruiu o Refúgio Los Cuernos e cerca de uma hora e meia atrás estava atingindo o Hotel Las Torres (que era um empreendimento luxuoso, belíssimo). A tendência é subir o Vale Ascencio, o que significa o fim do circuito de trekking mais popular de Torres Del Paine. Todo o W se foi. TODO! O governo declarou o fechamento do parque por todo o mês de janeiro. Mas sabe-se que a trilha demorará anos até poder ser freqüentada novamente. É uma tragédia tão grande que não sabemos muito como falar. As pessoas estão quietas, cabisbaixas. Espera-se desesperadamente por chuva, mas o tempo está ensolarada, seco e com muito, mas muito, vento. Não há uma única nuvem no céu. Hoje de manhã podíamos ver a fumaça do parque pelo porto. Uma tristeza terrível. O clima é de uma impotência sem tamanho. Não há o que se possa fazer. Sabe-se que há 3 helicópteros trabalhando e cerca de 400 brigadistas no parque, mas o fogo está descontrolado e o tamanho das chamas é assustador. Hoje pela manhã um grupo de garotos aqui do hostel saiu para se juntar aos voluntários e ajudar no combate. Voltaram às 9h30. Foram dispensados. Não estão se responsabilizando por civis como voluntários. O perigo é altíssimo. Sabemos no entanto que nem todo o parque foi evacuado e que existem pessoas no setor norte ainda em trilha, e que nem tem conhecimento da proporção da tragédia. No comércio local o clima é de medo e incerteza. Toda a economia da cidade se baseia no turismo, mais especificamente no turismo do Parque. Hoje, às 14h, houve manifestação e buzinaço de guias turísticos e agentes de viagens, e da população local que desfilou com a bandeira de Magallaes nos carros. É difícil de acreditar que o maior cartão postal da Patagônia está sendo destruído bem embaixo dos nossos narizes e não há nada que possamos fazer. Eu, particularmente, sinto-me responsável de alguma forma por estar aqui testemunhando. Estou pelo menos tentando fornecer o máximo de informações online para outros viajantes. Espero que sirva de algo para alguém.

Abaixo um vídeo de um turista enquanto era evacuado do parque. O tamanho das chamas é impressionante!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Só para fazer sentido, um mapa do W para entender a dimensão do fogo.

UPDATE DE PUERTO NATALES


Agora à tarde aconteceu uma palestra aqui ao lado na guardería do Erratic Rock. A palestra acontece diariamente às 15h e esclarece todas as dúvidas para os viajantes planejarem suas trilhas. Todavia hoje nem mesmo os guias sabiam ao certo o que falar sobre a maior parte do circuito e do W. Sabíamos que do Vale Del Francês até Los Cuernos e o Refúgio Grey estava tudo fechado e repleto de fumaça. De um jeito que não se pode respirar. (Esse trecho corresponde à curva oeste do W e sua entrada central, ou seja, 2/3 do percurso) Mas ao final da palestra um guia local chegou com informações recentes e precisas. Ele estava até hoje cedo como bombeiro voluntário ajudando a combater o fogo e evacuar a área. O fogo já atinge 1,5 mil hectares do Parque e agora avança pelas duas margens do Lago Pehoé. Refúgio Paine Grande não existe mais. Foi totalmente destruído pelo fogo. Difícil não se emocionar com a narrativa dele contando como ajudou amigos a pegar o que podiam de suas casas, fotos dos filhos e bens pessoais, sabendo que em 20 minutos as chamas atingiriam a região. Pelo seu relato a situação NÃO está sob controle e não existe previsão para acabarem com o fogo. Por isso mesmo o que ele disse foi que a última coisa que precisam agora é de turistas dentro do parque. Embora a entrada leste por Laguna Amarga e Las Torres esteja aberta e não está sendo atingida por fumaça e cinzas, recomenda-se fortemente que turistas não iniciem trilhas amanhã. A Província de Última Esperanza continua em alerta vermelho e já solicitaram ajuda do fundo público, dos militares e de brigadas de bombeiros argentinos. O último grande incêndio que atingiu o Parque Nacional de Torres Del Paine foi em 2005, também de proporções devastadoras. Foram 1,9 mil hectares queimados que demoraram cerca de 15 dias para serem contidos. Na época o governo demorou uma semana para pedir ajuda argentina. O corpo de bombeiros chileno é voluntário e não é uma carreira remunerada. Não existe um plano de contenção para a região. O incêndio de 2005 foi causado por um turista tcheco. Ele foi multado em US$120mil e deixou o país sem maiores consequencias. O Governo da República Tcheca enviou dinheiro, material e especialistas para ajudar a recuperar os danos ambientais causados. O incêndio que ocorre agora foi causado por um grupo de turistas israelenses que estavam acampando fora das áreas de camping. Não temos mais nenhuma informação sobre eles até agora, mas na minha opinão isso é crime e deveria dar cadeia.


FOGO EM TORRES DEL PAINE

Ontem antes de partir de El Calafate o Carlos, dono do Hostel Buenos Aires onde eu estava hospedada, disse que tinha recebido notícias de um incêndio no Parque Nacional Torres Del Paine. Fui para a rodoviária preocupadíssima, já que minha intenção era entrar no parque hoje e acampar por 3 dias nas trilhas. Sem muitas informações lá fui eu para uma viagem de cerca de 6 horas de ônibus non-stop. Mentira! Teve stop apenas para imigração na fronteira da Argentina com o Chile, mas não foi um stop nada agradável. Fila longa, muita espera e NENHUMA tienda vendendo comida ou água. Eu tinha separado um lanche para a viagem, mas acabei dando para um cachorrão adorável que veio fazer festa para mim enquanto eu esperava o ônibus. De qualquer forma acredito que ele tenha aproveitado mais o sanduiche de queijo, e eu posso sobreviver algumas horas sem comida e não necessariamente morrer de inanição. A paisagem dessa parte da Patagônia é bem erma. Completamente oposta da Terra do Fogo, onde árvores, riachos, lagoas compunham um quadro muito mais úmido à Cordilheira Nevada. Com trechos muito mais planos a Província de Santa Cruz, na Argentina, e na de Última Esperanza, no Chile, que apresentam imensidões secas e horizontes desérticos. Pode-se quase ouvir os acordes de uma guitarra à la conto de Sam Shepard. Kilometros e kilometros de estrada sem absolutamente nada do lado de fora. Vegetação rasteira, algumas ovelhas pastando, das estâncias ao redor. Puerto Natales está bem mais frio que El Calafate. Um vento gelado, embora hoje esteja fazendo um belo dia de Sol. Aqueles dias típicos de inverno que estamos acostumados no Brasil, em que o Sol brilha forte e é muito gostoso sentar nele, mas à sombra se congela e uma xícara de chá de camomila pode ser o maior conforto que se procura no mundo. Ontem até desempacotar, procurar ATM, procurar um lugar aberto para jantar, tomar banho e colocar pijama, já era mais de 1h da manhã. Quase imperceptível já que o Sol se pôs às 22h30. Eram 22h50, eu entrava em um bar para comer uma das piores pizzas da minha vida, e a luz que rodeava a cidade era de um alaranjado deslumbrante. Pena que eu estava cansada demais para manter os olhos totalmente abertos. Hoje acordei às 8h30. O mais tarde possível em um hostel de trekkers. O dono do Erratic Rock Hostel é o Bill, um estadounidense com alma latina. Ele pessoalmente serve o café da manhã enquanto conversa e pergunta dos seus planos. Café da manhã, aliás, digno de quem vai fazer trilha por 12 horas no meio do mato. Cereais, 3 tipos de iogurte, café, leite, chá, geléias caseiras diversas, pão caseiro incrível e omelete fresquinha que ele mesmo faz. O melhor de tudo (e uma raridade nesses hostels): manteiga de verdade! Em geral nos servem alguma margarina processada e barata totalmente intragável. Durante o café consegui mais informações sobre o incêndio. Começou na noite do dia 27 para o dia 28 de Dezembro. Até agora já atingiu cerca de 300 hectares do parque. A parte oeste foi evacuada, mas a parte leste continua aberta e sem risco para turistas. Alguns hikers que voltaram hoje para o hostel disseram que a vista das torres está comprometida, e que se avista a fumaça mesmo a distância. O incêndio começou nas redondezas da Laguna Los Patos e Lago Grey, acredita-se por um grupo de turistas israelenses que acenderam uma fogueira para cozinhar. Fogueiras são proibidas dentro do parque, fora dos campings designados. O W (que é a rota de 5 dias e uma alternativa muito popular do trekking completo de Paines de 10 dias) está impossibilitado de ser feito. Os refúgios Grey, Pehoe, Paine Grande, Campamento Italiano e o Vale Francês estão fechados. Essa é exatamente a região do centro do W, ou seja, não se pode cruzar do lado oeste para o leste. Cerca de 400 pessoas foram evacuadas dessa região. Existe uma brigada com mais de 120 pessoas, bombeiros e voluntários trabalhando para conter o fogo. A Província de Última Esperanza continua em alerta vermelho e conta com a chegada de helicópteros agora ao meio-dia. A região atingida pelo incêndio só pode ser acessada por ar ou por barco pelo lago. Os ventos fortíssimos têm contribuído para espalhar as chamas na região que já é bastante seca, além de dificultarem o acesso dos helicópteros à área. Até agora as autoridades dizem estar atacando o incêndio pela cabeça e pelo final e declaram ter a situação sob controle. A entrada leste continua ativa, e o turismo pelo Campamento Chileno, Campamento Torres, Campamento Serón e Refúgio Dickson continuam normalmente. Assim como o Paso John Gardner, mas não é possível dar a volta e é necessário caminhar o percurso todo de volta. Ninguém falou da situação no Refugio Los Cuernos. Aqui não temos muito mais notícias, as mais confiáveis vêm dos trekkers que chegam evacuados do Parque, e há muito especulação na mídia. Eu cancelei minha ida hoje ao parque e estou me preparando para entrar amanhã. Provavelmente devo entrar por Laguna Amarga e seguir até o Campamento Torres, acordar de madrugada para subir ao mirador e tentar fazer belas fotos vermelhas do amanhecer. É possível que daquele ponto tenha uma enorme moldura de fumaça. De qualquer forma estou na esperança de, até o final do dia estar tudo mais controlado.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

EL CALAFATE



Amanhã estou empacotando novamente, dessa vez para Puerto Natales, Patagônia chilena. Foram 4 dias em El Calafate. Dois deles bem estranhos. Calafate é uma frutinha típica aqui da patagônia. Pequena como uma ameixinha, também tem coloração roxa e é bem gostosa. Eles fazem sorvete de calafate e é a sensação entre os turistas. Se for provar aconselho o da Ovejitas de Patagonia, uma loja de chocolates, alfajors e sorvetes da região. Tudo muuuito gostoso. El Calafate também é a cidade que serve de base para uma das entradas do Parque Nacional dos Glaciais, a mais próxima do famoso Glacial de Perito Moreno, e é a cidade do Kirchners!!! Sim! Aqui se apóia a presidente até embaixo do gelo. Também não é por menos. Há cerca de 10 anos El Calafate não tinha mais de 5000 habitantes. Hoje é uma das grandes potências do turismo na Patagônia. Ganhou infra-estrutura, injeção de dinheiro e um aeroporto. Então El Calafate até que é uma cidade fofinha. Tem uma rua principal, onde estão todas as lojas e restaurantes, e é basicamente isso. Cheguei no Natal e encontrei Shamila. Ficamos tomando um vinho no hostel dela e depois fomos para esse bar que parece que oferecia um menu completo de ceia de Natal. O que acabou se tornando o maior engodo. Foi caro, a comida horrível e acabamos fazendo amizade com um casal francês ao nosso lado que também tinha caído no tal menu. Saímos de lá e fomos para um bar tomar drinks e dar risada. Tomei Piña Colada. No domingo de Natal estava tudo fechado. Tudo, eu digo tudo mesmo. Não consegui nem comprar comida. Bateu uma tristezinha de estar longe da família. Passei o dia tentando ligar para minha mãe sem sucesso. Rolou um “snif”. Então eu fui em um restaurante com cara de bacana, pedi um ravióli de espinafre com molho de cogumelos e uma garrafa de vinho, e fiz uma boa refeição. Só percebi os efeitos da garrafa de vinho quando levantei. No dia 26 também tudo fechado. Rá! Como o feriado caiu no domingo, eles esticam para a segunda, vê se pode! Aproveitei para dar uma pausa e reorganizar minha programação, já que o tour de Dientes Navarino não vai rolar. Resolvi ir para Puerto Natales fazer o W da Torres Del Paine e depois para El Chaltén. Porque uma coisa que se descobre bem rápido aqui é que as melhores coisas para se fazer estão em El Chaltén. Tudo bem, aqui tem Perito Moreno, o tal glacial, mas é basicamente só isso. As outras opções de passeio você pode fazer melhor em algum outro ponto da Patagônia. Se a pessoa está só em El Calafate, entendo. Mas para quem vai viajar outras cidade, não tem porque perder tempo e dinheiro fazendo cavalgadas, 4x4, "safaris aquaticos", e etc. Tudo muito caro para o que oferecem. O Minitrekking não. Esse foi espetacular. Conforme o barquinho foi se aproximando daquela maçaroca de gelo, eu só pensava: “Nussa!”. É como um túnel do tempo ao nosso passado. A prova mais concreta da Era do Gelo, ali, imensa, palpável. Perito Moreno agora está encostado na montanha novamente. Em 2008 ele se rompeu, foi um show. Agora encostou novamente e ninguém sabe dizer quando vai se romper. Fico imaginando o poder de uma cratera de gelo sendo implodida pela água. Deve ser assustador. Duranto o tempo que estávamos no trekking, virava e mexia alguma pedra se desprendia e caia no lago. Era uma coisa assustadora. O som ecoava por todo o vale como se fosse uma bomba, e parece que não vai parar. Toda aquela imensidão azul e branca de gelo de repente tão frágil, desmoronando na sua frente. E você não sabe se vai ser dessa vez que o glacial inteiro vai derreter, como torrão de açúcar em chá quente. O Minitrekking é feito por uma região de degelo do glacial. Então é como passear por enormes dunas de gelo, com diversas poças, lagoas, riachinhos azuis celestes, que vão se formando e correndo embaixo dos pés. Demora um tempo para acreditar que estamos caminhando sobre as águas. E quando se entende, aí sim a gente vê o milagre. Depois ainda fomos às passarelas, que são enormes e proporcionam uma visão completa da imensidão do glacial. Eu encostei no parapeito e fiquei um tempão ali refletindo. Não pelo assombro da visão (que é sim um assombro, e é difícil de acreditar que estamos de fato frente a algo real), mas pela nossa insignificância. Um pouco antes lá estava eu, cravando meus crampons em parte do gelo. Perdida em dunas de água e azul. Depois ao longe me enxerguei um verme, achando que dominava algo do gigante indomável da vida. Ficar frente a tamanho assombro torna nossa insiguinicância concreta. Falta tanto para nós! Existem coisas que são absolutas. Que traduzem o sentido de imensidão. Afinal, aquilo tudo é só água. A boa e velha H2O. Ainda assim ela pode acabar com a gente em um estalar de dedos. Esmagar como sem que ao menos possam ouvir o ruido dos nossos ossos quebrando. Só porque o mundo é um lugar grande demais para que o dominemos. Graças à Deus!


sábado, 24 de dezembro de 2011

UMA SEMANA DE UMA VEZ


Eu tinha intenção de, pelo menos durante a viagem, manter o blog mais ativo. Acontece que de boas intenções o inferno está cheio, e esse ditado minha vózinha já dizia. Então tentando alcançar o tempo perdido (mesmo que seja uma ilusão alcançar qualquer tempo) aqui vai um mega post com tudo e mais um pouco da minha primeira semana na Patagônia. Segura aí!


Sábado, 17/dez

Juro que tinha isso no aeroporto!


Meu vôo sairia às 7h de Guarulhos. Isso significa que fiz minha irmã acordar às 4h comigo para me levar ao aeroporto. Primeiro veio a notícia de um atraso, depois o vôo foi cancelado, e o que se sucedeu foi uma bizarra jornada de 14 horas presa no aeroporto porque a Aerolíneas Argentinas está tão falida que não queria pagar hotel nem alimentação para a gente. Então acharam que a melhor solução era enrolar todos os passageiros na sala de embarque o máximo que pudessem. Acabei fazendo amizade com metade dos passageiros. Chegou ao ponto de alguém perder o controle e tentar acertar a cabeça do atendente com um desses mastros de demarcar fila. Houve bate boca, palavrão. Tudo muito triste. Então resolveram fazer alguma coisa e nos colocaram em um vôo da Gol que sairia para Buenos Aires às 19h. Quando todos já estavam sem energia, mofando na fila de check in da Gol, eu consegui uma gargalhada geral quando confessei que estava fazendo essa viagem para tratar uma crise de Burnout. Trágico, mas hilário. Dormi em Buenos Aires para pegar a conexão para Ushuaia só no dia seguinte. Um dia a menos de Patagônia.


Domingo, 18/dez

No "cuelo del Mundo".


Tomei café da manhã assistindo aos argentinos vibrando com a lavada do Barcelona sobre o Santos. Dormi quase todo o vôo de 3 horas até Ushuaia e acordei com o anúncio dos procedimentos de pouso. Olhei pela janela e estávamos sobre as nuvens, imagem linda, toda branca como um sonho. Então as nuvens foram lentamente se dissipando e abrindo para revelar uma Cordilheira dos Andes nevada bem aos meus pés. Meu coração disparou. É como pousar no Rio vendo a Baía de Guanabara, ou chegar na Guatemala com um vulcão em erupção. Uma dessas vistas que nos marcam para sempre e fazem um maravilhoso prólogo de uma viagem que está por vir. Se fosse um filme teria uma trilha sonora. Na realidade eu ouvia Bob Dylan no Ipod. A cidade é adorável. Fiquei passeando pela orla do Canal de Beagle e me apaixonei pela minha nova lente 20mm. Comprei um vinho caro e fiz amizades no hostel.


Segunda-feira, 19/dez

Olha a metida velejando no Canal de Beagle.


Acordei pensando em ir ao Parque Nacional da Terra do Fogo, mas mudei de ideia durante o café da manhã e me juntei à Shamilla e Christopher, meus companheiros de quarto, que estavam indo fazer uma navegação pelo Canal de Beagle. Fomos com a empresa Três Marias que é super indicada em todos os guias de viagem. Eles fogem do roteiro convencional e usam veleiros em vez dos horríveis catamarãs. Vendo os catamarãs no porto não tinha como evitar a associação àqueles ônibus turísticos de dois andares que ficam rodeando Roma e Paris. Dá calafrios! Navegação foi incrível. O guia era um garoto adorável e fiquei tomando chimarrão (mas aqui eles chamam de mate) com ele e o piloto (é piloto que se diz? Marinheiro? Comandante? Chefe? Motorista? Humpf!). Pontos altos foram a Isla de Lobos, repleta de leões marinhos. Impressionante e bem inacreditável estar em um lugar em que se pode ter contato com animais em seus habitats naturais. Não cansava de fotografar. (Além de pular e dar gritos como uma criança). Depois fizemos um curto trekking na Isla H, com reservas antropológicas dos Yamanás. Curiosíssimo! Comi alface do mar. Foi gostoso. Ao final, eu e Shamilla almoçamos juntas e fomos no Museu do Presídio. Engraçado como acho fascinante museus de presídios. Algo errado comigo. E depois eu fui comprar uma calça de hiking nova. Dei uma boa engordada e a minha já não estava nada confortável. Lojas de equipamentos aqui estão por todos os lados. Os preços ridiculamente mais baratos do que no Brasil. Voltei para o hostel em tempo de desejar feliz aniversário para a minha irmã e para a MH.


Terça-feira, 20/dez

Ache o castor!


Passei o dia surtando tentando trabalhar. Completamente improdutiva. Sei que não deveria, mas fico toda atrapalhada. Ao final do dia fiz um tour em uma castoreira. Castores não são animais nativos, mas foram trazidos para o Ushuaia para produção de peles. A indústria deu errado e largaram os bichinhos na natureza. Sem predadores naturais, viraram uma praga. Ainda assim são adoráveis de serem vistos, e como são animais noturnos só saem ao entardecer. No tour estavam um dos passageiros do episódio de Cumbica com o filho. Nos divertimos. Fiquei assistindo os bichinhos construindo o dique no rio e tirando fotos, depois voltamos ao Valle Hermoso onde os anfitriões Andreas e Kiti prepararam jantar. Um maravilhoso prato vegetariano para mim. Vinho, lareira e conversa até meia-noite. Noite perfeita.


Quarta-feira, 21/dez

Notem a quantidade de cocô de pinguim na minha roupa.


Chegada do verão e nevou durante a noite. Os Andes a volta da cidade amanheceram completamente brancos. Uma visão de tirar o fôlego Ushuaia com moldura de neve. Fui cedo para o porto encontrar o tour da Piratour para a ilha dos pingüins. A Piratour é a única que efetivamente desembarca na ilha para que se possa andar com eles. Uma viagem um pouco longa e cansativa. O dia estava chuvoso e nublado. Mas assim que chegamos... Inacreditável! Haviam centenas de pingüins na costa. Ainda não consigo acreditar na visão. Tinha vontade de sair correndo e abraçar todos eles como a Felícia do desenho, mas a regra era se mover o mais lentamente possível. Tirei milhões de fotos. Milhões. Deitei nas pedras da praia, troquei lentes. Na região existem duas espécies, os magallanes e os papuas. Mas tivemos sorte porque na ilha havia um pingüim rei perdido. Lindo! Tentando fazer mimetismo entre os amiguinhos. Entre os ninhos podíamos ver os filhotinhos. Os ovos se chocaram há 20 dias e os bebês já saem para pequenas voltas. Retornando ao barco fui atacada por um pingüim. Ele veio pulando na trilha, tentando bicar minha perna. Comprei pingüins de pelúcia para meus sobrinhos.


Quinta-feira, 22/dez

Mim qué!


Acordei bem cedo para fazer um tour de 4x4 pelo parque. No carro um casal basco com o filho de 25 anos e um amigo, e um casal argentino. Todos ótimas pessoas. Paramos em uma estação de esqui no caminho para um café e no período de 2 horas o tempo passou pelas 4 estações do ano. Começou com muito vento, daí nublou, choveu, neve, abriu com Sol, nublou de novo, vento e chuva. Em 2 horas!!! Juro! Tenho congelado de frio. Fizemos a trilha de 4x4 e paramos na beira do Lago Escondido para um picnic. O guia fez churrasco. Para mim assou pepinos (!!!). Duas raposas ficaram rodeando. Lindas! Vinham tão pertinho, tentavam me cheirar. Eram como cachorrinhos fofos. Mais milhares de fotos! Depois fomos andando pela beira do lago até uma estalagem onde pegamos algumas canoas e passamos 1 hora no lago remando e destruindo os músculos do ombro. À noite estava tão exausta que baixei um filme no computador e fiquei assistindo na cama.


Sexta-feira, 23/dez

E esse foi só o começo da trilha.


Resolvi finalmente ir até o Parque Nacional da Terra do Fogo. Levei meu passaporte para carimbar no Correo Del Fin Del Mundo. Eles colocam um carimbo de que você esteve no fim do mundo. É bobo, mas é legal! Mandei postais para meus sobrinhos de lá também. Vão com carimbo de fim do mundo. Hahahah!Fiz a trilha Costanera, linda! Daquelas paisagens que nos fazem lembrar que estamos vivos, que o mundo é um lugar maravilhoso e que Deus existe. Parei em uma encosta para fazer picnic. O frio fazia o azul do céu ficar ainda mais forte. Poderia passar a tarde toda ali. Mas apertei o passo porque queria voltar antes das 17h para a cidade. Queria enviar por correio os pingüins dos meus sobrinhos para aliviar o peso da mochila. Acontece que cheguei em Ushuaia e tudo fechado. Por causa do Natal! Absurdo. Fiquei tão puta que comi dois churros. Com doce de leite. Voltei para o hostel e a empresa que estava reservando a trilha de Dientes Navarino que eu ia fazer semana que vem fez uma confusão danada e queria fazer várias exigências para a reserva. Eu teria que perder um dia de burocracia para resolver tudo. Fiquei puta duas vezes. Cancelei o tour e fui até uma casa de vinhos. Comprei o vinho mais caro que eles tinham e passei a noite tomando o maravilhoso Angelica Zapata e mudando meus planos para a próxima semanal.


Hoje embarco para El Calafate. Shamilla já está lá e disse que arrumou uma ceia de Natal para nós junto com alguns locais. Acho que vai ser divertido. Tive de socar todos os pingüins dentro da mochila. Estou com medo de ser presa no aeroporto por crime ambiental. De qualquer forma, peso extra vou ter de pagar.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

UM, DOIS, TRÊS INDIOZINHOS...




Sou viciada em séries. Não é segredo, é assumido. Não tenho nem um pingo de vontade de me recuperar. Pelo contrário. Analiso roteiros, vejo e revejo. Das minhas séries favoritas está “24 Horas”. Assistia cada temporada em uma sentada no final de semana. Aquele som do relógio correndo antes de cada intervalo e nos finais dos episódios. Era eletrizante! Até o dia que você acorda e aquele barulhinho está dentro da sua cabeça.


Pois é... nunca achei que aconteceria comigo, mas aconteceu. Eu tive a crise do relógio biológico (ou ainda estou tendo, vai saber!). Eu achei que esse tipo de coisa não acontecesse comigo. Ganhei uma gargalhada do meu terapeuta até. Nem sei como explicar o que acontece, ou com acontece. Mas um belo dia parece que todas as escolhas que você fez na vida estão erradas. E sua mente se enche de questões como “E se não der tempo?”, “E se eu não encontrar um grande amor?”, “E se eu nunca formar uma família?, “E se eu nunca tiver filhos....”


Pior que não existe resposta para perguntas como essas. Então eu me guardei. Fechei em casa. Reclusa. Comi muito mal coisas que engordam muito. Parei de meditar. Parei de malhar direito. Parei até de ter vontade de trabalhar. Minha única vontade é ficar fechada em casa e dormir. Pensar que talvez a vida possa dar um pause para o intervalo. Me deixar correr e pegar algo na geladeira, fazer xixi enquanto os fatos não voltam. Não se faz muito com uma Crise do Relógio Biológico. Não é algo que você seja capaz de resolver. Ela existe, e é isso, e ponto.


Antes que eu começasse a tomar aquelas atitudes de desespero como, aceitar blind dates pela internet, procurar ex-namorados, comprar um cachorro, dar chance para os losers pegajosos que a gente sempre ignora. Antes que eu perdesse todo o senso, deixei bem claro para mim mesma que nenhuma dessas opções iria resolver as coisas para mim. Talvez resolva para outras pessoas e elas consigam se acomodar com a primeira opção que apareça. Se não tem tu, vai tu mesmo. Mas para mim nunca vai resolver. Se eu tomei as decisões erradas? Não vou saber. Foram as decisões que eu tomei.


Então eu resolvi seguir minha vida. Ir para a aula de ballet. Trabalhar, ver meus amigos. Coisas de gente normal. Cheguei feliz na academia semana passada, para fazer todos os exames ergométricos. Estica para ver a flexibilidade. Boa. Flexão no chão. Circunferência abdominal. A coluna um pouco torta. Então o médico me pergunta, “Você está com 35 anos, é isso?”. É isso aí! 35 anos. “E pretende ter filhos?” (Peraí, com quem você andou falando?) Respondi sim. Respondi meio como quem não quer responder, porque tem vergonha da resposta que pode dar. “Entendo. Então eu aconselharia a senhora a fazer um exame de triagem ovular... para verificar se os seus ovários ainda estão produzindo.” (Cuma???) “Dependendo do resultado, a senhora pode considerar congelar seus óvulos.” Bang! Como toda boa série, sempre uma virada no terceiro ato. Peguei a guia do exame, saí atordoada para o ballet. Existe aquele dia que você acorda e as pessoas te perguntam se você não quer congelar seus óvulos. Assim. Tão rápido. Outro dia mesmo me diziam que eu era jovem, e tinha tanto tempo, e que podia fazer tantas coisas. Quando foi mesmo que isso aconteceu?


Agora o episódio acaba. O som da contagem segue, e o relógio fecha a hora. Será que eu devia congelar meus óvulos? Parece tanta estupidez! Mas será que essa também não pode ser uma decisão errada que eu estou tomando agora... e que eu me arrependa quando não houver mais nada que eu possa fazer?

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A LA EUROPÉEN


Faz um ano que eu voltei da minha jornada a todos os lugares (e a lugar nenhum), e mesmo considerando que pouco tempo depois teve a Guatemala porque eu não estava sabendo voltar direito, e eu realmente só sinta que tenha voltado a partir de fevereiro, é meio inevitável não pensar e refletir nesse meu trajeto de volta para casa. Nas coisas que eu fiz durante esse ano. Em como eu tenho reconstruído minha vida.


Se secretamente eu tenha a sensação de estar tomando (e de ter tomado) muitas decisões erradas, isso é algo totalmente subjetivo que pode ser questionado (e, vamos combinar, eu costumo mudar minhas opiniões com a cara de pau de um político em campanha). Mas uma coisa que venho me questionando, e de fato tem me incomodado muito, é a pergunta que fiz no meu último post. Quando foi que a vida ficou tão complicada?


Sou da opinião que a vida não é complicada. Quem complica somos nós. É pessoal e intransferível. Então tenho me questionado isso. Quando foi que EU deixei a vida tão complicada? Há um ano atrás tudo o que eu tinha era um punhado de roupas encaixotadas (que fui descobrir mais tarde que metade não me serviam mais), e um outro tanto de livros. Era só. Passei um ano da minha vida carregando 17Kg em uma mochila em que se resumia tudo o que eu precisava. Até que era muito e por diversas vezes fiz rapas homéricos. Calças, blusas, livros, cremes. Existem partes de mim espalhadas numa pá de hostels europeus. Agora me explica, como foi que em tão pouco tempo eu consegui terminar com uma agenda lotada e sacrificante, sete débitos automáticos diferentes, despertado, 2 suplementos vitamínicos, dois cartões de crédito, um carro, uma bicicleta procrastinada, um curso, um MBA, uma empresa, um sócio, uma assistente, uma faxineira, oito clientes, alguns amigos (na maioria com contatos estritamente virtuais) e nenhum namorado. Me explica! Como pode 17Kg se transformarem em tudo isso tão rápido. O que eu concluí é que eu me deixei contaminar por tudo aquilo que eu fugi quando eu resolvi ir. Então eu comecei um movimento de simplificar minha vida. De abrir mão de alguns luxos e serviços que nós temos como essenciais aqui no Brasil. Resolvi fazer uma rapa e largar um monte de coisa no armário do hostel.


Agora eu estou levando uma vida mais à européia. Onde as responsabilidades pelo meu padrão de vida estão mais relacionadas às coisas que eu faço do que às pessoas que eu contrato. Primeira coisa que eu fiz foi suspender a faxineira. Luxo. Luxo, sim senhora. Elas são maravilhosas, é verdade, mas é um luxo contratar alguém para limpar sua casa. Coisa típica de país de primeiro mundo. Meus amigos europeus arregaçam a manga e passam seu próprio aspirador de pó. Acho bem honrado. Lógico que isso não quer dizer que minha casa vai ficar aquele “primor de limpeza” europeu. Afinal mora uma Monica Geller dentro de mim. Então eu tenho me divertido em limpar minha casa semanalmente, lavar roupas. Lavar a louça que sempre foi uma tortura chinesa, acabou virando um hábito. Passar roupas apenas que era um grande problema. Nunca sabia como fazer nem por onde começar. Agora aprendi. Ligo a TV no horário da minha série favorita, coloca a tábua em frente e mando bala. Outra coisa milagrosa que eu descobri foi o “ferro a vapor”. Invenção de gênio!!! Já viram um desses? Sério! Isso precisa ser divulgado em larga escala, devia receber incentivos fiscais do governo. Eu defendo o direito de toda dona de casa ter um ferro a vapor! Acredite em mim. Faz toda a diferença, principalmente com camisas (mesma com as de algodão egípicio tão fáceis de passar).


Outra coisa que eu fiz (mas já desisti) foi começar a cozinhar mais em casa. Mas daí existe um problema técnico da completa imperícia da cozinheira aqui. Depois de destruir diversos ingredientes maravilhosos, promover um descarte de comida que fariam ativistas africanos se contorcerem e minha professora de catecismo me garantir o inferno, resolvi que é muito mais prático manter opções básicas de lanche na geladeira e comer em pequenos restaurantes caseiros. Como fazem tantos europeus. Só não consigo abrir mão de uma das refeições principais como tantos deles.


No quesito locomoção estou fazendo uma coisa inédita para mim em São Paulo, mas que fazia tanto em todas as cidades que passei. Tenho usado transporte público sempre que posso. Vou te contar! O metrô de São Paulo é fantástico! Estou adorando essa nova linha amarela. Acho confortável, rápido. Comprei até um Bilhete Único. Me sinto européia de verdade quando uso, ainda mais porque não acho que o valor do transporte público seja muito acessível para a realidade brasileira. Assim como o valor do transporte público europeu. Rá! Verdade que falta ainda muita estrutura (e eu vou começar uma campanha por uma Estação Benedito Calixto em breve), mas é uma sensação muito boa a de usufruir de algo que é feito para o coletivo e pensar que estou fazendo minha locomoção mais sustentável. Sei lá, não é grande coisa. Mas é alguma coisa.


Também cancelei a assinatura do jornal. Vamos combinar que quase nunca tenho tempo de ler o jornal. Daí rola uma culpa quando não leio... Então ficou assim. Dia que deu vontade de ler, levanta a bunda e atravessa a rua para comprar na banca. Ponto.


Ainda tenho bastante coisa para transformar, é verdade. Preciso aprender a vencer meu recente vício virtual e encontrar mais pessoas de carne e osso. Preciso me concentrar mais na meditação, controlar mais meu temperamento, parar de estourar com tudo e todos, aproveitar mais os eventos culturais da cidade, aproveitar mais as áreas públicas da cidade. E juro que ainda esse ano faço um picnic no parque. Mesmo que todo mundo me olhe como se eu fosse farofeira. O dia que você sente taquicardia porque discutiu com o técnico da TV a cabo, e não se conforma que por causa dele não conseguiu gravar a estréia da nova temporada de uma série de TV machista e sexista, é porque você deu prioridade para coisas que pesam muito na mochila. O segredo, amiguinho, é manter a mochila leve. Com a mochila pesada, você não consegue sair da estação. Meio européia, meio paulistana, meio brasileira... não importa. O segredo é manter a mochila leve.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O NOME DISSO É STRESS?

Acho que nasci para ser primeira dama. Nasci para ser dondoca. Tô falando. Não tenho vontade de ser outra coisa não. Eu gosto da minha vida. Não que eu não goste do meu trabalho. Eu gosto. Gosto quando as coisas dão certo, gosto da sensação de cumprir dever. Eu só não gosto de todo o compromisso. Mas antes que isso soe como se eu fosse uma irresponsável, não é o compromisso pelo compromisso. Acho que é mais pela quantidade de compromissos. Tenho trabalhado tanto que parece que a sensação de água batendo na bunda nunca passa. Estou sempre enforcada, sempre com prazos estourando, sempre com pilhas de pendências. Eu me sinto culpada de parar para ir à yoga, culpada de almoçar sem estar em frente do computador dando refresh nas páginas de 5 em 5 segundos. Então ontem minha mãe precisou fazer uma cirurgia de emergência. Um procedimento simples que precisava de alguém para acompanhar. Eu me senti culpada de estar lá com ela e não trabalhando. Chega a ser insano, eu sei. No final acabei ficando mal-humorada, e atirando patadas para quem estava em volta (inclusive ela na cama do hospital). Como se fosse culpa de alguém eu estar sobrecarregada. Eu acordo me sentindo tão culpada que, se eu não puxar o computador e não começar a trabalhar assim que o despertador toca de manhã, eu tenho a sensação de que vou perder todos meus clientes, vão me demitir, cancelar contratos, e eu não vou ter como pagar as minhas contas, que não são poucas, já que eu faço tanta questão de um mínimo padrão de vida. Quando foi que a vida ficou tão complicada, hein? Hoje, voltando do hospital, passei na Galeria dos Pães e me permitir ser como uma dessas pessoas que voltam para casa e não fazem nada. Que podem simplesmente passar o resto do dia sem a sensação iminente de que algo muito catastrófico vai acontecer se você não trabalhar. Eu comprei pãezinhos, queijos legais para fazer lanche. Fiquei provando todos os patês que o mocinho dos frios me ofereceu e flertei com um senhor de uns 70 anos na fila do atendimento. Depois cheguei em casa, tirei o sapato. Fiz um sanduiche e sentei em frente a TV para comer e assistir besteira. Resolvi que hoje eu não ia checar emails chegando em casa, não ia buscar conteúdo, fazer programação, não ia fazer relatório, ou organizar minha mesa. Eu não ia despachar, nem revisar texto. Eu não ia trabalhar uma vez que eu tivesse chegado em casa. Foi o que eu fiz... até que o telefone tocou e já me encheram de perguntas, e pedidos de correção, que já me deixaram preocupada e culpada de estar sentada no sofá da minha casa, de calcinha, assistindo os episódios novos de House, comendo sanduiche. Não me lembro se fiz isso alguma vez esse ano. Simplesmente chegar em casa e assistir TV. Sem telefonar, sem ter um computador no colo. Sem fazer uma lista de pendências organizadas por prioridades. Quando foi que a vida ficou tão complicada?

sábado, 5 de novembro de 2011

FORTE

O problema de ser uma mulher forte é que todo mundo sabe que você é forte. Uma vez que você é colocada na categoria “forte”, pronto. Você deve ficar lá bonitinha por um bom, bom tempo. Tem o lado bom, é verdade. Você é quem mantém o controle nas situações. Você agüenta mais as adversidades da vida. Consegue sobreviver melhor aos problemas. A força geralmente vem com resiliência de brinde, então você consegue voltar ao seu estado original com muito mais rapidez e facilidade. Isso é bom. Muito bom. Saber que tudo é uma questão de tempo para ficar tudo bem novamente. O problema é que isso não é uma coisa admirável. Ninguém espera que você aja de maneira diferente. Tipo, segurar a onda, ficar firme, se recuperar milagrosamente. É como uma obrigação. As pessoas ainda ficam revoltadas se você agir diferente. Mostrar fraqueza. Admitir limitações. Existem aqueles que ainda manifestam um silencioso orgulho mórbido de te ver cair. “Ahá, ele está na pior.” Como se fosse sua culpa ser forte. Como se isso fosse algo feito intencionalmente para subjugar outros. O que acontece quando você é uma pessoa forte é que, quando você afunda, afunda sozinha. Com um monte de gente aplaudindo e aproveitando para te empurrar mais fundo. E mesmo sabendo que tudo passa, e eu vou voltar ao meu estado original logo, eu não sou tão resiliente assim. Eu volto, mas sempre fica uma marca. Uma falta de confiança de quem me viu cair e olhou para o outro lado.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

SEGUNDA-FEIRA

Eram 6h e eu taquei minha mão no despertador barulhento que eu comprei na Tok Stock e que é mecânico, então precisa dar corda e fica fazendo tic-tac durante a noite o que acaba me acalmando de uma forma meio antagônica e paradoxal, mas é extremamente eficiente na função de me arrancar do sono profundo (que eu adoro e tenho particularmente precisado nos últimos meses) para pular para o criado-mudo da outra extremidade da cama e puxar o netbook que permanece conectado non-stop e começar a trabalhar, responder emails, pesquisar conteúdo, montar programação. Ontem nós tínhamos lançamento de site novo e por mais que eu tivesse revisado o texto ainda fui encontrar um erro de português depois da publicação; o tipo de coisa que me deixa arrasada! Montei carta de agradecimento para os colaboradores do evento de sábado, coordenei anúncio que deve sair essa semana, embora eu tenha certeza absoluta de que vai dar problemas. Esses anúncios sempre dão problema. Tão mais fácil lidar com máquinas do que com pessoas. Coloquei os lençóis para lavar. Peguei a “To Do List” e fui ticando cada item. Relatório de resultados de anúncio do Facebook para um cliente que resolveu simplesmente ignorar nossos emails na última semana. Pesquisa de produtos e opções de brindes para apresentar em uma reunião ao meio-dia. Pendurei os lençóis no varal. Terrorismo com o representante da empresa que vai refazer a fachada de um cliente, e suporte virtual para organização de um banco de dados. Conference Call Ajax com o Ozzie, só para ter certeza de que a gente está ferrado mesmo e não estamos esquecendo de nada. Resolvemos mudar completamente a estratégia de ação de um parceiro que não estava apresentando resultados. Resposta de SAC na Fan Page de um cliente, e passo 15 minutos tentando organizar minha inbox que está uma zona antes que eu comece a perder mensagens. Mensagens do MBA atrasadas, chat com colega de grupo para coordenar a entrega do trabalho que tínhamos para ontem. Desço para a cozinha, pego uma tigela de macarrão integral com legumes e trago para comer em frente ao computador. Comecei a estruturar a personalidade da marca de um novo cliente, mas tive que interromper porque o representante da empresa de sinalização chega no meu cliente e eu saio correndo deixando o macarrão no finzinho na mesa do escritório. O terrorismo funcionou. Reunião no pet shop sobre opções de fachada, discussão sobre orçamentos e formas de pagamento. Alteração na arte. Mando email para o Ozzie. Adianto consulta para orçamento de fachada de outro cliente, tomamos café morno. Damos risada. O representante vai embora. Reunião com cliente, apresento opções de brindes. Um cachorro lambe meus dedos do pé na sandália e outro late o tempo todo para minha garrafinha de água mineral. Tenho ataque de alergia. Procuro Claritin na bolsa. É o último. Então sentamos no computador. Configuro novo email do cliente. Fazemos testes com o email marketing do novo site. Tudo ok! Dou beijinhos, vou embora, e fico pensando em comprar um cachorro. Mas antes em agendar uma consulta para resolver a alergia. Chego atrasada ao shopping para fazer a unha, mas como é segunda elas ainda me atendem. Faço mão e pé em 30 minutos. Adoro essa manicure de shopping. Cochilo durante a sessão. Jogo paciência porque meu celular não pega no subsolo. Resolvo visitar a academia nova que abriram. Falo para a menina da recepção “Consegue me mostrar a academia em 10 minutos”? Ela consegue. Me apaixono pela academia. Volto para casa sonhadora e cantando no carro, imaginando como usufruir da academia na minha rotina. Lavo louça. Preparo um lanche com bisnaguinha, fruta e suco; levo tudo para o escritório. Tento terminar a programação de hoje, faço follow up nos perfis dos clientes. Continuo organizando a pesonalidade de marca do novo cliente. Chat com a nova cliente. Chat simultâneo com a outra cliente que não consegue resolver o banco de dados. Pego as senhas e re-importo o banco de dados. Envio email marketing. Repasso relatório de envio com lista dos contatos com problemas para revisão. Retorno para chat com novo cliente. Ela me apresenta indicação para mais um cliente. Não sei se rio ou choro. Minha assistente do colégio me manda relatório. Coordeno fechamento de logo e cartão de outro cliente com Ozzie. Preparo CD com trabalho do MBA para entregar na GV. Descubro que não deu tempo para ir nem na academia do prédio. Tomo banho correndo e saio para a aula. Subo para o metrô a pé conversando com a Y no telefone. Ela desliga na catraca e passo a viagem tentando cadastrar meu cardápio do dia no aplicativo de dieta do meu Iphone. Chego na Estação Brigadeiro e está chovendo. Saio correndo pela calçada e quase sou atropelada por um Corsa saindo da garagem. Chego atrasada na aula e era prova. Eu tinha esquecido. Sento perto do meu grupo. São 5 questões e tenho branco completo em duas. Encho linguiça em uma, e peço uma dica soprada sobre a outra para meu colega de grupo. Entrego a prova. Reunião rápida de grupo para aprovar o trabalho que tínhamos que entregar. O resto da sala brinca que precisamos pegar leve porque nossos trabalhos estão elevando demais o nível de expectativas dos professores. Fico pimpona! Passo na secretaria e protocolo o trabalho. Saio da GV feliz que tenho mais tempo para trabalhar, passo na banca de jornais e compro a Vogue. Entro no metrô e quando estou na plataforma meu celular toca. É a produtora de uma série querendo que eu filme essa semana. Dou graças à Deus que consegui fazer as unhas hoje. Tento ler a Vogue no metrô. Desembarco na Estação Clínicas meio irritada com as pessoas fumando na minha frente. Passo no supermercado para comprar leite. Chego em casa e finalmente janto. Tiro os lençóis do varal porque estão secos. Leio o roteiro do episódio da série que devo filmar, minha personagem é mãe de um adolescente. O Briefing pede uma mulher de 48 anos. Fico deprimida. Separo roupas para levar de opção de figurino na reunião de hoje. Nenhuma calça mais me serve e as saias nem entram. Fico mais deprimida. Tenho vontade de chorar. Vou ao banheiro e passo todos os cremes anti-rugas e com ácido que eu tenho. Sento na cama e escrevo post para blog de cliente. Faço programação de conteúdo de dois dias enquanto assisto ao Jornal da Globo e fico irritada com o Jô. Entro no site da Corpore, faço inscrição para a corrida McDonalds. Olho para o “Ulisses” no criado-mudo e resolvo dormir. Dou corda no relógio, a semana mal começou.



E tem gente que ainda acha que eu não faço nada da vida.

domingo, 16 de outubro de 2011

UMA REFLEXÃO SOBRE O SENTIDO DA FRUSTRAÇÃO

No começo do ano eu vi essa belezinha no site da FAO.

Na época estava esgotada, então eu coloquei na minha lista de desejos e fiquei aguardando entrar em estoque. Essa semana recebi um email avisando que meu recente objeto de desejo estava disponível. Corri para o site, preenchi o cadastro, cliquei em "BUY". E descobri que era impossível entrar com um endereço de entrega fora dos USA. Hum. Poxa! Se a BH entrega no Brasil (embora os custos de impostos e remessa não compensem), porque não a FAO? Não satisfeita enviei um email questinoando as políticas de remessa da loja. Eis a resposta que recebi:

Dear Adriana,

Thank you for contacting FAO.com regarding our ability to ship internationally to Brazil. At the present time, we only have the ability to ship to the contiguous United States, Alaska, Hawaii, U.S.
Territories (including Puerto Rico and the U.S. Virgin Islands), and APO/FPO addresses. I understand how this may be frustrating and apologize for any trouble this may cause.

However, our flagship FAO Schwarz store located on 5th Avenue in New York City has the capability to assist you further with order placement for the bike, or additional questions on international issues. Please contact them directly at 212-644-9400 during the following days and times. When making your call, please choose the "Customer Service" option.
Sunday 10:00 AM - 7:00 PM EST
Monday - Thursday 9:30 AM - 7:00 PM EST
Friday & Saturday 9:30 AM - 8:00 PM EST
 
Thank you again for contacting FAO.com. We appreciate your interest and look forward to serving you in the future.
Sincerely,

Lori Marshall
Guest Assistance Specialist Team

O que eu posso responder para a Sra. Marshall? Que ela não faz a mínima ideia do que é frustração? Estamos falando de uma Schwinn cor-de-rosa, por Deus! Detalhe: à módica quantia de $150!!! Eu confesso que foi muito reconfortante ler as palavras "understand" e "frustrating" na mesma sentença. Embora isso não resolva em nada o fato de que não consigo resolver a logística de comprar essa bicicleta e tê-la na garagem do meu prédio em Pinheiros em um futuro próximo. Ou que na verdade eu ter ou não essa bicicleta não mudaria em nada minha vida. Frustração está sempre relacionada à expectativa. Zero expectativa, zero frustração. Simples assim. Mas a pessoa que descobrir uma maneira simples e rápida de não criar expectativas com nada, pode fundar uma seita que eu me filio. Vai virar guru na internet, e eu vou dar RT em tudo o que a pessoa tuitar! A verdade é que não acredito que possamos ser humanos sem ter ao menos o mínimo de expectativa. Enquanto tivemos a vivência da experiência humana, a dependência da mente como a temos hoje, sempre teremos expectativas. A menos que sejamos autistas. Frustração é tão somente nossa incapacidade de aceitar as coisas da maneira que elas se apresentam na realidade. Nós sempre atribuímos uma carga gigantesca de fantasias e percepções, alteradas por emoções, julgamentos e reflexões subjetivas. E quem podemos culpar por tudo isso se não a nós mesmos? Nos relacionamentos estamos tão condicionados às expectativas das pessoas que já consideramos as possíveis frustrações. Quando desmarcamos um jantar, quando ficamos presos em algum compromisso, quando deixamos de telefonar. Todas as vezes que pedimos desculpas. A frustração é considerada até em mensagens pré-formatadas de atendimento ao cliente. A mente se sente confortável de ter sua frustração considerada. É um grande afago ao ego. Por isso até começamos a agregar milhões de micro-ações em nosso dia para tentar afagar os egos e expectativas que brotam como ervas daninhas. Um dia você acorda e tudo o que sua vida se reduz é gerenciar egos inflados de expectativas. Inclusive o seu. A verdade é que a única pessoa que pode te magoar é você mesmo. Se as pessoas pisam em ovos, ou seguem protocolos de condutas por causa de expectativas e frustrações é uma opção única de cada um. Ignorar as expectativas criadas subjetivamente pelas pessoas pode não ser uma medida popular, mas com certeza será muito benéfica para todos nós como sociedade a longo prazo. Em outras palavras, vamos parar com a viadagem! As coisas são como são, as pessoas são como são. É bem melhor assumir a realidade com suas limitações do que tentar sustentar uma ilusão que prolongue e alimente a frustração iminente. Bicicletas cor-de-rosa por $150 não são vendidas para o Brasil. E não tem nada de frustrante nisso. Então, Sra. Marshall, eu agradeço seu esforço em dar Ctrl C + Ctrl V, inserir meu nome na mensagem e apertar send; mas o dia em que minha incompreensão das regras tributárias internacionais me fizerem sentir frustrada, eu tenho problemas muito maiores do que a ausência de uma bicicleta cor-de-rosa na garagem da minha casa. Mesmo sendo uma Schwinn de $150.