quarta-feira, 30 de junho de 2010

3x0

Segunda foi aniversário de S. O moço agora tem 35 anos. Fizemos um dia cheio de coisas que ele gostava, com direito à filé com fritas no jantar e várias cervejas. Pela manhã fizemos hiking em uma bela trilha de Castellane que nos levava pedra acima até uma igrejinha linda, e uma vista do Vale mais linda ainda. Depois fizemos cannyoning à tarde, e meus niveis de adrenalina foram às alturas. Eu gosto muito desses esportes radicais, turismo de aventura. Quando era mais nova (bem mais nova, aliás) tinha um grupo de amigos que costumávamos descer de rappel alguns viadutos da Rodovia dos Bandeirantes e fazer expedições por grutas e cavernas. Acho que se é para acordar às 5h da manhã, que haja uma boa dose de adrenalina envolvida. E acho inclusive que sou mais animada com a idéia de adrenalina tremendo nas veias do que S. Durante o cannyoning ele estava mais preocupado em se prender nas rochas, enquanto eu olhava as corredeiras para deslizar e gritava “UHUUUU!!! JACUZZI!!!”. Mas S é americano, de uma família de irlandeses e alemães. Tem bastante dificuldade de mostrar emoções. Isso, obviamente, já foi tema de algumas conversas. Não discussões, porque a gente não discutiu ainda. Mas conversas. S não manifesta emoção. Eu sou o extremo oposto. Quando estou feliz, dá para ver até pela unha do pé. Triste, o povo sente pela maneira como eu mando um email. Angustiada, bom, geralmente estou roendo unhas. Surtada... ok, já deu para entender. Acho que isso tem um pouco a ver com a criação. Ser brasileira, de um país que acha todas as emoções bonitas. E ser criada dentro de uma família italiana. Onde as pessoas gritam, e falam, falam, falam, e se metem um na vida do outro, e te dão uns tapas que deixam seu braço roxo nos almoços de domingo. S é mais contido. Bem mais. Não gosto de pensar nisso como um defeito, mas como uma característica. Mas é uma característica que não sei se me agrada. Por um lado dá uma sensação de estabilidade e constância. Por outro faz as coisas parecerem sempre mornas. E no quesito temperatura, eu sou mais Anaïs Nin quando ela diz “I want to burn, even if I break myself”. Verdade que eu reclamo quando me quebro, mas eu prefiro assim. Toda remendada de durepox, do que uma superfície intocada e imaculada. Afinal, porque uma garota de 30 e poucos ia resolver mochilar pela Europa por tanto tempo senão para viver emoções, e viver emoções fortes, intensas. Para viver a vida de forma superlativa. Então à noite o Brasil fez bonito naquele jogo e mandou o Chile para casa. Nós dois vibramos em um barzinho da cidadezinha-fofa-com-cara-de-cinderella e eu fiquei feliz de mostrar para S o que era que se esperava do meu time na Copa. (Porque ele achava que o jogo contra Portugal foi um bom jogo) Que no Brasil a gente não fica satisfeito com aquela coisa meia boca. Que a gente gosta de ver o suor espirrando quando o cara bate na bola, gosta de ver os jogadores se matarem na grande área. Que no Brasil a gente não desiste. Vai testando a barreira de defesa até achar uma brecha e marcar um gol maravilhoso, pulando em cima do goleiro e tudo. S (que agora é fã do Brasil e conhece mais os jogadores do que eu) ficou olhando o jogo e me dizendo “Não entendo. Os jogadores dos USA jogaram direito, mas vendo vocês jogarem, vocês parecem tão melhores, parece que a gente era um bando de amadores.” É que de vez em quando a gente bota todas as emoções em campo, S. A gente escancara e mostra tudo o que tem. Daí é lindo. Daí é intenso. É arte. 3x0, e manda os vizinhos mais cedo para casa. O problema é que os USA jogaram direitinho. Só isso. Em futebol, não adianta apenas fazer direitinho. É como eu já disse aqui, o importante é saber o que você espera para sua vida. O que você quer. Eu sou corintiana, brasileira, paulista. Gosto da emoção. De ver o jogo virar aos 45 do segundo tempo. Gosto das coisas pegando fogo. Eu tenho pensado bastante, e eu não sei se alguém que faz tudo direitinho é suficiente.

4 comentários:

Renatinha disse...

adorei este texto... tão verdadeiro... fazer direitinho é uma coisa, fazer com coração, emoção e com o peso de 170 milhões de brasileiros grudados na TV, cobrando, xingando, berrando, torcendo, são outros 500...
Assim como na vida, fazer certinho tudo, vc vai viver normal, mas, fazer da vida um test drive variado de emoções é outra coisa... é viver de verdade.
beijos
Re

Anônimo disse...

Corinthina, brasileira e paulistana!! Pô, não tiro o olho desse blog, nunca mais!!! rs... Parabéns pelo blog e pelas aventuras.

Vanessa disse...

Oi Drizinha!!! Quem sabe vc não pode ensinar um pouco do que é sentir essa emoção eclodir pelos poros da pele? Como vc mesma disse ele foi criado assim, mas não quer dizer que não possa ter um tigre dormindo dentro dele... cada coisa ao seu tempo e vcs ainda tiveram apenas pouco tempo... pense nas coisas boas que estão vivendo juntos e no que a segurança e o fazer tudo certinho dele não te fazem sentir segura... quem sabe vcs não conseguem estabelecer o equilibrio? Isso só o tempo dirá... um tempo um pouquinho mais longo... curta!! ;) Bjnhos

MH disse...

Diferenças culturais. São muitas, e nem sempre é fácil lidar com elas. Mas fazer direitinho e não demonstrar as emoções tão escancaradamente não significa não sentir. Prometo.

beijo