quinta-feira, 10 de junho de 2010

TUDO, POR ENQUANTO...

Hoje eu peguei o metrô de Roma pela última vez. Ficava repetindo isso na minha cabeça o tempo todo. “Última vez, última vez dessa jornada”. Não que o metrô de Roma seja uma coisa incrível que a gente queira guardar na memória para sempre. Muito pelo contrário. As duas linhas que atendem Roma são bem precárias e anos luz distantes dos metrôs das principais capitais do mundo. São Paulo inclusa. A linha azul é mais antiga. Atende o Coliseu, o Circo Máximo. E é minha escolha para chegar ao charmoso Monti. A linha vermelha, que é laranja na verdade, é melhorzinha. Tem trens mais novos, mais limpos, e atende Piazza Spagna, Barberini (Fontana di Trevi), Piazza del Popolo e Vaticano. Ambas linhas são um saco no final da tarde. Sério. Carnaval na Bahia. Vontade de cortar os pulsos. Um bando de gente se empurrando, e turistas cutucando as lentes de suas máquinas fotográficas nas suas costas. Nada charmoso. Sabe a Estação da Sé às 18h? Igualzinho. O transporte público romano é tão deficiente que está sempre lotado. Acaba com o glamour. Lógico que encontrar pencas de brasileiros pelos vagões é de praxe. Muito fácil identificar brasileiros. Eles sempre falam muito alto. Muito mesmo. E fazem comentários sobre as pessoas à volta em português, porque têm certeza de que ninguém pode entedê-los. E eles estão sempre tentando tirar fotos dos lugares que são proibidos (como a Capela Sistina, por exemplo). Sempre tem um, com cara de espertinho, apontando a camera para o teto e fazendo cara de malandro para o amigo. Dá uma vergonha que nem te falo. Olho bem para a cara deles, para ver se eles se desintegram com a força do meu pensamento. Não funcionou até agora, uma pena. Ok, então eu peguei o metrô pela última vez hoje para jantar com o Evandro (meu amigo padre que mora aqui há 12 anos) perto da Piazza del Popolo. E eu estava pensando como aquela talvez fosse a última vez que eu descesse aqueles degraus por um bom tempo. Vou voltar à Roma, é certo. Mas nunca se sabe onde a vida vai nos levar até lá. E eu estou toda irritada, porque estou atrasada para variar. E os turistas ficam olhando embasbacados, perdidos nas placas da estação de Termini, e eu meio que dou cotoveladas pela multidão e chego até as maquininhas de comprar tickets. Em dois segundos compro meu ticket para pegar o metrô, enfio a moeda, pego o bilhete impresso, desapareço pela catraca, e... E me lembro surpreendida dos meus primeiros dias em Roma. Quando fiquei cerca de 15 minutos tentando imprimir um bilhete desses de metrô na máquina. E não fazia idéia de onde enfiar a moeda. Me dava vontade de chorar, estava mais frio, bem mais frio do que agora, e eu ficava olhando a minha volta para ver se uma viva alma me ajudava a conseguir comprar o maldito bilhete de metrô. Cidade nova, mapa de transporte público novo, e eu sem saber onde me enfiar em tudo isso. E depois perdida nas direções das duas míseras linhas de metrô de Roma. Foi um tempo até eu me apropriar disso tudo. Um bom tempo até conseguir comprar um bilhete em dois segundos. Um outro tempo para conseguir expressar minha indignação por uma espera demorada em uma loja de telefonia na Via del Corso. Tudo em Italiano Tarzan lindo! Acho que isso era tudo o que eu procurava por aqui. Não é o bastante. Não é suficiente. Mas é tudo por enquanto. Então melhor arrumar a mochila e procurar o próximo. Amanhã assisto minha última aula na Dilit. Fiquei um pouco insatisfeita com o método da escola. Irritada toda vez que tinha de cavar (juro que até suava para conseguir alguma interação!!!) uma conversação com alguma russa esquisita de sombras azuis até a testa, mas vou para minha última aula de italiano amanhã também completa. Fiz muitos amigos. Alguns de alma. Alguns para sempre. E depois me jogar em um trem até Verona. S. me escreveu hoje. Está passando pelo inferno astral, o coitado. Faz aniversário dia 28. Preso em Sardenha, sem um tostão no bolso, sem cartões de crédito funcionando. Engraçado que ele é o que gosta de ter tudo planejado. Eu tava surtando essa semana por ter meus planos mudados, mas é assim. Toda vez que se planeja muito, a vida dá uma rasteira e te deixa de castigo. Melhor rir. É o que eu acho. Ele tem alguma dificuldade para rir ainda. E vão aparecendo as diferenças.... De qualquer forma, terça nos encontramos em Veneza, se ele conseguir sair do enrosco onde se meteu. Pode ser que ele chegue depois. Estou incrivelmente calma com tudo. Acho que fiquei tão nervosa nos últimos dias que acabou o estoque. Não sobrou nada. Estou calma. Levando um dia de cada vez. O importante é ter perspectiva. Saber o que se quer para si mesma. O que os outros são ou fazem, não está em nosso poder. É mesmo responsabilidade de cada um. Eu vou cuidar da minha. Vamos ver até quando dura. Pode ser que em menos de 48h eu esteja surtando denovo....

Um comentário:

Vanessa disse...

E que venham os surtos, as alegrias e, por fim, a calmaria... para depois reiniciar todo o ciclo e fazer com que a vida seja cheia de emoções fortes!! E assim como os italianos, que melhor sabem expressar essas emoções, pois tem um jeito todo único de ser...parece a cozinha da minha vó quando chega toda a família e se amontoa por lá, falando todo mundo ao mesmo tempo, sacudindo os braços (pq as mãos não são suficientes), beliscando um pão ou um queijo, mas é incrível como transborda amor e todos parecem se entender perfeitamente, mesmo quando estão brigando, pq depois se abraçam e choram... rs... A vida não fica tão mais emocionante com toda essa agitação e montanha russa de sentimentos?? Acho que vc gostou tanto de Roma por te recordar tanto "casa"... ;)
Um grande beijo!!!