quinta-feira, 13 de maio de 2010

PARA LÁ DE MARRAKECH


Chegar em Marrakech é como abrir a porta de uma sauna a vapor. Não tanto pelo calor, mas por aquele bafo que te toma a cara e não te deixa enxergar um palmo na frente. Depois de um tempo você se acostuma e descobre que está em um lugar onde o cheiro, as cores, a textura e, principalmente, a respiração são diferentes. O transfer que eu havia bookado para me pegar no aeroporto e me levar para o hostel não estava lá, claro! Então eu passei em um câmbio para trocar meus míseros Euros por Dirhams e sai pela porta do aeroporto para pegar um táxi. Uns 15 motoristas de táxi me rodearam e começaram a fazer leilão pelo preço da corrida. Os táxis aqui não possuem taxímetro, então é bom negociar tudo antes de sentar no banco de trás. Os taxistas estavam tão empolgados brigando para ver quem ia fazer a corrida que nem perceberam quando eu segui um grupo de mochileiros até o ônibus e resolvi ir até a Medina por conta própria (gosto de imaginar que eles estão até agora lá, brigando entre si.). No ônibus comecei a puxar conversa com um inglês que estava carregando equipamento de windsurf e grudei nele quando chegamos à Dejemaa el-Fna, a praça central famosa pelas barracas de comida a céu aberto, encantadores de serpente e todo tipo de show de bizarrices do nosso imaginário ocidental. A Dejemaa el-Fna é uma babel. Embora os guias especializados escrevam que ela é fechada para o trânsito, alguém esqueceu de avisar os marroquinos disso porque sobreviver sem ser atropelado é quase como participar daqueles programas de gincana japoneses. Motos, mobiletes, vespas, scooters, bicicletas, carros, carroças, cavalos, burros. Tudo e todos vindo de todas as direções sem nenhuma organização aparente. E ninguém conhece freio também. Só buzinam e aceleram bem na sua direção. Na praça já fomos atacados por uns tipos se oferecendo para nos guiar até os hostels. Antes que eu me desse conta tinha me perdido do inglês e estava carregando minha mochilona por umas ruelinhas estreitas no meio dos souks atrás de um tipo bem sinistro que usava uma camisa do Real Madrid numero 9, do Ronaldo. Chegamos ao hotel que eu havia agendado, ele me extorquiu alguns dirhams, reclamou e foi embora. O hotel que estou é uma riad. Tipo de pousada simples, geralmente administrada por famílias e que são estabelecidas em antigas casas marroquinas. Possui uma arquitetura quadrada com alguns andares de quartos rodeando uma pracinha central, onde fica o salão de chá. Já na recepção encontrei com uma argentina que estava no meu voo de Sevilla. Agendamos juntas uma excursão para o deserto, eu subi para o meu quarto abafado e finalmente respirei. Pelo menos é um quarto e um banheiro só para mim (o que tem sido um luxo, quando não estou hospedada na casa de amigos!) pela bagatela de Dh120 a noite (algo menos do que €11 pela noite). Nas minhas primeiras andanças por Marrakech eu ainda estava um pouco apreensiva. Havia lido e conversado com várias pessoas sobre segurança, as questões de diferença cultural, e o que acarretava uma mulher viajar sozinha por um país mulçumano. E, adivinhe só!? Marrakech é muito mais tranquila do que todas as previsões. Claro que existe um assédio, e isso é o tempo todo e chega a ser insuportável. Tento prestar atenção em coisas que são muito comuns e habituais para nós brasileiros, como sorrir (principalmente quando dizemos “Não, Obrigada”) e fazer contato visual. Tenho essa coisa de olhar direto nos olhos, é instintivo até. Mas aqui quando você faz isso parece que os homens vão pular em cima de você (só parece, viu! Eles não pulam!) No geral me sinto em um desenho do Pica-Pau. Sabe aquele desenho em que o Pica-Pau está faminto, em uma cabana, morrendo de fome mesmo, e ele e o gato ficam olhando um para o outro e se imaginando uma grande e suculenta perna de presunto cozido? Pois bem! Andando pelas souks eu me sentia uma grande perna de presunto cozido ambulante. Quando você pergunta o preço de alguma coisa então, eles sempre te perguntam antes que língua você fala e de onde vem. Quando digo que sou do Brasil, automaticamente passo de perna de presunto para a Valéria Valença nua, com o corpo cheio de purpurina. No começo foi um pouco assutador. Mas depois, olhando com olhos mais tolerantes e generosos, comecei a perceber que eram como vários peões de obra. Sabe? Quando a gente passa em frente de uma obra e ouve aquele monte de observações desconcertantes dos peões? É a mesma coisa. Só que aqui você passeia no meio da obra. Virou uma coisa até turística. Eles gritam coisas como “Mil camelos, Um milhão de camelos.”, porque sabem que as ocidentais gostam de voltar para casa e dizerem que ofereceram camelos por elas no meio de Marrakech. Tomando os cuidados básicos (o mesmo que você toma quando vai comprar porcaria na 25 de Março), são totalmente inofensivos. Já o assédio comercial é um pouco mais agressivo. Todo mundo está o tempo todo te vendendo alguma coisa. Panos, roupas, comida, bugigangas, prataria (lindas aliás!), machetaria, temperos, luminárias, artigos de couro, iguanas, camaleões, tartarugas, macacos (te juro! Fico pensando quem é que compra um camaleão e manda despachar para casa!!!). Tudo! E dá vontade de comprar tudo. O tempo todo. Porque é lindo, e exótico, e tão hipnotizador. Então você pergunta o preço e se prepara para uma grande sessão de barganha. Minha técnica (depois de ter sido “roubada” algumas vezes) é, perguntar o preço, falar que está muito caro e ficar esperando a resposta deles. Eles sempre hiper-inflacionam a primeira oferta e jogam a bola de volta, perguntando quanto eu quero pagar. Daí eu falo um valor ultrajante do tipo: se algo custa Dh120, jogo para Dh10. Eles me olham incrédulos, eu viro as costas e saio andando, como se aquilo não fosse fazer diferença nenhuma na minha vida (e não vai mesmo). Quando você faz isso eles começam a gritar e te chamar de volta: “Madame, Madame, Dh100, Dh100. Dh80, Dh80”. Ok! Começamos a conversar. Daí eu volto, e digo que Dh80 ainda é muito caro. Ofereço Dh20. Eles batem em Dh80. Eu subo para Dh30. Eles baixam para Dh70, Dh60. Eu fico balançando a cabeça e falando “No, No, No. N´est pas d´argent!”. E depois de uma partida de quase 15 minutos, você já está até suando devido ao esforço físico, eu tiro da carteira duas notas de Dh20 e fecho em Dh40. Mesmo assim você sempre sai com a sensação de que foi roubada. Pode ter certeza! Você foi! Outra coisa curiosa foi descobrir como Marrocos é na verdade um grande destino turístico para famílias. Várias famílias com crianças, bebês. Muitas mulheres viajando sozinhas. Quando meus olhos começaram a se acostumar com o vapor, Marrakech se tornou uma cidade simpática e totalmente inofensiva. As pessoas sempre se preocupam em falar em uma língua que você entenda, sempre perguntam quanto tempo vai ficar em Marrocos, o que está achando. Gostam de falar alguma referência do país que você veio (conheci um australiano que disse que não aguentava mais ouvir os marroquinos gritarem “Kanguru!!!” toda vez que ele dizia de onde vinha). Então eles sorriem e dizem “Seja bem-vindo!”, na língua que for mais acessível à você. É bem enternecedor. Nas souks, onde centenas de pequenos lojistas se apinham um ao lado do outro disputando sua atenção à fórceps, comecei a enxergar pais de família, cidadãos de respeito que só estão tentando ganhar a vida. Uma jornada árdua, já que só fecham perto a meia noite, quando os turistas cansados se retiram para as várias riads escondidas ao redor da Medina. Cruzando os muros da cidade, ainda descobri uma Marrakech toda próspera. Marrakech de poucos. Grandes resorts, luxuosos condomínios. Ferraris e porshes pelas ruas. Mulheres andando sem o véu na cabeça, casas noturnas, anúncio de Coca-Cola e todo tipo de franquia multinacional (Sim! Tem McDonalds, KFC…). Nem todo país de Terceiro Mundo é a Praça da Sé. Nem todo país de Terceiro Mundo é a Vila Olímpia. Mas sempre será, inegavelmente, um país de Terceiro Mundo. E nesse sentido, estou mais perto de casa do que imaginava. Atravessei um espelho. É inverso. Mas é espelho.

2 comentários:

Vanessa disse...

Oi Dri! Esqueci de comentar sobre os "furos" com transfers... aconteceu comigo em Casablanca, mas o detalhe é q tínhamos horário para ir para o aeroporto!!! rsrs
Qto a país de terceiro mundo concordo, mas é um terceiro mundo muito mais próximo do Nordeste. Falta coisas básicas como esgoto e tratamento de água... aliás só beba água com gás!! Eu não comia carne tb... a higiene em Marrocos é uma das piores que já vi e eu sou MEGA nojenta e morro de medo de passar mal num país desse... fico imaginando como são os hospitais... ai q medo!!
Mas é exótico, mágico e lindo! Só faltou o tapete voador!!! kkk
Bjnhos

Gastón disse...

Dri,

tô me preparando pra ir ao Marrocos no fim do ano. Vou precisar da sua ajuda e vou te encher de perguntas, posso? Sensacionais seus textos. Rindo muito aqui da Valeria Valença cheia de purpurina. Manda um email pra mim em leogetz@gmail.com só pra eu poder ter seu contato? beijo

Leo