terça-feira, 18 de maio de 2010

UMA PORÇÃO DE FÉ

Quando uma pessoa resolve fazer uma longa viagem. Quando alguém resolve fazer uma jornada, mais ou menos, como eu estou fazendo. Essa pessoa não está em busca de férias. Tem dias que são incríveis, que a gente toma champagne, vê paisagens absurdas. Tem dias de fazer babar de inveja até aqueles que pagam para não sair de casa. Tem outros que simplesmente não fazem sentido. Não dá para acreditar que uma pessoa em sã consciência escolha deliberadamente passar por dias assim. E por isso não é férias. Porque existem esses dias em que dá vontade de chorar e chamar minha mãe. Eu sabia desses dias. Me preparei para eles, porque eu sabia que eles viriam. Quando alguém resolve fazer uma viagem assim, esse alguém precisa estar disposto a sair da zona de conforto, a colocar em risco as fronteiras de normalidade a qual está acostumado. Por isso que eu digo que não sou turista, sou viajante. Porque minha zona de conforto é colocada muito mais em risco, muitas mais vezes e por muito mais tempo. (Afinal, se eu quisesse permanecer na zona de conforto tinha contratado a CVC.) Então eu peguei um trem de Marrakech para Fès. Eu estava em dúvida entre Meknès e Fès. Mas se eu estou indo para Roma porque a palavra é AMOR ao contrário, resolvi ir para Fès, pela óbvia proximidade da palavra FÉ. E porque se formos pensar assim, é como uma porção de Fé, já que está no plural. Sete horas dentro de um trem, (onde descobri que minha licença temporária para o pacote office expirou e vou ter mesmo que dar um certo tanto do meu pobre dinheirinho para o nada pobre Bill Gates). Eu dormi a maior parte do tempo. Estava dormindo quando o trem chegou à Fès, e se não fosse pela bondade de dois nigerianos que estavam ao meu lado e me acordaram, sabe-se lá onde eu teria parado. A chegada na Gare de Fès então foi meio na loucura, meio acordando, meio carregando a mochila com a jaqueta quase arrastando no chão. Meio correndo junto com a multidão na plataforma. E bem certa de ter esquecido alguma coisa na cabine do trem. Nada importante como pude checar depois. Então uma loucura pegar um taxi. Pegar um taxi em Fès (em qualquer lugar e à qualquer hora) é como liquidação no setor do 37 da Shoestock. Nem preciso dizer mais nada! E depois de uns 20 minutos, sobrou um Uno caindo aos pedaços que fechou um preço (tenho certeza que fui roubada) que eu achei conveniente e entrei para ir até o hotel que eu tinha reservado. Então um outro homem entra junto no banco do acompanhante. E eu não entendo porque, e começo a discutir. O motorista tenta me explicar que ele está dando uma carona para o amigo dele, mas eu estou fragilizada e não gosto da idéia de ter dois homens em um taxi comigo. Depois de um blábláblá no meu Francês Tarzan (Me Tarzan, You Jane!), percebo que o cara que está indo junto tinha uma pinta de evangélico e que o motorista só estava tentando ganhar uma grana a mais com a viagem. Chegando no hotel que eu havia reservado, desço com a minha mochilona, mas não gosto nada do que vejo. O lugar fica em uma rua completamente deserta, meio afastado de tudo. Fora da medina (tudo bem que a loucura da medina é complicada, mas dá uma certa sensação de segurança ter um monte de gente pra tudo quanto é lado). Fiquei me imaginando voltando para o hotel sozinha naquela rua e não gostei nada do que senti. Como aprendi que a intuição é muito valiosa nessas situações e não vou arriscar minha segurança, virei as costas e resolvi procurar outro lugar para ficar enquanto ainda estava claro. Fui descendo pela rua, beirando a muralha da medina, procurando a entrada, quando dois meninos começam a puxar conversa. Deviam ter entre 6-8 anos. Começam a conversar e a sorrir e se oferecem para serem meus guias até uma riad. Ok, nada mal. Vou seguindo os garotos, paramos em duas riads. Uma não tinha vagas, a outra era muuuuito cara para o meu orçamento. E os garotos vão me levando pelas ruas da medina, e eu vou mostrando no mapa do Lonely Planet onde era a riad que eu estava procurando, que era central (e caso não tivesse vaga, era próxima de outras opções), mas às vezes eles pareciam tão perdidos quanto eu. Passamos por um grupo de moleques jogando bola, e como uma mochilona de 15Kg em uma branquela que não tem cara de marroquina não é algo que se passe sem notar, alguns dos moleques que estavam jogando bola começam a me rodear e se oferecer para me guiar. Esses eram mais velhos, tinham uns 14-15 anos. Então eu começo a ficar preocupada, porque eu tenho uma meia dúzia de moleques falando e me apontando direções e tentando me levar para sei lá que lado, e as ruelinhas são todas estreitas e sinistras e desertas, e cada um deles me diz que o lugar que eu procuro fica para uma direção oposta. Então eu resolvo andar. Andar sem dar muito ouvido para eles. E sem fazer contato visual. E quando eu cruzava com alguma mulher, eu parava e perguntava para ela o caminho. Os moleques iam me seguindo e falando, falando, falando. Daí juntam-se ao grupo uns marmanjões. De verdade. Uns caras grandões e mal-encarados. Que também ficam me seguindo e perguntando se eu preciso de guia, ou para onde eu quero ir. Eu só penso: "Ok! Vai ser agora! Vai ser agora que eu vou ser assaltada!". Eu continuo andando, sem olhar para nenhum deles. Sem seguir nenhuma das instruções deles. Perguntando para uma ou outra mulher que cruzo no caminho e procurando as ruas mais movimentadas da medina. Um dos marmanjos começa a me falar um monte de coisas em francês, que eu ignoro. Então ele diz "Eu sei que você me entende. Eu sei que você entende muito bem francês.", e eu continuo ignorando completamente. Tem uns 10 moleques atrás de mim. Todos eles dizem que conhecem uma riad, ou um hotel barato, e que eu tenho que segui-lo. Até que eu começo a ver mais lojas e mais movimento na rua. Começo a chegar na parte mais central da Medina e ficar mais aliviada. Vejo placas indicando a riad que eu procurava e passo a segui-las, enquanto os garotos pulam na minha frente. O marmanjão que estava me falando besteiras em francês começa a falar meio baixo atrás de mim "Bitch! Bitch!", e eu chego na porta da Riad quase implorando ajuda ao dono que estava na porta. Ele afasta os moleques atrás de mim e me diz que está lotado, mas pergunta qual era o meu orçamento. Então me leva para o vizinho dele, que também tem uma Riad, mas mais reservada, sem placa na porta nem nada. Eu sigo aquele senhor por um beco, ele toca a campainha, abrem uma porta gasta de madeira e eu entro. Só sinto a porta se fechando atrás de mim e o silêncio das vozes daqueles moleques insuportáveis. O dono da Riad é um homem robusto, barbudo e com muita bondade nos olhos. Sabe aqueles homens que exalam dignidade? Eu confiei nele imediatamente. Me mostrou o quarto. Um luxo! Com ar condicionado, cama de casal, TV, chuveiro quente e muito espaço. Eu joguei minha mochila no sofá e tive vontade de chorar. Ainda precisei de um tempo para recuperar o fôlego e depois, como gato assutado, sai pela medina para retirar dinheiro, comprar algo para comer e mandar alguns email. Não estava gostando. Não estava gostando nem um pouco. Jantei dois potes de Danette e o proprietário da Riad mandou me servirem um chá de hortelã. Eu agradeci. Muito.


No dia seguinte fiz o que toda pessoa deve fazer em Fès. Me perdi na Medina. É impossível não se perder. Andava, dava voltas, descobria, me redescobria. E comecei a entender que essa completa falta de segurança, completa falta de ordem, de lógica e de direção é exatamente o que é Fès. E quanto mais se resiste, pior. É como dar murros em ponta de faca. Fès é completamente diferente de Marrakech. Faz a outra cidade até parecer um parque temático. Fès é crua, de verdade. Não tem figurino, nem decoração. Repleta de cheiros, que te enlouquecem depois de um tempo. Animais, sons. Pessoas pelo chão. Zero de higiene. Quanto mais eu me perdia, mais perdida eu descobria que eu estava. Completa, irremediavelmente perdida. Vai ser muito difícil voltar daqui. Como é que se volta daqui? Alguém me explica? Um homem (com certeza um doente mental) passa por mim em uma rua e me puxa pela cabeça. Eu o empurro e falo "Ne touchê pas!", na mesma hora cerca de seis outros homens saem na rua para me proteger. Lojistas, pessoas que estavam no bar. Me perguntam o que houve e cercam o homem, o empurram na parede. Eu digo que ele havia tocado em mim, e todos me pedem desculpas pelo homem e abrem passagem para eu passar. "Já pode passar, senhorita. Pode ficar tranquila." Eu fui assaltada em São Paulo. No meio da Avenida do Estado às 18h. Havia um ponto de ônibus com umas 60 pessoas do lado. A bateria do meu carro arriou e dois garotos me abordaram e me espancaram. Nenhuma das 60 pessoas do ponto de ônibus moveram um mùsculo para me ajudar. Ficaram todas assistindo. Não veio uma única alma me ajudar. No final de semana fiquei doente. Cheguei na Riad e comecei a sentir meu corpo estranho. Passei a noite com diarréia e vomitando. Uma febre fraca também. Tomei um tylenol, esperei amanhecer e comprei frutas e coca-cola. Passei o dia comendo bananas, tomando coca-cola e atualizando o meu diário. Escrevi. Escrevi muito. Meditei. Fiquei trancada comigo mesma no quarto. Revi meus passos. Pensei. Deixei de pensar. Meditei. O dono da Riad vinha de tempos em tempos saber se eu havia melhorado, se eu precisava de alguma coisa. Me mandou sequilhos mornos e caseiros para eu comer. Eu expurguei. Fisicamente, tudo o que estou expurgando espiritualmente. Não fiquei com medo. Não fiquei preocupada. Eu não me sentia doente. Era como se meu corpo estivesse se manifetando, se purificando. Assim que tudo se foi. Assim que eu havia vomitado tudo. Zerei. Saúde de ferro. Não é algo que tenha lógica, eu sei. Dizem que no ritual do Santo Daime vomita-se muito. Nunca participei, não sei como é. Acho que vomitei meu ego. Foi-se na descarga de uma Riad. Hoje, indo embora, me arrastava com minha mochila. Não queria ir. Não queria deixar. Como se volta? Não sei dizer o que se passou. Eu sei que foi difícil sair de Fès, difícil deixar o que ficou de mim ali. Só consegui ir embora porque sei que estou carregando algo também. Não sei o que é (talvez seja fé !?), mas também não tenho como enxergar o que está na minha bagagem agora.

Um comentário:

Vanessa disse...

Lindona, fiquei super preocupada!!! VC esta bem mesmo?? A cada palavra sua fui sentindo tb tudo que vc sentiu... tb tive alguns sentimentos similares aos seus em proporções infinitamente menores que já me deixaram extremamente amedrontada qdo me perdi numa medina de Casablanca muito roots (bem diferente de Marrakesh)... mas como vc mesma disse dessas experiências levamos algo que não sabemos dizer o que é ao certo e só o tempo nos mostrará. Cuide-se viu!! Um super beijo!